A Nova Era – semana #83: ema ema ema

Bolsonaro ainda fazendo merda enquanto não cuida das suas doenças, as batalhas do Centrão, as rusgas da Lava Jato com a PGR e Rodrigo Maia se mostrando o maior aliado do Greenpeace. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #83 da Nova Era.

E não esquece de compartilhar o post com o papai, a mamãe e a titia..


The following takes place between jul-28 and aug-03


O Centrão está virando centrinho

Arthur Lira perdeu força. O bloco que o deputado do PP coordena perdeu o apoio do DEM e do MDB. Lira é um dos postulantes ao cargo hoje ocupado por Rodrigo Maia e agora deixou de ter 63 pessoas ao seu lado.

Junto com o PSDB, DEM e MDB se articulam para promover um nome centrista para caralho à presidência da Casa. Maia gosta da iniciativa. Bolsonaro (e Lira), nem tanto. E olha que o bloco organizado pelo PSL ainda é teoria.

Por algum tempo houve quem disse que Maia estava perdendo força. Na melhor das hipóteses, o primeiro ministro entendeu que não será possível manter-se a frente da Câmara em 2021. Mas isso não o impede de deixar a oposição feliz e tentar esquentar a sua cadeira para um nome que desagrade Bolsonaro.

O sucesso de Maia é importante para o Brasil e para o presidente. Para o Brasil, pois garante que não teremos um lacaio do Planalto na presidência da Câmara blindando Jair Bolsonaro do seu acerto de contas pós-pandemia. Para o presidente, pois é o lugar em que pode nascer uma força eleitoral capaz de impedir a sua reeleição se ele chegar vivo em 2022.

Eu sou obrigado a ter empatia?

O ministro Edson Fachin será o responsável por avaliar o uso de dinheiro público do governo para defender filho da puta. Há quem está do lado do presidente. Mas nada impede a Suprema Corte de deixar o sentimento de autoproteção falar mais alto.

Assim como na última semana, o blog segue entendendo quem critica todos os problemas do inquérito das fake news. Mas fica muito complicado ter empatia com quem espalha que Felipe Neto é pedófilo por aí. Especialmente quando Alexandre de Moraes manda bloquear a contas dessas pessoas em todo o planeta.

Toca pro pai

O grande empresariado cansou de esperar uma atitude do governo em relação a Ricardo Salles, ex-filiado do partido Novo e atual ministro do Meio Ambiente. Nos últimos dias, líderes da área resolveram conversar com o presidente da Câmara para tentar manter algum dinheiro do exterior dentro do país. O grupo envolve gente que está à frente de grandes bancos, empresas de alimentos e metalurgia.

O objetivo dessa vez não é, necessariamente, derrubar o ministro (mas se quiser, o blog apoia). A ideia é garantir que a retomada econômica seja um pouco mais sustentável. Vai sobrar linha de crédito para empresário em 2021. Não custa nada colocar uma regra de sustentabilidade ali no meio.

Em notas relacionadas, o governo Bolsonaro passou a boiada: desde o começo da pandemia, 195 atos relacionados a políticas ambientais foram publicados.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Normal isso

Há algumas semanas o governo foi pego montando dossiê escondido sobre funcionários públicos que se declaram antifascistas na internet. Quando questionado, o ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, disse que não havia nada de errado no tema. Depois, falou que não admite “perseguição a grupo de qualquer natureza“.

O Ministério Público Federal abriu o olho e resolveu fazer algo mais forte do que a baixa reação da opinião pública diante do caso. O órgão pediu informações ao governo sobre o monitoramento de opositores. No Congresso, parlamentares já articulam-se para convocar André Mendonça para explicar essa história.

Em um país minimamente sério, isso já teria dado um escândalo muito maior. Como isso é o Brasil, o blog recomenda o uso da ProtonVPN por aí e uma passada de olho nas configurações de privacidade da rede social favorita. É grátis.

Foda passar por isso

Há algumas semanas a “Lava Jato eleitoral” (mais um desses ramos da Lava Jato que ninguém sabe de onde veio e para onde vai) achou que tinha liberdade para entrar em gabinete de senador buscando informação sobre possível lavagem de dinheiro. Dias Toffoli parou a brincadeira. Mesmo assim, o tucano José Serra virou réu na Justiça Federal (na Justiça Eleitoral a investigação está suspensa).

Mas esse não foi o único problema que a Lava Jato encontrou ao longo da semana. Aliás, não foi sequer a maior dificuldade dos procuradores. O inimigo dessa vez era outro: o Procurador Geral da República, Augusto Aras.

Aras quer “corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure“. O PGR deseja colocar luz nas ações da força tarefa e dar mais transparência aos 400+ terabytes de dados de 38 mil pessoas. Está errado? Não muito.

O Ministério Público tem muita autonomia, mas ainda precisa ser verificado vez ou outra para não cometer abusos. Não vamos entrar nos detalhes jurídicos da legalidade do ctrl+c ctrl+v feito pela Procuradoria em Curitiba nos últimos dias (ou quem será beneficiado com isso), mas quem poderia imaginar que a escolha muito difícil teria um gosto tão amargo para a Lava Jato, não é mesmo?

Era melhor não ter soltado aquela delação do Palocci em 2018. Moro ainda teria algum prestígio e Dallagnol estaria sem uma corda no seu pescoço. Ou duas. Ou três.

Ser procurador da Lava Jato hoje em dia é algo muito complicado. Em um dia você perde espaço no governo, no outro os apoiadores do presidente gritam que é para acabar com a Lava Jato e antes de chegar no final de semana estão tirando das suas mãos o poder de fazer acordos de leniência. Mas pelo menos a aposentadoria e os penduricalhos seguem maravilhosos, não é mesmo?


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

A Nova Era – semana #62-63: burrice e progresso

A últimas duas semanas foram agitadas. A COVID-19 finalmente passou pela fiscalização em Curitiba, o governo continuou brincando de ser uma contradição ambulante e a economia está encolhendo mais rápido do que carro de Formula 1.

Lave as mãos e veja tudo isso e muito mais no resumo abaixo (e não se esqueça de compartilhar o link para este post com os amigos, se gostar, e com os inimigos, se não gostar).


The following takes place between mar-03 and mar-16


Blackadder brasileiro

Uma das várias notícias negativas dos últimos dias foi o resultado do PIB de 2019. Ele foi pior do que o de 2018, mas não tão ruim quanto o de 2020 promete ser.

Para comentar o cenário desastroso, o presidente resolveu chamar um humorista capaz de tripudiar jornalistas de uma maneira mais vergonhosa do que tradicional. Já o ministro da economia e vendedor de terreno na lua, Paulo Guedes, resolveu tripudiar com a cara da nação.

Guedes continuou brincando com a expectativa alheia e mostrando que é mais otimista do que a filosofia de Leibniz. O ministro agora aposta em um crescimento acima de 2% para 2020.

Até dá a impressão de que o Executivo está negociando a aprovação das reformas estruturais que ele não enviou e que o presidente não está atacando os poderes hora sim, hora também. O FMI, por outro lado, foi mais realista e já afirmou que o nosso crescimento seguirá medíocre.

Vale a nota: o ministro da economia tem mais ou menos “PT semanas” para “mudar o Brasil”. O prazo de 13 domingos foi dado pelo próprio presidente como uma forma de garantir que Guedes mostre serviço e não perca os seus privilégios ministeriais.

Mas podemos ficar tranquilos, já que o economista tem um plano tão astuto que você pode colocar um rabo nele e chamá-lo de doninha: aprovar as reformas administrativa (que ficou para a semana que vem) e a tributária (que ficou para algum dia aí) até julho.

Não dá para dizer que é divertido ver isso tudo. No começo do governo, Guedes e Bolsonaro acusavam o Congresso de não deixar o Executivo trabalhar. O Planalto chamava os pedidos de articulação vindos do Congresso de jogo sujo e dizia que o Legislativo não ajudava a passar as propostas que os parlamentares aprovaram independentemente do lobby feito pelo presidente a favor da sua desidratação.

Agora, o governo retoma a narrativa (com apoio da sua base política e social) de que o Congresso não quer aprovar as suas reformas mesmo não tendo enviado nada para os senadores e deputados debaterem. Guedes e Bolsonaro estão agindo como aquele cara que não faz a mulher gozar e diz que o problema está nela e não no fato de ele transar como uma britadeira.

O problema do Brasil não é apenas a pandemia causada pelo novo vírus corona. O risco-país está crescendo não mais pelo cenário externo, mas também pelas atitudes do Planalto (algo que também impacta no câmbio). É fácil entender por qual motivo Mansueto Almeida tem dormido mal em uma hora dessas: não deve ser fácil fazer parte de um governo de lunáticos completamente descolados da realidade social.

Coisas que podem dizer muito, mas podem não dizer nada

Dia desses o governo brasileiro anunciou que todas as pessoas que fossem ligadas a Nicolás Maduro deveriam sair do Brasil. No mesmo dia, mandou todos os funcionários públicos brasileiros saírem da Venezuela.

Tais medidas foram tomadas enquanto o presidente estava em viagem aos EUA, brincando de pegar Covid-19 com Donald Trump. Em um comunicado conjunto, ambos anunciaram que apoiariam a “democracia na região” americana. Também assinaram um acordo nas áreas de “pesquisa, desenvolvimento, testes e avaliações” de tecnologia militar.

Pode ser apenas mais uma lambidinha do presidente na glande em formato de cogumelo atômico de Donald Trump. Mas quem se interessa pela Venezuela deveria ficar um pouco mais atento.

Limpando a bota alheia com a glote

Falando em gente que gosta de lamber o saco alheio, Sergio Moro montou em seu tanquinho virtual e foi tentar se responsabilizar pelo sucesso do trabalho que ele não fez. Mas não sem antes tentar bater na esquerda, claro. Tem sempre que tentar bater na esquerda.

Após Ciro Gomes atribuir o fim do motim de PMs no Ceará à ação do governador Camilo Santana e ao seu irmão (e piloto de trator) Cid Gomes, Sergio Moro ficou putinho. O ministro da Justiça afirmou que os louros na verdade deveriam enfeitar os cornos do governo federal. Aquele que outro dia estava colocando nas costas do governador cearense a responsabilidade de garantir o fim do motim.

Enquanto isso, o diretor da Força Nacional chamou os policiais criminosos de “gigantes” e “corajosos” na assembleia que definiu o fim da greve ilegal. Em notas relacionadas, Aginaldo de Oliveira, além de ser alguém que acha interessante validar ação criminosa, também é casado com uma deputada bolsonarista e é subordinado do ministro da Justiça e de um ex-candidato ao governo do Ceará.

