A Nova Era – semana #23: país rico é país sem brasileiro

The following takes place between may-04 and jun-11


As notícias que parecem da semana passada, mas não são 

Em 23 semanas de Nova Era, algumas coisas se tornaram repetitivas. Então, vamos começar uma pequena sessão aqui no blog focada apenas nesses pontos, pois já está bom de repetir o mesmo argumento toda semana. 

Vamos começar com gente do Legislativo apontando como o governo é muito ruim, até em fazer o básico do básico. Na noite de domingo (02), por exemplo, Rodrigo Maia afirmou que falta ao Planalto uma agenda para o Brasil, que aumente a produtividade da economia, crie empregos, dê remédios a quem precisa e melhore a qualidade da educação. 

O carioca também negou que o pacto dos três poderes foi fechado, afirmando que “o Onyx Lorenzoni avançou na informação sem uma construção política amarrada. Ele entregou um documento, ninguém leu, e ficou parecendo para a sociedade e a imprensa que a gente fechou aquele pacto. Zero verdade nisso.” 

Já Alcolumbre disse que o governo comete trapalhadas diariamente, e tirou do Planalto os méritos de uma futura aprovação da Reforma da Previdência. O que não deixa de ser verdade, uma vez que o próprio Bolsonaro acha que, uma vez entregue um projeto ao Congresso, ele deixa de ser problema do Planalto.

Como os bots do Bolsonaro tiram folga no final de semana, não teve hashtag no Twitter atacando Maia ou Alcolumbre. Também é possível que os responsáveis por acionar as postagens em série tenham se lembrado que precisam engolir ambos por mais dois anos.

Fazendo coro a Maia, o presidente da comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, Marcelo Ramos, também lembrou que falta a noção de prioridade para Bolsonaro. No seu Twitter, o deputado se queixou que Bolsonaro visita a Câmara para mudar o Código de Trânsito, mas não para ajudar na aprovação da reforma. Não é como se a aprovação do projeto estivesse garantida

Os militares seguem atuando como a voz moderada do governo. Segundo apontaram Vinicius Sassine e Bernardo Mello Franco, os generais próximos a Bolsonaro continuam tentando fazer o presidente deixar de ser um fantoche dos olavistas. 

Por fim, o PSL segue sendo uma bagunça. Na última semana o Major Olímpio, líder do PSL no Senado, partiu para cima da Joice Plagelmann (frase não literal), líder do governo no Congresso. O bate boca ocorre após o partido não cumprir o acordo firmado entre os seus membros, logo na primeira sessão conjunta das casas legislativas

Certas partes do noticiário se tornaram uma temporada da série Russian Doll. A diferença, aqui, é que morremos apenas de desgosto no final do dia. 

Never go full Ayn Rand 

Bolsonaro andou lendo A Revolta do Atlas, e o resultado vai te surpreender. Na terça-feira, o presidente atravessou as ruas de Brasília, bateu nas portas do Congresso, e entregou um projeto de grande importância para o cenário atual: um conjunto de alterações no Código de Trânsito Brasileiro

Se tudo der certo (para o “governo do revide”), em alguns meses o Brasil será o país em que: 

O presidente, que já anunciou o fim dos radares nas estradas federais dizendo que “ninguém é otário de fazer curvas em alta velocidade”, afirmou que os pais são completamente responsáveis e sabem que é importante levar os filhos em seus carros utilizando a cadeirinha.

O blog considera fofa a fé que Jair tem na inteligência do brasileiro, principalmente por terem sido as pessoas que nasceram na Terra de Santa Cruz as responsáveis por darem a ele cargos eletivos nas últimas décadas. 

Felizmente não há boa vontade dos agentes políticos brasileiros em apoiar essa sandice. Paulo Douglas, que é um dos autores da Lei do Descanso dos Caminhoneiros, chamou o texto de retrocesso imenso, e pretende contestá-lo na justiça.

Já a deputada Christiane Yeared, da base do governo, lembrou que, no mundo real, multa sai mais barato do que caixão. Também afirmou que, o custo das lágrimas que escorreram pelo rosto dela após o filho dela ser atropelado por um ex-deputado certamente deve ser menor do que o de uma cadeirinha infantil.

Houve liberal que apoiou a ideia do presidente, baseando-se no argumento de que o Estado não deve impedir alguém de ser imbecil. Houve também aqueles que afirmaram que as pessoas são completamente capazes de não colocarem a própria vida (e a vida de seus filhos) em risco.

Afinal de contas, qualquer pai responsável compraria cadeirinhas para as suas crianças após vaciná-las no posto de saúde mais perto de sua casa. Não é como se existisse gente por aí dando alvejante para os seus filhos.

Também houve aquele que confia plenamente na mão invisível do mercado, e disse que as empresas não contratariam motoristas que dirigem com o cu cheio de rebite. Todos falharam em informar como o resto da população se protegerá dos motoristas que não dirigirem sóbrios (responsáveis pela morte de muita gente), e de onde sairão os recursos para as crianças com pais pouco cuidadosos comprarem as suas próprias cadeirinhas. Elas pouparão o dinheiro da merenda para se protegerem por conta própria?

Cabe aos liberais (ou libertários) tupiniquins pararem de ir full Ayn Rand na defesa das suas ideias. O brasileiro é, foi, e continuará a ser muito burro. Basta lembrar o que jornalistas falaram quando o Maluf disse que não é legal andar por aí soprando fumaça no coleguinha.

Aliás, volta, Maluf! Entre um filhote da ditadura que comete corrupção de pobre e um que comete corrupção de rico, mas sabe que liberalismo não é bagunça, eu fico com o segundo. 

Liberalismo: tem, mas desgringolou

A história do liberalismo no Brasil é escrita em linhas mais tortas do que o traçado da BR 381. Quando não há gente falando que protecionismo econômico é livre mercado, os guardiões da Constituição resolvem apoiar a busca por atalhos para aumentar a liberdade econômica nacional. 

Pelo menos é essa a impressão que o STF passou ao liberar a venda de subsidiárias de estatais sem o aval do Congresso. Ignorando o que diz a Constituição brasileira, os gloriosos ministros fizeram um rebosteio argumentativo para justificar a possibilidade de o governo vender uma empresa, de maneira até então ilegal.

Veja bem, o blog não tem nada contra a venda de empresa pública. A depender dele, uma boa parte das estatais deixariam de existir, começando pela Infraero (vendam a Infraero. Eu não aguento mais a Infraero).

Mas se o governo quer mesmo sair por aí sendo malvadão e promover o desmonte da máquina pública, que o faça da maneira correta. Que mandem um projeto para modificar a lei vigente e, com isso, reduzir as chances de outras vendas pararem na justiça.

Pedir para o STF legislar só diminui (em vez de aumentar) a segurança jurídica que é necessária para avançar o processo de desestatização, que começou lá com o Collor. Não custa nada a Corte mudar de ideia e, em alguns anos, avisar que não pode mais vender subsidiária da Petrobrás sem o apoio do Congresso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Liberal na economia, conservador de ideias ruins em tempo integral 

Bolsonaro lembrou que existem outros países na América Latina além da Venezuela. Após viajar para comer fast food nos EUA e falsificar a história em Israel, o presidente passou um tempinho na Argentina contando novas mentiras.

Na visita, Bolsonaro pediu que os nossos hermanos votassem “com muita razão e menos emoção“. Afinal de contas, já basta ele como imbecil de marca maior ocupando um cargo importante na região.

Após demonstrar que a educação da ditadura militar não é das melhores, o presidente anunciou um novo desejo imbecil: a criação de uma moeda comum entre os dois países, o “peso real”. A ideia é tão ruim, mas tão ruim, que fica difícil comentar sobre. Felizmente, o Banco Central do Brasil avisou que isso não é algo a ser levado a serio. Mesmo assim, Jair insistiu na ideia.

O fato é que a saga do presidente para destruir tudo o que foi criado após a ditadura não tem fim. Se o próximo alvo é o Plano Real, que finalizou com a hiper-inflação crônica do país, o blog, na posição de tiete do Plano Real, considera isso um motivo para impeachment.

No dia do meio ambiente quem derruba árvore é você 

O leitor sabia que o desmatamento é a questão ambiental que mais preocupa o brasileirinho? O blog não. E, a julgar pelas medidas tomadas pelo ministro do Meio Ambiente, o chefe da pasta também desconhece o dado.

Segundo a pesquisa global Earth Day 2019, o tema é mais importante até do que o aquecimento global. A informação foi divulgada na mesma semana em que o governo afirmou que insistirá em aprovar as mudanças no Código Florestal, que o Senado já falou que não quer fazer. Se sobrar tempo, Bolsonaro também tentará encontrar uma forma de extinguir parques ambientais por decreto.

Mas essa não é a única medida do governo brasileiro nas últimas semanas com a desculpa que ele não pode atrapalhar o coleguinha a destruir floresta. Veja algumas das coisas que o blog esqueceu de citar sobre a atuação do ministro, acusado de improbidade administrativa:

Não é de surpreender que o desmatamento da Amazônia tenha explodido nos primeiros meses de 2019. Quando Bolsonaro diz que a missão do seu governo é “não atrapalhar quem quer produzir“, ele está apenas tendo um impulso de sinceridade e humildade. No que depender da sua administração, a Amazônia se transformará em uma grande mistura de pasto e plantação de soja. Transgênica e com muito agrotóxico, se possível. 

E se depender do ministro responsável por cuidar do Meio Ambiente e do agronegócio nas horas vagas, não sobrará um centavo para as atividades que garantirão um futuro com ar respirável para os nossos filhos. Nessas horas, cabe a gente comemorar a existência de Sergio Moro. O ministro da Justiça liberou mais verba para o FDD. O aumento de 1.650% nas verbas auxiliará na criação de um modelo de avaliação de riscos para o uso de agrotóxicos no Brasil, e reduzir o impacto causado pela sua aplicação no meio ambiente

A Alemanha já notou que Bolsonaro só quer beber agrotóxico e cortar árvore. Os europeus avisaram que, a depender dos movimentos dos próximos meses, a sua carteira ficará fechada para o financiamento de um dos mecanismos mais antigos de proteção a floresta da Amazônia. A Noruega também já está mexendo os seus pauzinhos para impedir o governo de continuar a fazer merda.

O presidente pode continuar mentindo por aí e falando que o Brasil é um país que protege o meio ambiente com muito afinco. Enquanto existir imprensa livre nessa nação, poderemos acompanhar com cuidado as incisivas tentativas do seu governo para acabar com o nosso futuro.

