A Nova Era – semana #23: país rico é país sem brasileiro

The following takes place between may-04 and jun-11


As notícias que parecem da semana passada, mas não são 

Em 23 semanas de Nova Era, algumas coisas se tornaram repetitivas. Então, vamos começar uma pequena sessão aqui no blog focada apenas nesses pontos, pois já está bom de repetir o mesmo argumento toda semana. 

Vamos começar com gente do Legislativo apontando como o governo é muito ruim, até em fazer o básico do básico. Na noite de domingo (02), por exemplo, Rodrigo Maia afirmou que falta ao Planalto uma agenda para o Brasil, que aumente a produtividade da economia, crie empregos, dê remédios a quem precisa e melhore a qualidade da educação. 

O carioca também negou que o pacto dos três poderes foi fechado, afirmando que “o Onyx Lorenzoni avançou na informação sem uma construção política amarrada. Ele entregou um documento, ninguém leu, e ficou parecendo para a sociedade e a imprensa que a gente fechou aquele pacto. Zero verdade nisso.” 

Já Alcolumbre disse que o governo comete trapalhadas diariamente, e tirou do Planalto os méritos de uma futura aprovação da Reforma da Previdência. O que não deixa de ser verdade, uma vez que o próprio Bolsonaro acha que, uma vez entregue um projeto ao Congresso, ele deixa de ser problema do Planalto.

Como os bots do Bolsonaro tiram folga no final de semana, não teve hashtag no Twitter atacando Maia ou Alcolumbre. Também é possível que os responsáveis por acionar as postagens em série tenham se lembrado que precisam engolir ambos por mais dois anos.

Fazendo coro a Maia, o presidente da comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, Marcelo Ramos, também lembrou que falta a noção de prioridade para Bolsonaro. No seu Twitter, o deputado se queixou que Bolsonaro visita a Câmara para mudar o Código de Trânsito, mas não para ajudar na aprovação da reforma. Não é como se a aprovação do projeto estivesse garantida

Os militares seguem atuando como a voz moderada do governo. Segundo apontaram Vinicius Sassine e Bernardo Mello Franco, os generais próximos a Bolsonaro continuam tentando fazer o presidente deixar de ser um fantoche dos olavistas. 

Por fim, o PSL segue sendo uma bagunça. Na última semana o Major Olímpio, líder do PSL no Senado, partiu para cima da Joice Plagelmann (frase não literal), líder do governo no Congresso. O bate boca ocorre após o partido não cumprir o acordo firmado entre os seus membros, logo na primeira sessão conjunta das casas legislativas

Certas partes do noticiário se tornaram uma temporada da série Russian Doll. A diferença, aqui, é que morremos apenas de desgosto no final do dia. 

Never go full Ayn Rand 

Bolsonaro andou lendo A Revolta do Atlas, e o resultado vai te surpreender. Na terça-feira, o presidente atravessou as ruas de Brasília, bateu nas portas do Congresso, e entregou um projeto de grande importância para o cenário atual: um conjunto de alterações no Código de Trânsito Brasileiro

Se tudo der certo (para o “governo do revide”), em alguns meses o Brasil será o país em que: 

O presidente, que já anunciou o fim dos radares nas estradas federais dizendo que “ninguém é otário de fazer curvas em alta velocidade”, afirmou que os pais são completamente responsáveis e sabem que é importante levar os filhos em seus carros utilizando a cadeirinha.

O blog considera fofa a fé que Jair tem na inteligência do brasileiro, principalmente por terem sido as pessoas que nasceram na Terra de Santa Cruz as responsáveis por darem a ele cargos eletivos nas últimas décadas. 

Felizmente não há boa vontade dos agentes políticos brasileiros em apoiar essa sandice. Paulo Douglas, que é um dos autores da Lei do Descanso dos Caminhoneiros, chamou o texto de retrocesso imenso, e pretende contestá-lo na justiça.

Já a deputada Christiane Yeared, da base do governo, lembrou que, no mundo real, multa sai mais barato do que caixão. Também afirmou que, o custo das lágrimas que escorreram pelo rosto dela após o filho dela ser atropelado por um ex-deputado certamente deve ser menor do que o de uma cadeirinha infantil.

Houve liberal que apoiou a ideia do presidente, baseando-se no argumento de que o Estado não deve impedir alguém de ser imbecil. Houve também aqueles que afirmaram que as pessoas são completamente capazes de não colocarem a própria vida (e a vida de seus filhos) em risco.

Afinal de contas, qualquer pai responsável compraria cadeirinhas para as suas crianças após vaciná-las no posto de saúde mais perto de sua casa. Não é como se existisse gente por aí dando alvejante para os seus filhos.

Também houve aquele que confia plenamente na mão invisível do mercado, e disse que as empresas não contratariam motoristas que dirigem com o cu cheio de rebite. Todos falharam em informar como o resto da população se protegerá dos motoristas que não dirigirem sóbrios (responsáveis pela morte de muita gente), e de onde sairão os recursos para as crianças com pais pouco cuidadosos comprarem as suas próprias cadeirinhas. Elas pouparão o dinheiro da merenda para se protegerem por conta própria?

Cabe aos liberais (ou libertários) tupiniquins pararem de ir full Ayn Rand na defesa das suas ideias. O brasileiro é, foi, e continuará a ser muito burro. Basta lembrar o que jornalistas falaram quando o Maluf disse que não é legal andar por aí soprando fumaça no coleguinha.

Aliás, volta, Maluf! Entre um filhote da ditadura que comete corrupção de pobre e um que comete corrupção de rico, mas sabe que liberalismo não é bagunça, eu fico com o segundo. 

