A Nova Era – semana #50: os soldadinhos de chumbo do presidente

Pacote anti-crime aprovado sem as loucuras do Moro, ministros não sabendo da liturgia do próprio cargo e o país passando vergonha lá fora (outra vez). Não se esquece de mandar o link para o seu tio bolsominion. 


The following takes place between dec. 10 and dec. 17 


Desidratação do bem 

Na terça-feira (10), o pacote anti-crime foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Votado no dia seguinte em plenário, o texto foi para sansão presidencial. 

Boa parte das maluquices do ex-juiz Sergio Moro foram tiradas do texto por deputados e senadores com alguma ideia decente na cabeça. Saíram itens como a licença para matar (ou excludente de licitude, para os mais íntimos) e o acordo de “plea bargain”. As mudanças foram possíveis graças a articulações de parlamentares como Marcelo Freixo, que se destaca entre às esquerdas como uma das poucas pessoas daquele lado que é vista lutando pela segurança pública. 

E que também não perde tempo posando bonito para a foto em tempos de grande autoritarismo. 

Em uma entrevista dada para a Folha de S. Paulo, o ministro jurou que, se tivesse sido aprovada, a licença para matar não seria aplicável a casos como o da menina Ágatha. Afinal, o Brasil é um país em que nenhum PM mente sobre as suas ações quando dá ruim para tentar sair impune. Ou que mata até mesmo a memória de catador de lixo que tenta salvar gente inocente

Moro espera que o presidente vete os pontos que ele não gosta, como o do juiz de garantias (basicamente alguém que poderá impedir mais pessoas de apresentarem um comportamento pouco ético). O que é uma ótima estratégia, pois ajuda Bolsonaro a manter o seu discurso de que “o sistema é foda” e impede o presidente fazer o que deseja (mas não necessariamente é a vontade da maioria da população). 

Agora a mira dos lavajatistas de plantão é a prisão após a condenação em segunda instância, que deve ser votada só ano que vem. O Nexo explicou direitinho esse imbróglio

⬆️ gente que não deveria ter entrado 

O jornalista Sérgio Camargo foi removido da presidência da Fundação Cultural Palmares após determinação de um juiz federal do Ceará. O governo federal publicou a sua saída da instituição no Diário Oficial da União no final da quarta-feira (11). A instituição, que promove a cultura afro-brasileira e a luta contra o racismo deixou, até segunda ordem, de ter um presidente que é contra os movimentos que promovem a cultura afro-brasileira e a luta contra o racismo. 

Quem também perdeu direito a ocupar uma sala de direção no serviço público foi Luciana Rocha Feres. Ela ficou na presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por tão pouco tempo que faltou hora vaga para o estagiário procurar os podres da pobre coitada. Fica pra próxima. 

É básico 

A Câmara finalmente aprovou o novo marco regulatório do saneamento básico brasileiro. O texto, que agora abre espaço para a disputa pelo fornecimento de esgoto por empresas privadas – mas não obriga ninguém a contratá-las :( – é um grande avanço para o país. Pelo menos na opinião deste modesto blog. 

Os números de saneamento do nosso país são execráveis. Há lugar em que é mais fácil encontrar esgoto a céu aberto do que árvore na rua. As mudanças no modelo atual, portanto, são mais que bem vindas. Quem sabe agora a gente não consegue fazer aquilo que é básico. 

Em notas relacionadas, a oposição das esquerdas ao projeto foi um show de horrores. Os partidos que mais se prejudicam e criticam fake news em 2018 não perderam a oportunidade de utilizarem argumentos que não correspondiam ao texto em votação

Não adianta fazer troça do tio do Whatsapp se você gasta microfone da Câmara afirmando que um projeto obriga alguém a fazer algo que não virará obrigação após a publicação no Diário Oficial da União. 

Seria bom, por sinal, que as esquerdas explicassem de onde sairia o dinheiro para a universalização no caso de manutenção do modelo atual. Sempre considerando, é calro, que ele mal garante acesso a um bom sistema de esgoto para metade da população. Melhor do que sair por aí mentindo na cara dura. 

Ícaro tombou 

A juíza Selma, senadora pelo Mato Grosso que é apelidada como “Moro de saias”, caiu por cometer criminhos. O Tribunal Superior Eleitoral anunciou que o seu mandato está cassado por abuso de poder econômico e uso de caixa dois durante a sua campanha. 

Apesar de haver espaço para recursos, a senadora deve se afastar imediatamente do cargo. Os suplentes também se deram mal, já que não terão direito ao mandato. Ficará com a vaga o mais votado nas eleições que serão realizadas em breve no Mato Grosso. 

O advogado da juíza jura que ela está sendo condenada por ser uma ótima magistrada. O TSE, por outro lado, não tem dúvidas de que ela e os seus suplentes cometeram criminhos. 

A juíza deveria acreditar mais no poder do qual ela fez parte por tantos anos. Também cai bem não saí por aí dizendo que combate a corrupção e depois, quando é condenada por práticas ilegais, utilizar o mesmo discurso de sempre de quem é pego com as calças arriadas. Um pouco de originalidade não custa nada. 

A volta dos que não foram

A Lava Jato não morreu. A operação deflagrou nova etapa, dessa vez tendo como alvo o filho do ex-presidente Lula, Fábio Luis. Segundo os operadores do direito, Fábio recebeu dinheiro da Oi e utilizou a verba na compra do sítio em Atibaia mais famoso do país. Como agradecimento, o governo federal teria repassado benefícios financeiros à operadora. 

Há, porém, um pequeno problema nessa história. A princípio, por ser uma investigação que já aconteceu em São Paulo e não deu em nada. Depois, por ser algo que não se refere diretamente a delitos que passam pela Petrobras, que é o que trata a Vara Federal de Curitiba. Detalhes. 

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o ex-governador Sérgio Cabral assinou um acordo de delação premiada para a alegria de editores de jornais e revistas de todo o país. Junto com o acordo, vem a promessa de devolver R$ 380 milhões em propina (que ele já devolveu) e denunciar até mesmo ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Tribunal de Contas da União (TCU) e procuradores do MP-RJ. 

O acordo recebeu parecer negativo da Procuradoria Geral da República que não perdeu a chance de lembrar que o próprio Ministério Público Federal do Rio já tinha negado ao político uma chance de delatar quem ele quisesse. O que é justificável, tendo em vista que a essa altura do campeonato Sergio Cabral só não foi condenado pelas balinhas que ele deve ter roubado na vendinha da escola em que cursou o ensino médio. 

Em notas definitivamente relacionadas, 81% dos brasileiros acham, segundo o Data Folha, que a operação deve continuar. O dado mostra que, após mais de 60 etapas, os procuradores conseguiram manipular a mídia e o imaginário social de tal maneira que eles se tornaram, de fato, o sinônimo de combate a problemas na gestão da coisa pública. 

O trabalho, porém, não conseguiu fazer com que o agora ministro Sergio Moro passasse imagem semelhante para o governo federal. Metade dos entrevistados acham que o governo é péssimo ou ruim no combate à corrupção

Pelo visto, o brasileirinho ficará satisfeito apenas quando a operação virar uma verdadeira Inquisição Espanhola, sempre ponta para surgir das sombras para atacar os mais desavisados com suspeitas e acusações de todo tipo. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Vá com Deus 

O Estado de S. Paulo apurou que no prédio do ministério da Educação as caixas de mudanças estão cheias. O ministro Weintraub se prepara para não voltar ao cargo que hoje, infelizmente ocupa, após o fim de suas férias. Uma boa parte dos assessores já estão com o status de desempregado no LinkedIn, faltando apenas a vez dele ser confirmada. 

O ministro deve sair, principalmente, por pressões da equipe econômica. Para eles, Weintraub (que é cria de Guedes e não do Olavo de Carvalho) causa problemas demais e atrapalha o governo enquanto faz cosplay de Gene Kelly no Twitter. 

Weintraub entrou com força e vontade na luta para ser o pior ministro da Educação da nossa história recente e conseguiu o troféu com mérito. Atacou todo o sistema de ensino público e privado, de professores a tias da merenda. Mentiu, repetiu a mentira e quando acusado de mentir, fez-se de sonso e continuou na sua luta pela divulgação de novas mentiras. 

Nos seus meses à frente do cargo, Weintraub não conseguiu (ou sequer tentou) articular com as organizações do terceiro setor que trabalham com a luta por uma educação melhor. Tão menos se articulou com os profissionais do próprio governo para colocar em prática alguma ideia que fosse além do Future-se. O Fundeb, aliás, corre o mesmo risco que o Enem teve de não sair nesse ano. 

Na sua última passagem pela Comissão de Educação da Câmara, o discurso foi tão raso que até mesmo deputados que normalmente fariam vista grossa aos seus descalabros não deixaram de criticá-lo. Infelizmente, porém, ainda falta algum tutano para quem critica o ministro. Mas a torcida é forte para que Weintraub pegue logo o beco e vá falar absurdos em outros lugares do país. 

O seu saldo final será digno de vergonha. O ministro passou mais tempo alimentando militante bolsonarista na internet do que garantir que a educação melhorasse. Liberou dinheiro para as instituições vinculadas ao MEC apenas quando era tarde demais para qualquer centavo ser gasto e esqueceu de falar como será implementado um novo programa de alfabetização. 

Assim como o seu antecessor, não fará falta. 

Vem de zap 

Os caminhoneiros ainda tentam fazer a gente sentir saudades de quando o PIB nacional era movido por trens. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, já teria impedido sete tentativas de greves da categoria. E só negocia com quem tem feito ameaça de greve

Aliás, uma nova mobilização a favor de greve fracassou no começo da semana por falta de participantes. Os líderes das greves durante o governo Temer estavam ocupados limpando a bota do governo com a glote. Já os que tinham outras preocupações se irritaram demais com os discursos da CUT favoráveis ao movimento

O Brasil de hoje seria muito menos horrível se, no Brasil de ontem, JK não tivesse sido um desenvolvimentista carrocrata. 

Na volta a gente compra 

Não faz muito tempo que o governo começou a pensar em mudar o Bolsa Família e dar um caráter mais social à gestão atual. Começou com a promessa de um 13º que só foi garantido para 2019 após a Folha de S. Paulo apontar que o benefício corria o risco de não virar realidade. Já no começo do mês, os auxiliares do presidente resolveram criar um Bolsa Família para chamar de seu. 

Era um projeto simples. Aumentar a faixa etária de beneficiários para quem tivesse até 21 anos de idade. Se a casa contasse com um bebê de até 3 anos, o benefício aumentaria. Só faltava descobrir como a conta seria paga. 

Ao que tudo indica, ninguém descobriu o mapa da mina. Alegando falta de recursos (que até existem, mas foram consumidos pelas propostas de parlamentares que não fazem o tal do “toma-lá, dá-cá”), o Planalto resolveu guardar o projeto em uma gaveta. Ainda bem que ninguém tem que defender o governo em eleição municipal, não é mesmo? 

Não fazendo mais do que a obrigação 

Após mais uma semana com informações de que a PM fez o que faz de melhor (autoritarismo pra cima de pobre indefeso), João Dória resolveu brincar de político de centro liberal outra vez. O tucano afastou os 38 PMs que participavam da operação em Paraisópolis que não teve coordenador e só serviu para trazer mais desgraça para a história da favela. 

A resposta não só veio tarde demais, como também mostra de novo, novamente, mais uma vez, que de centrista e liberal o governador tucano não tem nada. Dória só agiu a favor dos mortos de Paraisópolis quando uma avalanche de vídeos, relatórios do Instituto Médico Legal e testemunhos apontaram que a PM paulista fez o que ela se tornou famosa por fazer, que é truculência com preto, pobre e favelado de dia (e professores públicos após o sol se por). 

Não é como se o paulistano estivesse precisando de motivos para apoiar Dória. Moradores de São Paulo desconhecem combinações de números de votação que não comecem com 4 e 5 desde o começo da década de 1990. Agora, se o desejo é se mostrar diferente de Bolsonaro, ele seguirá falhando miseravelmente enquanto aperta novos pregos no caixão do Partido da Social Democracia Brasileira. 

