A Nova Era – semana #25: melindrando esse amor gostoso

The following takes place between jun-18 and jun-24


Mamata congressual, a primer 

Levantamento da Folha de S. Paulo indicou que, em média, 26 deputados saem do país mensalmente para destinos nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Voltadas para dar aos parlamentares “acesso a novos conceitos, políticas públicas e experiências legislativas úteis ao Brasil”, as viagens custaram, entre janeiro de 2018 e janeiro de 2019, R$ 3,9 bilhões aos pagadores de impostos.

Até aí, tudo bem. Viajar sai caro.

O que a reportagem também aponta é que a boa parte dos destinos envolvem cidades turísticas como Dubrovnik, que foi utilizada para gravar “Game of Thrones”. Outro deputado aproveitou para visitar Lisboa e Fátima, em Portugal, com direito a fotinha ao lado da estátua de bronze de Eusébio, um famoso jogador português que eu não sabia que existia. Na Nova Era, a mamata se reproduz e posta no Instagram.

Uma monarquia para chamar de nossa 

Enquanto dava uma pausa nas brigas sem necessidade com o Congresso, o presidente resolveu, mais uma vez, nos lembrar como um país sem ele seria ótimo. No sábado (22), Bolsonaro afirmou que o Legislativo tinha excesso de poder e que tentava transformá-lo em “rainha da Inglaterra”.

O blog fica de coração quentinho ao pensar em um primeiro ministro como Rodrigo Maia, que não é o herói que queríamos para esse governo, mas é o herói que merecemos.

Bolsonaro completou a sua fala criticando a possibilidade de um projeto que transferia a parlamentares o poder de fazer indicações para agências reguladoras. “Imagina qual o critério que vão adotar. Acho que eu não preciso complementar.”

Um palpite bobo: seria um critério melhor do que o utilizado por alguém que fez do poder público um cabide de emprego para seus parentes, seus filhos e os seus colegas ligados à milícia carioca.

Por último – e não menos importante – o presidente complementou o seu absurdo do dia afirmando que não há a menor necessidade do pacto entre poderes que ele mesmo resolveu fazer: basta apenas existir um sentimento do coração e da alma para que exista harmonia entre os poderes. O oposto do que alguém que apoiou maluco autoritário nas ruas contra o STF e o presidente da Câmara faria.

Esta semana, na reforma da Previdência 

O presidente, que fez esforço para articular pela reforma da Previdência apenas quando ela afetou a aposentadoria dos milicos, avisou que vai coçar muito a rola pequena e feia dele quando o assunto for reincluir os estados e municípios no projeto. Os governadores, caso queiram, terão que se virar para convencer os congressistas da necessidade do projeto ser aprovado com validade para todos os níveis do governo. Um grande dia para os abobados que insistem que o presidente trabalha arduamente por ela.

A brilhante ideia de Jair veio acompanhada da apresentação de um conjunto de destaques pelos deputados do PSL, que favorecem os profissionais da segurança pública. O presidente da comissão afirmou que é “surreal” que os deputados façam lobby por corporações. O blog fica se perguntando em que lugar Samuel Moreira esteve durante as eleições para ficar surpreso só agora.

Pirocoptero na cara da nação

Durante a semana, a reserva imoral do governo, digo, a reserva moral do governo Bolsonaro, foi ao Senado prestar contas sobre as mensagens reveladas pelo The Intercept. A visita de Sergio Moro à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) foi o show de horrores esperado por todos. Mas, para ex-juiz, foi um grand slam.

O ministro da Justiça conseguiu responder com cuidado a todas as questões feitas, mas sem responder o que era perguntado. Não contente, fugiu de muitas tentativas de apará-lo pela rabiola, e avisou: se as mensagens que não existem (para ele) apontarem criminhos (elas apontam), ele sairá do cargo de ministro.

Moro venceu a batalha do Senado não por aquilo que ele disse, mas sim pelo que não disse. O ex-juiz conseguiu, por mais de sete horas, dar respostas evasivas e fugir do ponto das perguntas com uma habilidade malufiana (e olha que alguns senadores estavam preparados com materiais de toda sorte). Acusou 52 vezes o The Intercept de sensacionalismo e repetiu, como um marido que abusa psicologicamente de sua esposa, mais de 30 vezes que as relações entre ele e Deltan eram absolutamente normais.

Quando cansado de repetir tais argumentos, lembrou que o Estado de direito poderia ser jogado às favas se isso fosse contribuir com o combate à corrupção. Ou colocasse Lula na cadeia (era muito importante colocar Lula na cadeia (importante para caralho (vai dizer que você não queria o Luis Inácio na cadeia? (se falar que não, é petista))).

Não é que esse fosse exatamente o ponto dos debates. Não era. Mas o argumento ganhou valor por lembrar aos lava-jatistas que a defesa do ministro ainda é importante. No final do dia, as desculpas foram boas o bastante para o presidente, que é a pessoa que mantém o ministro, ministro.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Uma bombada pelo amor de Deus, uma bombada por caridade 

A nova semana da #vazajato começou mostrando que Sergio Moro adora um apoio importante. O site The Intercept revelou, na noite de terça (18), que o atual ministro articulou com o procurador Deltan Dallagnol para poupar o ex-presidente – e príncipe – FHC das investigações da Lava Jato

Para o ex-juiz, o apoio do professor era importante demais para que a força tarefa arriscasse investigá-lo (ainda que o sociólogo tenha aparecido em vários depoimentos). Já o procurador do MPF apontou que a eventual prescrição de alguns supostos criminhos era detalhe bobo. O importante, para Dallagnol, era a construção da imagem de imparcialidade. 

Em notas não relacionadas, ambos não tinham motivos para dar pitacos sobre o caso. Qualquer investigação que eventualmente fosse feita em relação ao ex-presidente, seria feita longe das asas de Dallagnol e Moro. 

Em relação ao que estava sob o seu domínio, porém, Moro não perdeu a oportunidade de meter os dedos. Como um fabricante de dados viciados, o ex-juiz articulou com Dallagnol a escalação de procuradores nos depoimentos da Lava Jato. Tudo para garantir que apenas a defesa fosse composta por pessoas que Moro não gosta.

A pedido do ministro da Justiça, Dallagnol pediu a Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos integrantes da força-tarefa da Lava Jato, a substituição da procuradora Laura Tessler do time que participava das audiências do processo de Lula. Para evitar problemas, o procurador também pediu que Carlos fizesse tudo com cuidado, evitando deixar qualquer sinal da sua ação e ignorando a ética que o seu cargo exige.

Na manhã de domingo (23), o ex-juiz acordou inspirado. Foi ao Twitter para postar “Um pouco de cultural. Do latim, direto de Horácio, parturiunt montes, nascetur ridiculus mus” (“As montanhas partejam, nascerá um ridículo rato”, em português). O rato, provavelmente, era o pedido de desculpas que o ministro enviou aos tontos do MBL.

No mesmo dia, Moro apareceu em uma nova notícia da #vazajato, dessa vez publicada pela Folha de S. Paulo, outro veículo a validar o conteúdo das mensagens. A matéria do impresso aponta como os procuradores se articularam com Moro para impedir que o STF ficasse ainda mais irritado com o juiz, que dias antes tinha recebido um tapa na testa do STF por divulgar, ilegalmente, áudios do ex-presidente Lula conversando com Dilma Rouseff.

O modo vanguardista (inspirado nas experiências italianas) das ações da Lava Jato deram aos concurseiros bonitas coroas de louros. A operação prendeu gente grande, recuperou uma boa quantidade de dinheiro e revelou um enorme esquema de corrupção. Agora, o que a #vazajato traz, para os agentes da lei, é a possibilidade de carregar uma maravilhosa coroa de espinhos.

Ganhará a democracia e o estado de direito se as devidas punições forem aplicadas àqueles que fazem tudo para prender quem se corrompe, inclusive se corromper.

Privacidade pra quem? 

Enquanto todo mundo se perde no meio da bagunça que o presidente promove, Jair Bolsonaro decidiu flexibilizar o compartilhamento de dados de beneficiários do INSS com o setor privado. A chamada MP do pente fino (MP 871), que estabelece novas regras para acesso a benefícios como aposentadoria rural e salário-maternidade, não proibirá bancos e sociedades com contratos ligados ao INSS de utilizarem os seus dados para publicidade direcionada.

O governo se defendeu lembrando que já temos uma lei que trata do uso de dados pessoais, o que limitaria esse tipo de ação. Portanto, devemos todos ficarmos despreocupados, afinal, o Brasil é um país conhecido por ter empresas que não abusam das leis existentes, respeitam a privacidade de seus consumidores e sabem cuidar muito bem dos dados de terceiros.

Um presidente para a nação evangélica 

Pela primeira vez em nossa história, um presidente da República foi à Marcha para Jesus. Bolsonaro apareceu no evento para lembrar aos religiosos presentes que o seu grupo foi “decisivo para mudar o destino do país”. Se bots e criadores de notícias falsas fossem capazes de sentirem algo, ficariam incomodadíssimos com a falta de gratidão do presidente.

Justiça seja feita, Bolsonaro deve mesmo muito aos evangélicos. Boa parte do grupo religioso se agarrou a Jair com a mesma vontade que pregos grudaram Cristo na cruz.

Há aqueles que viram a eleição de Bolsonaro como uma oportunidade de voltar aos espaços de poder. Já outros olharam para o político como alguém com um grau de receptividade que ia muito além de uma simples visita a um templo ou à afirmação de que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor.

Como apontamos no blog, assim como Donald Trump, o presidente é visto por muitos como um enviado de Deus na terra. Mesmo que, na prática, a teoria de um político que trabalha em defesa pela família seja falsa, Jair Bolsonaro conseguiu se sagrar como um verdadeiro representante dos “homens de Deus” nas eleições de 2018.

Mas não é preciso fazer um longo retrospecto das ações do presidente após seu mergulho no rio Jordão: o que se tem aqui é apenas mais uma aliança em busca de poder do que uma aceitação dos valores de Cristo.

Ao colocar “Deus acima de todos”, como se o gosto por fazer papai e mamãe com o pai de Cristo fosse universal, Jair Bolsonaro reassumiu o seu compromisso com as pautas morais evangélicas, indo contra qualquer processo de pluralização da sociedade.

E por não ter o menor compromisso com qualquer coisa que vá além de uma “verborragia moralista e antiesquerdista”, o presidente foi o candidato perfeito para um grupo que sonha em acabar com tudo que os apoiadores dos marcos civilizatórios das Luzes conquistaram após o fim da ditadura. Indo além, Bolsonaro também é o aliado perfeito para ampliar o projeto de poder de parte dos protestantes, que sonham em reduzir a influência da Igreja Católica nos processos políticos da nação.

Está dando certo. 

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A Nova Era – semana #24: não fala que eu não te escuto

The following takes place between jun-11 and jun-17 


Direitos desumanos para humanos sem direitos 

A semana #24 do governo Bolsonaro começou com tudo. Na terça-feira (11), o presidente exonerou 11 integrantes do MNPCT (Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura). Mas espere! Isso não é um sinal de que o governo quer reduzir a capacidade esquerdistas de acusarem bem-intencionados agentes da lei de abusos contra os nossos detentos. Pelo contrário! Ele só quer deixar de pagar os responsáveis por tal atividade, já que essa coisa de trabalhar de graça dá certo em todo o planeta. 

Zema que o diga

Se você, assim como eu, não fazia a menor ideia de que o MNPCT existia (o governo é muito grande, parece o mar), segue o resumo. O órgão foi criado em 2013 com o objeto de estudar e fazer relatórios sobre violações de direitos humanos no país. Foram eles que avisaram às autoridades (in)competentes que o Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim) era um pequeno inferno na Terra. 

É importante reforçar que o governo nega que essa medida possa inviabilizar qualquer tipo de ação para combater a tortura dentro das cadeias. O fato do presidente acreditar que direitos humanos servem apenas para “humanos direitos”, certamente não deve ser visto como impulso para tal medida ainda que, na prática, ela inviabilize as ações do grupo. 

O Ministério Público estuda quais medidas podem ser aplicadas ao caso. Já a entidade Justiça Global denunciou o presidente à ONU

O jeito que o Supremo faz bagunça institucional é diferente 

Na última postagem, o blog avisou: basta um juiz mais amigo ficar de má vontade com Moro, que os advogados de defesa dos condenados pela Lava Jato poderiam sonhar com um final de semana tranquilo. 

Eis que, em um dos julgamentos da Segunda Turma do STF, Gilmar Mendes mostrou que ele pode ser essa pessoa. Ao lembrar da atuação de Rodrigo Janot no processo que estava sendo julgado, o ministro do Supremo afirmou que “juiz não pode ser chefe de força tarefa”. O que, bem, é a verdade. 

O importante, aqui, é que Gilmar não está sozinho. Pelo menos é o que revelou a coluna Painel, da Folha de S. Paulo. O jornal apontou que integrantes do STF e do STJ consideram as revelações da #vazajato a “pá de cal moral no veredito de Lula”. 

Resta saber, porém, até que ponto as instituições superiores considerarão os conteúdos do The Intercept como verdadeiros (e pesados) o bastante para anular as condenações da Lava Jato Afinal, fora da privacidade das entrevistas em off, gente como Barroso adota cautela. O ministro disse que não consegue entender a euforia de quem já fala em mudar a condenação feita pelo Moro, e que a Petrobras virou uma bagunça nas mãos do PT. Ou quase isso

A canetinha encolheu 

Não faz muito tempo, o presidente afirmou que a sua caneta era a mais poderosa da República. Só faltou a ele combinar com os russos, digo, os parlamentares. Em uma semana, o presidente acumulou uma boa quantidade de derrotas em cima das suas reais preocupações. 

