A Nova Era – semana #57: os improváveis inúteis da República

O inferno astral de quem depende do MEC para definir o seu futuro, a agenda não liberal do governo, as preparações para 2022 e pequenas aulas de populismo. Tudo isso enquanto Lula dava um refresco para Bolsonaro e FHC dissertava sobre as suas angústias.

Não se esquece de compartilhar o post com a tia.


The following takes place between jan-28 and 03-fev


Matrioska do BNDES

A brochada pós unboxing do BNDES incomodou demais o presidente. Depois de anos caçando um fantasma que não existia, Bolsonaro resolveu criar outro factoide envolvendo o banco público. O problema agora são os R$ 6.000,00 por palavra que foram pagos para uma auditoria revelar o que todos já sabiam: não há uma infração legal nas operações de crédito para a JBS.

Gustavo Montezano corre sério risco de perder o cargo por cometer o crime de fazer o que Bolsonaro desejava e por ter aprovado um aditivo de R$ 13 milhões para a auditoria dos empréstimos. Há também a chance de a auditoria das operações da Odebrecht ficar a ver navios.

Montezano e Bolsonaro podem falar o que for, chorarem o quanto quiserem e gastarem todo o caixa do banco em busca de problemas nas suas operações de crédito subsidiado. Mas é pouco provável que o uso do banco de fomento para realizar fomento na economia acabe se transformando em acusação de ilegalidade. Pelo menos no que se refere às operações que o banco já abriu os dados após 2015.

Talvez seja a hora de Jair e sua turma investir em outros motivos para acusar a esquerda de ter destruído o país. Em algum momento o malabarismo retórico acaba cruzando com a realidade e, nessas horas, até mesmo o mais apaixonado fã do presidente pode perder a paciência com a criação de factoides.

Não custa lembrar: o aumento da transparência das operações do BNDES é algo que já é fato público desde 2015. A não existência da caixa preta do banco só não é mais velha do que os resultados desastrosos das operações por ele realizadas. Seria muito, portanto, pedir que o governo trate o tema com a seriedade necessária e pare de se esconder atrás de narrativas fraudulentas? Talvez. Mas sonhar é de graça e o travesseiro do blog é novinho.

Vem, 2022, vem nos fazer passar raiva

Após repetir impropérios e deixar o seu populismo autoritário à mostra, Lula resolveu usar o seu tempo livre para focar nas eleições de 2022 ao lado da presidente do PT, a senadora Gleisi Hoffmann. Crente de que o PT é o único capaz de ir para um segundo turno com Bolsonaro (e sabendo que Fernando Haddad não se elege sequer para síndico), o ex-presidente se reuniu com o governador maranhense Flávio Dino.

A reunião teve três objetivos práticos: foder com o centro liberal que está ensaiando um voo desde as eleições de 2018, trazer o governador de volta para o PT e afastar o comunista de Luciano Huck. Está errado o ex-presidente no que faz? Não muito. É engraçado ver o PT sendo incapaz de ser vice em uma campanha? Também.

Populismo 101

Enquanto o ministro da Educação acumulava motivos para ser demitido, o presidente resolveu ir atrás de quem fez algo que é legal, porém, imoral. O número dois da Casa Civil, Vicente Santini, resolveu utilizar um jato da FAB para um voo exclusivo à Índia (onde Bolsonaro passou parte dos últimos dias). O valor do passeio caiu na net e, bem, o pessoal não gostou muito.

Santini chegou ao governo por ser amigo da família Bolsonaro. O presidente, ao tomar conhecimento do frete, avisou que o número dois seria demitido do cargo (sem ao menos comunicar antecipadamente para o chefe da Casa Civil, Onix Lorenzoni, a sua ação). Mas, com o apelo dos filhos de Bolsonaro, a sua régua moral migrou para a mesma posição que avalia os voos de Ricardo Salles (do Meio Ambiente) em aviões da FAB e o ex-secretário-executivo foi realocado em um novo cargo.

Pegou mal? Pegou mal.

Vendo que até a deputada e jornalista condenada por plágio Joice Hasselmann conseguiu tirar proveito político da situação, o presidente mudou de ideia outra vez. Enquanto Carlos Bolsonaro exercia a sua fixação com o cu alheio, Bolsonaro anunciou que Santini seria exonerado do cargo, para a tristeza de Onyx, que ficou enfraquecido após o caso.

É divertido como a meritocracia funciona no governo. Banqueiro que afirma que não há caixa preta no BNDES sem precisar de um cheque de R$ 48 milhões? Demitido em uma manhã de sábado. Ministro que é incapaz de corrigir uma prova? Mantido no cargo. Chefe que se coloca em situação de improbidade administrativa? Ganha apoio público. Ministro que está lotado de acusação de corrupção? Faz photo-op em Minas Gerais.

Secretário-geral da Casa Civil que é pego gastando mais do que deveria, ainda que por meios legais? Muda de emprego e só cai quando a sua posição coloca o governo como motivo de troça de ex-aliado.

E agora para algo completamente não diferente

Falando em gente que é pega por aí em situação comprometedora, a Procuradoria da República solicitou à Política Federal a abertura de um inquérito criminal contra Fabio Wajngarten, chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom). A investigação deverá apurar as suspeitas de crimes de peculato, advocacia administrativa e corrupção.

Para quem perdeu os últimos posts do blog, eis um recap: Wajngarten é acusado de utilizar as verbas da Secom para favorecer empresas de comunicação simpáticas ao governo. Tudo isso enquanto os grupos de mídia mantinham contratos com a FW Comunicação e Marketing, empresa da qual é sócio. Além disso, o chefe da Secom também incluiu a verba de R$ 1,8 milhão para 12 emissoras religiosas desde que chegou ao cargo.

Parte do dinheiro foi utilizado, por exemplo, para financiar as propagandas a favor da reforma da Previdência. A verba da Secom engordou os bolsos de nomes como Ratinho e Ana Hickman. Teria sido mais legal pagar mais para o estagiário de social media não ficar passando vergonha online no débito e no crédito.

O presidente, que até agora não viu nada de errado nas acusações, terá que lidar, também, com o resultado de uma averiguação do Tribunal de Contas da União e a Comissão de Ética Pública da Presidência (onde Wajngarten mentiu). Também cairá no colo de Bolsonaro dois indicadores não muito agradáveis para quem insiste na narrativa de combate à corrupção como uma base de seu governo: desde o começo de 2019, o número de denúncias de infrações éticas e conflitos de interesse saltou de 803 casos (em 2018) para 1.340 (em 2019), enquanto a capacitação de servidores públicos em gestão da ética foi lecionada para 1.339 alunos (contra 3.348 no ano anterior).

A indignação dos não injustiçados

Circula a boca miúda que Fabio Wajngarten tem feito lobby junto a ministros do TCU para escapar de qualquer punição. O argumento de Wajngarten é que o responsável pelos contratos foi general Santa Cruz, que ocupou o seu cargo nos primeiros meses do governo Bolsonaro. Ele também aponta que, na sua gestão, os repasses de verbas para empresas de TV caíram (ainda que a Artplan, cliente da FW, tenha se tornado a empresa que mais recebe dinheiro da Secom).

Apoiando a tentativa de jogar o problema para os braços de quem está longe do Planalto estão o general Ramos e os filhos de Bolsonaro (que mantém simpatia por Wajngarten graças aos laços que ele construiu entre parte da comunidade judaica e Bolsonaro).

O chefe da Secom está louco para abafar de vez o caso antes da retomada dos trabalhos do legislativo e, assim, evitar uma CPI sobre o tema. Não custa lembrar: o Mensalão começou de forma semelhante e CPI todo mundo sabe como começa, mas não como termina.

Na volta a gente vende

Lembra quando Paulo Guedes afirmava que venderia até terreno na Lua se possível fosse? O blog lembra. Parece que foi ontem que o governo jurava ser absurdamente liberal na economia e pronto para fazer saldão de bens públicos.

Afinal de contas, privatizar empresa pública (e/ou suas subsidiárias) no Brasil não é muito complexo. Há inclusive lambança constitucional aprovada pelo STF que facilita o processo.

Outro target que o blog se lembra bem era o fim do déficit das contas públicas, que seria baseado em várias reformas e muita privatização. No caso das reformas, a única que já foi enviada para o Congresso e aprovada foi a da Previdência, que tem efeitos a médio e longo prazo. Já o saldão de bens públicos? Viverá mais uma narrativa do bem contra o mal, ao menos no que depender de Salim Mattar.

O secretário de vendas do governo federal foi ao Twitter dia desses avisar que vendeu uma casa reservada a ministros por R$ 10,8 milhões, reduzindo a meta de venda de ativos para um trilhão, novecentos e noventa e nove bilhões, novecentos e oitenta e nove milhões e duzentos mil reais. O valor adquirido pela venda do imóvel mal faz cócegas no déficit atual do governo, que beira R$ 100 bilhões.

Todas aquelas outras estatais que Mattar afirmou que privatizaria em 2019 (mas na verdade fará isso em 2020 ou 2021)? Aparentemente, não podem ser vendidas mesmo que Guedes desejasse. Afinal, o governo federal, órgão com a prerrogativa de enviar Projetos de Lei para o Congresso que alterem as leis existentes, não pode mudar as leis ordinárias em vigor. Ou pelo menos tentar isso enquanto se distrai colocando mais dinheiro em empresa pública.

Pobre coitado do secretário de Guedes, que está de mãos atadas diante da liberdade de fazer aquilo que o ministro prometeu fazer enquanto buscava apoio para chegar ao poder. O liberalismo do Ministério da Economia, ao que tudo indica, será tão duradouro quanto o tempo de ereção do público alvo do Boston Medical Group.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Até que o Moro não é tão ruim assim

No meio tempo em que não flerta com a cadeira de Jair Bolsonaro, Sergio Moro resolveu tentar abertamente uma vaguinha no STF. Há quem diga até que o juiz já disse ao presidente, enquanto faziam amor em um motel obscuro de Brasília, que ele deveria ser nomeado só para reduzir as dificuldades de Bolsonaro continuar no poder após 2022. Mas se Moro quer mesmo chegar lá, terá que fazer coisas que vão além do seu face lift.

Além do ex-juiz da Lava Jato, um dos nomes que já apareceram na imprensa como cotados ao cargo é Jorge de Oliveira. Também chamado de Jorginho, Oliveira tem 13 anos de formação em Direito e seis de OAB.

Se me prometerem uma nomeação que não envolva o Jorginho ou o Pato de Maricá, eu topo um impeachment a tempo da aposentadoria do próximo ministro. Só avisando.

Não me cutuca que eu te cutuco de volta

Enquanto o futuro partido do presidente utiliza imagens de Sergio Moro para divulgar a sua campanha de coleta de assinaturas de apoio à sua criação, o ministro da Justiça lançou uma lista com os criminosos mais procurados do país. Tem até miliciano na brincadeira.

Já o presidente Bolsonaro tuitou um texto de autoria do general Augusto Heleno em que o governo atual é visto como “o maior símbolo de combate à corrupção de que se tem notícia, nos 520 anos da história do Brasil“. Não muito tempo depois, Moro resolveu afirmar que o combate a corrupção “não é um projeto pessoal ou de governo, é um projeto de país“. Prioridades.

Moro deveria tomar mais cuidado caso queira ir para o STF. Em vez de cutucar o seu chefe, talvez seja interessante para o ministro manter o apoio da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef). A organização, ligada a Eduardo Bolsonaro, resolveu abrir uma consulta interna para avaliar a posição dos agentes de segurança pública sobre a criação de um ministério da Segurança Pública.

Pelo menos não é petista

Após o melhor pior Enem de todos os tempos e da última semana, as atenções dos jovens ficaram voltadas para as seleções do Sisu e do Prouni. Mas não para comemorar um aumento do número de pessoas em situação de vulnerabilidade social (ou pobres, como se diz aqui na terra do blog) nas universidades nacionais.

Mas antes de entender a sequência de desatinos que virou o Enem (e os processos de seleção que dele dependem), que teve até Lorenzony pedindo a Olavo de Carvalho a benção para ter o MEC, vamos ao recap sobre como chegamos até aqui:

  • assim que chegou ao poder, o governo Bolsonaro retirou todos os comunistas que passaram os últimos 20 anos executando o Enem dos seus cargos;
  • após isso, o Inep teve 4 diretores diferentes (e um longo período sem alguém ocupando a direção do órgão responsável pela prova, que é um dos maiores exames de acesso ao ensino superior do planeta).
  • além de perder os burocratas que já executavam a prova, o governo também ficou sem a gráfica responsável pelo exame nos últimos anos;
  • no seu lugar, entrou o segundo lugar no último edital, que não tinha experiência nesse tipo de serviço;
  • após a prova, o ministro foi ao Twitter informar que realizou o “melhor ENEM (sic) de todos os tempos“;
  • na hora de divulgar as notas, um grupo de alunos notou que a sua nota estava errada, algo que você pode ver o recap aqui;
  • o MEC negou que havia problema na correção das provas;
  • o MEC confirmou que houve um problema na correção das provas;
  • o MEC afirmou que as provas com problemas foram averiguadas e que o Sisu e o Prouni ocorreriam normalmente;
  • o Sisu e o Prouni não ocorreram normalmente.