Não fazendo sequer a obrigação 

A 25ª edição da COP 25, que ocorreu em Madri, acabou no último domingo (15) com gostinho amargo. A conferência do clima era um dos poucos lugares no ambiente internacional em que o Brasil podia falar grosso com todo mundo. Afinal, éramos um exemplo de país que, apesar dos pesares, conseguia manter boas políticas de preservação do clima e projetos com foco sustentável. 

Não mais

O ministro da área, Ricardo Salles, foi para a COP sem propostas significativas, querendo pedir dinheiro onde não havia espaço para mendigar recursos (que o país jogou fora no passado recente) e um desejo imbatível de lutar contra tudo e contra todos. Quando não estava sendo cobrado pelos péssimos resultados que apresentou nos últimos meses, tentava passar a perna nos outros países durante as negociações da regulamentação do mercado de créditos de carbono

O governo que achou ruim que o documento final da conferência apontasse o óbvio (que oceanos e o uso da terra influenciam no clima). Tratou toda a COP-25 como um grande “jogo comercial”. Não à toa, teve como maior vitória poder levar dois prêmios “Fóssil do dia” para casa. 

Os absurdos que Bolsonaro falou nesta semana 

Em um discurso para prefeitos, o presidente afirmou, na quinta-feira (12) que colocará todos os ministros e integrantes de equipes ministeriais envolvidos em corrupção em um “pau de arara”

Sem brincadeira. O presidente mandou um “se aparecer [corrupção], boto no pau de arara o ministro” como quem pede uma garrafa d’água. 

O presidente também disse que Paulo Freire, declarado patrono da educação nacional em 2012, era um energúmeno. Também falou que a programação da TV escola deseduca e que investir na empresa, que tem um grande papel na entrega de material de qualidade para professores de todo o país, é jogar dinheiro no lixo. Parece até que ele se referia à ideia de passar revisionismo histórico conservador na telinha. 

O ataque, que certamente não está relacionado com as críticas contra a tentativa do governo de passar Olavo de Carvalho no canal, deu certo. O ministro da Educação encerrou o contrato com a associação responsável pela gestão da TV e mandou todo mundo sair do seu prédio. 

O tripé da moderação tem uma perna só 

Tornou-se comum dizer há uns meses que o governo tinha três pés de sustentação. O olavismo cultural, o liberalismo de Paulo Guedes e a moralidade de Sergio Moro. Hoje, passados quase 12 meses completos de muita aventura e arrombo autoritário, é difícil ver que algum analista estava certo ao afirmar que Guedes e o ex-juiz são tão diferentes assim do maníaco por ditaduras. 

Semana sim, semana também, há um ministro disputando o posto de melhor lambida de bota na imprensa. O liberal ministro da economia não perde a chance de avisar que, se for às ruas, o povo corre o risco de ouvir gritos por um novo AI-5. Trata a democracia como um pequeno detalhe do receituário do liberalismo clássico e insiste na (burra) ideia de que as liberdades podem caminhar em separado se a economia estiver mais aberta aos seus interesses. 

Moro, vendo que as chances de ir para o STF são nulas, resolveu mostrar a sua face autoritária para galgar o apoio do chefinho e se tornar candidato a vice em 2022. Tem se tornada notória, nas últimas semanas, a escalda do discurso autoritário do juiz. 

Travestido de um belo combate à corrupção (de quem não faz parte do governo e de sua base), o ministro atribui ao STF (!) a má avaliação do seu trabalho enquanto pessoa que trabalha contra criminhos. Ignora, porém, que a maior parte dos brasileiros não se importam de ver Lula livre. Até acham justo

boquinha fina com maior síndrome de doutor do país também não perde a chance de posar para a internet sendo subserviente ao governo. Ataca a imprensa quando ela não faz vista grossa para as suas ações e ignora completamente a liturgia do seu cargo. Trata as salas do ministério que ocupa como se fosse a sua casa. Mostra que, assim como Guedes, de democrático e moderado não tem nada. 

Moro deveria estudar melhor a Constituição que jurou um dia defender, frequentar umas aulas de teoria democrática na UNB e, depois, sair da vida pública e pescar no pantanal. Assim como o ministro da Educação, sua ausência não será sentida por ninguém que valoriza a democracia liberal. 


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Eu escrevi este texto e revisei ele sozinho e com fome. Apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana 27: a destruição não criativa do Brasil

O Planalto contratando comunista, as pessoas erradas sendo rememoradas, o presidente se esquecendo da própria história e a nação dando dois passos na direção do abismo autoritário.


The following takes place between jul-02 and jul-08


Checagem de fatos parlamentar 

O Senado terá uma CPI das Fake News, ou pelo menos é o que o presidente da casa, Davi Alcolumbre, deseja. Mas, no que depender do deputado da base governamental, Filipe Barros, essa investigação parlamentar não ocorrerá. O congressista do PSL entrou com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal para tentar barrar a criação da comissão. Barros acredita que a investigação será utilizada para prejudicar o governo. 

Ou seja, o político acredita que, políticos, no ambiente de fazer política, farão o seu trabalho. Mais ainda, para Filipe, se o partido do governo dos que acreditam em mamadeira de piroca for investigado por reproduzir mentiras, será prejudicado. Quem não deve, nem sempre não teme. 

Boca de bueiro SE01EP27 

O presidente defendeu o trabalho infantil, e apesar de afirmar que não apresentará nenhum projeto a favor da prática, Jair afirmou que “trabalhando com nove, dez anos de idade na fazenda, eu não fui prejudicado em nada” (Jair não trabalhou quando era criança). O Brasil, por outro lado, nunca esteve tão prejudicado pelas ações de alguém eleito democraticamente (e olha que nós já tivemos péssimos presidentes). 

O trabalho infantil é uma das piores coisas que um presidente pode incentivar. Prejudica as crianças, as suas famílias e o desenvolvimento do país. Estudo sobre isso não falta.

Bolsonaro também afirmou que tem “saudades daquela época onde se tinha muito mais deveres do que direitos. Hoje você só tem direito e, dever, quase nenhum, e por isso nós afundamos cada vez mais”.

A época em questão é a ditadura militar, onde o direito a habeas corpus era inexistente, a liberdade de expressão era sufocada, a dignidade humana dependia do humor do guarda na esquina. A democracia, aliás, vivia amordaçada. Naqueles dias, o único dever do brasileiro era ficar calado diante das atrocidades cometidas pelo regime. 

Contabilidade criativa de criminalidade 

Um relatório da Folha de S. Paulo apontou que o ministério da Justiça não tem critérios funcionais para identificar o tamanho real da criminalidade brasileira. Apesar do alarde feito por Sergio Moro, os dados de homicídios nacionais registrados pelo Sinesp (Sistema Nacional de Informações da Segurança Pública) não são padronizados. 

O sistema, criado em 2012 e utilizado desde o último ano, contém apenas informações genéricas, incompletas e sem padrão. A ausência de dados claros e criados a partir de metodologias objetivas, naturalmente, prejudica a criação de políticas públicas para lidar com o tema.

Além disso, impede que o governo seja efetivo em seus gastos com segurança pública. Em último caso, dificulta a publicação de dados que apontem a realidade do país. 

Justiça seja feita, nem tudo é culpa de Bolsonaro. A Constituição afirma que cabe aos estados definir como será feito o registro dos homicídios. Seria, então, responsabilidade do Planalto, criar uma regulamentação nacional sobre o tema, garantindo que os dados sejam enviados ao Sinesp seguindo algum parâmetro em comum.

O brasileiro é muito doido 

Uma pesquisa do Datafolha revelou que boa parte dos brasileiros acham errada a conduta que Sergio Moro teve ao lado dos procuradores da Lava Jato. Entre os que já ouviram falar dos vazamentos da #VazaJato, apenas 31% dos entrevistados pelo instituto aprovam a conduta do ministro. Ainda assim, 54% das pessoas consideram justo Lula estar preso

Como é possível ver, ainda que os mais otimistas insistam, o brasileiro não quer ver as instituições funcionando. Ele quer mesmo é dedo no cu e gritaria para cima daqueles que ele não gosta. 

A caneta ficou sem tinta 

Quem lembra do acordo entre os três Poderes que o presidente queria fazer? Com direito a photo op e fala imbecil de Bolsonaro, o projeto tinha como objetivo tornar o diálogo entre as instituições mais forte e democrático. 

Não durou dois meses. No evento da troca da chefia do Comando Militar do Sudeste, Bolsonaro afirmou que não há a necessidade de um “pacto assinado no papel“. O importante, para Jair, é que ideias que “fujam ao populismo” sejam votadas. 

Seria mais útil ao país se o presidente abandonasse o seu próprio populismo de direita, que veste o seu corpo diariamente. Dizer que ele deve lealdade somente ao povo brasileiro é uma atitude que diz muitas coisas, inclusive que o abandono do populismo não faz parte da agenda do Planalto. 

Teorias da relatividade modernas 

Para o ministro Ricardo Salles, o Brasil já atingiu uma taxa de desmatamento zero. Segundo ele, não temos o zero absoluto, mas sim o “zero relativo“. Para fingir que o problema não existe, o ministro do Meio Ambiente torce números, compara a taxa de desmatamento com a sua proporcionalidade em relação à totalidade do bioma e transforma o corte de árvores desenfreado em uma construção social. 

O blog, seguindo a linha de raciocínio do ministro, aponta que ele é relativamente ruim e absolutamente péssimo. O governo Bolsonaro é relativamente horroroso e absolutamente inadequado a qualquer século após a chegada dos portugueses nestas terras. Da mesma maneira, este que vos escreve considera que a política ambiental atual é relativamente péssima e absolutamente digna de impeachment. 

Imperialismo a favor do meio ambiente 

O governo alemão reteve R$ 151 milhões que estavam destinados ao Fundo Amazônia. A iniciativa, que tem como objetivo prevenir, monitorar e combater o desmatamento na floresta com o apoio de dinheiro de gringo já recebeu, apenas dos germânicos, R$ 193 milhões desde 2008. O motivo? As merdas que o governo brasileiro fez e segue fazendo desde o começo do ano. 

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que tinha encontrado “inconsistências” no trabalho da equipe que faz a gestão do grupo (algo que as auditorias norueguesas e alemãs jamais encontraram). Além disso, o membro do partido Novo afirmou que desejava utilizar os recursos para realizar a compra de terras griladas em áreas de conservação ambiental.

Naturalmente, os europeus discordaram. Afinal, isso aí de dar dinheiro para quem comete crime deixar de cometer crimes não é bem aceito no mundo civilizado.

Há, inclusive, a possibilidade do fundo acabar de vez. Os embaixadores da Alemanha e da Noruega avisaram que esperam ver o BNDES ser mantido na administração da iniciativa, e que os projetos sejam executados considerando as diretrizes que já existiam antes do governo novo ser formado. É isso, ou os europeus levarão os seus euros para outros países. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Balbúrdias educacionais 

O ministro da Educação resolveu trabalhar, e anunciou que pretende tornar o Enem completamente digital até 2026. O processo, que será feito gradualmente, começará com 1% dos inscritos já em 2020. A considerar as dificuldades que o governo está enfrentando com o exame deste ano, o blog acredita que a frase correta seja “0,01% tentarão fazer o Enem digitalmente em 2019 e falharão miseravelmente por problemas técnicos.” 

Por outro lado, a prova deste ano, segundo o presidente substituto do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), já está pronta para ser impressa. Falta a prova virar documento, ser transportada e aplicada para milhares de estudantes sem que vazamentos ocorram. A ver.

O Ministério da Educação, por outro lado, ao concluir a informatização da prova, poderá utilizar boa parte dos servidores do Sisu para a sua aplicação. Afinal, dependendo do ritmo na queda da oferta de bolsas integrais para cursos presenciais pelo ProUni, é pouco provável que os recursos do processo de seleção de bolsas sejam utilizados por completo

Tonho da lua 1 x 1 generais do exército 

Alguém precisa continuar não segurando o Carlos Bolsonaro e, assim, permitir que ele continue minando as bases de apoio do governo federal. Durante a semana, o vereador que menos vereia no país foi ao seu Twitter atacar o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e culpá-lo pelo escândalo do aviãozinho presidencial. Mas, dessa vez, o tiro saiu pela culatra.

O general Luiz Eduardo Rocha Paiva, que faz parte da Comissão de Anistia do governo federal, foi ao Whatsapp (pois ser discreto é importante) chamar o filho pródigo de “pau-mandado do Olavo” e “idiota inútil ou útil para os esquerdistas“.

