A Nova Era – Semana #55: salto artístico na piscina do autoritarismo

Teste do pato, improbidade administrativa, ninhos de mafagafos e muito wishful thinking marcaram a última semana.

Vem comigo que eu te mostro (e não se esquece de compartilhar com aquela pessoa que você gosta).


The following takes place between jan-14 and jan-20


Secretaria de Comunicação e Improbidade Administrativa

A Folha de S. Paulo revelou que o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, pode ter cometido improbidade administrativa após entrar no cargo. Wajngarten recebeu, nos últimos meses, pagamentos de emissoras de TV e agências de publicidade por meio de uma empresa da qual ele é sócio, a FW Comunicação.

O conflito de interesses surge pelo fato de a Secom ser a área do governo que distribui todo o orçamento de propaganda do Planalto. Wajngarten ganhou o cargo em abril de 2019 e, desde então, tem aumentado a verba destinada para as emissoras amigas de Bolsonaro (enquanto reduz a de empresas de comunicação um pouco mais críticas).

As empresas, como apontou o jornal, tem contratos com o governo e com a FW comunicação. Uma delas, a agência de publicidade Artplan, recebeu R$ 70 milhões entre abril e dezembro de 2019. O valor é 36% maior do que o pago no mesmo período no ano anterior.

Além do aumento de verbas, Fabio Wajngarten teve 67 encontros oficiais com representantes e ex-clientes da sua empresa (após assumir o cargo). O transporte necessário para realizar pelo menos 20 reuniões foi custeado com dinheiro público. A matéria não revelou, porém, se o número dois da Secom, irmão do administrador da FW, participou das conversas.

Jair Bolsonaro e Wajngarten juram que não há nada de errado, mas a Comissão de Ética Pública da Presidência analisará as denúncias. O Ministério Público de Contas também entrou na brincadeira e fará uma revisão de verbas publicitárias do governo. No Legislativo, há gente pedindo a saída de Fabio Wajngarten da Secom.

No governo Dilma e no governo Lula, quando algo semelhante ocorreu, uma postura relativamente diferente foi adotada. Todo mundo teve que se afastar dos cargos que ocupavam na iniciativa privada. Muito provavelmente em função disso os aliados de Bolsonaro não conseguiram um parecer favorável ao chefe da Secom no TCU e na CGU.

As coisas na Venezuela estão ótimas

Enquanto não passava pano para o seu subordinado, Bolsonaro resolveu atacar, outra vez, de novo, novamente, a imprensa. Perguntado se sabia dos contratos assinados pela empresa de Wajngarten, respondeu com um presidencial “você está falando da tua mãe?”. Na mesma quinta-feira (16), o presidente já tinha dito que a Folha de S. Paulo “não tem moral para perguntar” sobre o caso e mandou uma repórter do jornal calar a boca.

Além de apontar que não estava no governo para fazer negócios, Wajngarten se defendeu afirmando que a matéria é absurda. Também cometeu gaslighting com a notícia, a chamando de desequilibrada, imparcial e injusta. No fim, deixou um recardo bombástico: “se determinados grupos de comunicação ou institutos de pesquisa tinham em mim a tentativa de construção de uma ponte de diálogo, essa ponte foi explodida hoje”.

A Secom, em nota, sugeriu que a Folha não está conformada com o sucesso (???) do governo Bolsonaro. Já o chefe de Wajngarten, o general Luiz Eduardo Ramos, afirmou que a notícia é “mais uma dessas maldades que se faz contra homens públicos“. Porém, há quem diga que ele se arrependeu da declaração pouco tempo depois.

Em 2019, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, o número de ofensas e tentativas de descredibilização subiu 54%. Mais de metade desse número veio direto do Planalto.

Não é de se assustar que as respostas tenham sido deste nível. Mas é de se assustar que alguém ainda diga que estamos vivendo a mais pura normalidade democrática.

Mexendo o pauzinho

Enquanto Wajngarten queima, Carlos Bolsonaro se articula. O Zero Dois estaria trabalhando para colocar o blogueiro e espalhador de notícias fantasiosas Allan dos Santos como secretário de Comunicação. Nada melhor do que criar um gabinete do ódio às claras e com o financiamento declarado no orçamento da União.

Garantindo o juiz das garantias

Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, deu mais seis meses para o juiz de garantias ser implementado. Ele também tornou a medida mais compacta: processos relativos à Lei Maria da Penha ou homicídios (que já têm as suas próprias regras) e ações da Justiça Eleitoral não precisarão do apoio de um magistrado.

O tema ainda será avaliado pelo plenário do Supremo. Enquanto novas mudanças não são feitas, o judiciário poderá aproveitar o tempo ganho para se preparar. Já bastam os nossos estudantes deixando tudo para a última hora.

O melhor pior Enem da história

Falando em estudantes, o melhor Enem da história, para variar, foi péssimo. Assim que os resultados saíram, um grupo de estudantes começou a relatar que a nota tinha tudo para estar errada. Apesar de terem acertado muitas questões do gabarito oficial, a nota de todos estava mais baixa do que o esperado.

Abraham Weintraub, o ministro da Educação, se fez de sonso o quanto pode. Postou video engraçadinho na internet e, inicialmente, afirmou que o problema na correção estava relacionado apenas a algumas provas feitas no segundo dia do exame. No dia seguinte, o MEC mudou a postura e afirmou que falhas no primeiro dia também seriam investigadas.

Para lidar com o problema, o calendário do Sisu foi ampliado (ainda que o Ministério Público Federal tenha solicitado a suspensão da abertura do processo seletivo até que tudo tenha sido realmente corrigido). Um e-mail foi criado para quem quisesse questionar a nota. O prazo para o envio das mensagens? Menos de 24 horas.

O ministério apontou que os problemas ocorreram por falha da gráfica responsável pela impressão das provas. Ela foi selecionada após a empresa que cuidou das provas pré-Bolsonaro falir. Ao que tudo indica, ter contratado alguém com zero experiência na área e ainda cometer uma série de presepadas ao longo do último ano não gera um bom resultado no final do dia.

O ministro poderia utilizar a lição e começar a fazer um trabalho mais eficaz. Ou ele pode, finalmente, sair do cargo. Vai que, em vez de um intelectual meia boca com ideias ruins, Bolsonaro resolve colocar alguém minimamente eficiente? Superar o status quo não é muito difícil.

Novamente tudo muito louco no ninho de mafagafo chamado DPVAT

A Folha de S. Paulo apontou que a seguradora Líder, que faz a cobrança do DPVAT, tem mutretas que vão além das citadas no post da última semana. A empresa realizou doações e atendeu a pedidos de políticos que podem ou não ter agido a favor de seus interesses.

Os parlamentares do PSB e do PSL foram responsáveis por suspender a CPI do DPVAT em 2016. Também recebeu dinheiro Andrea Neves, quando presidia o Servas. Os R$ 500 mil a ela repassados não tiveram o seu destino identificado, o que pode ou não indicar que criminhos ocorreram.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Que notícia ruim o ministério do Meio Ambiente trouxe essa semana

A área com alertas de desmatamento na Amazônia Legal aumentou 85,3% em 2019 em uma comparação com os dados do ano anterior. Os indicadores são do sistema Deter-B, que foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

O Núcleo obteve uma série de documentos que mostram o trabalho porco do Ministério do Meio Ambiente durante o desastre do vazamento de óleo no Nordeste em 2019.

A matéria mostra como o Ibama acompanhou o incidente, alertou a equipe de Salles sobre os problemas encontrados e avisou que, com o contingente reduzido, pouco poderia ser feito. As 450 páginas cobrem o descaso do ministro entre 2 de setembro e 4 de outubro.

A incapacidade do governo em colocar pessoas eficientes em cargos de confiança é quase tão incrível quanto o empenho de cada uma em ser péssima no que faz.

Wishful thinking liberal

O governo resolveu começar o ano brincando de liberalismo. Ou pelo menos tentando. O secretário especial de Desestatização, Desinvestimentos e Mercados do Ministério da Economia, Salim Mattar, anunciou que pretende arrecadar R$ 150 bilhões com a venda de ativos estatais.

Mais precisamente, 300 deles. Muitos dos quais já estão com a venda encaminhada desde os tempos de Michel Miguel. Parece um detalhe pequeno, mas não é, já que o governo tem tudo para acabar após aprovar os projetos do vampirão.

Sim, ativos. Pois este blog não cairá no canto de sereia de que a venda de subsidiária da Eletrobras (ou da Petrobras) é venda de estatal. Isso tem outro nome e está longe de ser privatização: é desinvestimento.

O mesmo vale para a venda de participações minoritárias em empresas (algo que aconteceu bastante nos governos Lula e Dilma por meio do FI-FGTS, da Caixa e do BB). Isso também não é privatizar (novamente, é desinvestimento). Mas o leitor pode ter certeza que o governo venderá para o bolsonarista este gato sarnento como se ele fosse lebre.

A agenda do governo também inclui 79 leilões em 2020. Há inclusive parcerias público-privadas para áreas como iluminação pública e tratamento de resíduos sólidos. O saneamento, que é básico, ficará em um único leilão.

Ficam de fora o Banco do Brasil, a Petrobras e a Caixa. Os Correios, talvez. Mais provavelmente ano que vem, quando o governo terminar a avaliação do projeto e decidir se vale a pena ou não deixar um monte de liberal de internet molhadinho.

Teste do pato

O que é que parece com um fascista, fala como um fascista e se porta como um fascista? Provavelmente o agora ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim.

Na noite do dia 16, Alvim publicou um vídeo em que ele resolveu anunciar o edital do Prêmio Nacional de Artes. O roteiro teve Wagner, cruz dupla na mesa e discurso de Joseph Goebbels sendo parafraseado.

Pegou mal.

Pegou muito mal.

Pegou tão mal que até o chefe do Olavismo Cultural fez de conta que não gostou.

Mas teve o apoio do governo. Horas antes, Alvim esteve em uma live com Jair Bolsonaro, na qual o presidente defendeu os filtros do edital e validou o ideal de cultura fascistoide de Alvim.

Pois não basta colocar todo mundo para ver secretário imitando nazifascista: também é importante ecoar e elogiar as suas ideias.

Alvim se defendeu afirmando que não queria ofender ninguém. Também que repudia qualquer regime totalitário (o que deixou Olavo de Carvalho muito triste). Faltou só fingir que não sabia o que estava fazendo.

Mas o fato é que a performance foi construída e ensaiada para ser aquilo que todo mundo disse que ela foi. Alvim sabia o que estava fazendo, acreditava no que estava falando e não se furtou a usar de forças demoníacas para imitar Joseph Goebbels. Até deixou isso registrado em e-mail.

O que só serviu para reforçar a ideia de que sim, o governo quer fazer uma política artística semelhante àquela adotada por Hitler. O “bombardeio de arte conservadora” tem que ser acompanhado de uma diplomacia nacionalista, revisionismo educacional e todo tipo de ideia reacionária que os rejeitados que governam o país escutarem de Olavo de Caralho.

E agora, José?

Entra no lugar (temporariamente) do cosplayer de Goebbels a atriz Regina Duarte. Ela fará um “período de teste” antes de decidir se ficará mesmo no cargo ou não. A Rede Globo, aliás, já deixou a atriz de aviso prévio. Os olavistas chiaram.

Enquanto isso, o Ministério Público Federal defendeu que os atos e nomeações (que incluem gente que gosta da Opus Dei e excluem funcionários de carreira críticos ao governo) feitos por Alvim sejam anulados. Uma ideia que, pelo menos até o final deste texto, não tinha se tornado realidade.

Mas podemos ficar tranquilos, pois está tudo normal por aqui.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – Semana #54: braço forte, desgraça amiga

A polêmica do sol, a polêmica da Aliança e a polêmica do gelo. Tudo isso e muito mais no post da semana.

Se você gostou (ou não), não se esquece de compartilhar o link por aí.


The following takes place between jan-07 and jan-13


Censura pela porta da frente, liberdade pela porta dos fundos

Eis que um belo dia (quarta-feira – 08), Benedicto Abicair, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, acordou de seus inquietos sonhos por um Brasil mais autocrático e resolveu “acalmar os ânimos” daqueles que ficaram muito ofendidos com o especial de Natal do Porta dos Fundos.

Abicair achou uma boa ideia censurar a obra e proibir a sua exibição na Netflix . Não satisfeito, também estipulou uma multa de R$ 150 mil para cada dia que o filme continuasse a ser exibido. Tudo isso com apoio do Ministério Público.

O “favor” que o desembargador fez à comunidade cristã e para a “sociedade brasileira, majoritariamente cristã” (sem que ninguém além da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura tivesse pedido) logo foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal.

O ministro Dias Toffoli (o mesmo que censurou a Revista Crusoé), num lapso de espírito democrático, lembrou que uma fé milenar não é abalada com um filmezinho. É muito bonito ver o ministro do Supremo defendendo a liberdade de expressão, mas não dá para dizer que ele fez algo além da sua obrigação.

Os católicos da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura, por outro lado, poderiam gastar o seu tempo se levantando contra os padres pedófilos que ainda estão na santíssima Igreja. Eu tenho certeza que eles fazem um trabalho muito mais eficiente para abalar a fé cristã do que um filme de humor.

O ninho de mafagafo chamado DPVAT

Falando no Dias Toffoli, o ministro aproveitou a semana para reverter uma liminar que ele mesmo deu e, com isso, garantir a redução do preço do DPVAT em 2020. Após a decisão, o governo resolveu atacar os mantenedores do seguro outra vez e tentar zerar a cobrança por até cinco anos.

Não será um gol fácil de ser marcado. A Seguradora Líder já avisou que não vai devolver a grana que o governo jura que ela recebeu a mais do contribuinte.

A justificativa do governo para zerar a cobrança é a seguinte: as seguradoras cobraram a mais no passado, o que permitiria o uso desse dinheiro, no presente, para pagar as indenizações. As seguradoras, por outro lado, se defendem falando que as cobranças administrativas são válidas e que o dinheiro é delas. A briga terminará na justiça, naturalmente.

Como bagunça pouca é bobagem, a Líder também terá que explicar alguns pagamentos identificados por uma auditoria que tem cara, cheiro e jeito de atividade imoral. Segundo os auditores, a seguradora pagou valores a pessoas próximas a ministros do STF, integrantes do governo federal e políticos. Os 21 pagamentos, com descrição não detalhada do tipo de serviço foi prestado, foram executados entre 2008 e 2017 e totalizam R$ 3,67 bilhões.