Na segunda-feira (27) o MEC suspendeu as inscrições do Prouni. A justificativa era o bloqueio da exibição da nota do Sisu, que estava prevista para o mesmo dia. A proibição (da exibição das notas do Sisu) foi tomada na sexta-feira (24) pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região.

O juiz responsável pela medida solicitou ao MEC que apenas continuasse os processos de seleção após dar boas garantias de que os problemas encontrados tivessem sido solucionados. No dia seguinte, a medida foi revogada pelo Superior Tribunal de Justiça.

O MEC, porém, resolveu se adiantar ao STJ e publicar parte dos resultados extra-oficialmente na terça-feira (28). Procurado pelo O Globo, o ministério não informou por qual razão o vazamento ocorreu. Disse, porém, que os dados divulgados não correspondiam ao resultado final da seleção (correspondiam).

A segunda-feira também foi o dia em que a Defensoria Pública da União acionou a Justiça contra o ministro da Educação, Abraham Weintraub. O ministro, no final de semana anterior, atendeu ao pedido de um apoiador do governo e moveu os pauzinhos necessários para que a nota de sua filha fosse revisada. O mesmo ministro que, dias antes, bloqueou internauta não bolsonarista que cobrou uma boa gestão dos resultados do Enem. A acusação de violação do princípio de impessoalidade na administração pública é mais uma das várias que o governo já tinha recebido referentes à correção do Enem.

Na terça-feira, enquanto Weintraub conseguia manter um amplo apoio do governo, a Comissão de Ética emitiu uma advertência ao ministro. O motivo foi a comparação, em seu Twitter, dos ex-presidentes Lula e Dilma com substâncias entorpecentes.

No final da tarde de quarta-feira (29), a Folha de S. Paulo avisou que os resultados do Enem, um dos principais fatores que validam a prova como porta de entrada para as universidades brasileiras, não são confiáveis. Como o MEC não recalibrou os resultados de todos os estudantes após identificar as provas com problemas, os vestibulandos que tentaram a prova correm o risco de ficar com um resultado incorreto. O que não seria um problema grave se os vestibulares mais concorridos não fossem decididos nas casas decimais das notas de cada candidato.

Falando em resultados, a divulgação das notas não levou ao fim dos problemas de quem disputou o Sisu. Os candidatos, que já tinham enfrentado problemas na hora de fazer a seleção do curso, também lidaram com erros durante o cadastro nas listas de espera do exame. Um pobre coitado foi até parar em um curso que não tinha interesse.

Para quem teme que os casos ficarão sem penalização para os responsáveis (ou o responsável), pode ficar tranquilo. O presidente avisou no dia 28 que fará uma investigação para averiguar o que levou a tantos problemas. Seria interessante ver o governo evitando gastar outros R$ 48 milhões da União buscando um sabotador e direcionando as suas atenções para o responsável pela pasta da Educação. Quem sabe assim o real culpado não perde o cargo rapidamente.

Seguir as orientações de Rodrigo Maia pode ser uma ideia mais inteligente do que focar no que diz Eduardo Bolsonaro e a militância do governo. Não é a primeira vez que o presidente da Câmara acerta em suas falas. Não há investimento de longo prazo que dê certo em um país incapaz até de distribuir o número correto de vagas para candidatos com deficiência física durante o Sisu.

Desde que chegou ao poder, Weintraub gastou mais tempo fazendo gracinha no Twitter direcionado ódio ao pagador de impostos do que cuidando da pasta com um dos maiores orçamentos (e número de problemas) de Brasília. O ministro resolveu tratar a sua cadeira com a mesma mediocridade que tratou a sua vida acadêmica. O resultado, infelizmente, está afetando milhões de brasileiros (e não só o seu futuro) e complicará até mesmo a realização de conferências e as viagens de cientistas e pesquisadores brasileiros pelo mundo afora.

E os pesquisadores de humanas, claro. Pois é sempre um dia bom para ferrar com o pesquisador de humanas.

A resposta política chegará em breve. Nesta semana o Congresso voltou a trabalhar. A MP da carteirinha de estudante pode caducar por falta de articulação (ou boa vontade) dos parlamentares. No senado, já tem senador pedindo convocação de Weintraub, passo que também foi tomado por Tabata Amaral na Comissão de Educação. Se demorar muito, os políticos podem se unir e chamar o ministro para se explicar na frente do plenário.

O MEC vai precisar fazer um trabalho que vai muito além de um contrato de R$ 20 milhões para a nova assessoria de imprensa do órgão se quiser deixar de ouvir de Rodrigo Maia que o seu comandante representa a “bandeira do ódio”. Um caminho interessante seria mandar Weintraub de volta para São Paulo. Com sorte o nosso maior problema volta a ser a presença de criacionista na Capes.

O aspone mais caro do país

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, está se sagrando como o funcionário público mais inútil do país (e olha que a disputa é elevada). Até que a sua saída do cargo se torne uma realidade, o ministro terá como maior objetivo diário passar a mensagem presidencial ao Congresso e articular uma chapa para o poder executivo em sua terra natal. Ou voltar para a Câmara e retomar a sua posição de deputado irrelevante do baixo clero.

Onyx, após assumir a Casa Civil, já perdeu o Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) para a Economia, a articulação política e a Subchefia de Assuntos Jurídicos (SAJ). O Conselho da Amazônia também fugiu das suas mãos, sendo agora responsabilidade do vice-presidente, Hamilton Mourão.

Eu mencionei que o assessor de imprensa de Onyx também foi exonerado por Bolsonaro? Pois é.

O sulista pode se unir ao porta-voz da Presidência, o general Rêgo Barros, criar a SePone (Secretaria de Porra Nenhuma) e assim dedicarem os seus dias em Brasília à prática de gamão e bocha. Farão mais bem pelo país do que os esforçados ministros de outras áreas, como o do Meio Ambiente e o da Educação.


Eu escrevi e revisei este texto com a ajuda da Ninna. A língua é viva e você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #55: salto artístico na piscina do autoritarismo

Teste do pato, improbidade administrativa, ninhos de mafagafos e muito wishful thinking marcaram a última semana.

Vem comigo que eu te mostro (e não se esquece de compartilhar com aquela pessoa que você gosta).


The following takes place between jan-14 and jan-20


Secretaria de Comunicação e Improbidade Administrativa

A Folha de S. Paulo revelou que o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, pode ter cometido improbidade administrativa após entrar no cargo. Wajngarten recebeu, nos últimos meses, pagamentos de emissoras de TV e agências de publicidade por meio de uma empresa da qual ele é sócio, a FW Comunicação.

O conflito de interesses surge pelo fato de a Secom ser a área do governo que distribui todo o orçamento de propaganda do Planalto. Wajngarten ganhou o cargo em abril de 2019 e, desde então, tem aumentado a verba destinada para as emissoras amigas de Bolsonaro (enquanto reduz a de empresas de comunicação um pouco mais críticas).

As empresas, como apontou o jornal, tem contratos com o governo e com a FW comunicação. Uma delas, a agência de publicidade Artplan, recebeu R$ 70 milhões entre abril e dezembro de 2019. O valor é 36% maior do que o pago no mesmo período no ano anterior.

Além do aumento de verbas, Fabio Wajngarten teve 67 encontros oficiais com representantes e ex-clientes da sua empresa (após assumir o cargo). O transporte necessário para realizar pelo menos 20 reuniões foi custeado com dinheiro público. A matéria não revelou, porém, se o número dois da Secom, irmão do administrador da FW, participou das conversas.

Jair Bolsonaro e Wajngarten juram que não há nada de errado, mas a Comissão de Ética Pública da Presidência analisará as denúncias. O Ministério Público de Contas também entrou na brincadeira e fará uma revisão de verbas publicitárias do governo. No Legislativo, há gente pedindo a saída de Fabio Wajngarten da Secom.

No governo Dilma e no governo Lula, quando algo semelhante ocorreu, uma postura relativamente diferente foi adotada. Todo mundo teve que se afastar dos cargos que ocupavam na iniciativa privada. Muito provavelmente em função disso os aliados de Bolsonaro não conseguiram um parecer favorável ao chefe da Secom no TCU e na CGU.

As coisas na Venezuela estão ótimas

Enquanto não passava pano para o seu subordinado, Bolsonaro resolveu atacar, outra vez, de novo, novamente, a imprensa. Perguntado se sabia dos contratos assinados pela empresa de Wajngarten, respondeu com um presidencial “você está falando da tua mãe?”. Na mesma quinta-feira (16), o presidente já tinha dito que a Folha de S. Paulo “não tem moral para perguntar” sobre o caso e mandou uma repórter do jornal calar a boca.

Além de apontar que não estava no governo para fazer negócios, Wajngarten se defendeu afirmando que a matéria é absurda. Também cometeu gaslighting com a notícia, a chamando de desequilibrada, imparcial e injusta. No fim, deixou um recardo bombástico: “se determinados grupos de comunicação ou institutos de pesquisa tinham em mim a tentativa de construção de uma ponte de diálogo, essa ponte foi explodida hoje”.

A Secom, em nota, sugeriu que a Folha não está conformada com o sucesso (???) do governo Bolsonaro. Já o chefe de Wajngarten, o general Luiz Eduardo Ramos, afirmou que a notícia é “mais uma dessas maldades que se faz contra homens públicos“. Porém, há quem diga que ele se arrependeu da declaração pouco tempo depois.

Em 2019, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, o número de ofensas e tentativas de descredibilização subiu 54%. Mais de metade desse número veio direto do Planalto.

Não é de se assustar que as respostas tenham sido deste nível. Mas é de se assustar que alguém ainda diga que estamos vivendo a mais pura normalidade democrática.

Mexendo o pauzinho

Enquanto Wajngarten queima, Carlos Bolsonaro se articula. O Zero Dois estaria trabalhando para colocar o blogueiro e espalhador de notícias fantasiosas Allan dos Santos como secretário de Comunicação. Nada melhor do que criar um gabinete do ódio às claras e com o financiamento declarado no orçamento da União.

Garantindo o juiz das garantias

Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, deu mais seis meses para o juiz de garantias ser implementado. Ele também tornou a medida mais compacta: processos relativos à Lei Maria da Penha ou homicídios (que já têm as suas próprias regras) e ações da Justiça Eleitoral não precisarão do apoio de um magistrado.

O tema ainda será avaliado pelo plenário do Supremo. Enquanto novas mudanças não são feitas, o judiciário poderá aproveitar o tempo ganho para se preparar. Já bastam os nossos estudantes deixando tudo para a última hora.

O melhor pior Enem da história

Falando em estudantes, o melhor Enem da história, para variar, foi péssimo. Assim que os resultados saíram, um grupo de estudantes começou a relatar que a nota tinha tudo para estar errada. Apesar de terem acertado muitas questões do gabarito oficial, a nota de todos estava mais baixa do que o esperado.

Abraham Weintraub, o ministro da Educação, se fez de sonso o quanto pode. Postou video engraçadinho na internet e, inicialmente, afirmou que o problema na correção estava relacionado apenas a algumas provas feitas no segundo dia do exame. No dia seguinte, o MEC mudou a postura e afirmou que falhas no primeiro dia também seriam investigadas.

Para lidar com o problema, o calendário do Sisu foi ampliado (ainda que o Ministério Público Federal tenha solicitado a suspensão da abertura do processo seletivo até que tudo tenha sido realmente corrigido). Um e-mail foi criado para quem quisesse questionar a nota. O prazo para o envio das mensagens? Menos de 24 horas.

O ministério apontou que os problemas ocorreram por falha da gráfica responsável pela impressão das provas. Ela foi selecionada após a empresa que cuidou das provas pré-Bolsonaro falir. Ao que tudo indica, ter contratado alguém com zero experiência na área e ainda cometer uma série de presepadas ao longo do último ano não gera um bom resultado no final do dia.

O ministro poderia utilizar a lição e começar a fazer um trabalho mais eficaz. Ou ele pode, finalmente, sair do cargo. Vai que, em vez de um intelectual meia boca com ideias ruins, Bolsonaro resolve colocar alguém minimamente eficiente? Superar o status quo não é muito difícil.

Novamente tudo muito louco no ninho de mafagafo chamado DPVAT

A Folha de S. Paulo apontou que a seguradora Líder, que faz a cobrança do DPVAT, tem mutretas que vão além das citadas no post da última semana. A empresa realizou doações e atendeu a pedidos de políticos que podem ou não ter agido a favor de seus interesses.

Os parlamentares do PSB e do PSL foram responsáveis por suspender a CPI do DPVAT em 2016. Também recebeu dinheiro Andrea Neves, quando presidia o Servas. Os R$ 500 mil a ela repassados não tiveram o seu destino identificado, o que pode ou não indicar que criminhos ocorreram.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Que notícia ruim o ministério do Meio Ambiente trouxe essa semana

A área com alertas de desmatamento na Amazônia Legal aumentou 85,3% em 2019 em uma comparação com os dados do ano anterior. Os indicadores são do sistema Deter-B, que foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

O Núcleo obteve uma série de documentos que mostram o trabalho porco do Ministério do Meio Ambiente durante o desastre do vazamento de óleo no Nordeste em 2019.

A matéria mostra como o Ibama acompanhou o incidente, alertou a equipe de Salles sobre os problemas encontrados e avisou que, com o contingente reduzido, pouco poderia ser feito. As 450 páginas cobrem o descaso do ministro entre 2 de setembro e 4 de outubro.

