A Nova Era – semana #23: país rico é país sem brasileiro

The following takes place between may-04 and jun-11


As notícias que parecem da semana passada, mas não são 

Em 23 semanas de Nova Era, algumas coisas se tornaram repetitivas. Então, vamos começar uma pequena sessão aqui no blog focada apenas nesses pontos, pois já está bom de repetir o mesmo argumento toda semana. 

Vamos começar com gente do Legislativo apontando como o governo é muito ruim, até em fazer o básico do básico. Na noite de domingo (02), por exemplo, Rodrigo Maia afirmou que falta ao Planalto uma agenda para o Brasil, que aumente a produtividade da economia, crie empregos, dê remédios a quem precisa e melhore a qualidade da educação. 

O carioca também negou que o pacto dos três poderes foi fechado, afirmando que “o Onyx Lorenzoni avançou na informação sem uma construção política amarrada. Ele entregou um documento, ninguém leu, e ficou parecendo para a sociedade e a imprensa que a gente fechou aquele pacto. Zero verdade nisso.” 

Já Alcolumbre disse que o governo comete trapalhadas diariamente, e tirou do Planalto os méritos de uma futura aprovação da Reforma da Previdência. O que não deixa de ser verdade, uma vez que o próprio Bolsonaro acha que, uma vez entregue um projeto ao Congresso, ele deixa de ser problema do Planalto.

Como os bots do Bolsonaro tiram folga no final de semana, não teve hashtag no Twitter atacando Maia ou Alcolumbre. Também é possível que os responsáveis por acionar as postagens em série tenham se lembrado que precisam engolir ambos por mais dois anos.

Fazendo coro a Maia, o presidente da comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, Marcelo Ramos, também lembrou que falta a noção de prioridade para Bolsonaro. No seu Twitter, o deputado se queixou que Bolsonaro visita a Câmara para mudar o Código de Trânsito, mas não para ajudar na aprovação da reforma. Não é como se a aprovação do projeto estivesse garantida

Os militares seguem atuando como a voz moderada do governo. Segundo apontaram Vinicius Sassine e Bernardo Mello Franco, os generais próximos a Bolsonaro continuam tentando fazer o presidente deixar de ser um fantoche dos olavistas. 

Por fim, o PSL segue sendo uma bagunça. Na última semana o Major Olímpio, líder do PSL no Senado, partiu para cima da Joice Plagelmann (frase não literal), líder do governo no Congresso. O bate boca ocorre após o partido não cumprir o acordo firmado entre os seus membros, logo na primeira sessão conjunta das casas legislativas

Certas partes do noticiário se tornaram uma temporada da série Russian Doll. A diferença, aqui, é que morremos apenas de desgosto no final do dia. 

Never go full Ayn Rand 

Bolsonaro andou lendo A Revolta do Atlas, e o resultado vai te surpreender. Na terça-feira, o presidente atravessou as ruas de Brasília, bateu nas portas do Congresso, e entregou um projeto de grande importância para o cenário atual: um conjunto de alterações no Código de Trânsito Brasileiro

Se tudo der certo (para o “governo do revide”), em alguns meses o Brasil será o país em que: 

O presidente, que já anunciou o fim dos radares nas estradas federais dizendo que “ninguém é otário de fazer curvas em alta velocidade”, afirmou que os pais são completamente responsáveis e sabem que é importante levar os filhos em seus carros utilizando a cadeirinha.

O blog considera fofa a fé que Jair tem na inteligência do brasileiro, principalmente por terem sido as pessoas que nasceram na Terra de Santa Cruz as responsáveis por darem a ele cargos eletivos nas últimas décadas. 

Felizmente não há boa vontade dos agentes políticos brasileiros em apoiar essa sandice. Paulo Douglas, que é um dos autores da Lei do Descanso dos Caminhoneiros, chamou o texto de retrocesso imenso, e pretende contestá-lo na justiça.

Já a deputada Christiane Yeared, da base do governo, lembrou que, no mundo real, multa sai mais barato do que caixão. Também afirmou que, o custo das lágrimas que escorreram pelo rosto dela após o filho dela ser atropelado por um ex-deputado certamente deve ser menor do que o de uma cadeirinha infantil.

Houve liberal que apoiou a ideia do presidente, baseando-se no argumento de que o Estado não deve impedir alguém de ser imbecil. Houve também aqueles que afirmaram que as pessoas são completamente capazes de não colocarem a própria vida (e a vida de seus filhos) em risco.

Afinal de contas, qualquer pai responsável compraria cadeirinhas para as suas crianças após vaciná-las no posto de saúde mais perto de sua casa. Não é como se existisse gente por aí dando alvejante para os seus filhos.

Também houve aquele que confia plenamente na mão invisível do mercado, e disse que as empresas não contratariam motoristas que dirigem com o cu cheio de rebite. Todos falharam em informar como o resto da população se protegerá dos motoristas que não dirigirem sóbrios (responsáveis pela morte de muita gente), e de onde sairão os recursos para as crianças com pais pouco cuidadosos comprarem as suas próprias cadeirinhas. Elas pouparão o dinheiro da merenda para se protegerem por conta própria?

Cabe aos liberais (ou libertários) tupiniquins pararem de ir full Ayn Rand na defesa das suas ideias. O brasileiro é, foi, e continuará a ser muito burro. Basta lembrar o que jornalistas falaram quando o Maluf disse que não é legal andar por aí soprando fumaça no coleguinha.

Aliás, volta, Maluf! Entre um filhote da ditadura que comete corrupção de pobre e um que comete corrupção de rico, mas sabe que liberalismo não é bagunça, eu fico com o segundo. 

Liberalismo: tem, mas desgringolou

A história do liberalismo no Brasil é escrita em linhas mais tortas do que o traçado da BR 381. Quando não há gente falando que protecionismo econômico é livre mercado, os guardiões da Constituição resolvem apoiar a busca por atalhos para aumentar a liberdade econômica nacional. 

Pelo menos é essa a impressão que o STF passou ao liberar a venda de subsidiárias de estatais sem o aval do Congresso. Ignorando o que diz a Constituição brasileira, os gloriosos ministros fizeram um rebosteio argumentativo para justificar a possibilidade de o governo vender uma empresa, de maneira até então ilegal.

Veja bem, o blog não tem nada contra a venda de empresa pública. A depender dele, uma boa parte das estatais deixariam de existir, começando pela Infraero (vendam a Infraero. Eu não aguento mais a Infraero).

Mas se o governo quer mesmo sair por aí sendo malvadão e promover o desmonte da máquina pública, que o faça da maneira correta. Que mandem um projeto para modificar a lei vigente e, com isso, reduzir as chances de outras vendas pararem na justiça.

