A Nova Era – Semana #55: salto artístico na piscina do autoritarismo

Teste do pato, improbidade administrativa, ninhos de mafagafos e muito wishful thinking marcaram a última semana.

Vem comigo que eu te mostro (e não se esquece de compartilhar com aquela pessoa que você gosta).


The following takes place between jan-14 and jan-20


Secretaria de Comunicação e Improbidade Administrativa

A Folha de S. Paulo revelou que o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, pode ter cometido improbidade administrativa após entrar no cargo. Wajngarten recebeu, nos últimos meses, pagamentos de emissoras de TV e agências de publicidade por meio de uma empresa da qual ele é sócio, a FW Comunicação.

O conflito de interesses surge pelo fato de a Secom ser a área do governo que distribui todo o orçamento de propaganda do Planalto. Wajngarten ganhou o cargo em abril de 2019 e, desde então, tem aumentado a verba destinada para as emissoras amigas de Bolsonaro (enquanto reduz a de empresas de comunicação um pouco mais críticas).

As empresas, como apontou o jornal, tem contratos com o governo e com a FW comunicação. Uma delas, a agência de publicidade Artplan, recebeu R$ 70 milhões entre abril e dezembro de 2019. O valor é 36% maior do que o pago no mesmo período no ano anterior.

Além do aumento de verbas, Fabio Wajngarten teve 67 encontros oficiais com representantes e ex-clientes da sua empresa (após assumir o cargo). O transporte necessário para realizar pelo menos 20 reuniões foi custeado com dinheiro público. A matéria não revelou, porém, se o número dois da Secom, irmão do administrador da FW, participou das conversas.

Jair Bolsonaro e Wajngarten juram que não há nada de errado, mas a Comissão de Ética Pública da Presidência analisará as denúncias. O Ministério Público de Contas também entrou na brincadeira e fará uma revisão de verbas publicitárias do governo. No Legislativo, há gente pedindo a saída de Fabio Wajngarten da Secom.

No governo Dilma e no governo Lula, quando algo semelhante ocorreu, uma postura relativamente diferente foi adotada. Todo mundo teve que se afastar dos cargos que ocupavam na iniciativa privada. Muito provavelmente em função disso os aliados de Bolsonaro não conseguiram um parecer favorável ao chefe da Secom no TCU e na CGU.

As coisas na Venezuela estão ótimas

Enquanto não passava pano para o seu subordinado, Bolsonaro resolveu atacar, outra vez, de novo, novamente, a imprensa. Perguntado se sabia dos contratos assinados pela empresa de Wajngarten, respondeu com um presidencial “você está falando da tua mãe?”. Na mesma quinta-feira (16), o presidente já tinha dito que a Folha de S. Paulo “não tem moral para perguntar” sobre o caso e mandou uma repórter do jornal calar a boca.

Além de apontar que não estava no governo para fazer negócios, Wajngarten se defendeu afirmando que a matéria é absurda. Também cometeu gaslighting com a notícia, a chamando de desequilibrada, imparcial e injusta. No fim, deixou um recardo bombástico: “se determinados grupos de comunicação ou institutos de pesquisa tinham em mim a tentativa de construção de uma ponte de diálogo, essa ponte foi explodida hoje”.

A Secom, em nota, sugeriu que a Folha não está conformada com o sucesso (???) do governo Bolsonaro. Já o chefe de Wajngarten, o general Luiz Eduardo Ramos, afirmou que a notícia é “mais uma dessas maldades que se faz contra homens públicos“. Porém, há quem diga que ele se arrependeu da declaração pouco tempo depois.

Em 2019, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, o número de ofensas e tentativas de descredibilização subiu 54%. Mais de metade desse número veio direto do Planalto.

Não é de se assustar que as respostas tenham sido deste nível. Mas é de se assustar que alguém ainda diga que estamos vivendo a mais pura normalidade democrática.

Mexendo o pauzinho

Enquanto Wajngarten queima, Carlos Bolsonaro se articula. O Zero Dois estaria trabalhando para colocar o blogueiro e espalhador de notícias fantasiosas Allan dos Santos como secretário de Comunicação. Nada melhor do que criar um gabinete do ódio às claras e com o financiamento declarado no orçamento da União.

Garantindo o juiz das garantias

Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, deu mais seis meses para o juiz de garantias ser implementado. Ele também tornou a medida mais compacta: processos relativos à Lei Maria da Penha ou homicídios (que já têm as suas próprias regras) e ações da Justiça Eleitoral não precisarão do apoio de um magistrado.