E o que o seu chefe fez diante disso tudo? Bem, Sergio Moro preferiu não demitir o ministro que apoiou atitude criminosa. E disse que os criminosos, que cometeram crimes em cadeia nacional, não deveriam ser tratados como criminosos.

É mole? Não é mole não.

Males que foram para o bem

Que o presidente Jair Bolsonaro passou a penúltima semana atacando a imprensa, não é novidade. Essa atividade ele faz com frequência maior do que a que o seu antigo enfermeiro limpava a sua bolsa de popoti. O que é engraçado, porém, é que a atitude hostil do presidente salvaria jornalistas.

Após colocar um humorista para dar bananas aos repórteres, Bolsonaro questionou o que levava os profissionais a fazerem o seu trabalho. No mesmo dia, em uma de suas lives, disse que não falaria mais com os jornais brasileiros. O crime? Publicarem o que o presidente falou.

Inspirado nas relações de Donald Trump com a CNN, Bolsonaro resolveu proibir a Folha de S. Paulo de enviar um profissional para cobrir o seu jantar com o presidente americano. “Ainda bem”, deve estar imaginando o jornalista que seria enviado para os EUA nesta altura do campeonato: após voltar para o Brasil a comitiva presidencial passou a brincar de “resta um” de infectados pelo coronavírus.

Brincando de ditador para não lidar com os próprios problemas

A viagem aos EUA não serviu apenas para bajular Donald Trump. Ela também ajudou Bolsonaro a cometer mais um criminho de responsabilidade: enquanto discursava para apoiadores, o presidente afirmou, com base em vozes da sua cabeça, que as eleições que ele ganhou em 2018 foram fraudadas.

Bolsonaro afirmou com base “nas provas que ele tem em suas mãos” e que seriam mostradas em breve, que ele ganhou mais de 51% dos votos válidos no primeiro turno das eleições de 2018. Quando o Planalto foi cobrado das provas, porém, a informação oficial foi outra: Bolsonaro mentiu.

No mesmo dia a boquinha do inferno achou tempo para postar no Twitter que brincou de pintar uma tela no ateliê do pintor Romero Britto, posar com o ex-piloto de Fórmula 1, Emerson Fittipaldi, debater programa da Rede Globo e falar que o coronavírus estava sendo superdimensionado.

É tanto absurdo em um prazo tão curto que, se falta de decoro realmente fosse crime de responsabilidade, o presidente tinha caído um número de vezes maior do que o número de tijolos utilizados na construção da muralha da China. A eficiência em interditar o debate com o que importa fez até as pessoas esquecerem que ele apoiou as manifestações do último dia 15 antes de embarcar para o exterior.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

O vem e vai do veto 52

O coronavirus tem dominado tanto o debate que nem parece que, até outro dia, o presidente estava criticando o parlamento por fazer exatamente aquilo que o seu governo propôs que fosse feito. Vamos ao cronograma das disputas em torno de R$ 30 bilhões do Orçamento impositivo.

O primeiro acordo

Primeiro, o ministro Luiz Eduardo Ramos gastou um dia negociando com os parlamentares. A ideia, segundo Rodrigo Maia afirmou no dia 02, era reservar R$ 11 dos R$ 30 bilhões do orçamento que seria direcionado aos parlamentares. Bolsonaro não gostou e queimou o ex-general um pouquinho só para dar uma variada.

O segundo acordo

No dia seguinte, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, junto com deputados, senadores e membros do governo, negociou um novo acordo. Dessa vez, R$ 10 bilhões seriam destinados para a Câmara e outros R$ 5 bilhões, para o Senado. Tudo isso sem o líder do PSL na Câmara presente.

O terceiro acordo

Mas como o assunto já não estava confuso o bastante, o governo resolveu enviar para o Congresso um novo projeto. A ideia, agora, era dividir os R$ 30 bilhões igualmente entre o poder Legislativo e o poder Executivo.

O Congresso estava até disposto a abrir mão de parte do seu poder sobre o Orçamento. Bastava um gesto de repúdio à afirmação do ministro Augusto Heleno de que o Legislativo estava chantageando o Planalto.

Ganha um doce quem adivinhar como o presidente não falou contra o seu amigo que já foi general.

Mesmo assim o Congresso votou com o governo, assim como tinha votado a favor do Planalto quando este queria entregar R$ 30 bilhões para os parlamentares.

Toleraram que Bolsonaro ficasse sem atacar um de seus gurus e topasse andar ao lado de Montesquieu. Desse vez os parlamentares pediram apenas que o governo mandasse, na semana passada, um projeto reafirmando o desejo de dividir a execução dos R$ 30 bilhões entre o Executivo e o Legislativo.

O ataque do governo aos acordos que o governo realizou

Enquanto os movimentos bolsonaristas mantinham a sua manifestação golpista marcada, os líderes da Câmara e do Senado brigavam entre si. Havia uma grande desconfiança de que o presidente do Senado não tinha controle sobre os senadores. Também havia a impressão de que Bolsonaro não faria a sua parte do acordo.

O que, no final das contas, fez todo sentido. O Planalto chegou a enviar o acordo prometido para votação. Mas, não seguindo os seus auxiliares, articulou com a sua base para que ela votasse contra o projeto do próprio governo.

Em agradecimento à boa vontade do poder Legislativo, Bolsonaro seguiu apoiando de maneira velada as manifestações que foram marcadas para o dia 15. Fez até chantagem com o Congresso. E olha que Rodrigo Maia adotou um tom apaziguador com o presidente e pediu paciência a todos os envolvidos na história.

Um grande acordo, com o Congresso e o presidente mudo

Após avaliar a possibilidade de desidratar o discurso oficial do presidente e simplesmente largar o dinheiro pra lá, os parlamentares deram um recado para todo mundo e aumentaram o gasto com o BPC (mesmo sem o governo ter grana para isso). Também resolveram lembrar ao Planalto que os parlamentares, quando unidos, são bem fortes.

Mas, ao fim e ao cabo, a discussão sobre quem será o dono desse dinheiro ficará para depois: o Congresso resolveu dar uma diminuída nos trabalhos graças ao coronavírus e postergar a sua decisão sobre o tema.

The Shrinkage

Os últimos dias tem sido difíceis para quem acreditou em todos os traders de internet que vendiam a Bolsa de Valores como o melhor lugar do mundo para fazer dinheiro fácil. A combinação de briga de oligarca com vírus pandêmico fez os mercados brincarem de montanha russa. As previsões econômicas andam mais pessimistas do que os petistas que foram para a votação do impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

Parte da queda veio pelas incertezas em relação à Covid-19. A outra parte foi a briga dos oligarcas bilionários em relação ao preço do petróleo. Após uma conversa que não deu muito certo com a Rússia, a Arábia Saudita resolveu fazer a maior queda no preço do barril desde a Guerra do Golfo.

Desde então a Ibovespa está mais derrubada do que alcoólatra funcional em final de Carnaval. O movimento acompanhou as bolsas de outros países e as negociações foram interrompidas com uma frequência tão grande, que o blog simplesmente resolveu não contar o número de circuit breaks que foram acionados no período. Foram vários.

Negacionismo com as economias alheias

Enquanto tudo isso acontecia, o governo resolveu brincar de negacionismo. Ou melhor, a parte do governo que gosta de microfone brincou de negar a realidade.

Paulo Guedes, diante do crash causado pela queda do petróleo, disse que deveríamos transformar “a crise em crescimento” e “em geração de emprego”. Afinal de contas, a melhor forma de combater uma pandemia é aprovando reformas estruturais que só terão impacto fiscal a médio e longo prazo.

Quando Guedes caiu na real e lembrou que o emprego dele anda mais disputado do que a cadeira de Regina Duarte, o ministro anunciou um conjunto de medidas para reduzir o impacto que o vírus terá na economia. O impacto total será de R$ 147,3 bilhões e se distribuirá entre aumentos de gastos e antecipações de recursos como: reforços no Bolsa Família, transferência de verbas para o FGTS e facilitação de crédito para negócios. O Nexo tratou melhor sobre o assunto.

Não está claro, porém, se as verbas ficarão disponíveis a tempo de salvar vidas (ou torná-las menos miseráveis). Também não se sabe se o gesto impedirá a economia de continuar em queda livre. Da última vez que o blog conferiu, o Ibovespa seguia em queda e o Brasil continuava a ser visto como um país cheio de investimentos ruins.

Em notas não relacionadas, Guedes finalmente acertou uma previsão. No dia 12 de março, o ministro afirmou que, se ele “fizer muita besteira, o dólar pode ir a R$ 5 reais“. Quatro dias depois o dólar bateu R$ 5 reais.

Outras pequenas notas do Quinto dos Infernos

Boomer remover

Agora vamos falar do protesto do último domingo. Sim, não vamos ignorar essa pauta.

Após a Secom afirmar que a manifestação não era contra o Congresso e o STF, a população mais suscetível à Covid-19 resolveu sair às ruas para pedir o fechamento do Congresso e do STF. Já Jair Bolsonaro, que disse que não validou às manifestações (que ele validou), passou parte do seu dia dando legitimidade aos protestos golpistas.

No final do dia, Bolsonaro saiu do seu quarto e cumprimentou 272 pessoas por 58 minutos. Depois, deu uma entrevista afirmando que as medidas tomadas por governadores cansados de esperar orientação do Planalto eram inválidas. Antes de fechar a manilha de bosta, ainda convidou os presidentes do Legislativo a saírem às ruas como ele fez.

É temerário que um presidente desfaça todo o trabalho do seu ministro da Saúde por pura rinha. Pior ainda é ver ele indo contra os protocolos oficiais e agindo como se ele estivesse com a saúde em dia ou fosse um jovem de 24 anos. Não é o caso: além de velho, Jair Bolsonaro teve o corpo debilitado por um ataque há menos de dois anos.

Se comportar como uma criança mimada e que enxerga as ações a favor da saúde de milhões de pessoas como se fossem uma mobilização contra o seu governo é digno de riso. Aliás, é algo que deveria ser estudado por um psicólogo. Certamente há algum CID para esse tipo de atitude.

Se o presidente coloca o Brasil acima de tudo, deveria se portar como quem não quer ficar ao lado de Deus e acima de todos. Suas atitudes afetam todos que entram em contato ele.

E eu nem me refiro aos manifestantes que foram ao seu encontro em Brasília: caso Bolsonaro tenha algum problema de saúde (e ele provavelmente tem) a sua mesquinhez, a sua irresponsabilidade e a sua estupidez serão responsáveis por colocar em risco a saúde dos ministros que atuam na linha de frente do combate à Covid-19.