Na quarta (12), o Senado avisou que o decreto que ampliava o porte de armas no país era ilegal. Por incrível que pareça, os Senadores as vezes lembram que a Constituição não é papel pra limpar urina de cachorro: decreto presidencial não pode alterar norma estabelecida por lei. Simples assim. 

Dos 24 votos, apenas 9 foram a favor da ideia imbecil do governo. O Major Olímpio, sempre muito ponderado, bradou que a recusa da MP gerará “festa na quebrada! Festa das facções!”. Faz o brasileiro pensar que a liberalização do porte nos levaria para o universo de uma revista em quadrinhos, em que ex-soldados se tornam justiceiros. Ou que somos todos capazes de fazer cosplay de John Wick. Não somos. 

No mesmo dia, a maioria dos ministros do STF deu um belo recado ao Planalto. Também não há como, por meio de decreto, extinguir os conselhos federais que estão previstos por lei (como é o caso da Comissão de Erradicação do Trabalho Escravo). 

Se o presidente quer, novamente, usar atalhos “à margem do figuro legal” em forma de canetada para golpear os avanços civilizatórios dos últimos anos, é melhor tentar outro caminho. Da forma que está, continuará dando errado – e não adianta falar que a culpa não é dele e que ele não teve tempo para aprender como o Congresso funciona.  

Na Lava Jato we don’t trust 

Como todo castigo é pouco para otário, o The Intercept continuou a série de vazamentos, agora, inclusive, com um novo aliado na apuração dos fatos. Na quarta (12), Reinaldo Azevedo divulgou em seu programa de rádio uma conversa entre Dallagnol e Sergio Moro. No papinho entre os dois concurseiros, Deltan informou que Luiz Fux, ministro do STF, mandou um belo “conte comigo pra tudo” para a Lava Jato.

Poucas horas depois, o The Intercept vazou mais alguns detalhes sobre como Deltan e Moro combinaram mais ações juntos do que aqueles casais que andam abraçados no supermercado. O ministro, por sinal, era bem fiel ao seu subordinado não oficial: segundo a Folha de S. Paulo, os advogados que trabalham na defesa dos acusados pela Lava Jato jamais tiveram tanta liberdade com o ex-juiz como o promotor do MPF tinha.

Bolsonaro, que foi a um jogo do Campeonato Brasileiro com o ministro da Justiça, seguiu calado sobre as notícias. Abrir a boca para falar sobre o tema, o presidente só abriria na quinta-feira (13). Disse que estava unido a Moro, e que o normal no Brasil é conversar “com doleiro, com bandido”.

Considerando a quantidade de criminhos que são cometidos no Brasil, é bem provável que seja verdade mesmo. Para o presidente – e a sua família –, por exemplo, é normal conversar com miliciano, empregar parente de miliciano, beijar a boca de filha de miliciano, morar perto de miliciano, passar pano para miliciano, tirar foto com miliciano e, nas horas não vagas, prestar homenagem para miliciano. 

Uma das coisas que as mensagens mostram – e que é divertido de ver – é a relação de submissão que Deltan tem com Moro (a ponto de outros procuradores ficarem incomodados com isso). O ex-juiz trabalhou como Relações Públicas da força tarefa e, no ambiente privado, não deixou de esconder a sua indisposição com a defesa de Lula

Ok, advogado não é gente e os do ex-presidente são mesmo um pé no saco. Mas não cabe a juiz fazer o que o ministro da Justiça fez. Não em uma república relativamente séria – o que não é lá bem o nosso caso, mas enfim. 

Enquanto Moro falava que tinha sido vítima de um ataque criminoso, a defesa do petista pediu a anulação da sua condenação com base nas provas ilegais (algo que Moro já tinha defendido anteriormente). O Nexo explicou

Para quem não anda com as bolas do lavajatismo na glote, ou simplesmente não é parte do conselho diretor do Grupo Globo, algumas coisas são claras. As revelações do The Intercept mostram, até o momento, que Moro e Deltan são péssimos em esconder as coisas que fazem naquela zona cinzenta entre o que é imoral e o que é ilegal

Os outrora defensores de vazamentos em favor do interesse público juram que as mensagens, antes normais, mas que eventualmente representam um descuido, são falsas – mas não indicam qualquer tipo de ilegalidade(???). Tudo isso com um olhar de ofensa que faz pensar que, na verdade, eles tiveram a sunga abaixada após saírem de uma piscina gelada.  

A #vazajato mostra que, de imparcial e compromissado com o combate à corrupção, os missionários da destruição não tem nada. Eles são, no máximo, compromissados com a sua própria agenda policialesca.

Isso não quer dizer, é claro, que não exista um grande grupo de pessoas dispostas a defender a síndrome de Batman tupiniquim de Moro em troca do “bem maior” (esta coisa não muito rara em terra brasileira). Mas, enquanto esse número não cai, o projeto anticrime e a ida de Moro ao Supremo Tribunal Federal estão virando miragem no horizonte de expectativas do ex-juiz. 

Defender que as condenações sejam revistas não é defender que gente que tem tudo para ser bands não é bands. É apenas desejar que todas as pessoas – poderosas ou não – sejam julgadas por um juiz que respeita os seus códigos de conduta no lugar de um que orienta como a acusação deve trabalhar o tempo todo e que considera as ações da sua defesa um “showzinho”. Até Maluf, o filhote mor da ditadura, merece isso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

A mentira da semana do Bolsonaro 

Após o STF criminalizar a homofobia, Bolsonaro afirmou que isso dificultaria a contratação de gays (??). A corte, para o presidente (que não acredita em classes), aprofundou a divisão de classes com a medida. Para Jair, não há a necessidade de criminalizar este ato de preconceito pois “a pessoa que discrimina, por si só vai ser deixada de lado” (corta para ele sendo eleito presidente). 

A bobajada do presidente, para variar, não se sustenta na verdade. Um estudo da consultoria McKinsey registrou que empresas com alta diversidade tem 33% mais chances de lucrarem. Diversidade e respeito a quem pensa diferente vende. Vende mais até do que licença de programa para gerenciar bot de Twitter em época de campanha. 

Dança dos poderosos I 

O governo Bolsonaro já pode pedir música no Fantástico por um novo motivo. O (agora) ex-ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz foi demitido da Secretaria de Governo, se tornando o terceiro membro do alto escalão a perder um cargo. Mais uma vez, alguém caiu por manter atritos com o Guru da Virgínia e o filho do presidente que exerce vereança no Rio de Janeiro e acha que conhece código morse.

presidente Carlos Bolsonaro, com a ajuda de Olavo de Carvalho, cozinhou Santos Cruz em banho maria por meses após ataca-lo nas redes sociais. Um dos motivos? O general não queria gente ligada ao núcleo olavista do governo metendo as mãos nos contratos da Secom e na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). 

Santos Cruz foi trocado por Luiz Eduardo Ramos, chefe do Comando Militar do Sudeste.  Ramos, que é pouco acostumado às práxis das articulações políticas, será responsável por articular politicamente o governo com os outros poderes

O novo ministro também terá novos poderes, antes não reservados a Santos Cruz. O general poderá barrar qualquer nomeação de segundo e terceiro escalão do governo. Isso inclui, mas não se limita, a todos os reitores que forem eleitos nos próximos anos pelas suas respectivas comunidades acadêmicas. 

Dança dos poderosos II 

O general Santos Cruz não foi o único que saiu do governo nos últimos dias. O perigoso Joaquim Levy, conhecido pela sua defesa das ideias marxistas em lugar nenhum, cansou de ser humilhado publicamente por Bolsonaro e pediu para sair. 

O pedido de demissão ocorre dias após o presidente falar que a sua cabeça estava à prêmio por cometer o crime de contratar alguém que, assim como Levy, também trabalhou para governos petistas. A fala de Bolsonaro, por sinal, foi acompanhada da compreensão e do ombro amigo de Guedes – direcionado para o presidente

Em notas não relacionadas, o ex-presidente do BNDES não estava demonstrando muita disposição em fazer photo-op com Bolsonaro para mostrar que a já aberta “caixa preta do BNDES” estava sendo aberta pelo seu governo. 

Também em notas não relacionadas, Joaquim Levy estava resistindo aos pedidos de Paulo Guedes para “despedalar” o banco em um ritmo maior do que aquele que estava sendo mantido desde o governo Dilma. Pois, ao contrário do que parte da atual base do governo tenta dizer nas suas tentativas de reconstruir a história, as pedaladas estão em processo de reversão desde antes do impeachment. Só não ocorreram em um ritmo que quebraria a viabilidade financeira do banco público. 

Entra no lugar de Joaquim Levy o sócio-diretor do BTG Pactual, Gustavo Montezano. O jovem tem pouca experiência com bancos públicos, alguma experiência com o mercado financeiro e muita experiência em fazer bagunça

Dança dos poderosos III 

Continuando a lista de pessoas que perderam carguinho no governo, temos o general do Exército da reserva Franklimberg Ribeiro de Freitas. Após pressão dos ruralistas, o militar foi removido da presidência da Funai.

Mas, ao contrário de Levy, Freitas não saiu pelas portas dos fundos. O que se viu na sua despedida foi um belo espetáculo de raiva

Em reunião com os servidores da fundação, Freitas disse que Bolsonaro está muito mal assessorado (o que não é mentira). Também acusou o cidadão Nabhan Garcia, secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, de falar sobre indígenas salivando ódio (o que deve ser verdade). Por último (e não menos importante), o general lembrou que a Funai é vista “como óbice ao desenvolvimento nacional” por boa parte do governo (o que definitivamente não é mentira). 

Dança dos poderosos IV 

Por último – e não menos importante – na nossa lista de novos frequentadores do RH do governo federal, temos o agora ex-presidente dos Correios. O general Juarez Aparecido de Paula Cunha foi demitido por cometer o crime de se comportar como “sindicalista”

Comportar-se como sindicalista, no caso, é falar que não quer a empresa pública que governa ser privatizada e tirar foto com alguns parlamentares de esquerda. O presidente, via de regra, contrata e demite quem ele quiser para os cargos que ele pode contratar e demitir a qualquer momento. A presidência deu a ele esses mimos. 

Mas é bem divertido ver o homem que chegou ao cargo político mais alto do país prometendo “desesquerdizar” a administração pública ser incapaz de contratar alguém para presidir uma empresa que ele quer privatizar que seja simpático a essa ideia. A internet está cheia de internautas que desconhecem como funciona o mercado de logística nacional, mas são loucos para acabar com a estatal. 

Até porque, ver o presidente não reconhecendo que pessoas podem viver em uma democracia pensando diferente de maneira harmônica é algo que não surpreende ninguém. Não quem acompanha minimamente a carreira dele desde os anos 1990. 

Imagine o que será do Planalto quando Jair souber que o general Luiz Eduardo Ramos tem proximidade com políticos de esquerda do PT e do PSOL.

E a reforma, hein? 

A reforma da Previdência andou mais um pouco, novamente à revelia das ações do Planalto. O relator do projeto, o deputado Samuel Pereira, apresentou o seu texto com sete mudanças em pontos críticos do texto que foi enviado por Paulo Guedes. O Nexo compilou todas as mudanças propostas pelo tucano

Se você não clicou no link (ou caiu no paywall), eis um resumo. Saem as mudanças na aposentadoria rural e no Benefício de Prestação Continuada. A desconstitucionalização da Previdência (importante para facilitar as reformas do futuro) ficou para outro dia. Faltou trocado nos bolsos da Câmara para isso. 

E o regime de capitalização, a tiete de Paulo Guedes? O vento levou. Estados e municípios na reforma? Se continuar assim, terão que fazer a tarefa em casa. Por último, e não menos importante, o relator afirmou que, a depender da sua vontade, professores se aposentarão com 57 anos. 

Ao anunciar o acordo partidário que permitiu a tramitação da reforma, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, não deixou de gastar elogios a Guedes, ao relator, aos líderes partidários, ao homem fantasiado de cachorro que passou uma tarde no prédio da Câmara, aos seus assessores e até mesmo à oposição. Afinal de contas, é importante valorizar todas as pessoas que de fato ajudaram na construção do texto

A reação do ministro da Economia, porém, mostra que os tempos do Chile de Pinochet deixaram marcas profundas na alma do ministro. O todo poderoso economista, em vez de agradecer a apresentação do relatório, afirmou que os parlamentares “mostraram que não há compromisso com as novas gerações. O compromisso com os servidores públicos do Legislativo foi maior do que com as novas gerações”

Vamos recapitular. O governo conseguiu colocar para votar um relatório A FAVOR da mais profunda reforma da Previdência da nossa história. Um projeto que não consegue apoio fácil nem nas mais autoritárias ditaduras. O ministro responsável pelo projeto reagiu reclamando que os políticos fizeram política para aumentar o apoio à proposta

Este governo é uma “usina de crises” e a base de geração energética é nuclear. 

E agora, para algo completamente diferente 

No começo da semana, Jair Bolsonaro criou um belo mecanismo anti-impeachment para o seu governo (e as outras esferas do executivo). Enquanto o decreto for válido, o TCU, sempre que desejar tomar qualquer tipo de decisão sobre as eventuais irregularidades praticadas por um agente público, deverá considerar “circunstâncias práticas que impuseram, limitaram ou condicionaram a ação do agente público”. Em caso de responsabilização, os atributos e as complexidades do cargo exercido pela pessoa sub judice também deverão ser levados em conta. 

Indo além, também decretou que o agente público só poderá ser responsabilizado por decisões e opiniões técnicas que forem emitidas caso ele “agir ou se omitir com dolo, direto ou eventual, ou cometer erro grosseiro, no desempenho das suas funções”. Erro grosseiro, no caso, será considerado “aquele manifesto, evidente e inescusável praticado com culpa grave, caracterizado por ação ou omissão com elevado grau de negligência, imprudência ou imperícia”. 