Briga de abobado é maravilhosa de se ver, até mesmo quando ela coloca o país na beirada do precipício. 

Keeping up with #VazaJato I: dando uma olhadinha supernormal 

Segundo O Antagonista, a Polícia Federal, de maneira técnica e totalmente democrática, solicitou ao Coaf uma análise das contas de Glenn Greenwald. A ideia é fazer um estudo sobre as contas do jornalista, e investigar qualquer valor que o relacione com a pessoa responsável pelos vazamentos da #VazaJato

Certamente a medida não tem nenhuma relação com Sergio Moro. O fato é que, em 2006, o Ministério Público processou um advogado que acusou ministro da Justiça de “agir com arbitrariedade e abuso de autoridade“. O ex-juiz jurou, na sua oitiva na Câmara dia 2, que nunca processou um jornalista. Deve ser verdade, já que ele pode sempre contar com a ajuda do MPF para vingar a sua masculinidade frágil.

Keeping up with #VazaJato II: fica de olho neste teu cu 

O ministro Moro deveria se curvar mais aos desejos de Jair Bolsonaro, caso queira manter a carreira política estável. Gente para ocupar o seu lugar não falta, a começar pelo juiz e bombadão da academia Marcelo Bretas, da Lava Jato carioca.

Em entrevista à BBC News Brasil, o magistrado afirmou que até recebe advogados e procuradores no seu trabalho, mas não dá conselhos a nenhum deles. Também avisou que não quer deixar uma marca na história do país e se esquivou de fazer um juízo sério do valor das mensagens da #VazaJato

Os concurseiros qualificados desta terra que tudo dá são ótimos em se colocar a postos para apunhalar o coleguinha quando é necessário. Incrível. 

Keeping up with #VazaJato III: mais um passeio de Moro na frente dos parlamentares 

A oposição até que tentou, teve até deputado voltando mais cedo para Brasília, mas não deu. A nova conversa de Sergio Moro com o poder Legislativo foi outro grand slam do ministro

Quando perguntado sobre o relatório das transações do jornalista Glenn Greenwald, algo super comum em regimes democráticos, desviou (atitude semelhante, por sinal, foi tomada pelo COAF e pela PF). Aliás, há gente no TCU achando que é apenas um teste de apoio da população aos desejos autoritários do governo

Moro repetiu que as mensagens são falsas, que não fez nada de errado e que, se as mensagens fossem verdadeiras, também não indicariam ilegalidades. Ainda acusou os supostos hackers de tentarem invalidar as condenações, como se alguém estivesse colocado uma arma na cabeça do ministro e mandado ele ficar de conluio com procurador.

Como o povo da Câmara não é lá muito educado, a conversa terminou em tumulto. Moro até tirou uma folga de cinco dias para descansar depois do bate-boca no fim da sessão. No Senado, onde o filho chora e a mãe não vê, Randolfe Rodrigues apresentou um requerimento para que o ex-juiz explique, juntamente com o ministro Paulo Guedes, se há ou não alguma investigação contra o jornalista americano.

Keeping up with #VazaJato IV: marketeiros à paisana 

Os procuradores da força tarefa da Lava Jato também se articularam para interferir nas eleições da Venezuela. Segundo o site The Intercept, o grupo, junto com Moro, planejou o envio de dados para a justiça venezuelana sobre a delação da Odebrecht, de um modo que tornasse o vazamento mais fácil.

Os procuradores especularam, inclusive, que a ação poderia trazer impactos para os brasileiros que vivem no país, gerando uma guerra civil. Tudo isso, pois, os acordos internacionais feitos pela justiça brasileira impediriam a Lava Jato de tornarem públicos os depoimentos dos executivos da Odebrecht.

Com ajuda da mão de Deus, um dos depoimentos acabou vazando não muito tempo depois de procuradores venezuelanos viajarem para o país. A ação certamente agradou Dalagnol, que apoiou as movimentações pelo simbolismo que um vazamento ilegal teria para o povo venezuelano, ainda que às custas de deixar a situação já caótica do país ainda mais confusa e violenta.

Keeping up with #VazaJato V: síndrome de Estocolmo 

Mensagens da #VazaJato revelaram, no dia 30 de junho, que os procurados da força tarefa da Lava Jato não levavam muito à sério as palavras do empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, sobre o triplex mais famoso do Guarujá. O ex-executivo é considerado um dos principais responsáveis por colocar Lula na cadeia, tendo em vista o impacto que seu depoimento teve nas investigações. 

Até aí, tudo mais ou menos. 

No dia 4 de julho, porém, diante das revelações feitas pela imprensa, Pinheiro enviou um bilhetinho à Folha afirmando que as acusações feitas ao ex-presidente eram totalmente verdadeiras. Negou, também, que as várias mudanças em seus depoimentos não ocorreram por ele estar louco para sair da cadeia. E por último, e não menos importante, disse que jamais foi pressionado para dar depoimentos que ajudassem os procuradores a colocarem algum grande petista na cadeia. 

A defesa de Lula não gostou, rebatou e criticou horrores as falas do ex-empreiteiro. Lembrou que as frases da #VazaJato contradizem o que ele disse à Folha de S. Paulo e as suas ações durante as investigações da Lava Jato. Não dará em nada, mas é divertido ver Léo Pinheiro falando tudo o que for necessário para sair da cadeia. 

Combate a corrupção: tem, mas só depois de amanhã 

Ninguém notou, mas Jair Bolsonaro confessou que o ministro Moro perguntou se ele deveria abafar as investigações de corrupção no alto escalão do PSL (o assunto por si só já seria um problema). Afinal, o que um presidente que jura combater a corrupção tem que saber sobre as investigações contra o seu próprio partido? 

Vale lembrar, também, que Sergio Moro não deveria ter tomado conhecimento do que estava acontecendo nas salas da Polícia Federal mineira. A investigação tramita sob segredo de justiça na 26ª Zona Eleitoral de Minas Gerais.

Além de todos esses detalhes (que por si só já seriam um escândalo) é importante lembrar que nenhuma instituição de controle se levantou contra as falas do presidente e o que elas representam. Há décadas a Polícia Federal, os Tribunais de Contas e o Ministério Público ganharam reforços para que trabalhassem como instituições do Estado, e não do governo da vez. Muitas vezes, aliás, trabalham contra o governante do dia.

Ao que tudo indica, basta que o governante não seja petista para a PF aguentar um fist fuck presidencial com um belo sorriso no rosto. 

A semana na reforma da Previdência I: batendo continência pro guarda de quartel 

A reforma da Previdência, aquela que seria votada por qualquer um dos candidatos a presidente em 2018 (e que passaria sem grandes esforços), finalmente teve o dedo do Bolsonaro. Não para acelerar a aprovação do projeto, claro, mas para que ele fizesse a única coisa que sabe fazer direito quando não está falando algum absurdo: lobby para milico. 

Após muito ser acusado de traidor pelos policiais civis e federais, o presidente entrou em campo pela sua base. Na tarde de terça-feira (2), Jair Bolsonaro atuou para modificar as mudanças nas regras de aposentadoria dos militares

Bolsonaro ainda colocou uma gag ball em Paulo Guedes só para garantir que a reforma seja ainda mais desidratada. Houve até parlamentar do PSL ameaçando votar contra o projeto caso o privilégio fosse deixado de lado (spoiler: não votaram).

Não adiantou muito. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o presidente da ADPF (Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal), Edvandir Paiva, chamou Jair Bolsonaro de frouxo, sem voz ativa e incapaz de colocar ordem no próprio governo. Ou quase isso

Edvandir afirmou que Bolsonaro “não consegue impor a vontade dele ao Ministério da Economia, e nós ficamos na mão.” Reclamou que, mesmo com ordens expressas de Bolsonaro, Joice Plagelmann e a equipe econômica articulavam no Congresso, corretamente, contra os interesses da categoria. Felizmente deu errado e o alívio ficou para depois 

O Brasil de 2019 é horrível: quando você percebe, está concordando com as atitudes da Joice e da equipe do Guedes. 

A semana na reforma da Previdência II: fazendo de conta que certos problemas não existem 

A outra parte da reforma da Previdência que é muito importante e que ficou de fora, é a reforma dos estados e municípios. Os líderes partidários falharam em chegar a um acordo sobre a inclusão dos funcionários públicos estaduais e municipais no projeto, mais uma vez

Há a chance de as mudanças na aposentadoria desses funcionários públicos serem inseridas, mas em etapas posteriores. Caso isso não ocorra, porém, todos os governos estaduais e municipais terão que encarar as suas reformas previdenciárias sozinhos. Vai ser divertido e vai dar merda, naturalmente. 

A boa memória para coisas ruins do governo Bolsonaro 

Não faz sentido pressupor que todo mundo que atuou no exército alemão durante os anos do nazismo era, necessariamente, nazista. Também não faz sentido dizer que os nazistas de verdade estavam na SS. São dois argumentos meio burros, e que só são reproduzidos por quem é desonesto ou ignorante. 

O exército brasileiro, porém, não tem o direito de ser qualquer um dos dois. Pelo contrário. 

A instituição coleciona momentos nobres em defesa do país, e igualmente esteve presente nas horas mais obscuras da biografia brasileira. Seria mais interessante, portanto, relembrar os 450 soldados da Força Expedicionária que foram enviados para ajudar a impedir que o nazifascismo tomasse conta do mundo, e não um brasileiro que atirou balas ao lado do exército alemão. Prioridades. 


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Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana com os toques sagazes da Marinna.

A Nova Era – semana #26: um governo que está só o pó da rabiola (e da coca)

The following takes place between jun-25 and jul-01


Narcos (2015) 

Na Nova Era, a série Narcos faz spin-off no Brasil. Na terça-feira (25), um sargento da Aeronáutica foi preso em Sevilha, na Espanha, com 39 kg de cocaína. O milico estava no grupo de apoio da viagem de Jair Bolsonaro ao G20, no Japão, e foi pego no flagra quando o avião fez uma escala no país.

Para o vice-presidente Hamilton Mourão, “uma atitude dessa natureza não brotou da cabeça” do sargento. Ok, homem cis geralmente pensa com a cabeça de baixo, e não com a de cima. Mas algo me diz que, nesse caso, não é correto afirmar que o militar utilizou a parte ao sul da linha do Equador na tomada de decisão.

O militar já esteve envolvido em 29 viagens oficiais, desde 2011. Acompanhou, portanto, Dilma Rousseff, Michel Miguel e Jair Bolsonaro. Foi preso na administração do terceiro, por mérito único e exclusivo da polícia da Espanha. Felizmente, apenas a militância abobada do presidente acreditou na ideia de que ele tinha alguma responsabilidade direta na prisão do traficante.

O apertado pescoço de Marcelo Álvaro Antônio

Na quinta-feira, o café do recepcionista de turista, Marcelo Álvaro Antônio. ficou mais amargo do que ele gostaria. A Polícia Federal anunciou a prisão temporária de três pessoas ligadas ao ministro, incluindo o seu assessor especial. Assim como o encarregado pela pasta, elas estão envolvidas no escândalo do Laranjal do PSL em Minas Gerais.

O ministro, naturalmente, nega que as suspeitas sejam verdadeiras. Jair Bolsonaro, por outro lado, não pede uma punição severa caso o ministro tenha cometido criminhos. Sabe como é, né? Bolsonaro foi eleito para combater a corrupção de todos (aqueles que se colocam contra o seu governo ou criticam as falas do guru da Virgínia).

Sobre o tema, o PSL acredita que a investigação tem seletividade e está voltada para atingir o partido. Há quem diga, inclusive, que Marcelo Álvaro já está utilizando dinheiro do partido para financiar camisas escritas #MALivre caso algo de errado ocorra.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Keeping up with the #VazaJato

A terça-feira da #VazaJato tem show de Glenn Greenwald na Câmara dos Deputados, e ele alertou os deputados, em especial a Carla Zambelli. Lembrou que a relação de Moro com os procuradores do MPF era semelhante a um espetáculo de BDSM e não perdeu a chance de dar pequenos tapas de luva nos abobados do PSL.

