A Nova Era – semana #55: salto artístico na piscina do autoritarismo

Teste do pato, improbidade administrativa, ninhos de mafagafos e muito wishful thinking marcaram a última semana.

Vem comigo que eu te mostro (e não se esquece de compartilhar com aquela pessoa que você gosta).


The following takes place between jan-14 and jan-20


Secretaria de Comunicação e Improbidade Administrativa

A Folha de S. Paulo revelou que o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, pode ter cometido improbidade administrativa após entrar no cargo. Wajngarten recebeu, nos últimos meses, pagamentos de emissoras de TV e agências de publicidade por meio de uma empresa da qual ele é sócio, a FW Comunicação.

O conflito de interesses surge pelo fato de a Secom ser a área do governo que distribui todo o orçamento de propaganda do Planalto. Wajngarten ganhou o cargo em abril de 2019 e, desde então, tem aumentado a verba destinada para as emissoras amigas de Bolsonaro (enquanto reduz a de empresas de comunicação um pouco mais críticas).

As empresas, como apontou o jornal, tem contratos com o governo e com a FW comunicação. Uma delas, a agência de publicidade Artplan, recebeu R$ 70 milhões entre abril e dezembro de 2019. O valor é 36% maior do que o pago no mesmo período no ano anterior.

Além do aumento de verbas, Fabio Wajngarten teve 67 encontros oficiais com representantes e ex-clientes da sua empresa (após assumir o cargo). O transporte necessário para realizar pelo menos 20 reuniões foi custeado com dinheiro público. A matéria não revelou, porém, se o número dois da Secom, irmão do administrador da FW, participou das conversas.

Jair Bolsonaro e Wajngarten juram que não há nada de errado, mas a Comissão de Ética Pública da Presidência analisará as denúncias. O Ministério Público de Contas também entrou na brincadeira e fará uma revisão de verbas publicitárias do governo. No Legislativo, há gente pedindo a saída de Fabio Wajngarten da Secom.

No governo Dilma e no governo Lula, quando algo semelhante ocorreu, uma postura relativamente diferente foi adotada. Todo mundo teve que se afastar dos cargos que ocupavam na iniciativa privada. Muito provavelmente em função disso os aliados de Bolsonaro não conseguiram um parecer favorável ao chefe da Secom no TCU e na CGU.

As coisas na Venezuela estão ótimas

Enquanto não passava pano para o seu subordinado, Bolsonaro resolveu atacar, outra vez, de novo, novamente, a imprensa. Perguntado se sabia dos contratos assinados pela empresa de Wajngarten, respondeu com um presidencial “você está falando da tua mãe?”. Na mesma quinta-feira (16), o presidente já tinha dito que a Folha de S. Paulo “não tem moral para perguntar” sobre o caso e mandou uma repórter do jornal calar a boca.

Além de apontar que não estava no governo para fazer negócios, Wajngarten se defendeu afirmando que a matéria é absurda. Também cometeu gaslighting com a notícia, a chamando de desequilibrada, imparcial e injusta. No fim, deixou um recardo bombástico: “se determinados grupos de comunicação ou institutos de pesquisa tinham em mim a tentativa de construção de uma ponte de diálogo, essa ponte foi explodida hoje”.

A Secom, em nota, sugeriu que a Folha não está conformada com o sucesso (???) do governo Bolsonaro. Já o chefe de Wajngarten, o general Luiz Eduardo Ramos, afirmou que a notícia é “mais uma dessas maldades que se faz contra homens públicos“. Porém, há quem diga que ele se arrependeu da declaração pouco tempo depois.

Em 2019, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, o número de ofensas e tentativas de descredibilização subiu 54%. Mais de metade desse número veio direto do Planalto.

Não é de se assustar que as respostas tenham sido deste nível. Mas é de se assustar que alguém ainda diga que estamos vivendo a mais pura normalidade democrática.