A incapacidade do governo em colocar pessoas eficientes em cargos de confiança é quase tão incrível quanto o empenho de cada uma em ser péssima no que faz.

Wishful thinking liberal

O governo resolveu começar o ano brincando de liberalismo. Ou pelo menos tentando. O secretário especial de Desestatização, Desinvestimentos e Mercados do Ministério da Economia, Salim Mattar, anunciou que pretende arrecadar R$ 150 bilhões com a venda de ativos estatais.

Mais precisamente, 300 deles. Muitos dos quais já estão com a venda encaminhada desde os tempos de Michel Miguel. Parece um detalhe pequeno, mas não é, já que o governo tem tudo para acabar após aprovar os projetos do vampirão.

Sim, ativos. Pois este blog não cairá no canto de sereia de que a venda de subsidiária da Eletrobras (ou da Petrobras) é venda de estatal. Isso tem outro nome e está longe de ser privatização: é desinvestimento.

O mesmo vale para a venda de participações minoritárias em empresas (algo que aconteceu bastante nos governos Lula e Dilma por meio do FI-FGTS, da Caixa e do BB). Isso também não é privatizar (novamente, é desinvestimento). Mas o leitor pode ter certeza que o governo venderá para o bolsonarista este gato sarnento como se ele fosse lebre.

A agenda do governo também inclui 79 leilões em 2020. Há inclusive parcerias público-privadas para áreas como iluminação pública e tratamento de resíduos sólidos. O saneamento, que é básico, ficará em um único leilão.

Ficam de fora o Banco do Brasil, a Petrobras e a Caixa. Os Correios, talvez. Mais provavelmente ano que vem, quando o governo terminar a avaliação do projeto e decidir se vale a pena ou não deixar um monte de liberal de internet molhadinho.

Teste do pato

O que é que parece com um fascista, fala como um fascista e se porta como um fascista? Provavelmente o agora ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim.

Na noite do dia 16, Alvim publicou um vídeo em que ele resolveu anunciar o edital do Prêmio Nacional de Artes. O roteiro teve Wagner, cruz dupla na mesa e discurso de Joseph Goebbels sendo parafraseado.

Pegou mal.

Pegou muito mal.

Pegou tão mal que até o chefe do Olavismo Cultural fez de conta que não gostou.

Mas teve o apoio do governo. Horas antes, Alvim esteve em uma live com Jair Bolsonaro, na qual o presidente defendeu os filtros do edital e validou o ideal de cultura fascistoide de Alvim.

Pois não basta colocar todo mundo para ver secretário imitando nazifascista: também é importante ecoar e elogiar as suas ideias.

Alvim se defendeu afirmando que não queria ofender ninguém. Também que repudia qualquer regime totalitário (o que deixou Olavo de Carvalho muito triste). Faltou só fingir que não sabia o que estava fazendo.

Mas o fato é que a performance foi construída e ensaiada para ser aquilo que todo mundo disse que ela foi. Alvim sabia o que estava fazendo, acreditava no que estava falando e não se furtou a usar de forças demoníacas para imitar Joseph Goebbels. Até deixou isso registrado em e-mail.

O que só serviu para reforçar a ideia de que sim, o governo quer fazer uma política artística semelhante àquela adotada por Hitler. O “bombardeio de arte conservadora” tem que ser acompanhado de uma diplomacia nacionalista, revisionismo educacional e todo tipo de ideia reacionária que os rejeitados que governam o país escutarem de Olavo de Caralho.

E agora, José?

Entra no lugar (temporariamente) do cosplayer de Goebbels a atriz Regina Duarte. Ela fará um “período de teste” antes de decidir se ficará mesmo no cargo ou não. A Rede Globo, aliás, já deixou a atriz de aviso prévio. Os olavistas chiaram.

Enquanto isso, o Ministério Público Federal defendeu que os atos e nomeações (que incluem gente que gosta da Opus Dei e excluem funcionários de carreira críticos ao governo) feitos por Alvim sejam anulados. Uma ideia que, pelo menos até o final deste texto, não tinha se tornado realidade.

Mas podemos ficar tranquilos, pois está tudo normal por aqui.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #54: braço forte, desgraça amiga

A polêmica do sol, a polêmica da Aliança e a polêmica do gelo. Tudo isso e muito mais no post da semana.

Se você gostou (ou não), não se esquece de compartilhar o link por aí.


The following takes place between jan-07 and jan-13


Censura pela porta da frente, liberdade pela porta dos fundos

Eis que um belo dia (quarta-feira – 08), Benedicto Abicair, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, acordou de seus inquietos sonhos por um Brasil mais autocrático e resolveu “acalmar os ânimos” daqueles que ficaram muito ofendidos com o especial de Natal do Porta dos Fundos.

Abicair achou uma boa ideia censurar a obra e proibir a sua exibição na Netflix . Não satisfeito, também estipulou uma multa de R$ 150 mil para cada dia que o filme continuasse a ser exibido. Tudo isso com apoio do Ministério Público.

O “favor” que o desembargador fez à comunidade cristã e para a “sociedade brasileira, majoritariamente cristã” (sem que ninguém além da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura tivesse pedido) logo foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal.

O ministro Dias Toffoli (o mesmo que censurou a Revista Crusoé), num lapso de espírito democrático, lembrou que uma fé milenar não é abalada com um filmezinho. É muito bonito ver o ministro do Supremo defendendo a liberdade de expressão, mas não dá para dizer que ele fez algo além da sua obrigação.

Os católicos da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura, por outro lado, poderiam gastar o seu tempo se levantando contra os padres pedófilos que ainda estão na santíssima Igreja. Eu tenho certeza que eles fazem um trabalho muito mais eficiente para abalar a fé cristã do que um filme de humor.

O ninho de mafagafo chamado DPVAT

Falando no Dias Toffoli, o ministro aproveitou a semana para reverter uma liminar que ele mesmo deu e, com isso, garantir a redução do preço do DPVAT em 2020. Após a decisão, o governo resolveu atacar os mantenedores do seguro outra vez e tentar zerar a cobrança por até cinco anos.

Não será um gol fácil de ser marcado. A Seguradora Líder já avisou que não vai devolver a grana que o governo jura que ela recebeu a mais do contribuinte.

A justificativa do governo para zerar a cobrança é a seguinte: as seguradoras cobraram a mais no passado, o que permitiria o uso desse dinheiro, no presente, para pagar as indenizações. As seguradoras, por outro lado, se defendem falando que as cobranças administrativas são válidas e que o dinheiro é delas. A briga terminará na justiça, naturalmente.

Como bagunça pouca é bobagem, a Líder também terá que explicar alguns pagamentos identificados por uma auditoria que tem cara, cheiro e jeito de atividade imoral. Segundo os auditores, a seguradora pagou valores a pessoas próximas a ministros do STF, integrantes do governo federal e políticos. Os 21 pagamentos, com descrição não detalhada do tipo de serviço foi prestado, foram executados entre 2008 e 2017 e totalizam R$ 3,67 bilhões.

Errei, não nego, me arrependo quando puder

Esteves Colnago, assessor do ministro Paulo Guedes (da Economia) foi denunciado pelo Ministério Público Federal no último dia 9 junto com outras 28 pessoas. A acusação é de gestão temerária de fundos de pensão.

Para ser mais preciso, a acusação está relacionada ao Funcef (dos funcionários da Caixa Econômica Federal), o Petros (da Petrobras), o Previ (do Banco do Brasil) e o Valia (da Vale). O prejuízo total das operações? R$ 5,5 bilhões.

Os (péssimos) investimentos ocorreram entre 2011 e 2016. Os aportes que originaram a investigação foram feitos na Sete Brasil, empresa de construção de sondas de petróleo e que teve um péssimo destino após a Lava Jato revelar esquemas de corrupção da portaria até o almoxarifado.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o assessor não só disse que está tranquilo, como também que não se arrepende de nada. Já Guedes ficou bem triste: o ministro tinha marcado para anunciar a promoção do subalterno no mesmo dia em que o MPF colocou o nome do seu subalterno nas páginas policiais.

O que o ministro da Educação fez de meia boca nessa semana

O Fundeb vence no final do ano. A ideia genial do ministro da Educação para lidar com a renovação do fundo? Iniciar a tramitação de um novo projeto do zero.

Por que isso é um problema? Já há um texto base da PEC em discussão na Câmara desde 2015. A decisão foi tomada pois o governo não gostou da minuta apresentada pela relatora do projeto que já está em tramitação.

O Fundeb reúne impostos de estados e municípios e dinheiro da União para financiar o gasto mínimo que todos os entes devem ter com alunos das redes públicas. Para não dar nenhum ruim e o próximo ano ainda contar com o fundo, o MEC tem que trabalhar com os deputados para aprovar até o final do primeiro semestre. Depois não adianta chorar.

Em outros tópicos, a troca de comando do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), feita para manter mais dinheiro na mão do ministro Weintraub, deixou o pessoal da Câmara puto. Tomara que irrite bastante mesmo: tudo o que o país gostaria de ver é uma escalada de tensões e um recap de Cid Gomes na Câmara.

Eu mencionei que o MEC, por meio do FNDE, pretende descartar 2,9 milhões de livros didáticos? Pois é. As obras, que valem R$ 20 milhões, não foram entregues para as escolas e já estão desatualizadas. Com sorte, se transformarão em papel higiênico.

Considerando que o MEC está louco para fazer um edital de novos livros que sejam voltados para “livrar escolas de doutrinação“, era melhor manter os antigos em sala de aula. Não sendo tomada essa decisão, temos que torcer para que as novas edições apenas atendam ao desejo do presidente por leituras mais simples.

Todo mundo é comunista menos eu

O ministro da Educação, junto com o presidente, resolveu sair por aí falando que os concursos brasileiros são moldados para selecionar gente de esquerda.

Weintraub afirmou que o processo de reformulação de provas começou no governo de FHC e passou por todos os governos petistas. Tudo com o objetivo de aumentar o número de pessoas esquerdistas na máquina pública.

Weintraub e, de certa medida, o presidente, são dois profissionais que conseguiram cargos por concurso público. Um para dar aulas e produzir pesquisa de baixa qualidade. O outro para caçar confusão dentro de quartel. Seriam eles esquerdistas escondidos?

Renovou a mamata

Enquanto os concursos não são reformulados para promoverem o olavismo cultural em todas as esferas públicas, as nomeações de despreparados pelo governo seguem a toda força.

Sai do Ibama a responsável por analisar o impacto de produtos químicos sobre a fauna e a flora. Entra no ICMBio uma estudante de psicologia que passou os últimos anos trabalhando com vendas no interior mineiro.

Já no Iphan, o novo presidente graduou-se em Arquitetura e urbanismo pela UNI-BH em 2011. Antes disso, trabalhava acompanhando a mãe em projetos de restauro (segundo o próprio). No jornal O Globo, há a lista completa das supostas qualificações de Flávio de Paula Moura para o cargo.

A Casa Civil também está dentro da brincadeira. O novo chefe de gabinete é um pastor da Sara Nossa Terra. Ele é da mesma igreja que o ministro da pasta, Onyx Lorenzoni.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Deixando o bonde passar

O presidente Bolsonaro resolveu não passar tanta vergonha em 2020. Na quarta-feira (08), o Planalto anunciou que Jair não estará no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Apesar de ser um encontro que reúne todo tipo de líder empresarial e econômico do cenário mundial, Bolsonaro achou que o somatório de questões de segurança, política e economia não valia a viagem neste ano.

Isso não quer dizer que o Brasil ficará de fora do encontro. Guedes e outros empresários estarão na Suíça representando os interesses da nação. Todo mundo, junto com João Dória, ficou muito feliz de não ter que aguentar Bolsonaro em outro país.

Considerando que estamos falando de um presidente que fez uma live no Facebook para acompanhar o pronunciamento de Donald Trump na última semana. Considerando que, ao fim, ele resolveu criticar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por ter feito um bom trabalho de diplomacia. Considerando, por fim, que é o Bolsonaro, a escolha foi a melhor decisão que ele tomou em 2020.

Assinando o nome no trabalho alheio

É comum que políticos tentem tomar o mérito do trabalho alheio para si. FHC virou o homem do Real em cima do projeto feito por um monte de gente que, ao contrário dele, conhecia economia. Há petista por aí que até hoje jura que o Fies é uma obra do governo Lula.

Mas eis que o governo Bolsonaro optou por renovar o espírito de cara de pau e tomar os louros do trabalho alheio em uma escala inédita. E tudo isso em cima de algo que nem traz tanto voto assim: a nova estação de pesquisa Comandante Ferraz.

A estação é um conjunto de laboratórios de pesquisa com tecnologia de ponta cujo projeto iniciou-se em 2013. A iniciativa se deu após um incêndio que destruiu a base antiga em 2012. A construção, aliás, ainda precisa de alguns retoques para ter funcionamento completo.

Mesmo assim o ministro Marcos Pontes resolveu que seria uma boa ideia tratar como mérito do governo Bolsonaro o trabalho de todo mundo que esteve no governo nos últimos anos. O astronauta foi ao Twitter tentar vincular a abertura da base ao governo atual para ser prontamente corrigido por todo tipo de jornalista. Bem feito.