Eu pagaria um café com Dilma Rousseff apenas para ouvir o que ela pensa sobre esse decreto e o que acontece com quem demite o Levy. 


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #23: país rico é país sem brasileiro

The following takes place between may-04 and jun-11


As notícias que parecem da semana passada, mas não são 

Em 23 semanas de Nova Era, algumas coisas se tornaram repetitivas. Então, vamos começar uma pequena sessão aqui no blog focada apenas nesses pontos, pois já está bom de repetir o mesmo argumento toda semana. 

Vamos começar com gente do Legislativo apontando como o governo é muito ruim, até em fazer o básico do básico. Na noite de domingo (02), por exemplo, Rodrigo Maia afirmou que falta ao Planalto uma agenda para o Brasil, que aumente a produtividade da economia, crie empregos, dê remédios a quem precisa e melhore a qualidade da educação. 

O carioca também negou que o pacto dos três poderes foi fechado, afirmando que “o Onyx Lorenzoni avançou na informação sem uma construção política amarrada. Ele entregou um documento, ninguém leu, e ficou parecendo para a sociedade e a imprensa que a gente fechou aquele pacto. Zero verdade nisso.” 

Já Alcolumbre disse que o governo comete trapalhadas diariamente, e tirou do Planalto os méritos de uma futura aprovação da Reforma da Previdência. O que não deixa de ser verdade, uma vez que o próprio Bolsonaro acha que, uma vez entregue um projeto ao Congresso, ele deixa de ser problema do Planalto.

Como os bots do Bolsonaro tiram folga no final de semana, não teve hashtag no Twitter atacando Maia ou Alcolumbre. Também é possível que os responsáveis por acionar as postagens em série tenham se lembrado que precisam engolir ambos por mais dois anos.

Fazendo coro a Maia, o presidente da comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, Marcelo Ramos, também lembrou que falta a noção de prioridade para Bolsonaro. No seu Twitter, o deputado se queixou que Bolsonaro visita a Câmara para mudar o Código de Trânsito, mas não para ajudar na aprovação da reforma. Não é como se a aprovação do projeto estivesse garantida

Os militares seguem atuando como a voz moderada do governo. Segundo apontaram Vinicius Sassine e Bernardo Mello Franco, os generais próximos a Bolsonaro continuam tentando fazer o presidente deixar de ser um fantoche dos olavistas. 

Por fim, o PSL segue sendo uma bagunça. Na última semana o Major Olímpio, líder do PSL no Senado, partiu para cima da Joice Plagelmann (frase não literal), líder do governo no Congresso. O bate boca ocorre após o partido não cumprir o acordo firmado entre os seus membros, logo na primeira sessão conjunta das casas legislativas

Certas partes do noticiário se tornaram uma temporada da série Russian Doll. A diferença, aqui, é que morremos apenas de desgosto no final do dia. 

Never go full Ayn Rand 

Bolsonaro andou lendo A Revolta do Atlas, e o resultado vai te surpreender. Na terça-feira, o presidente atravessou as ruas de Brasília, bateu nas portas do Congresso, e entregou um projeto de grande importância para o cenário atual: um conjunto de alterações no Código de Trânsito Brasileiro

Se tudo der certo (para o “governo do revide”), em alguns meses o Brasil será o país em que: 

O presidente, que já anunciou o fim dos radares nas estradas federais dizendo que “ninguém é otário de fazer curvas em alta velocidade”, afirmou que os pais são completamente responsáveis e sabem que é importante levar os filhos em seus carros utilizando a cadeirinha.

O blog considera fofa a fé que Jair tem na inteligência do brasileiro, principalmente por terem sido as pessoas que nasceram na Terra de Santa Cruz as responsáveis por darem a ele cargos eletivos nas últimas décadas. 

Felizmente não há boa vontade dos agentes políticos brasileiros em apoiar essa sandice. Paulo Douglas, que é um dos autores da Lei do Descanso dos Caminhoneiros, chamou o texto de retrocesso imenso, e pretende contestá-lo na justiça.

Já a deputada Christiane Yeared, da base do governo, lembrou que, no mundo real, multa sai mais barato do que caixão. Também afirmou que, o custo das lágrimas que escorreram pelo rosto dela após o filho dela ser atropelado por um ex-deputado certamente deve ser menor do que o de uma cadeirinha infantil.

Houve liberal que apoiou a ideia do presidente, baseando-se no argumento de que o Estado não deve impedir alguém de ser imbecil. Houve também aqueles que afirmaram que as pessoas são completamente capazes de não colocarem a própria vida (e a vida de seus filhos) em risco.

Afinal de contas, qualquer pai responsável compraria cadeirinhas para as suas crianças após vaciná-las no posto de saúde mais perto de sua casa. Não é como se existisse gente por aí dando alvejante para os seus filhos.

Também houve aquele que confia plenamente na mão invisível do mercado, e disse que as empresas não contratariam motoristas que dirigem com o cu cheio de rebite. Todos falharam em informar como o resto da população se protegerá dos motoristas que não dirigirem sóbrios (responsáveis pela morte de muita gente), e de onde sairão os recursos para as crianças com pais pouco cuidadosos comprarem as suas próprias cadeirinhas. Elas pouparão o dinheiro da merenda para se protegerem por conta própria?

Cabe aos liberais (ou libertários) tupiniquins pararem de ir full Ayn Rand na defesa das suas ideias. O brasileiro é, foi, e continuará a ser muito burro. Basta lembrar o que jornalistas falaram quando o Maluf disse que não é legal andar por aí soprando fumaça no coleguinha.

Aliás, volta, Maluf! Entre um filhote da ditadura que comete corrupção de pobre e um que comete corrupção de rico, mas sabe que liberalismo não é bagunça, eu fico com o segundo. 

Liberalismo: tem, mas desgringolou

A história do liberalismo no Brasil é escrita em linhas mais tortas do que o traçado da BR 381. Quando não há gente falando que protecionismo econômico é livre mercado, os guardiões da Constituição resolvem apoiar a busca por atalhos para aumentar a liberdade econômica nacional. 

Pelo menos é essa a impressão que o STF passou ao liberar a venda de subsidiárias de estatais sem o aval do Congresso. Ignorando o que diz a Constituição brasileira, os gloriosos ministros fizeram um rebosteio argumentativo para justificar a possibilidade de o governo vender uma empresa, de maneira até então ilegal.

Veja bem, o blog não tem nada contra a venda de empresa pública. A depender dele, uma boa parte das estatais deixariam de existir, começando pela Infraero (vendam a Infraero. Eu não aguento mais a Infraero).

Mas se o governo quer mesmo sair por aí sendo malvadão e promover o desmonte da máquina pública, que o faça da maneira correta. Que mandem um projeto para modificar a lei vigente e, com isso, reduzir as chances de outras vendas pararem na justiça.

Pedir para o STF legislar só diminui (em vez de aumentar) a segurança jurídica que é necessária para avançar o processo de desestatização, que começou lá com o Collor. Não custa nada a Corte mudar de ideia e, em alguns anos, avisar que não pode mais vender subsidiária da Petrobrás sem o apoio do Congresso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Liberal na economia, conservador de ideias ruins em tempo integral 

Bolsonaro lembrou que existem outros países na América Latina além da Venezuela. Após viajar para comer fast food nos EUA e falsificar a história em Israel, o presidente passou um tempinho na Argentina contando novas mentiras.

Na visita, Bolsonaro pediu que os nossos hermanos votassem “com muita razão e menos emoção“. Afinal de contas, já basta ele como imbecil de marca maior ocupando um cargo importante na região.

Após demonstrar que a educação da ditadura militar não é das melhores, o presidente anunciou um novo desejo imbecil: a criação de uma moeda comum entre os dois países, o “peso real”. A ideia é tão ruim, mas tão ruim, que fica difícil comentar sobre. Felizmente, o Banco Central do Brasil avisou que isso não é algo a ser levado a serio. Mesmo assim, Jair insistiu na ideia.

O fato é que a saga do presidente para destruir tudo o que foi criado após a ditadura não tem fim. Se o próximo alvo é o Plano Real, que finalizou com a hiper-inflação crônica do país, o blog, na posição de tiete do Plano Real, considera isso um motivo para impeachment.

No dia do meio ambiente quem derruba árvore é você 

O leitor sabia que o desmatamento é a questão ambiental que mais preocupa o brasileirinho? O blog não. E, a julgar pelas medidas tomadas pelo ministro do Meio Ambiente, o chefe da pasta também desconhece o dado.

Segundo a pesquisa global Earth Day 2019, o tema é mais importante até do que o aquecimento global. A informação foi divulgada na mesma semana em que o governo afirmou que insistirá em aprovar as mudanças no Código Florestal, que o Senado já falou que não quer fazer. Se sobrar tempo, Bolsonaro também tentará encontrar uma forma de extinguir parques ambientais por decreto.

Mas essa não é a única medida do governo brasileiro nas últimas semanas com a desculpa que ele não pode atrapalhar o coleguinha a destruir floresta. Veja algumas das coisas que o blog esqueceu de citar sobre a atuação do ministro, acusado de improbidade administrativa:

Não é de surpreender que o desmatamento da Amazônia tenha explodido nos primeiros meses de 2019. Quando Bolsonaro diz que a missão do seu governo é “não atrapalhar quem quer produzir“, ele está apenas tendo um impulso de sinceridade e humildade. No que depender da sua administração, a Amazônia se transformará em uma grande mistura de pasto e plantação de soja. Transgênica e com muito agrotóxico, se possível. 

E se depender do ministro responsável por cuidar do Meio Ambiente e do agronegócio nas horas vagas, não sobrará um centavo para as atividades que garantirão um futuro com ar respirável para os nossos filhos. Nessas horas, cabe a gente comemorar a existência de Sergio Moro. O ministro da Justiça liberou mais verba para o FDD. O aumento de 1.650% nas verbas auxiliará na criação de um modelo de avaliação de riscos para o uso de agrotóxicos no Brasil, e reduzir o impacto causado pela sua aplicação no meio ambiente

A Alemanha já notou que Bolsonaro só quer beber agrotóxico e cortar árvore. Os europeus avisaram que, a depender dos movimentos dos próximos meses, a sua carteira ficará fechada para o financiamento de um dos mecanismos mais antigos de proteção a floresta da Amazônia. A Noruega também já está mexendo os seus pauzinhos para impedir o governo de continuar a fazer merda.

O presidente pode continuar mentindo por aí e falando que o Brasil é um país que protege o meio ambiente com muito afinco. Enquanto existir imprensa livre nessa nação, poderemos acompanhar com cuidado as incisivas tentativas do seu governo para acabar com o nosso futuro.

A mulher de César caiu na net 

Há um ditado que diz que, a mulher de César não só deve ser honesta. Ela também deve parecer honesta. O blog, inclusive, já se utilizou dele para fazer título de postagem. Os membros da operação Lava Jato e o ministro Sergio Moro deveriam conhecê-lo.

Na noite de domingo (09), a versão brasileira do The Intercept começou a publicação de uma série de reportagens detalhando as relações entre Deltan Dallagnol e o atual ministro da Justiça. O material, colhido por uma fonte anônima, mostra como o ex-juiz aconselhou o funcionário do MPF, as articulações dos servidores públicos para impedir que o ex-presidente (e agora portador de um pau duraço) Lula desse entrevistas, e até mesmo as dúvidas que os concurseiros tinham sobre a sua capacidade de mostrar que o petista era o dono do tríplex mais famoso do Guarujá.

A força-tarefa da Lava Jato logo publicou uma nota em que não desmentia o conteúdo das publicações do site de Glenn Greenwald. Também afirmou que elas não revelam qualquer ilegalidade (mas nada falaram sobre o nível de ética das articulações feitas com o apoio do ministro da Justiça).

Os concurseiros também afirmaram que a sua atuação foi revestida de “legalidade, técnica e impessoalidade”. Marco Aurélio Mello discorda.

O mesmo MPF também afirmou que a pessoa responsável pelos vazamentos “praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público, à vida privada e à segurança” dos investigadores. Imagina se os servidores do órgão tivessem a mesma opinião quando alguém resolve divulgar conversa de jornalista com fonte, hein?

Os servidores públicos (que regularmente forçam a barra no entendimento da lei) também afirmaram que foi uma injustiça não terem sido contactados pelo Intercept antes da publicação da notícia. É sempre bom lembrar que a liberdade de imprensa existe e, em geral, empresa privada não é obrigada a seguir as vontades de concurseiro.

A força tarefa se queixou que os jornalistas do Intercept não são imparciais, algo que qualquer estudante de comunicação social do primeiro período do curso sabe que não existe. Imparcialidade, aliás, é devida aos juízes, que não devem prestar serviços de consultoria jurídica nos sábados, domingos e feriados.

Indo além, afirmaram que ultrapassar os limites de respeito às instituições e às autoridades é algo que prejudica a sociedade em vários níveis. Quem vê pensa que os concurseiros estavam falando daquele vazamento de ligação da Dilma com o Lula uns anos atrás.

Jornalista tem mais é que vazar dado de interesse público mesmo. O próprio Dallagnol já reconheceu isso quando foi de seu interesse, e da mesma forma, Sergio Moro lembrou que não podemos culpar jornalista por divulgar material vazado por terceiros.

Sergio Moro disse, no Twitter, que há “muito barulho”, e que uma “leitura atenta revela que não tem nada ali, apesar das matérias sensacionalistas”. Afinal de contas, o responsável por julgar criminhos orientar as pessoas responsáveis por apontar quem comete ilegalidades a fazer o seu trabalho é super normal.

Se os envolvidos no escândalo queriam parecer honestos e imparciais, o fizeram muito mal. Se parabenizar após uma manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff, afirmar que quer “limpar o Congresso,” e indicar até a ordem correta para a realização de operações está longe de ser algo ético. E não é só o blog que diz isso: a OAB também achou as ações dos funcionários do judiciário muito feias, e pediu que eles se afastassem até que tudo fosse esclarecido.

