A Nova Era – semana #3 e #4: não basta ser desonesto, tem que parecer desonesto

Semana passada não teve textinho, então hoje o textinho é duplo. Na terceira semana de seu governo, o presidente fez aquilo que ele prometeu que faria, e todos ficaram surpresos com a capacidade de Bolsonaro cumprir promessas. Já na quarta, mostrou que continua desprezível.


Briga de .40 no escuro 

O passeio dos novos deputados do PSL à China só serviu para mostrar para a esquerda que a nova direita é tão desunida quanto eles. Não que isso vá ajudar o governo a cair, ou faça com que Bolsonaro deixar de ser reeleito. 

Olavo de Carvalho apontou, e com certa razão, que talvez não seja uma boa ideia andar por aí comprando tecnologia de países conhecidos por espionar os outros, ou que sejam adeptos do que os deputados chamaram de “socialismo light”.  

Mas o “guru” se esqueceu de falar quem é que vai comprar o nosso frango e o nosso minério de ferro, caso a China fique de mau humor. Ou dizer que a solução é voltar com a política de valorização da indústria nacional. 

Os próprios deputados do PSL já brigam entre si e contra o mestre intelectual do 4chanceler. O deputado Mamãe Brigue, inclusive,i já acusou outro deputado de usar a famigerada viagem para ser um futuro representante da Huawei no Brasil, como se a empresa precisasse de ajuda.  

O PT mostrou que, no Brasil, chegar e se manter no poder é muito fácil, mas é preciso um pouco de união. Ou pelo menos não lavar a roupa suja em público. Lições da História não são muito boas para os novos governantes, mas esse aprendizado pode cair bem, afinal de contas, quando nem o MBL apoia as suas falcatruas, talvez seja a hora de repensar o discurso. 

Reparação histórica reversa 

Finalmente o homem branco, hétero, cis, de classe média e dono de um luxuoso Honda Civic poderá deixar de ser oprimido no Brasil e para a surpresa de ninguém, a posse de armas foi flexibilizado.  

A medida, segundo o presidente, é “apenas o primeiro passo” de uma série de reparações históricas para os homens de classe média que não conseguem mais superar o pinto pequeno apenas comprando carros esportivos.  

Nos próximos meses, teremos a criação do Vale Testosterona: uma bolsa para a compra de arminhas de tiro falsas, um livro do Olavo de Carvalho e vouchers para a compra de chapéus de papel alumínio. 

Pica pau sem cara de pau 

Para defender a flexibilização da posse de armas, Onyx “Recebi Vários Dinheiros do Lobby a Favor de Armas” Lorenzoni, deu uma entrevista em que mentiu tanto quanto um militante de esquerda quando aponta razões para a Venezuela ser uma democracia. 

O ministro disse que “toda experiência da humanidade mostra, sem nenhuma falha que negue essa evidência, que quanto mais armada a população, menor a violência”.  Imagino que ele pretenda passar suas férias no Oriente Médio, um lugar em que a população é tão armada que se protege contra batedores de carteira usando bombas. 

Sobra democracia, faltam direitos humanos 

Quem ainda insiste em apoiar a permanência de Maduro no poder deveria saber que existe uma alternativa entre Juan Guaidó e Nicolas Maduro: eleições livres com a vigilância de organizações internacionais. Depois não adianta dizer que só eleitor do Bolsonaro passa pano para absurdo. 

As eleições venezuelanas não ocorrem em tom de normalidade há alguns anos, Maduro transformou um shopping center em a sua própria Guantanamo. Jornalistas já foram presos e muitos levados à força para  dar depoimentos em instalações militares. 

Se isso não é uma ditadura, certamente parece como uma, anda como uma, respira como uma e fala como uma. 

Juiz do pau oco 

O quadro entregue para o governador do Rio é uma bela representação do que ele é: oco por dentro e só com bala na cabeça. Nas últimas semanas, o ex-juiz vem acumulando mais faixas do que ações efetivas para mudar a realidade do estado. Será que tudo não passa de um plano para juntar faixas e realizar um bazar de arrecadação de recursos para o governo estadual? Questões. 