A mulher de César caiu na net 

Há um ditado que diz que, a mulher de César não só deve ser honesta. Ela também deve parecer honesta. O blog, inclusive, já se utilizou dele para fazer título de postagem. Os membros da operação Lava Jato e o ministro Sergio Moro deveriam conhecê-lo.

Na noite de domingo (09), a versão brasileira do The Intercept começou a publicação de uma série de reportagens detalhando as relações entre Deltan Dallagnol e o atual ministro da Justiça. O material, colhido por uma fonte anônima, mostra como o ex-juiz aconselhou o funcionário do MPF, as articulações dos servidores públicos para impedir que o ex-presidente (e agora portador de um pau duraço) Lula desse entrevistas, e até mesmo as dúvidas que os concurseiros tinham sobre a sua capacidade de mostrar que o petista era o dono do tríplex mais famoso do Guarujá.

A força-tarefa da Lava Jato logo publicou uma nota em que não desmentia o conteúdo das publicações do site de Glenn Greenwald. Também afirmou que elas não revelam qualquer ilegalidade (mas nada falaram sobre o nível de ética das articulações feitas com o apoio do ministro da Justiça).

Os concurseiros também afirmaram que a sua atuação foi revestida de “legalidade, técnica e impessoalidade”. Marco Aurélio Mello discorda.

O mesmo MPF também afirmou que a pessoa responsável pelos vazamentos “praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público, à vida privada e à segurança” dos investigadores. Imagina se os servidores do órgão tivessem a mesma opinião quando alguém resolve divulgar conversa de jornalista com fonte, hein?

Os servidores públicos (que regularmente forçam a barra no entendimento da lei) também afirmaram que foi uma injustiça não terem sido contactados pelo Intercept antes da publicação da notícia. É sempre bom lembrar que a liberdade de imprensa existe e, em geral, empresa privada não é obrigada a seguir as vontades de concurseiro.

A força tarefa se queixou que os jornalistas do Intercept não são imparciais, algo que qualquer estudante de comunicação social do primeiro período do curso sabe que não existe. Imparcialidade, aliás, é devida aos juízes, que não devem prestar serviços de consultoria jurídica nos sábados, domingos e feriados.

Indo além, afirmaram que ultrapassar os limites de respeito às instituições e às autoridades é algo que prejudica a sociedade em vários níveis. Quem vê pensa que os concurseiros estavam falando daquele vazamento de ligação da Dilma com o Lula uns anos atrás.

Jornalista tem mais é que vazar dado de interesse público mesmo. O próprio Dallagnol já reconheceu isso quando foi de seu interesse, e da mesma forma, Sergio Moro lembrou que não podemos culpar jornalista por divulgar material vazado por terceiros.

Sergio Moro disse, no Twitter, que há “muito barulho”, e que uma “leitura atenta revela que não tem nada ali, apesar das matérias sensacionalistas”. Afinal de contas, o responsável por julgar criminhos orientar as pessoas responsáveis por apontar quem comete ilegalidades a fazer o seu trabalho é super normal.

Se os envolvidos no escândalo queriam parecer honestos e imparciais, o fizeram muito mal. Se parabenizar após uma manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff, afirmar que quer “limpar o Congresso,” e indicar até a ordem correta para a realização de operações está longe de ser algo ético. E não é só o blog que diz isso: a OAB também achou as ações dos funcionários do judiciário muito feias, e pediu que eles se afastassem até que tudo fosse esclarecido.

Gilmar Mendes, aquele que pouco fez nos últimos anos para impedir que operações contra a corrupção não chegassem em poderosos, já avisou que “o fato é muito grave”. Também tirou a bunda de cima do processo que questiona a suspeição do Moro.

O Congresso já se articula para usar uma CPI para ouvir o ministro da Justiça, e discute se há a necessidade de quebrar sigilos. Enquanto isso, Toffoli, Alcolumbre e Maia se reuniram para discutir as publicações do Intercept.

Não me assustaria saber que, entre a noite de domingo e a hora da publicação deste post, muita gente presa na carceragem da PF em Curitiba gozou gostosamente, lembrando que, no artigo 254, inciso IV, do Código do Processo Penal, está registrado o “juiz dar-se-á por suspeito, e, se não fizer, poderá ser recusado por qualquer das partes se tiver aconselhado qualquer das partes”. No país da Operação Satiagraha, qualquer passo em falso é motivo para gente poderosa ficar longe da cadeia.

Até o momento, isso não aconteceu. Muitas das coisas que foram reveladas pela Lava Jato são tão sólidas quanto a água que serve de apoio para os patinhos do sítio de Atibaia nadarem.

Porém, os alicerces para bons advogados saírem por aí questionando a atuação de Moro e seus amigos começaram a ser cavados apenas nessa semana. Vai ser divertido acompanhar o Reinaldo Azevedo fazendo pirocoptero na Band News, enquanto o Intercept revela os outros 99% que sabe.

Vale lembrar que a frase “o juiz brasileiro, na fase de investigação, tem uma postura passiva, apenas examinando pedidos da autoridade policial, do Ministério Público e da defesa, como também o faz durante a fase de tramitação da ação penal” veio do mesmo servidor que foi pego com uma postura ativa, auxiliando e cobrando pedidos do Ministério Público para dar mais força às suas acusações. As revelações, portanto, podem não ter um impacto jurídico imediato, mas certamente representam um baque para aqueles que pretendiam manter a opinião pública ao seu lado.

Em notas não relacionadas, o Dallagnol responderá a uma acusação de atuação política e quebra de decoro em um processo administrativo instaurado pelo corregedor nacional do MP, Orlando Rochadel. Por incrível que pareça, a notícia publicada pelo Painel da Folha de S.Paulo informa que o processo em nada tem a ver com o escândalo da semana: a acusação se refere às postagens feita pelo procurador durante as eleições para a presidência do Senado no começo do ano.

Para todos os fins, a gente pode sorrir pensando que não somos o Padilha. Imagina como deve estar dormindo o diretor ao saber que investiu dinheiro na escrita e gravação de várias cenas para o seu seriadinho mostrando o ex-juiz conversando com gente da PF e do MPF sobre o andamento dos processos quando o certo mesmo teria sido só mostrar uns prints de telefone?


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

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A Nova Era – semana #22: um grande pacto com a puta que te pariu

The following takes place between may-28 and jun-03


O pacto de Schrödinger 

Na manhã de terça-feira (28), Jair Bolsonaro se reuniu com os presidentes do Supremo, do Senado e da Câmara para anunciar a criação de um novo pacto entre os três poderes (e tomar um cafezinho). O acordo, segundo informado, envolve temas como a reforma da Previdência e a criação de uma política nacional de segurança.

iniciativa do presidente, tomada dois dias após os seus cães de guarda saírem às ruas para brigarem contra os outros poderes, não valeu por 24 horas. No mesmo dia, Bolsonaro tentou lembrar a Rodrigo Maia que a sua caneta Bic é mais poderosa que a Montblanc utilizada pelo presidente da Câmara.

Eu perdi algo ou agora é o Bolsonaro quem coloca os pedidos de impeachment para tramitar?

Para todos os fins, não há a possibilidade de um presidente revogar um decreto utilizando outro decreto. Nem que seja para transformar reserva ambiental – em que ele foi pego pescando ilegalmente – em parque temático, com vista exclusiva para uma usina nuclear de funcionamento duvidoso. 

A Associação de Juízes Federais notou que essa coisa de pacto com todos os poderes não tem lá muita legalidade. Como bem lembraram os usuários de toga, não cabe ao Supremo realizar acordos políticos, especialmente se envolverem o julgamento da constitucionalidade de propostas no futuro (mas se for para retirar a descriminalização do uso e porte de drogas e a criminalização da homofobia das pautas da corte, pode).

Ao contrário do que pensa o presidente, o único “lado certo” que o Supremo deve se posicionar é o lado da Constituição brasileira. Não cabe ao judiciário ser consultor das ideias tresloucadas do Planalto. Parece óbvio, mas estamos falando do governo do homem que mal sabe ler um teleprompter

Também não há como os presidentes do Senado ou da Câmara subscreverem os programas do Executivo, como se fossem as agendas das casas legislativas. Não só é uma postura pouco saudável para a democracia, como também é algo difícil de ser realizado.

O pacto que o país precisa já existe. É a Constituição de 1988. Qualquer coisa além disso é conversa mole de governante buscando um photo op para o seu governo.

Sobra democracia em Brasília

O pouco autoritário e muito liberal governo Bolsonaro mandou avisar, por meio do seu Ministério da Educação, que “professores, servidores, funcionários, alunos, pais e responsáveis” não podem incentivar a participação de pessoas em protestos a favor da educação. Também informa, por meio da AGU, que “não pode haver professor sendo tendencioso, que atue como militante” no ambiente acadêmico.

André Mendonça avisou ao país e ao STF que, no entendimento do Planalto, “professores precisam ter um comportamento imparcial”. O blog recomenda a leitura de Foucault para os membros do governo, e lembra: os regimes totalitários pelo menos eram mais elegantes quando tinham os seus delírios autoritários.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Partido Novo digievolui para PSL Prime 

Quem chamou o partido Novo de PSDB Personnalité nos primeiros anos de sua vida deveria fazer um mea culpa. A cada live no Instagram a legenda parece, cada vez mais, com uma filial de luxo do PSL.

O ministro do Meio Ambiente é tão ruim, que conseguiu colocar pessoas que não se gostam sentadas em uma sala para falar mal dele. No Legislativo, o partido só não é mais fiel a Bolsonaro do que o próprio partido do Bolsonaro.

Em Minas Gerais, Romeu Zema continua mostrando que essa coisa de nova política não está com nada. Já avisou que pretende continuar pagando os seus secretários com jetons e não vai se obrigar a manter 70% dos cargos comissionados nas mãos de servidores concursados.

Não seria um problema o governador pagar as pessoas que para ele trabalham. O blog é contra essa ideia de que você pode trabalhar em troca de reconhecimento.

Mas não faz um ano que Zema deixou registrado em cartório que ninguém receberia salário, pelo menos até o pagamento dos profissionais concursados e dos pensionistas ser regularizado. Uma medida que, pelo visto, não só não será cumprida como também será tratada com o mesmo carinho que a minha gata trata os brinquedos que eu compro para ela.

Talvez seja uma boa ideia o serviço de consultoria contratado pelo partido para buscar candidatos a prefeito parar de focar em gente rica. Se os consultores começarem a trabalhar procurando pessoas que conheçam a administração pública, as chances de o Novo passar vergonha nos próximos anos serão muito menores.