Errei, não nego, me arrependo quando puder

Esteves Colnago, assessor do ministro Paulo Guedes (da Economia) foi denunciado pelo Ministério Público Federal no último dia 9 junto com outras 28 pessoas. A acusação é de gestão temerária de fundos de pensão.

Para ser mais preciso, a acusação está relacionada ao Funcef (dos funcionários da Caixa Econômica Federal), o Petros (da Petrobras), o Previ (do Banco do Brasil) e o Valia (da Vale). O prejuízo total das operações? R$ 5,5 bilhões.

Os (péssimos) investimentos ocorreram entre 2011 e 2016. Os aportes que originaram a investigação foram feitos na Sete Brasil, empresa de construção de sondas de petróleo e que teve um péssimo destino após a Lava Jato revelar esquemas de corrupção da portaria até o almoxarifado.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o assessor não só disse que está tranquilo, como também que não se arrepende de nada. Já Guedes ficou bem triste: o ministro tinha marcado para anunciar a promoção do subalterno no mesmo dia em que o MPF colocou o nome do seu subalterno nas páginas policiais.

O que o ministro da Educação fez de meia boca nessa semana

O Fundeb vence no final do ano. A ideia genial do ministro da Educação para lidar com a renovação do fundo? Iniciar a tramitação de um novo projeto do zero.

Por que isso é um problema? Já há um texto base da PEC em discussão na Câmara desde 2015. A decisão foi tomada pois o governo não gostou da minuta apresentada pela relatora do projeto que já está em tramitação.

O Fundeb reúne impostos de estados e municípios e dinheiro da União para financiar o gasto mínimo que todos os entes devem ter com alunos das redes públicas. Para não dar nenhum ruim e o próximo ano ainda contar com o fundo, o MEC tem que trabalhar com os deputados para aprovar até o final do primeiro semestre. Depois não adianta chorar.

Em outros tópicos, a troca de comando do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), feita para manter mais dinheiro na mão do ministro Weintraub, deixou o pessoal da Câmara puto. Tomara que irrite bastante mesmo: tudo o que o país gostaria de ver é uma escalada de tensões e um recap de Cid Gomes na Câmara.

Eu mencionei que o MEC, por meio do FNDE, pretende descartar 2,9 milhões de livros didáticos? Pois é. As obras, que valem R$ 20 milhões, não foram entregues para as escolas e já estão desatualizadas. Com sorte, se transformarão em papel higiênico.

Considerando que o MEC está louco para fazer um edital de novos livros que sejam voltados para “livrar escolas de doutrinação“, era melhor manter os antigos em sala de aula. Não sendo tomada essa decisão, temos que torcer para que as novas edições apenas atendam ao desejo do presidente por leituras mais simples.

Todo mundo é comunista menos eu

O ministro da Educação, junto com o presidente, resolveu sair por aí falando que os concursos brasileiros são moldados para selecionar gente de esquerda.

Weintraub afirmou que o processo de reformulação de provas começou no governo de FHC e passou por todos os governos petistas. Tudo com o objetivo de aumentar o número de pessoas esquerdistas na máquina pública.

Weintraub e, de certa medida, o presidente, são dois profissionais que conseguiram cargos por concurso público. Um para dar aulas e produzir pesquisa de baixa qualidade. O outro para caçar confusão dentro de quartel. Seriam eles esquerdistas escondidos?

Renovou a mamata

Enquanto os concursos não são reformulados para promoverem o olavismo cultural em todas as esferas públicas, as nomeações de despreparados pelo governo seguem a toda força.

Sai do Ibama a responsável por analisar o impacto de produtos químicos sobre a fauna e a flora. Entra no ICMBio uma estudante de psicologia que passou os últimos anos trabalhando com vendas no interior mineiro.

Já no Iphan, o novo presidente graduou-se em Arquitetura e urbanismo pela UNI-BH em 2011. Antes disso, trabalhava acompanhando a mãe em projetos de restauro (segundo o próprio). No jornal O Globo, há a lista completa das supostas qualificações de Flávio de Paula Moura para o cargo.

A Casa Civil também está dentro da brincadeira. O novo chefe de gabinete é um pastor da Sara Nossa Terra. Ele é da mesma igreja que o ministro da pasta, Onyx Lorenzoni.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Deixando o bonde passar

O presidente Bolsonaro resolveu não passar tanta vergonha em 2020. Na quarta-feira (08), o Planalto anunciou que Jair não estará no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Apesar de ser um encontro que reúne todo tipo de líder empresarial e econômico do cenário mundial, Bolsonaro achou que o somatório de questões de segurança, política e economia não valia a viagem neste ano.

Isso não quer dizer que o Brasil ficará de fora do encontro. Guedes e outros empresários estarão na Suíça representando os interesses da nação. Todo mundo, junto com João Dória, ficou muito feliz de não ter que aguentar Bolsonaro em outro país.

Considerando que estamos falando de um presidente que fez uma live no Facebook para acompanhar o pronunciamento de Donald Trump na última semana. Considerando que, ao fim, ele resolveu criticar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por ter feito um bom trabalho de diplomacia. Considerando, por fim, que é o Bolsonaro, a escolha foi a melhor decisão que ele tomou em 2020.

Assinando o nome no trabalho alheio

É comum que políticos tentem tomar o mérito do trabalho alheio para si. FHC virou o homem do Real em cima do projeto feito por um monte de gente que, ao contrário dele, conhecia economia. Há petista por aí que até hoje jura que o Fies é uma obra do governo Lula.

Mas eis que o governo Bolsonaro optou por renovar o espírito de cara de pau e tomar os louros do trabalho alheio em uma escala inédita. E tudo isso em cima de algo que nem traz tanto voto assim: a nova estação de pesquisa Comandante Ferraz.

A estação é um conjunto de laboratórios de pesquisa com tecnologia de ponta cujo projeto iniciou-se em 2013. A iniciativa se deu após um incêndio que destruiu a base antiga em 2012. A construção, aliás, ainda precisa de alguns retoques para ter funcionamento completo.

Mesmo assim o ministro Marcos Pontes resolveu que seria uma boa ideia tratar como mérito do governo Bolsonaro o trabalho de todo mundo que esteve no governo nos últimos anos. O astronauta foi ao Twitter tentar vincular a abertura da base ao governo atual para ser prontamente corrigido por todo tipo de jornalista. Bem feito.

Uma esmola pelo amor de Deus

Falando em tomar o trabalho dos outros para si, Bolsonaro quer um programa social para chamar de seu. Ou melhor, um programa social para reformar, mudar o nome e aí sim falar é do seu governo. Tudo isso para ganhar algum apoio no nordeste que não seja de gente endinheirada.

As principais vítimas são o Minha Casa, Minha Vida, o Pronatec e o Bolsa Família. O primeiro apresenta atraso nos repasses e altíssima taxa de inadimplência entre os pagadores. O segundo tem resultados duvidosos. Já o terceiro foi enxugado no primeiro ano do governo.

Ao que tudo indica, pautas que sejam realmente focadas nos pobres ficarão para depois no governo Bolsonaro. No primeiro ano, o presidente gastou todo o seu tempo livre descobrindo o que era golden shower. No atual, pelo visto, estará se preparando para ser filiado a outro partido.

No terceiro e no quarto, só Deus sabe o que será da massa de miseráveis que depende do apoio governamental para conquistar a sua cidadania. Se a solução vier por meio das agendas de reforma tributária e administrativa, inclusive, é melhor sentar e esperar: assim como a cara resolução da fila do INSS, isso ficará para outro dia.

Segundo a Veja, o grande ministro da economia (e vendedor de terreno na Lua nas horas vagas) segue não avançando as discussões sobre essas pautas no prédio do seu ministério. Depois não adianta reclamar que o Maia está com protagonismo.

O espirito das luzes

O governo resolveu não taxar o sol. Ok, brincadeira. O governo resolveu não acabar com um subsídio regressivo para quem investia em energia solar e gerava mais eletricidade do que precisava para manter o seu negócio funcionando (ou a sua casa ligada).

Este é o caso de muito brasileiro de classe média. Mas é, também, de uma grande quantidade de empresas que se unem para aproveitar a possibilidade de lucrar mais. Então vamos corrigir o anúncio do começo deste tópico:

O governo resolveu manter uma política que já não se justificava em um caráter político e econômico e que, no final das contas, serve para transferir dinheiro de pobre para rico.

A brincadeira custará R$ 34 bilhões para todos os que não utilizam a energia solar. O populismo do governo recebeu parecer negativo de técnicos da equipe econômica (em vão). A justificativa do presidente para governar no feeling e não conforme os subordinados do Posto Ipiranga gostariam é que não intervir a favor do setor é fazer intervencionismo.

Aliança pelo trambique

A criação da Aliança do Brasil segue muito confusa e cheia de trambique. Após as confusões anunciadas na última semana, o Colégio Notarial do Brasil (CNB) resolveu apoiar a coleta de assinaturas para fundar o partido. A entidade representa 90% dos notários (a turma que cuida e trabalha com cartório) do país.

Além da taxa para reconhecimento de firma, os cartórios estão ganhando algo que vale muito mais do que barras de ouro (e dinheiro), que é o carinho do presidente. Só faltou combinar com o TSE, que nunca se manifestou a respeito do uso de estrutura privada para a criação de partido.

A advogada de Bolsonaro e representante jurídica do Aliança, Karina Kufa, resolveu brincar de Montesquieu. Questionada sobre a legalidade da ideia, avisou que “o que não está na lei não é proibido, não é?”. Tá errada? Não está.

Há procuradores do Ministério Público Federal que viram na ação a possibilidade de um processo por abuso econômico. Já o estatuto do Colégio Notarial afirma que a organização não pode fazer o que está sendo feito. Mais precisamente, que ‘é vedado ao CNB participar, apoiar ou difundir, ativa ou passivamente, quaisquer manifestações de caráter político”.

Pelo sim, pelo não, o CNB resolveu tirar do seu site todos os documentos que apoiavam a criação da Aliança do Brasil. Quem teme, talvez deve.

Desvio eleitoral padrão

O jornal O Globo descobriu que, segundo o TSE, o PSL perdeu 1.256 filiados após o presidente Jair Bolsonaro sair do país. O número é pequeno em comparação ao total de filiados (348 mil), mas representa um aumento de 4 vezes em comparação aos três meses anteriores ao levantamento.

O PSL, por outro lado, diz outra coisa. O partido afirmou que, na ausência do presidente, o número de registros foi reduzido em 750. O que não seria nada diante do suposto aumento de 15 mil filiados.

Tudo o que o Brasil precisa, agora, é ter que conferir mentira sobre quem tem o partido com o maior número de filiados.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – Semana #53: fascismo à moda da casa

Ministro torturando número, fascistas indo à luta, o governo mentindo e os fantasmas do presidente dando um olá no noticiário. Tudo isso em uma única semana.

Não se esquece de compartilhar com a família.


The following takes place between dec-31 and jan-06


O ovo da serpente está pronto para ser chocado

Ao que tudo indica, o ataque ao Porta dos Fundos não deve dar em pizza. A polícia do Rio realizou, na última terça-feira (31), uma operação para prender Eduardo Fauzi Richard Cerquise. Ele é um dos cinco suspeitos de ter jogado bombas na sede da produtora do grupo.

Oficialmente foragido, Cerquise publicou um video no YouTube chamando os humoristas do Porta dos Fundos de “bandidos” e pedindo orações. A polícia encontrou na sua casa R$ 119 mil em dinheiro vivo, uma arma falsa e munições. De classe média alta, o integralista já foi condenado por lesão corporal e tem outras 15 anotações por ameaça e agressão na sua ficha – um claro sinal de que ele jamais seria capaz de atacar alguém por ir contra os seus valores.

Aliás, falando sobre os valores de Cerquise, o foragido foi filiado ao PSL entre 2001 e a última segunda-feira (portanto nada de ligações – ainda – com o atual morador do Palácio do Planalto). Ele também presidia a Frente Integralista Brasileira do Rio de Janeiro (o grupo afirmou em nota que ele foi expulso). Além disso, é apontado como parte de um grupo de milícia que atua em estacionamentos rotativos no centro da capital carioca.

Não demorou muito para saber onde Eduardo foi parar. O integralista embarcou para a Rússia na véspera da operação policial que pretendia prendê-lo e ainda deu uma entrevista assumindo para a internet que atacou a empresa de humor. O seu nome já está na lista de procurados da Interpol.

E atenção! Se liga aí, que é hora da revisão!

Já que o brasileiro não anda prestando muita atenção às aulas de história, vamos fazer aqui um recap. O integralismo é um movimento fascista de extrema direita que chupinhou umas ideias do fascismo italiano lá na década de 1930.

O movimento é formado por uma trupe de pessoas moralmente conservadoras, religiosamente cristãs e ultranacionalistas. O integralismo, porém, não adotou o componente racista do nazifascismo, afinal, a turma sabe que mora no Brasil.

Essa galera bacana sempre manteve-se próxima do poder e, em certa medida, próxima dos que hoje comandam o país graças a um trabalho que começou lá em 2005, quando o movimento ressurgiu como uma associação sem fins lucrativos. Rodando hora pelos submundos da internet, hora nos espaços de poder, eles conseguiram se organizar com mais capilaridade do que muito grupo político por aí.

Hoje, repassam as suas mensagens com cuidado e dedicação sem que muita gente note. Formam um exército de apoiadores que já tem cara, trejeito de monarquista e uma profunda repulsa pelos valores liberais que dizem moldar o nosso Brasil. São, junto com tantos os outros exemplos, mais uma prova de que a nossa democracia não anda muito bem das pernas.

BDSM autoritário

Praticamente metade dos brasileiros com baixo nível educacional ou baixa renda não se importaria com a volta de uma ditadura. Os dados foram revelados pela última pesquisa do Datafolha sobre o tema. Outros indicadores, como o dos número de pessoas que acham a democracia a melhor forma de governo sempre, apresentaram queda.

Felizmente, porém, a parcela dos que avaliam que o legado da ditadura civil-militar é positivo continua caindo. Já o número de pessoas que sabem o que foi o AI-5 segue absurdamente pequeno. Faltou perguntar a aderência dos entrevistados ao movimento fascista da semana. Saber pra qual tipo de autoritarismo político os ventos sopram a cada semana é sempre bom.

Torturando números e urinando em cima do trabalho alheio

Serio Moro está 100% um político tradicional. Agora, além de fazer o seu trabalho pela metade, quer tomar o mérito das políticas públicas de outros governos para si. Pelo menos é o que ele tentou fazer no Twitter no último dia 04.