Liberalismo: tem, mas desgringolou

A história do liberalismo no Brasil é escrita em linhas mais tortas do que o traçado da BR 381. Quando não há gente falando que protecionismo econômico é livre mercado, os guardiões da Constituição resolvem apoiar a busca por atalhos para aumentar a liberdade econômica nacional. 

Pelo menos é essa a impressão que o STF passou ao liberar a venda de subsidiárias de estatais sem o aval do Congresso. Ignorando o que diz a Constituição brasileira, os gloriosos ministros fizeram um rebosteio argumentativo para justificar a possibilidade de o governo vender uma empresa, de maneira até então ilegal.

Veja bem, o blog não tem nada contra a venda de empresa pública. A depender dele, uma boa parte das estatais deixariam de existir, começando pela Infraero (vendam a Infraero. Eu não aguento mais a Infraero).

Mas se o governo quer mesmo sair por aí sendo malvadão e promover o desmonte da máquina pública, que o faça da maneira correta. Que mandem um projeto para modificar a lei vigente e, com isso, reduzir as chances de outras vendas pararem na justiça.

Pedir para o STF legislar só diminui (em vez de aumentar) a segurança jurídica que é necessária para avançar o processo de desestatização, que começou lá com o Collor. Não custa nada a Corte mudar de ideia e, em alguns anos, avisar que não pode mais vender subsidiária da Petrobrás sem o apoio do Congresso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Liberal na economia, conservador de ideias ruins em tempo integral 

Bolsonaro lembrou que existem outros países na América Latina além da Venezuela. Após viajar para comer fast food nos EUA e falsificar a história em Israel, o presidente passou um tempinho na Argentina contando novas mentiras.

Na visita, Bolsonaro pediu que os nossos hermanos votassem “com muita razão e menos emoção“. Afinal de contas, já basta ele como imbecil de marca maior ocupando um cargo importante na região.

Após demonstrar que a educação da ditadura militar não é das melhores, o presidente anunciou um novo desejo imbecil: a criação de uma moeda comum entre os dois países, o “peso real”. A ideia é tão ruim, mas tão ruim, que fica difícil comentar sobre. Felizmente, o Banco Central do Brasil avisou que isso não é algo a ser levado a serio. Mesmo assim, Jair insistiu na ideia.

O fato é que a saga do presidente para destruir tudo o que foi criado após a ditadura não tem fim. Se o próximo alvo é o Plano Real, que finalizou com a hiper-inflação crônica do país, o blog, na posição de tiete do Plano Real, considera isso um motivo para impeachment.

No dia do meio ambiente quem derruba árvore é você 

O leitor sabia que o desmatamento é a questão ambiental que mais preocupa o brasileirinho? O blog não. E, a julgar pelas medidas tomadas pelo ministro do Meio Ambiente, o chefe da pasta também desconhece o dado.

Segundo a pesquisa global Earth Day 2019, o tema é mais importante até do que o aquecimento global. A informação foi divulgada na mesma semana em que o governo afirmou que insistirá em aprovar as mudanças no Código Florestal, que o Senado já falou que não quer fazer. Se sobrar tempo, Bolsonaro também tentará encontrar uma forma de extinguir parques ambientais por decreto.

Mas essa não é a única medida do governo brasileiro nas últimas semanas com a desculpa que ele não pode atrapalhar o coleguinha a destruir floresta. Veja algumas das coisas que o blog esqueceu de citar sobre a atuação do ministro, acusado de improbidade administrativa:

Não é de surpreender que o desmatamento da Amazônia tenha explodido nos primeiros meses de 2019. Quando Bolsonaro diz que a missão do seu governo é “não atrapalhar quem quer produzir“, ele está apenas tendo um impulso de sinceridade e humildade. No que depender da sua administração, a Amazônia se transformará em uma grande mistura de pasto e plantação de soja. Transgênica e com muito agrotóxico, se possível. 

E se depender do ministro responsável por cuidar do Meio Ambiente e do agronegócio nas horas vagas, não sobrará um centavo para as atividades que garantirão um futuro com ar respirável para os nossos filhos. Nessas horas, cabe a gente comemorar a existência de Sergio Moro. O ministro da Justiça liberou mais verba para o FDD. O aumento de 1.650% nas verbas auxiliará na criação de um modelo de avaliação de riscos para o uso de agrotóxicos no Brasil, e reduzir o impacto causado pela sua aplicação no meio ambiente

A Alemanha já notou que Bolsonaro só quer beber agrotóxico e cortar árvore. Os europeus avisaram que, a depender dos movimentos dos próximos meses, a sua carteira ficará fechada para o financiamento de um dos mecanismos mais antigos de proteção a floresta da Amazônia. A Noruega também já está mexendo os seus pauzinhos para impedir o governo de continuar a fazer merda.

O presidente pode continuar mentindo por aí e falando que o Brasil é um país que protege o meio ambiente com muito afinco. Enquanto existir imprensa livre nessa nação, poderemos acompanhar com cuidado as incisivas tentativas do seu governo para acabar com o nosso futuro.

A mulher de César caiu na net 

Há um ditado que diz que, a mulher de César não só deve ser honesta. Ela também deve parecer honesta. O blog, inclusive, já se utilizou dele para fazer título de postagem. Os membros da operação Lava Jato e o ministro Sergio Moro deveriam conhecê-lo.

Na noite de domingo (09), a versão brasileira do The Intercept começou a publicação de uma série de reportagens detalhando as relações entre Deltan Dallagnol e o atual ministro da Justiça. O material, colhido por uma fonte anônima, mostra como o ex-juiz aconselhou o funcionário do MPF, as articulações dos servidores públicos para impedir que o ex-presidente (e agora portador de um pau duraço) Lula desse entrevistas, e até mesmo as dúvidas que os concurseiros tinham sobre a sua capacidade de mostrar que o petista era o dono do tríplex mais famoso do Guarujá.