O Novo já deixou claro que pobre não tem o perfil necessário para realizar política dentro da legenda. Assim sendo, que pelo menos tentem escolher candidatos que não farão promessas imbecis por puro desconhecimento da máquina pública, e que inevitavelmente se transformam em estelionato eleitoral.

Gang bang político

Enquanto a Joice Plagelmann e a Carla Zambelli brigam em praça pública, Alexandre Frota explode o PSL por dentro. O deputado federal não só avisou que Eduardo Bolsonaro não pode presidir a legenda, como também pediu uma auditoria completa das contas do partido.

Frota disse, com razão, que para o PSL ser um partido de verdade ele não pode ter “nome nem sobrenome”. Já Eduardo Bolsonaro acredita que o deputado e ex-ator pornô quer colocar “fogo no partido”. Uma forma bonita de dizer que frota quer foder com ele.

O blog apoia a iniciativa de Alexandre Frota. O deputado tem uma longa experiência em comer o cu alheio (sem areia e brita, infelizmente) e seria divertido ver como isso se daria em relação ao nome do Dudu (ou de outros membros de caráter duvidoso).

Osmar Terra e a luta contra a ilustração 

Nos últimos três anos, a Fundação Oswaldo Cruz gastou R$ 7 milhões de reais para fazer um censo sobre o consumo de substâncias lícitas e ilícitas no Brasil. Após descobrir que o resultado do trabalho não afirmava a existência de uma epidemia de drogas, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, atacou a instituição e proibiu a divulgação do levantamento.

Osmar Terra, que tem um diploma de medicina pela UFRJ, acredita que faltam critérios científicos para o trabalho, que vem a ser coordenado por um pesquisador que é core member do grupo da ONU em uso de drogas injetáveis e AIDS, professor honorário da Graduate School of Public Health, da Universidade de San Diego, nos EUA e “Outstading Reviewer” do College on Problems of Drug Dependence.

Para todos os fins, Sérgio Moro liberou o conteúdo, desde que o título fosse trocado de nome e as associações com o governo fossem removidas. Uma ideia que parece até boa, mas que pode gerar problemas para a Fiocruz.

O incrível caso do governo que até calado se posiciona de forma merda 

Há pouco mais de uma semana, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim, localizado em Manaus, acordou manchado de sangue. 15 pessoas foram mortas durante o período de visitação de familiares em função de brigas entre facções. 

A briga fez parte de um ciclo de assassinatos que ocorreram em presídios do estado., e entre domingo e segunda-feira, as cadeias do Amazonas registraram a morte de 55 detentos. O problema, aliás, já tinha sido avisado pela ONU em 2015.

Há, conforme lembrou Reinaldo de Azevedo, 70 organizações criminosas que operam no sistema prisional, matando, recrutando e garantindo que o número de mortes no país aumente. Tudo isso sem a facilidade para a compra de armas, que é o sonho do presidente.

A estes presos e aos familiares mortos, o presidente opta pelo pacto do silêncio. Já o ministro da Justiça, usou a morte de pessoas como palanque para as suas ações.

A postura porca do governo ocorre por todos os mortos serem perigosos comunistas? Eles merecem o tratamento desumano adotado no caso de Evaldo Rosa dos Santos?

Afinal de contas, Jair precisou de cinco dias para lamentar a morte do pai de família pelas mãos de militares. Já o MC Reaça, que se matou após descobrir que a sua amante (que ele também tentou matar) estava grávida, recebeu homenagem pública cinco minutos após a divulgação de sua morte.

O filho feio e sem pai chamado “articulação política do governo Bolsonaro” 

Bolsonaro foi deputado por quase 30 anos, um período muito maior do que outros presidentes brasileiros tiveram para aprender a lidar com o Congresso. Aparentemente, isso não foi o bastante para o cunhado de miliciano aprender como o governo funciona.

Enquanto perde tempo acusando o “centrão” (do qual fez parte) de não apoiar cegamente as suas agendas, o Executivo só conseguiu aprovar 1 de suas 27 proposições no Congresso. Nos últimos seis meses, quando as péssimas ideias não caducavam, elas eram reprovadas por simples falta de articulação de um Planalto que, pelo visto, acredita que os seus projetos tornam-se realidade na base da hashtag.

Tanto é verdade que, quando quer, o presidente consegue aprovar as suas ideias. Na segunda-feira (03), por exemplo, a MP do pente fino no INSS passou no Senado, após o Planalto fechar um acordo com partidos de oposição em torno da aposentadoria rural. Bastou conversar.

É sabido que, para o bolsolavismo, é conveniente o discurso de vítima do sistema. Mas a tese do bode expiatório tem os seus limites, como vários políticos viram no passado.

O presidente cai em contradição quando é forçado por Rodrigo Maia a anistiar multas aplicadas a partidos políticos, mas por outro lado, quando Bolsonaro sai do Planalto para prestigiar homenagem a humorista na Câmara, sem seguranças, e fode com a organização de todas as reuniões já agendadas por Rodrigo Maia, ele só está sendo bem grotesco.

Aliás, grotesco é o termo que define todos os passos da articulação do governo e a sua relação com qualquer outro poder. Basta lembrar, conforme narrou Matheus Leone no Twitter, como foi a votação da MP do pente fino do INSS na Câmara: enquanto o Major Vitor Hugo implorava para o PSL aprovar a Medida Provisória como enviada pela equipe técnica do próprio governo, os deputados do partido se debatiam contra o uso da palavra “gênero” para definir o gênero de quem cair na malha fina da Previdência.

A votação, por sinal, só saiu após o Planalto abandonar a MP do Código Florestal. Afinal de contas, no dia anterior, o governo foi incapaz de organizar a sua base para montar o quórum necessário para votar a medida contra o meio ambiente e a MP 871.

Nem Major Olímpio, líder do PSL no Senado, aguenta mais. Já são públicas as reclamações de falta de apoio da Casa Civil durante as votações, a ausência de orientações sobre o que deve ser defendido e quais são os discursos que podem ser utilizados. Imagina se ele não fosse líder do partido do presidente.

O mais incrível é que, enquanto Bolsonaro faz a sua palavra valer menos do que um pastel de queijo com caldo de cana, os novos estadistas do país são aqueles que, anteriormente, seriam considerados a escória da política.

Nem seis meses de governo e Bolsonaro já transformou a leitura de jornais no café da manhã o hate fuck do povo brasileiro.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Revisado pela Marinna e editado pela Luana.

A Nova Era – semana #21: a República da live no Instagram

The following takes place between May-21 and May-27  


Um golpe lento, gradual e inseguro? 

A semana começou ainda curtindo os efeitos do textinho compartilhado por Bolsonarochamando o país de ingovernável. Apesar de tentar negar que o filho feio não tinha pai, a mensagem estava “em consonância com o pensamento” do presidente, conforme afirmou o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros.

Sem uma base para chamar de sua e já colocando a palavra impeachment bem na frente das nossas saladas, o projeto de Fujimori resolveu governar da maneira mais populista possível e, se achando o próprio Ciro (o Grande, não o político cearense e xingador profissional), chamou o povo para fazer uma proto-guerra de proxy, e ir às ruas contra o Congresso e o STF. Afinal de contas, o fim do “toma lá, dá cá” não poderia ser feito na base de uma articulação republicana.

A ideia pegou tão mal, mas tão mal, que até mesmo os bolsonaristas de primeira ordem resolveram brincar de serem sensatos. Janaina Paschoal acusou o presidente de estar se alimentando de conspiração, e os meninos do MBL entraram para a lista de comunistas, avisando que não apoiariam esse tipo de postura (felizmente a internet tem memória e a atitude republicana dos anjos sem asa não durou uma semana). 

O Vem Pra Rua e o Nas Ruas se uniram ao MBL e também avisaram que não estariam no ato golpista. Apesar do apoio a pautas do governo, a coordenadora do Vem Pra rua e o porta-voz do Nas Ruas acusaram a manifestação de “confusa e dispersa” e negaram envolvimento na sua organização. Lambe botas de militar, para eles, só serve se for para pedir impeachment de político petista. 

Deputados também lembraram a loucura que é um governo partir para cima dos outros poderes, e o deputado Marcelo Ramos (PR), afirmou que o protesto “a favor da reforma contra quem é a favor da reforma” é “surreal”

No Senado, Rose de Freitas (Pode-ES) afirmou que o governo “não deixa o Congresso trabalhar” e chamou os líderes de ruins de serviço. Já Omar Azis (PSD-AM) chamou Bolsonaro para mostrar o pau que ele quer usar para matar cobras, e pediu que o presidente afirmasse quem estava fazendo chantagem. Otto Alencar, por fim, lembrou que todas as trapalhadas do governo foram provocadas pelo próprio governo.

O jornal Estado de São Paulo, o veículo com o melhor papel para limpar botina de militar do Brasil, começou a se perguntar se há um presidente no país. Parece que aquela decisão em outubro do ano passado não era tão difícil, né?

Na noite de sexta-feira (18), as ex-BFFs Carla Zambelli e Joice Plaglemann partiram para o tapa (virtual) no twitter, e passaram horas discutindo quem lambia mais a bota de Bolsonaro. Enquanto Joice mostrava que o couro brilha mais com a sua saliva, Carla cobrou da deputada (e plagiadora nas horas vagas) a presença nos atos de domingo.

No domingo (19), Eduardo Bolsonaro afirmou que não havia “nada mais democrático do que uma manifestação ordeira que cobra dos representantes a mesma postura de seus representados“. Quem lesse o tweet sem saber a autoria, poderia pensar que a postagem era uma referência aos atos contra os cortes de verba do MEC, e não uma manifestação do fascismo cultural.

Flávio Rocha, do Brasil 200 (e da Riachuelo), resolveu ficar em casa. O presidente do PSL, Luciano Bivar, também falou que seria melhor ver o filme do Pelé. Jair Bolsonaro, no final das contas, ficou em casa vendo as vídeo cacetadas do Faustão enquanto Carluxo atualizava o Twitter do pai com postagens de apoio à manifestação.

As manifestações de domingo foram horríveis, mas menos horríveis do que imaginávamos. Ver que o número de adoradores do Bolsonaro é menor do que o esperado (mas ainda é alto o bastante para ocupar uma faixa da Avenida Paulista), é tão bom quanto descobrir que você só precisará perder dois dedos e não uma mão inteira após um acidente.