Mexendo o pauzinho

Enquanto Wajngarten queima, Carlos Bolsonaro se articula. O Zero Dois estaria trabalhando para colocar o blogueiro e espalhador de notícias fantasiosas Allan dos Santos como secretário de Comunicação. Nada melhor do que criar um gabinete do ódio às claras e com o financiamento declarado no orçamento da União.

Garantindo o juiz das garantias

Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, deu mais seis meses para o juiz de garantias ser implementado. Ele também tornou a medida mais compacta: processos relativos à Lei Maria da Penha ou homicídios (que já têm as suas próprias regras) e ações da Justiça Eleitoral não precisarão do apoio de um magistrado.

O tema ainda será avaliado pelo plenário do Supremo. Enquanto novas mudanças não são feitas, o judiciário poderá aproveitar o tempo ganho para se preparar. Já bastam os nossos estudantes deixando tudo para a última hora.

O melhor pior Enem da história

Falando em estudantes, o melhor Enem da história, para variar, foi péssimo. Assim que os resultados saíram, um grupo de estudantes começou a relatar que a nota tinha tudo para estar errada. Apesar de terem acertado muitas questões do gabarito oficial, a nota de todos estava mais baixa do que o esperado.

Abraham Weintraub, o ministro da Educação, se fez de sonso o quanto pode. Postou video engraçadinho na internet e, inicialmente, afirmou que o problema na correção estava relacionado apenas a algumas provas feitas no segundo dia do exame. No dia seguinte, o MEC mudou a postura e afirmou que falhas no primeiro dia também seriam investigadas.

Para lidar com o problema, o calendário do Sisu foi ampliado (ainda que o Ministério Público Federal tenha solicitado a suspensão da abertura do processo seletivo até que tudo tenha sido realmente corrigido). Um e-mail foi criado para quem quisesse questionar a nota. O prazo para o envio das mensagens? Menos de 24 horas.

O ministério apontou que os problemas ocorreram por falha da gráfica responsável pela impressão das provas. Ela foi selecionada após a empresa que cuidou das provas pré-Bolsonaro falir. Ao que tudo indica, ter contratado alguém com zero experiência na área e ainda cometer uma série de presepadas ao longo do último ano não gera um bom resultado no final do dia.

O ministro poderia utilizar a lição e começar a fazer um trabalho mais eficaz. Ou ele pode, finalmente, sair do cargo. Vai que, em vez de um intelectual meia boca com ideias ruins, Bolsonaro resolve colocar alguém minimamente eficiente? Superar o status quo não é muito difícil.

Novamente tudo muito louco no ninho de mafagafo chamado DPVAT

A Folha de S. Paulo apontou que a seguradora Líder, que faz a cobrança do DPVAT, tem mutretas que vão além das citadas no post da última semana. A empresa realizou doações e atendeu a pedidos de políticos que podem ou não ter agido a favor de seus interesses.

Os parlamentares do PSB e do PSL foram responsáveis por suspender a CPI do DPVAT em 2016. Também recebeu dinheiro Andrea Neves, quando presidia o Servas. Os R$ 500 mil a ela repassados não tiveram o seu destino identificado, o que pode ou não indicar que criminhos ocorreram.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Que notícia ruim o ministério do Meio Ambiente trouxe essa semana

A área com alertas de desmatamento na Amazônia Legal aumentou 85,3% em 2019 em uma comparação com os dados do ano anterior. Os indicadores são do sistema Deter-B, que foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

O Núcleo obteve uma série de documentos que mostram o trabalho porco do Ministério do Meio Ambiente durante o desastre do vazamento de óleo no Nordeste em 2019.

A matéria mostra como o Ibama acompanhou o incidente, alertou a equipe de Salles sobre os problemas encontrados e avisou que, com o contingente reduzido, pouco poderia ser feito. As 450 páginas cobrem o descaso do ministro entre 2 de setembro e 4 de outubro.

A incapacidade do governo em colocar pessoas eficientes em cargos de confiança é quase tão incrível quanto o empenho de cada uma em ser péssima no que faz.