A escolha em 2018 pode até ter sido difícil. Mas Bolsonaro tem tornado muito simples a de 2022.

Vamos fazer um combinado?

Muitas pessoas estão dividindo a sua cota de paranoia entre a Covid-19 e as chances de o presidente aproveitar o momento para derrubar de vez a democracia. Provas de que Bolsonaro não gosta do modo como as coisas atuais funcionam são vastas: não é como se o ocupante da cadeira mais poderosa do país se esforçasse para esconder o seu desapreço pelo regime que o manteve no poder por três décadas enquanto ele brincava de sindicalismo pró-PM.

Existem duas alternativas para a escalada autoritária do presidente. Uma delas é o grupo de democratas sair do imobilismo, construir uma frente ampla de oposição e derrubar (ou tirar do poder) o cosplayer pobre de Donald Trump.

Essa alternativa tem como base a ideia de que Bolsonaro realmente tem um plano para derrubar a democracia capaz de ser executado (é pouco provável que ele seja tão inteligente, mas divago) com sucesso. Mas, para que o revival de Frente Ampla consiga dar certo, articulações com o PT deverão ser feitas. O partido ainda é relevante e dá legitimidade para um movimento como esse.

Se Carlos Lacerda, Juscelino e João Goulart conseguiram se abraçar por um bem maior, vocês também conseguem, liberais do dois ladismo intelectual.

A outra alternativa é começar a tratar o presidente como o que ele provavelmente é: um político com muito sonho autoritário, pouco tutano para executar os seus instintos mais primitivos e uma língua sempre afiada para falar absurdos e desviar a opinião pública dos podres de seu governo.

Essa opção, se escolhida, também não pode tratar Bolsonaro como alguém que jamais seria capaz de cometer um autogolpe. O Brasil não é um país de democracia robusta o bastante para que a gente se volte para às nossas questões privadas sem medo.

De crise em crise o presidente pode sim fazer um revival feio de abril de 1964. Mas enquanto ele anima a sua base mais fiel com a sua retórica surrealista, os seus arreganhos autoritários servem mais para os democratas avaliarem a capacidade de ação das gralhas golpistas do que para colocar um cabo e um tanque na frente do STF.

Em todo caso, não basta expor as sandices presidenciais para a opinião pública se, em 2022, a melhor alternativa à presidência for o Mussolini de Maringá.

Mas para alguma coisa o isolamento moral do presidente pode servir, que é no combate à Covid-19. Nos últimos dias, os presidentes da Câmara e do Senado se reuniram com o ministro da Saúde para discutir medidas contra o coronavírus enquanto Bolsonaro estava no Twitter. O mesmo fizeram os presidentes da Argentina, Chile, Uruguai, Equador, Peru, Paraguai, Bolívia e Colômbia.

Estavam certos. Não há como esperar que alguém que fica ocupado brincando de paranoia possa cuidar de um tema tão grave. Nessas horas é mais interessante deixar os adultos trabalharem enquanto a criança com faixa presidencial fica em um canto brincando com os seus bonecos de G.I. Joe.

A Próxima Vítima.mp4

Bolsonaro tem tratado a sua saúde e a saúde de seus subordinados como trata a Constituição nacional. Desde que voltou da sua viagem aos EUA, o presidente tem negado estar com a Covid-19. No mesmo período, todo o seu círculo próximo foi diagnosticado com a doença.

O presidente faz de conta que a doença não é grave, abusa de estatísticas e chama a epidemia de “fantasia”. Incentivou a manifestação golpista do último dia 15 sempre que possível e ainda deu as mãos para algumas centenas de pessoas que participaram dos atos em Brasília.

Mesmo sabendo que não é médico ou infectologista, contrariou as recomendações do próprio governo e se expôs a todo tipo de situação de risco. Tudo isso para desmoralizar Luiz Henrique Mandetta, que cometeu o crime de fazer exatamente aquilo que um ministro de Estado deve fazer.

Bolsonaro pode continuar a fazer o seu discurso para a sua claque de apoiadores sempre que considerar interessante. Mas, quando se trata de evitar que o Brasil vire uma nova Itália, é mais interessante liberar recursos para o ministério da Saúde e deixar Mandetta trabalhar normalmente.

Não fazer isso, no final do dia, certamente prejudicará a capacidade dos Bolsonaro de se perpetuarem no poder se um novo candidato, mais forte, saudável e democrata, aparecer por aí: não dá para se eleger outra vez se o seu público-alvo ficar doente e morrer, presidente.


Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

A Nova Era – semana #57: os improváveis inúteis da República

O inferno astral de quem depende do MEC para definir o seu futuro, a agenda não liberal do governo, as preparações para 2022 e pequenas aulas de populismo. Tudo isso enquanto Lula dava um refresco para Bolsonaro e FHC dissertava sobre as suas angústias.

Não se esquece de compartilhar o post com a tia.


The following takes place between jan-28 and 03-fev


Matrioska do BNDES

A brochada pós unboxing do BNDES incomodou demais o presidente. Depois de anos caçando um fantasma que não existia, Bolsonaro resolveu criar outro factoide envolvendo o banco público. O problema agora são os R$ 6.000,00 por palavra que foram pagos para uma auditoria revelar o que todos já sabiam: não há uma infração legal nas operações de crédito para a JBS.

Gustavo Montezano corre sério risco de perder o cargo por cometer o crime de fazer o que Bolsonaro desejava e por ter aprovado um aditivo de R$ 13 milhões para a auditoria dos empréstimos. Há também a chance de a auditoria das operações da Odebrecht ficar a ver navios.

Montezano e Bolsonaro podem falar o que for, chorarem o quanto quiserem e gastarem todo o caixa do banco em busca de problemas nas suas operações de crédito subsidiado. Mas é pouco provável que o uso do banco de fomento para realizar fomento na economia acabe se transformando em acusação de ilegalidade. Pelo menos no que se refere às operações que o banco já abriu os dados após 2015.

Talvez seja a hora de Jair e sua turma investir em outros motivos para acusar a esquerda de ter destruído o país. Em algum momento o malabarismo retórico acaba cruzando com a realidade e, nessas horas, até mesmo o mais apaixonado fã do presidente pode perder a paciência com a criação de factoides.

Não custa lembrar: o aumento da transparência das operações do BNDES é algo que já é fato público desde 2015. A não existência da caixa preta do banco só não é mais velha do que os resultados desastrosos das operações por ele realizadas. Seria muito, portanto, pedir que o governo trate o tema com a seriedade necessária e pare de se esconder atrás de narrativas fraudulentas? Talvez. Mas sonhar é de graça e o travesseiro do blog é novinho.

Vem, 2022, vem nos fazer passar raiva

Após repetir impropérios e deixar o seu populismo autoritário à mostra, Lula resolveu usar o seu tempo livre para focar nas eleições de 2022 ao lado da presidente do PT, a senadora Gleisi Hoffmann. Crente de que o PT é o único capaz de ir para um segundo turno com Bolsonaro (e sabendo que Fernando Haddad não se elege sequer para síndico), o ex-presidente se reuniu com o governador maranhense Flávio Dino.

A reunião teve três objetivos práticos: foder com o centro liberal que está ensaiando um voo desde as eleições de 2018, trazer o governador de volta para o PT e afastar o comunista de Luciano Huck. Está errado o ex-presidente no que faz? Não muito. É engraçado ver o PT sendo incapaz de ser vice em uma campanha? Também.

Populismo 101

Enquanto o ministro da Educação acumulava motivos para ser demitido, o presidente resolveu ir atrás de quem fez algo que é legal, porém, imoral. O número dois da Casa Civil, Vicente Santini, resolveu utilizar um jato da FAB para um voo exclusivo à Índia (onde Bolsonaro passou parte dos últimos dias). O valor do passeio caiu na net e, bem, o pessoal não gostou muito.

Santini chegou ao governo por ser amigo da família Bolsonaro. O presidente, ao tomar conhecimento do frete, avisou que o número dois seria demitido do cargo (sem ao menos comunicar antecipadamente para o chefe da Casa Civil, Onix Lorenzoni, a sua ação). Mas, com o apelo dos filhos de Bolsonaro, a sua régua moral migrou para a mesma posição que avalia os voos de Ricardo Salles (do Meio Ambiente) em aviões da FAB e o ex-secretário-executivo foi realocado em um novo cargo.

Pegou mal? Pegou mal.

Vendo que até a deputada e jornalista condenada por plágio Joice Hasselmann conseguiu tirar proveito político da situação, o presidente mudou de ideia outra vez. Enquanto Carlos Bolsonaro exercia a sua fixação com o cu alheio, Bolsonaro anunciou que Santini seria exonerado do cargo, para a tristeza de Onyx, que ficou enfraquecido após o caso.

É divertido como a meritocracia funciona no governo. Banqueiro que afirma que não há caixa preta no BNDES sem precisar de um cheque de R$ 48 milhões? Demitido em uma manhã de sábado. Ministro que é incapaz de corrigir uma prova? Mantido no cargo. Chefe que se coloca em situação de improbidade administrativa? Ganha apoio público. Ministro que está lotado de acusação de corrupção? Faz photo-op em Minas Gerais.

Secretário-geral da Casa Civil que é pego gastando mais do que deveria, ainda que por meios legais? Muda de emprego e só cai quando a sua posição coloca o governo como motivo de troça de ex-aliado.

E agora para algo completamente não diferente

Falando em gente que é pega por aí em situação comprometedora, a Procuradoria da República solicitou à Política Federal a abertura de um inquérito criminal contra Fabio Wajngarten, chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom). A investigação deverá apurar as suspeitas de crimes de peculato, advocacia administrativa e corrupção.

Para quem perdeu os últimos posts do blog, eis um recap: Wajngarten é acusado de utilizar as verbas da Secom para favorecer empresas de comunicação simpáticas ao governo. Tudo isso enquanto os grupos de mídia mantinham contratos com a FW Comunicação e Marketing, empresa da qual é sócio. Além disso, o chefe da Secom também incluiu a verba de R$ 1,8 milhão para 12 emissoras religiosas desde que chegou ao cargo.

Parte do dinheiro foi utilizado, por exemplo, para financiar as propagandas a favor da reforma da Previdência. A verba da Secom engordou os bolsos de nomes como Ratinho e Ana Hickman. Teria sido mais legal pagar mais para o estagiário de social media não ficar passando vergonha online no débito e no crédito.