O que a nova direita não entende é que, salvo os deputados do PSL e os governistas não oficiais do Novo, em nenhuma normalidade democrática alguém é obrigado a se unir a favor de um governo just because. Rodrigo Maia faz o que pode para a votação das reformas e outros projetos passarem, mas a articulação de uma reforma a favor, porém, deve ser feita pelo Planalto.

Bolsonaro chegou ao poder prometendo acabar com a venezuelização do país, mas ao contrário dos governos de Hugo Chaves e Nicolás Maduro, o presidente não esperou muito tempo para convocar os seus apoiadores para pressionar, nas ruas, os outros poderes a agirem conforme o desejo do Executivo.

Afinal de contas, o apoio do presidente aos protestos de domingo, ainda que se faça de inexistente, é claro. Tentar traçar tais manifestações como republicanas em função de meia dúzia de cartazes a favor de uma reforma que passará de qualquer jeito é fingir que o bolsolavismo é um movimento democrático e não um agrupamento de viúvas da ditadura.

Se o bolsolavismo quer um Congresso, um judiciário e uma imprensa que se curvem às vontades do mandatário executivo, talvez seja interessante buscar uma coroa em Petrópolis e transformar Jair Bolsonaro em um novo Luís XVI. Mas tomem cuidado: certamente há alguém disposto a amolar a lâmina de uma guilhotina nos rincões do país.

Uma guinada parlamentarista lenta, gradual e segura? 

O flerte com o “tudo ou nada” de Bolsonaro, naturalmente, não foi bem recebido por quem bate ponto na Câmara. A insistência no confronto azedou ainda mais uma relação, que já não tinha um gosto tão bom assim, com os parlamentares brasileiros e nos fez subir mais dois degraus na escadinha que vai em direção ao parlamentarismo branco.

Após colocar para tramitar a própria reforma da Previdência e a própria reforma tributária, Maia percebeu que não precisaria falar com quem já não falava tanto assim. Diante de mais um ataque indireto do Major Vitor Hugo, o presidente da Câmara afirmou que não há mais meios para consertar a relação com o líder do governo.

Talvez o homem que pode, a qualquer momento, colocar um impeachment para rodar, tenha cansado de explicar aos membros do governo (e seus apoiadores) como a política realmente funciona. Nesse clima amigável, a Câmara começou o dia 22, os trabalhos de votação da Medida Provisória 870 (aquela que validaria as mudanças nos ministérios feitas pelo governo no começo do ano).

Sai das asas de Damares Alves a Funai e dos braços de Sérgio Moro a Coaf (mas não para ir parar mas mãos do Fernandinho Beira-Mar). Em troca, o Centrão deixou de recriar os ministérios da Integração Nacional e das Cidades. Além disso, os auditores da Receita Federal ficariam proibidos de comunicar qualquer investigação sobre crimes financeiros.

A votação, naturalmente, foi tão bagunçada quanto qualquer coisa que envolve esse governo. Os deputados governistas pegaram em seus telefones e começaram a brincar de vlogueiros para convocar a sua militância a fazer pressão pela internet. Rodrigo Maia não curtiu muito e terminou a sessão antes que a MP 870 fosse votada.

A criação do Ministério das Cidades tinha sido acordada entre os principais líderes políticos do Executivo e do Legislativo. Ao ignorar esse acordo, o presidente minou ainda mais a sua capacidade de articular projetos nos próximos anos e, de quebra, deu mais motivos para deputados e senadores ignorarem os pleitos do Planalto.

Apesar dos pesares, Bolsonaro conseguiu passar o projeto pelo Congresso. Sobre a votação do texto no Senado, o presidente pediu com jeitinho para que os Senadores não mudassem nada do que os deputados tinham decidido. Falta só combinar com o PSD, que já tinha anunciado a vontade de apoiar a manutenção da Coaf com Moro.

O fato é que os deputados moderados que estão a favor das reformas já não escondem mais a sua insatisfação com o Planalto. Enquanto Jair torna a sua caneta Bic irrelevante e os deputados do PSL fazem picuinha com bobagem, o Congresso se fortalece na luta entre os poderes, que só existe porque o governo é burro demais para cumprir a própria palavra por 24 horas. Depois a gente vira parlamentarista e ninguém entende o motivo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

A nova direita é brega e mentirosa 

Witzel, Caio Coppola, Fábio Morgenstern e Joice Plagelmann. O que todos têm em comum? Uma crise de identidade pesada.

O governador do Rio de Janeiro foi pego mentindo no próprio lattes na última semana. O doutorado em Harvard nunca foi cursado, mas, para o ex-juiz, é uma fake news afirmar que ele não fez o que, no final das contas, não fez.

Se o governador mente onde estuda, Joice Plagelmann mente sobre o que escreve para se fazer da boa jornalista que nunca foi. A deputada do PSL tem um desejo incansável de usar ideias alheias, seja na hora de publicar matérias ou na hora de fazer Projetos de Lei. Seria Joice uma ancap que não acredita em propriedade intelectual?

Já Caio e Fábio adotaram “nomes artísticos” desde o começo das suas carreiras como comentaristas conservadores. Certamente uma tecnicalidade, como diria Caio. Não uma tentativa de esconder negócios paralelos.

A nova direita não é apenas brega. Ela mente o seu nome, mente a sua formação e mente sobre o que escreve. Para um grupo conservador que adora posar a favor da verdade e da moral, é bastante engraçado vê-los sendo pegos com “as calças arriadas” por aí.

É uma pena, porém, que ninguém perde o emprego na Jovem Pan ou no governo carioca por pequenas mentirinhas.

Um meltdown governamental lento, gradual e seguro? 

O saldo da semana é de que o governo continua perdendo força, e deixando de fazer política para brincar de briga de espadas. O que é um problema tanto para Bolsonaro, quanto para as nossas instituições e o país.

Existem hoje 143 deputados declaradamente na oposição. Para barrar projetos que demandem uma emenda constitucional, por exemplo, são necessárias apenas outros 62 votos contrários. Troco de bala.

No contexto em que a palavra impeachment está na boca não só do presidente, cai bem tomar cuidado e evitar que a corda que ele colocou em seu pescoço fique mais apertada.

A pressão que uma meia dúzia de abobados fez contra o Congresso nos últimos dias pode, a qualquer momento, se virar contra o próprio presidente. Basta lembrar o que aconteceu com Michel Miguel e Aécio Neves, em um passado não tão distante assim.

O governo já chega em seu sexto mês e, até agora, há pouco sinal de melhoria ou de avanço real nas principais promessas de Bolsonaro. A menina dos olhos de Sergio Moro, por exemplo, acumula mais poeira do que a boneca Annabelle no porão da casa de Ed e Lorraine Warren. Bobo é pensar que o bolsolavismo precisa de um Bolsonaro para continuar sobrevivendo: ele não chegou aqui com ele e, definitivamente, continuará aqui sem ele.

O governo já chega em seu sexto mês e, até agora, há pouco sinal de melhoria ou de avanço real nas principais promessas de Bolsonaro. A menina dos olhos de Sergio Moro, por exemplo, acumula mais poeira do que a boneca Annabelle no porão da casa de Ed e Lorraine Warren. Bobo é pensar que o bolsolavismo precisa de um Bolsonaro para continuar sobrevivendo: ele não chegou aqui com ele e, definitivamente, continuará aqui sem ele.

Não adianta Paulo Guedes aparecer nas páginas da Veja afirmando que o país pegará fogo se a reforma da Previdência não for aprovada, as mudanças no sistema previdenciário por si só, não criarão um cenário sólido o bastante para o país retomar o seu crescimento.

O ministro está certo ao dizer que o país pegará fogo se o cenário econômico não melhorar nos próximos anos. O que ele não nota, porém, é que enquanto ele estiver no seu jatinho em direção a um paraíso fiscal para chamar de seu, a principal fonte de fumaça será a casa em que Bolsonaro dorme.

Bolsonaro trucou. As “vozes cínicas do establishment” trucaram de volta e metade do Brasil continuará fazendo cocô no fundo do quintal.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Revisado pela Marinna e editado pela Luana.

A Nova Era – semana #17: o sincretismo da safadeza com a burrice

Quem planta sacanagem pode colher Mourão.


Verba volant, scripta manent

Carlos Bolsonaro começou a última semana anunciando uma nova fase na sua vida. Durou pouco: por vários dias, o filho do presidente, que se diz vereador do Rio de Janeiro, dedicou-se a atacar o vice-presidente Mourão em seu Twitter. Em pouco mais de dois dias, o filho pródigo:

O Brasil da Nova Era se tornou uma monarquia e não nos avisaram. A confiança no governo derrete tal qual uma adolescente vendo o seu ídolo de perto, a inflação parou de cair, as projeções do PIB desabam, a renda não melhora e o dólar continua brincando de valer R$ 4,00. Enquanto isso, o filho mais novo do presidente rouba a senha do Twitter do pai e dedica o seu tempo a atacar o vice que poderia ajudar a construir pontes e aprovar as reformas econômicas que precisamos para sair do buraco.

Convém lembrar, mais uma vez, que a última pessoa que ocupou o Planalto e atacou o vice de maneira terceirizada se deu bem mal. Cai bem aos Bolsonaros ler um livrinho de história de vez em quando, nem que seja de esquerda, para terminar essa briga sem fim.

O país tem muitas prioridades. Nenhuma delas é lidar com as confusões causadas por um bando de homens ressentidos de pinto pequeno que não sabem dirigir, mas coordenam uma cooperativa de funcionários fantasmas muito bem.

Em notas não relacionadas, Mourão encontrou o ex-ministro de Lula, Mangabeira Under, nos EUA no início do mês de abril.

Lula lá

A semana começou com o STJ mantendo a condenação do ex-presidente, opinador e presidiário Luiz Inácio Lula da Silva no caso do tríplex de Guarujá. A pena foi reduzida para 8 anos e 10 meses e já há quem fale em absolvição. Por hora, o máximo que ele pode conseguir é o direito de ir para o semiaberto (ou pedir prisão domiciliar) e continuar dando entrevistas.

Na mesma semana, o ex-presidente finalmente abriu a sua boca para a Folha de S.Paulo, e ao El País na última sexta-feira (26). A fala do presidiário (muito liberal e com pouca autocrítica), deu saudades de uma coisa que não se vê muito na Nova Era: gente que faz política de verdade. Até o Tio Rei elogiou.

Não foi muito fácil para o Lula colocar a boca no trombone. Nem quando queria, ano passado, nem agora, como mostra o Nexo]. Para aqueles que sentiam saudades de limpar a bola esquerda desse velho em específico, bastaram 30s de fala para a bandeirinha do PT sair do armário.