Pedir para o STF legislar só diminui (em vez de aumentar) a segurança jurídica que é necessária para avançar o processo de desestatização, que começou lá com o Collor. Não custa nada a Corte mudar de ideia e, em alguns anos, avisar que não pode mais vender subsidiária da Petrobrás sem o apoio do Congresso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Liberal na economia, conservador de ideias ruins em tempo integral 

Bolsonaro lembrou que existem outros países na América Latina além da Venezuela. Após viajar para comer fast food nos EUA e falsificar a história em Israel, o presidente passou um tempinho na Argentina contando novas mentiras.

Na visita, Bolsonaro pediu que os nossos hermanos votassem “com muita razão e menos emoção“. Afinal de contas, já basta ele como imbecil de marca maior ocupando um cargo importante na região.

Após demonstrar que a educação da ditadura militar não é das melhores, o presidente anunciou um novo desejo imbecil: a criação de uma moeda comum entre os dois países, o “peso real”. A ideia é tão ruim, mas tão ruim, que fica difícil comentar sobre. Felizmente, o Banco Central do Brasil avisou que isso não é algo a ser levado a serio. Mesmo assim, Jair insistiu na ideia.

O fato é que a saga do presidente para destruir tudo o que foi criado após a ditadura não tem fim. Se o próximo alvo é o Plano Real, que finalizou com a hiper-inflação crônica do país, o blog, na posição de tiete do Plano Real, considera isso um motivo para impeachment.

No dia do meio ambiente quem derruba árvore é você 

O leitor sabia que o desmatamento é a questão ambiental que mais preocupa o brasileirinho? O blog não. E, a julgar pelas medidas tomadas pelo ministro do Meio Ambiente, o chefe da pasta também desconhece o dado.

Segundo a pesquisa global Earth Day 2019, o tema é mais importante até do que o aquecimento global. A informação foi divulgada na mesma semana em que o governo afirmou que insistirá em aprovar as mudanças no Código Florestal, que o Senado já falou que não quer fazer. Se sobrar tempo, Bolsonaro também tentará encontrar uma forma de extinguir parques ambientais por decreto.

Mas essa não é a única medida do governo brasileiro nas últimas semanas com a desculpa que ele não pode atrapalhar o coleguinha a destruir floresta. Veja algumas das coisas que o blog esqueceu de citar sobre a atuação do ministro, acusado de improbidade administrativa:

Não é de surpreender que o desmatamento da Amazônia tenha explodido nos primeiros meses de 2019. Quando Bolsonaro diz que a missão do seu governo é “não atrapalhar quem quer produzir“, ele está apenas tendo um impulso de sinceridade e humildade. No que depender da sua administração, a Amazônia se transformará em uma grande mistura de pasto e plantação de soja. Transgênica e com muito agrotóxico, se possível. 

E se depender do ministro responsável por cuidar do Meio Ambiente e do agronegócio nas horas vagas, não sobrará um centavo para as atividades que garantirão um futuro com ar respirável para os nossos filhos. Nessas horas, cabe a gente comemorar a existência de Sergio Moro. O ministro da Justiça liberou mais verba para o FDD. O aumento de 1.650% nas verbas auxiliará na criação de um modelo de avaliação de riscos para o uso de agrotóxicos no Brasil, e reduzir o impacto causado pela sua aplicação no meio ambiente

A Alemanha já notou que Bolsonaro só quer beber agrotóxico e cortar árvore. Os europeus avisaram que, a depender dos movimentos dos próximos meses, a sua carteira ficará fechada para o financiamento de um dos mecanismos mais antigos de proteção a floresta da Amazônia. A Noruega também já está mexendo os seus pauzinhos para impedir o governo de continuar a fazer merda.

O presidente pode continuar mentindo por aí e falando que o Brasil é um país que protege o meio ambiente com muito afinco. Enquanto existir imprensa livre nessa nação, poderemos acompanhar com cuidado as incisivas tentativas do seu governo para acabar com o nosso futuro.

A mulher de César caiu na net 

Há um ditado que diz que, a mulher de César não só deve ser honesta. Ela também deve parecer honesta. O blog, inclusive, já se utilizou dele para fazer título de postagem. Os membros da operação Lava Jato e o ministro Sergio Moro deveriam conhecê-lo.

Na noite de domingo (09), a versão brasileira do The Intercept começou a publicação de uma série de reportagens detalhando as relações entre Deltan Dallagnol e o atual ministro da Justiça. O material, colhido por uma fonte anônima, mostra como o ex-juiz aconselhou o funcionário do MPF, as articulações dos servidores públicos para impedir que o ex-presidente (e agora portador de um pau duraço) Lula desse entrevistas, e até mesmo as dúvidas que os concurseiros tinham sobre a sua capacidade de mostrar que o petista era o dono do tríplex mais famoso do Guarujá.

A força-tarefa da Lava Jato logo publicou uma nota em que não desmentia o conteúdo das publicações do site de Glenn Greenwald. Também afirmou que elas não revelam qualquer ilegalidade (mas nada falaram sobre o nível de ética das articulações feitas com o apoio do ministro da Justiça).

Os concurseiros também afirmaram que a sua atuação foi revestida de “legalidade, técnica e impessoalidade”. Marco Aurélio Mello discorda.

O mesmo MPF também afirmou que a pessoa responsável pelos vazamentos “praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público, à vida privada e à segurança” dos investigadores. Imagina se os servidores do órgão tivessem a mesma opinião quando alguém resolve divulgar conversa de jornalista com fonte, hein?

Os servidores públicos (que regularmente forçam a barra no entendimento da lei) também afirmaram que foi uma injustiça não terem sido contactados pelo Intercept antes da publicação da notícia. É sempre bom lembrar que a liberdade de imprensa existe e, em geral, empresa privada não é obrigada a seguir as vontades de concurseiro.

A força tarefa se queixou que os jornalistas do Intercept não são imparciais, algo que qualquer estudante de comunicação social do primeiro período do curso sabe que não existe. Imparcialidade, aliás, é devida aos juízes, que não devem prestar serviços de consultoria jurídica nos sábados, domingos e feriados.

Indo além, afirmaram que ultrapassar os limites de respeito às instituições e às autoridades é algo que prejudica a sociedade em vários níveis. Quem vê pensa que os concurseiros estavam falando daquele vazamento de ligação da Dilma com o Lula uns anos atrás.

Jornalista tem mais é que vazar dado de interesse público mesmo. O próprio Dallagnol já reconheceu isso quando foi de seu interesse, e da mesma forma, Sergio Moro lembrou que não podemos culpar jornalista por divulgar material vazado por terceiros.

Sergio Moro disse, no Twitter, que há “muito barulho”, e que uma “leitura atenta revela que não tem nada ali, apesar das matérias sensacionalistas”. Afinal de contas, o responsável por julgar criminhos orientar as pessoas responsáveis por apontar quem comete ilegalidades a fazer o seu trabalho é super normal.

