A Nova Era – semana #51: o silêncio dos inocentes

Mais briga no PSL, Flavio B. recebendo visitas da Ju e ministro do Supremo pego fazendo algo muito parecido como lobby. Vem comigo que eu tenho todas as notícias para transformar a sua ceia num episódio de Toma Lá, Dá Cá.


The following takes place between dec-17 and dec-23


Aliança pelo trambique

A criação do novo partido de Jair Bolsonaro segue cheia dos trambiques (o que, até então, não é nenhuma surpresa). A cúpula da legenda (que no momento só existe na imaginação do presidente) optou por recolher, até abril, 500 mil assinaturas em todo o país. A decisão veio após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) avisar que a ideia de fazer isso com certificados digitais talvez não dará certo.

Agora, caro leitor, se liga nesta história: não faz muito tempo que a Soluti saiu por aí distribuindo mais de 1 milhão de certificados digitais. Coisa que geraria um gasto de R$ 50 milhões caso eles fossem comprados individualmente.

O presidente da Soluti, Vinicius Vieira de Souza, é, também, fundador da ATID (Associação Brasileira de Tecnologia e Identificação Digital). A instituição faz parte do comitê gestor da ICP-Brasil, entidade que regula o setor de emissão, renovação e registro de certificados digitais.

Em uma reunião no começo de dezembro, uma proposta feita pelo Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), tornou mais fácil a renovação de certificados digitais. O ITI é um órgão vinculado à Casa Civil da presidência da República. Entre os representantes da sociedade Civil há Luiz Carlos Zancanella. Conforme apurado por @jotacorreria, o seu suplente é o proprietário da Soluti.

Certamente tudo isso é uma simples coincidência e não sinal de uso da máquina pública para favorecer a ideia de Jair Bolsonaro ter um partido para chamar de seu em 2020.

Dicas para quem pretende disputar a eleição ano que vem

Largue a laicidade. Estudo feito por Francisco Costa, Angelo Marcantonio e Rudi Rocha conseguiu apontar por A mais B que o número de evangélicos cresce após crises econômicas. Pelo menos no Brasil, este país de grande estabilidade financeira.

Se a esquerda — especialmente ela — quer ganhar algum voto na periferia (e deixar de ter o mesmo perfil de eleitor que o Freixo tem no Rio de Janeiro) talvez seja uma boa ideia ser mais pragmática. Ou melhorar as suas estratégias de ação política. Pois, nos anos 2020, o Brasil será conquistado na base de muita teoria da prosperidade e pastor pedindo desconto de suas dívidas.

O militante de esquerda pode bater o pé e fingir miopia política até cansar. Mas quem está no topo das paradas dentro de favelas e bairros com pouco saneamento básico do país são os emissários do neopentecostalismo. O pobre quer luxo, fama e poder. Se possível, sem corrupção, mamadeira de piroca e ajuda do governo.

Importante, então, é parar de esperar por uma revolução cultural e começar a ser mais pragmático. Presumir que os pobres deveriam votar por redistribuição de renda é ignorar “os possíveis efeitos da religião sobre as preferências individuais.” É, também, tratar de modo paternalista quem só deseja uma vida minimamente confortável e sem tanta violência.

Meu lobbynho, minha vida

O MBL não é o único nome que tem aparecido no jornal sendo apontado como praticante de lobby. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre Moraes, foi grampeado em uma conversa que tem toda cara de atuação informal a favor de um coleguinha. Mais precisamente, um desembargador investigado.

A gravação é de 2015, quando Moraes ainda era secretário de Segurança em São Paulo. O agora ministro teria atuado como advogado do desembargador Alexandre Victor de Carvalho, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG). O que não seria um grande problema se chefes de órgãos públicos não fossem proibidos de exercer advocacia.

Carvalho, na época, respondia a um processo por ter empregado (supostamente) uma funcionária (supostamente) fantasma em seu gabinete. Tudo parte de uma investigação sobre um (supostamente) muito elaborado esquema de nepotismo cruzado.