Milicolândia 

Alguém reparou na agenda dos ministros militares do governo na última semana? Enquanto todos recebiam pessoas realmente relevantes, Bolsonaro ficou ocupado fazendo photo-op com um presidente que será rapidamente esquecido em alguns anos pelos argentinos. 

O governo Mourão já se estabeleceu como uma tendência parao vindouro ano de 2020. Os militares de alta patente e as pessoas relevantes já se afastam da família Bolsonaro, agora só falta o impeachment. 

A esposa de Cesar caiu na net 

As suspeitas de corrupção envolvendo a família Bolsonaro surgem na mídia com uma frequência maior do que o número de vezes que um adolescente se masturba durante as suas férias. 

Em uma entrevista para uma das duas redes estatais, Record e SBT, Flávio Bolsonaro disse que a lei será aplicada a ele como é aplicada a qualquer outra pessoa. Infelizmente ele não considera petistas pessoas de verdade, pois dosse o caso, os funcionários da Papuda já estariam ocupados arrumando a sua cela. 

Aliás, uma boa forma de parecer ser honesto é não pedir que um processo do seu ex-assessor suba para o STF. Aliás, o político não é de uma família que é contra o foro privilegiado? 

Enquanto isso, alguém precisa perguntar ao ex-juiz Sérgio Moro o que ele pensa sobre os 48 depósitos de R$ 2 mil feitos na conta de Flávio. A ação lembra muito o que o ministro apontou como indícios de lavagem de dinheiro um tempo atrás

Ainda nas analogias com a mulher de César, é válido lembrar que, tradicionalmente, só se ganha em área dominada por milicianos quem anda com milicianos. Flavio Bolsonaro venceu em 74 das 76 seções eleitorais de Rio das Pedras, lugar em que Queiroz se escondeu. 

A proximidade vai além, pois o senador também deu emprego para a mãe e a mulher de Adriano Magalhães da Nóbrega, miliciano foragido e acusado de liderar o grupo que matou a vereadora Marielle Franco. Nóbrega que, por sinal, recebeu homenagem do então deputado em 2003, para alguém que não gosta de Bandido, Flavio adora andar perto de alguns. 

Faltam direitos humanos e democracia 

Se a nova direita quer parecer realmente humanitária, uma boa estratégia é começar a fingir preocupação com a democracia e a liberdade alheia com mais afinco. O gesto do presidente e de seu filho pareceram tudo, menos uma comemoração das ações em Davos e um desejo de boa viagem. Sequer os seus eleitores podem ser tão burros, presidente. 

Um bom começo é deixar a EBC noticiar as ameaças de morte a Jean Wyllys, ou uma declaração pública de apoio ao deputado, já que até Rodrigo Maia fez isso. Eles também podem ser mais cínicos e adotarem a postura dos parlamentares governistas, como foi o caso de Sóstenes, Joice Plagelmann e Alexandre Frota. Pelo menos eles não fingem ser o que não são. 

Liberalismo de quermesse 

Liberais devem parar de apontar os dedos para Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos como grandes exemplos de que o capitalismo é o melhor sistema econômico existente. Fazer isso é como dizer que o Stalinismo é o melhor meio de ser socialista: você até está apontando para algo relevante, mas qualquer pessoa com um pouco de cérebro sabe que este é um exemplo merda. 

Elon Musk é um bilionário especialista em fazer projetos que só deram certo quando ele foi expulso do cargo de CEO. 1/3 do seu tempo é gasto criando carros que não funcionam como deveriam, 1/3 é investido em meios para ficar embaixo da terra ao invés de tentar resolver os problemas do transporte de massas (spoiler: é com ônibus e metrô) e o outro 1/3 é tentando sair do planeta. 

Os seus funcionários sofrem constante pressão para não se sindicalizarem e trabalham em um ritmo sobre-humano. As fábricas não seguem regras básicas de segurança e, em suas mensagens para os seus colaboradores, Musk usa dos piores estratagemas psicológicos para persuadir os seus profissionais a continuarem trabalhando acima de qualquer padrão saudável.