Se os envolvidos no escândalo queriam parecer honestos e imparciais, o fizeram muito mal. Se parabenizar após uma manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff, afirmar que quer “limpar o Congresso,” e indicar até a ordem correta para a realização de operações está longe de ser algo ético. E não é só o blog que diz isso: a OAB também achou as ações dos funcionários do judiciário muito feias, e pediu que eles se afastassem até que tudo fosse esclarecido.

Gilmar Mendes, aquele que pouco fez nos últimos anos para impedir que operações contra a corrupção não chegassem em poderosos, já avisou que “o fato é muito grave”. Também tirou a bunda de cima do processo que questiona a suspeição do Moro.

O Congresso já se articula para usar uma CPI para ouvir o ministro da Justiça, e discute se há a necessidade de quebrar sigilos. Enquanto isso, Toffoli, Alcolumbre e Maia se reuniram para discutir as publicações do Intercept.

Não me assustaria saber que, entre a noite de domingo e a hora da publicação deste post, muita gente presa na carceragem da PF em Curitiba gozou gostosamente, lembrando que, no artigo 254, inciso IV, do Código do Processo Penal, está registrado o “juiz dar-se-á por suspeito, e, se não fizer, poderá ser recusado por qualquer das partes se tiver aconselhado qualquer das partes”. No país da Operação Satiagraha, qualquer passo em falso é motivo para gente poderosa ficar longe da cadeia.

Até o momento, isso não aconteceu. Muitas das coisas que foram reveladas pela Lava Jato são tão sólidas quanto a água que serve de apoio para os patinhos do sítio de Atibaia nadarem.

Porém, os alicerces para bons advogados saírem por aí questionando a atuação de Moro e seus amigos começaram a ser cavados apenas nessa semana. Vai ser divertido acompanhar o Reinaldo Azevedo fazendo pirocoptero na Band News, enquanto o Intercept revela os outros 99% que sabe.

Vale lembrar que a frase “o juiz brasileiro, na fase de investigação, tem uma postura passiva, apenas examinando pedidos da autoridade policial, do Ministério Público e da defesa, como também o faz durante a fase de tramitação da ação penal” veio do mesmo servidor que foi pego com uma postura ativa, auxiliando e cobrando pedidos do Ministério Público para dar mais força às suas acusações. As revelações, portanto, podem não ter um impacto jurídico imediato, mas certamente representam um baque para aqueles que pretendiam manter a opinião pública ao seu lado.

Em notas não relacionadas, o Dallagnol responderá a uma acusação de atuação política e quebra de decoro em um processo administrativo instaurado pelo corregedor nacional do MP, Orlando Rochadel. Por incrível que pareça, a notícia publicada pelo Painel da Folha de S.Paulo informa que o processo em nada tem a ver com o escândalo da semana: a acusação se refere às postagens feita pelo procurador durante as eleições para a presidência do Senado no começo do ano.

Para todos os fins, a gente pode sorrir pensando que não somos o Padilha. Imagina como deve estar dormindo o diretor ao saber que investiu dinheiro na escrita e gravação de várias cenas para o seu seriadinho mostrando o ex-juiz conversando com gente da PF e do MPF sobre o andamento dos processos quando o certo mesmo teria sido só mostrar uns prints de telefone?


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

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A Nova Era – semana #15: quem tem medo do liberal?

Hoje eu vou desenvolver. Mas não muito.


Muita guerra e pouca paz na Educação

Abraham Wientraub (referido pelo blog apenas como o ministro da Educação, enquanto estiver no cargo) chegou no ministério da Educação falando em paz. Instantes depois, o ministro também afirmou que aqueles que discordarem podem sair pela porta da esquerda.

A não-guerra cultural promovida pelo ministro passará pela demissão de todos os secretários da pasta, com exceção da secretaria de Alfabetização, que fica com Carlos Nadalim (que por acaso vem a ser é ex-aluno de Olavo de Carvalho). Retorna ao ministério Sílvio Cecchi, que ocupou a subpasta de Regulação do Ensino Superior no governo Temer, e ama uma faculdade privada.

No curto espaço de tempo entre o momento em que Vélez levava suas caixas para o porta-malas do carro e o novo ministro decorava a sua sala, os militares se movimentaram. Agindo novamente como a voz da moderação em um governo de olavitics, o decreto sobre a nova política de alfabetização foi modificado. Mas infelizmente a tentativa de não dar mais espaço para as bobajadas defendidas pelo ex-ministro e os outros seguidores do Guru da Virgínia deu errado e o novo ministro recuou no recuo.

Os_Trapalhões_no_Congresso_S01_ep_15

O laranjal atômico com ares de máfia italiana que é o PSL e a base do governo continuam aprontando altas confusões. Na tarde de terça (09), durante sessão da Comissão de Constituição e Justiça, o deputado Bibo Nunes orientou que a bancada do partido do presidente votasse contra a permanência da reforma da Previdência na pauta do dia. O encontro dos deputados teve debate entre Joice Plagelmann e Maria do Rosário, e até delegado, que também é político, sendo acusado de andar armado no ambiente.

Igreja Universal do Político Cara de Pau

Quando você se perguntar se o prefeito Marcelo Crivella merece o cargo, lembre-se da postura que o ele teve após o temporal que matou mais de uma dezena de pessoas na cidade. A chamada “chuva atípica” (que acontece regularmente na capital do estado) foi gerenciada pela prefeitura da mesma forma que um adolescente cuida das suas finanças.

Para ajudar a população da cidade a lidar com os problemas, nada mais nada menos que 20 pessoas foram enviadas. Reconhecendo que a ideia não foi muito inteligente, o prefeito não só disse que “até nos Estados Unidos isso acontece“, mas também arrumou tempo para brigar com a GloboNews depois de ser questionado a sobre a diminuição de 87% nos investimentos em obras de drenagem entre 2013 e 2019.

Em notas não relacionadas, o Jornal Nacional informou que existem duas centenas de profissionais preparados para entrar em ação quando há um temporal na cidade.

Oi, sumida

Não é segredo que o pessoal do Nordeste não é lá muito amigo do Bolsonaro e para ajudar a conquistar a população local, o governo trocou o aumento do bolsa família por um 13º para os beneficiários. Inspirados pelo jeitinho mineiro de ser, os nordestinos já demonstraram desconfiança em relação aos planos do presidente para tirar os beneficiários da “coleira política do PT“.

Falta informar se a mudança na política de reajuste do salário mínimo está incluída nos planos de conquista do Nordeste. Os trabalhadores (e aposentados) não devem estar muito felizes com a ideia.