Apesar de ter passado livre pelo TJ-MG, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) seguiu com o processo. Moraes, sabendo que não poderia atuar legalmente de novo para o colega, deu (segundo a Folha de S. Paulo) dicas informais para que ele conseguisse escapar de uma condenação na justiça.

Deu certo. A Segunda Turma julgou o caso e arquivou a reclamação contra Carvalho.

Essa não é a única estripulia que Carvalho (supostamente) cometeu e foi parar no jornal. Em grampo obtido pela Folha de S. Paulo, o desembargador teria atuado para impedir que o deputado Luís Tibé fosse cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG).

Tibé era, em 2015, acusado de usar a máquina pública para fazer propaganda eleitoral irregular. Vendo então que as chances não estavam boas para o seu lado, o político teria pedido o então vice-presidente da Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) para ajudar em seu processo de cassação. Algo super normal em qualquer país sério.

Você tem o direito de ficar caladinho

O CNJ mandou avisar que juízes não podem fazer aquilo que já não podiam fazer. Resolução aprovada pelo órgão impede que juízes comentem decisões de colegas e declarem apoio político nas redes sociais.

Entidades da área criticaram que o conselho está cerceando a liberdade dos juízes de fazerem aquilo que já não podiam fazer. Prometeram, inclusive, ir ao STF alegando que a norma, que afirma o que já está na lei, não está em concordância com a lei.

Vai entender.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Bota dinheiro na democracia sim

O fundo eleitoral segue em 2020. Agora, todos os candidatos a prefeito e vereador das próximas eleições terão acesso a R$ 2 bilhões para mover as suas campanhas. Se desejarem, claro.

O presidente, este portador de um grande espírito democrático, não gostou da aprovação do fundo. Seguindo (a risca) o manual do populista, perguntou a um grupelho de apoiadores se ele deveria sancionar a medida. Naturalmente, o gado respondeu que não deveria.

Ainda fazendo uso dos seus valores democráticos, Bolsonaro citou os valores que serão entregues ao PT e ao PSL no próximo pleito. Concluiu afirmando que “se quer fazer material de campanha caro, não vou ajudar esse cara, pronto“.

Na quinta-feira (19), o presidente retomou o assunto e afirmou que “em havendo brecha para vetar, eu vou fazer isso. Não vejo, com todo respeito, como justo recursos para fazer campanha“. Falou que a verba não ajuda jovem candidato e disse que isso não deve ser visto pelo Parlamento como um ataque.

Porém, quando se lembrou que o Planalto foi responsável pela proposta do fundo, desconversou. Afirmou que só fez a sua obrigação legal mas que agora poderá vetar o valor (que por muito pouco não seria maior). Falta falar, porém, como as eleições serão feitas sem desvios públicos, já que santinho e disparo de mensagem com conteúdo falso pelo Whatsapp seguem bem caros.

Bota dinheiro nas mãos do governo sim

Não foi só o orçamento das próximas eleições que virou objeto de discussão no Congresso na última semana. Os parlamentares também aprovaram o restante dos gastos que o governo poderá realizar em 2020.

Haverá aumento de despesas e investimentos em áreas como saúde, infraestrutura e desenvolvimento regional — se sobrar dinheiro para isso. R$ 6 bilhões foram liberados graças a aprovação da PEC Emergencial, que limita os gastos do governo de acordo com o tamanho da dívida pública. Ganhará mais dinheiro o ministério de Minas e Energia, enquanto o da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ficará com a menor parte.

Keeping up with #VazaJato I: engavetando essa mensagem hackeada

Lembra daquele monte de ação contra o procurador Deltan Dallagnol? Uma delas foi arquivada pelo corregedor do Conselho Nacional Ministério Público. As mensagens, que serviam para a acusação, foram consideradas ilegais e, portanto, inválidas para o processo.

A acusação se referia às mensagens em que Dallagnol conversava com Moro sobre a possibilidade de utilizar dinheiro público para promover propagandas pelas “10 medidas contra a corrupção”. O processo, se executado, seria totalmente ilegal.