É melhor Jair se arrependendo Dilma vez

Quem está caindo na alma dos desavisados que acreditaram no liberalismo de quermesse de Jair Bolsonaro, e comparando as suas ações com a Dilma precisa urgentemente de uma visão histórica mais ampla. Bolsonaro não se transformou na ex-presidenta após chegar ao governo: ele sempre pensou como ela, pelo menos economicamente.

O presidente que agora interfere na política de preços da Petrobrás, pede ao presidente do BB para abaixar os juros e deixa claro que não queria aprovar a reforma da previdência, é o mesmo que, na década de 1990, disse que FHC merecia ser fuzilado por colocar a Petrobrás na Bovespa.

Dizer que Bolsonaro passou a pensar como a Dilma é um ataque absurdo às ideias da ex-presidenta, afinal de contas, mesmo com o seu passado de guerrilheira, ela jamais falou em fuzilar alguém por ser liberal: é sempre mais fácil deixar a sua base queimar o liberal da vez, como ela fez com o Levy.

Dom Quixote olavista

A guerra cultural contra tudo aquilo que atinge a moral dos flocos de neve que ocupam o Palácio do Planalto continua firme e forte. Na última semana, Bolsonaro mandou o Banco do Brasil tirar do ar uma propaganda que celebrava a diversidade racional e sexual. Além de jogar 17 milhões no ralo, o presidente também demitiu o perigoso comunista e diretor de marketing da instituição financeira, Delano Valentim.

Quando questionado, o presidente disse que a regra do jogo é a seguinte: ou o ministro é armamentista, ou “fica em silêncio”. E quem indica e nomeia presidente de banco é ele, e que, por isso, ele não precisa “falar mais nada”.

Mesmo dizendo que não pretende perseguir minorias, o ataque a quem faz propagandas para promover a tolerância só ajudou a dar mais destaque para a peça que, até então, estava fora do debate público. No meio do caminho, o governo ainda tentou ir contra a Lei das Estatais e obrigar todas as empresas públicas a submeter previamente à avaliação da Secom (Secretaria de Comunicação Social) qualquer peça de publicidade que elas criarem.

Falta ao nosso presidente metido a Dom Quixote um “homem de bem, mas de pouco sal na moleirinha” para lembrá-lo que o mundo vai muito além da sua guerra cultural. A propaganda do Banco do Brasil é perfeita para o público que pretendia alcançar, e, se o presidente realmente deseja direcionar a carteira de clientes apenas para os “pais de família” brasileiros, é melhor reformular toda a estrutura da instituição e buscar novos meios de entregar as bolsas de fomento ao ensino das instituições de ensino superior federais.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

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O Partido Novo estuda processar o PSL pelo roubo do protagonismo em relação a cor laranja. Na segunda-feira (29), a sede do partido em MG entrou para o noticiário após uma operação da PF. Batizada de “Sufrágio Ostentação”, a ação apreendeu vários indícios concretos de mentiras relativas aos gastos com a produção de materiais gráficos para candidaturas fantasmas durante a campanha eleitoral de 2018.

Infelizmente o escândalo ainda não chegou perto do presidente. O que não é o caso do Queiroz, que tem várias fotos com o presidente e ainda não teve seus rolos julgados pela justiça. Mande notícias, Queiroz.

Volta, velha política

Após ocuparem as ideias de Paula Roberta por mais de nove horas, o governo finalmente conseguiu vencer a primeira etapa da tramitação da reforma da Previdência. Com 48 de 66 votos a favor, o relatório favorável foi aprovado em uma sessão com tumultos, bate-bocas e obstruções promovidas até pela base.

A aprovação mostra que, aparentemente, essa coisa de se apoiar na Lava Jato e em discursos contra as práticas tradicionais da política, não dá muito certo na hora de ganhar apoio no Congresso. Ainda não se discute o mérito da proposta e já vemos o governo cedendo em vários pontos para ganhar apoio de deputados do centrão e, eventualmente, de quem faz parte do PSL. Teria sido mais fácil ter dado ouvido às dicas de Rodrigo Maia nas últimas semanas e começado a fazer política de verdade desde o dia 1º de janeiro.

Ajudaria mais ao Planalto, nas próximas etapas da tramitação do projeto, ser mais transparente. Fazer post no Twitter e pronunciamento na TV quando o trabalho pesado já está feito não muda voto de deputado que precisa se eleger de novo nas próximas eleições.

O Planalto também pode simplesmente continuar focando na busca pelo “espírito patriótico” dos deputados com dinheiro e cargos comissionados.

Saudades de quando o Brasil era governado por um bando de cachaceiros. E não por homens de tiny dick energy.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Com edição e revisão da Luana de Assis.

A Nova Era – semana #15: quem tem medo do liberal?

Hoje eu vou desenvolver. Mas não muito.


Muita guerra e pouca paz na Educação

Abraham Wientraub (referido pelo blog apenas como o ministro da Educação, enquanto estiver no cargo) chegou no ministério da Educação falando em paz. Instantes depois, o ministro também afirmou que aqueles que discordarem podem sair pela porta da esquerda.

A não-guerra cultural promovida pelo ministro passará pela demissão de todos os secretários da pasta, com exceção da secretaria de Alfabetização, que fica com Carlos Nadalim (que por acaso vem a ser é ex-aluno de Olavo de Carvalho). Retorna ao ministério Sílvio Cecchi, que ocupou a subpasta de Regulação do Ensino Superior no governo Temer, e ama uma faculdade privada.

No curto espaço de tempo entre o momento em que Vélez levava suas caixas para o porta-malas do carro e o novo ministro decorava a sua sala, os militares se movimentaram. Agindo novamente como a voz da moderação em um governo de olavitics, o decreto sobre a nova política de alfabetização foi modificado. Mas infelizmente a tentativa de não dar mais espaço para as bobajadas defendidas pelo ex-ministro e os outros seguidores do Guru da Virgínia deu errado e o novo ministro recuou no recuo.

Os_Trapalhões_no_Congresso_S01_ep_15

O laranjal atômico com ares de máfia italiana que é o PSL e a base do governo continuam aprontando altas confusões. Na tarde de terça (09), durante sessão da Comissão de Constituição e Justiça, o deputado Bibo Nunes orientou que a bancada do partido do presidente votasse contra a permanência da reforma da Previdência na pauta do dia. O encontro dos deputados teve debate entre Joice Plagelmann e Maria do Rosário, e até delegado, que também é político, sendo acusado de andar armado no ambiente.

Igreja Universal do Político Cara de Pau

Quando você se perguntar se o prefeito Marcelo Crivella merece o cargo, lembre-se da postura que o ele teve após o temporal que matou mais de uma dezena de pessoas na cidade. A chamada “chuva atípica” (que acontece regularmente na capital do estado) foi gerenciada pela prefeitura da mesma forma que um adolescente cuida das suas finanças.

Para ajudar a população da cidade a lidar com os problemas, nada mais nada menos que 20 pessoas foram enviadas. Reconhecendo que a ideia não foi muito inteligente, o prefeito não só disse que “até nos Estados Unidos isso acontece“, mas também arrumou tempo para brigar com a GloboNews depois de ser questionado a sobre a diminuição de 87% nos investimentos em obras de drenagem entre 2013 e 2019.

Em notas não relacionadas, o Jornal Nacional informou que existem duas centenas de profissionais preparados para entrar em ação quando há um temporal na cidade.

Oi, sumida

Não é segredo que o pessoal do Nordeste não é lá muito amigo do Bolsonaro e para ajudar a conquistar a população local, o governo trocou o aumento do bolsa família por um 13º para os beneficiários. Inspirados pelo jeitinho mineiro de ser, os nordestinos já demonstraram desconfiança em relação aos planos do presidente para tirar os beneficiários da “coleira política do PT“.

Falta informar se a mudança na política de reajuste do salário mínimo está incluída nos planos de conquista do Nordeste. Os trabalhadores (e aposentados) não devem estar muito felizes com a ideia.

10 pequenas notas do quinto dos infernos

O amigo do tio do meu primo do meu pai do meu irmão é ministro do STF

Na última semana, a revista Crusóe relevou que o tal “amigo do amigo do meu pai” é o ex-advogado-geral da União e agora presidente do STF, Dias Toffoli. Mas, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, a matéria teve que ser retirada do ar, pois haveria “claro abuso no conteúdo da matéria veiculada”. Mesmo com a revista aceitando a censura, o STF também enviou uma multa de 100 mil reais.

Não relacionado a isso, o documento em que Dias Toffoli é citado retirado dos autos da Lava Jato. O blog subscreve o editorial da revista Crusoé e informa que o documento que gerou a matéria da revista pode ser lido por completo aqui.

⬆️ Liberalismo ⬇️

Na celebração dos 100 dias de governo, Bolsonaro resolveu brincar um pouco de ser liberal e anunciou um projeto de lei para dar autonomia ao Banco Central, além de um PL para regulamentar a educação domiciliar. Já o ministro de Minas e Energia anunciou no mesmo dia que o mercado de gás natural seria aberto a concorrentes.

O liberalismo do governo não durou até o pôr do sol. No final do dia, por ordem do presidente (e sem comunicar Paulo Guedes), a Petrobras desistiu do aumento do preço do diesel que estava previsto para sexta-feira (12). A dilmada do presidente foi recebida com aplausos críticos pela petista impeachmada, silêncio do ministro da Economia e raiva do mercado, que fez a estatal perder R$ 30 bilhões de valor de mercado.

A dura liberdade de falar e fazer merda

Após quatro dias de silêncio sobre os 80 tiros que militares direcionaram a uma família e mataram duas pessoas, Bolsonaro se solidarizou com o falador de merda, humorista de baixa qualidade e apresentador de programa meia boca Danilo Gentili, condenado pela justiça a seis meses de prisão em regime aberto. Dias depois, o presidente seguiu o exemplo do ministro Sergio Moro e do vice-presidente, abriu a metralhadora de merda mais uma vez e afirmou que “o exército não matou ninguém“.

A metralhadora de merda do presidente também aproveitou a última semana para informar a um grupo de evangélicos que o Holocausto pode ser perdoado. O genocídio de milhões de pessoas, no entanto, não pode ter para o presidente a mesma importância que ele relega aos crimes da ditadura brasileira: esse deve ser sempre relembrado.

O governo Bolsonaro está se mostrando uma ótima mistura de ensurdecedores silêncios e frases que nos fazem pagar o preço pela audição. O presidente continua ignorando a importância do cargo e o impacto que as suas falas (ou a ausência das mesmas) faz para a república.