O presidente, que até agora não viu nada de errado nas acusações, terá que lidar, também, com o resultado de uma averiguação do Tribunal de Contas da União e a Comissão de Ética Pública da Presidência (onde Wajngarten mentiu). Também cairá no colo de Bolsonaro dois indicadores não muito agradáveis para quem insiste na narrativa de combate à corrupção como uma base de seu governo: desde o começo de 2019, o número de denúncias de infrações éticas e conflitos de interesse saltou de 803 casos (em 2018) para 1.340 (em 2019), enquanto a capacitação de servidores públicos em gestão da ética foi lecionada para 1.339 alunos (contra 3.348 no ano anterior).

A indignação dos não injustiçados

Circula a boca miúda que Fabio Wajngarten tem feito lobby junto a ministros do TCU para escapar de qualquer punição. O argumento de Wajngarten é que o responsável pelos contratos foi general Santa Cruz, que ocupou o seu cargo nos primeiros meses do governo Bolsonaro. Ele também aponta que, na sua gestão, os repasses de verbas para empresas de TV caíram (ainda que a Artplan, cliente da FW, tenha se tornado a empresa que mais recebe dinheiro da Secom).

Apoiando a tentativa de jogar o problema para os braços de quem está longe do Planalto estão o general Ramos e os filhos de Bolsonaro (que mantém simpatia por Wajngarten graças aos laços que ele construiu entre parte da comunidade judaica e Bolsonaro).

O chefe da Secom está louco para abafar de vez o caso antes da retomada dos trabalhos do legislativo e, assim, evitar uma CPI sobre o tema. Não custa lembrar: o Mensalão começou de forma semelhante e CPI todo mundo sabe como começa, mas não como termina.

Na volta a gente vende

Lembra quando Paulo Guedes afirmava que venderia até terreno na Lua se possível fosse? O blog lembra. Parece que foi ontem que o governo jurava ser absurdamente liberal na economia e pronto para fazer saldão de bens públicos.

Afinal de contas, privatizar empresa pública (e/ou suas subsidiárias) no Brasil não é muito complexo. Há inclusive lambança constitucional aprovada pelo STF que facilita o processo.

Outro target que o blog se lembra bem era o fim do déficit das contas públicas, que seria baseado em várias reformas e muita privatização. No caso das reformas, a única que já foi enviada para o Congresso e aprovada foi a da Previdência, que tem efeitos a médio e longo prazo. Já o saldão de bens públicos? Viverá mais uma narrativa do bem contra o mal, ao menos no que depender de Salim Mattar.

O secretário de vendas do governo federal foi ao Twitter dia desses avisar que vendeu uma casa reservada a ministros por R$ 10,8 milhões, reduzindo a meta de venda de ativos para um trilhão, novecentos e noventa e nove bilhões, novecentos e oitenta e nove milhões e duzentos mil reais. O valor adquirido pela venda do imóvel mal faz cócegas no déficit atual do governo, que beira R$ 100 bilhões.

Todas aquelas outras estatais que Mattar afirmou que privatizaria em 2019 (mas na verdade fará isso em 2020 ou 2021)? Aparentemente, não podem ser vendidas mesmo que Guedes desejasse. Afinal, o governo federal, órgão com a prerrogativa de enviar Projetos de Lei para o Congresso que alterem as leis existentes, não pode mudar as leis ordinárias em vigor. Ou pelo menos tentar isso enquanto se distrai colocando mais dinheiro em empresa pública.

Pobre coitado do secretário de Guedes, que está de mãos atadas diante da liberdade de fazer aquilo que o ministro prometeu fazer enquanto buscava apoio para chegar ao poder. O liberalismo do Ministério da Economia, ao que tudo indica, será tão duradouro quanto o tempo de ereção do público alvo do Boston Medical Group.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Até que o Moro não é tão ruim assim

No meio tempo em que não flerta com a cadeira de Jair Bolsonaro, Sergio Moro resolveu tentar abertamente uma vaguinha no STF. Há quem diga até que o juiz já disse ao presidente, enquanto faziam amor em um motel obscuro de Brasília, que ele deveria ser nomeado só para reduzir as dificuldades de Bolsonaro continuar no poder após 2022. Mas se Moro quer mesmo chegar lá, terá que fazer coisas que vão além do seu face lift.

Além do ex-juiz da Lava Jato, um dos nomes que já apareceram na imprensa como cotados ao cargo é Jorge de Oliveira. Também chamado de Jorginho, Oliveira tem 13 anos de formação em Direito e seis de OAB.

Se me prometerem uma nomeação que não envolva o Jorginho ou o Pato de Maricá, eu topo um impeachment a tempo da aposentadoria do próximo ministro. Só avisando.

Não me cutuca que eu te cutuco de volta

Enquanto o futuro partido do presidente utiliza imagens de Sergio Moro para divulgar a sua campanha de coleta de assinaturas de apoio à sua criação, o ministro da Justiça lançou uma lista com os criminosos mais procurados do país. Tem até miliciano na brincadeira.

Já o presidente Bolsonaro tuitou um texto de autoria do general Augusto Heleno em que o governo atual é visto como “o maior símbolo de combate à corrupção de que se tem notícia, nos 520 anos da história do Brasil“. Não muito tempo depois, Moro resolveu afirmar que o combate a corrupção “não é um projeto pessoal ou de governo, é um projeto de país“. Prioridades.

Moro deveria tomar mais cuidado caso queira ir para o STF. Em vez de cutucar o seu chefe, talvez seja interessante para o ministro manter o apoio da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef). A organização, ligada a Eduardo Bolsonaro, resolveu abrir uma consulta interna para avaliar a posição dos agentes de segurança pública sobre a criação de um ministério da Segurança Pública.

Pelo menos não é petista

Após o melhor pior Enem de todos os tempos e da última semana, as atenções dos jovens ficaram voltadas para as seleções do Sisu e do Prouni. Mas não para comemorar um aumento do número de pessoas em situação de vulnerabilidade social (ou pobres, como se diz aqui na terra do blog) nas universidades nacionais.

Mas antes de entender a sequência de desatinos que virou o Enem (e os processos de seleção que dele dependem), que teve até Lorenzony pedindo a Olavo de Carvalho a benção para ter o MEC, vamos ao recap sobre como chegamos até aqui:

  • assim que chegou ao poder, o governo Bolsonaro retirou todos os comunistas que passaram os últimos 20 anos executando o Enem dos seus cargos;
  • após isso, o Inep teve 4 diretores diferentes (e um longo período sem alguém ocupando a direção do órgão responsável pela prova, que é um dos maiores exames de acesso ao ensino superior do planeta).
  • além de perder os burocratas que já executavam a prova, o governo também ficou sem a gráfica responsável pelo exame nos últimos anos;
  • no seu lugar, entrou o segundo lugar no último edital, que não tinha experiência nesse tipo de serviço;
  • após a prova, o ministro foi ao Twitter informar que realizou o “melhor ENEM (sic) de todos os tempos“;
  • na hora de divulgar as notas, um grupo de alunos notou que a sua nota estava errada, algo que você pode ver o recap aqui;
  • o MEC negou que havia problema na correção das provas;
  • o MEC confirmou que houve um problema na correção das provas;
  • o MEC afirmou que as provas com problemas foram averiguadas e que o Sisu e o Prouni ocorreriam normalmente;
  • o Sisu e o Prouni não ocorreram normalmente.

Na segunda-feira (27) o MEC suspendeu as inscrições do Prouni. A justificativa era o bloqueio da exibição da nota do Sisu, que estava prevista para o mesmo dia. A proibição (da exibição das notas do Sisu) foi tomada na sexta-feira (24) pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região.

O juiz responsável pela medida solicitou ao MEC que apenas continuasse os processos de seleção após dar boas garantias de que os problemas encontrados tivessem sido solucionados. No dia seguinte, a medida foi revogada pelo Superior Tribunal de Justiça.

O MEC, porém, resolveu se adiantar ao STJ e publicar parte dos resultados extra-oficialmente na terça-feira (28). Procurado pelo O Globo, o ministério não informou por qual razão o vazamento ocorreu. Disse, porém, que os dados divulgados não correspondiam ao resultado final da seleção (correspondiam).

A segunda-feira também foi o dia em que a Defensoria Pública da União acionou a Justiça contra o ministro da Educação, Abraham Weintraub. O ministro, no final de semana anterior, atendeu ao pedido de um apoiador do governo e moveu os pauzinhos necessários para que a nota de sua filha fosse revisada. O mesmo ministro que, dias antes, bloqueou internauta não bolsonarista que cobrou uma boa gestão dos resultados do Enem. A acusação de violação do princípio de impessoalidade na administração pública é mais uma das várias que o governo já tinha recebido referentes à correção do Enem.

Na terça-feira, enquanto Weintraub conseguia manter um amplo apoio do governo, a Comissão de Ética emitiu uma advertência ao ministro. O motivo foi a comparação, em seu Twitter, dos ex-presidentes Lula e Dilma com substâncias entorpecentes.

No final da tarde de quarta-feira (29), a Folha de S. Paulo avisou que os resultados do Enem, um dos principais fatores que validam a prova como porta de entrada para as universidades brasileiras, não são confiáveis. Como o MEC não recalibrou os resultados de todos os estudantes após identificar as provas com problemas, os vestibulandos que tentaram a prova correm o risco de ficar com um resultado incorreto. O que não seria um problema grave se os vestibulares mais concorridos não fossem decididos nas casas decimais das notas de cada candidato.

Falando em resultados, a divulgação das notas não levou ao fim dos problemas de quem disputou o Sisu. Os candidatos, que já tinham enfrentado problemas na hora de fazer a seleção do curso, também lidaram com erros durante o cadastro nas listas de espera do exame. Um pobre coitado foi até parar em um curso que não tinha interesse.

Para quem teme que os casos ficarão sem penalização para os responsáveis (ou o responsável), pode ficar tranquilo. O presidente avisou no dia 28 que fará uma investigação para averiguar o que levou a tantos problemas. Seria interessante ver o governo evitando gastar outros R$ 48 milhões da União buscando um sabotador e direcionando as suas atenções para o responsável pela pasta da Educação. Quem sabe assim o real culpado não perde o cargo rapidamente.

Seguir as orientações de Rodrigo Maia pode ser uma ideia mais inteligente do que focar no que diz Eduardo Bolsonaro e a militância do governo. Não é a primeira vez que o presidente da Câmara acerta em suas falas. Não há investimento de longo prazo que dê certo em um país incapaz até de distribuir o número correto de vagas para candidatos com deficiência física durante o Sisu.