Keeping up with #VazaJato II: indiciar não é culpabilizar (mas se quiser, pode)

A Polícia Federal finalmente concluiu as suas investigações sobre o caso dos Ararahackers e indiciará seis pessoas. Os crimes, segundo a PF, são:

  • integrar organização criminosa;
  • invadir dispositivo informático alheio;
  • interceptar comunicação telemática ilegal.

Não foram acusados de crimes os jornalistas do Intercept (afinal de contas, fazer o que jornalista faz não é crime neste país — ainda) e a ex-deputada Manuela d’Ávila (PC do B). O relatório não fala em mandantes ou cita qualquer tipo de motivação para as mensagens serem roubadas. Mas a PF já disse que pretende investigar esses pontos mais a fundo no futuro.

O que há de mais legal no relatório final, por outro lado, foi apontado pelo perfil @jairmearrependi. No meio de várias páginas, há uma conversa sobre o falecido perfil Pavão Misterioso ligando-o ao site de notícias relativamente verdadeiras Terça Livre. A troca de informações ocorreu entre o hacker e o humorista Gregório Duvivier. Coisa fina.

Timing é tudo

O Ministério Público resolveu ir atrás de toda e qualquer documentação que apontasse problemas na gestão financeira do gabinete do senador Flávio B. (quando ele ainda tinha compromissos com a Assembleia do Rio de Janeiro). Entre os alvos, estavam não só o atual senador, mas também Fabrício Queiroz, seu ex-assessor.

As investigações apontam a possibilidade de Queiroz ter comandado um esquema de rachadinha dentro do gabinete do então deputado Flávio. Apenas o policial militar aposentado teria recebido R$ 2 milhões em depósitos de outros 13 assessores do gabinete. Sobrou até para a ex-mulher do presidente e um ex-PM que até então a gente não sabia da existência, mas tem muito dinheiro em sua conta.

Os advogados do não filho do presidente chamaram a busca na loja de chocolates do senador de “invasão”. Já os advogados de Queiroz, que era ex-assessor de várias pessoas, informaram que o seu cliente tratou a operação com “tranquilidade’. Também disseram que, o homem que fugiu do Ministério Público a todo custo, estava surpreso, afinal, a operação era “absolutamente desnecessária”.

O blog quer acreditar, diante da declaração dos advogados de Queiroz, que o seu cliente passou o último ano organizando caixas de provas de seus prováveis criminhos para a PF. Afinal de contas, se o MP não quis pegar ninguém com as calças arriadas, o mínimo que poderia ser feito é uma ajudinha para os trabalhadores da instituição.

Contabilidade de alta qualidade

Segundo o Ministério Público, o senador Flávio afirmou que retirou, nos três primeiros anos de funcionamento da sua loja de chocolates, R$ 793,4 mil. O que não seria um problema se o fisco tivesse uma informação diferente: para o órgão, F.B. teria recebido apenas 435,6 mil no mesmo período. A contabilidade ruim também afetou o seu sócio, Alexandre Santini.

O advogado do senador, Frederick Wassef, praticamente chamou o judiciário de comunista e disse que estavam criminalizando o aumento de capital. Também afirmou que não há nada de errado em seu cliente ser amigo de gente que é acusada de ser participante de milícia. Ou empregar a sua ex-mulher, que (supostamente) fez repasse de R$ 203 mil a Queiroz.

Diga-me com quem andas…

O Ministério Público também colocou gente do Bope na lista de (supostos) envolvidos no (suposto) esquema das rachadinhas de Flavio B. e Fabrício Queiroz. O ex-capitão Adriano da Nóbrega, conhecido e foragido miliciano, teria emprestado as suas contas para o esquema. A conclusão ocorreu após a quebra do sigilo bancário de Nobrega, Flavio e Queiroz.

As suspeitas sobre o filho do presidente são tão grandes quanto as ligações de sua família com milicianos (e wannabe de miliciano). Será muito interessante ver, nos próximos três anos, o governo lidando com esse problema. Pois tenha certeza: isso ainda manchará as brancas paredes do planalto.