Mas o PSL não foi o único partido que praticou livre argumentação de absurdos. A deputada Policial Katia Sastre (PL-SP), afirmou que o jornalista americano deveria ser preso. Afinal, para ela, Greenwald “em conjunto com o hacker [que ninguém sabe que existe e/ou foi a fonte do material] cometeu crime [que ela não apontou qual seria]”.

Como uma pessoa que leva em seu nome político um cargo responsável por fazer valer a lei, a deputada & policial Katia Sastre, é uma péssima deputada e horrorosa membra do braço armado do Estado.

O cu de Deltan Dallagnol segue não sendo arrombado. O corregedor do Conselho Nacional do Ministério Público, Orlando Rochadel, mandou arquivar a investigação sobre as revelações da #VazaJato. Para ele, não há como comprovar a legitimidade das mensagens e tão menos existem “ilícito funcional” nas atitudes do procurador.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, discordou. Para ele, as mensagens, comprovadas a sua veracidade, são “graves” e revelam um “problema ético” capaz de colocar deputado ou senador no Conselho de Ética. Ou na prisão.

Como se as revelações de parcialidade e compromisso com a derrubada de todo o sistema político (começando pelo PT) não fossem já claras o bastante, no dia 29 soubemos que Deltan tentou acelerar ações contra Jaques Wagner “because fuck you, thats why“.

Vai dia, vem dia, e seguir discutindo se foi hacker ou não é tão importante quanto discutir o sexo dos anjos. Enquanto as matérias sobre as trocas de mensagens não atingirem quem realmente importa, Lula continuará sonhando com a mão amiga da ONU, já que o MPF quer ele preso por mais tempo.

Para todos os fins, pelo menos a gente não é a procuradora Jerusa Viecili, que mesmo percebendo como a Lava Jato atuava por dentro, insistiu, em vão, que os procuradores se manifestassem contra Bolsonaro durante as eleições.

Moro 3 x 0 Lula  

A terça-feira (25) foi movimentada no STF. Por iniciativa de Gilmar Mendes, a segunda turma do tribunal votou os dois pedidos que poderiam liberar o ex-presidente Lula. Ambos foram negados.

Sentindo-se muito cansados e direcionando a sua atenção para outras coisas, os juízes resolveram colocar a toga para descansar após as suas deliberações sobre Lula. Sai vitorioso, no final das contas Sergio Moro, que terá a sua suspeição julgada apenas após o fim de recesso, em agosto.

Sisu pela reforma da Previdência  

Na quarta-feira (26), o governo abriu o sistema digital de vários ministérios para os parlamentares que toparem votar a favor da reforma da previdência. Cada congressista poderá solicitar até R$ 20 milhões (R$ 10 milhões caso apoie na comissão especial da Câmara e R$ 10 milhões caso o apoio seja no plenário) dos cofres públicos. Os recursos podem ser direcionados para obras e investimentos como a construção de creches e redutos eleitorais.

É errado que o fez? Não.

É ilegal? Também não.

É o que o presidente prometeu fazer? Pelo contrário.

É divertido ver o governo realizar esse trabalho em troca da reforma? Ô se é.

Disaster artist

Bolsonaro anunciou, antes de embarcar para o Japão, que a sua agenda no G20 estaria cheia. As reuniões programadas incluíam os chefes de Estado e de governo de países como França, os EUA, China, Índia, Singapura, Japão e Arábia Saudita.

O que, a princípio, é uma ótima iniciativa. Para alguém que passou a vida pregando protecionismo, é louvável ver o esforço do presidente em integrar o Brasil com quem manda no planeta.

O problema é que Jair chegou em Osaka achando que os presidentes das outras nações aceitariam as suas falas com a mesma passividade de um entrevistador da Rede Record. Logo de cara, Emmanuel Macron sinalizou que poderia vetar acordos comerciais com o país caso o Brasil abandonasse o acordo climático de Paris. Já a alemã Angela Merkel disse que via com “preocupação” as medidas anti-ambientais tomadas pelo ministro do Meio Ambiente e o governo como um todo.

Em resposta, o presidente exigiu “respeito” ao Brasil (corta para Jair compartilhando vídeo de golden shower e falando em mamadeira de piroca nas escolas públicas) e que a Alemanha tinha muito o que aprender com o país. Não contente, também avisou que não foi para o outro lado do mundo para ser “advertido” por outras nações.

Augusto Heleno, o médium, encarnou o espírito de Enéas Carneiro e afirmou que a Alemanha tem interesse em explorar as florestas brasileiras. Perguntou, também, “quais são as florestas que o europeu preservou?” A resposta: proporcionalmente, muito mais do que o governo brasileiro. Inclusive enviando dinheiro para o nosso país fazer isso.

A Alemanha é um país que mantém, há mais de uma década, uma primeira ministra governando sem grandes dificuldades. Abriu as suas portas para refugiados de guerra, tem um PIB gigante e uma população absurdamente educada.

O país também preserva uma quantidade indecente de florestas e realiza pesados investimentos em tecnologia, educação e inovação. Além disso, sabe rememorar o passado sem comemorar os piores momentos da sua história como algo bom.

Ainda bem que eles só buscaram lições educacionais do Brasil nos livros do Paulo Freire.

Brincando de liberalismo e sustentabilidade

Uma boa forma de conseguir respeito de outros países é, de fato, se preocupar com o meio ambiente. Como apontou Philip Alston, relator especial da ONU para pobreza extrema e direitos humanos, o nosso presidente “prometeu abrir a Floresta Amazônica para a mineração, acabar com a demarcação de terras indígenas e enfraquecer as agências de proteção ambiental.” E fez isso.

Esperar que um conjunto de medidas contra o meio ambiente não gere críticas de quem se importa com a sobrevivência das florestas mundiais é uma postura típica do nosso presidente: alguém que age continuamente fazendo algo que todo mundo avisa que dará merda, e reclama que é criticado quando dá merda.

Quando o presidente parou de passear e foi lidar com os adultos na sala, a sua postura seguiu a de criança birrenta, como sempre. Bolsonaro cancelou o encontro oficial com presidente francês, Emmanuel Macron, para conversar com o centrista informalmente. Felizmente, Jair sinalizou o interesse de se manter vinculado ao Acordo do Clima de Paris.

No mundo das pessoas adultas, a coluna Painel S.A., da Folha de S. Paulo, informou que a CNI (Confederação Nacional da Indústria), fez um pesado lobby para garantir que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul virasse realidade. Os industriais trabalharam para neutralizar as ações da França, ainda que a aprovação do acordo possa levar a um aumento de concorrência no mercado interno.

Deu certo. Apesar de ter feito pouco pela sua finalização, Jair Bolsonaro pode voltar para o Brasil como o presidente que conseguiu concluir os trabalhos para a assinatura do tratado comercial entre a União Europeia e o Mercosul. E olha que o G20 começou com o Putin falando em decadência do liberalismo (com anuência do Brasil).

O acordo, que você pode ler o do governo aqui, é o resultado do trabalho de muita gente ao longo das últimas duas décadas. Diplomatas, ministros e presidentes de vários países costuraram os detalhes de cada artigo, produto e imposto que poderá ser comercializado com condições especiais. O Petit Journal explicou em alguns minutos os pontos mais importantes.

Sai vitoriosa a equipe do presidente, ainda que o seu trabalho tenha sido apenas impedir que a assinatura fosse enrolada por mais alguns anos. Também comemoram o tratado todos os agricultores e fazendeiros que agora poderão vender muito para os países da UE.

E, se eventualmente o acordo passar por todos os parlamentos que ele precisa passar para ser realidade, também ganha o Brasil, que terá acesso a champagne da França e mais motivos para cuidar das nossas florestas. Afinal, agora o governo brasileiro tem mais um documento para obrigá-lo a impedir madeireiro de derrubar floresta ilegalmente e empresário da indústria nacional de poluir horrores.

Saída à moda Collor

Após as consultorias técnicas do Senado e da Câmara afirmarem que o decreto que flexibiliza o porte de armas é ilegal, Bolsonaro tentou refazer a proposta, excluindo os pontos contraditórios. Como governante burro cercado de pessoas imbecis que ele é, enviou para o Senado outro texto inconstitucional.

Diante do empasse, o porta-voz da Presidência, general Otávio Rego Barros, negou que o governo revogaria a proposta ou colocaria qualquer tipo de empecilho para que a votação ocorresse no Congresso. Após o primeiro ministro virtual, Rodrigo Maia, avisar que deputados e senadores votariam pela derrubada da nova versão do projeto, Jair fez o que era mais certo, democrático e correspondente às suas afirmações anteriores e revogou o decreto por ele criado.

No lugar, o Diário Oficial da União publicou três novos decretos e um projeto de lei sobre o tema. O governo não explicou mais detalhes sobre os decretos e o PL, e a página ficou fora do ar após a sua publicação.

Imagina se existisse uma forma diferente de dialogar com o Poder Legislativo que não fosse travando a sua pauta com Medida Provisória.

A ideia de Bolsonaro não é burra apenas por ser ilegal, mas também pelos efeitos diretos e indiretos. Jair conseguiu criar antipatias até mesmo com as lideranças das casas que são simpáticas a um afrouxamento das leis de posse e porte de armas de fogo. Tudo por não ter um pingo de respeito com os ritos tradicionais (e legais) da política.

Indo além, não se pode esquecer que tentar impedir o livre funcionamento do Poder Legislativo é crime de responsabilidade. Mais precisamente, vai contra o art. 6º, 1, da Lei 1079/1950. Não é como se a gente já não tivesse derrubado presidente por muito menos (volta, Collor, a sua tentativa de liberalismo pelo menos foi mais sincera).


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Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana com os toques sagazes da Marinna.

A Nova Era – semana #25: melindrando esse amor gostoso

The following takes place between jun-18 and jun-24


Mamata congressual, a primer 

Levantamento da Folha de S. Paulo indicou que, em média, 26 deputados saem do país mensalmente para destinos nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Voltadas para dar aos parlamentares “acesso a novos conceitos, políticas públicas e experiências legislativas úteis ao Brasil”, as viagens custaram, entre janeiro de 2018 e janeiro de 2019, R$ 3,9 bilhões aos pagadores de impostos.

Até aí, tudo bem. Viajar sai caro.

O que a reportagem também aponta é que a boa parte dos destinos envolvem cidades turísticas como Dubrovnik, que foi utilizada para gravar “Game of Thrones”. Outro deputado aproveitou para visitar Lisboa e Fátima, em Portugal, com direito a fotinha ao lado da estátua de bronze de Eusébio, um famoso jogador português que eu não sabia que existia. Na Nova Era, a mamata se reproduz e posta no Instagram.

Uma monarquia para chamar de nossa 

Enquanto dava uma pausa nas brigas sem necessidade com o Congresso, o presidente resolveu, mais uma vez, nos lembrar como um país sem ele seria ótimo. No sábado (22), Bolsonaro afirmou que o Legislativo tinha excesso de poder e que tentava transformá-lo em “rainha da Inglaterra”.

O blog fica de coração quentinho ao pensar em um primeiro ministro como Rodrigo Maia, que não é o herói que queríamos para esse governo, mas é o herói que merecemos.

Bolsonaro completou a sua fala criticando a possibilidade de um projeto que transferia a parlamentares o poder de fazer indicações para agências reguladoras. “Imagina qual o critério que vão adotar. Acho que eu não preciso complementar.”

Um palpite bobo: seria um critério melhor do que o utilizado por alguém que fez do poder público um cabide de emprego para seus parentes, seus filhos e os seus colegas ligados à milícia carioca.

Por último – e não menos importante – o presidente complementou o seu absurdo do dia afirmando que não há a menor necessidade do pacto entre poderes que ele mesmo resolveu fazer: basta apenas existir um sentimento do coração e da alma para que exista harmonia entre os poderes. O oposto do que alguém que apoiou maluco autoritário nas ruas contra o STF e o presidente da Câmara faria.

Esta semana, na reforma da Previdência 

O presidente, que fez esforço para articular pela reforma da Previdência apenas quando ela afetou a aposentadoria dos milicos, avisou que vai coçar muito a rola pequena e feia dele quando o assunto for reincluir os estados e municípios no projeto. Os governadores, caso queiram, terão que se virar para convencer os congressistas da necessidade do projeto ser aprovado com validade para todos os níveis do governo. Um grande dia para os abobados que insistem que o presidente trabalha arduamente por ela.