Desde que chegou ao poder, Weintraub gastou mais tempo fazendo gracinha no Twitter direcionado ódio ao pagador de impostos do que cuidando da pasta com um dos maiores orçamentos (e número de problemas) de Brasília. O ministro resolveu tratar a sua cadeira com a mesma mediocridade que tratou a sua vida acadêmica. O resultado, infelizmente, está afetando milhões de brasileiros (e não só o seu futuro) e complicará até mesmo a realização de conferências e as viagens de cientistas e pesquisadores brasileiros pelo mundo afora.

E os pesquisadores de humanas, claro. Pois é sempre um dia bom para ferrar com o pesquisador de humanas.

A resposta política chegará em breve. Nesta semana o Congresso voltou a trabalhar. A MP da carteirinha de estudante pode caducar por falta de articulação (ou boa vontade) dos parlamentares. No senado, já tem senador pedindo convocação de Weintraub, passo que também foi tomado por Tabata Amaral na Comissão de Educação. Se demorar muito, os políticos podem se unir e chamar o ministro para se explicar na frente do plenário.

O MEC vai precisar fazer um trabalho que vai muito além de um contrato de R$ 20 milhões para a nova assessoria de imprensa do órgão se quiser deixar de ouvir de Rodrigo Maia que o seu comandante representa a “bandeira do ódio”. Um caminho interessante seria mandar Weintraub de volta para São Paulo. Com sorte o nosso maior problema volta a ser a presença de criacionista na Capes.

O aspone mais caro do país

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, está se sagrando como o funcionário público mais inútil do país (e olha que a disputa é elevada). Até que a sua saída do cargo se torne uma realidade, o ministro terá como maior objetivo diário passar a mensagem presidencial ao Congresso e articular uma chapa para o poder executivo em sua terra natal. Ou voltar para a Câmara e retomar a sua posição de deputado irrelevante do baixo clero.

Onyx, após assumir a Casa Civil, já perdeu o Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) para a Economia, a articulação política e a Subchefia de Assuntos Jurídicos (SAJ). O Conselho da Amazônia também fugiu das suas mãos, sendo agora responsabilidade do vice-presidente, Hamilton Mourão.

Eu mencionei que o assessor de imprensa de Onyx também foi exonerado por Bolsonaro? Pois é.

O sulista pode se unir ao porta-voz da Presidência, o general Rêgo Barros, criar a SePone (Secretaria de Porra Nenhuma) e assim dedicarem os seus dias em Brasília à prática de gamão e bocha. Farão mais bem pelo país do que os esforçados ministros de outras áreas, como o do Meio Ambiente e o da Educação.


Eu escrevi e revisei este texto com a ajuda da Ninna. A língua é viva e você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #23: país rico é país sem brasileiro

The following takes place between may-04 and jun-11


As notícias que parecem da semana passada, mas não são 

Em 23 semanas de Nova Era, algumas coisas se tornaram repetitivas. Então, vamos começar uma pequena sessão aqui no blog focada apenas nesses pontos, pois já está bom de repetir o mesmo argumento toda semana. 

Vamos começar com gente do Legislativo apontando como o governo é muito ruim, até em fazer o básico do básico. Na noite de domingo (02), por exemplo, Rodrigo Maia afirmou que falta ao Planalto uma agenda para o Brasil, que aumente a produtividade da economia, crie empregos, dê remédios a quem precisa e melhore a qualidade da educação. 

O carioca também negou que o pacto dos três poderes foi fechado, afirmando que “o Onyx Lorenzoni avançou na informação sem uma construção política amarrada. Ele entregou um documento, ninguém leu, e ficou parecendo para a sociedade e a imprensa que a gente fechou aquele pacto. Zero verdade nisso.” 

Já Alcolumbre disse que o governo comete trapalhadas diariamente, e tirou do Planalto os méritos de uma futura aprovação da Reforma da Previdência. O que não deixa de ser verdade, uma vez que o próprio Bolsonaro acha que, uma vez entregue um projeto ao Congresso, ele deixa de ser problema do Planalto.

Como os bots do Bolsonaro tiram folga no final de semana, não teve hashtag no Twitter atacando Maia ou Alcolumbre. Também é possível que os responsáveis por acionar as postagens em série tenham se lembrado que precisam engolir ambos por mais dois anos.

Fazendo coro a Maia, o presidente da comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, Marcelo Ramos, também lembrou que falta a noção de prioridade para Bolsonaro. No seu Twitter, o deputado se queixou que Bolsonaro visita a Câmara para mudar o Código de Trânsito, mas não para ajudar na aprovação da reforma. Não é como se a aprovação do projeto estivesse garantida

Os militares seguem atuando como a voz moderada do governo. Segundo apontaram Vinicius Sassine e Bernardo Mello Franco, os generais próximos a Bolsonaro continuam tentando fazer o presidente deixar de ser um fantoche dos olavistas. 

Por fim, o PSL segue sendo uma bagunça. Na última semana o Major Olímpio, líder do PSL no Senado, partiu para cima da Joice Plagelmann (frase não literal), líder do governo no Congresso. O bate boca ocorre após o partido não cumprir o acordo firmado entre os seus membros, logo na primeira sessão conjunta das casas legislativas

Certas partes do noticiário se tornaram uma temporada da série Russian Doll. A diferença, aqui, é que morremos apenas de desgosto no final do dia. 

Never go full Ayn Rand 

Bolsonaro andou lendo A Revolta do Atlas, e o resultado vai te surpreender. Na terça-feira, o presidente atravessou as ruas de Brasília, bateu nas portas do Congresso, e entregou um projeto de grande importância para o cenário atual: um conjunto de alterações no Código de Trânsito Brasileiro

Se tudo der certo (para o “governo do revide”), em alguns meses o Brasil será o país em que: 

O presidente, que já anunciou o fim dos radares nas estradas federais dizendo que “ninguém é otário de fazer curvas em alta velocidade”, afirmou que os pais são completamente responsáveis e sabem que é importante levar os filhos em seus carros utilizando a cadeirinha.

O blog considera fofa a fé que Jair tem na inteligência do brasileiro, principalmente por terem sido as pessoas que nasceram na Terra de Santa Cruz as responsáveis por darem a ele cargos eletivos nas últimas décadas. 

Felizmente não há boa vontade dos agentes políticos brasileiros em apoiar essa sandice. Paulo Douglas, que é um dos autores da Lei do Descanso dos Caminhoneiros, chamou o texto de retrocesso imenso, e pretende contestá-lo na justiça.

Já a deputada Christiane Yeared, da base do governo, lembrou que, no mundo real, multa sai mais barato do que caixão. Também afirmou que, o custo das lágrimas que escorreram pelo rosto dela após o filho dela ser atropelado por um ex-deputado certamente deve ser menor do que o de uma cadeirinha infantil.

Houve liberal que apoiou a ideia do presidente, baseando-se no argumento de que o Estado não deve impedir alguém de ser imbecil. Houve também aqueles que afirmaram que as pessoas são completamente capazes de não colocarem a própria vida (e a vida de seus filhos) em risco.

Afinal de contas, qualquer pai responsável compraria cadeirinhas para as suas crianças após vaciná-las no posto de saúde mais perto de sua casa. Não é como se existisse gente por aí dando alvejante para os seus filhos.

Também houve aquele que confia plenamente na mão invisível do mercado, e disse que as empresas não contratariam motoristas que dirigem com o cu cheio de rebite. Todos falharam em informar como o resto da população se protegerá dos motoristas que não dirigirem sóbrios (responsáveis pela morte de muita gente), e de onde sairão os recursos para as crianças com pais pouco cuidadosos comprarem as suas próprias cadeirinhas. Elas pouparão o dinheiro da merenda para se protegerem por conta própria?

Cabe aos liberais (ou libertários) tupiniquins pararem de ir full Ayn Rand na defesa das suas ideias. O brasileiro é, foi, e continuará a ser muito burro. Basta lembrar o que jornalistas falaram quando o Maluf disse que não é legal andar por aí soprando fumaça no coleguinha.

Aliás, volta, Maluf! Entre um filhote da ditadura que comete corrupção de pobre e um que comete corrupção de rico, mas sabe que liberalismo não é bagunça, eu fico com o segundo. 

Liberalismo: tem, mas desgringolou

A história do liberalismo no Brasil é escrita em linhas mais tortas do que o traçado da BR 381. Quando não há gente falando que protecionismo econômico é livre mercado, os guardiões da Constituição resolvem apoiar a busca por atalhos para aumentar a liberdade econômica nacional. 

Pelo menos é essa a impressão que o STF passou ao liberar a venda de subsidiárias de estatais sem o aval do Congresso. Ignorando o que diz a Constituição brasileira, os gloriosos ministros fizeram um rebosteio argumentativo para justificar a possibilidade de o governo vender uma empresa, de maneira até então ilegal.

Veja bem, o blog não tem nada contra a venda de empresa pública. A depender dele, uma boa parte das estatais deixariam de existir, começando pela Infraero (vendam a Infraero. Eu não aguento mais a Infraero).

Mas se o governo quer mesmo sair por aí sendo malvadão e promover o desmonte da máquina pública, que o faça da maneira correta. Que mandem um projeto para modificar a lei vigente e, com isso, reduzir as chances de outras vendas pararem na justiça.

Pedir para o STF legislar só diminui (em vez de aumentar) a segurança jurídica que é necessária para avançar o processo de desestatização, que começou lá com o Collor. Não custa nada a Corte mudar de ideia e, em alguns anos, avisar que não pode mais vender subsidiária da Petrobrás sem o apoio do Congresso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Liberal na economia, conservador de ideias ruins em tempo integral 

Bolsonaro lembrou que existem outros países na América Latina além da Venezuela. Após viajar para comer fast food nos EUA e falsificar a história em Israel, o presidente passou um tempinho na Argentina contando novas mentiras.

Na visita, Bolsonaro pediu que os nossos hermanos votassem “com muita razão e menos emoção“. Afinal de contas, já basta ele como imbecil de marca maior ocupando um cargo importante na região.

Após demonstrar que a educação da ditadura militar não é das melhores, o presidente anunciou um novo desejo imbecil: a criação de uma moeda comum entre os dois países, o “peso real”. A ideia é tão ruim, mas tão ruim, que fica difícil comentar sobre. Felizmente, o Banco Central do Brasil avisou que isso não é algo a ser levado a serio. Mesmo assim, Jair insistiu na ideia.