Gilmar Mendes, aquele que pouco fez nos últimos anos para impedir que operações contra a corrupção não chegassem em poderosos, já avisou que “o fato é muito grave”. Também tirou a bunda de cima do processo que questiona a suspeição do Moro.

O Congresso já se articula para usar uma CPI para ouvir o ministro da Justiça, e discute se há a necessidade de quebrar sigilos. Enquanto isso, Toffoli, Alcolumbre e Maia se reuniram para discutir as publicações do Intercept.

Não me assustaria saber que, entre a noite de domingo e a hora da publicação deste post, muita gente presa na carceragem da PF em Curitiba gozou gostosamente, lembrando que, no artigo 254, inciso IV, do Código do Processo Penal, está registrado o “juiz dar-se-á por suspeito, e, se não fizer, poderá ser recusado por qualquer das partes se tiver aconselhado qualquer das partes”. No país da Operação Satiagraha, qualquer passo em falso é motivo para gente poderosa ficar longe da cadeia.

Até o momento, isso não aconteceu. Muitas das coisas que foram reveladas pela Lava Jato são tão sólidas quanto a água que serve de apoio para os patinhos do sítio de Atibaia nadarem.

Porém, os alicerces para bons advogados saírem por aí questionando a atuação de Moro e seus amigos começaram a ser cavados apenas nessa semana. Vai ser divertido acompanhar o Reinaldo Azevedo fazendo pirocoptero na Band News, enquanto o Intercept revela os outros 99% que sabe.

Vale lembrar que a frase “o juiz brasileiro, na fase de investigação, tem uma postura passiva, apenas examinando pedidos da autoridade policial, do Ministério Público e da defesa, como também o faz durante a fase de tramitação da ação penal” veio do mesmo servidor que foi pego com uma postura ativa, auxiliando e cobrando pedidos do Ministério Público para dar mais força às suas acusações. As revelações, portanto, podem não ter um impacto jurídico imediato, mas certamente representam um baque para aqueles que pretendiam manter a opinião pública ao seu lado.

Em notas não relacionadas, o Dallagnol responderá a uma acusação de atuação política e quebra de decoro em um processo administrativo instaurado pelo corregedor nacional do MP, Orlando Rochadel. Por incrível que pareça, a notícia publicada pelo Painel da Folha de S.Paulo informa que o processo em nada tem a ver com o escândalo da semana: a acusação se refere às postagens feita pelo procurador durante as eleições para a presidência do Senado no começo do ano.

Para todos os fins, a gente pode sorrir pensando que não somos o Padilha. Imagina como deve estar dormindo o diretor ao saber que investiu dinheiro na escrita e gravação de várias cenas para o seu seriadinho mostrando o ex-juiz conversando com gente da PF e do MPF sobre o andamento dos processos quando o certo mesmo teria sido só mostrar uns prints de telefone?


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Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #22: um grande pacto com a puta que te pariu

The following takes place between may-28 and jun-03


O pacto de Schrödinger 

Na manhã de terça-feira (28), Jair Bolsonaro se reuniu com os presidentes do Supremo, do Senado e da Câmara para anunciar a criação de um novo pacto entre os três poderes (e tomar um cafezinho). O acordo, segundo informado, envolve temas como a reforma da Previdência e a criação de uma política nacional de segurança.

iniciativa do presidente, tomada dois dias após os seus cães de guarda saírem às ruas para brigarem contra os outros poderes, não valeu por 24 horas. No mesmo dia, Bolsonaro tentou lembrar a Rodrigo Maia que a sua caneta Bic é mais poderosa que a Montblanc utilizada pelo presidente da Câmara.

Eu perdi algo ou agora é o Bolsonaro quem coloca os pedidos de impeachment para tramitar?

Para todos os fins, não há a possibilidade de um presidente revogar um decreto utilizando outro decreto. Nem que seja para transformar reserva ambiental – em que ele foi pego pescando ilegalmente – em parque temático, com vista exclusiva para uma usina nuclear de funcionamento duvidoso. 

A Associação de Juízes Federais notou que essa coisa de pacto com todos os poderes não tem lá muita legalidade. Como bem lembraram os usuários de toga, não cabe ao Supremo realizar acordos políticos, especialmente se envolverem o julgamento da constitucionalidade de propostas no futuro (mas se for para retirar a descriminalização do uso e porte de drogas e a criminalização da homofobia das pautas da corte, pode).

Ao contrário do que pensa o presidente, o único “lado certo” que o Supremo deve se posicionar é o lado da Constituição brasileira. Não cabe ao judiciário ser consultor das ideias tresloucadas do Planalto. Parece óbvio, mas estamos falando do governo do homem que mal sabe ler um teleprompter

Também não há como os presidentes do Senado ou da Câmara subscreverem os programas do Executivo, como se fossem as agendas das casas legislativas. Não só é uma postura pouco saudável para a democracia, como também é algo difícil de ser realizado.

O pacto que o país precisa já existe. É a Constituição de 1988. Qualquer coisa além disso é conversa mole de governante buscando um photo op para o seu governo.

Sobra democracia em Brasília

O pouco autoritário e muito liberal governo Bolsonaro mandou avisar, por meio do seu Ministério da Educação, que “professores, servidores, funcionários, alunos, pais e responsáveis” não podem incentivar a participação de pessoas em protestos a favor da educação. Também informa, por meio da AGU, que “não pode haver professor sendo tendencioso, que atue como militante” no ambiente acadêmico.

André Mendonça avisou ao país e ao STF que, no entendimento do Planalto, “professores precisam ter um comportamento imparcial”. O blog recomenda a leitura de Foucault para os membros do governo, e lembra: os regimes totalitários pelo menos eram mais elegantes quando tinham os seus delírios autoritários.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Partido Novo digievolui para PSL Prime 

Quem chamou o partido Novo de PSDB Personnalité nos primeiros anos de sua vida deveria fazer um mea culpa. A cada live no Instagram a legenda parece, cada vez mais, com uma filial de luxo do PSL.

O ministro do Meio Ambiente é tão ruim, que conseguiu colocar pessoas que não se gostam sentadas em uma sala para falar mal dele. No Legislativo, o partido só não é mais fiel a Bolsonaro do que o próprio partido do Bolsonaro.

Em Minas Gerais, Romeu Zema continua mostrando que essa coisa de nova política não está com nada. Já avisou que pretende continuar pagando os seus secretários com jetons e não vai se obrigar a manter 70% dos cargos comissionados nas mãos de servidores concursados.

Não seria um problema o governador pagar as pessoas que para ele trabalham. O blog é contra essa ideia de que você pode trabalhar em troca de reconhecimento.

Mas não faz um ano que Zema deixou registrado em cartório que ninguém receberia salário, pelo menos até o pagamento dos profissionais concursados e dos pensionistas ser regularizado. Uma medida que, pelo visto, não só não será cumprida como também será tratada com o mesmo carinho que a minha gata trata os brinquedos que eu compro para ela.

Talvez seja uma boa ideia o serviço de consultoria contratado pelo partido para buscar candidatos a prefeito parar de focar em gente rica. Se os consultores começarem a trabalhar procurando pessoas que conheçam a administração pública, as chances de o Novo passar vergonha nos próximos anos serão muito menores.

O Novo já deixou claro que pobre não tem o perfil necessário para realizar política dentro da legenda. Assim sendo, que pelo menos tentem escolher candidatos que não farão promessas imbecis por puro desconhecimento da máquina pública, e que inevitavelmente se transformam em estelionato eleitoral.

Gang bang político

Enquanto a Joice Plagelmann e a Carla Zambelli brigam em praça pública, Alexandre Frota explode o PSL por dentro. O deputado federal não só avisou que Eduardo Bolsonaro não pode presidir a legenda, como também pediu uma auditoria completa das contas do partido.

Frota disse, com razão, que para o PSL ser um partido de verdade ele não pode ter “nome nem sobrenome”. Já Eduardo Bolsonaro acredita que o deputado e ex-ator pornô quer colocar “fogo no partido”. Uma forma bonita de dizer que frota quer foder com ele.

O blog apoia a iniciativa de Alexandre Frota. O deputado tem uma longa experiência em comer o cu alheio (sem areia e brita, infelizmente) e seria divertido ver como isso se daria em relação ao nome do Dudu (ou de outros membros de caráter duvidoso).

Osmar Terra e a luta contra a ilustração 

Nos últimos três anos, a Fundação Oswaldo Cruz gastou R$ 7 milhões de reais para fazer um censo sobre o consumo de substâncias lícitas e ilícitas no Brasil. Após descobrir que o resultado do trabalho não afirmava a existência de uma epidemia de drogas, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, atacou a instituição e proibiu a divulgação do levantamento.

Osmar Terra, que tem um diploma de medicina pela UFRJ, acredita que faltam critérios científicos para o trabalho, que vem a ser coordenado por um pesquisador que é core member do grupo da ONU em uso de drogas injetáveis e AIDS, professor honorário da Graduate School of Public Health, da Universidade de San Diego, nos EUA e “Outstading Reviewer” do College on Problems of Drug Dependence.

Para todos os fins, Sérgio Moro liberou o conteúdo, desde que o título fosse trocado de nome e as associações com o governo fossem removidas. Uma ideia que parece até boa, mas que pode gerar problemas para a Fiocruz.

O incrível caso do governo que até calado se posiciona de forma merda 

Há pouco mais de uma semana, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim, localizado em Manaus, acordou manchado de sangue. 15 pessoas foram mortas durante o período de visitação de familiares em função de brigas entre facções. 

A briga fez parte de um ciclo de assassinatos que ocorreram em presídios do estado., e entre domingo e segunda-feira, as cadeias do Amazonas registraram a morte de 55 detentos. O problema, aliás, já tinha sido avisado pela ONU em 2015.

Há, conforme lembrou Reinaldo de Azevedo, 70 organizações criminosas que operam no sistema prisional, matando, recrutando e garantindo que o número de mortes no país aumente. Tudo isso sem a facilidade para a compra de armas, que é o sonho do presidente.

A estes presos e aos familiares mortos, o presidente opta pelo pacto do silêncio. Já o ministro da Justiça, usou a morte de pessoas como palanque para as suas ações.

A postura porca do governo ocorre por todos os mortos serem perigosos comunistas? Eles merecem o tratamento desumano adotado no caso de Evaldo Rosa dos Santos?

Afinal de contas, Jair precisou de cinco dias para lamentar a morte do pai de família pelas mãos de militares. Já o MC Reaça, que se matou após descobrir que a sua amante (que ele também tentou matar) estava grávida, recebeu homenagem pública cinco minutos após a divulgação de sua morte.

O filho feio e sem pai chamado “articulação política do governo Bolsonaro” 

Bolsonaro foi deputado por quase 30 anos, um período muito maior do que outros presidentes brasileiros tiveram para aprender a lidar com o Congresso. Aparentemente, isso não foi o bastante para o cunhado de miliciano aprender como o governo funciona.

Enquanto perde tempo acusando o “centrão” (do qual fez parte) de não apoiar cegamente as suas agendas, o Executivo só conseguiu aprovar 1 de suas 27 proposições no Congresso. Nos últimos seis meses, quando as péssimas ideias não caducavam, elas eram reprovadas por simples falta de articulação de um Planalto que, pelo visto, acredita que os seus projetos tornam-se realidade na base da hashtag.

Tanto é verdade que, quando quer, o presidente consegue aprovar as suas ideias. Na segunda-feira (03), por exemplo, a MP do pente fino no INSS passou no Senado, após o Planalto fechar um acordo com partidos de oposição em torno da aposentadoria rural. Bastou conversar.

É sabido que, para o bolsolavismo, é conveniente o discurso de vítima do sistema. Mas a tese do bode expiatório tem os seus limites, como vários políticos viram no passado.

O presidente cai em contradição quando é forçado por Rodrigo Maia a anistiar multas aplicadas a partidos políticos, mas por outro lado, quando Bolsonaro sai do Planalto para prestigiar homenagem a humorista na Câmara, sem seguranças, e fode com a organização de todas as reuniões já agendadas por Rodrigo Maia, ele só está sendo bem grotesco.

Aliás, grotesco é o termo que define todos os passos da articulação do governo e a sua relação com qualquer outro poder. Basta lembrar, conforme narrou Matheus Leone no Twitter, como foi a votação da MP do pente fino do INSS na Câmara: enquanto o Major Vitor Hugo implorava para o PSL aprovar a Medida Provisória como enviada pela equipe técnica do próprio governo, os deputados do partido se debatiam contra o uso da palavra “gênero” para definir o gênero de quem cair na malha fina da Previdência.

A votação, por sinal, só saiu após o Planalto abandonar a MP do Código Florestal. Afinal de contas, no dia anterior, o governo foi incapaz de organizar a sua base para montar o quórum necessário para votar a medida contra o meio ambiente e a MP 871.

Nem Major Olímpio, líder do PSL no Senado, aguenta mais. Já são públicas as reclamações de falta de apoio da Casa Civil durante as votações, a ausência de orientações sobre o que deve ser defendido e quais são os discursos que podem ser utilizados. Imagina se ele não fosse líder do partido do presidente.

O mais incrível é que, enquanto Bolsonaro faz a sua palavra valer menos do que um pastel de queijo com caldo de cana, os novos estadistas do país são aqueles que, anteriormente, seriam considerados a escória da política.

Nem seis meses de governo e Bolsonaro já transformou a leitura de jornais no café da manhã o hate fuck do povo brasileiro.


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Escrito pelo Guilherme. Revisado pela Marinna e editado pela Luana.

A Nova Era – semana #21: a República da live no Instagram

The following takes place between May-21 and May-27  


Um golpe lento, gradual e inseguro? 