A força-tarefa da Lava Jato logo publicou uma nota em que não desmentia o conteúdo das publicações do site de Glenn Greenwald. Também afirmou que elas não revelam qualquer ilegalidade (mas nada falaram sobre o nível de ética das articulações feitas com o apoio do ministro da Justiça).

Os concurseiros também afirmaram que a sua atuação foi revestida de “legalidade, técnica e impessoalidade”. Marco Aurélio Mello discorda.

O mesmo MPF também afirmou que a pessoa responsável pelos vazamentos “praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público, à vida privada e à segurança” dos investigadores. Imagina se os servidores do órgão tivessem a mesma opinião quando alguém resolve divulgar conversa de jornalista com fonte, hein?

Os servidores públicos (que regularmente forçam a barra no entendimento da lei) também afirmaram que foi uma injustiça não terem sido contactados pelo Intercept antes da publicação da notícia. É sempre bom lembrar que a liberdade de imprensa existe e, em geral, empresa privada não é obrigada a seguir as vontades de concurseiro.

A força tarefa se queixou que os jornalistas do Intercept não são imparciais, algo que qualquer estudante de comunicação social do primeiro período do curso sabe que não existe. Imparcialidade, aliás, é devida aos juízes, que não devem prestar serviços de consultoria jurídica nos sábados, domingos e feriados.

Indo além, afirmaram que ultrapassar os limites de respeito às instituições e às autoridades é algo que prejudica a sociedade em vários níveis. Quem vê pensa que os concurseiros estavam falando daquele vazamento de ligação da Dilma com o Lula uns anos atrás.

Jornalista tem mais é que vazar dado de interesse público mesmo. O próprio Dallagnol já reconheceu isso quando foi de seu interesse, e da mesma forma, Sergio Moro lembrou que não podemos culpar jornalista por divulgar material vazado por terceiros.

Sergio Moro disse, no Twitter, que há “muito barulho”, e que uma “leitura atenta revela que não tem nada ali, apesar das matérias sensacionalistas”. Afinal de contas, o responsável por julgar criminhos orientar as pessoas responsáveis por apontar quem comete ilegalidades a fazer o seu trabalho é super normal.

Se os envolvidos no escândalo queriam parecer honestos e imparciais, o fizeram muito mal. Se parabenizar após uma manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff, afirmar que quer “limpar o Congresso,” e indicar até a ordem correta para a realização de operações está longe de ser algo ético. E não é só o blog que diz isso: a OAB também achou as ações dos funcionários do judiciário muito feias, e pediu que eles se afastassem até que tudo fosse esclarecido.

Gilmar Mendes, aquele que pouco fez nos últimos anos para impedir que operações contra a corrupção não chegassem em poderosos, já avisou que “o fato é muito grave”. Também tirou a bunda de cima do processo que questiona a suspeição do Moro.

O Congresso já se articula para usar uma CPI para ouvir o ministro da Justiça, e discute se há a necessidade de quebrar sigilos. Enquanto isso, Toffoli, Alcolumbre e Maia se reuniram para discutir as publicações do Intercept.

Não me assustaria saber que, entre a noite de domingo e a hora da publicação deste post, muita gente presa na carceragem da PF em Curitiba gozou gostosamente, lembrando que, no artigo 254, inciso IV, do Código do Processo Penal, está registrado o “juiz dar-se-á por suspeito, e, se não fizer, poderá ser recusado por qualquer das partes se tiver aconselhado qualquer das partes”. No país da Operação Satiagraha, qualquer passo em falso é motivo para gente poderosa ficar longe da cadeia.

Até o momento, isso não aconteceu. Muitas das coisas que foram reveladas pela Lava Jato são tão sólidas quanto a água que serve de apoio para os patinhos do sítio de Atibaia nadarem.

Porém, os alicerces para bons advogados saírem por aí questionando a atuação de Moro e seus amigos começaram a ser cavados apenas nessa semana. Vai ser divertido acompanhar o Reinaldo Azevedo fazendo pirocoptero na Band News, enquanto o Intercept revela os outros 99% que sabe.

Vale lembrar que a frase “o juiz brasileiro, na fase de investigação, tem uma postura passiva, apenas examinando pedidos da autoridade policial, do Ministério Público e da defesa, como também o faz durante a fase de tramitação da ação penal” veio do mesmo servidor que foi pego com uma postura ativa, auxiliando e cobrando pedidos do Ministério Público para dar mais força às suas acusações. As revelações, portanto, podem não ter um impacto jurídico imediato, mas certamente representam um baque para aqueles que pretendiam manter a opinião pública ao seu lado.

Em notas não relacionadas, o Dallagnol responderá a uma acusação de atuação política e quebra de decoro em um processo administrativo instaurado pelo corregedor nacional do MP, Orlando Rochadel. Por incrível que pareça, a notícia publicada pelo Painel da Folha de S.Paulo informa que o processo em nada tem a ver com o escândalo da semana: a acusação se refere às postagens feita pelo procurador durante as eleições para a presidência do Senado no começo do ano.

Para todos os fins, a gente pode sorrir pensando que não somos o Padilha. Imagina como deve estar dormindo o diretor ao saber que investiu dinheiro na escrita e gravação de várias cenas para o seu seriadinho mostrando o ex-juiz conversando com gente da PF e do MPF sobre o andamento dos processos quando o certo mesmo teria sido só mostrar uns prints de telefone?