O fato é que a saga do presidente para destruir tudo o que foi criado após a ditadura não tem fim. Se o próximo alvo é o Plano Real, que finalizou com a hiper-inflação crônica do país, o blog, na posição de tiete do Plano Real, considera isso um motivo para impeachment.

No dia do meio ambiente quem derruba árvore é você 

O leitor sabia que o desmatamento é a questão ambiental que mais preocupa o brasileirinho? O blog não. E, a julgar pelas medidas tomadas pelo ministro do Meio Ambiente, o chefe da pasta também desconhece o dado.

Segundo a pesquisa global Earth Day 2019, o tema é mais importante até do que o aquecimento global. A informação foi divulgada na mesma semana em que o governo afirmou que insistirá em aprovar as mudanças no Código Florestal, que o Senado já falou que não quer fazer. Se sobrar tempo, Bolsonaro também tentará encontrar uma forma de extinguir parques ambientais por decreto.

Mas essa não é a única medida do governo brasileiro nas últimas semanas com a desculpa que ele não pode atrapalhar o coleguinha a destruir floresta. Veja algumas das coisas que o blog esqueceu de citar sobre a atuação do ministro, acusado de improbidade administrativa:

Não é de surpreender que o desmatamento da Amazônia tenha explodido nos primeiros meses de 2019. Quando Bolsonaro diz que a missão do seu governo é “não atrapalhar quem quer produzir“, ele está apenas tendo um impulso de sinceridade e humildade. No que depender da sua administração, a Amazônia se transformará em uma grande mistura de pasto e plantação de soja. Transgênica e com muito agrotóxico, se possível. 

E se depender do ministro responsável por cuidar do Meio Ambiente e do agronegócio nas horas vagas, não sobrará um centavo para as atividades que garantirão um futuro com ar respirável para os nossos filhos. Nessas horas, cabe a gente comemorar a existência de Sergio Moro. O ministro da Justiça liberou mais verba para o FDD. O aumento de 1.650% nas verbas auxiliará na criação de um modelo de avaliação de riscos para o uso de agrotóxicos no Brasil, e reduzir o impacto causado pela sua aplicação no meio ambiente

A Alemanha já notou que Bolsonaro só quer beber agrotóxico e cortar árvore. Os europeus avisaram que, a depender dos movimentos dos próximos meses, a sua carteira ficará fechada para o financiamento de um dos mecanismos mais antigos de proteção a floresta da Amazônia. A Noruega também já está mexendo os seus pauzinhos para impedir o governo de continuar a fazer merda.

O presidente pode continuar mentindo por aí e falando que o Brasil é um país que protege o meio ambiente com muito afinco. Enquanto existir imprensa livre nessa nação, poderemos acompanhar com cuidado as incisivas tentativas do seu governo para acabar com o nosso futuro.

A mulher de César caiu na net 

Há um ditado que diz que, a mulher de César não só deve ser honesta. Ela também deve parecer honesta. O blog, inclusive, já se utilizou dele para fazer título de postagem. Os membros da operação Lava Jato e o ministro Sergio Moro deveriam conhecê-lo.

Na noite de domingo (09), a versão brasileira do The Intercept começou a publicação de uma série de reportagens detalhando as relações entre Deltan Dallagnol e o atual ministro da Justiça. O material, colhido por uma fonte anônima, mostra como o ex-juiz aconselhou o funcionário do MPF, as articulações dos servidores públicos para impedir que o ex-presidente (e agora portador de um pau duraço) Lula desse entrevistas, e até mesmo as dúvidas que os concurseiros tinham sobre a sua capacidade de mostrar que o petista era o dono do tríplex mais famoso do Guarujá.

A força-tarefa da Lava Jato logo publicou uma nota em que não desmentia o conteúdo das publicações do site de Glenn Greenwald. Também afirmou que elas não revelam qualquer ilegalidade (mas nada falaram sobre o nível de ética das articulações feitas com o apoio do ministro da Justiça).

Os concurseiros também afirmaram que a sua atuação foi revestida de “legalidade, técnica e impessoalidade”. Marco Aurélio Mello discorda.

O mesmo MPF também afirmou que a pessoa responsável pelos vazamentos “praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público, à vida privada e à segurança” dos investigadores. Imagina se os servidores do órgão tivessem a mesma opinião quando alguém resolve divulgar conversa de jornalista com fonte, hein?

Os servidores públicos (que regularmente forçam a barra no entendimento da lei) também afirmaram que foi uma injustiça não terem sido contactados pelo Intercept antes da publicação da notícia. É sempre bom lembrar que a liberdade de imprensa existe e, em geral, empresa privada não é obrigada a seguir as vontades de concurseiro.

A força tarefa se queixou que os jornalistas do Intercept não são imparciais, algo que qualquer estudante de comunicação social do primeiro período do curso sabe que não existe. Imparcialidade, aliás, é devida aos juízes, que não devem prestar serviços de consultoria jurídica nos sábados, domingos e feriados.

Indo além, afirmaram que ultrapassar os limites de respeito às instituições e às autoridades é algo que prejudica a sociedade em vários níveis. Quem vê pensa que os concurseiros estavam falando daquele vazamento de ligação da Dilma com o Lula uns anos atrás.

Jornalista tem mais é que vazar dado de interesse público mesmo. O próprio Dallagnol já reconheceu isso quando foi de seu interesse, e da mesma forma, Sergio Moro lembrou que não podemos culpar jornalista por divulgar material vazado por terceiros.

Sergio Moro disse, no Twitter, que há “muito barulho”, e que uma “leitura atenta revela que não tem nada ali, apesar das matérias sensacionalistas”. Afinal de contas, o responsável por julgar criminhos orientar as pessoas responsáveis por apontar quem comete ilegalidades a fazer o seu trabalho é super normal.

Se os envolvidos no escândalo queriam parecer honestos e imparciais, o fizeram muito mal. Se parabenizar após uma manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff, afirmar que quer “limpar o Congresso,” e indicar até a ordem correta para a realização de operações está longe de ser algo ético. E não é só o blog que diz isso: a OAB também achou as ações dos funcionários do judiciário muito feias, e pediu que eles se afastassem até que tudo fosse esclarecido.

Gilmar Mendes, aquele que pouco fez nos últimos anos para impedir que operações contra a corrupção não chegassem em poderosos, já avisou que “o fato é muito grave”. Também tirou a bunda de cima do processo que questiona a suspeição do Moro.

O Congresso já se articula para usar uma CPI para ouvir o ministro da Justiça, e discute se há a necessidade de quebrar sigilos. Enquanto isso, Toffoli, Alcolumbre e Maia se reuniram para discutir as publicações do Intercept.

Não me assustaria saber que, entre a noite de domingo e a hora da publicação deste post, muita gente presa na carceragem da PF em Curitiba gozou gostosamente, lembrando que, no artigo 254, inciso IV, do Código do Processo Penal, está registrado o “juiz dar-se-á por suspeito, e, se não fizer, poderá ser recusado por qualquer das partes se tiver aconselhado qualquer das partes”. No país da Operação Satiagraha, qualquer passo em falso é motivo para gente poderosa ficar longe da cadeia.

Até o momento, isso não aconteceu. Muitas das coisas que foram reveladas pela Lava Jato são tão sólidas quanto a água que serve de apoio para os patinhos do sítio de Atibaia nadarem.

Porém, os alicerces para bons advogados saírem por aí questionando a atuação de Moro e seus amigos começaram a ser cavados apenas nessa semana. Vai ser divertido acompanhar o Reinaldo Azevedo fazendo pirocoptero na Band News, enquanto o Intercept revela os outros 99% que sabe.

Vale lembrar que a frase “o juiz brasileiro, na fase de investigação, tem uma postura passiva, apenas examinando pedidos da autoridade policial, do Ministério Público e da defesa, como também o faz durante a fase de tramitação da ação penal” veio do mesmo servidor que foi pego com uma postura ativa, auxiliando e cobrando pedidos do Ministério Público para dar mais força às suas acusações. As revelações, portanto, podem não ter um impacto jurídico imediato, mas certamente representam um baque para aqueles que pretendiam manter a opinião pública ao seu lado.

Em notas não relacionadas, o Dallagnol responderá a uma acusação de atuação política e quebra de decoro em um processo administrativo instaurado pelo corregedor nacional do MP, Orlando Rochadel. Por incrível que pareça, a notícia publicada pelo Painel da Folha de S.Paulo informa que o processo em nada tem a ver com o escândalo da semana: a acusação se refere às postagens feita pelo procurador durante as eleições para a presidência do Senado no começo do ano.

Para todos os fins, a gente pode sorrir pensando que não somos o Padilha. Imagina como deve estar dormindo o diretor ao saber que investiu dinheiro na escrita e gravação de várias cenas para o seu seriadinho mostrando o ex-juiz conversando com gente da PF e do MPF sobre o andamento dos processos quando o certo mesmo teria sido só mostrar uns prints de telefone?


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #22: um grande pacto com a puta que te pariu

The following takes place between may-28 and jun-03


O pacto de Schrödinger 

Na manhã de terça-feira (28), Jair Bolsonaro se reuniu com os presidentes do Supremo, do Senado e da Câmara para anunciar a criação de um novo pacto entre os três poderes (e tomar um cafezinho). O acordo, segundo informado, envolve temas como a reforma da Previdência e a criação de uma política nacional de segurança.

iniciativa do presidente, tomada dois dias após os seus cães de guarda saírem às ruas para brigarem contra os outros poderes, não valeu por 24 horas. No mesmo dia, Bolsonaro tentou lembrar a Rodrigo Maia que a sua caneta Bic é mais poderosa que a Montblanc utilizada pelo presidente da Câmara.

Eu perdi algo ou agora é o Bolsonaro quem coloca os pedidos de impeachment para tramitar?

Para todos os fins, não há a possibilidade de um presidente revogar um decreto utilizando outro decreto. Nem que seja para transformar reserva ambiental – em que ele foi pego pescando ilegalmente – em parque temático, com vista exclusiva para uma usina nuclear de funcionamento duvidoso. 

A Associação de Juízes Federais notou que essa coisa de pacto com todos os poderes não tem lá muita legalidade. Como bem lembraram os usuários de toga, não cabe ao Supremo realizar acordos políticos, especialmente se envolverem o julgamento da constitucionalidade de propostas no futuro (mas se for para retirar a descriminalização do uso e porte de drogas e a criminalização da homofobia das pautas da corte, pode).