A semana começou ainda curtindo os efeitos do textinho compartilhado por Bolsonarochamando o país de ingovernável. Apesar de tentar negar que o filho feio não tinha pai, a mensagem estava “em consonância com o pensamento” do presidente, conforme afirmou o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros.

Sem uma base para chamar de sua e já colocando a palavra impeachment bem na frente das nossas saladas, o projeto de Fujimori resolveu governar da maneira mais populista possível e, se achando o próprio Ciro (o Grande, não o político cearense e xingador profissional), chamou o povo para fazer uma proto-guerra de proxy, e ir às ruas contra o Congresso e o STF. Afinal de contas, o fim do “toma lá, dá cá” não poderia ser feito na base de uma articulação republicana.

A ideia pegou tão mal, mas tão mal, que até mesmo os bolsonaristas de primeira ordem resolveram brincar de serem sensatos. Janaina Paschoal acusou o presidente de estar se alimentando de conspiração, e os meninos do MBL entraram para a lista de comunistas, avisando que não apoiariam esse tipo de postura (felizmente a internet tem memória e a atitude republicana dos anjos sem asa não durou uma semana). 

O Vem Pra Rua e o Nas Ruas se uniram ao MBL e também avisaram que não estariam no ato golpista. Apesar do apoio a pautas do governo, a coordenadora do Vem Pra rua e o porta-voz do Nas Ruas acusaram a manifestação de “confusa e dispersa” e negaram envolvimento na sua organização. Lambe botas de militar, para eles, só serve se for para pedir impeachment de político petista. 

Deputados também lembraram a loucura que é um governo partir para cima dos outros poderes, e o deputado Marcelo Ramos (PR), afirmou que o protesto “a favor da reforma contra quem é a favor da reforma” é “surreal”

No Senado, Rose de Freitas (Pode-ES) afirmou que o governo “não deixa o Congresso trabalhar” e chamou os líderes de ruins de serviço. Já Omar Azis (PSD-AM) chamou Bolsonaro para mostrar o pau que ele quer usar para matar cobras, e pediu que o presidente afirmasse quem estava fazendo chantagem. Otto Alencar, por fim, lembrou que todas as trapalhadas do governo foram provocadas pelo próprio governo.

O jornal Estado de São Paulo, o veículo com o melhor papel para limpar botina de militar do Brasil, começou a se perguntar se há um presidente no país. Parece que aquela decisão em outubro do ano passado não era tão difícil, né?

Na noite de sexta-feira (18), as ex-BFFs Carla Zambelli e Joice Plaglemann partiram para o tapa (virtual) no twitter, e passaram horas discutindo quem lambia mais a bota de Bolsonaro. Enquanto Joice mostrava que o couro brilha mais com a sua saliva, Carla cobrou da deputada (e plagiadora nas horas vagas) a presença nos atos de domingo.

No domingo (19), Eduardo Bolsonaro afirmou que não havia “nada mais democrático do que uma manifestação ordeira que cobra dos representantes a mesma postura de seus representados“. Quem lesse o tweet sem saber a autoria, poderia pensar que a postagem era uma referência aos atos contra os cortes de verba do MEC, e não uma manifestação do fascismo cultural.

Flávio Rocha, do Brasil 200 (e da Riachuelo), resolveu ficar em casa. O presidente do PSL, Luciano Bivar, também falou que seria melhor ver o filme do Pelé. Jair Bolsonaro, no final das contas, ficou em casa vendo as vídeo cacetadas do Faustão enquanto Carluxo atualizava o Twitter do pai com postagens de apoio à manifestação.

As manifestações de domingo foram horríveis, mas menos horríveis do que imaginávamos. Ver que o número de adoradores do Bolsonaro é menor do que o esperado (mas ainda é alto o bastante para ocupar uma faixa da Avenida Paulista), é tão bom quanto descobrir que você só precisará perder dois dedos e não uma mão inteira após um acidente.

O que a nova direita não entende é que, salvo os deputados do PSL e os governistas não oficiais do Novo, em nenhuma normalidade democrática alguém é obrigado a se unir a favor de um governo just because. Rodrigo Maia faz o que pode para a votação das reformas e outros projetos passarem, mas a articulação de uma reforma a favor, porém, deve ser feita pelo Planalto.

Bolsonaro chegou ao poder prometendo acabar com a venezuelização do país, mas ao contrário dos governos de Hugo Chaves e Nicolás Maduro, o presidente não esperou muito tempo para convocar os seus apoiadores para pressionar, nas ruas, os outros poderes a agirem conforme o desejo do Executivo.

Afinal de contas, o apoio do presidente aos protestos de domingo, ainda que se faça de inexistente, é claro. Tentar traçar tais manifestações como republicanas em função de meia dúzia de cartazes a favor de uma reforma que passará de qualquer jeito é fingir que o bolsolavismo é um movimento democrático e não um agrupamento de viúvas da ditadura.

Se o bolsolavismo quer um Congresso, um judiciário e uma imprensa que se curvem às vontades do mandatário executivo, talvez seja interessante buscar uma coroa em Petrópolis e transformar Jair Bolsonaro em um novo Luís XVI. Mas tomem cuidado: certamente há alguém disposto a amolar a lâmina de uma guilhotina nos rincões do país.

Uma guinada parlamentarista lenta, gradual e segura? 

O flerte com o “tudo ou nada” de Bolsonaro, naturalmente, não foi bem recebido por quem bate ponto na Câmara. A insistência no confronto azedou ainda mais uma relação, que já não tinha um gosto tão bom assim, com os parlamentares brasileiros e nos fez subir mais dois degraus na escadinha que vai em direção ao parlamentarismo branco.

Após colocar para tramitar a própria reforma da Previdência e a própria reforma tributária, Maia percebeu que não precisaria falar com quem já não falava tanto assim. Diante de mais um ataque indireto do Major Vitor Hugo, o presidente da Câmara afirmou que não há mais meios para consertar a relação com o líder do governo.

Talvez o homem que pode, a qualquer momento, colocar um impeachment para rodar, tenha cansado de explicar aos membros do governo (e seus apoiadores) como a política realmente funciona. Nesse clima amigável, a Câmara começou o dia 22, os trabalhos de votação da Medida Provisória 870 (aquela que validaria as mudanças nos ministérios feitas pelo governo no começo do ano).

Sai das asas de Damares Alves a Funai e dos braços de Sérgio Moro a Coaf (mas não para ir parar mas mãos do Fernandinho Beira-Mar). Em troca, o Centrão deixou de recriar os ministérios da Integração Nacional e das Cidades. Além disso, os auditores da Receita Federal ficariam proibidos de comunicar qualquer investigação sobre crimes financeiros.

A votação, naturalmente, foi tão bagunçada quanto qualquer coisa que envolve esse governo. Os deputados governistas pegaram em seus telefones e começaram a brincar de vlogueiros para convocar a sua militância a fazer pressão pela internet. Rodrigo Maia não curtiu muito e terminou a sessão antes que a MP 870 fosse votada.

A criação do Ministério das Cidades tinha sido acordada entre os principais líderes políticos do Executivo e do Legislativo. Ao ignorar esse acordo, o presidente minou ainda mais a sua capacidade de articular projetos nos próximos anos e, de quebra, deu mais motivos para deputados e senadores ignorarem os pleitos do Planalto.

Apesar dos pesares, Bolsonaro conseguiu passar o projeto pelo Congresso. Sobre a votação do texto no Senado, o presidente pediu com jeitinho para que os Senadores não mudassem nada do que os deputados tinham decidido. Falta só combinar com o PSD, que já tinha anunciado a vontade de apoiar a manutenção da Coaf com Moro.

O fato é que os deputados moderados que estão a favor das reformas já não escondem mais a sua insatisfação com o Planalto. Enquanto Jair torna a sua caneta Bic irrelevante e os deputados do PSL fazem picuinha com bobagem, o Congresso se fortalece na luta entre os poderes, que só existe porque o governo é burro demais para cumprir a própria palavra por 24 horas. Depois a gente vira parlamentarista e ninguém entende o motivo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

A nova direita é brega e mentirosa 

Witzel, Caio Coppola, Fábio Morgenstern e Joice Plagelmann. O que todos têm em comum? Uma crise de identidade pesada.

O governador do Rio de Janeiro foi pego mentindo no próprio lattes na última semana. O doutorado em Harvard nunca foi cursado, mas, para o ex-juiz, é uma fake news afirmar que ele não fez o que, no final das contas, não fez.

Se o governador mente onde estuda, Joice Plagelmann mente sobre o que escreve para se fazer da boa jornalista que nunca foi. A deputada do PSL tem um desejo incansável de usar ideias alheias, seja na hora de publicar matérias ou na hora de fazer Projetos de Lei. Seria Joice uma ancap que não acredita em propriedade intelectual?

Já Caio e Fábio adotaram “nomes artísticos” desde o começo das suas carreiras como comentaristas conservadores. Certamente uma tecnicalidade, como diria Caio. Não uma tentativa de esconder negócios paralelos.

A nova direita não é apenas brega. Ela mente o seu nome, mente a sua formação e mente sobre o que escreve. Para um grupo conservador que adora posar a favor da verdade e da moral, é bastante engraçado vê-los sendo pegos com “as calças arriadas” por aí.

É uma pena, porém, que ninguém perde o emprego na Jovem Pan ou no governo carioca por pequenas mentirinhas.

Um meltdown governamental lento, gradual e seguro? 

O saldo da semana é de que o governo continua perdendo força, e deixando de fazer política para brincar de briga de espadas. O que é um problema tanto para Bolsonaro, quanto para as nossas instituições e o país.

Existem hoje 143 deputados declaradamente na oposição. Para barrar projetos que demandem uma emenda constitucional, por exemplo, são necessárias apenas outros 62 votos contrários. Troco de bala.

No contexto em que a palavra impeachment está na boca não só do presidente, cai bem tomar cuidado e evitar que a corda que ele colocou em seu pescoço fique mais apertada.

A pressão que uma meia dúzia de abobados fez contra o Congresso nos últimos dias pode, a qualquer momento, se virar contra o próprio presidente. Basta lembrar o que aconteceu com Michel Miguel e Aécio Neves, em um passado não tão distante assim.

O governo já chega em seu sexto mês e, até agora, há pouco sinal de melhoria ou de avanço real nas principais promessas de Bolsonaro. A menina dos olhos de Sergio Moro, por exemplo, acumula mais poeira do que a boneca Annabelle no porão da casa de Ed e Lorraine Warren. Bobo é pensar que o bolsolavismo precisa de um Bolsonaro para continuar sobrevivendo: ele não chegou aqui com ele e, definitivamente, continuará aqui sem ele.

O governo já chega em seu sexto mês e, até agora, há pouco sinal de melhoria ou de avanço real nas principais promessas de Bolsonaro. A menina dos olhos de Sergio Moro, por exemplo, acumula mais poeira do que a boneca Annabelle no porão da casa de Ed e Lorraine Warren. Bobo é pensar que o bolsolavismo precisa de um Bolsonaro para continuar sobrevivendo: ele não chegou aqui com ele e, definitivamente, continuará aqui sem ele.

Não adianta Paulo Guedes aparecer nas páginas da Veja afirmando que o país pegará fogo se a reforma da Previdência não for aprovada, as mudanças no sistema previdenciário por si só, não criarão um cenário sólido o bastante para o país retomar o seu crescimento.

O ministro está certo ao dizer que o país pegará fogo se o cenário econômico não melhorar nos próximos anos. O que ele não nota, porém, é que enquanto ele estiver no seu jatinho em direção a um paraíso fiscal para chamar de seu, a principal fonte de fumaça será a casa em que Bolsonaro dorme.

Bolsonaro trucou. As “vozes cínicas do establishment” trucaram de volta e metade do Brasil continuará fazendo cocô no fundo do quintal.


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Escrito pelo Guilherme. Revisado pela Marinna e editado pela Luana.

A Nova Era – semana #20: a ópera do fascista

The following takes place between may-14 and may-20.


A utilidade dos idiotas úteis 

Estudantes, professores e pessoas que não são de esquerda tomaram as ruas do país na quarta-feira (15) para protestar contra os cortes na educação. A primeira grande manifestação de rua contra o governo de Jair Messias aconteceu no mesmo dia em que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, compareceu ao plenário da Câmara para explicar o contingenciamento de verbas. 

Apenas o partido do presidente e sua linha auxiliar, digo, o Novo (mas se quiser chamar de PSOL de direita, pode), votaram contra a convocação. No mesmo dia, o plenário declarou obstrução a votação das MPs enviadas pelo Planalto. Mas como um governo conseguiu perder de maneira tão vergonhosa a luta contra uma manobra iniciada pela oposição? 

Parlamentares, incluindo aí os líderes de Patriota, Novo, Cidadania (ex-PPS), PSC, PSL e do governo, afirmaram, na tarde de terça (14), que o presidente teria ligado para o ministro da Educação e ordenado a suspensão dos cortes na área. Assim que a ordem tivesse sido dada, um irritado Onyx Lorenzoni teria entrado na sala do gabinete presidencial para conversar com Jair Bolsonaro em particular. 

Até aí, tudo bem. 

Acontece que Bolsonaro não pode sustar um contingenciamento pelo telefone, afinal de contas, ele já foi determinado pelo Ministério da Economia. O que restou aos líderes? Serem desmentidos em praça pública

A Casa Civil disse que a informação não procedia. O Ministério da Economia informou que “não houve nenhum pedido por parte da Presidência da República para que seja revisto contingenciamento de qualquer ministério”. Joice Plagelmann chamou a declaração de “boato barato”. 