Ironizando as pessoas que realmente pesquisam as políticas de segurança pública nacional, o ministro disse que os crimes só cresceram nos governos anteriores (não é verdade, também houve queda em 2018) e que a administração atual tem pouca influência nos bons resultados do último ano (o que é verdade). O ministro também confundiu o nome do ex-ministro Raul Jungmann e chamou o político de Mago Merlin.

Felizmente, o internauta que diz se chamar Matheus Leone (seria esse mesmo o nome dele?) estava lá para lembrar quem fez o SUSP, um dos principais mecanismos do governo Temer que ajudaram na redução da mortalidade nacional. Também foi o Leone o responsável por elencar as respostas com outras medidas que, ao contrário da liberalização da posse de armas, tiveram real impacto nos índices de violência (Jungmann não é muito bom com isso de rede social).

Os números, infelizmente, não caíram para quem está na mira das armas dos PMs. Ou para os policiais que estão na mira de bandidos. Não é errado dizer, portanto, que a política pública da Nova Era é focada em cancelar CPF e número de registro dos policiais que conseguem sobreviver à violência do seu cotidiano.

Governismo dos anos 2020

O governismo já digievoluiou. Após a queda de popularidade do governo e a manutenção do apoio a Moro, a revolução reaça resolveu tomar um novo rumo. Filipe G. Martins e os demais comissários do olavismo cultural querem salvar o governo e o seu projeto de poder com muito pragmatismo.

Ou melhor, Filipe G. Martins e os olavetes do governo querem salvar o seu projeto de poder com muito pragmatismo. Afinal, tudo fica mais fácil de entender se a gente considerar Olavo de Carvalho como aquilo que ele realmente é: um fascista que tem medo de ver o seu projeto dar errado.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Mais pra cá do que pra lá

A balança comercial brasileira fechou 2019 com superavit de US $ 46,7 bilhões. O valor é o resultado mais baixo desde 2015. Além disso, representa um recuo de quase 20% a 2018.

Leitores mais assíduos de Adam Smith não exitariam dois segundos para levantar os dedos e lembrar que isso não é, necessariamente, algo ruim. Mas, conforme o próprio Ministério da Economia apontou, é um problema sim: o resultado se deve, especialmente, pela (eterna) crise argentina, um país que compra muita coisa da gente.

Quem valoriza o superávit da balança comercial nacional e/ou quer vender para todo mundo, portanto, deve temer. Não pelas perspectivas que tem em relação aos próximos passos que o governo argentino pode tomar na condução da economia, mas medidas que o nosso governo fará nos próximos anos. Não é de hoje que as pessoas razoáveis da diplomacia nacional avisaram que tratar mal a Argentina pode dar merda.

E agora para algo completamente relacionado ao tema do interlúdio anterior

Falando em diplomacia, o Itamaraty não quer deixar de vender só para os amigos da América Latina. A depender das declarações do nosso ministro das Alucinações Exteriores, vamos acabar deixando de exportar até para o Oriente Médio – outro lugar cheio de parceiro comercial de longa data.

Após a morte do general Qassem Soleimani e o alinhamento do Brasil com o atual presidente americano (e criminoso de guerra em potencial) Donald Trump, Teerã pediu esclarecimentos para a nossa embaixada.

Não foi sem motivo. Além de se alinhar com Trump outra vez sem a menor necessidade, o Brasil rompeu com a tradição nacional de só tratar como terroristas os grupos formalmente assim registrados pelo Conselho de Segurança da ONU. Seguindo nesse ritmo, terminaremos 2024 como uma economia que quer ser muito aberta, mas não consegue ser amiga de ninguém que pode comprar algo dela.

Mentindo na cara de otário e achando que todo mundo é otário

O presidente avisou que sancionará o fundo eleitoral de R$ 2 bilhões para 2020. O valor é o proposto pelo governo quando o Planalto enviou o orçamento para aprovação. A desculpa de Jair, para os seus eleitores, é de que vetar a cifra poderia levar ele a sofrer um processo de impeachment.

Pura bobajada.

Bolsonaro é incapaz de dizer, com base na lei, como ele seria enquadrado na lei de impeachment se vetasse algo que ele mesmo pediu o poder Legislativo para aprovar. Ok, isso aqui é o Brasil e o governo pode cair por qualquer motivo a depender das vontades dos congressistas. Mas, como bem afirmou o primeiro ministro, o veto ou a sanção às propostas do Planalto são um direito do presidente, não algo que pode dar ruim a médio e longo prazo.

O gado, certamente, acreditará na desculpa do governo. Felizmente, fora das bolhas, é possível espalhar a verdade e lembrar que a história é mais complicada. O governo orientou voto SIM ao aumento do fundão eleitoral, o que é a última escolha que alguém com o discurso de Jair, em tese, faria.

Não fui eu, foi meu Eu lírico

O presidente tirou o sábado para falar coisas que só ele falaria. Em uma live no seu Facebook, disse que, se tivesse a capacidade de acabar com as investigações contra o seu filho, teria finalizado os trabalhos. Paranoico como sempre, também acusou o governo do Rio de Janeiro de incentivar a investigação para promover uma possível candidatura do governador para o Planalto.

Em notas não relacionadas, a ex-mulher do presidente, Ana Cristina Siqueira Valle, foi convocada para depor pelo MP-RJ. Ela também é investigada por envolvimento em um suposto esquema de rachadinhas e emprego de funcionários fantasmas. Dessa vez, no gabinete do outro filho, Carlos Bolsonaro.

Ana Cristina é a mesma ex que ganhou uma capa da Veja após a revista ter obtido cópia de um processo no qual ela acusa Bolsonaro de ocultação de patrimônio, renda incompatível com a profissão do então deputado, agressividade e até um roubo. Não obstante, é aquela mulher que Jair já afirmou que não gostaria de ver por aí relevando os seus problemas do passado, mesmo que fossem verdadeiros.

O presidente, pelo visto, tem motivos para dormir com uma arma ao seu lado. A quantidade de fantasmas que tentam assombrá-lo a noite é gigante.


Eu escrevi e revisei (com preguiça) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #51: o silêncio dos inocentes

Mais briga no PSL, Flavio B. recebendo visitas da Ju e ministro do Supremo pego fazendo algo muito parecido como lobby. Vem comigo que eu tenho todas as notícias para transformar a sua ceia num episódio de Toma Lá, Dá Cá.


The following takes place between dec-17 and dec-23


Aliança pelo trambique

A criação do novo partido de Jair Bolsonaro segue cheia dos trambiques (o que, até então, não é nenhuma surpresa). A cúpula da legenda (que no momento só existe na imaginação do presidente) optou por recolher, até abril, 500 mil assinaturas em todo o país. A decisão veio após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) avisar que a ideia de fazer isso com certificados digitais talvez não dará certo.

Agora, caro leitor, se liga nesta história: não faz muito tempo que a Soluti saiu por aí distribuindo mais de 1 milhão de certificados digitais. Coisa que geraria um gasto de R$ 50 milhões caso eles fossem comprados individualmente.

O presidente da Soluti, Vinicius Vieira de Souza, é, também, fundador da ATID (Associação Brasileira de Tecnologia e Identificação Digital). A instituição faz parte do comitê gestor da ICP-Brasil, entidade que regula o setor de emissão, renovação e registro de certificados digitais.

Em uma reunião no começo de dezembro, uma proposta feita pelo Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), tornou mais fácil a renovação de certificados digitais. O ITI é um órgão vinculado à Casa Civil da presidência da República. Entre os representantes da sociedade Civil há Luiz Carlos Zancanella. Conforme apurado por @jotacorreria, o seu suplente é o proprietário da Soluti.

Certamente tudo isso é uma simples coincidência e não sinal de uso da máquina pública para favorecer a ideia de Jair Bolsonaro ter um partido para chamar de seu em 2020.

Dicas para quem pretende disputar a eleição ano que vem

Largue a laicidade. Estudo feito por Francisco Costa, Angelo Marcantonio e Rudi Rocha conseguiu apontar por A mais B que o número de evangélicos cresce após crises econômicas. Pelo menos no Brasil, este país de grande estabilidade financeira.

Se a esquerda — especialmente ela — quer ganhar algum voto na periferia (e deixar de ter o mesmo perfil de eleitor que o Freixo tem no Rio de Janeiro) talvez seja uma boa ideia ser mais pragmática. Ou melhorar as suas estratégias de ação política. Pois, nos anos 2020, o Brasil será conquistado na base de muita teoria da prosperidade e pastor pedindo desconto de suas dívidas.

O militante de esquerda pode bater o pé e fingir miopia política até cansar. Mas quem está no topo das paradas dentro de favelas e bairros com pouco saneamento básico do país são os emissários do neopentecostalismo. O pobre quer luxo, fama e poder. Se possível, sem corrupção, mamadeira de piroca e ajuda do governo.

Importante, então, é parar de esperar por uma revolução cultural e começar a ser mais pragmático. Presumir que os pobres deveriam votar por redistribuição de renda é ignorar “os possíveis efeitos da religião sobre as preferências individuais.” É, também, tratar de modo paternalista quem só deseja uma vida minimamente confortável e sem tanta violência.

Meu lobbynho, minha vida

O MBL não é o único nome que tem aparecido no jornal sendo apontado como praticante de lobby. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre Moraes, foi grampeado em uma conversa que tem toda cara de atuação informal a favor de um coleguinha. Mais precisamente, um desembargador investigado.

A gravação é de 2015, quando Moraes ainda era secretário de Segurança em São Paulo. O agora ministro teria atuado como advogado do desembargador Alexandre Victor de Carvalho, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG). O que não seria um grande problema se chefes de órgãos públicos não fossem proibidos de exercer advocacia.

Carvalho, na época, respondia a um processo por ter empregado (supostamente) uma funcionária (supostamente) fantasma em seu gabinete. Tudo parte de uma investigação sobre um (supostamente) muito elaborado esquema de nepotismo cruzado.

Apesar de ter passado livre pelo TJ-MG, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) seguiu com o processo. Moraes, sabendo que não poderia atuar legalmente de novo para o colega, deu (segundo a Folha de S. Paulo) dicas informais para que ele conseguisse escapar de uma condenação na justiça.

Deu certo. A Segunda Turma julgou o caso e arquivou a reclamação contra Carvalho.

Essa não é a única estripulia que Carvalho (supostamente) cometeu e foi parar no jornal. Em grampo obtido pela Folha de S. Paulo, o desembargador teria atuado para impedir que o deputado Luís Tibé fosse cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG).

Tibé era, em 2015, acusado de usar a máquina pública para fazer propaganda eleitoral irregular. Vendo então que as chances não estavam boas para o seu lado, o político teria pedido o então vice-presidente da Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) para ajudar em seu processo de cassação. Algo super normal em qualquer país sério.

Você tem o direito de ficar caladinho

O CNJ mandou avisar que juízes não podem fazer aquilo que já não podiam fazer. Resolução aprovada pelo órgão impede que juízes comentem decisões de colegas e declarem apoio político nas redes sociais.

Entidades da área criticaram que o conselho está cerceando a liberdade dos juízes de fazerem aquilo que já não podiam fazer. Prometeram, inclusive, ir ao STF alegando que a norma, que afirma o que já está na lei, não está em concordância com a lei.

Vai entender.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Bota dinheiro na democracia sim

O fundo eleitoral segue em 2020. Agora, todos os candidatos a prefeito e vereador das próximas eleições terão acesso a R$ 2 bilhões para mover as suas campanhas. Se desejarem, claro.

O presidente, este portador de um grande espírito democrático, não gostou da aprovação do fundo. Seguindo (a risca) o manual do populista, perguntou a um grupelho de apoiadores se ele deveria sancionar a medida. Naturalmente, o gado respondeu que não deveria.

Ainda fazendo uso dos seus valores democráticos, Bolsonaro citou os valores que serão entregues ao PT e ao PSL no próximo pleito. Concluiu afirmando que “se quer fazer material de campanha caro, não vou ajudar esse cara, pronto“.

Na quinta-feira (19), o presidente retomou o assunto e afirmou que “em havendo brecha para vetar, eu vou fazer isso. Não vejo, com todo respeito, como justo recursos para fazer campanha“. Falou que a verba não ajuda jovem candidato e disse que isso não deve ser visto pelo Parlamento como um ataque.

Porém, quando se lembrou que o Planalto foi responsável pela proposta do fundo, desconversou. Afirmou que só fez a sua obrigação legal mas que agora poderá vetar o valor (que por muito pouco não seria maior). Falta falar, porém, como as eleições serão feitas sem desvios públicos, já que santinho e disparo de mensagem com conteúdo falso pelo Whatsapp seguem bem caros.

Bota dinheiro nas mãos do governo sim

Não foi só o orçamento das próximas eleições que virou objeto de discussão no Congresso na última semana. Os parlamentares também aprovaram o restante dos gastos que o governo poderá realizar em 2020.

Haverá aumento de despesas e investimentos em áreas como saúde, infraestrutura e desenvolvimento regional — se sobrar dinheiro para isso. R$ 6 bilhões foram liberados graças a aprovação da PEC Emergencial, que limita os gastos do governo de acordo com o tamanho da dívida pública. Ganhará mais dinheiro o ministério de Minas e Energia, enquanto o da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ficará com a menor parte.

Keeping up with #VazaJato I: engavetando essa mensagem hackeada

Lembra daquele monte de ação contra o procurador Deltan Dallagnol? Uma delas foi arquivada pelo corregedor do Conselho Nacional Ministério Público. As mensagens, que serviam para a acusação, foram consideradas ilegais e, portanto, inválidas para o processo.

A acusação se referia às mensagens em que Dallagnol conversava com Moro sobre a possibilidade de utilizar dinheiro público para promover propagandas pelas “10 medidas contra a corrupção”. O processo, se executado, seria totalmente ilegal.

Keeping up with #VazaJato II: indiciar não é culpabilizar (mas se quiser, pode)

A Polícia Federal finalmente concluiu as suas investigações sobre o caso dos Ararahackers e indiciará seis pessoas. Os crimes, segundo a PF, são:

  • integrar organização criminosa;
  • invadir dispositivo informático alheio;
  • interceptar comunicação telemática ilegal.

Não foram acusados de crimes os jornalistas do Intercept (afinal de contas, fazer o que jornalista faz não é crime neste país — ainda) e a ex-deputada Manuela d’Ávila (PC do B). O relatório não fala em mandantes ou cita qualquer tipo de motivação para as mensagens serem roubadas. Mas a PF já disse que pretende investigar esses pontos mais a fundo no futuro.