10 pequenas notas do quinto dos infernos

O amigo do tio do meu primo do meu pai do meu irmão é ministro do STF

Na última semana, a revista Crusóe relevou que o tal “amigo do amigo do meu pai” é o ex-advogado-geral da União e agora presidente do STF, Dias Toffoli. Mas, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, a matéria teve que ser retirada do ar, pois haveria “claro abuso no conteúdo da matéria veiculada”. Mesmo com a revista aceitando a censura, o STF também enviou uma multa de 100 mil reais.

Não relacionado a isso, o documento em que Dias Toffoli é citado retirado dos autos da Lava Jato. O blog subscreve o editorial da revista Crusoé e informa que o documento que gerou a matéria da revista pode ser lido por completo aqui.

⬆️ Liberalismo ⬇️

Na celebração dos 100 dias de governo, Bolsonaro resolveu brincar um pouco de ser liberal e anunciou um projeto de lei para dar autonomia ao Banco Central, além de um PL para regulamentar a educação domiciliar. Já o ministro de Minas e Energia anunciou no mesmo dia que o mercado de gás natural seria aberto a concorrentes.

O liberalismo do governo não durou até o pôr do sol. No final do dia, por ordem do presidente (e sem comunicar Paulo Guedes), a Petrobras desistiu do aumento do preço do diesel que estava previsto para sexta-feira (12). A dilmada do presidente foi recebida com aplausos críticos pela petista impeachmada, silêncio do ministro da Economia e raiva do mercado, que fez a estatal perder R$ 30 bilhões de valor de mercado.

A dura liberdade de falar e fazer merda

Após quatro dias de silêncio sobre os 80 tiros que militares direcionaram a uma família e mataram duas pessoas, Bolsonaro se solidarizou com o falador de merda, humorista de baixa qualidade e apresentador de programa meia boca Danilo Gentili, condenado pela justiça a seis meses de prisão em regime aberto. Dias depois, o presidente seguiu o exemplo do ministro Sergio Moro e do vice-presidente, abriu a metralhadora de merda mais uma vez e afirmou que “o exército não matou ninguém“.

A metralhadora de merda do presidente também aproveitou a última semana para informar a um grupo de evangélicos que o Holocausto pode ser perdoado. O genocídio de milhões de pessoas, no entanto, não pode ter para o presidente a mesma importância que ele relega aos crimes da ditadura brasileira: esse deve ser sempre relembrado.

O governo Bolsonaro está se mostrando uma ótima mistura de ensurdecedores silêncios e frases que nos fazem pagar o preço pela audição. O presidente continua ignorando a importância do cargo e o impacto que as suas falas (ou a ausência das mesmas) faz para a república.

Para Bolsonaro, merece um comentário ágil a condenação de um humorista que tenta censurar outras pessoas e se esconde atrás de um hipócrita discurso de defesa da liberdade de expressão. Já a morte de duas pessoas inocentes pelas mãos das forças armadas, a ameaça de morte contra uma deputada da sua base por alguém de seu partido ou o assassinato de uma deputada de um partido de esquerda podem esperar.

Para Danilo Gentilli, “falar não pode ser crime. Nunca” (mas se ele quiser, pode). Tanto os silêncios e quanto as falas de Jair Bolsonaro, porém, deveriam ser considerados um atentado ao bom senso e ao espírito democrático e republicano que tentamos, aos trancos e barrancos, construir para a nossa nação.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Com edição e revisão da querida Luana de Assis.

A Nova Era – semana #9: a República do Relógio Feio

Nessa semana, as pessoas que realmente mandam – e as que não deveriam, mas também o fazem –, governaram. Já a que deveria governar, mas ninguém se importa, ficou no Planalto. Parece confuso? Então continue a leitura e entenda. 


Fusca 94 marrom caqui com adesivos verdes

Não foi apenas Mourão que recebeu uma repaginada para assumir a vice-presidência.  Os outros milicos que ocupam cargos de primeiro, segundo e terceiro escalão (dentro e fora de Brasília) receberam um pequeno banho de loja e se tornaram os Fuscas do Itamar da Nova Era: uma versão levemente moderna de algo que já deveria ter ficado no passado.

Até segunda ordem, seguiremos torcendo para que os freios dos nossos Fuscas impeçam o governo de avançar contra o barranco da História. 

50 tons de socialismo 

O governo Bolsonaro começou falando em acabar com o socialismo, mas em menos de 10 semanas já mostrou que não é bem assim. Quando o socialismo é light, tá tudo liberado. 

É o que deu a entender o nosso 4chanceler Ernesto Araújo, ao comentar a crise política venezuelana. Em uma entrevista ao reporter da GloboNews, Victor Ferreira, o ministro afirmou que o nosso vizinho é um caso de “socialismo ruim”, em que “o regime está oprimindo o seu povo de uma maneira brutal, fazendo seu povo passar fome, inclusive atirar nas pessoas que tentam ter acesso a ajuda humanitária”. Exatamente como ocorre na Coreia do Norte, um caso de “socialismo do bem”, segundo Araújo. 

Chico Buarque – Olhos Nos Olhos 

Mais uma vez exercendo o seu cargo de pessoa razoável, o vice-presidente lembrou a razão para sermos tão complacentes com a Coreia do Norte: bombas nucleares.

Não é a primeira vez que o vice tem que lembrar ao 4chanceler como o seu trabalho deve ser feito. Podemos dizer que esse foi o primeiro momento “olha o Mourão mostrando que sem essas pessoas a nossa vida seria muito mais fácil” da semana. 

Seria bom que os militares continuem aproveitando a experiência que tem e jogassem para escanteio o nosso diplomata olavista preferido. O 4chanceler pode fazer muito mais pelo Brasil se as suas atividades forem resumidas a receber gente que seria vítima da guilhotina em seu gabinete.

República das Bananas do séc. XXI 

Os últimos dias foram agitados na Venezuela, especialmente nas fronteiras com o Brasil e a Colômbia. 

Deste lado da fronteira, o Ministério da Defesa teve que dialogar com militares venezuelanos para impedir que a área virasse uma reprise de Toma Lá, Dá Cá

Já do outro lado, o governo mandou queimar a ajuda humanitária que foi enviada através da divisa colombiana. Se havia o medo do envio de armas dentro da carga, bastava verificar os pacotes. Daria até para contratar algumas pessoas para esse trabalho, e reduzir por algumas horas os índices de desemprego no país.

Os militares se dividem entre os que estão assaltando a população que foge do país e matando índios, os que seguem apoiando o governo e os que estão desertando. Junto com o prefeito da cidade venezuelana de Gran Sabana, os últimos são parte de um grupo nada pequeno de pessoas que não aguentam mais os problemas causados pelo governo já estragado de Maduro.