A brilhante ideia de Jair veio acompanhada da apresentação de um conjunto de destaques pelos deputados do PSL, que favorecem os profissionais da segurança pública. O presidente da comissão afirmou que é “surreal” que os deputados façam lobby por corporações. O blog fica se perguntando em que lugar Samuel Moreira esteve durante as eleições para ficar surpreso só agora.

Pirocoptero na cara da nação

Durante a semana, a reserva imoral do governo, digo, a reserva moral do governo Bolsonaro, foi ao Senado prestar contas sobre as mensagens reveladas pelo The Intercept. A visita de Sergio Moro à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) foi o show de horrores esperado por todos. Mas, para ex-juiz, foi um grand slam.

O ministro da Justiça conseguiu responder com cuidado a todas as questões feitas, mas sem responder o que era perguntado. Não contente, fugiu de muitas tentativas de apará-lo pela rabiola, e avisou: se as mensagens que não existem (para ele) apontarem criminhos (elas apontam), ele sairá do cargo de ministro.

Moro venceu a batalha do Senado não por aquilo que ele disse, mas sim pelo que não disse. O ex-juiz conseguiu, por mais de sete horas, dar respostas evasivas e fugir do ponto das perguntas com uma habilidade malufiana (e olha que alguns senadores estavam preparados com materiais de toda sorte). Acusou 52 vezes o The Intercept de sensacionalismo e repetiu, como um marido que abusa psicologicamente de sua esposa, mais de 30 vezes que as relações entre ele e Deltan eram absolutamente normais.

Quando cansado de repetir tais argumentos, lembrou que o Estado de direito poderia ser jogado às favas se isso fosse contribuir com o combate à corrupção. Ou colocasse Lula na cadeia (era muito importante colocar Lula na cadeia (importante para caralho (vai dizer que você não queria o Luis Inácio na cadeia? (se falar que não, é petista))).

Não é que esse fosse exatamente o ponto dos debates. Não era. Mas o argumento ganhou valor por lembrar aos lava-jatistas que a defesa do ministro ainda é importante. No final do dia, as desculpas foram boas o bastante para o presidente, que é a pessoa que mantém o ministro, ministro.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Uma bombada pelo amor de Deus, uma bombada por caridade 

A nova semana da #vazajato começou mostrando que Sergio Moro adora um apoio importante. O site The Intercept revelou, na noite de terça (18), que o atual ministro articulou com o procurador Deltan Dallagnol para poupar o ex-presidente – e príncipe – FHC das investigações da Lava Jato

Para o ex-juiz, o apoio do professor era importante demais para que a força tarefa arriscasse investigá-lo (ainda que o sociólogo tenha aparecido em vários depoimentos). Já o procurador do MPF apontou que a eventual prescrição de alguns supostos criminhos era detalhe bobo. O importante, para Dallagnol, era a construção da imagem de imparcialidade. 

Em notas não relacionadas, ambos não tinham motivos para dar pitacos sobre o caso. Qualquer investigação que eventualmente fosse feita em relação ao ex-presidente, seria feita longe das asas de Dallagnol e Moro. 

Em relação ao que estava sob o seu domínio, porém, Moro não perdeu a oportunidade de meter os dedos. Como um fabricante de dados viciados, o ex-juiz articulou com Dallagnol a escalação de procuradores nos depoimentos da Lava Jato. Tudo para garantir que apenas a defesa fosse composta por pessoas que Moro não gosta.

A pedido do ministro da Justiça, Dallagnol pediu a Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos integrantes da força-tarefa da Lava Jato, a substituição da procuradora Laura Tessler do time que participava das audiências do processo de Lula. Para evitar problemas, o procurador também pediu que Carlos fizesse tudo com cuidado, evitando deixar qualquer sinal da sua ação e ignorando a ética que o seu cargo exige.

Na manhã de domingo (23), o ex-juiz acordou inspirado. Foi ao Twitter para postar “Um pouco de cultural. Do latim, direto de Horácio, parturiunt montes, nascetur ridiculus mus” (“As montanhas partejam, nascerá um ridículo rato”, em português). O rato, provavelmente, era o pedido de desculpas que o ministro enviou aos tontos do MBL.

No mesmo dia, Moro apareceu em uma nova notícia da #vazajato, dessa vez publicada pela Folha de S. Paulo, outro veículo a validar o conteúdo das mensagens. A matéria do impresso aponta como os procuradores se articularam com Moro para impedir que o STF ficasse ainda mais irritado com o juiz, que dias antes tinha recebido um tapa na testa do STF por divulgar, ilegalmente, áudios do ex-presidente Lula conversando com Dilma Rouseff.

O modo vanguardista (inspirado nas experiências italianas) das ações da Lava Jato deram aos concurseiros bonitas coroas de louros. A operação prendeu gente grande, recuperou uma boa quantidade de dinheiro e revelou um enorme esquema de corrupção. Agora, o que a #vazajato traz, para os agentes da lei, é a possibilidade de carregar uma maravilhosa coroa de espinhos.

Ganhará a democracia e o estado de direito se as devidas punições forem aplicadas àqueles que fazem tudo para prender quem se corrompe, inclusive se corromper.

Privacidade pra quem? 

Enquanto todo mundo se perde no meio da bagunça que o presidente promove, Jair Bolsonaro decidiu flexibilizar o compartilhamento de dados de beneficiários do INSS com o setor privado. A chamada MP do pente fino (MP 871), que estabelece novas regras para acesso a benefícios como aposentadoria rural e salário-maternidade, não proibirá bancos e sociedades com contratos ligados ao INSS de utilizarem os seus dados para publicidade direcionada.

O governo se defendeu lembrando que já temos uma lei que trata do uso de dados pessoais, o que limitaria esse tipo de ação. Portanto, devemos todos ficarmos despreocupados, afinal, o Brasil é um país conhecido por ter empresas que não abusam das leis existentes, respeitam a privacidade de seus consumidores e sabem cuidar muito bem dos dados de terceiros.

Um presidente para a nação evangélica 

Pela primeira vez em nossa história, um presidente da República foi à Marcha para Jesus. Bolsonaro apareceu no evento para lembrar aos religiosos presentes que o seu grupo foi “decisivo para mudar o destino do país”. Se bots e criadores de notícias falsas fossem capazes de sentirem algo, ficariam incomodadíssimos com a falta de gratidão do presidente.

Justiça seja feita, Bolsonaro deve mesmo muito aos evangélicos. Boa parte do grupo religioso se agarrou a Jair com a mesma vontade que pregos grudaram Cristo na cruz.

Há aqueles que viram a eleição de Bolsonaro como uma oportunidade de voltar aos espaços de poder. Já outros olharam para o político como alguém com um grau de receptividade que ia muito além de uma simples visita a um templo ou à afirmação de que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor.

Como apontamos no blog, assim como Donald Trump, o presidente é visto por muitos como um enviado de Deus na terra. Mesmo que, na prática, a teoria de um político que trabalha em defesa pela família seja falsa, Jair Bolsonaro conseguiu se sagrar como um verdadeiro representante dos “homens de Deus” nas eleições de 2018.

Mas não é preciso fazer um longo retrospecto das ações do presidente após seu mergulho no rio Jordão: o que se tem aqui é apenas mais uma aliança em busca de poder do que uma aceitação dos valores de Cristo.

Ao colocar “Deus acima de todos”, como se o gosto por fazer papai e mamãe com o pai de Cristo fosse universal, Jair Bolsonaro reassumiu o seu compromisso com as pautas morais evangélicas, indo contra qualquer processo de pluralização da sociedade.

E por não ter o menor compromisso com qualquer coisa que vá além de uma “verborragia moralista e antiesquerdista”, o presidente foi o candidato perfeito para um grupo que sonha em acabar com tudo que os apoiadores dos marcos civilizatórios das Luzes conquistaram após o fim da ditadura. Indo além, Bolsonaro também é o aliado perfeito para ampliar o projeto de poder de parte dos protestantes, que sonham em reduzir a influência da Igreja Católica nos processos políticos da nação.

Está dando certo. 

A Nova Era – semana #24: não fala que eu não te escuto

The following takes place between jun-11 and jun-17 


Direitos desumanos para humanos sem direitos 

A semana #24 do governo Bolsonaro começou com tudo. Na terça-feira (11), o presidente exonerou 11 integrantes do MNPCT (Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura). Mas espere! Isso não é um sinal de que o governo quer reduzir a capacidade esquerdistas de acusarem bem-intencionados agentes da lei de abusos contra os nossos detentos. Pelo contrário! Ele só quer deixar de pagar os responsáveis por tal atividade, já que essa coisa de trabalhar de graça dá certo em todo o planeta. 

Zema que o diga

Se você, assim como eu, não fazia a menor ideia de que o MNPCT existia (o governo é muito grande, parece o mar), segue o resumo. O órgão foi criado em 2013 com o objeto de estudar e fazer relatórios sobre violações de direitos humanos no país. Foram eles que avisaram às autoridades (in)competentes que o Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim) era um pequeno inferno na Terra. 

É importante reforçar que o governo nega que essa medida possa inviabilizar qualquer tipo de ação para combater a tortura dentro das cadeias. O fato do presidente acreditar que direitos humanos servem apenas para “humanos direitos”, certamente não deve ser visto como impulso para tal medida ainda que, na prática, ela inviabilize as ações do grupo. 

O Ministério Público estuda quais medidas podem ser aplicadas ao caso. Já a entidade Justiça Global denunciou o presidente à ONU

O jeito que o Supremo faz bagunça institucional é diferente 

Na última postagem, o blog avisou: basta um juiz mais amigo ficar de má vontade com Moro, que os advogados de defesa dos condenados pela Lava Jato poderiam sonhar com um final de semana tranquilo. 

Eis que, em um dos julgamentos da Segunda Turma do STF, Gilmar Mendes mostrou que ele pode ser essa pessoa. Ao lembrar da atuação de Rodrigo Janot no processo que estava sendo julgado, o ministro do Supremo afirmou que “juiz não pode ser chefe de força tarefa”. O que, bem, é a verdade. 

O importante, aqui, é que Gilmar não está sozinho. Pelo menos é o que revelou a coluna Painel, da Folha de S. Paulo. O jornal apontou que integrantes do STF e do STJ consideram as revelações da #vazajato a “pá de cal moral no veredito de Lula”. 

Resta saber, porém, até que ponto as instituições superiores considerarão os conteúdos do The Intercept como verdadeiros (e pesados) o bastante para anular as condenações da Lava Jato Afinal, fora da privacidade das entrevistas em off, gente como Barroso adota cautela. O ministro disse que não consegue entender a euforia de quem já fala em mudar a condenação feita pelo Moro, e que a Petrobras virou uma bagunça nas mãos do PT. Ou quase isso

A canetinha encolheu 

Não faz muito tempo, o presidente afirmou que a sua caneta era a mais poderosa da República. Só faltou a ele combinar com os russos, digo, os parlamentares. Em uma semana, o presidente acumulou uma boa quantidade de derrotas em cima das suas reais preocupações. 

Na quarta (12), o Senado avisou que o decreto que ampliava o porte de armas no país era ilegal. Por incrível que pareça, os Senadores as vezes lembram que a Constituição não é papel pra limpar urina de cachorro: decreto presidencial não pode alterar norma estabelecida por lei. Simples assim. 

Dos 24 votos, apenas 9 foram a favor da ideia imbecil do governo. O Major Olímpio, sempre muito ponderado, bradou que a recusa da MP gerará “festa na quebrada! Festa das facções!”. Faz o brasileiro pensar que a liberalização do porte nos levaria para o universo de uma revista em quadrinhos, em que ex-soldados se tornam justiceiros. Ou que somos todos capazes de fazer cosplay de John Wick. Não somos. 

No mesmo dia, a maioria dos ministros do STF deu um belo recado ao Planalto. Também não há como, por meio de decreto, extinguir os conselhos federais que estão previstos por lei (como é o caso da Comissão de Erradicação do Trabalho Escravo). 

Se o presidente quer, novamente, usar atalhos “à margem do figuro legal” em forma de canetada para golpear os avanços civilizatórios dos últimos anos, é melhor tentar outro caminho. Da forma que está, continuará dando errado – e não adianta falar que a culpa não é dele e que ele não teve tempo para aprender como o Congresso funciona.  