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #18: a pedagogia do rancoroso

Falta remédio e sobra imbecilidade no governo


Não vai ter golpe (ou luta) 

A última terça-feira (30) começou agitada. Jurando ter o apoio de alguns militares (não tinha), Juan Guaidó e Leopoldo López se uniram para convocar a população venezuelana a finalmente derrubar o regime de Maduro. A “Operação Liberdade” pretendia dar um fim definitivo a “usurpação”.

Ao longo do dia, alguns veículos militares avançaram contra pessoas, as redes sociais foram bloqueadas e 46 rádios foram fechadas, além de emissoras de TVs e 20 jornais. Enquanto isso, Maduro segue no poder.

projeto de intentona de Guaidó elevou o número de mortes registrados nos protestos pelo país. A contagem já passa de 50 pessoas só no ano de 2019 (e 80% dos casos estão relacionados com o trabalho das forças de segurança de Nicolás Maduro, que considera um “combate” a “qualquer força golpista”).

Guaidó acabou não conseguindo o que queria (por enquanto) e já começou a falar em medidas pesadas, como uma intervenção externa. No norte das Américas, o governo do EUA sorriu com a lambida gratuita de bolas.

Leopoldo Lopez, por outro lado, se deu bem: no final do dia, ele assistiu a única manifestação de Maduro sobre o tema direto da Embaixada espanhola, onde está exilado.

Do lado de cá da fronteira, Jair Bolsonaro afirmou em seu Twitter que o presidente da República (e somente ele) decidirá qualquer ação brasileira na Venezuela. Novamente, o presidente da Câmara e agora professor de Constituição, Rodrigo Maia, lembrou ao presidente que é “competência exclusiva do Congresso autorizar uma declaração de guerra”. Faltou a Bolsonaro comentar se o governo adotará uma postura humanitária com os novos refugiados ou fará um cosplay de Donald Trump, que tem mais poder de bala do que a gente.

O fato é que, seja como for, quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.

A Venezuela se tornou a versão moderna da Crise dos Misseis, com a Casa Branca e o Kremlin, disputando quem tem mais controle sobre o país. Mas assim como o nosso presidente se recusa a apontar um plano de ação para os refugiados que chegam na nossa fronteira, ambas as nações ignoram a proliferação de grupos armados paramilitares pró-Maduro, guerrilheiros colombianos, gangues de rua, soldados russos e espiões cubanos pelo território da Venezuela. O importante mesmo, como sempre, é o direito de explorar mais os petrodólares do país.

O espírito da balbúrdia

O novo ministro da educação está fazendo de tudo para dar razão àqueles que levam Darcy Ribeiro a sério: na gestão de Abraham Weintraub, o desmonte na educação virou um projeto. E a sua base é rancor, birra ideológica e loucura argumentativa.

Na última terça (30), o ministro informou ao Estadão que pretendia cortar verba de universidades que promoveram a “balbúrdia” em seus campus (carece de fontes) e não estavam “bem no ranking” (o que não é o caso). A medida surgiu, provavelmente, após algum estagiário lembrar que não há como descentralizar o investimento em humanas, como o presidente disse que o ministro faria em seu Twitter.

A Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade de Brasilia (UnB) e a Universidade Federal Fluminense (UFF) foram as três vítimas. Para o ministro, as instituições deveriam estar “com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo” (como promover debates com Fernando Haddad e Guilherme Boulos e “atos contra o fascismo”).

No dia seguinte, o ministro acusou os reitores das universidades públicas de serem intolerantes no Twitter. Weintraub, porém, falhou em mostrar provas de que os reitores estavam copiando as suas ideias e atitudes.

Como cortar verbas por viés ideológico não pode, o ministro estendeu o corte de verbas para todas as instituições de ensino federais usando como justificativa a diferença entre o investimento realizado em um aluno do ensino superior e do ensino básico. Logo depois, ampliou os cortes também para o ensino básico que não está nas mãos de militares.

Educação é coisa séria e merece um debate que vai além de birra e lacre reaça no Twitter. O ministro  poderia ser chamado de CEO do olavismo educacional e ministro da educação reversa. Weintraub constrói o seu apoio destruindo os símbolos daquilo que o Guru da Virgínia decidiu ser um dos maiores inimigos do governo: as áreas capazes de concentrar correntes de pensamento que vão contra as suas ideias malucas.

O ataque à posição de Paulo Freire como patrono da nossa educação se torna pequeno diante dos ataques que o governo já cometeu contra a rede pública, isso tudo em poucos meses. Felizmente tem faltado tempo para pensar no Escola sem Partido, mas o ministro chegará nessa pauta antes mesmo que as instituições de ensino parem de vez e os estudantes de engenharia assistam aulas sobre a Escola de Frankfurt.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

O ministério do não ambiente 

Não são só as caminhonetes do Ibama que pegam fogo. No que depender do ministro do diploma falso, toda política a favor da conservação do meio ambiente e do clima construída nos últimos anos virará pó em breve.

No dia 24 de Abril, três diretores do ICMBio saíram do seu cargo após o antigo presidente do instituto, Adalberto Eberhard, ser trocado pelo comandante da Polícia Militar Ambiental do Estado de São Paulo. Aproveitando a oportunidade, Salles terminou de trocar a diretoria nomeando mais militares e transformando o instituto de conservação ambiental em um batalhão.

Salles, o ministro com um passado duvidoso, concluiu com esse movimento mais uma etapa do seu processo de nomeação de gente com experiência não comprovada para a promoção das políticas de meio ambiente de Bolsonaro.