Para o horror do Trump, do presidente da Colômbia e daquele seu amigo do PSOL que ainda acha que uma intervenção militar pode ocorrer na Venezuela, o Grupo de Lima demonstrou zero interesse nessa história, ao menos por enquanto. Segundo o vice-presidente-que-ninguém-gosta-de-gostar, a melhor estratégia ainda é o diálogo

Enquanto isso, o presidente, que não é muito bem um presidente, fez um tour pelos países da América Latina para reforçar a necessidade de derrubar Maduro. 

Um Gilmar para o Gilmar

Gilmar Mendes foi flagrado cotando o preço de passagens para a China. O ministro do STF fez uma vaquinha com Dias Toffoli para criar o seu próprio Gilmar Mendes e, assim, se proteger das análises da força tarefa da Receita Federal contra as fraudes fiscais

A Nova Era está enferrujada 

De acordo com a última pesquisa divulgada pela CNT/MDA, o governo Bolsonaro tem menos aprovação do que Dilma Rousseff às vésperas de sua segunda eleição. Aparentemente, o Brasil não está gostando do resultado de ter eleito um presidente “burro”, “fascista”, “desonesto”, “desqualificado”, “racista”, “corrupto”, “canalha”, “nepotista” e “boquirroto”.

A pesquisa também revelou que a flexibilização da posse de armas não é aprovada por 53% dos entrevistados e a reforma da previdência só recebe o apoio de 43% dos brasileiros. O Brasil crescerá muito quando as pessoas deixarem de votar nos políticos apenas para serem contra algo ou alguém.

Mais liberal do que eu? 

Na manhã do dia 26, as principais montadoras brasileiras pediram, de novo, novamente, mais uma vez, que o Brasil as proteja contra a concorrência de outros países. Dessa vez, o ataque foi direcionado a um acordo de livre comércio entre Brasil e México, que deve entrar em vigor em menos de um mês. 

A notícia é um refresco na memória, lembrando a todos que o verdadeiro liberalismo tupiniquim ainda está restrito a algumas salas do Insper e da PUC-RJ. Quem pensou que dessa vez ele ocuparia as esquinas do Planalto pode terminar de tirar o cavalinho da chuva. 

Pequenas notas do quinto dos infernos 

Enquanto parte do governo falava e fazia vários absurdos para a surpresa de ninguém, várias pequenas coisas interessantes aconteceram. Tomem nota: 

Gold Digger

Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro e condenado a quase 200 anos de prisão, admitiu os crimes que todo mundo sabia que ele cometeu. O “viciado em dinheiro” começou a listar, também, algumas pessoas que podem ter se envolvido em esquemas de corrupção durante o tempo em que ele esteve no poder. No lugar da Igreja, uma boa estratégia seria listar algo realmente interessante: o judiciário. 

A relação de Cabral com os membros da Justiça é longa. Ele influiu em decisões do Tribunal de Justiça do Rio, apadrinhou quatro ministros do STJ e até mesmo um ministro do Supremo. Esses favores não devem ter saído de graça

Bandido bom é bandido amigo 

A cada notícia sobre o que aconteceu nas vizinhanças do gabinete de Flavio Bolsonaro enquanto ele batia ponto na Alerj, mais a família Bolsonaro se aproxima de milicianos, os bandidos cujo crime foi amar demais um poder policial paralelo. A Istoé relevou que Valdenice de Oliveira foi uma das responsáveis pelas contas de campanha do senador, a ex-funcionária do 01 é irmã de dois milicianos que, até o momento, estão presos. 

Já a Veja mostrou que a mãe e a esposa de Adriano Magalhães de Nobre, apontado como líder do Escritório do Crime, também trabalharam no gabinete. Resta saber se o “escritório” de Adriano não tinha nenhuma filial no gabinete do ex-vereador. 

Gado demais 

A revista IstoÉ trouxe dados sobre como o dinheiro de 1,4 mil eleitores foi aproveitado por Bolsonaro em campanhas de outros políticos. A verba de R$ 345 mil teria sido direcionada para os filhos Eduardo e Flávio, além do deputado Hélio Lopes.  

Governo Bolsonaro: lamba o saco de cocô ou deixe-o 

Na última semana, Sérgio Moro foi lembrado que, assim como Paulo Guedes, a sua autonomia no governo não é lá das maiores. Mostrando que se ele não quer continuar manchando a sua carreira com episódios lamentáveis, uma boa alternativa é correr para o posto do INSS mais próximo e ver se ainda consegue se aposentar antes da reforma passar.  

É aproveitar a janela de oportunidade ou continuar engolindo sapo para tentar virar ministro do STF ou, quem sabe um dia, presidente do país

Regina_Duarte-Eu_tenho_medo.mp4 

O fato de Bolsonaro ter obrigado Moro a desconvidar Ilona Szabó de uma suplência no Conselho de Políticas Criminais e Penitenciárias serviu para lembrar que a Nova Direita nunca será transante. Não se continuar com medo até das mulheres que não mandam em nada. O caso virou mais um item na longa lista de provas de que o governo só serve para obedecer os seus eleitores. 

Partido-à-Prova de Balas 

Quanto mais matérias são feitas sobre o PSL, mais o partido parece ser uma versão nacional da Quadrilha da Morte. Na última semana, o Buzzfeed News acusou o ministro Marcelo Álvaro Antônio, já suspeito de gerir a filial mineira do laranjal da sigla, de tentar extorquir uma candidata a lavar dinheiro para o partido

Já o The Intercept Brasil lembrou que o presidente realmente gosta de coisas que não existem. Além de uma ameaça comunista que nunca atingiu o Brasil, Bolsonaro também é afeito a assessores que não trabalham para ele, mas certamente recebem para isso. 

A sanha por laranjas é tanta que até mesmo na lista de debates na Câmara os deputados do partido assinam pelos colegas

O PSL, ao fim e ao cabo, é uma fábrica de suco de laranjas, comandada por um Tonho da Lua, um ator pornô, uma jornalista conhecida pelos plágios, militares e youtubers. Se tudo der certo, em quatro anos, a esquerda que chamava o PSDB e o Tio Rei das piores coisas existentes na Terra estará sentindo falta de opositores com algum nível sociológico e cultural.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Com edição e revisão da Luana de Assis.

A Nova Era – semana #3 e #4: não basta ser desonesto, tem que parecer desonesto

Semana passada não teve textinho, então hoje o textinho é duplo. Na terceira semana de seu governo, o presidente fez aquilo que ele prometeu que faria, e todos ficaram surpresos com a capacidade de Bolsonaro cumprir promessas. Já na quarta, mostrou que continua desprezível.


Briga de .40 no escuro 

O passeio dos novos deputados do PSL à China só serviu para mostrar para a esquerda que a nova direita é tão desunida quanto eles. Não que isso vá ajudar o governo a cair, ou faça com que Bolsonaro deixar de ser reeleito. 