Na Lava Jato we don’t trust 

Como todo castigo é pouco para otário, o The Intercept continuou a série de vazamentos, agora, inclusive, com um novo aliado na apuração dos fatos. Na quarta (12), Reinaldo Azevedo divulgou em seu programa de rádio uma conversa entre Dallagnol e Sergio Moro. No papinho entre os dois concurseiros, Deltan informou que Luiz Fux, ministro do STF, mandou um belo “conte comigo pra tudo” para a Lava Jato.

Poucas horas depois, o The Intercept vazou mais alguns detalhes sobre como Deltan e Moro combinaram mais ações juntos do que aqueles casais que andam abraçados no supermercado. O ministro, por sinal, era bem fiel ao seu subordinado não oficial: segundo a Folha de S. Paulo, os advogados que trabalham na defesa dos acusados pela Lava Jato jamais tiveram tanta liberdade com o ex-juiz como o promotor do MPF tinha.

Bolsonaro, que foi a um jogo do Campeonato Brasileiro com o ministro da Justiça, seguiu calado sobre as notícias. Abrir a boca para falar sobre o tema, o presidente só abriria na quinta-feira (13). Disse que estava unido a Moro, e que o normal no Brasil é conversar “com doleiro, com bandido”.

Considerando a quantidade de criminhos que são cometidos no Brasil, é bem provável que seja verdade mesmo. Para o presidente – e a sua família –, por exemplo, é normal conversar com miliciano, empregar parente de miliciano, beijar a boca de filha de miliciano, morar perto de miliciano, passar pano para miliciano, tirar foto com miliciano e, nas horas não vagas, prestar homenagem para miliciano. 

Uma das coisas que as mensagens mostram – e que é divertido de ver – é a relação de submissão que Deltan tem com Moro (a ponto de outros procuradores ficarem incomodados com isso). O ex-juiz trabalhou como Relações Públicas da força tarefa e, no ambiente privado, não deixou de esconder a sua indisposição com a defesa de Lula

Ok, advogado não é gente e os do ex-presidente são mesmo um pé no saco. Mas não cabe a juiz fazer o que o ministro da Justiça fez. Não em uma república relativamente séria – o que não é lá bem o nosso caso, mas enfim. 

Enquanto Moro falava que tinha sido vítima de um ataque criminoso, a defesa do petista pediu a anulação da sua condenação com base nas provas ilegais (algo que Moro já tinha defendido anteriormente). O Nexo explicou

Para quem não anda com as bolas do lavajatismo na glote, ou simplesmente não é parte do conselho diretor do Grupo Globo, algumas coisas são claras. As revelações do The Intercept mostram, até o momento, que Moro e Deltan são péssimos em esconder as coisas que fazem naquela zona cinzenta entre o que é imoral e o que é ilegal

Os outrora defensores de vazamentos em favor do interesse público juram que as mensagens, antes normais, mas que eventualmente representam um descuido, são falsas – mas não indicam qualquer tipo de ilegalidade(???). Tudo isso com um olhar de ofensa que faz pensar que, na verdade, eles tiveram a sunga abaixada após saírem de uma piscina gelada.  

A #vazajato mostra que, de imparcial e compromissado com o combate à corrupção, os missionários da destruição não tem nada. Eles são, no máximo, compromissados com a sua própria agenda policialesca.

Isso não quer dizer, é claro, que não exista um grande grupo de pessoas dispostas a defender a síndrome de Batman tupiniquim de Moro em troca do “bem maior” (esta coisa não muito rara em terra brasileira). Mas, enquanto esse número não cai, o projeto anticrime e a ida de Moro ao Supremo Tribunal Federal estão virando miragem no horizonte de expectativas do ex-juiz. 

Defender que as condenações sejam revistas não é defender que gente que tem tudo para ser bands não é bands. É apenas desejar que todas as pessoas – poderosas ou não – sejam julgadas por um juiz que respeita os seus códigos de conduta no lugar de um que orienta como a acusação deve trabalhar o tempo todo e que considera as ações da sua defesa um “showzinho”. Até Maluf, o filhote mor da ditadura, merece isso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

A mentira da semana do Bolsonaro 

Após o STF criminalizar a homofobia, Bolsonaro afirmou que isso dificultaria a contratação de gays (??). A corte, para o presidente (que não acredita em classes), aprofundou a divisão de classes com a medida. Para Jair, não há a necessidade de criminalizar este ato de preconceito pois “a pessoa que discrimina, por si só vai ser deixada de lado” (corta para ele sendo eleito presidente). 

A bobajada do presidente, para variar, não se sustenta na verdade. Um estudo da consultoria McKinsey registrou que empresas com alta diversidade tem 33% mais chances de lucrarem. Diversidade e respeito a quem pensa diferente vende. Vende mais até do que licença de programa para gerenciar bot de Twitter em época de campanha. 

Dança dos poderosos I 

O governo Bolsonaro já pode pedir música no Fantástico por um novo motivo. O (agora) ex-ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz foi demitido da Secretaria de Governo, se tornando o terceiro membro do alto escalão a perder um cargo. Mais uma vez, alguém caiu por manter atritos com o Guru da Virgínia e o filho do presidente que exerce vereança no Rio de Janeiro e acha que conhece código morse.

presidente Carlos Bolsonaro, com a ajuda de Olavo de Carvalho, cozinhou Santos Cruz em banho maria por meses após ataca-lo nas redes sociais. Um dos motivos? O general não queria gente ligada ao núcleo olavista do governo metendo as mãos nos contratos da Secom e na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). 

Santos Cruz foi trocado por Luiz Eduardo Ramos, chefe do Comando Militar do Sudeste.  Ramos, que é pouco acostumado às práxis das articulações políticas, será responsável por articular politicamente o governo com os outros poderes

O novo ministro também terá novos poderes, antes não reservados a Santos Cruz. O general poderá barrar qualquer nomeação de segundo e terceiro escalão do governo. Isso inclui, mas não se limita, a todos os reitores que forem eleitos nos próximos anos pelas suas respectivas comunidades acadêmicas. 

Dança dos poderosos II 

O general Santos Cruz não foi o único que saiu do governo nos últimos dias. O perigoso Joaquim Levy, conhecido pela sua defesa das ideias marxistas em lugar nenhum, cansou de ser humilhado publicamente por Bolsonaro e pediu para sair. 

O pedido de demissão ocorre dias após o presidente falar que a sua cabeça estava à prêmio por cometer o crime de contratar alguém que, assim como Levy, também trabalhou para governos petistas. A fala de Bolsonaro, por sinal, foi acompanhada da compreensão e do ombro amigo de Guedes – direcionado para o presidente

Em notas não relacionadas, o ex-presidente do BNDES não estava demonstrando muita disposição em fazer photo-op com Bolsonaro para mostrar que a já aberta “caixa preta do BNDES” estava sendo aberta pelo seu governo. 

Também em notas não relacionadas, Joaquim Levy estava resistindo aos pedidos de Paulo Guedes para “despedalar” o banco em um ritmo maior do que aquele que estava sendo mantido desde o governo Dilma. Pois, ao contrário do que parte da atual base do governo tenta dizer nas suas tentativas de reconstruir a história, as pedaladas estão em processo de reversão desde antes do impeachment. Só não ocorreram em um ritmo que quebraria a viabilidade financeira do banco público. 

Entra no lugar de Joaquim Levy o sócio-diretor do BTG Pactual, Gustavo Montezano. O jovem tem pouca experiência com bancos públicos, alguma experiência com o mercado financeiro e muita experiência em fazer bagunça

Dança dos poderosos III 

Continuando a lista de pessoas que perderam carguinho no governo, temos o general do Exército da reserva Franklimberg Ribeiro de Freitas. Após pressão dos ruralistas, o militar foi removido da presidência da Funai.

Mas, ao contrário de Levy, Freitas não saiu pelas portas dos fundos. O que se viu na sua despedida foi um belo espetáculo de raiva

Em reunião com os servidores da fundação, Freitas disse que Bolsonaro está muito mal assessorado (o que não é mentira). Também acusou o cidadão Nabhan Garcia, secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, de falar sobre indígenas salivando ódio (o que deve ser verdade). Por último (e não menos importante), o general lembrou que a Funai é vista “como óbice ao desenvolvimento nacional” por boa parte do governo (o que definitivamente não é mentira). 

Dança dos poderosos IV 

Por último – e não menos importante – na nossa lista de novos frequentadores do RH do governo federal, temos o agora ex-presidente dos Correios. O general Juarez Aparecido de Paula Cunha foi demitido por cometer o crime de se comportar como “sindicalista”

Comportar-se como sindicalista, no caso, é falar que não quer a empresa pública que governa ser privatizada e tirar foto com alguns parlamentares de esquerda. O presidente, via de regra, contrata e demite quem ele quiser para os cargos que ele pode contratar e demitir a qualquer momento. A presidência deu a ele esses mimos. 

Mas é bem divertido ver o homem que chegou ao cargo político mais alto do país prometendo “desesquerdizar” a administração pública ser incapaz de contratar alguém para presidir uma empresa que ele quer privatizar que seja simpático a essa ideia. A internet está cheia de internautas que desconhecem como funciona o mercado de logística nacional, mas são loucos para acabar com a estatal. 

Até porque, ver o presidente não reconhecendo que pessoas podem viver em uma democracia pensando diferente de maneira harmônica é algo que não surpreende ninguém. Não quem acompanha minimamente a carreira dele desde os anos 1990. 

Imagine o que será do Planalto quando Jair souber que o general Luiz Eduardo Ramos tem proximidade com políticos de esquerda do PT e do PSOL.

E a reforma, hein? 

A reforma da Previdência andou mais um pouco, novamente à revelia das ações do Planalto. O relator do projeto, o deputado Samuel Pereira, apresentou o seu texto com sete mudanças em pontos críticos do texto que foi enviado por Paulo Guedes. O Nexo compilou todas as mudanças propostas pelo tucano

Se você não clicou no link (ou caiu no paywall), eis um resumo. Saem as mudanças na aposentadoria rural e no Benefício de Prestação Continuada. A desconstitucionalização da Previdência (importante para facilitar as reformas do futuro) ficou para outro dia. Faltou trocado nos bolsos da Câmara para isso. 

E o regime de capitalização, a tiete de Paulo Guedes? O vento levou. Estados e municípios na reforma? Se continuar assim, terão que fazer a tarefa em casa. Por último, e não menos importante, o relator afirmou que, a depender da sua vontade, professores se aposentarão com 57 anos. 

Ao anunciar o acordo partidário que permitiu a tramitação da reforma, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, não deixou de gastar elogios a Guedes, ao relator, aos líderes partidários, ao homem fantasiado de cachorro que passou uma tarde no prédio da Câmara, aos seus assessores e até mesmo à oposição. Afinal de contas, é importante valorizar todas as pessoas que de fato ajudaram na construção do texto

A reação do ministro da Economia, porém, mostra que os tempos do Chile de Pinochet deixaram marcas profundas na alma do ministro. O todo poderoso economista, em vez de agradecer a apresentação do relatório, afirmou que os parlamentares “mostraram que não há compromisso com as novas gerações. O compromisso com os servidores públicos do Legislativo foi maior do que com as novas gerações”

Vamos recapitular. O governo conseguiu colocar para votar um relatório A FAVOR da mais profunda reforma da Previdência da nossa história. Um projeto que não consegue apoio fácil nem nas mais autoritárias ditaduras. O ministro responsável pelo projeto reagiu reclamando que os políticos fizeram política para aumentar o apoio à proposta

Este governo é uma “usina de crises” e a base de geração energética é nuclear. 

E agora, para algo completamente diferente 

No começo da semana, Jair Bolsonaro criou um belo mecanismo anti-impeachment para o seu governo (e as outras esferas do executivo). Enquanto o decreto for válido, o TCU, sempre que desejar tomar qualquer tipo de decisão sobre as eventuais irregularidades praticadas por um agente público, deverá considerar “circunstâncias práticas que impuseram, limitaram ou condicionaram a ação do agente público”. Em caso de responsabilização, os atributos e as complexidades do cargo exercido pela pessoa sub judice também deverão ser levados em conta. 