Os políticos, obviamente, não gostaram

Houve gente afirmando que não era mentirosa, cega, surda ou muda. Dobraram a aposta, reforçaram que o presidente fez a ligação para o ministro e alertaram: o governo pagaria caro pela mentira

Em sua apresentação inicial, o ministro da Educação errou dados, tratou de modo incorreto indicadores e tentou cobrir de tecnicismo o seu revanchismo ideológico. Perguntou se os deputados sabem o que é uma carteira de trabalho, disse que o dinheiro acabou, defendeu que o governo desse um salário mínimo para alunos de licenciaturas com notas altas no Enem. 

Partidos de diferentes partes do espectro político aproveitaram a oportunidade para humilhar mais um ministro da educação de Bolsonaro. Chamaram Weintraub de “debochado” e “covarde”. 

Houve político apoiador do governo reclamando que, os políticos, no lugar em que se faz política, estavam fazendo política ao discutir as ações políticas em uma sessão criada com motivações políticas. O destaque do blog vai para a deputada comunista e portadora de grelo duro Jandira Feghali, que, relembrando a fala do ministro em um evento de direita, perguntou se ela merece levar tiro na cara como qualquer pessoa que acredita no fim do capitalismo. 

O ministro da Educação, assim como o seu antecessor, é um ignorante por não ter os conhecimentos para o cargo que ocupa. É um ressentido, por utilizar o poder como forma de se vingar da academia que não permitiu que ele alçasse voos mais altos do que as suas asas o permitiam. A prova máxima de que terapia é algo importante e capaz de evitar estragos que afetam milhões

Enquanto o ministro pagava caro pela mentira no plenário, nas ruas do país multidões promoveram a balbúrdia contra Weintraub. O que se viu nas imagens de todas as capitais e 200 outras cidades era a prova de que a estratégia adotada pelo governo deu mais errado do que o esperado. 

As camisas utilizadas pelo “pessoalzinho” que ficou sem dinheiro não tinham estampas apenas do PCO ou da campanha Lula Livre. Elas estavam coloridas com diferentes cores e mostravam algo inédito: nunca um presidente colocou tanta oposição na rua com tamanhna velocidade em seu primeiro ano no poder. 

Resta saber agora o que cai mais rápido: Bolsonaro, o índice Bovespa ou o ministro da Educação. 

Tudo pequenininho aí? 

Não é só o mercado que está reduzindo as previsões de crescimento do PIB. O governo confirmou, na terça-feira (14), que a sua previsão foi reajustada de 2% para 1,5%. Quem poderia imaginar que a economia não cresce na base de tweet raivoso, não é mesmo? 

001 e o homem que lavava dinheiro demais 

A semana não começou muito bem para o senador Flávio Bolsonaro. Tão menos terminou digna de sorrisos. 

Na segunda-feira (13), soubemos que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) autorizou a quebra do sigilo fiscal do filho do presidente e do ex-policial militar Fabrício Queiroz em 24 de abril. Também terão as contas vasculhadas a mulher de Flávio, a empresa de ambos, a mulher de Queiroz, as suas duas filhas e outras 90 pessoas e empresas. O pedido foi realizado pelo Ministério Público do Rio, que também afirmou que Flávio tentou, algumas vezes, interromper as investigações

Flávio, que deve ter visto alguns vídeos de discursos do ex-presidente Lula, afirmou que as investigações são ilegais e que devem ser anuladas. Falhou, porém, em justificar as movimentações bancárias em suas contas bancáriasLágrimas jamais provaram a inocência de alguém. 

Segundo informações da revista Veja, o senador movimentou uma quantia milionária com a compra e venda de imóveis entre 2010 e 2017. O processo lembra uma das práticas básicas de um dos manuais de lavagem de dinheiro utilizados por mafiosos e outros tipos de criminosos: a compra de algo por um valor abaixo do preço de mercado e a sua revenda superfaturada. 

Mas que fique claro: o blog não acredita que Flávio seja um mafioso. Ainda que os Bolsonaros tenham mantido os seus negócios estranhos em família, beijado filho de criminoso, tirado foto com bands, morado ao lado de miliciano e ganhado voto em área dominada por assassinos, falta inteligência ao clã para serem batizados de Corleones brasileiros. 

Você tem um minuto para ouvir a palavra do bolsonarismo cultural? 

Como não existem problemas em sua família ou mesmo no seu governo, Bolsonaro foi passear. Dessa vez, no Texas. 

Após ter todas as portas fechadas em Nova York, Jair e a sua trupe fizeram turismo com o dinheiro público em uma cidade de baixa relevância para receber o prêmio de Personalidade do Ano concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. O prefeito da cidade, assim como o de Nova York, ignorou a visita

Sobrou para o ex-presidente George W. Bush. Sem aviso prévio, a comitiva de brasileiros bateu na porta do republicano para um chá. Ele não teve a sorte de Mike Pompeo, que conseguiu fugir de Bolsonaro em Nova York e no Texas

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Falta um chá de camomila ao presidente 

Jair Bolsonaro está muito irritado. Nos EUA, quando questionado sobre os protestos, Bolsonaro afirmou que os manifestantes eram “idiotas úteis, uns imbecis” e “massa de manobra”, que não sabem a fórmula da água. Sobrou até para uma repórter da Folha de S.Paulo

Ao ser questionado sobre as investigações que atingem o seu filho, afirmou que estavam realizando um “esculacho” em cima do anjo sem asas que bate ponto no Senado. Disse, também, que se quisessem atingi-lo, deveriam partir para cima do homem de 75 kg. 

Cabe ao presidente um chá de camomila, uma amitriptilina ou até mesmo um cigarrinho do capeta. Ou dormir mais. Estresse prejudica a expectativa de vida de qualquer pessoa e, bem, não queremos o presidente abandonando o cargo por uma morte precoce (mas por outros motivos, pode).

A terceira guerra mundial será tributada 

Na última semana, EUA e China deram uma nova escalada a sua guerra tarifária. Beijing anunciou as suas intenções de impor tributos em até US$ 60 bilhões de produtos que são importados dos EUA pelo país. Na sexta-feira (10), Trump já tinha anunciado um aumento de impostos em até US$ 200 bilhões de produtos. 

O bate-boca entre o não liberal Donald Trump e o iliberal governo chinês começou com o presidente americano reclamando do déficit na balança comercial entre os dois países. Washington também acusa a China de obrigar qualquer empresa que atue no país a realizar transferência de tecnologia – algo que Beijing nega. 

Sobrou até para a fabricante de tecnologia móvel Huawei. Empresas americanas como Google e Intel começaram a segunda-feira anunciando o fim das relações com a companhia responsável pela maior parte da infraestrutura de 5G brasileira e europeia (e uma das maiores fabricantes de telefones do mundo). 

O golpe veio no mês em que os telefones da marca são lançados no Brasil, o novo mercado em que a companhia pretende atuar. O Henrique Martin, do Ztop e da ótima newsletter Interfaces, explica melhor o que houve

A guerra tributária entre os dois países já fez o FMI diminuir a previsão do PIB mundial três vezes. Sem uma resolução clara a vista, o banco prevê o pior crescimento desde 2009: 3,3% de aumento. 

O Brasil pode, a princípio, se beneficiar. Em alguns mercados, competimos com a economia americana com igual nível de qualidade. Mas, quando consideramos o papel que a China tem para o mercado mundial, é impossível negar que a nação asiática pode foder com todo mundo rapidamente. 

O tiozão do Power Point moderno acha que é Ciro II 

O governo Bolsonaro diminuiu o horizonte de expectativas do brasileiro para o dia seguinte. Dormimos à espera não de um futuro próspero, mas sim do absurdo antidemocrático que estará nas capas dos jornais ao acordarmos. 

Nas suas redes sociais, Jair Bolsonaro compartilhou um vídeo em que um pastor afirma que o presidente foi “escolhido por Deus”. Um Ciro II, como dizem ser Donald Trump. “Não existe teoria da conspiração” (nesse caso) para o presidente. Há, porém, uma “mudança de paradigma na política”. 

O blog concorda. Fomos de uma política pouco institucional, mas funcional (e que permitia avanços lentos e graduais), para uma política nem um pouco institucional ou funcional. Jair Bolsonaro está, dia após dia, brigando contra as bases da nossa República e destruindo qualquer apoio ao seu governo. 

O presidente começou o ano com pouco mais de 1,83m de altura. Cinco meses depois, se encolhe ao compartilhar, no Whatsapp, um texto que trata o país como “ingovernável” fora dos “conchavos políticos”. Criticado, o presidente fez de conta que o filho feio não tinha pai

Enquanto passam o tempo se divertindo no telefone, os bolsolavetes distribuem o que seria de sua responsabilidade a ministros e líderes de outros poderes. Esperam, com suas pernas cruzadas (de um modo hétero, que fique claro), que o Congresso aprove as ideias do Planalto sem negociar ou votar contra. Da mesma maneira, se assustam quando há discordância na sociedade civil. 

Quem poderia imaginar que na democracia liberal há pluralidade de pensamento, não é mesmo? 

A Nova Era tanto forçou que recuperou a Teoria da Ferradura. Os militantes do bolsolavismo se comportam como os membros de um movimento estudantil liderado por gente do PCR: para não ser vítima de expurgo, é necessário sempre seguir o grande líder de maneira acrítica e servil. Aos que exercerem a menor oposição, a fogueira. 

Em meio a paranoias, promoção de hashtag com erro de português e autoritarismo, os templários brasileiros jogam um jogo em que todos os resultados os levam à vitória. Se o Brasil terminar de afundar, a culpa é da mídia, do judiciário e da classe política, dominada por filósofos e comunistas ocultos. Se o país sair do abismo em que se encontra, o mérito é da política da Nova Era, que foi capaz de curvar Deus e o Diabo para destruir (e reconstruir) a nação. 

O grande problema do país não é a classe política (ainda que ela ajude bastante). É um grupo de lunáticos que tomou o poder com um discurso conservador, reacionário e caretão. Um bando de bolsolavetes que adoram o poder, mas detestam governar. Mas sobre isso eu falarei com mais calma na semana que vem. 

Enquanto isso, o pato virou sapo e o vice está virando príncipe


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Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #19: tiny dick country

The following takes place between may-07 and may-13. 


Não se prende uma idéia 

No começo da semana, a denúncia contra Michel Miguel tornou-se pública. O presidente, que agora pode pedir música no Fantástico pela segunda vez, mal sabia que este era apenas o primeiro dos problemas que ele enfrentaria até a publicação deste post.

Na quarta-feira (08), os desembargadores do Tribunal Regional da 2ª Região anularam o habeas corpus que foi concedido em março ao libriano. Isso levou o ex-presidente a ser preso preventivamente pela 2ª vez neste ano.

Com “toda tranquilidade e com toda serenidade”, Michel Miguel aguardou o Superior Tribunal de Justiça conceder a ele um novo habeas corpus. Novamente, a justiça foi feita. Temer, que antes de ser um político e um ex-presidente, é uma ideia, voltou aos braços do povo.

O blog aguarda com carinho a versão de “Memórias do Cárcere” do nosso vampirão.

Tiny dick economy

Na economia, o que já não estava bom, piorou mesmo após dar sinais de que talvez não ficaria tão ruim. Em março, 43 mil vagas de empregos formais foram fechadas. Há gente vendendo a cueca para comprar a pipoca da janta e a nossa população já está endividada nos mesmos níveis de 2016.

A imprensa também informou que, após 21 anos, deixamos de ser um dos 25 melhores países para investir conforme a lista elaborada pela consultoria A.T. Dois anos atrás o país era o 17º colocado no ranking.

Se o presente não é melhor do que o nosso passado, o futuro também não é promissor. Além da bomba que poderá estourar no próximo mês, o governo lida com um conjunto de cinco litígios no STF que podem gerar um gasto de mais de R$ 147 bilhões.

Mesmo sabendo que faltará dinheiro inclusive com a reforma da Previdência, Bolsonaro anunciou que o governo realizará a correção da tabela do imposto de renda pela inflação a partir de 2020. Uma medida fiscalmente justa, mas que pode gerar perda de arrecadação em um cenário onde Paulo Guedes conta as moedinhas nos cofres do Tesouro para pagar a conta de luz.

Uma forma de reduzir o problema seria o fim do sistema de dedução de gastos com saúde e educação do IR. Ideia de Paulo Guedes, esta é uma das poucas boas notícias da área econômica da última semana (ainda que, junto com todas as mudanças no Imposto de Renda, só nos levará mais para o buraco).  

Conforme o congresso se mostra menos amigo ao governo (com razão), as reformas que a nação precisa são deixadas de lado, os gastos crescem e o relógio começa a contar o momento em que as bombas explodirão. Mesmo que o Planalto aprove alguma reforma da Previdência no segundo semestre, libere novos saques em contas inativas do FGTS e privatize o esgoto (ou mesmo a Infraero), o mercado continuará diminuindo as previsões de crescimento dos indicadores econômicos.

A promessa de melhoria econômica feita em outubro não aconteceu. Resta saber quando é que poderemos cobrar resultados do governo.

Tiny dick government

Após muito apanhar no Congresso, o Planalto cedeu e anunciou que pretende recriar dois ministérios. A volta das pastas das Cidades e da Integração Nacional não ocorrerá, porém, por uma revisão das ideias administrativas de Bolsonaro sobre a estrutura do Estado. Isso é “velha política” mesmo.

Conforme apurou o Painel da Folha de S.Paulo, os novos ministérios serão gerenciados pela cúpula do Congresso. Isso representará mais R$ 4 bilhões nas mãos dos parlamentares em troca de apoio na Câmara. O blog segue achando muito divertido todos os momentos em que a realidade bate à porta do gabinete presidencial e Bolsonaro é obrigado a dividir fatias do poder para poder governar.

Na mesma semana, Bolsonaro disse que os militares que homenagearam o ex-ministro do partido Stalinista não estão enfrentando problemas graves com a ala do “Trotsky de direita“. “Tudo um time só”, disse Jair. Mas quem discordar do governo ou brigar com qualquer um dos filhos do presidente, vai dar ruim.