Uma esmola pelo amor de Deus

Falando em tomar o trabalho dos outros para si, Bolsonaro quer um programa social para chamar de seu. Ou melhor, um programa social para reformar, mudar o nome e aí sim falar é do seu governo. Tudo isso para ganhar algum apoio no nordeste que não seja de gente endinheirada.

As principais vítimas são o Minha Casa, Minha Vida, o Pronatec e o Bolsa Família. O primeiro apresenta atraso nos repasses e altíssima taxa de inadimplência entre os pagadores. O segundo tem resultados duvidosos. Já o terceiro foi enxugado no primeiro ano do governo.

Ao que tudo indica, pautas que sejam realmente focadas nos pobres ficarão para depois no governo Bolsonaro. No primeiro ano, o presidente gastou todo o seu tempo livre descobrindo o que era golden shower. No atual, pelo visto, estará se preparando para ser filiado a outro partido.

No terceiro e no quarto, só Deus sabe o que será da massa de miseráveis que depende do apoio governamental para conquistar a sua cidadania. Se a solução vier por meio das agendas de reforma tributária e administrativa, inclusive, é melhor sentar e esperar: assim como a cara resolução da fila do INSS, isso ficará para outro dia.

Segundo a Veja, o grande ministro da economia (e vendedor de terreno na Lua nas horas vagas) segue não avançando as discussões sobre essas pautas no prédio do seu ministério. Depois não adianta reclamar que o Maia está com protagonismo.

O espirito das luzes

O governo resolveu não taxar o sol. Ok, brincadeira. O governo resolveu não acabar com um subsídio regressivo para quem investia em energia solar e gerava mais eletricidade do que precisava para manter o seu negócio funcionando (ou a sua casa ligada).

Este é o caso de muito brasileiro de classe média. Mas é, também, de uma grande quantidade de empresas que se unem para aproveitar a possibilidade de lucrar mais. Então vamos corrigir o anúncio do começo deste tópico:

O governo resolveu manter uma política que já não se justificava em um caráter político e econômico e que, no final das contas, serve para transferir dinheiro de pobre para rico.

A brincadeira custará R$ 34 bilhões para todos os que não utilizam a energia solar. O populismo do governo recebeu parecer negativo de técnicos da equipe econômica (em vão). A justificativa do presidente para governar no feeling e não conforme os subordinados do Posto Ipiranga gostariam é que não intervir a favor do setor é fazer intervencionismo.

Aliança pelo trambique

A criação da Aliança do Brasil segue muito confusa e cheia de trambique. Após as confusões anunciadas na última semana, o Colégio Notarial do Brasil (CNB) resolveu apoiar a coleta de assinaturas para fundar o partido. A entidade representa 90% dos notários (a turma que cuida e trabalha com cartório) do país.

Além da taxa para reconhecimento de firma, os cartórios estão ganhando algo que vale muito mais do que barras de ouro (e dinheiro), que é o carinho do presidente. Só faltou combinar com o TSE, que nunca se manifestou a respeito do uso de estrutura privada para a criação de partido.

A advogada de Bolsonaro e representante jurídica do Aliança, Karina Kufa, resolveu brincar de Montesquieu. Questionada sobre a legalidade da ideia, avisou que “o que não está na lei não é proibido, não é?”. Tá errada? Não está.

Há procuradores do Ministério Público Federal que viram na ação a possibilidade de um processo por abuso econômico. Já o estatuto do Colégio Notarial afirma que a organização não pode fazer o que está sendo feito. Mais precisamente, que ‘é vedado ao CNB participar, apoiar ou difundir, ativa ou passivamente, quaisquer manifestações de caráter político”.

Pelo sim, pelo não, o CNB resolveu tirar do seu site todos os documentos que apoiavam a criação da Aliança do Brasil. Quem teme, talvez deve.

Desvio eleitoral padrão

O jornal O Globo descobriu que, segundo o TSE, o PSL perdeu 1.256 filiados após o presidente Jair Bolsonaro sair do país. O número é pequeno em comparação ao total de filiados (348 mil), mas representa um aumento de 4 vezes em comparação aos três meses anteriores ao levantamento.

O PSL, por outro lado, diz outra coisa. O partido afirmou que, na ausência do presidente, o número de registros foi reduzido em 750. O que não seria nada diante do suposto aumento de 15 mil filiados.

Tudo o que o Brasil precisa, agora, é ter que conferir mentira sobre quem tem o partido com o maior número de filiados.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #52: Deus está conosco, mas nos abandonou aqui

Vem que a semana foi curta de notícias. Teve atentado, números econômicos questionados e Moro sendo colocado no seu lugar.

Não se esquece de compartilhar depois de ler.


The following takes place between dec-24 and dec-30


Fogo no parquinho

Na madrugada de terça-feira (24), a sede da produtora do Porta dos Fundos foi alvo de um atentado terrorista. As câmeras pegaram três indivíduos lançando dois coquetéis molotov no imóvel.

Em vídeo, uns abobados se vincularam a um grupo integralista e assumiram a autoria do ataque. A polícia civil, porém, trata o caso como tentativa de homicídio e explosão. O motivo? O grupo citado no vídeo negou fazer parte da história.

No último ano, o blog (e outros veículos de mídia de maior destaque) foi responsável por montar uma triste coleção de ataques às liberdades no país. Aqueles que se dizem a favor deste valor, mas insistem que toda opinião tem a mesma validade, deveriam começar a rever os seus conceitos. Quando tratamos o incentivo de governantes ao obscurantismo e a barbárie como algo comum e válido, as chances de perdemos a nossa autonomia são altas.

A democracia é construída diariamente. Que em 2020 ninguém se esqueça disso.

Negging com a indústria nacional

Em 2020, Bolsonaro valorizará a indústria nacional. Na última semana, o presidente renovou a Cota de Tela, que reserva um número mínimo de salas de cinema para filmes nacionais. Mas não sem perder a oportunidade de fazer escárnio com os estudantes das belas artes.

Após o “up” para os produtores de Bacurau e outras grandes obras que só são bem apreciadas após 11 exibições, Jair foi às suas redes para desvalorizar a indústria nacional: disse que a cota será revista se o brasileirinho fizer bons filmes e que interessem a “população como um todo e não as minorias”.

2019 foi o ano que duas produções brasileiras ganharam prêmios inéditos no Festival de Cannes. A última semana também foi a que a esposa do presidente foi ao cinema ver Minha mãe é uma peça 3, filme que está faturando mais do que o último Star Wars.

Tratando apenas do que não é relevante

A nomeação de reitores, ao menos nos próximos meses, mudará. A MP 914, publicada na entradinha do Natal, criou uma nova regra de nomeação para os gestores de universidades públicas, institutos federais e o Colégio Pedro II. Agora:

  • o presidente poderá nomear qualquer uma das três pessoas que estiverem na lista tríplice indicada pela universidade (a tradição, até então, é de se nomear sempre o primeiro colocado);
  • a consulta para o nome do reitor será feita, preferencialmente, por meios eletrônicos;
  • o voto deixará de ser paritário nos locais em que assim se faz;
  • o reitor, que só poderá ser um professor que ocupa cargo efetivo na instituição, poderá escolher o vice-reitor e os diretores-gerais de cada campi.

O que não se está definido, porém, são os critérios para assegurar a integridade e confidencialidade dos processos de votação eletrônica — isso ficou para depois. Também não se decidiu se a MP terá apoio dos parlamentares para virar realidade (mas já encontra resistências no meio acadêmico). MPs tem prazo para serem votadas, o que pode muito bem reduzir o estrago causado por essa.

O que o governo não definiu, porém, é o projeto de lei para instituir o Future-se. Os parlamentares do Congresso estão até hoje sem saber exatamente como o Ministério da Educação pretende formalizar a iniciativa. Talvez o ministro esteja ocupado demais fazendo as próprias malas para pensar nisso.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Atenção concurseiro

Há algumas décadas uma nova Constituição foi escrita. Num buraco muito empoeirado dela, há uma parte que diz que funcionários públicos até tem estabilidade, mas isso depende: em caso de processo administrativo (regulamentação pendente), todo concurseiro pode ser convidado a se retirar.

Agora, no finalzinho de 2019, o governo lembrou-se desse detalhe e resolveu ir atrás dos meios necessários para demitir funcionário com baixo desempenho. A ideia é colocar, no pacote da reforma administrativa, a regulamentação necessária para avaliar e punir quem não trabalhar direito. Tudo isso tomando os cuidados para evitar acusações de perseguição política.

Há dois caminhos possíveis para isso ser feito. Um é apenas regulamentar o artigo da Constituição sobre demissão após processo administrativo (muito difícil de acontecer, mas possível). Outro é alterar a Carta e, assim, restringir as mudanças apenas para os novos servidores (quase impossível de acontecer).

2020 é ano de eleição municipal e muito candidato dependerá de apoio dos deputados para serem eleitos. 2020 será um ano animado.

Fica aí no seu lugar

O pacote anticrime finalmente entrou em vigor. Após todo o legítimo processo democrático de mudanças, o projeto apresentado pelo ministro da Justiça foi sancionado com 22 vetos. Saíram do texto original pontos como o excludente de licitude e ficaram itens novos, como o juiz de garantias.

Moro, acostumado a mandar e desmandar, resolveu agradecer a votação a favor com uma reclamação. Disse que não era o resultado dos sonhos e que o juiz de garantias não deveria estar lá. Deveria ter conversado mais com o seu chefe.

O que o ministro não mencionou na sua reclamação (que foi apenas uma no ciclo de butthurt dos lavajatistas de internet e entidades que também reclamaram da nova lei contra abuso de autoridade) é que a ação de Bolsonaro pode ajudar o próprio filho. Quem poderia imaginar que o presidente utilizaria o poder público, mais uma vez, para beneficiar a própria família e cercear o poder de ação do magistrado “linha dura” que cuida do caso do filho, não é mesmo!!!!!

Marco Aurélio Mello, porém, avisa que, se foi este o motivo de o presidente apoiar a mudança, ele pode dar com os burros n’água. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) lembrou que à Folha de S. Paulo que “a lei é editada para viger para o futuro e não retroativamente‘. Aliás, a maioria do Supremo (mas não todo mundo) é a favor da medida.

O fato é que não se sabe ao certo, até o momento, como o tal “juiz de instrução e também das garantias” será implementado. A mudança foi feita aos 45 do segundo tempo e já há gente por aí se movimentando contra ela no Senado. Não será um susto, portanto, se os senadores alegarem que a nova norma não está alinhada com a Lei de Responsabilidade Fiscal.


Eu escrevi e revisei (de jejum) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #50: os soldadinhos de chumbo do presidente

Pacote anti-crime aprovado sem as loucuras do Moro, ministros não sabendo da liturgia do próprio cargo e o país passando vergonha lá fora (outra vez). Não se esquece de mandar o link para o seu tio bolsominion. 


The following takes place between dec. 10 and dec. 17 


Desidratação do bem 

Na terça-feira (10), o pacote anti-crime foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Votado no dia seguinte em plenário, o texto foi para sansão presidencial. 

Boa parte das maluquices do ex-juiz Sergio Moro foram tiradas do texto por deputados e senadores com alguma ideia decente na cabeça. Saíram itens como a licença para matar (ou excludente de licitude, para os mais íntimos) e o acordo de “plea bargain”. As mudanças foram possíveis graças a articulações de parlamentares como Marcelo Freixo, que se destaca entre às esquerdas como uma das poucas pessoas daquele lado que é vista lutando pela segurança pública. 

E que também não perde tempo posando bonito para a foto em tempos de grande autoritarismo. 

Em uma entrevista dada para a Folha de S. Paulo, o ministro jurou que, se tivesse sido aprovada, a licença para matar não seria aplicável a casos como o da menina Ágatha. Afinal, o Brasil é um país em que nenhum PM mente sobre as suas ações quando dá ruim para tentar sair impune. Ou que mata até mesmo a memória de catador de lixo que tenta salvar gente inocente

Moro espera que o presidente vete os pontos que ele não gosta, como o do juiz de garantias (basicamente alguém que poderá impedir mais pessoas de apresentarem um comportamento pouco ético). O que é uma ótima estratégia, pois ajuda Bolsonaro a manter o seu discurso de que “o sistema é foda” e impede o presidente fazer o que deseja (mas não necessariamente é a vontade da maioria da população). 

Agora a mira dos lavajatistas de plantão é a prisão após a condenação em segunda instância, que deve ser votada só ano que vem. O Nexo explicou direitinho esse imbróglio

⬆️ gente que não deveria ter entrado 

O jornalista Sérgio Camargo foi removido da presidência da Fundação Cultural Palmares após determinação de um juiz federal do Ceará. O governo federal publicou a sua saída da instituição no Diário Oficial da União no final da quarta-feira (11). A instituição, que promove a cultura afro-brasileira e a luta contra o racismo deixou, até segunda ordem, de ter um presidente que é contra os movimentos que promovem a cultura afro-brasileira e a luta contra o racismo. 

Quem também perdeu direito a ocupar uma sala de direção no serviço público foi Luciana Rocha Feres. Ela ficou na presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por tão pouco tempo que faltou hora vaga para o estagiário procurar os podres da pobre coitada. Fica pra próxima. 