Bezos, por outro lado, gasta um bom tempo tentando deixar os seus funcionários sem emprego. A sua empresa é conhecida por ter baixos salários, impedir sempre que possível a sindicalização, invadir a sua privacidade de todos os modos possíveis e fazer leilão de incentivos fiscais em larga escala. 

Eu já mencionei que ele também rouba dados de cidades inteiras para lucrar mais? Pois é. A criação do novo HQ serviu mais como uma forma de obter dados sigilosos dos projetos de infraestrutura de grandes cidades, além de informações de zoneamento, do que para, de fato, encontrar um bom lugar para construir um prédio. 

Zuckerberg, por sua vez, continua não assumindo a sua culpa na lenta destruição da democracia liberal. Só em 2018, a sua empresa ganhou um escândalo a cada dez dias. 2019 mal começou e já soubemos que a empresa continua focada em explorar todas as nossas atividades, online e offline, mesmo que os alvos sejam adolescentes

Essas não são pessoas que buscam criar um capital social positivo, aprender com os próprios erros ou mudar a sociedade para melhor. Musk, Bezos e Zuckerberg são só o reflexo do que se tornou a cultura do Vale do Silício: um grupo de homens brancos, héteros e de classe média que não respeitam a sua privacidade quando se trata de ganhar (mais) dinheiro. 

Isso não é um exemplo a ser seguido, é uma falha de mercado a ser corrigida por agências reguladoras, como as da União Europeia. 

Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Somos gordos, somo cultos. Fora blogueiros corruptos!

A internet não é mais a mesma. Hoje, blogs perderam o seu sentido original. Antes um lugar de conversas, carinhos e amizades, eles se transformaram em máquinas do capitalismo moderno.

Portanto, se faz necessário nos virarmos em direção a nossas origens. Uma blogsfera calma, alegre e com foco naquilo que importa: a diversão do leitor.

Os blogs como meio de diversão ilimitada

Algumas coisas na internet eu considero imortais. Elas superam novos serviços, o “atestado de morte” de entusiastas de social média (que vieram direto daquela agência super descolada), superam Twitter, Youtube e até gente enfiando objetos religiosos no orifício anal.

Blogs, fóruns, serviços de e-mails e imageboards frequentados por gente estranha estão para a internet assim como aquele apelido que você ganhou na sexta série quando desmaiou sobre a sua merenda: façam o que quiserem, eles não só são insubstituíveis como também são os melhores naquilo que se prestam a fazer.

Não há Twitter que possa substituir um blog, não há comunidade no Orkut que seja tão funcional quanto um fórum, não há transa que possa ser mais divertida do que um imageboard e não há Whatsapp que seja capaz de acabar com um e-mail carregado de fotos constrangedoras do João do faturamento recebido três dias após a última festa da firma. Não há.

Clique na imagem para ver ela no site original ou fique aqui mesmo lendo o texto
A blogsfera brasileira segundo o site Malvados

Os blogueiros como agentes do capitalismo neoliberal

A classe blogueira de várzea, a classe blogueira arte, a classe blogueira de raiz deve se atentar para as insistentes tentativas por parte de uma minoria elitista e protocarteiradista de avacalhar o bagulho. Ser blogueiro é uma arte que existe desde o início da World Wide Web, quando os blogs se resumiam à postar textos do cotidiano.

A internet era composta por pessoas donas de blogs hospedados no Blogger (e outros serviços mais velhos e obscuros) com temas de fundo preto, gifs e muita letra prateada. Ali, pessoas se encontravam para debater sobre diversos temas na seção de comentários em um tom amigável e com boas risadas.

Altas confusões e aventuras eram aprontadas por aquela turma do barulho da internet. Assim como, um belo dia, um sujeito descobriu que cercar uma terra e chamar ela de sua propriedade privada era uma ideia boa (para ele), um belo dia um sujeito descobriu que posts pagos e anúncios em todos os cantos de uma página eram bons e davam grana o bastante para alguém sobreviver. Foi aí que começou a putaria.