Seguindo esse pique, com o governo se inviabilizando sozinho, a oposição já pode abrir a latinha de cerveja e sentar na torre de TV de Brasília enquanto assiste a gestão de Bolsonaro pegar fogo. Pouco a pouco caminhamos para um parlamentarismo de coalizão em que o Planalto twitta muito e não manda em nada.

As baixarias que fazem parte do governo Bolsonaro são dignas de uma novela das 22:00. Já Cunha vs Dilma, perto do que temos hoje, parece o seriadinho Sandy & Junior.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Malthusianismo às avessas

No Rio de Janeiro, o excelentíssimo governador Wilson Witzel resolveu brincar de Rambo, montou em um helicóptero e sobrevoou comunidades de Angra dos Reis enquanto anunciava em suas redes sociais mais uma ação do governo: o “cancelamento de CPF” de pobre.

A ação se uniu a mais um dos vários momentos em que o governador, que jura que o seu programa de segurança pública não envolve apenas matar pobre, colocou a PM para matar pobre inocente. Sobrou até para uma tenda de oração.

Na comunidade da Maré, não foi diferente. A política matou dezenas de pessoas durante o mês, com direito a outro helicóptero atirando na direção da população no horário em que crianças saíam da escola.

Como apontou Reinaldo Azevedo, não há indicadores de que as balas utilizadas no Rio de Janeiro conseguem atingir apenas a população negra e pobre que se envolve no crime. E, a julgar pela cor de quem é morto pela PM de Witzel, elas também não são muito boas em atingir apenas aqueles que estão os envolvidos nas facções criminosas mais perigosas do estado.

Se o governador, que também é influencer de Instagram, gosta de pobre, ele finge tão bem quanto direciona os esforços pacificadores do seu governo. Milicianos, para o ex-juiz, não são um problema grave de segurança pública. Gente que não é suspeita de ser criminosa, sim.

E olha que eu nem resolvi abrir um interlúdio apenas para comentar a não matrícula dos filhos em colégios públicos, a ausência de apoio à população que morreu no desabamento de um prédio em área de milícia e o não uso do SUS.

Enquanto isso, em Brasília, Bolsonaro mudou as regras sobre uso de armas e de munições. Agora, proprietários rurais (não necessariamente os que estão ligados ao Movimento de Trabalhadores Sem Terra), caçadores (não necessariamente de comunistas), caminhoneiros (que a qualquer momento podem entrar em greve) e até jornalistas terão mais liberdade para portar e circular com as suas armas de fogo. Também definiu como até 5 mil o número de munições por arma de uso permitido por ano.

No STF, no Senado, na base e na Câmara já há quem conteste a constitucionalidade da ideia. Ou apenas planeje a sua derrubada.

O Brasil de 2019 é o país do malthusianismo às avessas. PM atira de cima de helicóptero naqueles que são “pretos de tão pobres e pobres de tão pretos” e que moram em casas com telhado de amianto. Se as balas não os atingirem, são obrigados a trabalhar sem EPI.

Quando vão ao bar morrem por conta de uma bala perdida atirada por um caçador de comunistas em situação de estresse emocional ou por comer algo com excesso de agrotóxico. Afinal de contas, remédio para cuidar de doença de pobre acabou.

A julgar pela capacidade de nossos políticos de impedir a população de sobreviver até chegar aos 65 anos, vamos precisar de uma reforma da previdência antes de 2033.

Neoliberalismo bovarista

Os ataques do ministro da educação continuaram na 19ª semana de governo Bolsonaro. Em audiência no Senado na terça-feira (07), o ministro (que já tinha aprontado muito na semana passada) classificou os programas de financiamento estudantil voltados para o ensino superior de “tragédia”.

Na mesma quarta-feira em que o governo alemão anunciou 160 bilhões de euros para pesquisa, o governo bloqueou as bolsas de mestrado e doutorado oferecidas pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) utilizando como base as metas de contingenciamento “determinadas pelo Ministério da Economia”.

O corte, que na teoria é contingenciamento mas na prática é uma chantagem, pode parar o ensino público federal no próximo semestre. Apesar de duvidarem dos conhecimentos do ministro, ele certamente sabe o que faz.

Não assustou o blog o corte de gastos feitos em um momento economicamente complicado. A novidade, como apontamos na última semana, está no revanchismo ideológico do “exterminador do futuro, o aniquilador de gerações e idólatra da ignorância” ao justificar as medidas de “””reajuste””” orçamentário que lembram o nazismo.

No governo Bolsonaro, o pouco neoliberalismo que existe se tornou um “liberalismo bovarista“. As medidas não são tomadas para promover liberdade econômica, política e individual. O ajuste, a privatização e o corte de gastos servem apenas para atingir tudo aquilo que o governo não gosta: pobre, estudantes críticos ao governo, áreas que produzem conhecimento comprometidos com a verdade (e a balbúrdia nos horários não comerciais) e até mesmo programas que seriam plenamente defensáveis sob uma ótica liberal.

Se ainda existem liberais dando apoio para o que o governo faz fora das dependências do Ministério da Fazenda, talvez seja a hora de repensar as suas atitudes. Há cinco meses no poder, a Nova Era caminha a passos largos para ser a idade do obscurantismo, da intolerância, do protecionismo, da luta contra a razão e de um liberalismo que finge ser econômico, mas não o é. Não há coerência de discurso que possa justificar o adesismo tão fácil a um governo que até o momento tem como único mérito não ser petista.

Toca a vinheta do Curb Your Enthusiasm pois agora a minha posição política é a “fetal”.


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Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #18: a pedagogia do rancoroso

Falta remédio e sobra imbecilidade no governo


Não vai ter golpe (ou luta) 

A última terça-feira (30) começou agitada. Jurando ter o apoio de alguns militares (não tinha), Juan Guaidó e Leopoldo López se uniram para convocar a população venezuelana a finalmente derrubar o regime de Maduro. A “Operação Liberdade” pretendia dar um fim definitivo a “usurpação”.

Ao longo do dia, alguns veículos militares avançaram contra pessoas, as redes sociais foram bloqueadas e 46 rádios foram fechadas, além de emissoras de TVs e 20 jornais. Enquanto isso, Maduro segue no poder.

projeto de intentona de Guaidó elevou o número de mortes registrados nos protestos pelo país. A contagem já passa de 50 pessoas só no ano de 2019 (e 80% dos casos estão relacionados com o trabalho das forças de segurança de Nicolás Maduro, que considera um “combate” a “qualquer força golpista”).

Guaidó acabou não conseguindo o que queria (por enquanto) e já começou a falar em medidas pesadas, como uma intervenção externa. No norte das Américas, o governo do EUA sorriu com a lambida gratuita de bolas.

Leopoldo Lopez, por outro lado, se deu bem: no final do dia, ele assistiu a única manifestação de Maduro sobre o tema direto da Embaixada espanhola, onde está exilado.

Do lado de cá da fronteira, Jair Bolsonaro afirmou em seu Twitter que o presidente da República (e somente ele) decidirá qualquer ação brasileira na Venezuela. Novamente, o presidente da Câmara e agora professor de Constituição, Rodrigo Maia, lembrou ao presidente que é “competência exclusiva do Congresso autorizar uma declaração de guerra”. Faltou a Bolsonaro comentar se o governo adotará uma postura humanitária com os novos refugiados ou fará um cosplay de Donald Trump, que tem mais poder de bala do que a gente.

O fato é que, seja como for, quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.

A Venezuela se tornou a versão moderna da Crise dos Misseis, com a Casa Branca e o Kremlin, disputando quem tem mais controle sobre o país. Mas assim como o nosso presidente se recusa a apontar um plano de ação para os refugiados que chegam na nossa fronteira, ambas as nações ignoram a proliferação de grupos armados paramilitares pró-Maduro, guerrilheiros colombianos, gangues de rua, soldados russos e espiões cubanos pelo território da Venezuela. O importante mesmo, como sempre, é o direito de explorar mais os petrodólares do país.

O espírito da balbúrdia

O novo ministro da educação está fazendo de tudo para dar razão àqueles que levam Darcy Ribeiro a sério: na gestão de Abraham Weintraub, o desmonte na educação virou um projeto. E a sua base é rancor, birra ideológica e loucura argumentativa.

Na última terça (30), o ministro informou ao Estadão que pretendia cortar verba de universidades que promoveram a “balbúrdia” em seus campus (carece de fontes) e não estavam “bem no ranking” (o que não é o caso). A medida surgiu, provavelmente, após algum estagiário lembrar que não há como descentralizar o investimento em humanas, como o presidente disse que o ministro faria em seu Twitter.

A Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade de Brasilia (UnB) e a Universidade Federal Fluminense (UFF) foram as três vítimas. Para o ministro, as instituições deveriam estar “com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo” (como promover debates com Fernando Haddad e Guilherme Boulos e “atos contra o fascismo”).

No dia seguinte, o ministro acusou os reitores das universidades públicas de serem intolerantes no Twitter. Weintraub, porém, falhou em mostrar provas de que os reitores estavam copiando as suas ideias e atitudes.

Como cortar verbas por viés ideológico não pode, o ministro estendeu o corte de verbas para todas as instituições de ensino federais usando como justificativa a diferença entre o investimento realizado em um aluno do ensino superior e do ensino básico. Logo depois, ampliou os cortes também para o ensino básico que não está nas mãos de militares.

Educação é coisa séria e merece um debate que vai além de birra e lacre reaça no Twitter. O ministro  poderia ser chamado de CEO do olavismo educacional e ministro da educação reversa. Weintraub constrói o seu apoio destruindo os símbolos daquilo que o Guru da Virgínia decidiu ser um dos maiores inimigos do governo: as áreas capazes de concentrar correntes de pensamento que vão contra as suas ideias malucas.

O ataque à posição de Paulo Freire como patrono da nossa educação se torna pequeno diante dos ataques que o governo já cometeu contra a rede pública, isso tudo em poucos meses. Felizmente tem faltado tempo para pensar no Escola sem Partido, mas o ministro chegará nessa pauta antes mesmo que as instituições de ensino parem de vez e os estudantes de engenharia assistam aulas sobre a Escola de Frankfurt.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

O ministério do não ambiente 

Não são só as caminhonetes do Ibama que pegam fogo. No que depender do ministro do diploma falso, toda política a favor da conservação do meio ambiente e do clima construída nos últimos anos virará pó em breve.

No dia 24 de Abril, três diretores do ICMBio saíram do seu cargo após o antigo presidente do instituto, Adalberto Eberhard, ser trocado pelo comandante da Polícia Militar Ambiental do Estado de São Paulo. Aproveitando a oportunidade, Salles terminou de trocar a diretoria nomeando mais militares e transformando o instituto de conservação ambiental em um batalhão.

Salles, o ministro com um passado duvidoso, concluiu com esse movimento mais uma etapa do seu processo de nomeação de gente com experiência não comprovada para a promoção das políticas de meio ambiente de Bolsonaro.

O ministro contratado para conservar, pelo visto, não sabe bem o que a palavra significa, mesmo fazendo parte de um governo conservador (pun intended). A pedido da base ruralista, Salles já estuda anular a criação do Parque Nacional (Parna) dos Campos Gerais. A maior floresta de araucária protegida do mundo corre o risco de ser explorada pela agropecuária e pela mineração (como se faltasse espaço para essas atividades no país).

Sobra convicção para Salles ajudar o país a destruir o meio ambiente e falta convicção para o ministro defender as suas ideias em ambientes que não sejam a dócil bancada do programa Pânico, na rádio Jovem Pan FM.

O governo novo, com gente semi-nova e práticas velhas sendo restauradas 

Romeu Zema chegou no governo prometendo muito, vendo ia cumprir pouco e se atrapalhando na tentativa de entregar qualquer coisa. As confusões são tamanhas que, após 100 dias de governo, eu confesso que o Novo deveria avaliar se ele não é um agente infiltrado para destruir a imagem do partido.

Se fosse para apontar os dedos para algum lado, aliás, eu diria que o empresário trabalha para o Partido dos Trabalhadores. Zema cometeu tantas trapalhadas enquanto tentava ser um simulacro mineiro de Bolsonaro que eu só consigo acreditar que ele foi treinado pelos petistas para impedir que o Novo ganhe espaço até na sindicância de um prédio na Barra da Tijuca.

A promessa de acabar com as práticas da velha política não durou muito tempo. O secretário do meio ambiente de Pimentel, por exemplo, foi mantido. O fato de ele estar indiretamente ligado às confusões que levaram Minas Gerais a ser palco de dois graves acidentes ambientais não foram suficientes para o processo seletivo do Novo ter barrado a nomeação de Germano Luiz Gomes Vieira.

Nas estatais, os mandatários indicados por Pimentel também foram mantidos e para completar as semelhanças administrativas, dois acusados de criminhos (nesse caso, estupro e prevaricação (e não um assaltante foragido, como fez o petista)) foram nomeados para os cargos de diretor regional e secretário adjunto. 

Aparentemente, essa história de processo seletivo para cargo comissionado só serviu para mostrar que a equipe de um provável governo Anastasia era muito boa, dada a quantidade de tucanos que agora frequentam a Cidade Administrativa. E que que há gente por aí querendo trabalhar em troca de reforço do portfólio, ao contrário do que o governador gostaria que fosse a realidade.

O cosplay de petista do Zema não para nas nomeações. Quando o seu governo começou a ser criticado por limpar as bolas de executivo da Vale e da Samarco com a glote e não solucionar os problemas fiscais de Minas Gerais, o dito liberal age segundo a cartilha petista de terceirização de culpa: matéria negativa sai n’O Tempo? Perseguição da família Medioli! A sua falta de capacidade de lidar com o dia a dia da política, que já foi motivo de crítica da base que não bem base, da oposição e dos deputados do partido? Culpa da velha política!