É básico 

A Câmara finalmente aprovou o novo marco regulatório do saneamento básico brasileiro. O texto, que agora abre espaço para a disputa pelo fornecimento de esgoto por empresas privadas – mas não obriga ninguém a contratá-las :( – é um grande avanço para o país. Pelo menos na opinião deste modesto blog. 

Os números de saneamento do nosso país são execráveis. Há lugar em que é mais fácil encontrar esgoto a céu aberto do que árvore na rua. As mudanças no modelo atual, portanto, são mais que bem vindas. Quem sabe agora a gente não consegue fazer aquilo que é básico. 

Em notas relacionadas, a oposição das esquerdas ao projeto foi um show de horrores. Os partidos que mais se prejudicam e criticam fake news em 2018 não perderam a oportunidade de utilizarem argumentos que não correspondiam ao texto em votação

Não adianta fazer troça do tio do Whatsapp se você gasta microfone da Câmara afirmando que um projeto obriga alguém a fazer algo que não virará obrigação após a publicação no Diário Oficial da União. 

Seria bom, por sinal, que as esquerdas explicassem de onde sairia o dinheiro para a universalização no caso de manutenção do modelo atual. Sempre considerando, é calro, que ele mal garante acesso a um bom sistema de esgoto para metade da população. Melhor do que sair por aí mentindo na cara dura. 

Ícaro tombou 

A juíza Selma, senadora pelo Mato Grosso que é apelidada como “Moro de saias”, caiu por cometer criminhos. O Tribunal Superior Eleitoral anunciou que o seu mandato está cassado por abuso de poder econômico e uso de caixa dois durante a sua campanha. 

Apesar de haver espaço para recursos, a senadora deve se afastar imediatamente do cargo. Os suplentes também se deram mal, já que não terão direito ao mandato. Ficará com a vaga o mais votado nas eleições que serão realizadas em breve no Mato Grosso. 

O advogado da juíza jura que ela está sendo condenada por ser uma ótima magistrada. O TSE, por outro lado, não tem dúvidas de que ela e os seus suplentes cometeram criminhos. 

A juíza deveria acreditar mais no poder do qual ela fez parte por tantos anos. Também cai bem não saí por aí dizendo que combate a corrupção e depois, quando é condenada por práticas ilegais, utilizar o mesmo discurso de sempre de quem é pego com as calças arriadas. Um pouco de originalidade não custa nada. 

A volta dos que não foram

A Lava Jato não morreu. A operação deflagrou nova etapa, dessa vez tendo como alvo o filho do ex-presidente Lula, Fábio Luis. Segundo os operadores do direito, Fábio recebeu dinheiro da Oi e utilizou a verba na compra do sítio em Atibaia mais famoso do país. Como agradecimento, o governo federal teria repassado benefícios financeiros à operadora. 

Há, porém, um pequeno problema nessa história. A princípio, por ser uma investigação que já aconteceu em São Paulo e não deu em nada. Depois, por ser algo que não se refere diretamente a delitos que passam pela Petrobras, que é o que trata a Vara Federal de Curitiba. Detalhes. 

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o ex-governador Sérgio Cabral assinou um acordo de delação premiada para a alegria de editores de jornais e revistas de todo o país. Junto com o acordo, vem a promessa de devolver R$ 380 milhões em propina (que ele já devolveu) e denunciar até mesmo ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Tribunal de Contas da União (TCU) e procuradores do MP-RJ. 

O acordo recebeu parecer negativo da Procuradoria Geral da República que não perdeu a chance de lembrar que o próprio Ministério Público Federal do Rio já tinha negado ao político uma chance de delatar quem ele quisesse. O que é justificável, tendo em vista que a essa altura do campeonato Sergio Cabral só não foi condenado pelas balinhas que ele deve ter roubado na vendinha da escola em que cursou o ensino médio. 

Em notas definitivamente relacionadas, 81% dos brasileiros acham, segundo o Data Folha, que a operação deve continuar. O dado mostra que, após mais de 60 etapas, os procuradores conseguiram manipular a mídia e o imaginário social de tal maneira que eles se tornaram, de fato, o sinônimo de combate a problemas na gestão da coisa pública. 

O trabalho, porém, não conseguiu fazer com que o agora ministro Sergio Moro passasse imagem semelhante para o governo federal. Metade dos entrevistados acham que o governo é péssimo ou ruim no combate à corrupção

Pelo visto, o brasileirinho ficará satisfeito apenas quando a operação virar uma verdadeira Inquisição Espanhola, sempre ponta para surgir das sombras para atacar os mais desavisados com suspeitas e acusações de todo tipo. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Vá com Deus 

O Estado de S. Paulo apurou que no prédio do ministério da Educação as caixas de mudanças estão cheias. O ministro Weintraub se prepara para não voltar ao cargo que hoje, infelizmente ocupa, após o fim de suas férias. Uma boa parte dos assessores já estão com o status de desempregado no LinkedIn, faltando apenas a vez dele ser confirmada. 

O ministro deve sair, principalmente, por pressões da equipe econômica. Para eles, Weintraub (que é cria de Guedes e não do Olavo de Carvalho) causa problemas demais e atrapalha o governo enquanto faz cosplay de Gene Kelly no Twitter. 

Weintraub entrou com força e vontade na luta para ser o pior ministro da Educação da nossa história recente e conseguiu o troféu com mérito. Atacou todo o sistema de ensino público e privado, de professores a tias da merenda. Mentiu, repetiu a mentira e quando acusado de mentir, fez-se de sonso e continuou na sua luta pela divulgação de novas mentiras. 

Nos seus meses à frente do cargo, Weintraub não conseguiu (ou sequer tentou) articular com as organizações do terceiro setor que trabalham com a luta por uma educação melhor. Tão menos se articulou com os profissionais do próprio governo para colocar em prática alguma ideia que fosse além do Future-se. O Fundeb, aliás, corre o mesmo risco que o Enem teve de não sair nesse ano. 

Na sua última passagem pela Comissão de Educação da Câmara, o discurso foi tão raso que até mesmo deputados que normalmente fariam vista grossa aos seus descalabros não deixaram de criticá-lo. Infelizmente, porém, ainda falta algum tutano para quem critica o ministro. Mas a torcida é forte para que Weintraub pegue logo o beco e vá falar absurdos em outros lugares do país. 

O seu saldo final será digno de vergonha. O ministro passou mais tempo alimentando militante bolsonarista na internet do que garantir que a educação melhorasse. Liberou dinheiro para as instituições vinculadas ao MEC apenas quando era tarde demais para qualquer centavo ser gasto e esqueceu de falar como será implementado um novo programa de alfabetização. 

Assim como o seu antecessor, não fará falta. 

Vem de zap 

Os caminhoneiros ainda tentam fazer a gente sentir saudades de quando o PIB nacional era movido por trens. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, já teria impedido sete tentativas de greves da categoria. E só negocia com quem tem feito ameaça de greve

Aliás, uma nova mobilização a favor de greve fracassou no começo da semana por falta de participantes. Os líderes das greves durante o governo Temer estavam ocupados limpando a bota do governo com a glote. Já os que tinham outras preocupações se irritaram demais com os discursos da CUT favoráveis ao movimento

O Brasil de hoje seria muito menos horrível se, no Brasil de ontem, JK não tivesse sido um desenvolvimentista carrocrata. 

Na volta a gente compra 

Não faz muito tempo que o governo começou a pensar em mudar o Bolsa Família e dar um caráter mais social à gestão atual. Começou com a promessa de um 13º que só foi garantido para 2019 após a Folha de S. Paulo apontar que o benefício corria o risco de não virar realidade. Já no começo do mês, os auxiliares do presidente resolveram criar um Bolsa Família para chamar de seu. 

Era um projeto simples. Aumentar a faixa etária de beneficiários para quem tivesse até 21 anos de idade. Se a casa contasse com um bebê de até 3 anos, o benefício aumentaria. Só faltava descobrir como a conta seria paga. 

Ao que tudo indica, ninguém descobriu o mapa da mina. Alegando falta de recursos (que até existem, mas foram consumidos pelas propostas de parlamentares que não fazem o tal do “toma-lá, dá-cá”), o Planalto resolveu guardar o projeto em uma gaveta. Ainda bem que ninguém tem que defender o governo em eleição municipal, não é mesmo? 

Não fazendo mais do que a obrigação 

Após mais uma semana com informações de que a PM fez o que faz de melhor (autoritarismo pra cima de pobre indefeso), João Dória resolveu brincar de político de centro liberal outra vez. O tucano afastou os 38 PMs que participavam da operação em Paraisópolis que não teve coordenador e só serviu para trazer mais desgraça para a história da favela. 

A resposta não só veio tarde demais, como também mostra de novo, novamente, mais uma vez, que de centrista e liberal o governador tucano não tem nada. Dória só agiu a favor dos mortos de Paraisópolis quando uma avalanche de vídeos, relatórios do Instituto Médico Legal e testemunhos apontaram que a PM paulista fez o que ela se tornou famosa por fazer, que é truculência com preto, pobre e favelado de dia (e professores públicos após o sol se por). 

Não é como se o paulistano estivesse precisando de motivos para apoiar Dória. Moradores de São Paulo desconhecem combinações de números de votação que não comecem com 4 e 5 desde o começo da década de 1990. Agora, se o desejo é se mostrar diferente de Bolsonaro, ele seguirá falhando miseravelmente enquanto aperta novos pregos no caixão do Partido da Social Democracia Brasileira. 

Não fazendo sequer a obrigação 

A 25ª edição da COP 25, que ocorreu em Madri, acabou no último domingo (15) com gostinho amargo. A conferência do clima era um dos poucos lugares no ambiente internacional em que o Brasil podia falar grosso com todo mundo. Afinal, éramos um exemplo de país que, apesar dos pesares, conseguia manter boas políticas de preservação do clima e projetos com foco sustentável. 

Não mais

O ministro da área, Ricardo Salles, foi para a COP sem propostas significativas, querendo pedir dinheiro onde não havia espaço para mendigar recursos (que o país jogou fora no passado recente) e um desejo imbatível de lutar contra tudo e contra todos. Quando não estava sendo cobrado pelos péssimos resultados que apresentou nos últimos meses, tentava passar a perna nos outros países durante as negociações da regulamentação do mercado de créditos de carbono

O governo que achou ruim que o documento final da conferência apontasse o óbvio (que oceanos e o uso da terra influenciam no clima). Tratou toda a COP-25 como um grande “jogo comercial”. Não à toa, teve como maior vitória poder levar dois prêmios “Fóssil do dia” para casa. 

Os absurdos que Bolsonaro falou nesta semana 

Em um discurso para prefeitos, o presidente afirmou, na quinta-feira (12) que colocará todos os ministros e integrantes de equipes ministeriais envolvidos em corrupção em um “pau de arara”

Sem brincadeira. O presidente mandou um “se aparecer [corrupção], boto no pau de arara o ministro” como quem pede uma garrafa d’água. 

O presidente também disse que Paulo Freire, declarado patrono da educação nacional em 2012, era um energúmeno. Também falou que a programação da TV escola deseduca e que investir na empresa, que tem um grande papel na entrega de material de qualidade para professores de todo o país, é jogar dinheiro no lixo. Parece até que ele se referia à ideia de passar revisionismo histórico conservador na telinha. 

O ataque, que certamente não está relacionado com as críticas contra a tentativa do governo de passar Olavo de Carvalho no canal, deu certo. O ministro da Educação encerrou o contrato com a associação responsável pela gestão da TV e mandou todo mundo sair do seu prédio. 

O tripé da moderação tem uma perna só 

Tornou-se comum dizer há uns meses que o governo tinha três pés de sustentação. O olavismo cultural, o liberalismo de Paulo Guedes e a moralidade de Sergio Moro. Hoje, passados quase 12 meses completos de muita aventura e arrombo autoritário, é difícil ver que algum analista estava certo ao afirmar que Guedes e o ex-juiz são tão diferentes assim do maníaco por ditaduras. 

Semana sim, semana também, há um ministro disputando o posto de melhor lambida de bota na imprensa. O liberal ministro da economia não perde a chance de avisar que, se for às ruas, o povo corre o risco de ouvir gritos por um novo AI-5. Trata a democracia como um pequeno detalhe do receituário do liberalismo clássico e insiste na (burra) ideia de que as liberdades podem caminhar em separado se a economia estiver mais aberta aos seus interesses. 

Moro, vendo que as chances de ir para o STF são nulas, resolveu mostrar a sua face autoritária para galgar o apoio do chefinho e se tornar candidato a vice em 2022. Tem se tornada notória, nas últimas semanas, a escalda do discurso autoritário do juiz. 

Travestido de um belo combate à corrupção (de quem não faz parte do governo e de sua base), o ministro atribui ao STF (!) a má avaliação do seu trabalho enquanto pessoa que trabalha contra criminhos. Ignora, porém, que a maior parte dos brasileiros não se importam de ver Lula livre. Até acham justo

boquinha fina com maior síndrome de doutor do país também não perde a chance de posar para a internet sendo subserviente ao governo. Ataca a imprensa quando ela não faz vista grossa para as suas ações e ignora completamente a liturgia do seu cargo. Trata as salas do ministério que ocupa como se fosse a sua casa. Mostra que, assim como Guedes, de democrático e moderado não tem nada. 

Moro deveria estudar melhor a Constituição que jurou um dia defender, frequentar umas aulas de teoria democrática na UNB e, depois, sair da vida pública e pescar no pantanal. Assim como o ministro da Educação, sua ausência não será sentida por ninguém que valoriza a democracia liberal. 