O que há de mais legal no relatório final, por outro lado, foi apontado pelo perfil @jairmearrependi. No meio de várias páginas, há uma conversa sobre o falecido perfil Pavão Misterioso ligando-o ao site de notícias relativamente verdadeiras Terça Livre. A troca de informações ocorreu entre o hacker e o humorista Gregório Duvivier. Coisa fina.

Timing é tudo

O Ministério Público resolveu ir atrás de toda e qualquer documentação que apontasse problemas na gestão financeira do gabinete do senador Flávio B. (quando ele ainda tinha compromissos com a Assembleia do Rio de Janeiro). Entre os alvos, estavam não só o atual senador, mas também Fabrício Queiroz, seu ex-assessor.

As investigações apontam a possibilidade de Queiroz ter comandado um esquema de rachadinha dentro do gabinete do então deputado Flávio. Apenas o policial militar aposentado teria recebido R$ 2 milhões em depósitos de outros 13 assessores do gabinete. Sobrou até para a ex-mulher do presidente e um ex-PM que até então a gente não sabia da existência, mas tem muito dinheiro em sua conta.

Os advogados do não filho do presidente chamaram a busca na loja de chocolates do senador de “invasão”. Já os advogados de Queiroz, que era ex-assessor de várias pessoas, informaram que o seu cliente tratou a operação com “tranquilidade’. Também disseram que, o homem que fugiu do Ministério Público a todo custo, estava surpreso, afinal, a operação era “absolutamente desnecessária”.

O blog quer acreditar, diante da declaração dos advogados de Queiroz, que o seu cliente passou o último ano organizando caixas de provas de seus prováveis criminhos para a PF. Afinal de contas, se o MP não quis pegar ninguém com as calças arriadas, o mínimo que poderia ser feito é uma ajudinha para os trabalhadores da instituição.

Contabilidade de alta qualidade

Segundo o Ministério Público, o senador Flávio afirmou que retirou, nos três primeiros anos de funcionamento da sua loja de chocolates, R$ 793,4 mil. O que não seria um problema se o fisco tivesse uma informação diferente: para o órgão, F.B. teria recebido apenas 435,6 mil no mesmo período. A contabilidade ruim também afetou o seu sócio, Alexandre Santini.

O advogado do senador, Frederick Wassef, praticamente chamou o judiciário de comunista e disse que estavam criminalizando o aumento de capital. Também afirmou que não há nada de errado em seu cliente ser amigo de gente que é acusada de ser participante de milícia. Ou empregar a sua ex-mulher, que (supostamente) fez repasse de R$ 203 mil a Queiroz.

Diga-me com quem andas…

O Ministério Público também colocou gente do Bope na lista de (supostos) envolvidos no (suposto) esquema das rachadinhas de Flavio B. e Fabrício Queiroz. O ex-capitão Adriano da Nóbrega, conhecido e foragido miliciano, teria emprestado as suas contas para o esquema. A conclusão ocorreu após a quebra do sigilo bancário de Nobrega, Flavio e Queiroz.

As suspeitas sobre o filho do presidente são tão grandes quanto as ligações de sua família com milicianos (e wannabe de miliciano). Será muito interessante ver, nos próximos três anos, o governo lidando com esse problema. Pois tenha certeza: isso ainda manchará as brancas paredes do planalto.

…e direi quem atacas

A defesa do senador F.B. foi ao Supremo para suspender a investigação contra os seus (supostos) crimes. Já o senador partiu para o ataque direto ao juiz Flávio Nicolau, que foi o responsável por autorizar a operação do MP.

O político disse que a filha do magistrado é uma funcionária fantasma do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Não dá para dizer que de funcionário fantasma a sua família não entende.

O paranoico presidente, por outro lado, acha que o culpado por tudo isso aí é o seu ministro da Justiça, Sergio Moro. A suspeita é tão grande que Bolsonaro quer tirar a Polícia Federal dos braços do ex-juiz e mandá-la para o seu amigo Alberto Fraga, ex-deputado da bancada da bala, que assumiria o futuro “ministério da Segurança”.

Ou quem não te ataca

Causou grande burburinho na internet e discussões sobre empatia (há de se ter empatia) as agressões sofridas pela youtuber di-direita Karol Eller. A jovem estava passeando com a sua namorada em um quiosque na orla da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quando foi agredida e teve o rosto desfigurado. O caso logo foi tratado como homofobia pela delegada responsável pelo caso.

Mas, para a surpresa de todo mundo que fez discursos inflamados a favor da empatia, a delegada voltou atrás e afirmou que as agressões não foram motivadas por homofobia. Imagens do local e testemunhas apontaram que a briga entre os dois se deu por outros motivos. Karol dobrou a aposta e insistiu que o motivo foi homofobia — apesar das imagens divulgadas pela imprensa.

O desfecho desta história tragicômica ficará, infelizmente, para a semana que vem.

Brasil acima de tudo, meu filho debaixo do caminhão

Vendo o seu filho Flavinho no jornal, o presidente Jair Bolsonaro resolveu comentar o assunto. Na manhã de quinta-feira (19) disse o presidente que “O Brasil é muito maior do que pequenos problemas. Eu falo por mim, os problemas meus podem perguntar que eu respondo. Os outros, não tenho nada a ver com isso.

Quando perguntaram sobre os seus problemas, na sexta-feira (20) o presidente mudou de tom. Insinuou que um jornalista era homossexual. Ao ser questionado se teria como comprovar o empréstimo feito a Queiroz, respondeu a um repórter que ele deveria perguntar para a sua mãe o comprovante que ela deu para o seu pai, “tá certo?”.

Tudo isso para uma plateia de apoiadores que adoraram ver o espetáculo de decoro e postura do chefe de governo brasileiro. Por último, e não menos importante, disse que “ninguém lava dinheiro em franquia”.

Lava em qual lugar então, presidente? Apartamento em Copacabana?

No dia seguinte, em um café com jornalistas, Bolsonaro disse que “se eu não tiver a cabeça no lugar, eu alopro”. Este tipo de temperamento realmente me parece uma boa qualificação para quem quer ser presidente.

Jair também reclamou dos vazamentos do Ministério Público. Clamou a necessidade de controle do MP, chamou o órgão de um dos Poderes da República (não é o caso) e reclamou de vazamentos. Interessante ver que J.B. mudou a sua visão de mundo sobre alguns temas.

Inimigas e rivais

Gustavo Bebianno está nervoso. Não sem motivos: o presidente sugeriu, em entrevista à revista Veja desta semana, que ele participou do atentado praticado por Adélio Bispo em 2018. A resposta, segundo o ex-ministro da Secretaria-geral da Presidência, será por vias judiciais e criminais.

Para Bebianno, “Jair está nitidamente desequilibrado. Precisa urgentemente de tratamento psiquiátrico.” Faz sentido: em poucos dias o presidente afirmou que existia a possibilidade de ter um câncer de pele, disse que a imprensa mentiu sobre o assunto e que a biópsia feita para avaliar se ele teria mesmo a doença deu resultado negativo. Complicado.


Eu escrevi e revisei (distraído) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #26: um governo que está só o pó da rabiola (e da coca)

The following takes place between jun-25 and jul-01


Narcos (2015) 

Na Nova Era, a série Narcos faz spin-off no Brasil. Na terça-feira (25), um sargento da Aeronáutica foi preso em Sevilha, na Espanha, com 39 kg de cocaína. O milico estava no grupo de apoio da viagem de Jair Bolsonaro ao G20, no Japão, e foi pego no flagra quando o avião fez uma escala no país.

Para o vice-presidente Hamilton Mourão, “uma atitude dessa natureza não brotou da cabeça” do sargento. Ok, homem cis geralmente pensa com a cabeça de baixo, e não com a de cima. Mas algo me diz que, nesse caso, não é correto afirmar que o militar utilizou a parte ao sul da linha do Equador na tomada de decisão.

O militar já esteve envolvido em 29 viagens oficiais, desde 2011. Acompanhou, portanto, Dilma Rousseff, Michel Miguel e Jair Bolsonaro. Foi preso na administração do terceiro, por mérito único e exclusivo da polícia da Espanha. Felizmente, apenas a militância abobada do presidente acreditou na ideia de que ele tinha alguma responsabilidade direta na prisão do traficante.

O apertado pescoço de Marcelo Álvaro Antônio

Na quinta-feira, o café do recepcionista de turista, Marcelo Álvaro Antônio. ficou mais amargo do que ele gostaria. A Polícia Federal anunciou a prisão temporária de três pessoas ligadas ao ministro, incluindo o seu assessor especial. Assim como o encarregado pela pasta, elas estão envolvidas no escândalo do Laranjal do PSL em Minas Gerais.

O ministro, naturalmente, nega que as suspeitas sejam verdadeiras. Jair Bolsonaro, por outro lado, não pede uma punição severa caso o ministro tenha cometido criminhos. Sabe como é, né? Bolsonaro foi eleito para combater a corrupção de todos (aqueles que se colocam contra o seu governo ou criticam as falas do guru da Virgínia).

Sobre o tema, o PSL acredita que a investigação tem seletividade e está voltada para atingir o partido. Há quem diga, inclusive, que Marcelo Álvaro já está utilizando dinheiro do partido para financiar camisas escritas #MALivre caso algo de errado ocorra.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Keeping up with the #VazaJato

A terça-feira da #VazaJato tem show de Glenn Greenwald na Câmara dos Deputados, e ele alertou os deputados, em especial a Carla Zambelli. Lembrou que a relação de Moro com os procuradores do MPF era semelhante a um espetáculo de BDSM e não perdeu a chance de dar pequenos tapas de luva nos abobados do PSL.

Mas o PSL não foi o único partido que praticou livre argumentação de absurdos. A deputada Policial Katia Sastre (PL-SP), afirmou que o jornalista americano deveria ser preso. Afinal, para ela, Greenwald “em conjunto com o hacker [que ninguém sabe que existe e/ou foi a fonte do material] cometeu crime [que ela não apontou qual seria]”.

Como uma pessoa que leva em seu nome político um cargo responsável por fazer valer a lei, a deputada & policial Katia Sastre, é uma péssima deputada e horrorosa membra do braço armado do Estado.

O cu de Deltan Dallagnol segue não sendo arrombado. O corregedor do Conselho Nacional do Ministério Público, Orlando Rochadel, mandou arquivar a investigação sobre as revelações da #VazaJato. Para ele, não há como comprovar a legitimidade das mensagens e tão menos existem “ilícito funcional” nas atitudes do procurador.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, discordou. Para ele, as mensagens, comprovadas a sua veracidade, são “graves” e revelam um “problema ético” capaz de colocar deputado ou senador no Conselho de Ética. Ou na prisão.

Como se as revelações de parcialidade e compromisso com a derrubada de todo o sistema político (começando pelo PT) não fossem já claras o bastante, no dia 29 soubemos que Deltan tentou acelerar ações contra Jaques Wagner “because fuck you, thats why“.

Vai dia, vem dia, e seguir discutindo se foi hacker ou não é tão importante quanto discutir o sexo dos anjos. Enquanto as matérias sobre as trocas de mensagens não atingirem quem realmente importa, Lula continuará sonhando com a mão amiga da ONU, já que o MPF quer ele preso por mais tempo.

Para todos os fins, pelo menos a gente não é a procuradora Jerusa Viecili, que mesmo percebendo como a Lava Jato atuava por dentro, insistiu, em vão, que os procuradores se manifestassem contra Bolsonaro durante as eleições.

Moro 3 x 0 Lula  

A terça-feira (25) foi movimentada no STF. Por iniciativa de Gilmar Mendes, a segunda turma do tribunal votou os dois pedidos que poderiam liberar o ex-presidente Lula. Ambos foram negados.

Sentindo-se muito cansados e direcionando a sua atenção para outras coisas, os juízes resolveram colocar a toga para descansar após as suas deliberações sobre Lula. Sai vitorioso, no final das contas Sergio Moro, que terá a sua suspeição julgada apenas após o fim de recesso, em agosto.

Sisu pela reforma da Previdência  

Na quarta-feira (26), o governo abriu o sistema digital de vários ministérios para os parlamentares que toparem votar a favor da reforma da previdência. Cada congressista poderá solicitar até R$ 20 milhões (R$ 10 milhões caso apoie na comissão especial da Câmara e R$ 10 milhões caso o apoio seja no plenário) dos cofres públicos. Os recursos podem ser direcionados para obras e investimentos como a construção de creches e redutos eleitorais.

É errado que o fez? Não.

É ilegal? Também não.

É o que o presidente prometeu fazer? Pelo contrário.

É divertido ver o governo realizar esse trabalho em troca da reforma? Ô se é.

Disaster artist

Bolsonaro anunciou, antes de embarcar para o Japão, que a sua agenda no G20 estaria cheia. As reuniões programadas incluíam os chefes de Estado e de governo de países como França, os EUA, China, Índia, Singapura, Japão e Arábia Saudita.

O que, a princípio, é uma ótima iniciativa. Para alguém que passou a vida pregando protecionismo, é louvável ver o esforço do presidente em integrar o Brasil com quem manda no planeta.

O problema é que Jair chegou em Osaka achando que os presidentes das outras nações aceitariam as suas falas com a mesma passividade de um entrevistador da Rede Record. Logo de cara, Emmanuel Macron sinalizou que poderia vetar acordos comerciais com o país caso o Brasil abandonasse o acordo climático de Paris. Já a alemã Angela Merkel disse que via com “preocupação” as medidas anti-ambientais tomadas pelo ministro do Meio Ambiente e o governo como um todo.

Em resposta, o presidente exigiu “respeito” ao Brasil (corta para Jair compartilhando vídeo de golden shower e falando em mamadeira de piroca nas escolas públicas) e que a Alemanha tinha muito o que aprender com o país. Não contente, também avisou que não foi para o outro lado do mundo para ser “advertido” por outras nações.

Augusto Heleno, o médium, encarnou o espírito de Enéas Carneiro e afirmou que a Alemanha tem interesse em explorar as florestas brasileiras. Perguntou, também, “quais são as florestas que o europeu preservou?” A resposta: proporcionalmente, muito mais do que o governo brasileiro. Inclusive enviando dinheiro para o nosso país fazer isso.

A Alemanha é um país que mantém, há mais de uma década, uma primeira ministra governando sem grandes dificuldades. Abriu as suas portas para refugiados de guerra, tem um PIB gigante e uma população absurdamente educada.