A realidade, é claro, bate no gabinete do governador com força e vontade. Evitando atrasar ainda mais a aprovação da sua reforma administrativa, Zema recuou sobre os cortes imbecis na escola em tempo integral (aquela que apoiadores afirmavam com empolgação que era um mal necessário e deveria passar a todo custo).

Essa (e outras alterações) foram chamadas de vitória pelo líder do governo. Afinal de contas, ter o seu projeto mais importante modificado nos pontos principais pela Assembleia só pode ser um bom sinal.

A grande questão, aqui, é que os problemas de Minas são urgentes. A redução de secretarias não se traduziu em maior eficiência administrativa e ainda gerou custos quando o governo viu que precisava recontratar quem demitiu. O Palácio das Mangabeiras (que o governador queria transformar em museu) segue gerando gastos (junto com os PMs que vigiam a sua casa na região da Pampulha quando ele não está fugindo de protestos).

Minas Gerais enfrenta uma das epidemias de dengue mais graves da sua história e o governo sequer corta a grama do próprio jardimVender os aviões da frota estadual não deu certo. Rapidamente o governo viu que isso não dá bilhão, pode sair caro e, no final do dia, o privilégio de ter um jatinho e um helicóptero de uso pessoal (mesmo que seja para entregar medalha para cuzãoé muito bom. Na verdade, é bom para caralho.

É de assustar o amadorismo do governo. Aécio Neves pode ser burro (e bonito (e imoral)), mas pelo menos soube se cercar de pessoas com boa capacidade de se articular politicamente e evitar o tipo de ideia imbecil que causa um impeachment (ou dois) fossem executadas.

Há quem trate governos como patos. Se esse for o caso, o governo de Romeu Zema está se mostrando um pato que quer ser cisne, não sabe nadar mas é ótimo na hora de ser demagogo.


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Escrito pelo Guilherme, editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #17: o sincretismo da safadeza com a burrice

Quem planta sacanagem pode colher Mourão.


Verba volant, scripta manent

Carlos Bolsonaro começou a última semana anunciando uma nova fase na sua vida. Durou pouco: por vários dias, o filho do presidente, que se diz vereador do Rio de Janeiro, dedicou-se a atacar o vice-presidente Mourão em seu Twitter. Em pouco mais de dois dias, o filho pródigo:

O Brasil da Nova Era se tornou uma monarquia e não nos avisaram. A confiança no governo derrete tal qual uma adolescente vendo o seu ídolo de perto, a inflação parou de cair, as projeções do PIB desabam, a renda não melhora e o dólar continua brincando de valer R$ 4,00. Enquanto isso, o filho mais novo do presidente rouba a senha do Twitter do pai e dedica o seu tempo a atacar o vice que poderia ajudar a construir pontes e aprovar as reformas econômicas que precisamos para sair do buraco.

Convém lembrar, mais uma vez, que a última pessoa que ocupou o Planalto e atacou o vice de maneira terceirizada se deu bem mal. Cai bem aos Bolsonaros ler um livrinho de história de vez em quando, nem que seja de esquerda, para terminar essa briga sem fim.

O país tem muitas prioridades. Nenhuma delas é lidar com as confusões causadas por um bando de homens ressentidos de pinto pequeno que não sabem dirigir, mas coordenam uma cooperativa de funcionários fantasmas muito bem.

Em notas não relacionadas, Mourão encontrou o ex-ministro de Lula, Mangabeira Under, nos EUA no início do mês de abril.

Lula lá

A semana começou com o STJ mantendo a condenação do ex-presidente, opinador e presidiário Luiz Inácio Lula da Silva no caso do tríplex de Guarujá. A pena foi reduzida para 8 anos e 10 meses e já há quem fale em absolvição. Por hora, o máximo que ele pode conseguir é o direito de ir para o semiaberto (ou pedir prisão domiciliar) e continuar dando entrevistas.

Na mesma semana, o ex-presidente finalmente abriu a sua boca para a Folha de S.Paulo, e ao El País na última sexta-feira (26). A fala do presidiário (muito liberal e com pouca autocrítica), deu saudades de uma coisa que não se vê muito na Nova Era: gente que faz política de verdade. Até o Tio Rei elogiou.

Não foi muito fácil para o Lula colocar a boca no trombone. Nem quando queria, ano passado, nem agora, como mostra o Nexo]. Para aqueles que sentiam saudades de limpar a bola esquerda desse velho em específico, bastaram 30s de fala para a bandeirinha do PT sair do armário.

É melhor Jair se arrependendo Dilma vez

Quem está caindo na alma dos desavisados que acreditaram no liberalismo de quermesse de Jair Bolsonaro, e comparando as suas ações com a Dilma precisa urgentemente de uma visão histórica mais ampla. Bolsonaro não se transformou na ex-presidenta após chegar ao governo: ele sempre pensou como ela, pelo menos economicamente.

O presidente que agora interfere na política de preços da Petrobrás, pede ao presidente do BB para abaixar os juros e deixa claro que não queria aprovar a reforma da previdência, é o mesmo que, na década de 1990, disse que FHC merecia ser fuzilado por colocar a Petrobrás na Bovespa.

Dizer que Bolsonaro passou a pensar como a Dilma é um ataque absurdo às ideias da ex-presidenta, afinal de contas, mesmo com o seu passado de guerrilheira, ela jamais falou em fuzilar alguém por ser liberal: é sempre mais fácil deixar a sua base queimar o liberal da vez, como ela fez com o Levy.

Dom Quixote olavista

A guerra cultural contra tudo aquilo que atinge a moral dos flocos de neve que ocupam o Palácio do Planalto continua firme e forte. Na última semana, Bolsonaro mandou o Banco do Brasil tirar do ar uma propaganda que celebrava a diversidade racional e sexual. Além de jogar 17 milhões no ralo, o presidente também demitiu o perigoso comunista e diretor de marketing da instituição financeira, Delano Valentim.

Quando questionado, o presidente disse que a regra do jogo é a seguinte: ou o ministro é armamentista, ou “fica em silêncio”. E quem indica e nomeia presidente de banco é ele, e que, por isso, ele não precisa “falar mais nada”.

Mesmo dizendo que não pretende perseguir minorias, o ataque a quem faz propagandas para promover a tolerância só ajudou a dar mais destaque para a peça que, até então, estava fora do debate público. No meio do caminho, o governo ainda tentou ir contra a Lei das Estatais e obrigar todas as empresas públicas a submeter previamente à avaliação da Secom (Secretaria de Comunicação Social) qualquer peça de publicidade que elas criarem.

Falta ao nosso presidente metido a Dom Quixote um “homem de bem, mas de pouco sal na moleirinha” para lembrá-lo que o mundo vai muito além da sua guerra cultural. A propaganda do Banco do Brasil é perfeita para o público que pretendia alcançar, e, se o presidente realmente deseja direcionar a carteira de clientes apenas para os “pais de família” brasileiros, é melhor reformular toda a estrutura da instituição e buscar novos meios de entregar as bolsas de fomento ao ensino das instituições de ensino superior federais.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

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O Partido Novo estuda processar o PSL pelo roubo do protagonismo em relação a cor laranja. Na segunda-feira (29), a sede do partido em MG entrou para o noticiário após uma operação da PF. Batizada de “Sufrágio Ostentação”, a ação apreendeu vários indícios concretos de mentiras relativas aos gastos com a produção de materiais gráficos para candidaturas fantasmas durante a campanha eleitoral de 2018.

Infelizmente o escândalo ainda não chegou perto do presidente. O que não é o caso do Queiroz, que tem várias fotos com o presidente e ainda não teve seus rolos julgados pela justiça. Mande notícias, Queiroz.

Volta, velha política

Após ocuparem as ideias de Paula Roberta por mais de nove horas, o governo finalmente conseguiu vencer a primeira etapa da tramitação da reforma da Previdência. Com 48 de 66 votos a favor, o relatório favorável foi aprovado em uma sessão com tumultos, bate-bocas e obstruções promovidas até pela base.

A aprovação mostra que, aparentemente, essa coisa de se apoiar na Lava Jato e em discursos contra as práticas tradicionais da política, não dá muito certo na hora de ganhar apoio no Congresso. Ainda não se discute o mérito da proposta e já vemos o governo cedendo em vários pontos para ganhar apoio de deputados do centrão e, eventualmente, de quem faz parte do PSL. Teria sido mais fácil ter dado ouvido às dicas de Rodrigo Maia nas últimas semanas e começado a fazer política de verdade desde o dia 1º de janeiro.

Ajudaria mais ao Planalto, nas próximas etapas da tramitação do projeto, ser mais transparente. Fazer post no Twitter e pronunciamento na TV quando o trabalho pesado já está feito não muda voto de deputado que precisa se eleger de novo nas próximas eleições.

O Planalto também pode simplesmente continuar focando na busca pelo “espírito patriótico” dos deputados com dinheiro e cargos comissionados.

Saudades de quando o Brasil era governado por um bando de cachaceiros. E não por homens de tiny dick energy.


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Com edição e revisão da Luana de Assis.

A Nova Era – semana #16: quis custodiet ipsos custodes?

Vou apertar, mas não vou te prender agora.


As instituições estão funcionando

Enquanto o país debatia se o projeto de comediante chamado Danilo Gentilli foi ou não censurado, o STF se preparou para atingir muitas metas. Primeiro, a revista digital Crusoé foi obrigada a retirar do ar (e ainda pagou uma multa por não ter apertado a tecla delete rápido o bastante) a matéria que informava que o amigo do amigo do pai de Marcelo Odebrecht é o ministro Dias Toffoli (de acordo com o documento da delação do bilionário (mas apenas pra quem leu o .pdf a tempo)).

O órgão da justiça que investiga, acusa e pune dobrou a meta e foi atrás de uma meia dúzia de internautas de baixa relevância que, assim como o filho do presidente, acreditam que basta um soldado e um cabo para fechar a suprema corte.

A ideia pegou tão mal que a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu na terça-feira (17) que o inquérito do Supremo sobre fake news fosse arquivado. O relator, ministro Alexandre de Moraes, triplicou a meta, ignorou o pedido da procuradora-geral e prorrogou as investigações por mais 90 dias.

Talvez o ministro deseje investigar os autores de mais de um milhão de tweets críticos ao STF que foram postados em pouco mais de 24 horas. Não é como se ele tivesse que gastar muito tempo cuidando da sua beleza capilar, por exemplo.

A piromania dos ministros continuou e, enquanto escrevo este texto, a Mônica Bergamo informou que até o Deltan Dallagnol responderá um PAD (Processo Administrativo Disciplinar) por dizer que Gilmar Mendes, Ricardo Lewandoski e Dias Toffoli formavam uma “panelinha” na segunda turma do tribunal superior.

O blog segue sem apoio jurídico profissional, então se resumirá a dizer que, diante de toda essa confusão, é claro que ainda é muito bom ser doutô no Brasil.

New wave é a chatuba

Não usando uma roupa que remete aos anos 1980, como o jovem gosta, o presidente Argentino resolveu brincar de José Sarney no combate à inflação. O argentino anunciou, na quarta-feira (17), um conjunto de medidas que jamais tiveram qualquer efeito além de eleger políticos em tempos de crise.

Tarifas de gás, transporte, eletricidade e o valor de mais de 60 produtos que fazem parte da cesta básica argentina foram congelados. O presidente não anunciou a possibilidade de replicar os Fiscais do Sarney no país, mas estuda a ideia com carinho.

Pequenas notas do quinto dos infernos

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Os últimos dias foram meio complicados para quem gosta de liberdade. Começando pela briga em torno da condenação do humorista, falador de merda, ofensor profissional e apresentador de talkshow meia boca, Danilo Gentili, a seis meses de prisão em regime aberto. O humorista protestou contra a sentença acusando a justiça de censurar a sua liberdade de expressão e o seu “humor”.

Veja bem, eu não sei em qual trecho do vídeo em que ele esfrega uma notificação judicial em suas partes (ou nos tweets atacando e movendo a sua audiência contra a deputada federal Maria do Rosário) ele fazia humor. A postura do humorista deixa bem claro uma outra intenção: cometer injúria contra a deputada.

Faz parte do repertório de Gentili esse tipo de ofensa travestida de humor e, sejamos sinceros: ele não é virgem em casa de contenção. Aliás, o humorista não só não é um anjo sem asas como também processa pessoas que o criticam.

Se fosse apenas humor, Gentili não teria adotado a postura cínica que teve nas audiências, tão menos feito o esforço para manter o tom ofensivo nos posts na tentativa de macular a honra da petista. Danilo sabia o que fazia, para quê fazia e a punição que lhe caberia.

Se esconder atrás de uma noção de liberdade que não é aplicável à nossa legislação, dará tão certo quanto a estratégia dos advogados do Lula quando ele foi julgado por Sergio Moro. Pode até colocar uma parte da opinião pública do seu lado, mas não te livrará de ser punido por um juiz esperto.

E como bem aponta Reinaldo Azevedo, “liberdade de expressão não é Deus”. Não no nosso país.

Poderíamos aproveitar o momento para discutir se é certo ou não injúria ser algo passível de prisão, se deveríamos mudar o entendimento da sociedade sobre liberdade de expressão para um que seja próximo do americano ou até mesmo os limites do humor (apesar do blog considerar essa uma questão já resolvida pela Alexandra). Mas, até lá, duas coisas seguirão bem claras: Gentili terá a sua pena reduzida nas instâncias superiores (por ser inadequada, desproporcional e pouco procedente (e por ele ser branco com dinheiro)) e, até segunda ordem, a lei continuará dando abertura para a penalização que ele ganhou.


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Com edição e revisão da querida Luana de Assis.