A internet brasileira: um pequeno conto de terror dos anos 2000

Quem frequenta a internet desde o início dos anos 2000 viu a evolução das ferramentas de acesso (fomos de modens 28kbps a telefones com conexões de muitos Mbps para clientes de qualquer operadora que não seja a Tim) e a mudança dos blogs. Vimos o Posterous ser comprado pelo Twitter – para morrer tempos depois –, vimos o Yahoo! quase ir para o limbo (e eventualmente chegar lá) e acreditamos quando a MS prometeu o IMAP no Hotmail.

Quando ainda frequentávamos páginas do Orkut em busca de links para downloads de séries, uma parte da internet via com olhos cheios de fúria e ódio algumas pessoas criarem blogs focados em espalhar conteúdo roubado de outras fontes (muitas vezes imageboards do exterior) e postarem como se fosse um grande achado. Depois de aquele dia, a internet foi dominada por postagens com uma tirinha de meme, um vídeo de um russo dançando de maneira estranha em uma balada (como se dançar samba fosse algo muito normal. Sério, olhem para aquilo, não é humana a maneira como dançamos samba. Não é.) ou simplesmente os “melhores links da semana mas que na verdade são apenas uma promoção do site dos meus melhores parceiros que eu combinei previamente”.

Internet antes do Windows XP. Dizem que você nem existia naquela época

Blogueiros vendidos: o mal de uma geração

A máfia dos blogueiros profissionais brasileira luta por RT’s, apoio de amigos, posts patrocinados, banners de grandes empresas, presentes, indicações no YouPix, presença em palestras, eventos de social media e até presentinho de marca famosa. Para eles, reconhecimento é algo primordial e o número de page views mensal vale muito mais do que barras de ouro.

Identificar um blogueiro metido a famosão na internet é fácil, basta buscar por alguém que responda à algum insulto dentro de um estabelecimento comercial com o clássico “VOCÊ SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO? VOCÊ SABE QUANTOS PAGE VIEWS EU POSSUO POR MÊS? VOCÊ SABE QUANTOS RT’S EU GANHO POR DIA?”. Também não é raro ver blogueiros profissionais pedindo para entrar em uma balada só para testar um negócio rapidinho e dar uma olhadinha (quase sempre se oferecendo para fazer uma parceria se a olhada for lucrativa).

Criaturas de pouca confiança, blogueiros profissionais são vistos navegando em bandos e comemorando o fim do Google Reader. “Com o fim do Google Reader e o uso de RSS com postagens resumidas a quantidade de acessos do meu blog aumentou em 23%. Até um upgrade no meu servidor eu tive que fazer”, disse um blogueiro que não quis se identificar para o nosso site. Não muito raro, pedem para as suas leitoras fotos com o nome do blog escrito em seus corpos para atraírem mais acessos masculinos ao site, uma prova clara de que os blogueiros também apoiam a manutenção dos privilégios de uma sociedade machista, elitista e que oprime até quem gosta de ficar sujo.

Sentimentos, malícia e sagacidade. É disso que um blogueiro precisa.
Sentimentos, malícia e sagacidade. É disso que um blogueiro precisa.

Por uma internet raiz, uma internet arte

Não queremos, é claro, o fim dos blogs pagos. O Alo, PF! apoia que todos ganhem dinheiro da maneira que acharem mais justa (afinal de contas, o capitalismo não serve para garantir esse tipo de liberdade econômica?). O que nós queremos vai muito além de vinte centavos.

A classe blogueira de várzea deve se unir e ir às ruas lutar pela volta da blogagem arte, a blogagem de raiz. Juntos iremos mostrar ao povo que a internet clássica ainda existe, que a Vila dos Computador jamais saiu das nossas mentes.

Independentemente do Facebook, do Twitter, do Youtube ou dos outros serviços que criarem, nós jamais nos calaremos frente à opressão do sistema. E é por isso que hoje eu afirmo: ou voltamos para as nossas raízes ou seremos os futuros jornalistas de redação.

Eu não vou te pedir para comentar, mas se quiser: pode.