O ministro contratado para conservar, pelo visto, não sabe bem o que a palavra significa, mesmo fazendo parte de um governo conservador (pun intended). A pedido da base ruralista, Salles já estuda anular a criação do Parque Nacional (Parna) dos Campos Gerais. A maior floresta de araucária protegida do mundo corre o risco de ser explorada pela agropecuária e pela mineração (como se faltasse espaço para essas atividades no país).

Sobra convicção para Salles ajudar o país a destruir o meio ambiente e falta convicção para o ministro defender as suas ideias em ambientes que não sejam a dócil bancada do programa Pânico, na rádio Jovem Pan FM.

O governo novo, com gente semi-nova e práticas velhas sendo restauradas 

Romeu Zema chegou no governo prometendo muito, vendo ia cumprir pouco e se atrapalhando na tentativa de entregar qualquer coisa. As confusões são tamanhas que, após 100 dias de governo, eu confesso que o Novo deveria avaliar se ele não é um agente infiltrado para destruir a imagem do partido.

Se fosse para apontar os dedos para algum lado, aliás, eu diria que o empresário trabalha para o Partido dos Trabalhadores. Zema cometeu tantas trapalhadas enquanto tentava ser um simulacro mineiro de Bolsonaro que eu só consigo acreditar que ele foi treinado pelos petistas para impedir que o Novo ganhe espaço até na sindicância de um prédio na Barra da Tijuca.

A promessa de acabar com as práticas da velha política não durou muito tempo. O secretário do meio ambiente de Pimentel, por exemplo, foi mantido. O fato de ele estar indiretamente ligado às confusões que levaram Minas Gerais a ser palco de dois graves acidentes ambientais não foram suficientes para o processo seletivo do Novo ter barrado a nomeação de Germano Luiz Gomes Vieira.

Nas estatais, os mandatários indicados por Pimentel também foram mantidos e para completar as semelhanças administrativas, dois acusados de criminhos (nesse caso, estupro e prevaricação (e não um assaltante foragido, como fez o petista)) foram nomeados para os cargos de diretor regional e secretário adjunto. 

Aparentemente, essa história de processo seletivo para cargo comissionado só serviu para mostrar que a equipe de um provável governo Anastasia era muito boa, dada a quantidade de tucanos que agora frequentam a Cidade Administrativa. E que que há gente por aí querendo trabalhar em troca de reforço do portfólio, ao contrário do que o governador gostaria que fosse a realidade.

O cosplay de petista do Zema não para nas nomeações. Quando o seu governo começou a ser criticado por limpar as bolas de executivo da Vale e da Samarco com a glote e não solucionar os problemas fiscais de Minas Gerais, o dito liberal age segundo a cartilha petista de terceirização de culpa: matéria negativa sai n’O Tempo? Perseguição da família Medioli! A sua falta de capacidade de lidar com o dia a dia da política, que já foi motivo de crítica da base que não bem base, da oposição e dos deputados do partido? Culpa da velha política!

A realidade, é claro, bate no gabinete do governador com força e vontade. Evitando atrasar ainda mais a aprovação da sua reforma administrativa, Zema recuou sobre os cortes imbecis na escola em tempo integral (aquela que apoiadores afirmavam com empolgação que era um mal necessário e deveria passar a todo custo).

Essa (e outras alterações) foram chamadas de vitória pelo líder do governo. Afinal de contas, ter o seu projeto mais importante modificado nos pontos principais pela Assembleia só pode ser um bom sinal.

A grande questão, aqui, é que os problemas de Minas são urgentes. A redução de secretarias não se traduziu em maior eficiência administrativa e ainda gerou custos quando o governo viu que precisava recontratar quem demitiu. O Palácio das Mangabeiras (que o governador queria transformar em museu) segue gerando gastos (junto com os PMs que vigiam a sua casa na região da Pampulha quando ele não está fugindo de protestos).

Minas Gerais enfrenta uma das epidemias de dengue mais graves da sua história e o governo sequer corta a grama do próprio jardimVender os aviões da frota estadual não deu certo. Rapidamente o governo viu que isso não dá bilhão, pode sair caro e, no final do dia, o privilégio de ter um jatinho e um helicóptero de uso pessoal (mesmo que seja para entregar medalha para cuzãoé muito bom. Na verdade, é bom para caralho.

É de assustar o amadorismo do governo. Aécio Neves pode ser burro (e bonito (e imoral)), mas pelo menos soube se cercar de pessoas com boa capacidade de se articular politicamente e evitar o tipo de ideia imbecil que causa um impeachment (ou dois) fossem executadas.

Há quem trate governos como patos. Se esse for o caso, o governo de Romeu Zema está se mostrando um pato que quer ser cisne, não sabe nadar mas é ótimo na hora de ser demagogo.


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Escrito pelo Guilherme, editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #10: a literalidade do dedo no cu e da gritaria

Bolsonaro jura que não é fascista. Mas como todo populista reacionário, ele realiza um ótimo cosplay de Mussolini do século XXI quando lhe é conveniente.


Hoje eu acordei e deu uma saudade do Petê

A jornalista Luiza Bandeira reuniu no Twitter um conjunto de links que mostram como os maiores blogs pró-governo estão ligados ao partido do presidente. Assim como Caio Coppolla, parece que o Terça Livre não é muito livre, o Conexão Política está bem conectado com dinheiro da política e a República de Curitiba pode se encontrar com milicianos facilmente.

Políticos criando os seus próprios jornais para divulgar as suas opiniões não é algo novo no Brasil e em nenhum lugar do planeta, mas os petistas pelo menos faziam isso de uma forma mais discreta.