Wishful thinking liberal

O governo resolveu começar o ano brincando de liberalismo. Ou pelo menos tentando. O secretário especial de Desestatização, Desinvestimentos e Mercados do Ministério da Economia, Salim Mattar, anunciou que pretende arrecadar R$ 150 bilhões com a venda de ativos estatais.

Mais precisamente, 300 deles. Muitos dos quais já estão com a venda encaminhada desde os tempos de Michel Miguel. Parece um detalhe pequeno, mas não é, já que o governo tem tudo para acabar após aprovar os projetos do vampirão.

Sim, ativos. Pois este blog não cairá no canto de sereia de que a venda de subsidiária da Eletrobras (ou da Petrobras) é venda de estatal. Isso tem outro nome e está longe de ser privatização: é desinvestimento.

O mesmo vale para a venda de participações minoritárias em empresas (algo que aconteceu bastante nos governos Lula e Dilma por meio do FI-FGTS, da Caixa e do BB). Isso também não é privatizar (novamente, é desinvestimento). Mas o leitor pode ter certeza que o governo venderá para o bolsonarista este gato sarnento como se ele fosse lebre.

A agenda do governo também inclui 79 leilões em 2020. Há inclusive parcerias público-privadas para áreas como iluminação pública e tratamento de resíduos sólidos. O saneamento, que é básico, ficará em um único leilão.

Ficam de fora o Banco do Brasil, a Petrobras e a Caixa. Os Correios, talvez. Mais provavelmente ano que vem, quando o governo terminar a avaliação do projeto e decidir se vale a pena ou não deixar um monte de liberal de internet molhadinho.

Teste do pato

O que é que parece com um fascista, fala como um fascista e se porta como um fascista? Provavelmente o agora ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim.

Na noite do dia 16, Alvim publicou um vídeo em que ele resolveu anunciar o edital do Prêmio Nacional de Artes. O roteiro teve Wagner, cruz dupla na mesa e discurso de Joseph Goebbels sendo parafraseado.

Pegou mal.

Pegou muito mal.

Pegou tão mal que até o chefe do Olavismo Cultural fez de conta que não gostou.

Mas teve o apoio do governo. Horas antes, Alvim esteve em uma live com Jair Bolsonaro, na qual o presidente defendeu os filtros do edital e validou o ideal de cultura fascistoide de Alvim.

Pois não basta colocar todo mundo para ver secretário imitando nazifascista: também é importante ecoar e elogiar as suas ideias.

Alvim se defendeu afirmando que não queria ofender ninguém. Também que repudia qualquer regime totalitário (o que deixou Olavo de Carvalho muito triste). Faltou só fingir que não sabia o que estava fazendo.

Mas o fato é que a performance foi construída e ensaiada para ser aquilo que todo mundo disse que ela foi. Alvim sabia o que estava fazendo, acreditava no que estava falando e não se furtou a usar de forças demoníacas para imitar Joseph Goebbels. Até deixou isso registrado em e-mail.

O que só serviu para reforçar a ideia de que sim, o governo quer fazer uma política artística semelhante àquela adotada por Hitler. O “bombardeio de arte conservadora” tem que ser acompanhado de uma diplomacia nacionalista, revisionismo educacional e todo tipo de ideia reacionária que os rejeitados que governam o país escutarem de Olavo de Caralho.

E agora, José?

Entra no lugar (temporariamente) do cosplayer de Goebbels a atriz Regina Duarte. Ela fará um “período de teste” antes de decidir se ficará mesmo no cargo ou não. A Rede Globo, aliás, já deixou a atriz de aviso prévio. Os olavistas chiaram.

Enquanto isso, o Ministério Público Federal defendeu que os atos e nomeações (que incluem gente que gosta da Opus Dei e excluem funcionários de carreira críticos ao governo) feitos por Alvim sejam anulados. Uma ideia que, pelo menos até o final deste texto, não tinha se tornado realidade.

Mas podemos ficar tranquilos, pois está tudo normal por aqui.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.