Para Bolsonaro, merece um comentário ágil a condenação de um humorista que tenta censurar outras pessoas e se esconde atrás de um hipócrita discurso de defesa da liberdade de expressão. Já a morte de duas pessoas inocentes pelas mãos das forças armadas, a ameaça de morte contra uma deputada da sua base por alguém de seu partido ou o assassinato de uma deputada de um partido de esquerda podem esperar.

Para Danilo Gentilli, “falar não pode ser crime. Nunca” (mas se ele quiser, pode). Tanto os silêncios e quanto as falas de Jair Bolsonaro, porém, deveriam ser considerados um atentado ao bom senso e ao espírito democrático e republicano que tentamos, aos trancos e barrancos, construir para a nossa nação.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Com edição e revisão da querida Luana de Assis.

A Nova Era – semana #10: a literalidade do dedo no cu e da gritaria

Bolsonaro jura que não é fascista. Mas como todo populista reacionário, ele realiza um ótimo cosplay de Mussolini do século XXI quando lhe é conveniente.


Hoje eu acordei e deu uma saudade do Petê

A jornalista Luiza Bandeira reuniu no Twitter um conjunto de links que mostram como os maiores blogs pró-governo estão ligados ao partido do presidente. Assim como Caio Coppolla, parece que o Terça Livre não é muito livre, o Conexão Política está bem conectado com dinheiro da política e a República de Curitiba pode se encontrar com milicianos facilmente.

Políticos criando os seus próprios jornais para divulgar as suas opiniões não é algo novo no Brasil e em nenhum lugar do planeta, mas os petistas pelo menos faziam isso de uma forma mais discreta.

⬆️ protecionismo econômico ⬇️ liberalismo econômico

O episódio dessa semana do seriado “liberais que apoiaram Bolsonaro passando vergonha” teve o presidente dando uma banana pra abertura econômica: o presidente quer barrar a importação de banana do Equador.

O futuro avaliador da qualidade do ENEM diz não entender como uma banana sai do Equador e chega ao nosso país custando menos do que as frutas nacionais vendidas na Ceagesp. Alguém faltou nas aulas de economia enquanto batia papo com inocentes produtores do fruto amarelo, mas tudo bem, o blog explica com a ajuda do João Dória.

Na última semana, João Trabalhador anunciou uma redução (sim, mais uma) de impostos para a indústria automobilista. O que parece muito com liberalismo está mais para uma medida que cairia como uma luva no governo de Dilma Rousseff: um puro suco de protecionismo vertical direcionado a setores com maior poder de lobby.

Ao reduzir impostos de uma indústria com forte impacto ambiental, o governador de São Paulo está, mais uma vez, indo contra todos os pensamentos modernos de mobilidade urbana. Mas focando apenas nos fatores econômicos, Dória também ajudou a distorcer preços relativos, prejudicar a concorrência que se instala em outros estados e, em última instância, mantém o poder de compra do indivíduo limitado a uma meia dúzia de carros caros e de qualidade duvidosa. Adam Smith estaria orgulhoso.

E a democracia, hein?

Se os generais do governo ganharam um banho de loja, chegou a hora dos civis ganharem um banho de democracia.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mais uma vez esqueceu que o seu cargo foi criado para cuidar do meio ambiente (e não da vida alheia). Após uma coluna de opinião em jornal Alemão criticar o governo, Salles comparou a posição do colunista com o nazismo. Um dos trechos dizia:

São pessoas que agem e falam com arrogância e crueldade. São pessoas que riem quando morre uma criança de sete anos. Que comemoram quando a polícia comete massacres em favelas, quando morrem ambientalistas ou vereadoras negras. Pessoas que não conhecem a diferença entre flertar e assediar. Pessoas com relações com milícias. Pessoas que falam toda hora em Deus, mas mentem, xingam e difamam. Pessoas que gritam “zero corrupção!”, mas que são corruptas.

Questionado, o ministro informou que o veículo “atacou o governo brasileiro com acusações mentirosas e ofensivas”. Para outro internauta, Salles disse que “o DW é um canal público, não pode escrever essas coisas do Brasil”.

Ora, a Casa Civil não tem um beneficiário confesso de caixa dois? O ministro pode garantir que todos os membros do alto escalão sabem mesmo diferenciar assédio de paquera? Os Bolsonaros não homenagearam membros da milícia nos últimos anos? O Twitter presidencial não mente mais vezes do que um jovem usaria o banheiro após comer uma maionese artesanal na praia de Copacabana?

Antes de pautar a mídia de outros países, Salles deveria lembrar que, para isso, ou ele vira dono do próprio jornal ou se torna editor-chefe. No cargo de ministro, ele deve apenas aceitar as críticas que fazem parte do dia a dia de qualquer governante. A democracia tem dessas.

Enquanto isso, em um evento de militares, o presidente disse que as Forças Armadas são a instituição que garante a democracia no país. Me digam se eu estiver errado, mas a Constituição dá ao povo, e não aos militares, o poder de garantir a ordem democrática.

Não foi só o branco de cocar que atacou a imprensa, Bolsonaro também fez a sua parte no ataque a jornalistas, e dessa vez com ajuda do blogprog da pá virada Allan dos Santos.

Após uma péssima tradução, o “jornalista” acusou Constança Rezende de tentar destruir o governo. O presidente republicou a acusação, lembrando que ela é filha de um repórter carioca que publica, de maneira recorrente, matérias contra milicianos.

O site francês que originou a publicação desmentiu os dois no Twitter. Para alguém que ocupa o cargo político mais importante do país, Bolsonaro está precisando de umas aulinhas no CCAA, que seriam muito bem acompanhadas de um reforço no português de toda a família.

Pee tape à brasileira

O carnaval dos Bolsonaros foi agitado. Enquanto o Carluxo usa o Photoshop em suas fotos, o Bolsopai anunciava uma “Lava Jato da Educação”, falava sobre mudanças na Lei Rouanet e encontrava socialismo não light em lugares em que não há socialismo.

Mas o que chamou atenção dos internautas foi a divulgação de uma performance artística no carnaval, com direito a dedo no cu, gritaria e golden shower.

Alguns chegaram a cogitar impeachment por falta de decoro, algo que obviamente não acontecerá. Houve também quem questionasse até a saúde mental do presidente, e a base aliada teve vergonha.

Mas tudo isso é parte do seu plano e estratégia que, por sinal, tem dado muito certo.

Um conhecido uma vez disse, sabiamente, que política é entretenimento. E entretenimento é colocar todo mundo para falar de algo – seja bem ou mal. Isso, Carlos Bolsonaro, o ghost writer do Twitter presidencial, soube fazer muito bem.

Política é construção de narrativas. A política feita por Bolsonaro, Trump e similares tem como ponto de partida uma manipulação contínua do debate público a partir de divulgação de vídeos, como o do golden shower, ataques à imprensa e mentiras. Já é hora de nos acostumarmos a isso, isso se quisermos deixar de ter as nossas discussões pautadas pelo Tonho da Lua carioca.

A tucanização dos não tucanos

Se a esquerda e/ou o centro do espectro político pretendem voltar a governar o país um dia, chegou a hora de começar a olhar mais para o presente e não para o passado. O Brasil de Bolsonaro está muito mais próximo da Rússia de Putin (ou dos EUA de Trump) do que da Alemanha de 1940 ou o Brasil de 1964.

O Partido dos Trabalhadores, que recebeu a maior quantidade de votos contra-Bolsonaro na última eleição, está fazendo de tudo para perder o capital político mais rápido do que Aécio Neves após as eleições de 2014.

Segundo o Painel da Folha de S.Paulo, o partido pretende defender como contra proposta à reforma da Previdência de Guedes, as medidas que Fernando Haddad inseriu em seu programa de governo nas últimas eleições. Ao menos era o que o partido queria fazer antes de Gleisi Hoffmann ser consultada.

Alguém lembra quando o PT cobrava do PSDB uma oposição programática, que não fosse apenas “contra tudo isso que está aí”? Eu lembro. Era a mesma época em que o próprio líder do governo sabotava a Dilma no Congresso de manhã, e à tarde apontava o dedo para os tucanos e o resto da base aliada.

Falando em aliados, a mídia (e parte da militância progressista) resolveu brincar de shadow cabinet e criar um governo paralelo para criticar Bolsonaro e Guaidó. A iniciativa é liderada por José de Abreu, aquele que já cuspiu em mulher, disse que não era hétero só de brincadeira e chamou vietnamitas de um “povo filho da puta”.

Glesi Hoffmann, quando convidada, não perdeu a chance de ir até a Venezuela validar a “eleição” do projeto de ditador que governa o país. O coordenador do MST, aquele que o presidente quer criminalizar, também não deixou de apoiar o governo nada democrático quando lhe foi possível.

Se ambos querem ajudar a direita a grudar na esquerda uma imagem de movimento pouco democrático, eles merecem uma medalha: o trabalho está sendo realizado com louvor.

Eis o Brasil em 2019: a maior força contra o governo segue sendo o próprio governo. Na semana em que a reforma da Previdência começou a ser negociada no Congresso, o ministro da Casa Civil viajou por quatro dias para à Antártida.

Bolsonaro, por outro lado, começou a desidratar a reforma antes mesmo que ela fosse lida pelos congressistas. O presidente, que pouco fala sobre o projeto mais importante do governo no Twitter, já se mostrou disposto a reduzir a idade mínima para as mulheres e a mudar o BPC.

Pelo visto os dois ex-deputados passaram muito tempo discutindo abobrinha nos anos em que estiveram na Câmara dos Deputados, já que só isso explica o esforço para não aprovar qualquer medida importante na Câmara.

Quando se tornaram obrigados a brincar de realpolitik no Planalto, Onix e Bolsonaro mostram ter menos capacidade para governar do que certo deputado mineiro teve de esconder os seus pedidos de empréstimos para fins duvidosos.

A coisa tá tão feia que agora precisamos contar com a boa vontade dos militares para diminuir o número de absurdos diários que cada setor promove. Os militares, por sinal, estão tão empenhados no seu papel de Poder Moderador Moderno que há quem questione a necessidade de termos um vice-presidente.

Veja bem, a situação do governo Bolsonaro não é uma que faça o trabalho da oposição ser difícil. Além de todas as denúncias sobre o grande laranjal que é o PSL, as várias ligações do presidente com milicianos e as briguinhas internas, ainda por cima a economia não vai bem.

Em 2018, crescemos 1,1%. Em 2019, não deveremos crescer muito mais, e qualquer pessoa que já leu um livro de economia básica sabe que a reforma da previdência será tão boa quanto a trabalhista para criar empregos. Em 2020, é bem provável que o cenário se repita.