Olavo de Carvalho apontou, e com certa razão, que talvez não seja uma boa ideia andar por aí comprando tecnologia de países conhecidos por espionar os outros, ou que sejam adeptos do que os deputados chamaram de “socialismo light”.  

Mas o “guru” se esqueceu de falar quem é que vai comprar o nosso frango e o nosso minério de ferro, caso a China fique de mau humor. Ou dizer que a solução é voltar com a política de valorização da indústria nacional. 

Os próprios deputados do PSL já brigam entre si e contra o mestre intelectual do 4chanceler. O deputado Mamãe Brigue, inclusive,i já acusou outro deputado de usar a famigerada viagem para ser um futuro representante da Huawei no Brasil, como se a empresa precisasse de ajuda.  

O PT mostrou que, no Brasil, chegar e se manter no poder é muito fácil, mas é preciso um pouco de união. Ou pelo menos não lavar a roupa suja em público. Lições da História não são muito boas para os novos governantes, mas esse aprendizado pode cair bem, afinal de contas, quando nem o MBL apoia as suas falcatruas, talvez seja a hora de repensar o discurso. 

Reparação histórica reversa 

Finalmente o homem branco, hétero, cis, de classe média e dono de um luxuoso Honda Civic poderá deixar de ser oprimido no Brasil e para a surpresa de ninguém, a posse de armas foi flexibilizado.  

A medida, segundo o presidente, é “apenas o primeiro passo” de uma série de reparações históricas para os homens de classe média que não conseguem mais superar o pinto pequeno apenas comprando carros esportivos.  

Nos próximos meses, teremos a criação do Vale Testosterona: uma bolsa para a compra de arminhas de tiro falsas, um livro do Olavo de Carvalho e vouchers para a compra de chapéus de papel alumínio. 

Pica pau sem cara de pau 

Para defender a flexibilização da posse de armas, Onyx “Recebi Vários Dinheiros do Lobby a Favor de Armas” Lorenzoni, deu uma entrevista em que mentiu tanto quanto um militante de esquerda quando aponta razões para a Venezuela ser uma democracia. 

O ministro disse que “toda experiência da humanidade mostra, sem nenhuma falha que negue essa evidência, que quanto mais armada a população, menor a violência”.  Imagino que ele pretenda passar suas férias no Oriente Médio, um lugar em que a população é tão armada que se protege contra batedores de carteira usando bombas. 

Sobra democracia, faltam direitos humanos 

Quem ainda insiste em apoiar a permanência de Maduro no poder deveria saber que existe uma alternativa entre Juan Guaidó e Nicolas Maduro: eleições livres com a vigilância de organizações internacionais. Depois não adianta dizer que só eleitor do Bolsonaro passa pano para absurdo. 

As eleições venezuelanas não ocorrem em tom de normalidade há alguns anos, Maduro transformou um shopping center em a sua própria Guantanamo. Jornalistas já foram presos e muitos levados à força para  dar depoimentos em instalações militares. 

Se isso não é uma ditadura, certamente parece como uma, anda como uma, respira como uma e fala como uma. 

Juiz do pau oco 

O quadro entregue para o governador do Rio é uma bela representação do que ele é: oco por dentro e só com bala na cabeça. Nas últimas semanas, o ex-juiz vem acumulando mais faixas do que ações efetivas para mudar a realidade do estado. Será que tudo não passa de um plano para juntar faixas e realizar um bazar de arrecadação de recursos para o governo estadual? Questões. 

Milicolândia 

Alguém reparou na agenda dos ministros militares do governo na última semana? Enquanto todos recebiam pessoas realmente relevantes, Bolsonaro ficou ocupado fazendo photo-op com um presidente que será rapidamente esquecido em alguns anos pelos argentinos. 

O governo Mourão já se estabeleceu como uma tendência parao vindouro ano de 2020. Os militares de alta patente e as pessoas relevantes já se afastam da família Bolsonaro, agora só falta o impeachment. 

A esposa de Cesar caiu na net 

As suspeitas de corrupção envolvendo a família Bolsonaro surgem na mídia com uma frequência maior do que o número de vezes que um adolescente se masturba durante as suas férias. 

Em uma entrevista para uma das duas redes estatais, Record e SBT, Flávio Bolsonaro disse que a lei será aplicada a ele como é aplicada a qualquer outra pessoa. Infelizmente ele não considera petistas pessoas de verdade, pois dosse o caso, os funcionários da Papuda já estariam ocupados arrumando a sua cela. 

Aliás, uma boa forma de parecer ser honesto é não pedir que um processo do seu ex-assessor suba para o STF. Aliás, o político não é de uma família que é contra o foro privilegiado? 

Enquanto isso, alguém precisa perguntar ao ex-juiz Sérgio Moro o que ele pensa sobre os 48 depósitos de R$ 2 mil feitos na conta de Flávio. A ação lembra muito o que o ministro apontou como indícios de lavagem de dinheiro um tempo atrás

Ainda nas analogias com a mulher de César, é válido lembrar que, tradicionalmente, só se ganha em área dominada por milicianos quem anda com milicianos. Flavio Bolsonaro venceu em 74 das 76 seções eleitorais de Rio das Pedras, lugar em que Queiroz se escondeu. 

A proximidade vai além, pois o senador também deu emprego para a mãe e a mulher de Adriano Magalhães da Nóbrega, miliciano foragido e acusado de liderar o grupo que matou a vereadora Marielle Franco. Nóbrega que, por sinal, recebeu homenagem do então deputado em 2003, para alguém que não gosta de Bandido, Flavio adora andar perto de alguns. 

Faltam direitos humanos e democracia 

Se a nova direita quer parecer realmente humanitária, uma boa estratégia é começar a fingir preocupação com a democracia e a liberdade alheia com mais afinco. O gesto do presidente e de seu filho pareceram tudo, menos uma comemoração das ações em Davos e um desejo de boa viagem. Sequer os seus eleitores podem ser tão burros, presidente. 

Um bom começo é deixar a EBC noticiar as ameaças de morte a Jean Wyllys, ou uma declaração pública de apoio ao deputado, já que até Rodrigo Maia fez isso. Eles também podem ser mais cínicos e adotarem a postura dos parlamentares governistas, como foi o caso de Sóstenes, Joice Plagelmann e Alexandre Frota. Pelo menos eles não fingem ser o que não são. 

Liberalismo de quermesse 

Liberais devem parar de apontar os dedos para Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos como grandes exemplos de que o capitalismo é o melhor sistema econômico existente. Fazer isso é como dizer que o Stalinismo é o melhor meio de ser socialista: você até está apontando para algo relevante, mas qualquer pessoa com um pouco de cérebro sabe que este é um exemplo merda. 