⬆️ protecionismo econômico ⬇️ liberalismo econômico

O episódio dessa semana do seriado “liberais que apoiaram Bolsonaro passando vergonha” teve o presidente dando uma banana pra abertura econômica: o presidente quer barrar a importação de banana do Equador.

O futuro avaliador da qualidade do ENEM diz não entender como uma banana sai do Equador e chega ao nosso país custando menos do que as frutas nacionais vendidas na Ceagesp. Alguém faltou nas aulas de economia enquanto batia papo com inocentes produtores do fruto amarelo, mas tudo bem, o blog explica com a ajuda do João Dória.

Na última semana, João Trabalhador anunciou uma redução (sim, mais uma) de impostos para a indústria automobilista. O que parece muito com liberalismo está mais para uma medida que cairia como uma luva no governo de Dilma Rousseff: um puro suco de protecionismo vertical direcionado a setores com maior poder de lobby.

Ao reduzir impostos de uma indústria com forte impacto ambiental, o governador de São Paulo está, mais uma vez, indo contra todos os pensamentos modernos de mobilidade urbana. Mas focando apenas nos fatores econômicos, Dória também ajudou a distorcer preços relativos, prejudicar a concorrência que se instala em outros estados e, em última instância, mantém o poder de compra do indivíduo limitado a uma meia dúzia de carros caros e de qualidade duvidosa. Adam Smith estaria orgulhoso.

E a democracia, hein?

Se os generais do governo ganharam um banho de loja, chegou a hora dos civis ganharem um banho de democracia.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mais uma vez esqueceu que o seu cargo foi criado para cuidar do meio ambiente (e não da vida alheia). Após uma coluna de opinião em jornal Alemão criticar o governo, Salles comparou a posição do colunista com o nazismo. Um dos trechos dizia:

São pessoas que agem e falam com arrogância e crueldade. São pessoas que riem quando morre uma criança de sete anos. Que comemoram quando a polícia comete massacres em favelas, quando morrem ambientalistas ou vereadoras negras. Pessoas que não conhecem a diferença entre flertar e assediar. Pessoas com relações com milícias. Pessoas que falam toda hora em Deus, mas mentem, xingam e difamam. Pessoas que gritam “zero corrupção!”, mas que são corruptas.

Questionado, o ministro informou que o veículo “atacou o governo brasileiro com acusações mentirosas e ofensivas”. Para outro internauta, Salles disse que “o DW é um canal público, não pode escrever essas coisas do Brasil”.

Ora, a Casa Civil não tem um beneficiário confesso de caixa dois? O ministro pode garantir que todos os membros do alto escalão sabem mesmo diferenciar assédio de paquera? Os Bolsonaros não homenagearam membros da milícia nos últimos anos? O Twitter presidencial não mente mais vezes do que um jovem usaria o banheiro após comer uma maionese artesanal na praia de Copacabana?

Antes de pautar a mídia de outros países, Salles deveria lembrar que, para isso, ou ele vira dono do próprio jornal ou se torna editor-chefe. No cargo de ministro, ele deve apenas aceitar as críticas que fazem parte do dia a dia de qualquer governante. A democracia tem dessas.

Enquanto isso, em um evento de militares, o presidente disse que as Forças Armadas são a instituição que garante a democracia no país. Me digam se eu estiver errado, mas a Constituição dá ao povo, e não aos militares, o poder de garantir a ordem democrática.

Não foi só o branco de cocar que atacou a imprensa, Bolsonaro também fez a sua parte no ataque a jornalistas, e dessa vez com ajuda do blogprog da pá virada Allan dos Santos.

Após uma péssima tradução, o “jornalista” acusou Constança Rezende de tentar destruir o governo. O presidente republicou a acusação, lembrando que ela é filha de um repórter carioca que publica, de maneira recorrente, matérias contra milicianos.

O site francês que originou a publicação desmentiu os dois no Twitter. Para alguém que ocupa o cargo político mais importante do país, Bolsonaro está precisando de umas aulinhas no CCAA, que seriam muito bem acompanhadas de um reforço no português de toda a família.

Pee tape à brasileira

O carnaval dos Bolsonaros foi agitado. Enquanto o Carluxo usa o Photoshop em suas fotos, o Bolsopai anunciava uma “Lava Jato da Educação”, falava sobre mudanças na Lei Rouanet e encontrava socialismo não light em lugares em que não há socialismo.

Mas o que chamou atenção dos internautas foi a divulgação de uma performance artística no carnaval, com direito a dedo no cu, gritaria e golden shower.

Alguns chegaram a cogitar impeachment por falta de decoro, algo que obviamente não acontecerá. Houve também quem questionasse até a saúde mental do presidente, e a base aliada teve vergonha.

Mas tudo isso é parte do seu plano e estratégia que, por sinal, tem dado muito certo.

Um conhecido uma vez disse, sabiamente, que política é entretenimento. E entretenimento é colocar todo mundo para falar de algo – seja bem ou mal. Isso, Carlos Bolsonaro, o ghost writer do Twitter presidencial, soube fazer muito bem.

Política é construção de narrativas. A política feita por Bolsonaro, Trump e similares tem como ponto de partida uma manipulação contínua do debate público a partir de divulgação de vídeos, como o do golden shower, ataques à imprensa e mentiras. Já é hora de nos acostumarmos a isso, isso se quisermos deixar de ter as nossas discussões pautadas pelo Tonho da Lua carioca.

A tucanização dos não tucanos

Se a esquerda e/ou o centro do espectro político pretendem voltar a governar o país um dia, chegou a hora de começar a olhar mais para o presente e não para o passado. O Brasil de Bolsonaro está muito mais próximo da Rússia de Putin (ou dos EUA de Trump) do que da Alemanha de 1940 ou o Brasil de 1964.