O país também preserva uma quantidade indecente de florestas e realiza pesados investimentos em tecnologia, educação e inovação. Além disso, sabe rememorar o passado sem comemorar os piores momentos da sua história como algo bom.

Ainda bem que eles só buscaram lições educacionais do Brasil nos livros do Paulo Freire.

Brincando de liberalismo e sustentabilidade

Uma boa forma de conseguir respeito de outros países é, de fato, se preocupar com o meio ambiente. Como apontou Philip Alston, relator especial da ONU para pobreza extrema e direitos humanos, o nosso presidente “prometeu abrir a Floresta Amazônica para a mineração, acabar com a demarcação de terras indígenas e enfraquecer as agências de proteção ambiental.” E fez isso.

Esperar que um conjunto de medidas contra o meio ambiente não gere críticas de quem se importa com a sobrevivência das florestas mundiais é uma postura típica do nosso presidente: alguém que age continuamente fazendo algo que todo mundo avisa que dará merda, e reclama que é criticado quando dá merda.

Quando o presidente parou de passear e foi lidar com os adultos na sala, a sua postura seguiu a de criança birrenta, como sempre. Bolsonaro cancelou o encontro oficial com presidente francês, Emmanuel Macron, para conversar com o centrista informalmente. Felizmente, Jair sinalizou o interesse de se manter vinculado ao Acordo do Clima de Paris.

No mundo das pessoas adultas, a coluna Painel S.A., da Folha de S. Paulo, informou que a CNI (Confederação Nacional da Indústria), fez um pesado lobby para garantir que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul virasse realidade. Os industriais trabalharam para neutralizar as ações da França, ainda que a aprovação do acordo possa levar a um aumento de concorrência no mercado interno.

Deu certo. Apesar de ter feito pouco pela sua finalização, Jair Bolsonaro pode voltar para o Brasil como o presidente que conseguiu concluir os trabalhos para a assinatura do tratado comercial entre a União Europeia e o Mercosul. E olha que o G20 começou com o Putin falando em decadência do liberalismo (com anuência do Brasil).

O acordo, que você pode ler o do governo aqui, é o resultado do trabalho de muita gente ao longo das últimas duas décadas. Diplomatas, ministros e presidentes de vários países costuraram os detalhes de cada artigo, produto e imposto que poderá ser comercializado com condições especiais. O Petit Journal explicou em alguns minutos os pontos mais importantes.

Sai vitoriosa a equipe do presidente, ainda que o seu trabalho tenha sido apenas impedir que a assinatura fosse enrolada por mais alguns anos. Também comemoram o tratado todos os agricultores e fazendeiros que agora poderão vender muito para os países da UE.

E, se eventualmente o acordo passar por todos os parlamentos que ele precisa passar para ser realidade, também ganha o Brasil, que terá acesso a champagne da França e mais motivos para cuidar das nossas florestas. Afinal, agora o governo brasileiro tem mais um documento para obrigá-lo a impedir madeireiro de derrubar floresta ilegalmente e empresário da indústria nacional de poluir horrores.

Saída à moda Collor

Após as consultorias técnicas do Senado e da Câmara afirmarem que o decreto que flexibiliza o porte de armas é ilegal, Bolsonaro tentou refazer a proposta, excluindo os pontos contraditórios. Como governante burro cercado de pessoas imbecis que ele é, enviou para o Senado outro texto inconstitucional.

Diante do empasse, o porta-voz da Presidência, general Otávio Rego Barros, negou que o governo revogaria a proposta ou colocaria qualquer tipo de empecilho para que a votação ocorresse no Congresso. Após o primeiro ministro virtual, Rodrigo Maia, avisar que deputados e senadores votariam pela derrubada da nova versão do projeto, Jair fez o que era mais certo, democrático e correspondente às suas afirmações anteriores e revogou o decreto por ele criado.

No lugar, o Diário Oficial da União publicou três novos decretos e um projeto de lei sobre o tema. O governo não explicou mais detalhes sobre os decretos e o PL, e a página ficou fora do ar após a sua publicação.

Imagina se existisse uma forma diferente de dialogar com o Poder Legislativo que não fosse travando a sua pauta com Medida Provisória.

A ideia de Bolsonaro não é burra apenas por ser ilegal, mas também pelos efeitos diretos e indiretos. Jair conseguiu criar antipatias até mesmo com as lideranças das casas que são simpáticas a um afrouxamento das leis de posse e porte de armas de fogo. Tudo por não ter um pingo de respeito com os ritos tradicionais (e legais) da política.

Indo além, não se pode esquecer que tentar impedir o livre funcionamento do Poder Legislativo é crime de responsabilidade. Mais precisamente, vai contra o art. 6º, 1, da Lei 1079/1950. Não é como se a gente já não tivesse derrubado presidente por muito menos (volta, Collor, a sua tentativa de liberalismo pelo menos foi mais sincera).


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana com os toques sagazes da Marinna.

A Nova Era – semana #23: país rico é país sem brasileiro

The following takes place between may-04 and jun-11


As notícias que parecem da semana passada, mas não são 

Em 23 semanas de Nova Era, algumas coisas se tornaram repetitivas. Então, vamos começar uma pequena sessão aqui no blog focada apenas nesses pontos, pois já está bom de repetir o mesmo argumento toda semana. 

Vamos começar com gente do Legislativo apontando como o governo é muito ruim, até em fazer o básico do básico. Na noite de domingo (02), por exemplo, Rodrigo Maia afirmou que falta ao Planalto uma agenda para o Brasil, que aumente a produtividade da economia, crie empregos, dê remédios a quem precisa e melhore a qualidade da educação. 

O carioca também negou que o pacto dos três poderes foi fechado, afirmando que “o Onyx Lorenzoni avançou na informação sem uma construção política amarrada. Ele entregou um documento, ninguém leu, e ficou parecendo para a sociedade e a imprensa que a gente fechou aquele pacto. Zero verdade nisso.” 

Já Alcolumbre disse que o governo comete trapalhadas diariamente, e tirou do Planalto os méritos de uma futura aprovação da Reforma da Previdência. O que não deixa de ser verdade, uma vez que o próprio Bolsonaro acha que, uma vez entregue um projeto ao Congresso, ele deixa de ser problema do Planalto.

Como os bots do Bolsonaro tiram folga no final de semana, não teve hashtag no Twitter atacando Maia ou Alcolumbre. Também é possível que os responsáveis por acionar as postagens em série tenham se lembrado que precisam engolir ambos por mais dois anos.

Fazendo coro a Maia, o presidente da comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, Marcelo Ramos, também lembrou que falta a noção de prioridade para Bolsonaro. No seu Twitter, o deputado se queixou que Bolsonaro visita a Câmara para mudar o Código de Trânsito, mas não para ajudar na aprovação da reforma. Não é como se a aprovação do projeto estivesse garantida

Os militares seguem atuando como a voz moderada do governo. Segundo apontaram Vinicius Sassine e Bernardo Mello Franco, os generais próximos a Bolsonaro continuam tentando fazer o presidente deixar de ser um fantoche dos olavistas. 

Por fim, o PSL segue sendo uma bagunça. Na última semana o Major Olímpio, líder do PSL no Senado, partiu para cima da Joice Plagelmann (frase não literal), líder do governo no Congresso. O bate boca ocorre após o partido não cumprir o acordo firmado entre os seus membros, logo na primeira sessão conjunta das casas legislativas

Certas partes do noticiário se tornaram uma temporada da série Russian Doll. A diferença, aqui, é que morremos apenas de desgosto no final do dia. 

Never go full Ayn Rand 

Bolsonaro andou lendo A Revolta do Atlas, e o resultado vai te surpreender. Na terça-feira, o presidente atravessou as ruas de Brasília, bateu nas portas do Congresso, e entregou um projeto de grande importância para o cenário atual: um conjunto de alterações no Código de Trânsito Brasileiro

Se tudo der certo (para o “governo do revide”), em alguns meses o Brasil será o país em que: 

O presidente, que já anunciou o fim dos radares nas estradas federais dizendo que “ninguém é otário de fazer curvas em alta velocidade”, afirmou que os pais são completamente responsáveis e sabem que é importante levar os filhos em seus carros utilizando a cadeirinha.

O blog considera fofa a fé que Jair tem na inteligência do brasileiro, principalmente por terem sido as pessoas que nasceram na Terra de Santa Cruz as responsáveis por darem a ele cargos eletivos nas últimas décadas. 

Felizmente não há boa vontade dos agentes políticos brasileiros em apoiar essa sandice. Paulo Douglas, que é um dos autores da Lei do Descanso dos Caminhoneiros, chamou o texto de retrocesso imenso, e pretende contestá-lo na justiça.

Já a deputada Christiane Yeared, da base do governo, lembrou que, no mundo real, multa sai mais barato do que caixão. Também afirmou que, o custo das lágrimas que escorreram pelo rosto dela após o filho dela ser atropelado por um ex-deputado certamente deve ser menor do que o de uma cadeirinha infantil.

Houve liberal que apoiou a ideia do presidente, baseando-se no argumento de que o Estado não deve impedir alguém de ser imbecil. Houve também aqueles que afirmaram que as pessoas são completamente capazes de não colocarem a própria vida (e a vida de seus filhos) em risco.

Afinal de contas, qualquer pai responsável compraria cadeirinhas para as suas crianças após vaciná-las no posto de saúde mais perto de sua casa. Não é como se existisse gente por aí dando alvejante para os seus filhos.

Também houve aquele que confia plenamente na mão invisível do mercado, e disse que as empresas não contratariam motoristas que dirigem com o cu cheio de rebite. Todos falharam em informar como o resto da população se protegerá dos motoristas que não dirigirem sóbrios (responsáveis pela morte de muita gente), e de onde sairão os recursos para as crianças com pais pouco cuidadosos comprarem as suas próprias cadeirinhas. Elas pouparão o dinheiro da merenda para se protegerem por conta própria?

Cabe aos liberais (ou libertários) tupiniquins pararem de ir full Ayn Rand na defesa das suas ideias. O brasileiro é, foi, e continuará a ser muito burro. Basta lembrar o que jornalistas falaram quando o Maluf disse que não é legal andar por aí soprando fumaça no coleguinha.

Aliás, volta, Maluf! Entre um filhote da ditadura que comete corrupção de pobre e um que comete corrupção de rico, mas sabe que liberalismo não é bagunça, eu fico com o segundo. 

Liberalismo: tem, mas desgringolou

A história do liberalismo no Brasil é escrita em linhas mais tortas do que o traçado da BR 381. Quando não há gente falando que protecionismo econômico é livre mercado, os guardiões da Constituição resolvem apoiar a busca por atalhos para aumentar a liberdade econômica nacional. 

Pelo menos é essa a impressão que o STF passou ao liberar a venda de subsidiárias de estatais sem o aval do Congresso. Ignorando o que diz a Constituição brasileira, os gloriosos ministros fizeram um rebosteio argumentativo para justificar a possibilidade de o governo vender uma empresa, de maneira até então ilegal.

Veja bem, o blog não tem nada contra a venda de empresa pública. A depender dele, uma boa parte das estatais deixariam de existir, começando pela Infraero (vendam a Infraero. Eu não aguento mais a Infraero).

Mas se o governo quer mesmo sair por aí sendo malvadão e promover o desmonte da máquina pública, que o faça da maneira correta. Que mandem um projeto para modificar a lei vigente e, com isso, reduzir as chances de outras vendas pararem na justiça.

Pedir para o STF legislar só diminui (em vez de aumentar) a segurança jurídica que é necessária para avançar o processo de desestatização, que começou lá com o Collor. Não custa nada a Corte mudar de ideia e, em alguns anos, avisar que não pode mais vender subsidiária da Petrobrás sem o apoio do Congresso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Liberal na economia, conservador de ideias ruins em tempo integral 

Bolsonaro lembrou que existem outros países na América Latina além da Venezuela. Após viajar para comer fast food nos EUA e falsificar a história em Israel, o presidente passou um tempinho na Argentina contando novas mentiras.

Na visita, Bolsonaro pediu que os nossos hermanos votassem “com muita razão e menos emoção“. Afinal de contas, já basta ele como imbecil de marca maior ocupando um cargo importante na região.

Após demonstrar que a educação da ditadura militar não é das melhores, o presidente anunciou um novo desejo imbecil: a criação de uma moeda comum entre os dois países, o “peso real”. A ideia é tão ruim, mas tão ruim, que fica difícil comentar sobre. Felizmente, o Banco Central do Brasil avisou que isso não é algo a ser levado a serio. Mesmo assim, Jair insistiu na ideia.

O fato é que a saga do presidente para destruir tudo o que foi criado após a ditadura não tem fim. Se o próximo alvo é o Plano Real, que finalizou com a hiper-inflação crônica do país, o blog, na posição de tiete do Plano Real, considera isso um motivo para impeachment.

No dia do meio ambiente quem derruba árvore é você 

O leitor sabia que o desmatamento é a questão ambiental que mais preocupa o brasileirinho? O blog não. E, a julgar pelas medidas tomadas pelo ministro do Meio Ambiente, o chefe da pasta também desconhece o dado.

Segundo a pesquisa global Earth Day 2019, o tema é mais importante até do que o aquecimento global. A informação foi divulgada na mesma semana em que o governo afirmou que insistirá em aprovar as mudanças no Código Florestal, que o Senado já falou que não quer fazer. Se sobrar tempo, Bolsonaro também tentará encontrar uma forma de extinguir parques ambientais por decreto.

Mas essa não é a única medida do governo brasileiro nas últimas semanas com a desculpa que ele não pode atrapalhar o coleguinha a destruir floresta. Veja algumas das coisas que o blog esqueceu de citar sobre a atuação do ministro, acusado de improbidade administrativa:

Não é de surpreender que o desmatamento da Amazônia tenha explodido nos primeiros meses de 2019. Quando Bolsonaro diz que a missão do seu governo é “não atrapalhar quem quer produzir“, ele está apenas tendo um impulso de sinceridade e humildade. No que depender da sua administração, a Amazônia se transformará em uma grande mistura de pasto e plantação de soja. Transgênica e com muito agrotóxico, se possível. 