Elon Musk é um bilionário especialista em fazer projetos que só deram certo quando ele foi expulso do cargo de CEO. 1/3 do seu tempo é gasto criando carros que não funcionam como deveriam, 1/3 é investido em meios para ficar embaixo da terra ao invés de tentar resolver os problemas do transporte de massas (spoiler: é com ônibus e metrô) e o outro 1/3 é tentando sair do planeta. 

Os seus funcionários sofrem constante pressão para não se sindicalizarem e trabalham em um ritmo sobre-humano. As fábricas não seguem regras básicas de segurança e, em suas mensagens para os seus colaboradores, Musk usa dos piores estratagemas psicológicos para persuadir os seus profissionais a continuarem trabalhando acima de qualquer padrão saudável.

Bezos, por outro lado, gasta um bom tempo tentando deixar os seus funcionários sem emprego. A sua empresa é conhecida por ter baixos salários, impedir sempre que possível a sindicalização, invadir a sua privacidade de todos os modos possíveis e fazer leilão de incentivos fiscais em larga escala. 

Eu já mencionei que ele também rouba dados de cidades inteiras para lucrar mais? Pois é. A criação do novo HQ serviu mais como uma forma de obter dados sigilosos dos projetos de infraestrutura de grandes cidades, além de informações de zoneamento, do que para, de fato, encontrar um bom lugar para construir um prédio. 

Zuckerberg, por sua vez, continua não assumindo a sua culpa na lenta destruição da democracia liberal. Só em 2018, a sua empresa ganhou um escândalo a cada dez dias. 2019 mal começou e já soubemos que a empresa continua focada em explorar todas as nossas atividades, online e offline, mesmo que os alvos sejam adolescentes

Essas não são pessoas que buscam criar um capital social positivo, aprender com os próprios erros ou mudar a sociedade para melhor. Musk, Bezos e Zuckerberg são só o reflexo do que se tornou a cultura do Vale do Silício: um grupo de homens brancos, héteros e de classe média que não respeitam a sua privacidade quando se trata de ganhar (mais) dinheiro. 

Isso não é um exemplo a ser seguido, é uma falha de mercado a ser corrigida por agências reguladoras, como as da União Europeia. 

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A Nova Era – semana #2: navio fantasma

Isso é um governo ou um episódio de Monty Python?


Ghostbusters à brasileira 

Os Bolsonaros deveriam abrir uma empresa de caça fantasmas, afinal poucas famílias são tão eficientes em contratá-los como a do atual presidente. 

Após o caso da Wal do açaí, a Folha revelou que uma de suas ex-assessoras cumpriu ponto no gabinete enquanto estava ocupada trabalhando como personal trainer. Questionado, Bolsonaro mandou a reportagem direcionar a questão ao seu chefe de gabinete. Se o novo presidente não é bom o bastante para gerenciar 15 pessoas corretamente, imagine o que será do seu ministeriado nos próximos anos. 

Liberalismo self service 

Os liberais que ficaram empolgados com os discursosde possedos novos membros da equipe econômica precisam ser lembrados: isso não é um governo liberal. 

O liberalismo é um conjunto de ideias que passam por direitos sociais, políticos e econômicos. Meia dúzia de medidas a favor de uma maior abertura econômica não faz – e jamais fez – alguém ser liberal. 

Contabilidade criativa destra 

Antes de acusar a ex-presidente do Ibama de corrupção, os novos governistas deveriam aprender um pouco de matemática. Em que mundo pagar pouco mais de 3 mil reais/mês pelo aluguel de uma caminhonete é um mau negócio? Alguém ficou muito tempo na aula de má fé e perdeu umas lições de matemática e, olha só, não foi a Suely. 

Grandes questões da humanidade 

Agora que já sabemos que as semelhanças dos Bolsonaros vão além das tendências à calvície, ejaculação precoce, um pinto minúsculo e uma ex-mulher que ficou muito feliz após deixar de transar com eles, uma pergunta precisa ser feita. Qual deles foi gravado pagando para receber um golden shower no rosto em um hotel fora do país? 

Tudo bem você não saber em qual ponto do corpo feminino está o clitóris e odiar o feminismo porque a sua ex está muito depois de te largar, isso acontece com muitos caras. Contudo, alguém precisa me falar qual membro da família tem uma sex tape por aí. 

Papai, mamãe e titia 

Antes de atacar um marxismo cultural que não existe, e, um socialismo que não foi aplicado por nenhum governo, a direita brasileira deveria se atentar para um autor que realmente atacou as bases da família judaico-cristã: John Stuart Mill. 

O liberal defendeu uma democracia radical, o Estado Laico e a igualdade de gênero ativamente. Chegou a ser preso por distribuir métodos contraceptivos para mulheres. Se estivesse vivo, estaria criando um crowdfunding para as Putinhas Aborteiras gravarem um disco. 

Sobram provas, faltam convicções 

Se o ministro da Casa Civil pretende fazer uma tatuagem sempre que alguém encontrar um podre seu, é melhor contratar um assessor especialista no assunto. Até o final do governo ele ficará tão tatuado quanto os participantes de feiras de modificações corporais. 

15 minutos de fama 

Uma boa forma de não faturar internacionalmente em cima de uma prisão é não fazer tudo para faturar em cima de uma prisão. Mesmo dizendo que o “importante é que Battisti responda pelos graves crimes que cometeu”, o governo brasileiro chegou a enviar um avião da PF para a Bolívia e, assim, realizar a extradição no nosso país. Se esse era o objetivo desde o princípio, era só não deixar que ele fugisse pela fronteira. 

O meu melhor amigo é o meu inimigo 

Se o PT pretende, algum dia, voltar ao poder, seria uma boa parar de ouvir Glesi Hoffmann. Não adianta posar de defensor da democracia antes de meia noite e ir à posse de Nicolás Maduro no meio da madrugada. 

Aliás, já passou do momento de ninguém apoiar o governo de Maduro. Fica difícil achar que Bolsonaro não é tão pior assim quando ela a esquerda está gastando pano defendendo um regime que prende opositores just because

Nepotismo técnico 

O vice-presidente deveria tentar não jogar a culpa no PT, ao menos quando é o filho dele que foi pego em situação estranha. Se você passa 13 anos sem ser promovido, talvez não seja tão bom no que faz. 

Agora, se você foi promovido oito vezes no mesmo período, basta seguir a dica do Ricardo Coimbra e apelidar a promoção de nepotismo técnico. Quem limpa a bota de milico todos os dias com a glote consegue engolir essa desculpa, sem problemas. 

Limpadores profissionais de botas 

Quem chamou, nos últimos anos, uma boa parte do Ministério Público de tucana, deveria fazer um mea culpa. Os membros do judiciário estão se saindo como verdadeiros limpadores profissionais de bota militar. 

Nas últimas semanas, o MP aceitou continuamente as desculpas dadas por Fabrício Queiroz para faltar aos depoimentos. Ao mesmo tempo, o investigado dançou e deu entrevistas para a uma das novas TVs estatais. 