Ao contrário do que pensa o presidente, o único “lado certo” que o Supremo deve se posicionar é o lado da Constituição brasileira. Não cabe ao judiciário ser consultor das ideias tresloucadas do Planalto. Parece óbvio, mas estamos falando do governo do homem que mal sabe ler um teleprompter

Também não há como os presidentes do Senado ou da Câmara subscreverem os programas do Executivo, como se fossem as agendas das casas legislativas. Não só é uma postura pouco saudável para a democracia, como também é algo difícil de ser realizado.

O pacto que o país precisa já existe. É a Constituição de 1988. Qualquer coisa além disso é conversa mole de governante buscando um photo op para o seu governo.

Sobra democracia em Brasília

O pouco autoritário e muito liberal governo Bolsonaro mandou avisar, por meio do seu Ministério da Educação, que “professores, servidores, funcionários, alunos, pais e responsáveis” não podem incentivar a participação de pessoas em protestos a favor da educação. Também informa, por meio da AGU, que “não pode haver professor sendo tendencioso, que atue como militante” no ambiente acadêmico.

André Mendonça avisou ao país e ao STF que, no entendimento do Planalto, “professores precisam ter um comportamento imparcial”. O blog recomenda a leitura de Foucault para os membros do governo, e lembra: os regimes totalitários pelo menos eram mais elegantes quando tinham os seus delírios autoritários.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Partido Novo digievolui para PSL Prime 

Quem chamou o partido Novo de PSDB Personnalité nos primeiros anos de sua vida deveria fazer um mea culpa. A cada live no Instagram a legenda parece, cada vez mais, com uma filial de luxo do PSL.

O ministro do Meio Ambiente é tão ruim, que conseguiu colocar pessoas que não se gostam sentadas em uma sala para falar mal dele. No Legislativo, o partido só não é mais fiel a Bolsonaro do que o próprio partido do Bolsonaro.

Em Minas Gerais, Romeu Zema continua mostrando que essa coisa de nova política não está com nada. Já avisou que pretende continuar pagando os seus secretários com jetons e não vai se obrigar a manter 70% dos cargos comissionados nas mãos de servidores concursados.

Não seria um problema o governador pagar as pessoas que para ele trabalham. O blog é contra essa ideia de que você pode trabalhar em troca de reconhecimento.

Mas não faz um ano que Zema deixou registrado em cartório que ninguém receberia salário, pelo menos até o pagamento dos profissionais concursados e dos pensionistas ser regularizado. Uma medida que, pelo visto, não só não será cumprida como também será tratada com o mesmo carinho que a minha gata trata os brinquedos que eu compro para ela.

Talvez seja uma boa ideia o serviço de consultoria contratado pelo partido para buscar candidatos a prefeito parar de focar em gente rica. Se os consultores começarem a trabalhar procurando pessoas que conheçam a administração pública, as chances de o Novo passar vergonha nos próximos anos serão muito menores.

O Novo já deixou claro que pobre não tem o perfil necessário para realizar política dentro da legenda. Assim sendo, que pelo menos tentem escolher candidatos que não farão promessas imbecis por puro desconhecimento da máquina pública, e que inevitavelmente se transformam em estelionato eleitoral.

Gang bang político

Enquanto a Joice Plagelmann e a Carla Zambelli brigam em praça pública, Alexandre Frota explode o PSL por dentro. O deputado federal não só avisou que Eduardo Bolsonaro não pode presidir a legenda, como também pediu uma auditoria completa das contas do partido.

Frota disse, com razão, que para o PSL ser um partido de verdade ele não pode ter “nome nem sobrenome”. Já Eduardo Bolsonaro acredita que o deputado e ex-ator pornô quer colocar “fogo no partido”. Uma forma bonita de dizer que frota quer foder com ele.

O blog apoia a iniciativa de Alexandre Frota. O deputado tem uma longa experiência em comer o cu alheio (sem areia e brita, infelizmente) e seria divertido ver como isso se daria em relação ao nome do Dudu (ou de outros membros de caráter duvidoso).

Osmar Terra e a luta contra a ilustração 

Nos últimos três anos, a Fundação Oswaldo Cruz gastou R$ 7 milhões de reais para fazer um censo sobre o consumo de substâncias lícitas e ilícitas no Brasil. Após descobrir que o resultado do trabalho não afirmava a existência de uma epidemia de drogas, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, atacou a instituição e proibiu a divulgação do levantamento.

Osmar Terra, que tem um diploma de medicina pela UFRJ, acredita que faltam critérios científicos para o trabalho, que vem a ser coordenado por um pesquisador que é core member do grupo da ONU em uso de drogas injetáveis e AIDS, professor honorário da Graduate School of Public Health, da Universidade de San Diego, nos EUA e “Outstading Reviewer” do College on Problems of Drug Dependence.

Para todos os fins, Sérgio Moro liberou o conteúdo, desde que o título fosse trocado de nome e as associações com o governo fossem removidas. Uma ideia que parece até boa, mas que pode gerar problemas para a Fiocruz.

O incrível caso do governo que até calado se posiciona de forma merda 

Há pouco mais de uma semana, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim, localizado em Manaus, acordou manchado de sangue. 15 pessoas foram mortas durante o período de visitação de familiares em função de brigas entre facções. 

A briga fez parte de um ciclo de assassinatos que ocorreram em presídios do estado., e entre domingo e segunda-feira, as cadeias do Amazonas registraram a morte de 55 detentos. O problema, aliás, já tinha sido avisado pela ONU em 2015.

Há, conforme lembrou Reinaldo de Azevedo, 70 organizações criminosas que operam no sistema prisional, matando, recrutando e garantindo que o número de mortes no país aumente. Tudo isso sem a facilidade para a compra de armas, que é o sonho do presidente.

A estes presos e aos familiares mortos, o presidente opta pelo pacto do silêncio. Já o ministro da Justiça, usou a morte de pessoas como palanque para as suas ações.

A postura porca do governo ocorre por todos os mortos serem perigosos comunistas? Eles merecem o tratamento desumano adotado no caso de Evaldo Rosa dos Santos?

Afinal de contas, Jair precisou de cinco dias para lamentar a morte do pai de família pelas mãos de militares. Já o MC Reaça, que se matou após descobrir que a sua amante (que ele também tentou matar) estava grávida, recebeu homenagem pública cinco minutos após a divulgação de sua morte.

O filho feio e sem pai chamado “articulação política do governo Bolsonaro” 

Bolsonaro foi deputado por quase 30 anos, um período muito maior do que outros presidentes brasileiros tiveram para aprender a lidar com o Congresso. Aparentemente, isso não foi o bastante para o cunhado de miliciano aprender como o governo funciona.

Enquanto perde tempo acusando o “centrão” (do qual fez parte) de não apoiar cegamente as suas agendas, o Executivo só conseguiu aprovar 1 de suas 27 proposições no Congresso. Nos últimos seis meses, quando as péssimas ideias não caducavam, elas eram reprovadas por simples falta de articulação de um Planalto que, pelo visto, acredita que os seus projetos tornam-se realidade na base da hashtag.

Tanto é verdade que, quando quer, o presidente consegue aprovar as suas ideias. Na segunda-feira (03), por exemplo, a MP do pente fino no INSS passou no Senado, após o Planalto fechar um acordo com partidos de oposição em torno da aposentadoria rural. Bastou conversar.

É sabido que, para o bolsolavismo, é conveniente o discurso de vítima do sistema. Mas a tese do bode expiatório tem os seus limites, como vários políticos viram no passado.

O presidente cai em contradição quando é forçado por Rodrigo Maia a anistiar multas aplicadas a partidos políticos, mas por outro lado, quando Bolsonaro sai do Planalto para prestigiar homenagem a humorista na Câmara, sem seguranças, e fode com a organização de todas as reuniões já agendadas por Rodrigo Maia, ele só está sendo bem grotesco.

Aliás, grotesco é o termo que define todos os passos da articulação do governo e a sua relação com qualquer outro poder. Basta lembrar, conforme narrou Matheus Leone no Twitter, como foi a votação da MP do pente fino do INSS na Câmara: enquanto o Major Vitor Hugo implorava para o PSL aprovar a Medida Provisória como enviada pela equipe técnica do próprio governo, os deputados do partido se debatiam contra o uso da palavra “gênero” para definir o gênero de quem cair na malha fina da Previdência.

A votação, por sinal, só saiu após o Planalto abandonar a MP do Código Florestal. Afinal de contas, no dia anterior, o governo foi incapaz de organizar a sua base para montar o quórum necessário para votar a medida contra o meio ambiente e a MP 871.

Nem Major Olímpio, líder do PSL no Senado, aguenta mais. Já são públicas as reclamações de falta de apoio da Casa Civil durante as votações, a ausência de orientações sobre o que deve ser defendido e quais são os discursos que podem ser utilizados. Imagina se ele não fosse líder do partido do presidente.

O mais incrível é que, enquanto Bolsonaro faz a sua palavra valer menos do que um pastel de queijo com caldo de cana, os novos estadistas do país são aqueles que, anteriormente, seriam considerados a escória da política.

Nem seis meses de governo e Bolsonaro já transformou a leitura de jornais no café da manhã o hate fuck do povo brasileiro.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Revisado pela Marinna e editado pela Luana.

A Nova Era – semana #21: a República da live no Instagram

The following takes place between May-21 and May-27  


Um golpe lento, gradual e inseguro? 

A semana começou ainda curtindo os efeitos do textinho compartilhado por Bolsonarochamando o país de ingovernável. Apesar de tentar negar que o filho feio não tinha pai, a mensagem estava “em consonância com o pensamento” do presidente, conforme afirmou o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros.

Sem uma base para chamar de sua e já colocando a palavra impeachment bem na frente das nossas saladas, o projeto de Fujimori resolveu governar da maneira mais populista possível e, se achando o próprio Ciro (o Grande, não o político cearense e xingador profissional), chamou o povo para fazer uma proto-guerra de proxy, e ir às ruas contra o Congresso e o STF. Afinal de contas, o fim do “toma lá, dá cá” não poderia ser feito na base de uma articulação republicana.

A ideia pegou tão mal, mas tão mal, que até mesmo os bolsonaristas de primeira ordem resolveram brincar de serem sensatos. Janaina Paschoal acusou o presidente de estar se alimentando de conspiração, e os meninos do MBL entraram para a lista de comunistas, avisando que não apoiariam esse tipo de postura (felizmente a internet tem memória e a atitude republicana dos anjos sem asa não durou uma semana). 

O Vem Pra Rua e o Nas Ruas se uniram ao MBL e também avisaram que não estariam no ato golpista. Apesar do apoio a pautas do governo, a coordenadora do Vem Pra rua e o porta-voz do Nas Ruas acusaram a manifestação de “confusa e dispersa” e negaram envolvimento na sua organização. Lambe botas de militar, para eles, só serve se for para pedir impeachment de político petista. 