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Eu escrevi este texto e revisei ele sozinho e com fome. Apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #20: a ópera do fascista

The following takes place between may-14 and may-20.


A utilidade dos idiotas úteis 

Estudantes, professores e pessoas que não são de esquerda tomaram as ruas do país na quarta-feira (15) para protestar contra os cortes na educação. A primeira grande manifestação de rua contra o governo de Jair Messias aconteceu no mesmo dia em que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, compareceu ao plenário da Câmara para explicar o contingenciamento de verbas. 

Apenas o partido do presidente e sua linha auxiliar, digo, o Novo (mas se quiser chamar de PSOL de direita, pode), votaram contra a convocação. No mesmo dia, o plenário declarou obstrução a votação das MPs enviadas pelo Planalto. Mas como um governo conseguiu perder de maneira tão vergonhosa a luta contra uma manobra iniciada pela oposição? 

Parlamentares, incluindo aí os líderes de Patriota, Novo, Cidadania (ex-PPS), PSC, PSL e do governo, afirmaram, na tarde de terça (14), que o presidente teria ligado para o ministro da Educação e ordenado a suspensão dos cortes na área. Assim que a ordem tivesse sido dada, um irritado Onyx Lorenzoni teria entrado na sala do gabinete presidencial para conversar com Jair Bolsonaro em particular. 

Até aí, tudo bem. 

Acontece que Bolsonaro não pode sustar um contingenciamento pelo telefone, afinal de contas, ele já foi determinado pelo Ministério da Economia. O que restou aos líderes? Serem desmentidos em praça pública

A Casa Civil disse que a informação não procedia. O Ministério da Economia informou que “não houve nenhum pedido por parte da Presidência da República para que seja revisto contingenciamento de qualquer ministério”. Joice Plagelmann chamou a declaração de “boato barato”. 

Os políticos, obviamente, não gostaram

Houve gente afirmando que não era mentirosa, cega, surda ou muda. Dobraram a aposta, reforçaram que o presidente fez a ligação para o ministro e alertaram: o governo pagaria caro pela mentira

Em sua apresentação inicial, o ministro da Educação errou dados, tratou de modo incorreto indicadores e tentou cobrir de tecnicismo o seu revanchismo ideológico. Perguntou se os deputados sabem o que é uma carteira de trabalho, disse que o dinheiro acabou, defendeu que o governo desse um salário mínimo para alunos de licenciaturas com notas altas no Enem. 

Partidos de diferentes partes do espectro político aproveitaram a oportunidade para humilhar mais um ministro da educação de Bolsonaro. Chamaram Weintraub de “debochado” e “covarde”. 

Houve político apoiador do governo reclamando que, os políticos, no lugar em que se faz política, estavam fazendo política ao discutir as ações políticas em uma sessão criada com motivações políticas. O destaque do blog vai para a deputada comunista e portadora de grelo duro Jandira Feghali, que, relembrando a fala do ministro em um evento de direita, perguntou se ela merece levar tiro na cara como qualquer pessoa que acredita no fim do capitalismo. 

O ministro da Educação, assim como o seu antecessor, é um ignorante por não ter os conhecimentos para o cargo que ocupa. É um ressentido, por utilizar o poder como forma de se vingar da academia que não permitiu que ele alçasse voos mais altos do que as suas asas o permitiam. A prova máxima de que terapia é algo importante e capaz de evitar estragos que afetam milhões

Enquanto o ministro pagava caro pela mentira no plenário, nas ruas do país multidões promoveram a balbúrdia contra Weintraub. O que se viu nas imagens de todas as capitais e 200 outras cidades era a prova de que a estratégia adotada pelo governo deu mais errado do que o esperado. 

As camisas utilizadas pelo “pessoalzinho” que ficou sem dinheiro não tinham estampas apenas do PCO ou da campanha Lula Livre. Elas estavam coloridas com diferentes cores e mostravam algo inédito: nunca um presidente colocou tanta oposição na rua com tamanhna velocidade em seu primeiro ano no poder. 

Resta saber agora o que cai mais rápido: Bolsonaro, o índice Bovespa ou o ministro da Educação. 

Tudo pequenininho aí? 

Não é só o mercado que está reduzindo as previsões de crescimento do PIB. O governo confirmou, na terça-feira (14), que a sua previsão foi reajustada de 2% para 1,5%. Quem poderia imaginar que a economia não cresce na base de tweet raivoso, não é mesmo? 

001 e o homem que lavava dinheiro demais 

A semana não começou muito bem para o senador Flávio Bolsonaro. Tão menos terminou digna de sorrisos. 

Na segunda-feira (13), soubemos que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) autorizou a quebra do sigilo fiscal do filho do presidente e do ex-policial militar Fabrício Queiroz em 24 de abril. Também terão as contas vasculhadas a mulher de Flávio, a empresa de ambos, a mulher de Queiroz, as suas duas filhas e outras 90 pessoas e empresas. O pedido foi realizado pelo Ministério Público do Rio, que também afirmou que Flávio tentou, algumas vezes, interromper as investigações

Flávio, que deve ter visto alguns vídeos de discursos do ex-presidente Lula, afirmou que as investigações são ilegais e que devem ser anuladas. Falhou, porém, em justificar as movimentações bancárias em suas contas bancáriasLágrimas jamais provaram a inocência de alguém. 

Segundo informações da revista Veja, o senador movimentou uma quantia milionária com a compra e venda de imóveis entre 2010 e 2017. O processo lembra uma das práticas básicas de um dos manuais de lavagem de dinheiro utilizados por mafiosos e outros tipos de criminosos: a compra de algo por um valor abaixo do preço de mercado e a sua revenda superfaturada. 

Mas que fique claro: o blog não acredita que Flávio seja um mafioso. Ainda que os Bolsonaros tenham mantido os seus negócios estranhos em família, beijado filho de criminoso, tirado foto com bands, morado ao lado de miliciano e ganhado voto em área dominada por assassinos, falta inteligência ao clã para serem batizados de Corleones brasileiros. 

Você tem um minuto para ouvir a palavra do bolsonarismo cultural? 

Como não existem problemas em sua família ou mesmo no seu governo, Bolsonaro foi passear. Dessa vez, no Texas. 

Após ter todas as portas fechadas em Nova York, Jair e a sua trupe fizeram turismo com o dinheiro público em uma cidade de baixa relevância para receber o prêmio de Personalidade do Ano concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. O prefeito da cidade, assim como o de Nova York, ignorou a visita

Sobrou para o ex-presidente George W. Bush. Sem aviso prévio, a comitiva de brasileiros bateu na porta do republicano para um chá. Ele não teve a sorte de Mike Pompeo, que conseguiu fugir de Bolsonaro em Nova York e no Texas

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Falta um chá de camomila ao presidente 

Jair Bolsonaro está muito irritado. Nos EUA, quando questionado sobre os protestos, Bolsonaro afirmou que os manifestantes eram “idiotas úteis, uns imbecis” e “massa de manobra”, que não sabem a fórmula da água. Sobrou até para uma repórter da Folha de S.Paulo

Ao ser questionado sobre as investigações que atingem o seu filho, afirmou que estavam realizando um “esculacho” em cima do anjo sem asas que bate ponto no Senado. Disse, também, que se quisessem atingi-lo, deveriam partir para cima do homem de 75 kg. 

Cabe ao presidente um chá de camomila, uma amitriptilina ou até mesmo um cigarrinho do capeta. Ou dormir mais. Estresse prejudica a expectativa de vida de qualquer pessoa e, bem, não queremos o presidente abandonando o cargo por uma morte precoce (mas por outros motivos, pode).

A terceira guerra mundial será tributada 

Na última semana, EUA e China deram uma nova escalada a sua guerra tarifária. Beijing anunciou as suas intenções de impor tributos em até US$ 60 bilhões de produtos que são importados dos EUA pelo país. Na sexta-feira (10), Trump já tinha anunciado um aumento de impostos em até US$ 200 bilhões de produtos. 

O bate-boca entre o não liberal Donald Trump e o iliberal governo chinês começou com o presidente americano reclamando do déficit na balança comercial entre os dois países. Washington também acusa a China de obrigar qualquer empresa que atue no país a realizar transferência de tecnologia – algo que Beijing nega. 

Sobrou até para a fabricante de tecnologia móvel Huawei. Empresas americanas como Google e Intel começaram a segunda-feira anunciando o fim das relações com a companhia responsável pela maior parte da infraestrutura de 5G brasileira e europeia (e uma das maiores fabricantes de telefones do mundo). 

O golpe veio no mês em que os telefones da marca são lançados no Brasil, o novo mercado em que a companhia pretende atuar. O Henrique Martin, do Ztop e da ótima newsletter Interfaces, explica melhor o que houve

A guerra tributária entre os dois países já fez o FMI diminuir a previsão do PIB mundial três vezes. Sem uma resolução clara a vista, o banco prevê o pior crescimento desde 2009: 3,3% de aumento. 

O Brasil pode, a princípio, se beneficiar. Em alguns mercados, competimos com a economia americana com igual nível de qualidade. Mas, quando consideramos o papel que a China tem para o mercado mundial, é impossível negar que a nação asiática pode foder com todo mundo rapidamente. 

O tiozão do Power Point moderno acha que é Ciro II 

O governo Bolsonaro diminuiu o horizonte de expectativas do brasileiro para o dia seguinte. Dormimos à espera não de um futuro próspero, mas sim do absurdo antidemocrático que estará nas capas dos jornais ao acordarmos. 

Nas suas redes sociais, Jair Bolsonaro compartilhou um vídeo em que um pastor afirma que o presidente foi “escolhido por Deus”. Um Ciro II, como dizem ser Donald Trump. “Não existe teoria da conspiração” (nesse caso) para o presidente. Há, porém, uma “mudança de paradigma na política”. 

O blog concorda. Fomos de uma política pouco institucional, mas funcional (e que permitia avanços lentos e graduais), para uma política nem um pouco institucional ou funcional. Jair Bolsonaro está, dia após dia, brigando contra as bases da nossa República e destruindo qualquer apoio ao seu governo. 

O presidente começou o ano com pouco mais de 1,83m de altura. Cinco meses depois, se encolhe ao compartilhar, no Whatsapp, um texto que trata o país como “ingovernável” fora dos “conchavos políticos”. Criticado, o presidente fez de conta que o filho feio não tinha pai

Enquanto passam o tempo se divertindo no telefone, os bolsolavetes distribuem o que seria de sua responsabilidade a ministros e líderes de outros poderes. Esperam, com suas pernas cruzadas (de um modo hétero, que fique claro), que o Congresso aprove as ideias do Planalto sem negociar ou votar contra. Da mesma maneira, se assustam quando há discordância na sociedade civil. 

Quem poderia imaginar que na democracia liberal há pluralidade de pensamento, não é mesmo? 

A Nova Era tanto forçou que recuperou a Teoria da Ferradura. Os militantes do bolsolavismo se comportam como os membros de um movimento estudantil liderado por gente do PCR: para não ser vítima de expurgo, é necessário sempre seguir o grande líder de maneira acrítica e servil. Aos que exercerem a menor oposição, a fogueira. 

Em meio a paranoias, promoção de hashtag com erro de português e autoritarismo, os templários brasileiros jogam um jogo em que todos os resultados os levam à vitória. Se o Brasil terminar de afundar, a culpa é da mídia, do judiciário e da classe política, dominada por filósofos e comunistas ocultos. Se o país sair do abismo em que se encontra, o mérito é da política da Nova Era, que foi capaz de curvar Deus e o Diabo para destruir (e reconstruir) a nação. 

O grande problema do país não é a classe política (ainda que ela ajude bastante). É um grupo de lunáticos que tomou o poder com um discurso conservador, reacionário e caretão. Um bando de bolsolavetes que adoram o poder, mas detestam governar. Mas sobre isso eu falarei com mais calma na semana que vem. 

Enquanto isso, o pato virou sapo e o vice está virando príncipe


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #19: tiny dick country

The following takes place between may-07 and may-13. 


Não se prende uma idéia 

No começo da semana, a denúncia contra Michel Miguel tornou-se pública. O presidente, que agora pode pedir música no Fantástico pela segunda vez, mal sabia que este era apenas o primeiro dos problemas que ele enfrentaria até a publicação deste post.

Na quarta-feira (08), os desembargadores do Tribunal Regional da 2ª Região anularam o habeas corpus que foi concedido em março ao libriano. Isso levou o ex-presidente a ser preso preventivamente pela 2ª vez neste ano.

Com “toda tranquilidade e com toda serenidade”, Michel Miguel aguardou o Superior Tribunal de Justiça conceder a ele um novo habeas corpus. Novamente, a justiça foi feita. Temer, que antes de ser um político e um ex-presidente, é uma ideia, voltou aos braços do povo.

O blog aguarda com carinho a versão de “Memórias do Cárcere” do nosso vampirão.

Tiny dick economy

Na economia, o que já não estava bom, piorou mesmo após dar sinais de que talvez não ficaria tão ruim. Em março, 43 mil vagas de empregos formais foram fechadas. Há gente vendendo a cueca para comprar a pipoca da janta e a nossa população já está endividada nos mesmos níveis de 2016.