Essa seria uma ótima oportunidade para as forças de oposição seguirem o exemplo do PSB e do PDT e se unirem. O que se vê, no entanto, é o principal partido da oposição se colocando contra um político de outro país. Já o PSOL, que não tem voto para eleger sequer um síndico de condomínio, está muito ocupado marcando posição com brincadeira, mentindo ou ignorando que o presidente fala mais de multa do que a reforma.

Tudo bem, vocês querem vencer a “batalha moral” criticando quem vai até o lugar em que as narrativas da direita reacionária correm soltas. Mas poder gera poder, e nesse ritmo, só os conservadores conseguirão ampliar a sua força.


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Com edição e revisão da Luana de Assis.


A Nova Era – semana #9: a República do Relógio Feio

Nessa semana, as pessoas que realmente mandam – e as que não deveriam, mas também o fazem –, governaram. Já a que deveria governar, mas ninguém se importa, ficou no Planalto. Parece confuso? Então continue a leitura e entenda. 


Fusca 94 marrom caqui com adesivos verdes

Não foi apenas Mourão que recebeu uma repaginada para assumir a vice-presidência.  Os outros milicos que ocupam cargos de primeiro, segundo e terceiro escalão (dentro e fora de Brasília) receberam um pequeno banho de loja e se tornaram os Fuscas do Itamar da Nova Era: uma versão levemente moderna de algo que já deveria ter ficado no passado.

Até segunda ordem, seguiremos torcendo para que os freios dos nossos Fuscas impeçam o governo de avançar contra o barranco da História. 

50 tons de socialismo 

O governo Bolsonaro começou falando em acabar com o socialismo, mas em menos de 10 semanas já mostrou que não é bem assim. Quando o socialismo é light, tá tudo liberado. 

É o que deu a entender o nosso 4chanceler Ernesto Araújo, ao comentar a crise política venezuelana. Em uma entrevista ao reporter da GloboNews, Victor Ferreira, o ministro afirmou que o nosso vizinho é um caso de “socialismo ruim”, em que “o regime está oprimindo o seu povo de uma maneira brutal, fazendo seu povo passar fome, inclusive atirar nas pessoas que tentam ter acesso a ajuda humanitária”. Exatamente como ocorre na Coreia do Norte, um caso de “socialismo do bem”, segundo Araújo. 

Chico Buarque – Olhos Nos Olhos 

Mais uma vez exercendo o seu cargo de pessoa razoável, o vice-presidente lembrou a razão para sermos tão complacentes com a Coreia do Norte: bombas nucleares.

Não é a primeira vez que o vice tem que lembrar ao 4chanceler como o seu trabalho deve ser feito. Podemos dizer que esse foi o primeiro momento “olha o Mourão mostrando que sem essas pessoas a nossa vida seria muito mais fácil” da semana. 

Seria bom que os militares continuem aproveitando a experiência que tem e jogassem para escanteio o nosso diplomata olavista preferido. O 4chanceler pode fazer muito mais pelo Brasil se as suas atividades forem resumidas a receber gente que seria vítima da guilhotina em seu gabinete.

República das Bananas do séc. XXI 

Os últimos dias foram agitados na Venezuela, especialmente nas fronteiras com o Brasil e a Colômbia. 

Deste lado da fronteira, o Ministério da Defesa teve que dialogar com militares venezuelanos para impedir que a área virasse uma reprise de Toma Lá, Dá Cá

Já do outro lado, o governo mandou queimar a ajuda humanitária que foi enviada através da divisa colombiana. Se havia o medo do envio de armas dentro da carga, bastava verificar os pacotes. Daria até para contratar algumas pessoas para esse trabalho, e reduzir por algumas horas os índices de desemprego no país.

Os militares se dividem entre os que estão assaltando a população que foge do país e matando índios, os que seguem apoiando o governo e os que estão desertando. Junto com o prefeito da cidade venezuelana de Gran Sabana, os últimos são parte de um grupo nada pequeno de pessoas que não aguentam mais os problemas causados pelo governo já estragado de Maduro.

Para o horror do Trump, do presidente da Colômbia e daquele seu amigo do PSOL que ainda acha que uma intervenção militar pode ocorrer na Venezuela, o Grupo de Lima demonstrou zero interesse nessa história, ao menos por enquanto. Segundo o vice-presidente-que-ninguém-gosta-de-gostar, a melhor estratégia ainda é o diálogo

Enquanto isso, o presidente, que não é muito bem um presidente, fez um tour pelos países da América Latina para reforçar a necessidade de derrubar Maduro. 

Um Gilmar para o Gilmar

Gilmar Mendes foi flagrado cotando o preço de passagens para a China. O ministro do STF fez uma vaquinha com Dias Toffoli para criar o seu próprio Gilmar Mendes e, assim, se proteger das análises da força tarefa da Receita Federal contra as fraudes fiscais

A Nova Era está enferrujada 

De acordo com a última pesquisa divulgada pela CNT/MDA, o governo Bolsonaro tem menos aprovação do que Dilma Rousseff às vésperas de sua segunda eleição. Aparentemente, o Brasil não está gostando do resultado de ter eleito um presidente “burro”, “fascista”, “desonesto”, “desqualificado”, “racista”, “corrupto”, “canalha”, “nepotista” e “boquirroto”.

A pesquisa também revelou que a flexibilização da posse de armas não é aprovada por 53% dos entrevistados e a reforma da previdência só recebe o apoio de 43% dos brasileiros. O Brasil crescerá muito quando as pessoas deixarem de votar nos políticos apenas para serem contra algo ou alguém.

Mais liberal do que eu? 

Na manhã do dia 26, as principais montadoras brasileiras pediram, de novo, novamente, mais uma vez, que o Brasil as proteja contra a concorrência de outros países. Dessa vez, o ataque foi direcionado a um acordo de livre comércio entre Brasil e México, que deve entrar em vigor em menos de um mês. 

A notícia é um refresco na memória, lembrando a todos que o verdadeiro liberalismo tupiniquim ainda está restrito a algumas salas do Insper e da PUC-RJ. Quem pensou que dessa vez ele ocuparia as esquinas do Planalto pode terminar de tirar o cavalinho da chuva. 

Pequenas notas do quinto dos infernos 

Enquanto parte do governo falava e fazia vários absurdos para a surpresa de ninguém, várias pequenas coisas interessantes aconteceram. Tomem nota: 

Gold Digger

Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro e condenado a quase 200 anos de prisão, admitiu os crimes que todo mundo sabia que ele cometeu. O “viciado em dinheiro” começou a listar, também, algumas pessoas que podem ter se envolvido em esquemas de corrupção durante o tempo em que ele esteve no poder. No lugar da Igreja, uma boa estratégia seria listar algo realmente interessante: o judiciário. 

A relação de Cabral com os membros da Justiça é longa. Ele influiu em decisões do Tribunal de Justiça do Rio, apadrinhou quatro ministros do STJ e até mesmo um ministro do Supremo. Esses favores não devem ter saído de graça

Bandido bom é bandido amigo 

A cada notícia sobre o que aconteceu nas vizinhanças do gabinete de Flavio Bolsonaro enquanto ele batia ponto na Alerj, mais a família Bolsonaro se aproxima de milicianos, os bandidos cujo crime foi amar demais um poder policial paralelo. A Istoé relevou que Valdenice de Oliveira foi uma das responsáveis pelas contas de campanha do senador, a ex-funcionária do 01 é irmã de dois milicianos que, até o momento, estão presos. 

Já a Veja mostrou que a mãe e a esposa de Adriano Magalhães de Nobre, apontado como líder do Escritório do Crime, também trabalharam no gabinete. Resta saber se o “escritório” de Adriano não tinha nenhuma filial no gabinete do ex-vereador. 

Gado demais 

A revista IstoÉ trouxe dados sobre como o dinheiro de 1,4 mil eleitores foi aproveitado por Bolsonaro em campanhas de outros políticos. A verba de R$ 345 mil teria sido direcionada para os filhos Eduardo e Flávio, além do deputado Hélio Lopes.  

Governo Bolsonaro: lamba o saco de cocô ou deixe-o 

Na última semana, Sérgio Moro foi lembrado que, assim como Paulo Guedes, a sua autonomia no governo não é lá das maiores. Mostrando que se ele não quer continuar manchando a sua carreira com episódios lamentáveis, uma boa alternativa é correr para o posto do INSS mais próximo e ver se ainda consegue se aposentar antes da reforma passar.  

É aproveitar a janela de oportunidade ou continuar engolindo sapo para tentar virar ministro do STF ou, quem sabe um dia, presidente do país

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O fato de Bolsonaro ter obrigado Moro a desconvidar Ilona Szabó de uma suplência no Conselho de Políticas Criminais e Penitenciárias serviu para lembrar que a Nova Direita nunca será transante. Não se continuar com medo até das mulheres que não mandam em nada. O caso virou mais um item na longa lista de provas de que o governo só serve para obedecer os seus eleitores. 

Partido-à-Prova de Balas 

Quanto mais matérias são feitas sobre o PSL, mais o partido parece ser uma versão nacional da Quadrilha da Morte. Na última semana, o Buzzfeed News acusou o ministro Marcelo Álvaro Antônio, já suspeito de gerir a filial mineira do laranjal da sigla, de tentar extorquir uma candidata a lavar dinheiro para o partido

Já o The Intercept Brasil lembrou que o presidente realmente gosta de coisas que não existem. Além de uma ameaça comunista que nunca atingiu o Brasil, Bolsonaro também é afeito a assessores que não trabalham para ele, mas certamente recebem para isso. 

A sanha por laranjas é tanta que até mesmo na lista de debates na Câmara os deputados do partido assinam pelos colegas

O PSL, ao fim e ao cabo, é uma fábrica de suco de laranjas, comandada por um Tonho da Lua, um ator pornô, uma jornalista conhecida pelos plágios, militares e youtubers. Se tudo der certo, em quatro anos, a esquerda que chamava o PSDB e o Tio Rei das piores coisas existentes na Terra estará sentindo falta de opositores com algum nível sociológico e cultural.


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Com edição e revisão da Luana de Assis.

A Nova Era – semana #6: I am as mad as hell, and I’m not going to take this anymore

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Corrupção de pobre SE01EP06 

Toda semana o governo Bolsonaro nos surpreende com uma acusação de mal feito que, via de regra, pode ser definida como uma corrupção de pobre: aquele desvio de dinheiro público que não dá bilhão, não faz alguém ter uma amante que aparece na capa da Playboy ou uma mansão na Barra da Tijuca. 