O Partido dos Trabalhadores, que recebeu a maior quantidade de votos contra-Bolsonaro na última eleição, está fazendo de tudo para perder o capital político mais rápido do que Aécio Neves após as eleições de 2014.

Segundo o Painel da Folha de S.Paulo, o partido pretende defender como contra proposta à reforma da Previdência de Guedes, as medidas que Fernando Haddad inseriu em seu programa de governo nas últimas eleições. Ao menos era o que o partido queria fazer antes de Gleisi Hoffmann ser consultada.

Alguém lembra quando o PT cobrava do PSDB uma oposição programática, que não fosse apenas “contra tudo isso que está aí”? Eu lembro. Era a mesma época em que o próprio líder do governo sabotava a Dilma no Congresso de manhã, e à tarde apontava o dedo para os tucanos e o resto da base aliada.

Falando em aliados, a mídia (e parte da militância progressista) resolveu brincar de shadow cabinet e criar um governo paralelo para criticar Bolsonaro e Guaidó. A iniciativa é liderada por José de Abreu, aquele que já cuspiu em mulher, disse que não era hétero só de brincadeira e chamou vietnamitas de um “povo filho da puta”.

Glesi Hoffmann, quando convidada, não perdeu a chance de ir até a Venezuela validar a “eleição” do projeto de ditador que governa o país. O coordenador do MST, aquele que o presidente quer criminalizar, também não deixou de apoiar o governo nada democrático quando lhe foi possível.

Se ambos querem ajudar a direita a grudar na esquerda uma imagem de movimento pouco democrático, eles merecem uma medalha: o trabalho está sendo realizado com louvor.

Eis o Brasil em 2019: a maior força contra o governo segue sendo o próprio governo. Na semana em que a reforma da Previdência começou a ser negociada no Congresso, o ministro da Casa Civil viajou por quatro dias para à Antártida.

Bolsonaro, por outro lado, começou a desidratar a reforma antes mesmo que ela fosse lida pelos congressistas. O presidente, que pouco fala sobre o projeto mais importante do governo no Twitter, já se mostrou disposto a reduzir a idade mínima para as mulheres e a mudar o BPC.

Pelo visto os dois ex-deputados passaram muito tempo discutindo abobrinha nos anos em que estiveram na Câmara dos Deputados, já que só isso explica o esforço para não aprovar qualquer medida importante na Câmara.

Quando se tornaram obrigados a brincar de realpolitik no Planalto, Onix e Bolsonaro mostram ter menos capacidade para governar do que certo deputado mineiro teve de esconder os seus pedidos de empréstimos para fins duvidosos.

A coisa tá tão feia que agora precisamos contar com a boa vontade dos militares para diminuir o número de absurdos diários que cada setor promove. Os militares, por sinal, estão tão empenhados no seu papel de Poder Moderador Moderno que há quem questione a necessidade de termos um vice-presidente.

Veja bem, a situação do governo Bolsonaro não é uma que faça o trabalho da oposição ser difícil. Além de todas as denúncias sobre o grande laranjal que é o PSL, as várias ligações do presidente com milicianos e as briguinhas internas, ainda por cima a economia não vai bem.

Em 2018, crescemos 1,1%. Em 2019, não deveremos crescer muito mais, e qualquer pessoa que já leu um livro de economia básica sabe que a reforma da previdência será tão boa quanto a trabalhista para criar empregos. Em 2020, é bem provável que o cenário se repita.

Essa seria uma ótima oportunidade para as forças de oposição seguirem o exemplo do PSB e do PDT e se unirem. O que se vê, no entanto, é o principal partido da oposição se colocando contra um político de outro país. Já o PSOL, que não tem voto para eleger sequer um síndico de condomínio, está muito ocupado marcando posição com brincadeira, mentindo ou ignorando que o presidente fala mais de multa do que a reforma.

Tudo bem, vocês querem vencer a “batalha moral” criticando quem vai até o lugar em que as narrativas da direita reacionária correm soltas. Mas poder gera poder, e nesse ritmo, só os conservadores conseguirão ampliar a sua força.


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Com edição e revisão da Luana de Assis.


A Nova Era – semana #7: uma semana sem dedo no cu, mas com muita gritaria

Na sétima semana de governo Brasileiro, o país esteve nas mãos de um General que não foi eleito para ser presidente e dos filhos de quem até foi eleito para ser presidente, mas que estava com o cu muito protegido para ser colocado na reta. 


Sonhos reduzidos a pó pelo leite em pó 

Os liberais de quermesse que apoiaram o nosso presidente já se arrependeram ou precisarão da manutenção de proteções a outro setor estratégico que de estratégico não tem nada para ver a canoa furada em que eles entraram? Ou vão esperar a ministra da Agricultura defenestrar parte da reforma da Previdência? Se organizar direitinho, todo mundo pode anular o voto em 2022 e dizer que nunca votou em cristãos novos da liberdade. 

Pegue a sua merda junto 

O governador Romeu Zema, se quiser realmente provar que é capaz de fazer algo novo em Minas Gerais, precisa lembrar que ele não é mais dono de meia dúzia de lojas do interior do estado. Mas sim chefe do executivo de uma UF com mais de 850 cidades.

O estado tem uma série de problemas graves. Nenhum se resolverá com a venda de fotos do Fernando Pimentel ou deixando de entregar meia dúzia de medalhas para pessoas de relevância contraditória.

O exercício de um cargo de poder exige certos privilégios. Eficiência administrativa não se conquista indo até o Aeroporto de Confins com uma dúzia de seguranças e assessores sempre que precisar ir até uma cidade do interior.