E se depender do ministro responsável por cuidar do Meio Ambiente e do agronegócio nas horas vagas, não sobrará um centavo para as atividades que garantirão um futuro com ar respirável para os nossos filhos. Nessas horas, cabe a gente comemorar a existência de Sergio Moro. O ministro da Justiça liberou mais verba para o FDD. O aumento de 1.650% nas verbas auxiliará na criação de um modelo de avaliação de riscos para o uso de agrotóxicos no Brasil, e reduzir o impacto causado pela sua aplicação no meio ambiente

A Alemanha já notou que Bolsonaro só quer beber agrotóxico e cortar árvore. Os europeus avisaram que, a depender dos movimentos dos próximos meses, a sua carteira ficará fechada para o financiamento de um dos mecanismos mais antigos de proteção a floresta da Amazônia. A Noruega também já está mexendo os seus pauzinhos para impedir o governo de continuar a fazer merda.

O presidente pode continuar mentindo por aí e falando que o Brasil é um país que protege o meio ambiente com muito afinco. Enquanto existir imprensa livre nessa nação, poderemos acompanhar com cuidado as incisivas tentativas do seu governo para acabar com o nosso futuro.

A mulher de César caiu na net 

Há um ditado que diz que, a mulher de César não só deve ser honesta. Ela também deve parecer honesta. O blog, inclusive, já se utilizou dele para fazer título de postagem. Os membros da operação Lava Jato e o ministro Sergio Moro deveriam conhecê-lo.

Na noite de domingo (09), a versão brasileira do The Intercept começou a publicação de uma série de reportagens detalhando as relações entre Deltan Dallagnol e o atual ministro da Justiça. O material, colhido por uma fonte anônima, mostra como o ex-juiz aconselhou o funcionário do MPF, as articulações dos servidores públicos para impedir que o ex-presidente (e agora portador de um pau duraço) Lula desse entrevistas, e até mesmo as dúvidas que os concurseiros tinham sobre a sua capacidade de mostrar que o petista era o dono do tríplex mais famoso do Guarujá.

A força-tarefa da Lava Jato logo publicou uma nota em que não desmentia o conteúdo das publicações do site de Glenn Greenwald. Também afirmou que elas não revelam qualquer ilegalidade (mas nada falaram sobre o nível de ética das articulações feitas com o apoio do ministro da Justiça).

Os concurseiros também afirmaram que a sua atuação foi revestida de “legalidade, técnica e impessoalidade”. Marco Aurélio Mello discorda.

O mesmo MPF também afirmou que a pessoa responsável pelos vazamentos “praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público, à vida privada e à segurança” dos investigadores. Imagina se os servidores do órgão tivessem a mesma opinião quando alguém resolve divulgar conversa de jornalista com fonte, hein?

Os servidores públicos (que regularmente forçam a barra no entendimento da lei) também afirmaram que foi uma injustiça não terem sido contactados pelo Intercept antes da publicação da notícia. É sempre bom lembrar que a liberdade de imprensa existe e, em geral, empresa privada não é obrigada a seguir as vontades de concurseiro.

A força tarefa se queixou que os jornalistas do Intercept não são imparciais, algo que qualquer estudante de comunicação social do primeiro período do curso sabe que não existe. Imparcialidade, aliás, é devida aos juízes, que não devem prestar serviços de consultoria jurídica nos sábados, domingos e feriados.

Indo além, afirmaram que ultrapassar os limites de respeito às instituições e às autoridades é algo que prejudica a sociedade em vários níveis. Quem vê pensa que os concurseiros estavam falando daquele vazamento de ligação da Dilma com o Lula uns anos atrás.

Jornalista tem mais é que vazar dado de interesse público mesmo. O próprio Dallagnol já reconheceu isso quando foi de seu interesse, e da mesma forma, Sergio Moro lembrou que não podemos culpar jornalista por divulgar material vazado por terceiros.

Sergio Moro disse, no Twitter, que há “muito barulho”, e que uma “leitura atenta revela que não tem nada ali, apesar das matérias sensacionalistas”. Afinal de contas, o responsável por julgar criminhos orientar as pessoas responsáveis por apontar quem comete ilegalidades a fazer o seu trabalho é super normal.

Se os envolvidos no escândalo queriam parecer honestos e imparciais, o fizeram muito mal. Se parabenizar após uma manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff, afirmar que quer “limpar o Congresso,” e indicar até a ordem correta para a realização de operações está longe de ser algo ético. E não é só o blog que diz isso: a OAB também achou as ações dos funcionários do judiciário muito feias, e pediu que eles se afastassem até que tudo fosse esclarecido.

Gilmar Mendes, aquele que pouco fez nos últimos anos para impedir que operações contra a corrupção não chegassem em poderosos, já avisou que “o fato é muito grave”. Também tirou a bunda de cima do processo que questiona a suspeição do Moro.

O Congresso já se articula para usar uma CPI para ouvir o ministro da Justiça, e discute se há a necessidade de quebrar sigilos. Enquanto isso, Toffoli, Alcolumbre e Maia se reuniram para discutir as publicações do Intercept.

Não me assustaria saber que, entre a noite de domingo e a hora da publicação deste post, muita gente presa na carceragem da PF em Curitiba gozou gostosamente, lembrando que, no artigo 254, inciso IV, do Código do Processo Penal, está registrado o “juiz dar-se-á por suspeito, e, se não fizer, poderá ser recusado por qualquer das partes se tiver aconselhado qualquer das partes”. No país da Operação Satiagraha, qualquer passo em falso é motivo para gente poderosa ficar longe da cadeia.

Até o momento, isso não aconteceu. Muitas das coisas que foram reveladas pela Lava Jato são tão sólidas quanto a água que serve de apoio para os patinhos do sítio de Atibaia nadarem.

Porém, os alicerces para bons advogados saírem por aí questionando a atuação de Moro e seus amigos começaram a ser cavados apenas nessa semana. Vai ser divertido acompanhar o Reinaldo Azevedo fazendo pirocoptero na Band News, enquanto o Intercept revela os outros 99% que sabe.

Vale lembrar que a frase “o juiz brasileiro, na fase de investigação, tem uma postura passiva, apenas examinando pedidos da autoridade policial, do Ministério Público e da defesa, como também o faz durante a fase de tramitação da ação penal” veio do mesmo servidor que foi pego com uma postura ativa, auxiliando e cobrando pedidos do Ministério Público para dar mais força às suas acusações. As revelações, portanto, podem não ter um impacto jurídico imediato, mas certamente representam um baque para aqueles que pretendiam manter a opinião pública ao seu lado.

Em notas não relacionadas, o Dallagnol responderá a uma acusação de atuação política e quebra de decoro em um processo administrativo instaurado pelo corregedor nacional do MP, Orlando Rochadel. Por incrível que pareça, a notícia publicada pelo Painel da Folha de S.Paulo informa que o processo em nada tem a ver com o escândalo da semana: a acusação se refere às postagens feita pelo procurador durante as eleições para a presidência do Senado no começo do ano.

Para todos os fins, a gente pode sorrir pensando que não somos o Padilha. Imagina como deve estar dormindo o diretor ao saber que investiu dinheiro na escrita e gravação de várias cenas para o seu seriadinho mostrando o ex-juiz conversando com gente da PF e do MPF sobre o andamento dos processos quando o certo mesmo teria sido só mostrar uns prints de telefone?


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #22: um grande pacto com a puta que te pariu

The following takes place between may-28 and jun-03


O pacto de Schrödinger 

Na manhã de terça-feira (28), Jair Bolsonaro se reuniu com os presidentes do Supremo, do Senado e da Câmara para anunciar a criação de um novo pacto entre os três poderes (e tomar um cafezinho). O acordo, segundo informado, envolve temas como a reforma da Previdência e a criação de uma política nacional de segurança.

iniciativa do presidente, tomada dois dias após os seus cães de guarda saírem às ruas para brigarem contra os outros poderes, não valeu por 24 horas. No mesmo dia, Bolsonaro tentou lembrar a Rodrigo Maia que a sua caneta Bic é mais poderosa que a Montblanc utilizada pelo presidente da Câmara.

Eu perdi algo ou agora é o Bolsonaro quem coloca os pedidos de impeachment para tramitar?

Para todos os fins, não há a possibilidade de um presidente revogar um decreto utilizando outro decreto. Nem que seja para transformar reserva ambiental – em que ele foi pego pescando ilegalmente – em parque temático, com vista exclusiva para uma usina nuclear de funcionamento duvidoso. 

A Associação de Juízes Federais notou que essa coisa de pacto com todos os poderes não tem lá muita legalidade. Como bem lembraram os usuários de toga, não cabe ao Supremo realizar acordos políticos, especialmente se envolverem o julgamento da constitucionalidade de propostas no futuro (mas se for para retirar a descriminalização do uso e porte de drogas e a criminalização da homofobia das pautas da corte, pode).

Ao contrário do que pensa o presidente, o único “lado certo” que o Supremo deve se posicionar é o lado da Constituição brasileira. Não cabe ao judiciário ser consultor das ideias tresloucadas do Planalto. Parece óbvio, mas estamos falando do governo do homem que mal sabe ler um teleprompter

Também não há como os presidentes do Senado ou da Câmara subscreverem os programas do Executivo, como se fossem as agendas das casas legislativas. Não só é uma postura pouco saudável para a democracia, como também é algo difícil de ser realizado.

O pacto que o país precisa já existe. É a Constituição de 1988. Qualquer coisa além disso é conversa mole de governante buscando um photo op para o seu governo.

Sobra democracia em Brasília

O pouco autoritário e muito liberal governo Bolsonaro mandou avisar, por meio do seu Ministério da Educação, que “professores, servidores, funcionários, alunos, pais e responsáveis” não podem incentivar a participação de pessoas em protestos a favor da educação. Também informa, por meio da AGU, que “não pode haver professor sendo tendencioso, que atue como militante” no ambiente acadêmico.

André Mendonça avisou ao país e ao STF que, no entendimento do Planalto, “professores precisam ter um comportamento imparcial”. O blog recomenda a leitura de Foucault para os membros do governo, e lembra: os regimes totalitários pelo menos eram mais elegantes quando tinham os seus delírios autoritários.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Partido Novo digievolui para PSL Prime 

Quem chamou o partido Novo de PSDB Personnalité nos primeiros anos de sua vida deveria fazer um mea culpa. A cada live no Instagram a legenda parece, cada vez mais, com uma filial de luxo do PSL.

O ministro do Meio Ambiente é tão ruim, que conseguiu colocar pessoas que não se gostam sentadas em uma sala para falar mal dele. No Legislativo, o partido só não é mais fiel a Bolsonaro do que o próprio partido do Bolsonaro.

Em Minas Gerais, Romeu Zema continua mostrando que essa coisa de nova política não está com nada. Já avisou que pretende continuar pagando os seus secretários com jetons e não vai se obrigar a manter 70% dos cargos comissionados nas mãos de servidores concursados.

Não seria um problema o governador pagar as pessoas que para ele trabalham. O blog é contra essa ideia de que você pode trabalhar em troca de reconhecimento.

Mas não faz um ano que Zema deixou registrado em cartório que ninguém receberia salário, pelo menos até o pagamento dos profissionais concursados e dos pensionistas ser regularizado. Uma medida que, pelo visto, não só não será cumprida como também será tratada com o mesmo carinho que a minha gata trata os brinquedos que eu compro para ela.

Talvez seja uma boa ideia o serviço de consultoria contratado pelo partido para buscar candidatos a prefeito parar de focar em gente rica. Se os consultores começarem a trabalhar procurando pessoas que conheçam a administração pública, as chances de o Novo passar vergonha nos próximos anos serão muito menores.

O Novo já deixou claro que pobre não tem o perfil necessário para realizar política dentro da legenda. Assim sendo, que pelo menos tentem escolher candidatos que não farão promessas imbecis por puro desconhecimento da máquina pública, e que inevitavelmente se transformam em estelionato eleitoral.

Gang bang político

Enquanto a Joice Plagelmann e a Carla Zambelli brigam em praça pública, Alexandre Frota explode o PSL por dentro. O deputado federal não só avisou que Eduardo Bolsonaro não pode presidir a legenda, como também pediu uma auditoria completa das contas do partido.

Frota disse, com razão, que para o PSL ser um partido de verdade ele não pode ter “nome nem sobrenome”. Já Eduardo Bolsonaro acredita que o deputado e ex-ator pornô quer colocar “fogo no partido”. Uma forma bonita de dizer que frota quer foder com ele.

O blog apoia a iniciativa de Alexandre Frota. O deputado tem uma longa experiência em comer o cu alheio (sem areia e brita, infelizmente) e seria divertido ver como isso se daria em relação ao nome do Dudu (ou de outros membros de caráter duvidoso).

Osmar Terra e a luta contra a ilustração 

Nos últimos três anos, a Fundação Oswaldo Cruz gastou R$ 7 milhões de reais para fazer um censo sobre o consumo de substâncias lícitas e ilícitas no Brasil. Após descobrir que o resultado do trabalho não afirmava a existência de uma epidemia de drogas, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, atacou a instituição e proibiu a divulgação do levantamento.

Osmar Terra, que tem um diploma de medicina pela UFRJ, acredita que faltam critérios científicos para o trabalho, que vem a ser coordenado por um pesquisador que é core member do grupo da ONU em uso de drogas injetáveis e AIDS, professor honorário da Graduate School of Public Health, da Universidade de San Diego, nos EUA e “Outstading Reviewer” do College on Problems of Drug Dependence.

Para todos os fins, Sérgio Moro liberou o conteúdo, desde que o título fosse trocado de nome e as associações com o governo fossem removidas. Uma ideia que parece até boa, mas que pode gerar problemas para a Fiocruz.

O incrível caso do governo que até calado se posiciona de forma merda 

Há pouco mais de uma semana, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim, localizado em Manaus, acordou manchado de sangue. 15 pessoas foram mortas durante o período de visitação de familiares em função de brigas entre facções. 

A briga fez parte de um ciclo de assassinatos que ocorreram em presídios do estado., e entre domingo e segunda-feira, as cadeias do Amazonas registraram a morte de 55 detentos. O problema, aliás, já tinha sido avisado pela ONU em 2015.

Há, conforme lembrou Reinaldo de Azevedo, 70 organizações criminosas que operam no sistema prisional, matando, recrutando e garantindo que o número de mortes no país aumente. Tudo isso sem a facilidade para a compra de armas, que é o sonho do presidente.

A estes presos e aos familiares mortos, o presidente opta pelo pacto do silêncio. Já o ministro da Justiça, usou a morte de pessoas como palanque para as suas ações.

A postura porca do governo ocorre por todos os mortos serem perigosos comunistas? Eles merecem o tratamento desumano adotado no caso de Evaldo Rosa dos Santos?