No episódio da semana, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL), foi acusado pela Folha de S. Paulo de patrocinar um esquema de desvio de verbas eleitorais para empresas ligadas ao seu gabinete. Uma prática tão velha e digna de político pouco relevante que me fez sentir saudade do Geddel com seu apartamento cheio de dinheiro

A corrupção da Nova Era é muito ruim. Quero a corrupção da Era Velha de volta. 

Amado Batista – E o Pau Tá Quebrando.mp3 

A força eleitoral do PSL nas últimas eleições ajudou o partido a criar um dos maiores blocos parlamentares da nova legislatura. Com quatro senadores e 52 deputados, ninguém pode negar que o partido consegue dizer que tem um grande poder. 

Mas antes de exercer essa força, os parlamentares deveriam aprender algo que os petistas aprenderam mal e a esquerda dos DCEs nacionais ainda não aprendeu. Criar poder é fácil, mas para manter, é necessário união e um plano de ação eficiente. 

O Partido dos Trabalhadores se manteve unido enquanto todos lutavam pelas mesmas coisas de forma unificada. Foi assim que o partido aprovou uma reforma da Previdência dos servidores públicos, engoliu um vice do PMDB e até respeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal. 

Foi perdendo essa unidade que Dilma Rousseff não conseguiu o mínimo de apoio para aprovar o seu ajuste fiscal. Ou a compra de uma caixa de Bis para o seu neto. 

Para quem não lembra como isso terminou, vamos ao mini-flashback: o governo não aprovou as medidas de ajuste, a oposição ganhou força, Michel Temer virou presidente e a Dilma virou vizinha de bairro do Aécio Neves. 

Nós mal começamos o segundo mês de governo e até agora tivemos: 

  • um líder que não lidera e é boicotado pela base aliada; 
  • 18 deputados ameaçando sair do partido graças à escolha do líder; 
  • uma bancada com poucas janelas e muitas pessoas querendo ocupar os bancos com vento fresco; 
  • um grupo de novatos passeando na China e reclamando das críticas vindas de sua base; 
  • um suplente e um deputado sendo acusados de tramar a morte de uma senadora para que ela perdesse o cargo. 

Os deputados deveriam realizar uma terapia em grupo pra solucionarem os seus problemas internos e a luta contra inimigos imaginários. A oposição, por outro lado, pode comemorar: enquanto eles estiverem muito ocupados sentindo ciúmes do DEM, será pouco provável que qualquer projeto importante do governo seja aprovado

Michel Temer de bota 

Mourão precisa parar de tentar construir pontes para o futuro. Tudo bem que a cada dia que passa o presidente demonstra estar mais pra lá do que pra cá, mas sempre reforçar que ele é mais capacitado, coerente e racional do que o Bolsonaro vai acabar, sim, tornando ele alguém atraente para o mercado. 

Essa coisa de ter um bom diálogo com a imprensa, defender o aborto, debochar dos livros de Olavo de Carvalho e tentar incluir os militares na reforma da Previdência é muito fofa. Mas todo mundo sabe que, no final do dia, você ainda é um milico que topou ser vice do Bolsonaro. A nossa calcinha não cairá tão facilmente assim, portanto, pague um jantar mais caro na próxima vez. 

Cuidando do quintal do vizinho 

Alguém viu o filho do presidente, vereador eleito pelo Rio de Janeiro e tuiteiro nas horas comerciais, comentar a tragédia do Rio de Janeiro? Ou ele só está ocupado apontando que a imprensa não fez o que ela fez? Quando você é eleito para legislar em uma cidade, uma boa escolha é, de fato, cuidar dela, e não se importar com problemas que não existem e que se existissem não seriam da sua conta. 

Acabou a mamata 

O governo Bolsonaro mal começou e já temos os principais afetados pelo fim da mamata. Milhões de bots de whatsapp e compartilhadores de conspirações não mais poderão auxiliar o presidente a criar a sua própria realidade: no final de janeiro, o Whatsapp reduziu o número de destinatários de mensagens encaminhadas de 256 pessoas para cinco. 

Segundo o pessoal do Recode, a redução do número de destinatários para o encaminhamento de mensagens pode reduzir o alcance potencial das correntes em até 98,04%. As fake news que antes conseguiriam chegar a 65.536 pessoas agora atingirão apenas 1.280 destinatários. 

Millenials também podem comemorar. Não só os riscos da nossa democracia ser destruída caíram, mas o número de mensagens de bom dia em grupos de família também será bem menor. 

Grandes questões da humanidade 

Agora que o ministro da Justiça apresentou o seu programa contra o crime, os jornalistas deveriam perguntar: valeu a pena lamber a bola do presidente por tanto tempo? As pernas dele são tão grossas assim para impedir o ex-juiz de enxergar todos os outros corruptos que ocupam a Esplanada dos Ministérios? 

É assustador que uma pessoa que já passou tanto tempo analisando como as leis devem ser aplicadas crie um pacote com ideias que são contrárias a legislações já aprovadas, consideradas inconstitucionais pelo Supremo ou que apenas requentam soluções que ninguém quer aprovar no Congresso. O ministro deveria frequentar uma prisão brasileira antes de achar que aumentar o encarceramento provisório solucionará a impunidade nacional. Ou pelo menos conhecer o que não será aprovado de qualquer forma

Literalismo trágico 

Antes que a próxima tragédia ambiental envolvendo uma empresa privatizada (ou que ainda seja pública) aconteça, vamos fechar aqui um combinado: nada de crítica social foda em cima do cadáver do coleguinha, talkey

O desastre de Brumadinho ocorreu não por uma falha do capitalismo, de um governo de direita, um político de esquerda ou de uma privatização mal realizada. Um crime ambiental desse porte não acontece sem que um grande número de falhas já tenha se concretizado. 

Dizer que tudo se resume ao fato da empresa ser privada ou estatal, é como dizer que um trem não descarrilharia se os passageiros estivessem em pé e não sentados, mas só após do acidente. 

Há uma longa cadeia de falhas, omissões, lobbys e decisões tomadas que levaram ao que chamamos de “tragédia anunciada”. A Vale, a justiça brasileira, o governo federal e o governo estadual agem com igual tolerância para esse tipo de problema: enquanto os lucros e impostos existirem em larga escala, ninguém será punido ou serão tomadas medidas para resolver o problema.

Mas vamos por partes: 

Os defeitos no sistema de drenagem interna da barragem foram apontados em um relatório, antes que o acidente ocorresse. A Vale também soube previamente que um rompimento na barragem destruiria as áreas industriais da mina de Córrego do Feijão. A empresa teve ciência de problemas nos sensores que eram responsáveis por monitorar a estrutura da barragem. 

Em todos os casos, nada foi feito. Não é como se um desses problemas fosse afetar as ações da companhia  na Bolsa

Isso não quer dizer, porém, que a Vale não toma medidas após os (previsíveis) crimes ambientais. A empresa “aconselhou” familiares de pessoas que estiveram envolvidas no acidente, assim como os sobreviventes, a não opinarem publicamente sobre o que ocorreu. Quando as pessoas afetadas solicitaram dinheiro da empresa para conseguirem sobreviver até que as suas vidas fossem retomadas, receberam uma negativa

Durante as administrações tucanas de Minas Gerais, o deputado Rogério Correia (PT) sempre atacou o governo, com boa razão, pelos benefícios dados a empresa em todo o estado. Quando deixou de ser oposição, ignorou a urgente necessidade de fiscalizar as mineradoras e mudar a matriz econômica do estado. 

O novo governo, do “liberal” partido Novo, manteve o secretário do Meio Ambiente que foi responsável por afrouxar as regras de licenciamento ambiental no governo do petista Fernando Pimentel. Germano Luiz considera a legislação mineira um exemplo para o país. E ele sequer fala isso com ironia

Para os críticos da postura liberal a favor de redução do número de empresas estatais, fica a pergunta: seria mesmo possível barrar o acidente em um governo de esquerda? 

Dilma Rousseff e Fernando Pimentel, ambos de um partido de centro-esquerda, estavam no governo quando a onda de rejeitos da barragem de Fundão atingiu o Rio Doce. O Partido dos Trabalhadores, aliás, teve 16 anos para recomprar as ações, retomar o total controle sobre a Vale e dizer que era necessário aumentar a produção em função do “desenvolvimento e a valorização das indústrias nacionais”. Mesmo que isso significasse um afrouxamento das regras de segurança ambiental, como ocorreu nas usinas de Belo Monte e Jirau. 

Minas Gerais é o centro de uma festa em que a principal convidada é a morte do nosso planeta. A sociedade (e a nossa economia) é, foi e será, estruturada em atividades que envolvem a extração de recursos minerais. Do computador que uso para digitar esse texto ao minério extraído de Minas para ajudar chineses a criarem pontes faraônicas, tudo depende de minério. Muito minério. 

Isso não mudará de hoje para amanhã. Não conseguiremos, da noite para o dia, criar computadores que dependam menos de metais para serem funcionais. Tão menos seremos capazes de reduzir o descarte impróprio e a não reciclagem do nosso lixo eletrônico a tempo de evitar que as mudanças  no clima global matem boa parte da raça humana. 

Vamos ser sinceros. Comunistas, ecossocialistas, liberais e conservadores: todos nós desejamos, diretamente ou indiretamente, o minério que sai de Minas Gerais. E para impedir que outros acidentes ocorram por leniência humana, será necessário um esforço muito maior do que o requerido para tomar os meios de produção ou estatizar uma multinacional. 

Precisamos de leis ambientais mais duras e que não sejam escritas nos escritórios dos advogados das mineradoras. Uma vez que as leis sejam reformadas, a fiscalização deve ser valorizada de verdade

Também precisamos de um judiciário que realmente puna as empresas que não cumprem a nossa legislação, a atual e a futura, algo que ainda não aconteceu com o penúltimo desastre envolvendo a Vale, por exemplo. Não menos importante, precisamos mudar drasticamente a nossa relação com o mundo ao nosso redor, evitando a compra de eletrônicos e outros produtos que utilizam tanto metal. 

O capitalismo, e muito menos o socialismo, salvarão as pessoas que foram vítimas de tragédias como a da mina do Córrego do Feijão. Mas se não fizermos o esforço necessário para impedir que os recursos naturais sejam explorados além do que o planeta suporta, a Terra resolverá o problema da mesma forma que uma chuva de meteoros parou com as brigas entre os dinossauros. 


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(com a revisão da @fogeluana)