Quando se é governador, não há espaço para ficar esperando o momento em que um avião comercial levantará voo em direção a uma cidade polo. Tão menos tempo para viajar 500km em uma estrada com manutenção de pouca qualidade na direção de algum vilarejo no meio do Vale do Rio Doce.

A não ser, é claro, que você queira governar para a RMBH. Aí tá tranquilo. Caso contrário, talvez seja uma boa escolha não vender todas as aeronaves do governo. A realidade cobra o seu preço rapidamente.

Desmatando a verdade

As falas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no Roda Vida da última sexta-feira (12), beiram o desespero. Temos um ministro, em tese responsável por cuidar das nossas florestas, que trata a nossa complexidade econômica, ecológica e industrial como quem trata o sistema de esgoto de um bairro. 

Na entrevista, o ministro não só mentiu, mas manipulou dados, não defendeu o que ele deveria defender, atacou um dos maiores defensores do meio ambiente da nossa história e fez lobby para empresas que vivem de explorar o meio ambiente. Mas nada disso será o bastante para ele cair do cargo. Afinal de contas, só cai no governo Bolsonaro quem briga com os filhos do capitão, não quem mente.                                                     

Joice in the sky with diamonds

O dia a dia de Joice Hasselmann como deputada consegue superar o surrealismo dos seus vídeos no YouTube. A deputada promoveu, logo no começo do mês, um culto religioso para “exorcizar” o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva do gabinete (que foi ocupado pelo petista entre 1987 e 1991). 

Era mais fácil ter puxado o saco de algum macho e conquistado outro gabinete de sua preferência. Não é como se ela já não fizesse isso com grande empenho com as bolas do presidente Bolsonaro. 

A estratégia claramente não deu certo. O espírito do petismo já entrou no corpo da deputada que, junto com outros membros do PSL, apresentou uma série de CPIs para blindar o governo e tentar deixar os petistas de fora. Como um parlamentar petista faria no mesmo cenário. 

Ainda sobre a mania de copiar os petistas da paulista, Joice manteve velhos hábitos. Nos seus primeiros dias de trabalho, apresentou um projeto para proibir o “vossa excelência”. Uma ideia de Roberto Requião e que já foi vetada por Temer.  

O gabinete, por sinal, conta com várias algemas. Elas têm como objetivo dar voz de prisão àqueles que tentarem corrompê-la. Se ela aparecer com uma roupa de látex e um strap-on, as possibilidades de sucesso são maiores.

Ninguém espera a inquisição bolsonariana

Chama a atenção do blog a revelação de que o governo Bolsonaro quer conter a Igreja Católica como opositora da sua administração. Assusta mais ainda saber que a ABIN espionou cardeais brasileiros em busca de mais dados sobre a realização do Sínodo sobre Amazônia, em outubro.

Considerando o histórico de acusações e abusos das últimas décadas, esse esse encontro tem tudo para ser uma grande troca de figurinhas sobre os melhores coroinhas da noite romana. Um monte de velho gordo e celibatário reunido tem preocupações maiores do que a nossa soberania nacional (especialmente se o assunto envolver as curvas de jovens índios sem pelo na região pubiana).

Se for para colocar a ABIN para espionar religioso, que seja para verificar se não há cobrança de dízimo de maneira pouco ortodoxa. Os resultados certamente serão mais interessantes.

Casa de Bragança reversa 

Todo mundo sabe que os Bolsonaro têm uma paixão pela monarquia. O que ninguém esperava é que o governo fosse parecer como uma monarquia decadente de terceiro mundo.

De um lado, há o nobre decadente que tenta ser mais relevante do que realmente é. Olavo de Carvalho anda com mais dor de cotovelo do que aquela sua ex que te viu superar o fim do relacionamento em poucos meses. Direto dos Estados Unidos, sofre com a indiferença do vice, tenta colocar a militância contra quem realmente importa e vira o próprio meme do “Galvão?” “Diga lá, Tino.” “Sentiu.”

Os filhos do presidente, que não foram eleitos para serem presidentes, influenciaram em várias decisões como se estivessem no lugar do vice. Nas horas vagas, chamam de mentiroso alguém com informações para destruir o governo a qualquer hora. Se não destruir, pelo menos fazer Bolsonaro precisar de um novo cu

Até a Joice Hasselmann sabe que isso não é uma boa ideia (resta saber de quem ela copiou o pensamento). 

Carlinhos, aquele que dizem namorar o primo (tal qual um monarca faria), tem o seu próprio bobo da corte e garoto de recados no Planalto. Nem parece que o Rio de Janeiro está lotado de problemas que precisam ser solucionados com urgência. 

Enquanto isso, Paulo Guedes, Sergio Moro e os militares lutam para conseguir fazer qualquer coisa de relevante. Isso, é claro, torcendo para que nenhum pupilo do capitãozinho se revolte contra eles.

Até o momento, o governo Bolsonaro consegue superar o nível de bagunça de qualquer cartum feito por um francês iluminista crítico ao monarca Luis XVI. Só falta saber quando a guilhotina descerá. 

E agora, para algo completamente diferente  

A morte de Ricardo Boechat é uma facada para o jornalismo de opinião sério brasileiro. Ainda mais no momento atual, em que qualquer bobo (este que escreve incluso) se acha relevante o bastante para dizer várias bobagens na web. O careca conseguiu o respeito de todos os lados da política fazendo algo que nenhum editor de páginas como Terça Livre conseguirão: sendo ético, transparente e justo, como mostra Reinaldo Azevedo em seu blog


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(com a revisão da @fogeluana)