Afinal de contas, Jair precisou de cinco dias para lamentar a morte do pai de família pelas mãos de militares. Já o MC Reaça, que se matou após descobrir que a sua amante (que ele também tentou matar) estava grávida, recebeu homenagem pública cinco minutos após a divulgação de sua morte.

O filho feio e sem pai chamado “articulação política do governo Bolsonaro” 

Bolsonaro foi deputado por quase 30 anos, um período muito maior do que outros presidentes brasileiros tiveram para aprender a lidar com o Congresso. Aparentemente, isso não foi o bastante para o cunhado de miliciano aprender como o governo funciona.

Enquanto perde tempo acusando o “centrão” (do qual fez parte) de não apoiar cegamente as suas agendas, o Executivo só conseguiu aprovar 1 de suas 27 proposições no Congresso. Nos últimos seis meses, quando as péssimas ideias não caducavam, elas eram reprovadas por simples falta de articulação de um Planalto que, pelo visto, acredita que os seus projetos tornam-se realidade na base da hashtag.

Tanto é verdade que, quando quer, o presidente consegue aprovar as suas ideias. Na segunda-feira (03), por exemplo, a MP do pente fino no INSS passou no Senado, após o Planalto fechar um acordo com partidos de oposição em torno da aposentadoria rural. Bastou conversar.

É sabido que, para o bolsolavismo, é conveniente o discurso de vítima do sistema. Mas a tese do bode expiatório tem os seus limites, como vários políticos viram no passado.

O presidente cai em contradição quando é forçado por Rodrigo Maia a anistiar multas aplicadas a partidos políticos, mas por outro lado, quando Bolsonaro sai do Planalto para prestigiar homenagem a humorista na Câmara, sem seguranças, e fode com a organização de todas as reuniões já agendadas por Rodrigo Maia, ele só está sendo bem grotesco.

Aliás, grotesco é o termo que define todos os passos da articulação do governo e a sua relação com qualquer outro poder. Basta lembrar, conforme narrou Matheus Leone no Twitter, como foi a votação da MP do pente fino do INSS na Câmara: enquanto o Major Vitor Hugo implorava para o PSL aprovar a Medida Provisória como enviada pela equipe técnica do próprio governo, os deputados do partido se debatiam contra o uso da palavra “gênero” para definir o gênero de quem cair na malha fina da Previdência.

A votação, por sinal, só saiu após o Planalto abandonar a MP do Código Florestal. Afinal de contas, no dia anterior, o governo foi incapaz de organizar a sua base para montar o quórum necessário para votar a medida contra o meio ambiente e a MP 871.

Nem Major Olímpio, líder do PSL no Senado, aguenta mais. Já são públicas as reclamações de falta de apoio da Casa Civil durante as votações, a ausência de orientações sobre o que deve ser defendido e quais são os discursos que podem ser utilizados. Imagina se ele não fosse líder do partido do presidente.

O mais incrível é que, enquanto Bolsonaro faz a sua palavra valer menos do que um pastel de queijo com caldo de cana, os novos estadistas do país são aqueles que, anteriormente, seriam considerados a escória da política.

Nem seis meses de governo e Bolsonaro já transformou a leitura de jornais no café da manhã o hate fuck do povo brasileiro.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Revisado pela Marinna e editado pela Luana.

A Nova Era – semana #21: a República da live no Instagram

The following takes place between May-21 and May-27  


Um golpe lento, gradual e inseguro? 

A semana começou ainda curtindo os efeitos do textinho compartilhado por Bolsonarochamando o país de ingovernável. Apesar de tentar negar que o filho feio não tinha pai, a mensagem estava “em consonância com o pensamento” do presidente, conforme afirmou o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros.

Sem uma base para chamar de sua e já colocando a palavra impeachment bem na frente das nossas saladas, o projeto de Fujimori resolveu governar da maneira mais populista possível e, se achando o próprio Ciro (o Grande, não o político cearense e xingador profissional), chamou o povo para fazer uma proto-guerra de proxy, e ir às ruas contra o Congresso e o STF. Afinal de contas, o fim do “toma lá, dá cá” não poderia ser feito na base de uma articulação republicana.

A ideia pegou tão mal, mas tão mal, que até mesmo os bolsonaristas de primeira ordem resolveram brincar de serem sensatos. Janaina Paschoal acusou o presidente de estar se alimentando de conspiração, e os meninos do MBL entraram para a lista de comunistas, avisando que não apoiariam esse tipo de postura (felizmente a internet tem memória e a atitude republicana dos anjos sem asa não durou uma semana). 

O Vem Pra Rua e o Nas Ruas se uniram ao MBL e também avisaram que não estariam no ato golpista. Apesar do apoio a pautas do governo, a coordenadora do Vem Pra rua e o porta-voz do Nas Ruas acusaram a manifestação de “confusa e dispersa” e negaram envolvimento na sua organização. Lambe botas de militar, para eles, só serve se for para pedir impeachment de político petista. 

Deputados também lembraram a loucura que é um governo partir para cima dos outros poderes, e o deputado Marcelo Ramos (PR), afirmou que o protesto “a favor da reforma contra quem é a favor da reforma” é “surreal”

No Senado, Rose de Freitas (Pode-ES) afirmou que o governo “não deixa o Congresso trabalhar” e chamou os líderes de ruins de serviço. Já Omar Azis (PSD-AM) chamou Bolsonaro para mostrar o pau que ele quer usar para matar cobras, e pediu que o presidente afirmasse quem estava fazendo chantagem. Otto Alencar, por fim, lembrou que todas as trapalhadas do governo foram provocadas pelo próprio governo.

O jornal Estado de São Paulo, o veículo com o melhor papel para limpar botina de militar do Brasil, começou a se perguntar se há um presidente no país. Parece que aquela decisão em outubro do ano passado não era tão difícil, né?

Na noite de sexta-feira (18), as ex-BFFs Carla Zambelli e Joice Plaglemann partiram para o tapa (virtual) no twitter, e passaram horas discutindo quem lambia mais a bota de Bolsonaro. Enquanto Joice mostrava que o couro brilha mais com a sua saliva, Carla cobrou da deputada (e plagiadora nas horas vagas) a presença nos atos de domingo.

No domingo (19), Eduardo Bolsonaro afirmou que não havia “nada mais democrático do que uma manifestação ordeira que cobra dos representantes a mesma postura de seus representados“. Quem lesse o tweet sem saber a autoria, poderia pensar que a postagem era uma referência aos atos contra os cortes de verba do MEC, e não uma manifestação do fascismo cultural.

Flávio Rocha, do Brasil 200 (e da Riachuelo), resolveu ficar em casa. O presidente do PSL, Luciano Bivar, também falou que seria melhor ver o filme do Pelé. Jair Bolsonaro, no final das contas, ficou em casa vendo as vídeo cacetadas do Faustão enquanto Carluxo atualizava o Twitter do pai com postagens de apoio à manifestação.

As manifestações de domingo foram horríveis, mas menos horríveis do que imaginávamos. Ver que o número de adoradores do Bolsonaro é menor do que o esperado (mas ainda é alto o bastante para ocupar uma faixa da Avenida Paulista), é tão bom quanto descobrir que você só precisará perder dois dedos e não uma mão inteira após um acidente.

O que a nova direita não entende é que, salvo os deputados do PSL e os governistas não oficiais do Novo, em nenhuma normalidade democrática alguém é obrigado a se unir a favor de um governo just because. Rodrigo Maia faz o que pode para a votação das reformas e outros projetos passarem, mas a articulação de uma reforma a favor, porém, deve ser feita pelo Planalto.

Bolsonaro chegou ao poder prometendo acabar com a venezuelização do país, mas ao contrário dos governos de Hugo Chaves e Nicolás Maduro, o presidente não esperou muito tempo para convocar os seus apoiadores para pressionar, nas ruas, os outros poderes a agirem conforme o desejo do Executivo.

Afinal de contas, o apoio do presidente aos protestos de domingo, ainda que se faça de inexistente, é claro. Tentar traçar tais manifestações como republicanas em função de meia dúzia de cartazes a favor de uma reforma que passará de qualquer jeito é fingir que o bolsolavismo é um movimento democrático e não um agrupamento de viúvas da ditadura.

Se o bolsolavismo quer um Congresso, um judiciário e uma imprensa que se curvem às vontades do mandatário executivo, talvez seja interessante buscar uma coroa em Petrópolis e transformar Jair Bolsonaro em um novo Luís XVI. Mas tomem cuidado: certamente há alguém disposto a amolar a lâmina de uma guilhotina nos rincões do país.

Uma guinada parlamentarista lenta, gradual e segura? 

O flerte com o “tudo ou nada” de Bolsonaro, naturalmente, não foi bem recebido por quem bate ponto na Câmara. A insistência no confronto azedou ainda mais uma relação, que já não tinha um gosto tão bom assim, com os parlamentares brasileiros e nos fez subir mais dois degraus na escadinha que vai em direção ao parlamentarismo branco.

Após colocar para tramitar a própria reforma da Previdência e a própria reforma tributária, Maia percebeu que não precisaria falar com quem já não falava tanto assim. Diante de mais um ataque indireto do Major Vitor Hugo, o presidente da Câmara afirmou que não há mais meios para consertar a relação com o líder do governo.

Talvez o homem que pode, a qualquer momento, colocar um impeachment para rodar, tenha cansado de explicar aos membros do governo (e seus apoiadores) como a política realmente funciona. Nesse clima amigável, a Câmara começou o dia 22, os trabalhos de votação da Medida Provisória 870 (aquela que validaria as mudanças nos ministérios feitas pelo governo no começo do ano).

Sai das asas de Damares Alves a Funai e dos braços de Sérgio Moro a Coaf (mas não para ir parar mas mãos do Fernandinho Beira-Mar). Em troca, o Centrão deixou de recriar os ministérios da Integração Nacional e das Cidades. Além disso, os auditores da Receita Federal ficariam proibidos de comunicar qualquer investigação sobre crimes financeiros.

A votação, naturalmente, foi tão bagunçada quanto qualquer coisa que envolve esse governo. Os deputados governistas pegaram em seus telefones e começaram a brincar de vlogueiros para convocar a sua militância a fazer pressão pela internet. Rodrigo Maia não curtiu muito e terminou a sessão antes que a MP 870 fosse votada.

A criação do Ministério das Cidades tinha sido acordada entre os principais líderes políticos do Executivo e do Legislativo. Ao ignorar esse acordo, o presidente minou ainda mais a sua capacidade de articular projetos nos próximos anos e, de quebra, deu mais motivos para deputados e senadores ignorarem os pleitos do Planalto.

Apesar dos pesares, Bolsonaro conseguiu passar o projeto pelo Congresso. Sobre a votação do texto no Senado, o presidente pediu com jeitinho para que os Senadores não mudassem nada do que os deputados tinham decidido. Falta só combinar com o PSD, que já tinha anunciado a vontade de apoiar a manutenção da Coaf com Moro.

O fato é que os deputados moderados que estão a favor das reformas já não escondem mais a sua insatisfação com o Planalto. Enquanto Jair torna a sua caneta Bic irrelevante e os deputados do PSL fazem picuinha com bobagem, o Congresso se fortalece na luta entre os poderes, que só existe porque o governo é burro demais para cumprir a própria palavra por 24 horas. Depois a gente vira parlamentarista e ninguém entende o motivo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

A nova direita é brega e mentirosa 

Witzel, Caio Coppola, Fábio Morgenstern e Joice Plagelmann. O que todos têm em comum? Uma crise de identidade pesada.

O governador do Rio de Janeiro foi pego mentindo no próprio lattes na última semana. O doutorado em Harvard nunca foi cursado, mas, para o ex-juiz, é uma fake news afirmar que ele não fez o que, no final das contas, não fez.

Se o governador mente onde estuda, Joice Plagelmann mente sobre o que escreve para se fazer da boa jornalista que nunca foi. A deputada do PSL tem um desejo incansável de usar ideias alheias, seja na hora de publicar matérias ou na hora de fazer Projetos de Lei. Seria Joice uma ancap que não acredita em propriedade intelectual?

Já Caio e Fábio adotaram “nomes artísticos” desde o começo das suas carreiras como comentaristas conservadores. Certamente uma tecnicalidade, como diria Caio. Não uma tentativa de esconder negócios paralelos.

A nova direita não é apenas brega. Ela mente o seu nome, mente a sua formação e mente sobre o que escreve. Para um grupo conservador que adora posar a favor da verdade e da moral, é bastante engraçado vê-los sendo pegos com “as calças arriadas” por aí.

É uma pena, porém, que ninguém perde o emprego na Jovem Pan ou no governo carioca por pequenas mentirinhas.

Um meltdown governamental lento, gradual e seguro? 

O saldo da semana é de que o governo continua perdendo força, e deixando de fazer política para brincar de briga de espadas. O que é um problema tanto para Bolsonaro, quanto para as nossas instituições e o país.

Existem hoje 143 deputados declaradamente na oposição. Para barrar projetos que demandem uma emenda constitucional, por exemplo, são necessárias apenas outros 62 votos contrários. Troco de bala.

No contexto em que a palavra impeachment está na boca não só do presidente, cai bem tomar cuidado e evitar que a corda que ele colocou em seu pescoço fique mais apertada.

A pressão que uma meia dúzia de abobados fez contra o Congresso nos últimos dias pode, a qualquer momento, se virar contra o próprio presidente. Basta lembrar o que aconteceu com Michel Miguel e Aécio Neves, em um passado não tão distante assim.

O governo já chega em seu sexto mês e, até agora, há pouco sinal de melhoria ou de avanço real nas principais promessas de Bolsonaro. A menina dos olhos de Sergio Moro, por exemplo, acumula mais poeira do que a boneca Annabelle no porão da casa de Ed e Lorraine Warren. Bobo é pensar que o bolsolavismo precisa de um Bolsonaro para continuar sobrevivendo: ele não chegou aqui com ele e, definitivamente, continuará aqui sem ele.

O governo já chega em seu sexto mês e, até agora, há pouco sinal de melhoria ou de avanço real nas principais promessas de Bolsonaro. A menina dos olhos de Sergio Moro, por exemplo, acumula mais poeira do que a boneca Annabelle no porão da casa de Ed e Lorraine Warren. Bobo é pensar que o bolsolavismo precisa de um Bolsonaro para continuar sobrevivendo: ele não chegou aqui com ele e, definitivamente, continuará aqui sem ele.

Não adianta Paulo Guedes aparecer nas páginas da Veja afirmando que o país pegará fogo se a reforma da Previdência não for aprovada, as mudanças no sistema previdenciário por si só, não criarão um cenário sólido o bastante para o país retomar o seu crescimento.