Deputados também lembraram a loucura que é um governo partir para cima dos outros poderes, e o deputado Marcelo Ramos (PR), afirmou que o protesto “a favor da reforma contra quem é a favor da reforma” é “surreal”

No Senado, Rose de Freitas (Pode-ES) afirmou que o governo “não deixa o Congresso trabalhar” e chamou os líderes de ruins de serviço. Já Omar Azis (PSD-AM) chamou Bolsonaro para mostrar o pau que ele quer usar para matar cobras, e pediu que o presidente afirmasse quem estava fazendo chantagem. Otto Alencar, por fim, lembrou que todas as trapalhadas do governo foram provocadas pelo próprio governo.

O jornal Estado de São Paulo, o veículo com o melhor papel para limpar botina de militar do Brasil, começou a se perguntar se há um presidente no país. Parece que aquela decisão em outubro do ano passado não era tão difícil, né?

Na noite de sexta-feira (18), as ex-BFFs Carla Zambelli e Joice Plaglemann partiram para o tapa (virtual) no twitter, e passaram horas discutindo quem lambia mais a bota de Bolsonaro. Enquanto Joice mostrava que o couro brilha mais com a sua saliva, Carla cobrou da deputada (e plagiadora nas horas vagas) a presença nos atos de domingo.

No domingo (19), Eduardo Bolsonaro afirmou que não havia “nada mais democrático do que uma manifestação ordeira que cobra dos representantes a mesma postura de seus representados“. Quem lesse o tweet sem saber a autoria, poderia pensar que a postagem era uma referência aos atos contra os cortes de verba do MEC, e não uma manifestação do fascismo cultural.

Flávio Rocha, do Brasil 200 (e da Riachuelo), resolveu ficar em casa. O presidente do PSL, Luciano Bivar, também falou que seria melhor ver o filme do Pelé. Jair Bolsonaro, no final das contas, ficou em casa vendo as vídeo cacetadas do Faustão enquanto Carluxo atualizava o Twitter do pai com postagens de apoio à manifestação.

As manifestações de domingo foram horríveis, mas menos horríveis do que imaginávamos. Ver que o número de adoradores do Bolsonaro é menor do que o esperado (mas ainda é alto o bastante para ocupar uma faixa da Avenida Paulista), é tão bom quanto descobrir que você só precisará perder dois dedos e não uma mão inteira após um acidente.

O que a nova direita não entende é que, salvo os deputados do PSL e os governistas não oficiais do Novo, em nenhuma normalidade democrática alguém é obrigado a se unir a favor de um governo just because. Rodrigo Maia faz o que pode para a votação das reformas e outros projetos passarem, mas a articulação de uma reforma a favor, porém, deve ser feita pelo Planalto.

Bolsonaro chegou ao poder prometendo acabar com a venezuelização do país, mas ao contrário dos governos de Hugo Chaves e Nicolás Maduro, o presidente não esperou muito tempo para convocar os seus apoiadores para pressionar, nas ruas, os outros poderes a agirem conforme o desejo do Executivo.

Afinal de contas, o apoio do presidente aos protestos de domingo, ainda que se faça de inexistente, é claro. Tentar traçar tais manifestações como republicanas em função de meia dúzia de cartazes a favor de uma reforma que passará de qualquer jeito é fingir que o bolsolavismo é um movimento democrático e não um agrupamento de viúvas da ditadura.

Se o bolsolavismo quer um Congresso, um judiciário e uma imprensa que se curvem às vontades do mandatário executivo, talvez seja interessante buscar uma coroa em Petrópolis e transformar Jair Bolsonaro em um novo Luís XVI. Mas tomem cuidado: certamente há alguém disposto a amolar a lâmina de uma guilhotina nos rincões do país.

Uma guinada parlamentarista lenta, gradual e segura? 

O flerte com o “tudo ou nada” de Bolsonaro, naturalmente, não foi bem recebido por quem bate ponto na Câmara. A insistência no confronto azedou ainda mais uma relação, que já não tinha um gosto tão bom assim, com os parlamentares brasileiros e nos fez subir mais dois degraus na escadinha que vai em direção ao parlamentarismo branco.

Após colocar para tramitar a própria reforma da Previdência e a própria reforma tributária, Maia percebeu que não precisaria falar com quem já não falava tanto assim. Diante de mais um ataque indireto do Major Vitor Hugo, o presidente da Câmara afirmou que não há mais meios para consertar a relação com o líder do governo.

Talvez o homem que pode, a qualquer momento, colocar um impeachment para rodar, tenha cansado de explicar aos membros do governo (e seus apoiadores) como a política realmente funciona. Nesse clima amigável, a Câmara começou o dia 22, os trabalhos de votação da Medida Provisória 870 (aquela que validaria as mudanças nos ministérios feitas pelo governo no começo do ano).

Sai das asas de Damares Alves a Funai e dos braços de Sérgio Moro a Coaf (mas não para ir parar mas mãos do Fernandinho Beira-Mar). Em troca, o Centrão deixou de recriar os ministérios da Integração Nacional e das Cidades. Além disso, os auditores da Receita Federal ficariam proibidos de comunicar qualquer investigação sobre crimes financeiros.

A votação, naturalmente, foi tão bagunçada quanto qualquer coisa que envolve esse governo. Os deputados governistas pegaram em seus telefones e começaram a brincar de vlogueiros para convocar a sua militância a fazer pressão pela internet. Rodrigo Maia não curtiu muito e terminou a sessão antes que a MP 870 fosse votada.

A criação do Ministério das Cidades tinha sido acordada entre os principais líderes políticos do Executivo e do Legislativo. Ao ignorar esse acordo, o presidente minou ainda mais a sua capacidade de articular projetos nos próximos anos e, de quebra, deu mais motivos para deputados e senadores ignorarem os pleitos do Planalto.

Apesar dos pesares, Bolsonaro conseguiu passar o projeto pelo Congresso. Sobre a votação do texto no Senado, o presidente pediu com jeitinho para que os Senadores não mudassem nada do que os deputados tinham decidido. Falta só combinar com o PSD, que já tinha anunciado a vontade de apoiar a manutenção da Coaf com Moro.

O fato é que os deputados moderados que estão a favor das reformas já não escondem mais a sua insatisfação com o Planalto. Enquanto Jair torna a sua caneta Bic irrelevante e os deputados do PSL fazem picuinha com bobagem, o Congresso se fortalece na luta entre os poderes, que só existe porque o governo é burro demais para cumprir a própria palavra por 24 horas. Depois a gente vira parlamentarista e ninguém entende o motivo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

A nova direita é brega e mentirosa 

Witzel, Caio Coppola, Fábio Morgenstern e Joice Plagelmann. O que todos têm em comum? Uma crise de identidade pesada.

O governador do Rio de Janeiro foi pego mentindo no próprio lattes na última semana. O doutorado em Harvard nunca foi cursado, mas, para o ex-juiz, é uma fake news afirmar que ele não fez o que, no final das contas, não fez.

Se o governador mente onde estuda, Joice Plagelmann mente sobre o que escreve para se fazer da boa jornalista que nunca foi. A deputada do PSL tem um desejo incansável de usar ideias alheias, seja na hora de publicar matérias ou na hora de fazer Projetos de Lei. Seria Joice uma ancap que não acredita em propriedade intelectual?

Já Caio e Fábio adotaram “nomes artísticos” desde o começo das suas carreiras como comentaristas conservadores. Certamente uma tecnicalidade, como diria Caio. Não uma tentativa de esconder negócios paralelos.

A nova direita não é apenas brega. Ela mente o seu nome, mente a sua formação e mente sobre o que escreve. Para um grupo conservador que adora posar a favor da verdade e da moral, é bastante engraçado vê-los sendo pegos com “as calças arriadas” por aí.

É uma pena, porém, que ninguém perde o emprego na Jovem Pan ou no governo carioca por pequenas mentirinhas.

Um meltdown governamental lento, gradual e seguro? 

O saldo da semana é de que o governo continua perdendo força, e deixando de fazer política para brincar de briga de espadas. O que é um problema tanto para Bolsonaro, quanto para as nossas instituições e o país.

Existem hoje 143 deputados declaradamente na oposição. Para barrar projetos que demandem uma emenda constitucional, por exemplo, são necessárias apenas outros 62 votos contrários. Troco de bala.

No contexto em que a palavra impeachment está na boca não só do presidente, cai bem tomar cuidado e evitar que a corda que ele colocou em seu pescoço fique mais apertada.

A pressão que uma meia dúzia de abobados fez contra o Congresso nos últimos dias pode, a qualquer momento, se virar contra o próprio presidente. Basta lembrar o que aconteceu com Michel Miguel e Aécio Neves, em um passado não tão distante assim.

O governo já chega em seu sexto mês e, até agora, há pouco sinal de melhoria ou de avanço real nas principais promessas de Bolsonaro. A menina dos olhos de Sergio Moro, por exemplo, acumula mais poeira do que a boneca Annabelle no porão da casa de Ed e Lorraine Warren. Bobo é pensar que o bolsolavismo precisa de um Bolsonaro para continuar sobrevivendo: ele não chegou aqui com ele e, definitivamente, continuará aqui sem ele.

O governo já chega em seu sexto mês e, até agora, há pouco sinal de melhoria ou de avanço real nas principais promessas de Bolsonaro. A menina dos olhos de Sergio Moro, por exemplo, acumula mais poeira do que a boneca Annabelle no porão da casa de Ed e Lorraine Warren. Bobo é pensar que o bolsolavismo precisa de um Bolsonaro para continuar sobrevivendo: ele não chegou aqui com ele e, definitivamente, continuará aqui sem ele.

Não adianta Paulo Guedes aparecer nas páginas da Veja afirmando que o país pegará fogo se a reforma da Previdência não for aprovada, as mudanças no sistema previdenciário por si só, não criarão um cenário sólido o bastante para o país retomar o seu crescimento.

O ministro está certo ao dizer que o país pegará fogo se o cenário econômico não melhorar nos próximos anos. O que ele não nota, porém, é que enquanto ele estiver no seu jatinho em direção a um paraíso fiscal para chamar de seu, a principal fonte de fumaça será a casa em que Bolsonaro dorme.

Bolsonaro trucou. As “vozes cínicas do establishment” trucaram de volta e metade do Brasil continuará fazendo cocô no fundo do quintal.


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Escrito pelo Guilherme. Revisado pela Marinna e editado pela Luana.