O tema ainda será avaliado pelo plenário do Supremo. Enquanto novas mudanças não são feitas, o judiciário poderá aproveitar o tempo ganho para se preparar. Já bastam os nossos estudantes deixando tudo para a última hora.

O melhor pior Enem da história

Falando em estudantes, o melhor Enem da história, para variar, foi péssimo. Assim que os resultados saíram, um grupo de estudantes começou a relatar que a nota tinha tudo para estar errada. Apesar de terem acertado muitas questões do gabarito oficial, a nota de todos estava mais baixa do que o esperado.

Abraham Weintraub, o ministro da Educação, se fez de sonso o quanto pode. Postou video engraçadinho na internet e, inicialmente, afirmou que o problema na correção estava relacionado apenas a algumas provas feitas no segundo dia do exame. No dia seguinte, o MEC mudou a postura e afirmou que falhas no primeiro dia também seriam investigadas.

Para lidar com o problema, o calendário do Sisu foi ampliado (ainda que o Ministério Público Federal tenha solicitado a suspensão da abertura do processo seletivo até que tudo tenha sido realmente corrigido). Um e-mail foi criado para quem quisesse questionar a nota. O prazo para o envio das mensagens? Menos de 24 horas.

O ministério apontou que os problemas ocorreram por falha da gráfica responsável pela impressão das provas. Ela foi selecionada após a empresa que cuidou das provas pré-Bolsonaro falir. Ao que tudo indica, ter contratado alguém com zero experiência na área e ainda cometer uma série de presepadas ao longo do último ano não gera um bom resultado no final do dia.

O ministro poderia utilizar a lição e começar a fazer um trabalho mais eficaz. Ou ele pode, finalmente, sair do cargo. Vai que, em vez de um intelectual meia boca com ideias ruins, Bolsonaro resolve colocar alguém minimamente eficiente? Superar o status quo não é muito difícil.

Novamente tudo muito louco no ninho de mafagafo chamado DPVAT

A Folha de S. Paulo apontou que a seguradora Líder, que faz a cobrança do DPVAT, tem mutretas que vão além das citadas no post da última semana. A empresa realizou doações e atendeu a pedidos de políticos que podem ou não ter agido a favor de seus interesses.

Os parlamentares do PSB e do PSL foram responsáveis por suspender a CPI do DPVAT em 2016. Também recebeu dinheiro Andrea Neves, quando presidia o Servas. Os R$ 500 mil a ela repassados não tiveram o seu destino identificado, o que pode ou não indicar que criminhos ocorreram.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Que notícia ruim o ministério do Meio Ambiente trouxe essa semana

A área com alertas de desmatamento na Amazônia Legal aumentou 85,3% em 2019 em uma comparação com os dados do ano anterior. Os indicadores são do sistema Deter-B, que foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

O Núcleo obteve uma série de documentos que mostram o trabalho porco do Ministério do Meio Ambiente durante o desastre do vazamento de óleo no Nordeste em 2019.

A matéria mostra como o Ibama acompanhou o incidente, alertou a equipe de Salles sobre os problemas encontrados e avisou que, com o contingente reduzido, pouco poderia ser feito. As 450 páginas cobrem o descaso do ministro entre 2 de setembro e 4 de outubro.

A incapacidade do governo em colocar pessoas eficientes em cargos de confiança é quase tão incrível quanto o empenho de cada uma em ser péssima no que faz.

Wishful thinking liberal

O governo resolveu começar o ano brincando de liberalismo. Ou pelo menos tentando. O secretário especial de Desestatização, Desinvestimentos e Mercados do Ministério da Economia, Salim Mattar, anunciou que pretende arrecadar R$ 150 bilhões com a venda de ativos estatais.

Mais precisamente, 300 deles. Muitos dos quais já estão com a venda encaminhada desde os tempos de Michel Miguel. Parece um detalhe pequeno, mas não é, já que o governo tem tudo para acabar após aprovar os projetos do vampirão.

Sim, ativos. Pois este blog não cairá no canto de sereia de que a venda de subsidiária da Eletrobras (ou da Petrobras) é venda de estatal. Isso tem outro nome e está longe de ser privatização: é desinvestimento.

O mesmo vale para a venda de participações minoritárias em empresas (algo que aconteceu bastante nos governos Lula e Dilma por meio do FI-FGTS, da Caixa e do BB). Isso também não é privatizar (novamente, é desinvestimento). Mas o leitor pode ter certeza que o governo venderá para o bolsonarista este gato sarnento como se ele fosse lebre.