O ministro está certo ao dizer que o país pegará fogo se o cenário econômico não melhorar nos próximos anos. O que ele não nota, porém, é que enquanto ele estiver no seu jatinho em direção a um paraíso fiscal para chamar de seu, a principal fonte de fumaça será a casa em que Bolsonaro dorme.

Bolsonaro trucou. As “vozes cínicas do establishment” trucaram de volta e metade do Brasil continuará fazendo cocô no fundo do quintal.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Revisado pela Marinna e editado pela Luana.

A Nova Era – semana #17: o sincretismo da safadeza com a burrice

Quem planta sacanagem pode colher Mourão.


Verba volant, scripta manent

Carlos Bolsonaro começou a última semana anunciando uma nova fase na sua vida. Durou pouco: por vários dias, o filho do presidente, que se diz vereador do Rio de Janeiro, dedicou-se a atacar o vice-presidente Mourão em seu Twitter. Em pouco mais de dois dias, o filho pródigo:

O Brasil da Nova Era se tornou uma monarquia e não nos avisaram. A confiança no governo derrete tal qual uma adolescente vendo o seu ídolo de perto, a inflação parou de cair, as projeções do PIB desabam, a renda não melhora e o dólar continua brincando de valer R$ 4,00. Enquanto isso, o filho mais novo do presidente rouba a senha do Twitter do pai e dedica o seu tempo a atacar o vice que poderia ajudar a construir pontes e aprovar as reformas econômicas que precisamos para sair do buraco.

Convém lembrar, mais uma vez, que a última pessoa que ocupou o Planalto e atacou o vice de maneira terceirizada se deu bem mal. Cai bem aos Bolsonaros ler um livrinho de história de vez em quando, nem que seja de esquerda, para terminar essa briga sem fim.

O país tem muitas prioridades. Nenhuma delas é lidar com as confusões causadas por um bando de homens ressentidos de pinto pequeno que não sabem dirigir, mas coordenam uma cooperativa de funcionários fantasmas muito bem.

Em notas não relacionadas, Mourão encontrou o ex-ministro de Lula, Mangabeira Under, nos EUA no início do mês de abril.

Lula lá

A semana começou com o STJ mantendo a condenação do ex-presidente, opinador e presidiário Luiz Inácio Lula da Silva no caso do tríplex de Guarujá. A pena foi reduzida para 8 anos e 10 meses e já há quem fale em absolvição. Por hora, o máximo que ele pode conseguir é o direito de ir para o semiaberto (ou pedir prisão domiciliar) e continuar dando entrevistas.

Na mesma semana, o ex-presidente finalmente abriu a sua boca para a Folha de S.Paulo, e ao El País na última sexta-feira (26). A fala do presidiário (muito liberal e com pouca autocrítica), deu saudades de uma coisa que não se vê muito na Nova Era: gente que faz política de verdade. Até o Tio Rei elogiou.

Não foi muito fácil para o Lula colocar a boca no trombone. Nem quando queria, ano passado, nem agora, como mostra o Nexo]. Para aqueles que sentiam saudades de limpar a bola esquerda desse velho em específico, bastaram 30s de fala para a bandeirinha do PT sair do armário.

É melhor Jair se arrependendo Dilma vez

Quem está caindo na alma dos desavisados que acreditaram no liberalismo de quermesse de Jair Bolsonaro, e comparando as suas ações com a Dilma precisa urgentemente de uma visão histórica mais ampla. Bolsonaro não se transformou na ex-presidenta após chegar ao governo: ele sempre pensou como ela, pelo menos economicamente.

O presidente que agora interfere na política de preços da Petrobrás, pede ao presidente do BB para abaixar os juros e deixa claro que não queria aprovar a reforma da previdência, é o mesmo que, na década de 1990, disse que FHC merecia ser fuzilado por colocar a Petrobrás na Bovespa.

Dizer que Bolsonaro passou a pensar como a Dilma é um ataque absurdo às ideias da ex-presidenta, afinal de contas, mesmo com o seu passado de guerrilheira, ela jamais falou em fuzilar alguém por ser liberal: é sempre mais fácil deixar a sua base queimar o liberal da vez, como ela fez com o Levy.

Dom Quixote olavista

A guerra cultural contra tudo aquilo que atinge a moral dos flocos de neve que ocupam o Palácio do Planalto continua firme e forte. Na última semana, Bolsonaro mandou o Banco do Brasil tirar do ar uma propaganda que celebrava a diversidade racional e sexual. Além de jogar 17 milhões no ralo, o presidente também demitiu o perigoso comunista e diretor de marketing da instituição financeira, Delano Valentim.

Quando questionado, o presidente disse que a regra do jogo é a seguinte: ou o ministro é armamentista, ou “fica em silêncio”. E quem indica e nomeia presidente de banco é ele, e que, por isso, ele não precisa “falar mais nada”.

Mesmo dizendo que não pretende perseguir minorias, o ataque a quem faz propagandas para promover a tolerância só ajudou a dar mais destaque para a peça que, até então, estava fora do debate público. No meio do caminho, o governo ainda tentou ir contra a Lei das Estatais e obrigar todas as empresas públicas a submeter previamente à avaliação da Secom (Secretaria de Comunicação Social) qualquer peça de publicidade que elas criarem.

Falta ao nosso presidente metido a Dom Quixote um “homem de bem, mas de pouco sal na moleirinha” para lembrá-lo que o mundo vai muito além da sua guerra cultural. A propaganda do Banco do Brasil é perfeita para o público que pretendia alcançar, e, se o presidente realmente deseja direcionar a carteira de clientes apenas para os “pais de família” brasileiros, é melhor reformular toda a estrutura da instituição e buscar novos meios de entregar as bolsas de fomento ao ensino das instituições de ensino superior federais.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Laranjal_Atômico-S01-E04.mkv

O Partido Novo estuda processar o PSL pelo roubo do protagonismo em relação a cor laranja. Na segunda-feira (29), a sede do partido em MG entrou para o noticiário após uma operação da PF. Batizada de “Sufrágio Ostentação”, a ação apreendeu vários indícios concretos de mentiras relativas aos gastos com a produção de materiais gráficos para candidaturas fantasmas durante a campanha eleitoral de 2018.

Infelizmente o escândalo ainda não chegou perto do presidente. O que não é o caso do Queiroz, que tem várias fotos com o presidente e ainda não teve seus rolos julgados pela justiça. Mande notícias, Queiroz.

Volta, velha política

Após ocuparem as ideias de Paula Roberta por mais de nove horas, o governo finalmente conseguiu vencer a primeira etapa da tramitação da reforma da Previdência. Com 48 de 66 votos a favor, o relatório favorável foi aprovado em uma sessão com tumultos, bate-bocas e obstruções promovidas até pela base.

A aprovação mostra que, aparentemente, essa coisa de se apoiar na Lava Jato e em discursos contra as práticas tradicionais da política, não dá muito certo na hora de ganhar apoio no Congresso. Ainda não se discute o mérito da proposta e já vemos o governo cedendo em vários pontos para ganhar apoio de deputados do centrão e, eventualmente, de quem faz parte do PSL. Teria sido mais fácil ter dado ouvido às dicas de Rodrigo Maia nas últimas semanas e começado a fazer política de verdade desde o dia 1º de janeiro.

Ajudaria mais ao Planalto, nas próximas etapas da tramitação do projeto, ser mais transparente. Fazer post no Twitter e pronunciamento na TV quando o trabalho pesado já está feito não muda voto de deputado que precisa se eleger de novo nas próximas eleições.

O Planalto também pode simplesmente continuar focando na busca pelo “espírito patriótico” dos deputados com dinheiro e cargos comissionados.

Saudades de quando o Brasil era governado por um bando de cachaceiros. E não por homens de tiny dick energy.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Com edição e revisão da Luana de Assis.

A Nova Era – semana #15: quem tem medo do liberal?

Hoje eu vou desenvolver. Mas não muito.


Muita guerra e pouca paz na Educação

Abraham Wientraub (referido pelo blog apenas como o ministro da Educação, enquanto estiver no cargo) chegou no ministério da Educação falando em paz. Instantes depois, o ministro também afirmou que aqueles que discordarem podem sair pela porta da esquerda.

A não-guerra cultural promovida pelo ministro passará pela demissão de todos os secretários da pasta, com exceção da secretaria de Alfabetização, que fica com Carlos Nadalim (que por acaso vem a ser é ex-aluno de Olavo de Carvalho). Retorna ao ministério Sílvio Cecchi, que ocupou a subpasta de Regulação do Ensino Superior no governo Temer, e ama uma faculdade privada.

No curto espaço de tempo entre o momento em que Vélez levava suas caixas para o porta-malas do carro e o novo ministro decorava a sua sala, os militares se movimentaram. Agindo novamente como a voz da moderação em um governo de olavitics, o decreto sobre a nova política de alfabetização foi modificado. Mas infelizmente a tentativa de não dar mais espaço para as bobajadas defendidas pelo ex-ministro e os outros seguidores do Guru da Virgínia deu errado e o novo ministro recuou no recuo.

Os_Trapalhões_no_Congresso_S01_ep_15

O laranjal atômico com ares de máfia italiana que é o PSL e a base do governo continuam aprontando altas confusões. Na tarde de terça (09), durante sessão da Comissão de Constituição e Justiça, o deputado Bibo Nunes orientou que a bancada do partido do presidente votasse contra a permanência da reforma da Previdência na pauta do dia. O encontro dos deputados teve debate entre Joice Plagelmann e Maria do Rosário, e até delegado, que também é político, sendo acusado de andar armado no ambiente.

Igreja Universal do Político Cara de Pau

Quando você se perguntar se o prefeito Marcelo Crivella merece o cargo, lembre-se da postura que o ele teve após o temporal que matou mais de uma dezena de pessoas na cidade. A chamada “chuva atípica” (que acontece regularmente na capital do estado) foi gerenciada pela prefeitura da mesma forma que um adolescente cuida das suas finanças.

Para ajudar a população da cidade a lidar com os problemas, nada mais nada menos que 20 pessoas foram enviadas. Reconhecendo que a ideia não foi muito inteligente, o prefeito não só disse que “até nos Estados Unidos isso acontece“, mas também arrumou tempo para brigar com a GloboNews depois de ser questionado a sobre a diminuição de 87% nos investimentos em obras de drenagem entre 2013 e 2019.

Em notas não relacionadas, o Jornal Nacional informou que existem duas centenas de profissionais preparados para entrar em ação quando há um temporal na cidade.

Oi, sumida

Não é segredo que o pessoal do Nordeste não é lá muito amigo do Bolsonaro e para ajudar a conquistar a população local, o governo trocou o aumento do bolsa família por um 13º para os beneficiários. Inspirados pelo jeitinho mineiro de ser, os nordestinos já demonstraram desconfiança em relação aos planos do presidente para tirar os beneficiários da “coleira política do PT“.

Falta informar se a mudança na política de reajuste do salário mínimo está incluída nos planos de conquista do Nordeste. Os trabalhadores (e aposentados) não devem estar muito felizes com a ideia.

10 pequenas notas do quinto dos infernos

O amigo do tio do meu primo do meu pai do meu irmão é ministro do STF

Na última semana, a revista Crusóe relevou que o tal “amigo do amigo do meu pai” é o ex-advogado-geral da União e agora presidente do STF, Dias Toffoli. Mas, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, a matéria teve que ser retirada do ar, pois haveria “claro abuso no conteúdo da matéria veiculada”. Mesmo com a revista aceitando a censura, o STF também enviou uma multa de 100 mil reais.

Não relacionado a isso, o documento em que Dias Toffoli é citado retirado dos autos da Lava Jato. O blog subscreve o editorial da revista Crusoé e informa que o documento que gerou a matéria da revista pode ser lido por completo aqui.

⬆️ Liberalismo ⬇️

Na celebração dos 100 dias de governo, Bolsonaro resolveu brincar um pouco de ser liberal e anunciou um projeto de lei para dar autonomia ao Banco Central, além de um PL para regulamentar a educação domiciliar. Já o ministro de Minas e Energia anunciou no mesmo dia que o mercado de gás natural seria aberto a concorrentes.

O liberalismo do governo não durou até o pôr do sol. No final do dia, por ordem do presidente (e sem comunicar Paulo Guedes), a Petrobras desistiu do aumento do preço do diesel que estava previsto para sexta-feira (12). A dilmada do presidente foi recebida com aplausos críticos pela petista impeachmada, silêncio do ministro da Economia e raiva do mercado, que fez a estatal perder R$ 30 bilhões de valor de mercado.

A dura liberdade de falar e fazer merda

Após quatro dias de silêncio sobre os 80 tiros que militares direcionaram a uma família e mataram duas pessoas, Bolsonaro se solidarizou com o falador de merda, humorista de baixa qualidade e apresentador de programa meia boca Danilo Gentili, condenado pela justiça a seis meses de prisão em regime aberto. Dias depois, o presidente seguiu o exemplo do ministro Sergio Moro e do vice-presidente, abriu a metralhadora de merda mais uma vez e afirmou que “o exército não matou ninguém“.

A metralhadora de merda do presidente também aproveitou a última semana para informar a um grupo de evangélicos que o Holocausto pode ser perdoado. O genocídio de milhões de pessoas, no entanto, não pode ter para o presidente a mesma importância que ele relega aos crimes da ditadura brasileira: esse deve ser sempre relembrado.

O governo Bolsonaro está se mostrando uma ótima mistura de ensurdecedores silêncios e frases que nos fazem pagar o preço pela audição. O presidente continua ignorando a importância do cargo e o impacto que as suas falas (ou a ausência das mesmas) faz para a república.

Para Bolsonaro, merece um comentário ágil a condenação de um humorista que tenta censurar outras pessoas e se esconde atrás de um hipócrita discurso de defesa da liberdade de expressão. Já a morte de duas pessoas inocentes pelas mãos das forças armadas, a ameaça de morte contra uma deputada da sua base por alguém de seu partido ou o assassinato de uma deputada de um partido de esquerda podem esperar.

Para Danilo Gentilli, “falar não pode ser crime. Nunca” (mas se ele quiser, pode). Tanto os silêncios e quanto as falas de Jair Bolsonaro, porém, deveriam ser considerados um atentado ao bom senso e ao espírito democrático e republicano que tentamos, aos trancos e barrancos, construir para a nossa nação.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Com edição e revisão da querida Luana de Assis.