A imprensa também informou que, após 21 anos, deixamos de ser um dos 25 melhores países para investir conforme a lista elaborada pela consultoria A.T. Dois anos atrás o país era o 17º colocado no ranking.

Se o presente não é melhor do que o nosso passado, o futuro também não é promissor. Além da bomba que poderá estourar no próximo mês, o governo lida com um conjunto de cinco litígios no STF que podem gerar um gasto de mais de R$ 147 bilhões.

Mesmo sabendo que faltará dinheiro inclusive com a reforma da Previdência, Bolsonaro anunciou que o governo realizará a correção da tabela do imposto de renda pela inflação a partir de 2020. Uma medida fiscalmente justa, mas que pode gerar perda de arrecadação em um cenário onde Paulo Guedes conta as moedinhas nos cofres do Tesouro para pagar a conta de luz.

Uma forma de reduzir o problema seria o fim do sistema de dedução de gastos com saúde e educação do IR. Ideia de Paulo Guedes, esta é uma das poucas boas notícias da área econômica da última semana (ainda que, junto com todas as mudanças no Imposto de Renda, só nos levará mais para o buraco).  

Conforme o congresso se mostra menos amigo ao governo (com razão), as reformas que a nação precisa são deixadas de lado, os gastos crescem e o relógio começa a contar o momento em que as bombas explodirão. Mesmo que o Planalto aprove alguma reforma da Previdência no segundo semestre, libere novos saques em contas inativas do FGTS e privatize o esgoto (ou mesmo a Infraero), o mercado continuará diminuindo as previsões de crescimento dos indicadores econômicos.

A promessa de melhoria econômica feita em outubro não aconteceu. Resta saber quando é que poderemos cobrar resultados do governo.

Tiny dick government

Após muito apanhar no Congresso, o Planalto cedeu e anunciou que pretende recriar dois ministérios. A volta das pastas das Cidades e da Integração Nacional não ocorrerá, porém, por uma revisão das ideias administrativas de Bolsonaro sobre a estrutura do Estado. Isso é “velha política” mesmo.

Conforme apurou o Painel da Folha de S.Paulo, os novos ministérios serão gerenciados pela cúpula do Congresso. Isso representará mais R$ 4 bilhões nas mãos dos parlamentares em troca de apoio na Câmara. O blog segue achando muito divertido todos os momentos em que a realidade bate à porta do gabinete presidencial e Bolsonaro é obrigado a dividir fatias do poder para poder governar.

Na mesma semana, Bolsonaro disse que os militares que homenagearam o ex-ministro do partido Stalinista não estão enfrentando problemas graves com a ala do “Trotsky de direita“. “Tudo um time só”, disse Jair. Mas quem discordar do governo ou brigar com qualquer um dos filhos do presidente, vai dar ruim.

Seguindo esse pique, com o governo se inviabilizando sozinho, a oposição já pode abrir a latinha de cerveja e sentar na torre de TV de Brasília enquanto assiste a gestão de Bolsonaro pegar fogo. Pouco a pouco caminhamos para um parlamentarismo de coalizão em que o Planalto twitta muito e não manda em nada.

As baixarias que fazem parte do governo Bolsonaro são dignas de uma novela das 22:00. Já Cunha vs Dilma, perto do que temos hoje, parece o seriadinho Sandy & Junior.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Malthusianismo às avessas

No Rio de Janeiro, o excelentíssimo governador Wilson Witzel resolveu brincar de Rambo, montou em um helicóptero e sobrevoou comunidades de Angra dos Reis enquanto anunciava em suas redes sociais mais uma ação do governo: o “cancelamento de CPF” de pobre.

A ação se uniu a mais um dos vários momentos em que o governador, que jura que o seu programa de segurança pública não envolve apenas matar pobre, colocou a PM para matar pobre inocente. Sobrou até para uma tenda de oração.

Na comunidade da Maré, não foi diferente. A política matou dezenas de pessoas durante o mês, com direito a outro helicóptero atirando na direção da população no horário em que crianças saíam da escola.

Como apontou Reinaldo Azevedo, não há indicadores de que as balas utilizadas no Rio de Janeiro conseguem atingir apenas a população negra e pobre que se envolve no crime. E, a julgar pela cor de quem é morto pela PM de Witzel, elas também não são muito boas em atingir apenas aqueles que estão os envolvidos nas facções criminosas mais perigosas do estado.

Se o governador, que também é influencer de Instagram, gosta de pobre, ele finge tão bem quanto direciona os esforços pacificadores do seu governo. Milicianos, para o ex-juiz, não são um problema grave de segurança pública. Gente que não é suspeita de ser criminosa, sim.

E olha que eu nem resolvi abrir um interlúdio apenas para comentar a não matrícula dos filhos em colégios públicos, a ausência de apoio à população que morreu no desabamento de um prédio em área de milícia e o não uso do SUS.

Enquanto isso, em Brasília, Bolsonaro mudou as regras sobre uso de armas e de munições. Agora, proprietários rurais (não necessariamente os que estão ligados ao Movimento de Trabalhadores Sem Terra), caçadores (não necessariamente de comunistas), caminhoneiros (que a qualquer momento podem entrar em greve) e até jornalistas terão mais liberdade para portar e circular com as suas armas de fogo. Também definiu como até 5 mil o número de munições por arma de uso permitido por ano.

No STF, no Senado, na base e na Câmara já há quem conteste a constitucionalidade da ideia. Ou apenas planeje a sua derrubada.

O Brasil de 2019 é o país do malthusianismo às avessas. PM atira de cima de helicóptero naqueles que são “pretos de tão pobres e pobres de tão pretos” e que moram em casas com telhado de amianto. Se as balas não os atingirem, são obrigados a trabalhar sem EPI.

Quando vão ao bar morrem por conta de uma bala perdida atirada por um caçador de comunistas em situação de estresse emocional ou por comer algo com excesso de agrotóxico. Afinal de contas, remédio para cuidar de doença de pobre acabou.

A julgar pela capacidade de nossos políticos de impedir a população de sobreviver até chegar aos 65 anos, vamos precisar de uma reforma da previdência antes de 2033.

Neoliberalismo bovarista

Os ataques do ministro da educação continuaram na 19ª semana de governo Bolsonaro. Em audiência no Senado na terça-feira (07), o ministro (que já tinha aprontado muito na semana passada) classificou os programas de financiamento estudantil voltados para o ensino superior de “tragédia”.

Na mesma quarta-feira em que o governo alemão anunciou 160 bilhões de euros para pesquisa, o governo bloqueou as bolsas de mestrado e doutorado oferecidas pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) utilizando como base as metas de contingenciamento “determinadas pelo Ministério da Economia”.

O corte, que na teoria é contingenciamento mas na prática é uma chantagem, pode parar o ensino público federal no próximo semestre. Apesar de duvidarem dos conhecimentos do ministro, ele certamente sabe o que faz.

Não assustou o blog o corte de gastos feitos em um momento economicamente complicado. A novidade, como apontamos na última semana, está no revanchismo ideológico do “exterminador do futuro, o aniquilador de gerações e idólatra da ignorância” ao justificar as medidas de “””reajuste””” orçamentário que lembram o nazismo.

No governo Bolsonaro, o pouco neoliberalismo que existe se tornou um “liberalismo bovarista“. As medidas não são tomadas para promover liberdade econômica, política e individual. O ajuste, a privatização e o corte de gastos servem apenas para atingir tudo aquilo que o governo não gosta: pobre, estudantes críticos ao governo, áreas que produzem conhecimento comprometidos com a verdade (e a balbúrdia nos horários não comerciais) e até mesmo programas que seriam plenamente defensáveis sob uma ótica liberal.

Se ainda existem liberais dando apoio para o que o governo faz fora das dependências do Ministério da Fazenda, talvez seja a hora de repensar as suas atitudes. Há cinco meses no poder, a Nova Era caminha a passos largos para ser a idade do obscurantismo, da intolerância, do protecionismo, da luta contra a razão e de um liberalismo que finge ser econômico, mas não o é. Não há coerência de discurso que possa justificar o adesismo tão fácil a um governo que até o momento tem como único mérito não ser petista.

Toca a vinheta do Curb Your Enthusiasm pois agora a minha posição política é a “fetal”.


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Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #15: quem tem medo do liberal?

Hoje eu vou desenvolver. Mas não muito.


Muita guerra e pouca paz na Educação

Abraham Wientraub (referido pelo blog apenas como o ministro da Educação, enquanto estiver no cargo) chegou no ministério da Educação falando em paz. Instantes depois, o ministro também afirmou que aqueles que discordarem podem sair pela porta da esquerda.

A não-guerra cultural promovida pelo ministro passará pela demissão de todos os secretários da pasta, com exceção da secretaria de Alfabetização, que fica com Carlos Nadalim (que por acaso vem a ser é ex-aluno de Olavo de Carvalho). Retorna ao ministério Sílvio Cecchi, que ocupou a subpasta de Regulação do Ensino Superior no governo Temer, e ama uma faculdade privada.

No curto espaço de tempo entre o momento em que Vélez levava suas caixas para o porta-malas do carro e o novo ministro decorava a sua sala, os militares se movimentaram. Agindo novamente como a voz da moderação em um governo de olavitics, o decreto sobre a nova política de alfabetização foi modificado. Mas infelizmente a tentativa de não dar mais espaço para as bobajadas defendidas pelo ex-ministro e os outros seguidores do Guru da Virgínia deu errado e o novo ministro recuou no recuo.

Os_Trapalhões_no_Congresso_S01_ep_15

O laranjal atômico com ares de máfia italiana que é o PSL e a base do governo continuam aprontando altas confusões. Na tarde de terça (09), durante sessão da Comissão de Constituição e Justiça, o deputado Bibo Nunes orientou que a bancada do partido do presidente votasse contra a permanência da reforma da Previdência na pauta do dia. O encontro dos deputados teve debate entre Joice Plagelmann e Maria do Rosário, e até delegado, que também é político, sendo acusado de andar armado no ambiente.

Igreja Universal do Político Cara de Pau

Quando você se perguntar se o prefeito Marcelo Crivella merece o cargo, lembre-se da postura que o ele teve após o temporal que matou mais de uma dezena de pessoas na cidade. A chamada “chuva atípica” (que acontece regularmente na capital do estado) foi gerenciada pela prefeitura da mesma forma que um adolescente cuida das suas finanças.

Para ajudar a população da cidade a lidar com os problemas, nada mais nada menos que 20 pessoas foram enviadas. Reconhecendo que a ideia não foi muito inteligente, o prefeito não só disse que “até nos Estados Unidos isso acontece“, mas também arrumou tempo para brigar com a GloboNews depois de ser questionado a sobre a diminuição de 87% nos investimentos em obras de drenagem entre 2013 e 2019.

Em notas não relacionadas, o Jornal Nacional informou que existem duas centenas de profissionais preparados para entrar em ação quando há um temporal na cidade.

Oi, sumida

Não é segredo que o pessoal do Nordeste não é lá muito amigo do Bolsonaro e para ajudar a conquistar a população local, o governo trocou o aumento do bolsa família por um 13º para os beneficiários. Inspirados pelo jeitinho mineiro de ser, os nordestinos já demonstraram desconfiança em relação aos planos do presidente para tirar os beneficiários da “coleira política do PT“.

Falta informar se a mudança na política de reajuste do salário mínimo está incluída nos planos de conquista do Nordeste. Os trabalhadores (e aposentados) não devem estar muito felizes com a ideia.

10 pequenas notas do quinto dos infernos

O amigo do tio do meu primo do meu pai do meu irmão é ministro do STF

Na última semana, a revista Crusóe relevou que o tal “amigo do amigo do meu pai” é o ex-advogado-geral da União e agora presidente do STF, Dias Toffoli. Mas, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, a matéria teve que ser retirada do ar, pois haveria “claro abuso no conteúdo da matéria veiculada”. Mesmo com a revista aceitando a censura, o STF também enviou uma multa de 100 mil reais.

Não relacionado a isso, o documento em que Dias Toffoli é citado retirado dos autos da Lava Jato. O blog subscreve o editorial da revista Crusoé e informa que o documento que gerou a matéria da revista pode ser lido por completo aqui.

⬆️ Liberalismo ⬇️

Na celebração dos 100 dias de governo, Bolsonaro resolveu brincar um pouco de ser liberal e anunciou um projeto de lei para dar autonomia ao Banco Central, além de um PL para regulamentar a educação domiciliar. Já o ministro de Minas e Energia anunciou no mesmo dia que o mercado de gás natural seria aberto a concorrentes.

O liberalismo do governo não durou até o pôr do sol. No final do dia, por ordem do presidente (e sem comunicar Paulo Guedes), a Petrobras desistiu do aumento do preço do diesel que estava previsto para sexta-feira (12). A dilmada do presidente foi recebida com aplausos críticos pela petista impeachmada, silêncio do ministro da Economia e raiva do mercado, que fez a estatal perder R$ 30 bilhões de valor de mercado.

A dura liberdade de falar e fazer merda

Após quatro dias de silêncio sobre os 80 tiros que militares direcionaram a uma família e mataram duas pessoas, Bolsonaro se solidarizou com o falador de merda, humorista de baixa qualidade e apresentador de programa meia boca Danilo Gentili, condenado pela justiça a seis meses de prisão em regime aberto. Dias depois, o presidente seguiu o exemplo do ministro Sergio Moro e do vice-presidente, abriu a metralhadora de merda mais uma vez e afirmou que “o exército não matou ninguém“.