Tolerância semelhante foi empregada com suas filhas e esposa. O MP esqueceu como é feita uma condução coerciva? Dois anos atrás eles sabiam muito bem. 

O procurador-geral do Rio de Janeiro age como um praticante de poliamor moderno. Sabendo que o chifre é inevitável, prefere abrir o relacionamento e escancarar para a sociedade que ele não possui nenhuma vergonha de ser feito de trouxa. 

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A Nova Era – semana #0: o governo brasileiro é horrível, ainda bem que eu moro em MG

Começou A Nova Era. O socialismo que nunca chegou ao Brasil acabou e agora todos nós podemos deixar de nos preocupar, já que o PT não está mais no poder (desde 2016). Nos próximos quatro anos, o blog fará um pequeno apanhado, quase semanal, das notícias e as trapalhadas aprontadas pela nova trupe que ocupa o alto poder em Brasília. Divirtam-se!


Cansei de ser sexy 

A nova direita deveria admitir que de sexy e transante ela não tem nada. Ao assumir o governo do Rio de Janeiro, o novo governador mandou confeccionar a sua própria “faixa governamental”. Imagine um pinto tão pequeno a ponto de você precisar de um adorno para mostrar a todos que você governa um estado. 

Em São Paulo, João Dória assumiu falando em não ter apego ao passado. Talvez seja a hora do novo governador direcionar um pouco da sua verba de orgias para o pagamento de um tratamento psicológico, já que ele também não conseguiu deixar de lado Lula, o PT e o resto da esquerda durante o seu discurso. 

Humanas.jpg 

A esquerda precisa se decidir: ou apoia a política de valorização do salário mínimo criada pela Dilma ou reclama quando o valor do reajuste sai menor do que o esperado. 

Desde o primeiro ano em que essa medida começou a ser praticada, especialistas já apontavam que, para ser efetiva e gerar aumentos reais, era necessário um alto crescimento do PIB e uma inflação baixa. Os indicadores mudaram pelos motivos que você pode ler aqui e, bem, deu no que deu: o mínimo foi reajustado abaixo do que era previsto no ano passado. 

Para quem reclamou da mudança, fica a dica: ou você aprende como as coisas que você apoia funcionam ou não reclama quando alguém apontar para a sua reclamação e rir. 

Burrice no poder 

Alguém avise ao novo presidente que, antes de citar termos como ideologia, feminismo e gênero, faz bem dar uma olhada no dicionário. Quem sabe assim ele começa a notar que nunca houve socialismo no Brasil? 

Um bom ponto de partida é o termo “politicamente correto”. Você não pode dizer que o país se libertou dele, e, ao mesmo tempo, convidar a sua esposa para discursar em libras. Esse é um gesto digno de Portlândia. 

Aliás, uma boa forma de acabar com o “toma lá, dá cá” e com a “submissão ideológica” é não passar os primeiros dias de seu governo realizando “toma lá, dá cá” com a imprensa no Twitter, enquanto lambe as bolas do Donald Trump. Alguém o informe que presidente americano já importou alguém do leste europeu para fazer isso. 

Corrupção de pobre 

O governo Bolsonaro e seus apoiadores precisam – urgentemente – parar com a corrupção de pobre. Magno Malta se envolveu com problemas com a justiça após receber dinheiro de origem duvidosa da Tramontina, e sequer foi capaz de comprar um bom terno. 

Onyx Lorenzoni já admitiu ter recebido caixa dois para financiar as suas eleições. Já Flávio Bolsonaro ainda precisa explicar por qual razão o seu ex-assessor, Queiroz, conseguiu movimentar tanto dinheiro, em uma maracutaia que tem tudo para ser um escândalo de corrupção digno de câmara dos vereadores de uma cidade com 13 mil habitantes em 1925. 

Reversal ideológica 

O novo governo e a sua base deveriam admitir, de uma vez por todas, que, de fato, eles não são iguais aos petistas que se mantiveram no poder por 14 anos. Eles são piores. 

Enquanto esteve no poder, Lula e seu partido não perderam a oportunidade de atacar a imprensa que divulgava as suas transgressões. Algumas vezes, jornalistas foram agredidos em eventos do partido. 

A luta contra a grande imprensa atingiu tamanho pique que chegaram a criar um título para quem não fosse aliado ao partido: PIG (Partido da Imprensa Golpista). 

Mas, ainda que Bolsonaro e petistas tenham direcionado bons recursos para a criação de uma imprensa especializada em passar pano para as ações de seus governos, não há como dizer que ambos a odeiam ao mesmo nível. Pelo contrário: o novo presidente, não só conta com o apoio de blogs para criar as suas próprias narrativas, mas também usa de todos os mecanismos possíveis para atrapalhar o trabalho de quem pretende cobrir o que realmente ocorre em seu governo

No dia de sua posse, todos os jornalistas da imprensa independente tiveram o seu acesso restrito. Aqueles que apontavam os maus cuidados do presidente eram prontamente atacados pelos bolsojornalistas, enquanto escondiam que a sua credencial de acesso tinha mais privilégios do que a dos jornalistas presos em cercadinhos. 

Nos últimos dias, por sinal, a trupe formada por perfis como o @isentões e Terça Livre não pouparam esforços para desacreditar os jornalistas de páginas como The Intercept. O que faltou foi a mesma coragem para debater de frente a frente, já que, quando chamados para uma entrevista, os responsáveis pelo perfil @isentões simplesmente sumiram e foram perseguir alguma adolescente de 16 anos que descobriu o feminismo duas semanas atrás. 

Petistas falavam mal da imprensa apenas em seus meios e, em geral, não impediram o trabalho de algum jornalista. Capas e entrevistas exclusivas foram dadas a revistas e jornais de grupos como o Globo e a Editora Abril sempre que possível. 

Bolsonaro, por outro lado, mostrou a que veio já em seus primeiros dias de governo. O seu governo promete ser uma cópia mal feita da relação de Donald Trum com a imprensa: pouco esforço para ajudar o trabalho de bons jornalistas, mas todo o esforço do mundo para criar páginas falsas e desacreditar o trabalho da imprensa séria. 

Quando petistas chegaram ao poder, demoraram alguns anos para abraçarem o PMDB e fazerem o jogo da velha política escancaradamente. Tinham até um bom discurso para isso e, felizmente, conseguiram apagar as suas incoerências dos registros. 

Joice Plagiomann, entretanto, está com dificuldades para justificar o seu apoio ao Rodrigo Maia, após meses defendendo o contrário. Ela pode aproveitar que já está em Brasília e buscar nos anais do Congresso o discurso de algum líder petista no Senado para plagiar. Não é como se fosse a sua primeira vez. 

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