Indo além, também decretou que o agente público só poderá ser responsabilizado por decisões e opiniões técnicas que forem emitidas caso ele “agir ou se omitir com dolo, direto ou eventual, ou cometer erro grosseiro, no desempenho das suas funções”. Erro grosseiro, no caso, será considerado “aquele manifesto, evidente e inescusável praticado com culpa grave, caracterizado por ação ou omissão com elevado grau de negligência, imprudência ou imperícia”. 

Eu pagaria um café com Dilma Rousseff apenas para ouvir o que ela pensa sobre esse decreto e o que acontece com quem demite o Levy. 


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #23: país rico é país sem brasileiro

The following takes place between may-04 and jun-11


As notícias que parecem da semana passada, mas não são 

Em 23 semanas de Nova Era, algumas coisas se tornaram repetitivas. Então, vamos começar uma pequena sessão aqui no blog focada apenas nesses pontos, pois já está bom de repetir o mesmo argumento toda semana. 

Vamos começar com gente do Legislativo apontando como o governo é muito ruim, até em fazer o básico do básico. Na noite de domingo (02), por exemplo, Rodrigo Maia afirmou que falta ao Planalto uma agenda para o Brasil, que aumente a produtividade da economia, crie empregos, dê remédios a quem precisa e melhore a qualidade da educação. 

O carioca também negou que o pacto dos três poderes foi fechado, afirmando que “o Onyx Lorenzoni avançou na informação sem uma construção política amarrada. Ele entregou um documento, ninguém leu, e ficou parecendo para a sociedade e a imprensa que a gente fechou aquele pacto. Zero verdade nisso.” 

Já Alcolumbre disse que o governo comete trapalhadas diariamente, e tirou do Planalto os méritos de uma futura aprovação da Reforma da Previdência. O que não deixa de ser verdade, uma vez que o próprio Bolsonaro acha que, uma vez entregue um projeto ao Congresso, ele deixa de ser problema do Planalto.

Como os bots do Bolsonaro tiram folga no final de semana, não teve hashtag no Twitter atacando Maia ou Alcolumbre. Também é possível que os responsáveis por acionar as postagens em série tenham se lembrado que precisam engolir ambos por mais dois anos.

Fazendo coro a Maia, o presidente da comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, Marcelo Ramos, também lembrou que falta a noção de prioridade para Bolsonaro. No seu Twitter, o deputado se queixou que Bolsonaro visita a Câmara para mudar o Código de Trânsito, mas não para ajudar na aprovação da reforma. Não é como se a aprovação do projeto estivesse garantida

Os militares seguem atuando como a voz moderada do governo. Segundo apontaram Vinicius Sassine e Bernardo Mello Franco, os generais próximos a Bolsonaro continuam tentando fazer o presidente deixar de ser um fantoche dos olavistas. 

Por fim, o PSL segue sendo uma bagunça. Na última semana o Major Olímpio, líder do PSL no Senado, partiu para cima da Joice Plagelmann (frase não literal), líder do governo no Congresso. O bate boca ocorre após o partido não cumprir o acordo firmado entre os seus membros, logo na primeira sessão conjunta das casas legislativas

Certas partes do noticiário se tornaram uma temporada da série Russian Doll. A diferença, aqui, é que morremos apenas de desgosto no final do dia. 

Never go full Ayn Rand 

Bolsonaro andou lendo A Revolta do Atlas, e o resultado vai te surpreender. Na terça-feira, o presidente atravessou as ruas de Brasília, bateu nas portas do Congresso, e entregou um projeto de grande importância para o cenário atual: um conjunto de alterações no Código de Trânsito Brasileiro

Se tudo der certo (para o “governo do revide”), em alguns meses o Brasil será o país em que: 

O presidente, que já anunciou o fim dos radares nas estradas federais dizendo que “ninguém é otário de fazer curvas em alta velocidade”, afirmou que os pais são completamente responsáveis e sabem que é importante levar os filhos em seus carros utilizando a cadeirinha.

O blog considera fofa a fé que Jair tem na inteligência do brasileiro, principalmente por terem sido as pessoas que nasceram na Terra de Santa Cruz as responsáveis por darem a ele cargos eletivos nas últimas décadas. 

Felizmente não há boa vontade dos agentes políticos brasileiros em apoiar essa sandice. Paulo Douglas, que é um dos autores da Lei do Descanso dos Caminhoneiros, chamou o texto de retrocesso imenso, e pretende contestá-lo na justiça.

Já a deputada Christiane Yeared, da base do governo, lembrou que, no mundo real, multa sai mais barato do que caixão. Também afirmou que, o custo das lágrimas que escorreram pelo rosto dela após o filho dela ser atropelado por um ex-deputado certamente deve ser menor do que o de uma cadeirinha infantil.

Houve liberal que apoiou a ideia do presidente, baseando-se no argumento de que o Estado não deve impedir alguém de ser imbecil. Houve também aqueles que afirmaram que as pessoas são completamente capazes de não colocarem a própria vida (e a vida de seus filhos) em risco.

Afinal de contas, qualquer pai responsável compraria cadeirinhas para as suas crianças após vaciná-las no posto de saúde mais perto de sua casa. Não é como se existisse gente por aí dando alvejante para os seus filhos.

Também houve aquele que confia plenamente na mão invisível do mercado, e disse que as empresas não contratariam motoristas que dirigem com o cu cheio de rebite. Todos falharam em informar como o resto da população se protegerá dos motoristas que não dirigirem sóbrios (responsáveis pela morte de muita gente), e de onde sairão os recursos para as crianças com pais pouco cuidadosos comprarem as suas próprias cadeirinhas. Elas pouparão o dinheiro da merenda para se protegerem por conta própria?

Cabe aos liberais (ou libertários) tupiniquins pararem de ir full Ayn Rand na defesa das suas ideias. O brasileiro é, foi, e continuará a ser muito burro. Basta lembrar o que jornalistas falaram quando o Maluf disse que não é legal andar por aí soprando fumaça no coleguinha.

Aliás, volta, Maluf! Entre um filhote da ditadura que comete corrupção de pobre e um que comete corrupção de rico, mas sabe que liberalismo não é bagunça, eu fico com o segundo. 

Liberalismo: tem, mas desgringolou

A história do liberalismo no Brasil é escrita em linhas mais tortas do que o traçado da BR 381. Quando não há gente falando que protecionismo econômico é livre mercado, os guardiões da Constituição resolvem apoiar a busca por atalhos para aumentar a liberdade econômica nacional. 

Pelo menos é essa a impressão que o STF passou ao liberar a venda de subsidiárias de estatais sem o aval do Congresso. Ignorando o que diz a Constituição brasileira, os gloriosos ministros fizeram um rebosteio argumentativo para justificar a possibilidade de o governo vender uma empresa, de maneira até então ilegal.

Veja bem, o blog não tem nada contra a venda de empresa pública. A depender dele, uma boa parte das estatais deixariam de existir, começando pela Infraero (vendam a Infraero. Eu não aguento mais a Infraero).

Mas se o governo quer mesmo sair por aí sendo malvadão e promover o desmonte da máquina pública, que o faça da maneira correta. Que mandem um projeto para modificar a lei vigente e, com isso, reduzir as chances de outras vendas pararem na justiça.

Pedir para o STF legislar só diminui (em vez de aumentar) a segurança jurídica que é necessária para avançar o processo de desestatização, que começou lá com o Collor. Não custa nada a Corte mudar de ideia e, em alguns anos, avisar que não pode mais vender subsidiária da Petrobrás sem o apoio do Congresso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Liberal na economia, conservador de ideias ruins em tempo integral 

Bolsonaro lembrou que existem outros países na América Latina além da Venezuela. Após viajar para comer fast food nos EUA e falsificar a história em Israel, o presidente passou um tempinho na Argentina contando novas mentiras.

Na visita, Bolsonaro pediu que os nossos hermanos votassem “com muita razão e menos emoção“. Afinal de contas, já basta ele como imbecil de marca maior ocupando um cargo importante na região.

Após demonstrar que a educação da ditadura militar não é das melhores, o presidente anunciou um novo desejo imbecil: a criação de uma moeda comum entre os dois países, o “peso real”. A ideia é tão ruim, mas tão ruim, que fica difícil comentar sobre. Felizmente, o Banco Central do Brasil avisou que isso não é algo a ser levado a serio. Mesmo assim, Jair insistiu na ideia.

O fato é que a saga do presidente para destruir tudo o que foi criado após a ditadura não tem fim. Se o próximo alvo é o Plano Real, que finalizou com a hiper-inflação crônica do país, o blog, na posição de tiete do Plano Real, considera isso um motivo para impeachment.

No dia do meio ambiente quem derruba árvore é você 

O leitor sabia que o desmatamento é a questão ambiental que mais preocupa o brasileirinho? O blog não. E, a julgar pelas medidas tomadas pelo ministro do Meio Ambiente, o chefe da pasta também desconhece o dado.

Segundo a pesquisa global Earth Day 2019, o tema é mais importante até do que o aquecimento global. A informação foi divulgada na mesma semana em que o governo afirmou que insistirá em aprovar as mudanças no Código Florestal, que o Senado já falou que não quer fazer. Se sobrar tempo, Bolsonaro também tentará encontrar uma forma de extinguir parques ambientais por decreto.

Mas essa não é a única medida do governo brasileiro nas últimas semanas com a desculpa que ele não pode atrapalhar o coleguinha a destruir floresta. Veja algumas das coisas que o blog esqueceu de citar sobre a atuação do ministro, acusado de improbidade administrativa:

Não é de surpreender que o desmatamento da Amazônia tenha explodido nos primeiros meses de 2019. Quando Bolsonaro diz que a missão do seu governo é “não atrapalhar quem quer produzir“, ele está apenas tendo um impulso de sinceridade e humildade. No que depender da sua administração, a Amazônia se transformará em uma grande mistura de pasto e plantação de soja. Transgênica e com muito agrotóxico, se possível. 

E se depender do ministro responsável por cuidar do Meio Ambiente e do agronegócio nas horas vagas, não sobrará um centavo para as atividades que garantirão um futuro com ar respirável para os nossos filhos. Nessas horas, cabe a gente comemorar a existência de Sergio Moro. O ministro da Justiça liberou mais verba para o FDD. O aumento de 1.650% nas verbas auxiliará na criação de um modelo de avaliação de riscos para o uso de agrotóxicos no Brasil, e reduzir o impacto causado pela sua aplicação no meio ambiente

A Alemanha já notou que Bolsonaro só quer beber agrotóxico e cortar árvore. Os europeus avisaram que, a depender dos movimentos dos próximos meses, a sua carteira ficará fechada para o financiamento de um dos mecanismos mais antigos de proteção a floresta da Amazônia. A Noruega também já está mexendo os seus pauzinhos para impedir o governo de continuar a fazer merda.

O presidente pode continuar mentindo por aí e falando que o Brasil é um país que protege o meio ambiente com muito afinco. Enquanto existir imprensa livre nessa nação, poderemos acompanhar com cuidado as incisivas tentativas do seu governo para acabar com o nosso futuro.

A mulher de César caiu na net 

Há um ditado que diz que, a mulher de César não só deve ser honesta. Ela também deve parecer honesta. O blog, inclusive, já se utilizou dele para fazer título de postagem. Os membros da operação Lava Jato e o ministro Sergio Moro deveriam conhecê-lo.

Na noite de domingo (09), a versão brasileira do The Intercept começou a publicação de uma série de reportagens detalhando as relações entre Deltan Dallagnol e o atual ministro da Justiça. O material, colhido por uma fonte anônima, mostra como o ex-juiz aconselhou o funcionário do MPF, as articulações dos servidores públicos para impedir que o ex-presidente (e agora portador de um pau duraço) Lula desse entrevistas, e até mesmo as dúvidas que os concurseiros tinham sobre a sua capacidade de mostrar que o petista era o dono do tríplex mais famoso do Guarujá.

A força-tarefa da Lava Jato logo publicou uma nota em que não desmentia o conteúdo das publicações do site de Glenn Greenwald. Também afirmou que elas não revelam qualquer ilegalidade (mas nada falaram sobre o nível de ética das articulações feitas com o apoio do ministro da Justiça).

Os concurseiros também afirmaram que a sua atuação foi revestida de “legalidade, técnica e impessoalidade”. Marco Aurélio Mello discorda.