…e direi quem atacas

A defesa do senador F.B. foi ao Supremo para suspender a investigação contra os seus (supostos) crimes. Já o senador partiu para o ataque direto ao juiz Flávio Nicolau, que foi o responsável por autorizar a operação do MP.

O político disse que a filha do magistrado é uma funcionária fantasma do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Não dá para dizer que de funcionário fantasma a sua família não entende.

O paranoico presidente, por outro lado, acha que o culpado por tudo isso aí é o seu ministro da Justiça, Sergio Moro. A suspeita é tão grande que Bolsonaro quer tirar a Polícia Federal dos braços do ex-juiz e mandá-la para o seu amigo Alberto Fraga, ex-deputado da bancada da bala, que assumiria o futuro “ministério da Segurança”.

Ou quem não te ataca

Causou grande burburinho na internet e discussões sobre empatia (há de se ter empatia) as agressões sofridas pela youtuber di-direita Karol Eller. A jovem estava passeando com a sua namorada em um quiosque na orla da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quando foi agredida e teve o rosto desfigurado. O caso logo foi tratado como homofobia pela delegada responsável pelo caso.

Mas, para a surpresa de todo mundo que fez discursos inflamados a favor da empatia, a delegada voltou atrás e afirmou que as agressões não foram motivadas por homofobia. Imagens do local e testemunhas apontaram que a briga entre os dois se deu por outros motivos. Karol dobrou a aposta e insistiu que o motivo foi homofobia — apesar das imagens divulgadas pela imprensa.

O desfecho desta história tragicômica ficará, infelizmente, para a semana que vem.

Brasil acima de tudo, meu filho debaixo do caminhão

Vendo o seu filho Flavinho no jornal, o presidente Jair Bolsonaro resolveu comentar o assunto. Na manhã de quinta-feira (19) disse o presidente que “O Brasil é muito maior do que pequenos problemas. Eu falo por mim, os problemas meus podem perguntar que eu respondo. Os outros, não tenho nada a ver com isso.

Quando perguntaram sobre os seus problemas, na sexta-feira (20) o presidente mudou de tom. Insinuou que um jornalista era homossexual. Ao ser questionado se teria como comprovar o empréstimo feito a Queiroz, respondeu a um repórter que ele deveria perguntar para a sua mãe o comprovante que ela deu para o seu pai, “tá certo?”.

Tudo isso para uma plateia de apoiadores que adoraram ver o espetáculo de decoro e postura do chefe de governo brasileiro. Por último, e não menos importante, disse que “ninguém lava dinheiro em franquia”.

Lava em qual lugar então, presidente? Apartamento em Copacabana?

No dia seguinte, em um café com jornalistas, Bolsonaro disse que “se eu não tiver a cabeça no lugar, eu alopro”. Este tipo de temperamento realmente me parece uma boa qualificação para quem quer ser presidente.

Jair também reclamou dos vazamentos do Ministério Público. Clamou a necessidade de controle do MP, chamou o órgão de um dos Poderes da República (não é o caso) e reclamou de vazamentos. Interessante ver que J.B. mudou a sua visão de mundo sobre alguns temas.

Inimigas e rivais

Gustavo Bebianno está nervoso. Não sem motivos: o presidente sugeriu, em entrevista à revista Veja desta semana, que ele participou do atentado praticado por Adélio Bispo em 2018. A resposta, segundo o ex-ministro da Secretaria-geral da Presidência, será por vias judiciais e criminais.

Para Bebianno, “Jair está nitidamente desequilibrado. Precisa urgentemente de tratamento psiquiátrico.” Faz sentido: em poucos dias o presidente afirmou que existia a possibilidade de ter um câncer de pele, disse que a imprensa mentiu sobre o assunto e que a biópsia feita para avaliar se ele teria mesmo a doença deu resultado negativo. Complicado.


Eu escrevi e revisei (distraído) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.