A metralhadora de merda do presidente também aproveitou a última semana para informar a um grupo de evangélicos que o Holocausto pode ser perdoado. O genocídio de milhões de pessoas, no entanto, não pode ter para o presidente a mesma importância que ele relega aos crimes da ditadura brasileira: esse deve ser sempre relembrado.

O governo Bolsonaro está se mostrando uma ótima mistura de ensurdecedores silêncios e frases que nos fazem pagar o preço pela audição. O presidente continua ignorando a importância do cargo e o impacto que as suas falas (ou a ausência das mesmas) faz para a república.

Para Bolsonaro, merece um comentário ágil a condenação de um humorista que tenta censurar outras pessoas e se esconde atrás de um hipócrita discurso de defesa da liberdade de expressão. Já a morte de duas pessoas inocentes pelas mãos das forças armadas, a ameaça de morte contra uma deputada da sua base por alguém de seu partido ou o assassinato de uma deputada de um partido de esquerda podem esperar.

Para Danilo Gentilli, “falar não pode ser crime. Nunca” (mas se ele quiser, pode). Tanto os silêncios e quanto as falas de Jair Bolsonaro, porém, deveriam ser considerados um atentado ao bom senso e ao espírito democrático e republicano que tentamos, aos trancos e barrancos, construir para a nossa nação.


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Com edição e revisão da querida Luana de Assis.

A Nova Era – semana #8: que Deus tenha misericórdia desta nação

A Nova Era ainda não se corrompe como a Velha Era, mas certamente copia os métodos políticos dela


RT @google: É mesmo? Foda-se.

Uma pesquisa da Rock Health revelou que apenas 11% dos entrevistados se sentiam confortáveis em entregar dados de saúde para grandes companhias, como o Facebook e a Amazon. O blog fica feliz em saber que o jovem, finalmente, se preocupa com a sua privacidade (após entregar todo tipo de informação em troca de uma simulação de como ele ficaria aos 70 anos, postar nudes de forma não anônima no Twitter e dizer em quais cantos da cidade ele andou enfiando a cara na bunda alheia no Instagram).

O próximo passo é notar que as grandes empresas não precisam de permissão direta para acessar seus dados e saber quando ele pegou uma DST. Basta comprar o acesso ao banco de dados do MyFitnessPal. 

Corrupção de rico 

Finalmente 2019 trouxe a nossa primeira corrupção de rico. Um escândalo em que dá gosto de ser roubado pelos nossos agentes políticos. 

Segundo a operação, o intermediário político do PSDB, Paulo Preto, preso na manhã de terça-feira (19), movimentou mais de R$ 130 milhões de reais na Suíça. Enquanto auxiliava o Departamento de Operações Especiais da Odebrecht a lavar dinheiro, Preto manteve um bunker com mais de R$ 100 milhões em dinheiro vivo. Uma quantia tão alta que precisava ficar pendurada em varais para não acumular bolor e se manter, digamos, limpinha. 

Espero que a verba desviada tenha servido para comprar um terninho de alfaiataria e uma bonita casa de praia. Sítio em Atibaia, franquia de loja de chocolate e triplex no litoral paulista estão muito fora de moda. 

Imbecilidade básica 

Ideias imbecis são o vestido preto do governo Bolsonaro: nunca saem de moda. 

Sem que ninguém pedisse, os bolsokids estão trabalhando para refundar a UDN. Só devem tomar cuidado para não repetir em demasia o passado. Da última vez que a UDN apoiou um presidente, não precisamos de muito para termos um Golpe Militar. Eu não estou pronto para ter o blog censurado.

Já o ministro da educação enviou um e-mail a todas as escolas do país pedindo para que o hino nacional seja tocado antes das aulas. Como se o absurdo já não bastasse, também solicitou que as crianças fossem gravadas, e tudo isso usando o slogan da campanha de Bolsonaro como assinatura. 

Se o plano do ministro é acabar com a educação nacional, ele terá sucesso. O horário em que os estudantes ficam em sala de aula prestando alguma atenção aos conteúdos já não é muito grande. Reduzi-lo, ainda mais, obrigando um bando de catarrento a cantar o hino, não me parece uma forma de melhorar os nossos indicadores de qualidade. 

[UPDATE: o ministro refez as suas palavras. Segundo Vélez, o pedido, agora, é que as crianças sejam filmadas apenas com a autorização dos pais. E nada de slogan de campanha dessa vez. O blog mantém a posição.]

Para aproveitar o sentimento saudosista dos nossos governantes, o próximo texto do blog será entregue por carta. Fique atento, internauta, pois 1964 vem com tudo.

Um novo padre para uma igreja decadente 

Na última sexta-feira (22), o rapper R. Kelly foi indiciado, após dez acusações de abuso sexual. Em Roma, o papa Francisco afirmou que o cantor não tem relações com a Igreja. Ainda.

Fontes não negam e nem confirmam que a instituição já pensa em chamá-lo para ser Bispo em alguma diocese no interior dos Estados Unidos. Além de um bom currículo, o artista ajudaria a Igreja a ter um corpo de clérigos etnicamente diverso.

Pessoas inteligentes merecem métodos inteligentes 

Ainda sobre a instituição com a maior concentração de homens vestindo saia do planeta: o papa Francisco prometeu, em um encontro no Vaticano, uma “batalha total” contra abusos sexuais. A Igreja pretende chamar de menor todos os jovens com idade de 14 anos, além de assegurar a criação de novas diretrizes para a prevenção de abusos. 

Eis uma ideia inovadora: ligue para a polícia quando um padre for denunciado. É mais prático e exige apenas o aperto de três teclas no seu telefone.

Raul_Seixas-Vai_Cair.mp3 

Apesar de todos que tinham algum senso tentarem impedir, o agora ex-ministro, Gustavo Bebianno, finalmente caiu. A seus aliados, Bebbiano disse que precisa “pedir desculpas ao Brasil por ter viabilizado a candidatura do Bolsonaro”

O ministro exonerado com mais agilidade desde 1990, em entrevista ao programa Os Pingos nos Is, respondeu uma série de perguntas feitas por Felipe Moura e Augusto Nunes. Nenhuma delas sobre o hospital em que o advogado esteve internado em coma ao longo das últimas três décadas, já que só isso explica o fato de ele não ter notado que Bolsonaro não tem o preparo necessário para mandar nem na própria família.

O Whatsapp e o Twitter te elegeram, mas não governarão por você 

Jair Bolsonaro reclama regularmente que a imprensa não diz o quão bom presidente ele é. O presidente, obviamente, se esqueceu que o trabalho dos jornalistas é contar a verdade.

Chegou a hora de Bolsonaro começar a governar o Brasil e parar de viver na sua realidade paralela. Ele não é Alice no País das Maravilhas para tomar decisões como se estivesse em uma longa viagem de ácido. 

A crise da última semana foi um ótimo exemplo: o governo está institucionalizando o Severino-Cavalcantismo como método de comando, enquanto um bando de políticos do baixo clero fica correndo pelos corredores do Planalto, tentando entender como o Brasil funciona. 

A derrota na Câmara foi um bom alerta. Lidar com os deputados como se eles fossem robôs de Whatsapp pode não ser uma boa ideia, especialmente depois de mostrar que os seus pirralhos podem demitir qualquer ministro, mesmo que ele seja o responsável pela articulação política dos dois maiores projetos mais importantes a serem votados. 

Jair Bolsonaro está mostrando, a cada dia, a pessoa completamente despreparada que é. Desde que resolveu ser presidente, Bolsonaro mostrou que não sabe de economia, não compreende as medidas de segurança digital necessárias para o seu cargo, desconhece como uma boa decisão política é tomada e tem dificuldades até para ler um teleprompter. Em mais seis meses, até o mais fanático dos direitistas estará sentindo falta dos anos Lula. 


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(com a revisão da @fogeluana)

A Nova Era – semana #5: apertem os cintos, o governo decolou

Na quinta semana de governo, Bolsonaro finalmente perdeu a sua bolsa de cocô e poderá utilizar algo além da própria boca para soltar merda pelo mundo. Falta alguém perguntar para o saco de colostomia como é ficar preso a uma bosta por tanto tempo.


Newsflash: o capitalismo ainda é malvado 

As pessoas precisam aceitar que as empresas no mundo capitalista só querem lucrar. Essa coisa de sucos legais e marcas que se unem a grandes lutas sociais tem um nome: segmentação de mercado. 

Dito isso, quem considerou que a queda das ações da Vale após o desastre de Brumadinho deveria lembrar o que ocorreu com os papéis da mesma empresa após o desastre de Mariana, se enganou. A generosa valorização no mesmo período só serve para lembrar que, assim como ocorre com o Facebook, o único interesse do investidor é fazer dinheiro, e não pressionar governos por uma regulamentação mais forte. 

Máscara opaca 

Se as pessoas que agora são responsáveis pela operação Lava Jato (e os seus desdobramentos), querem ao menos fingir imparcialidade, uma boa alternativa é começar, de fato, a ser imparcial. Negar os pedidos de Lula para comparecer ao velório do próprio irmão não é só desumano, mas também é contra a lei. A lei não é mais para todos? 

Tudo bem que, nesse caso, ao dar o mesmo tratamento que é legado à grande maioria dos presos brasileiros, os juízes foram até meio imparciais. Por outro lado, se a Polícia Federal não consegue garantir a segurança e o transporte de um detento, é melhor que ele não seja preso. Não é como se os presídios brasileiros já não estivem superlotados. 

Pororoca de chorume 

Para quem sempre se perguntou como era a política no governo Sarney, Bolsonaro está mostrando, com um alto nível de precisão, o que ocorre quando o centrão chega ao poder. O ministro da Educação saiu por aí dizendo que universidade não deve ser acessível para todos. O que não seria um problema se o acesso ao ensino superior fosse alto e o governo estivesse procurando incentivar o ensino técnico. 

O mesmo MEC (Ministério da Educação e Conspirações), aliás, publicou uma nota afirmando que não censurou a publicação de vídeos sobre Marx do site do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines). Segundo o ministério, a culpa seria do governo anterior. Além de ser uma mentira, o ministério deveria ter explicado por qual motivo não restaurou os vídeos prontamente após a publicação da primeira notícia sobre o tema. Ser marxista em pleno século XXI não é ser um perigo para a sociedade, aliás, é só acreditar em umas bobagens. 

Saindo das abas do MEC, a revista Época recontou a história que havia sido pautada anteriormente pela Folha de S. Paulo, onde se afirmava que a ministra Damares Alves sequestrou, há 15 anos, uma criança indígena de uma aldeia no Xingu. Agora, além de criminosos confessos, conspiracionistas e membros do 55chan, também temos uma sequestradora de bebês na alta cúpula do governo. 

Indo além, houve a nomeação de uma secretaria executiva acusada de danos ao erário, uma defensora do ensino domiciliar para a Diretoria de Desenvolvimento Curricular e Formação de Professores Alfabetizadores e um ex-deputado que defende a caça de animais silvestres para comandar o Serviço Florestal Brasileiro. Tudo bem você montar um governo com indicações técnicas, mas pega mal quando a especialidade das suas indicações é realizar falcatrua. 

Arouche Towers projetadas por Niemeyer 

Se algum desavisado se assustou com o baixo nível das eleições para a presidência do Senado na última semana, fica o alerta de que isso não é mais do que o normal. Roubo de pasta, votação com 81 votantes e 82 votos e presidiário auxiliando na fiscalização dos tramites não é nada muito surrealista para o Brasil, portanto, fiquem atentos e evitem passar vergonha

Aliás, o governo Bolsonaro deveria se lembrar que, na última vez que um governante deu tanto poder a um partido e deixou um político velho, com problemas com a justiça e boas relações em Brasília, nós tivemos impeachment (que sempre crime de responsabilidade “é goooolpe”). Não para quem não queria ver a Dilma fora do poder. 

Peça para sair 

O novo chefe de imprensa do governo Zema deveria perceber que ele não é Andrea Neves para ficar intimidando jornalista. Aliás, se o novo governo mineiro optou por realizar apenas indicações técnicas, alguém deveria justificar por qual razão uma pessoa que não gosta de imprensa foi colocada para cuidar do cargo. 

Pescando ilusões 

Alguém deveria perguntar para o governador se valeu realmente a pena ser eleito. O primeiro mês de governo mal acabou e ele já teve que lidar com: a necessidade de encontrar um líder para o governo que agradasse a sua base, as críticas por ter chamado pessoas das administrações tucanas para o seu alto escalão e um desastre natural. 

Deixando de lado os momentos Marcio Lacerda, também é importante lembrar que a situação fiscal de Minas Gerais é uma das piores do país e não será resolvida com um bazar dos quadros que o Pimentel deixou espalhados pela Cidade Administrativa. 

Uma dica para os eleitores do Novo: antes de reclamar que o governador contratou pessoas dos governos tucanos, saiam do ensino médio, entrem para a Escola de Governo e se formem em administração pública. Até lá, a gestão do Estado será feita por quem entende do tema, o que não parece ser o caso de todas as pessoas do partido.

Se você achou que os comentários sobre a vale foram curtos, relaxa, que dia 10 eu mando mais.

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