O mesmo MPF também afirmou que a pessoa responsável pelos vazamentos “praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público, à vida privada e à segurança” dos investigadores. Imagina se os servidores do órgão tivessem a mesma opinião quando alguém resolve divulgar conversa de jornalista com fonte, hein?

Os servidores públicos (que regularmente forçam a barra no entendimento da lei) também afirmaram que foi uma injustiça não terem sido contactados pelo Intercept antes da publicação da notícia. É sempre bom lembrar que a liberdade de imprensa existe e, em geral, empresa privada não é obrigada a seguir as vontades de concurseiro.

A força tarefa se queixou que os jornalistas do Intercept não são imparciais, algo que qualquer estudante de comunicação social do primeiro período do curso sabe que não existe. Imparcialidade, aliás, é devida aos juízes, que não devem prestar serviços de consultoria jurídica nos sábados, domingos e feriados.

Indo além, afirmaram que ultrapassar os limites de respeito às instituições e às autoridades é algo que prejudica a sociedade em vários níveis. Quem vê pensa que os concurseiros estavam falando daquele vazamento de ligação da Dilma com o Lula uns anos atrás.

Jornalista tem mais é que vazar dado de interesse público mesmo. O próprio Dallagnol já reconheceu isso quando foi de seu interesse, e da mesma forma, Sergio Moro lembrou que não podemos culpar jornalista por divulgar material vazado por terceiros.

Sergio Moro disse, no Twitter, que há “muito barulho”, e que uma “leitura atenta revela que não tem nada ali, apesar das matérias sensacionalistas”. Afinal de contas, o responsável por julgar criminhos orientar as pessoas responsáveis por apontar quem comete ilegalidades a fazer o seu trabalho é super normal.

Se os envolvidos no escândalo queriam parecer honestos e imparciais, o fizeram muito mal. Se parabenizar após uma manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff, afirmar que quer “limpar o Congresso,” e indicar até a ordem correta para a realização de operações está longe de ser algo ético. E não é só o blog que diz isso: a OAB também achou as ações dos funcionários do judiciário muito feias, e pediu que eles se afastassem até que tudo fosse esclarecido.

Gilmar Mendes, aquele que pouco fez nos últimos anos para impedir que operações contra a corrupção não chegassem em poderosos, já avisou que “o fato é muito grave”. Também tirou a bunda de cima do processo que questiona a suspeição do Moro.

O Congresso já se articula para usar uma CPI para ouvir o ministro da Justiça, e discute se há a necessidade de quebrar sigilos. Enquanto isso, Toffoli, Alcolumbre e Maia se reuniram para discutir as publicações do Intercept.

Não me assustaria saber que, entre a noite de domingo e a hora da publicação deste post, muita gente presa na carceragem da PF em Curitiba gozou gostosamente, lembrando que, no artigo 254, inciso IV, do Código do Processo Penal, está registrado o “juiz dar-se-á por suspeito, e, se não fizer, poderá ser recusado por qualquer das partes se tiver aconselhado qualquer das partes”. No país da Operação Satiagraha, qualquer passo em falso é motivo para gente poderosa ficar longe da cadeia.

Até o momento, isso não aconteceu. Muitas das coisas que foram reveladas pela Lava Jato são tão sólidas quanto a água que serve de apoio para os patinhos do sítio de Atibaia nadarem.

Porém, os alicerces para bons advogados saírem por aí questionando a atuação de Moro e seus amigos começaram a ser cavados apenas nessa semana. Vai ser divertido acompanhar o Reinaldo Azevedo fazendo pirocoptero na Band News, enquanto o Intercept revela os outros 99% que sabe.

Vale lembrar que a frase “o juiz brasileiro, na fase de investigação, tem uma postura passiva, apenas examinando pedidos da autoridade policial, do Ministério Público e da defesa, como também o faz durante a fase de tramitação da ação penal” veio do mesmo servidor que foi pego com uma postura ativa, auxiliando e cobrando pedidos do Ministério Público para dar mais força às suas acusações. As revelações, portanto, podem não ter um impacto jurídico imediato, mas certamente representam um baque para aqueles que pretendiam manter a opinião pública ao seu lado.

Em notas não relacionadas, o Dallagnol responderá a uma acusação de atuação política e quebra de decoro em um processo administrativo instaurado pelo corregedor nacional do MP, Orlando Rochadel. Por incrível que pareça, a notícia publicada pelo Painel da Folha de S.Paulo informa que o processo em nada tem a ver com o escândalo da semana: a acusação se refere às postagens feita pelo procurador durante as eleições para a presidência do Senado no começo do ano.

Para todos os fins, a gente pode sorrir pensando que não somos o Padilha. Imagina como deve estar dormindo o diretor ao saber que investiu dinheiro na escrita e gravação de várias cenas para o seu seriadinho mostrando o ex-juiz conversando com gente da PF e do MPF sobre o andamento dos processos quando o certo mesmo teria sido só mostrar uns prints de telefone?


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Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #12: imbecis de primeira classe

A Golden Shower Tour foi tão incrível que merecia um post só para ela, mas como esse é um resumo de toda a 12ª semana do governo, iremos um pouco além.


Golden shower intensifies

Depois de fazer durante o Carnaval um cursinho preparatório sobre o que o presidente Trump gosta, Jair Messias chegou à capital dos EUA no domingo (17), e fez uma visita de três dias. Vamos ao resumo dessa tour do horror e vergonha alheia:

Assusta ao blog, um presidente que pretendia colocar o “Brasil acima de tudo” ceder tanto por tão pouco. Bolsonaro lambeu as bolas de Trump tão bem, mas tão bem, que pode trocar o apelido de águia para Stormy Daniels.

A mudança na política de vistos, por sinal, é algo pouco comum. Pode ser apenas um “choque de realidade” e pragmatismo do governo, mas, no final das contas, não é como se os moradores desses países tivessem tanto interesse em vir passear no Brasil, ou houvesse alguma dificuldade para isso, quando desejam.

O mesmo vale para a base de Alcântara. Não temos tecnologia para construir os nossos foguetes e, se fossemos buscar apoio de outras nações que não a norte-americana, ainda precisaríamos do apoio de Trump (considerando que o Congresso fosse liberar a integração).

Para todos os fins, mesmo com a Fox News apontando os laços do presidente com bands, é possível dizer que Bolsonaro se deu até relativamente bem com o passeio em solo americano.

No Chile, o presidente se reuniu com Sebástian Piñera e outras pessoas relevantes para discutir a criação do Prosul, um bloco que promete ser tão irrelevante quanto a Unasul. A visita foi boicotada por parlamentares do país.

O boicote aconteceu após o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, elogiar Pinochet e dizer que, apesar do “banho de sangue” promovido pelo ditador, a economia era até boa. Pegou mal, e olha que a gente já chegou lá com o filme meio queimado.

Rio de Janeiro, a Sin City brasileira

E o Rio de Janeiro, hein? Linda, a cidade (e o estado) não continuam.

Além de ser terra de milicianos e dos traficantes mais perigosos e loucos do país, o Rio de Janeiro também é um celeiro de gente corrupta. Me faz até dar razão a Marcelo Crivella.

Enquanto eu escrevo este texto, é possível afirmar que todos os governadores (eleitos e vivos), estão na prisão, ou já passaram alguns dias dentro de uma cela, com exceção de Benedita da Silva. O mesmo vale para os presidentes da Assembléia Legislativa estadual: os que ocuparam o cargo entre 1995 e 2017 também foram presos.

No Tribunal de Contas, a situação não é muito melhor: em 2017, 5 dos 6 conselheiros foram parar na cadeia. Já 6 dos 70 deputados que deveriam bater ponto na Assembleia estavam presos no dia em que deveriam tomar posse.

O blog insiste que a solução para o Rio de Janeiro é a mesma do Brasil: vender todo o terreno e transformá-lo em um grande parque de diversões e turismo ecológico.

10 pequenas notas do quinto dos infernos

Saiu o relatório do promotor especial Robert S. Mueller sobre as suspeitas de conspiração entre Donald Trump e a Rússia. Mueller disse muito, mas acabou falando nada de relevante (por hora).

UFC da Toga

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Nas últimas semanas, os agentes da lei mostraram que, entre si, a vida é muito mais agitada do que uma novela mexicana.

Como o blog informou há algumas semanas, Gilmar Mendes não gostou de saber que a sua esposa, Guiomar, teve as contas verificadas por membros do MPF. Eu poderia dizer que quem não deve, não teme, mas é compreensível a preocupação do juiz do Supremo com a sua privacidade.

Dias depois, o Ministério Público resolveu criar uma fundação. Baseados em lei nenhuma e com objetivos pouco claros, os procuradores de Curitiba tiveram a ideia de criar uma fundação para usar parte do dinheiro recuperado pela operação Lava Jato para um “investimento social em projetos, iniciativas e desenvolvimento institucional de entidades idôneas que reforcem a luta da sociedade brasileira contra a corrupção” e mais um monte de coisa bonita.

Um dos procuradores chamou de “má-fé” as críticas ao fundo e para todos os fins, pegou mal. Raquel Dodge, procuradora-geral da República, entrou com uma ação no STF para anular a ideia, e agora, o fundo que nunca existiu, não existirá.

No dia seguinte, Gilmar Mendes chamou os procuradores da Lava Jato de “gentalha”, “gente desqualificada”, “despreparada”, “covarde”, “gangsteres”, “cretinos”, “infelizes” e “reles”, porque “integram máfias, organizações criminosas”. Ao fim, apontou que a “força-tarefa é sinônimo de patifaria”. Tudo isso enquanto decidia se delitos de caixa dois devem ser julgados ou não pela Justiça Eleitoral.

O ministro, que já foi chamado de “mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia“, foi responsável por um dos seis votos que deram aos membros do Ministério Público mais uma derrota em um período de menos de 30 dias.

Já na terça-feira (19), o ministro do STF Alexandre de Moares avisou aos procuradores que eles poderiam exercer o “direito de espernear” à vontade, mas se espernear em excesso, correm o risco de serem investigados pela corte.

Tal qual uma sub celebridade que tanta manter a fama, os procuradores da Lava Jato não conseguiram ficar dois dias longe das páginas de notícia. Na manhã da quinta-feira (dia 21), o juiz Marcelo Bretas, da Lava Jato do Rio de Janeiro, mandou prender o ex-presidente Michel Miguel, o seu amigo e ex-ministro Moreira Franco, Coronel Lima – apontado como operador de Temer – e outras pessoas de menor relevância.

A partir de informações obtidas em uma delação homologada em 2017 e com fatos que pouco justificavam a prisão, a libriana Michel Temer e os seus colegas foram dar um passeio pelo Rio (Moreira Franco, por sinal, tinha acabado de sair de um quando foi preso).

Uma barbaridade”, disse Temer ao jornalista Kennedy Alencar. O blog é solidário à opinião do ex-presidente sobre a cidade carioca.

Teve gente que apoiou, teve gente fazendo cosplay de Regina Duarte, teve gente que viu de longe, teve gente que foi contra, teve gente que apontou problemas na ordem dada pelo juiz bombadinho. Para todos os fins, o ex-presidente foi solto depois de passar o final de semana em uma sala razoavelmente confortável por ordem de um desembargador do TRF2.

No meio tempo, o não-mais-envolvido-diretamente-com-a-Lava-Jato, Sergio Moro, ainda conseguiu arrumar uma briga com Rodrigo Maia. Uma briga que, como vimos posteriormente, adicionou mais uma derrota para os formados em direito (dessa vez, não diretamente ligada à operação da turma que é contra a corrupção de rico e de pobre).

Pensar que tudo poderia ser evitado se os procuradores da Lava Jato tivessem enviado uma fotinha pro pessoal do STF.

Quando o cisne começa a virar patinho feio

O número de pessoas que aprovam o governo foi de 49% em janeiro, para 34% em março. Ainda segundo o Ibope, a avaliação “ruim ou péssima” já atinge 24% (em janeiro, era de 11%). 

Não é algo igual a Dilma ou Temer, Mas é o pior começo de governo desde Collor, sem nem roubar uma poupança alheia. O mito não é tão imune aos problemas do seu governo como se pensava.

Após a décima segunda semana do governo Bolsonaro, já dá para afirmar, sem arrogância, mas com absoluta convicção, que este país não vai dar certo?


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Com edição e revisão da Luana de Assis.