A agenda do governo também inclui 79 leilões em 2020. Há inclusive parcerias público-privadas para áreas como iluminação pública e tratamento de resíduos sólidos. O saneamento, que é básico, ficará em um único leilão.

Ficam de fora o Banco do Brasil, a Petrobras e a Caixa. Os Correios, talvez. Mais provavelmente ano que vem, quando o governo terminar a avaliação do projeto e decidir se vale a pena ou não deixar um monte de liberal de internet molhadinho.

Teste do pato

O que é que parece com um fascista, fala como um fascista e se porta como um fascista? Provavelmente o agora ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim.

Na noite do dia 16, Alvim publicou um vídeo em que ele resolveu anunciar o edital do Prêmio Nacional de Artes. O roteiro teve Wagner, cruz dupla na mesa e discurso de Joseph Goebbels sendo parafraseado.

Pegou mal.

Pegou muito mal.

Pegou tão mal que até o chefe do Olavismo Cultural fez de conta que não gostou.

Mas teve o apoio do governo. Horas antes, Alvim esteve em uma live com Jair Bolsonaro, na qual o presidente defendeu os filtros do edital e validou o ideal de cultura fascistoide de Alvim.

Pois não basta colocar todo mundo para ver secretário imitando nazifascista: também é importante ecoar e elogiar as suas ideias.

Alvim se defendeu afirmando que não queria ofender ninguém. Também que repudia qualquer regime totalitário (o que deixou Olavo de Carvalho muito triste). Faltou só fingir que não sabia o que estava fazendo.

Mas o fato é que a performance foi construída e ensaiada para ser aquilo que todo mundo disse que ela foi. Alvim sabia o que estava fazendo, acreditava no que estava falando e não se furtou a usar de forças demoníacas para imitar Joseph Goebbels. Até deixou isso registrado em e-mail.

O que só serviu para reforçar a ideia de que sim, o governo quer fazer uma política artística semelhante àquela adotada por Hitler. O “bombardeio de arte conservadora” tem que ser acompanhado de uma diplomacia nacionalista, revisionismo educacional e todo tipo de ideia reacionária que os rejeitados que governam o país escutarem de Olavo de Caralho.

E agora, José?

Entra no lugar (temporariamente) do cosplayer de Goebbels a atriz Regina Duarte. Ela fará um “período de teste” antes de decidir se ficará mesmo no cargo ou não. A Rede Globo, aliás, já deixou a atriz de aviso prévio. Os olavistas chiaram.

Enquanto isso, o Ministério Público Federal defendeu que os atos e nomeações (que incluem gente que gosta da Opus Dei e excluem funcionários de carreira críticos ao governo) feitos por Alvim sejam anulados. Uma ideia que, pelo menos até o final deste texto, não tinha se tornado realidade.

Mas podemos ficar tranquilos, pois está tudo normal por aqui.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – Semana #54: braço forte, desgraça amiga

A polêmica do sol, a polêmica da Aliança e a polêmica do gelo. Tudo isso e muito mais no post da semana.

Se você gostou (ou não), não se esquece de compartilhar o link por aí.


The following takes place between jan-07 and jan-13


Censura pela porta da frente, liberdade pela porta dos fundos

Eis que um belo dia (quarta-feira – 08), Benedicto Abicair, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, acordou de seus inquietos sonhos por um Brasil mais autocrático e resolveu “acalmar os ânimos” daqueles que ficaram muito ofendidos com o especial de Natal do Porta dos Fundos.

Abicair achou uma boa ideia censurar a obra e proibir a sua exibição na Netflix . Não satisfeito, também estipulou uma multa de R$ 150 mil para cada dia que o filme continuasse a ser exibido. Tudo isso com apoio do Ministério Público.

O “favor” que o desembargador fez à comunidade cristã e para a “sociedade brasileira, majoritariamente cristã” (sem que ninguém além da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura tivesse pedido) logo foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal.

O ministro Dias Toffoli (o mesmo que censurou a Revista Crusoé), num lapso de espírito democrático, lembrou que uma fé milenar não é abalada com um filmezinho. É muito bonito ver o ministro do Supremo defendendo a liberdade de expressão, mas não dá para dizer que ele fez algo além da sua obrigação.

Os católicos da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura, por outro lado, poderiam gastar o seu tempo se levantando contra os padres pedófilos que ainda estão na santíssima Igreja. Eu tenho certeza que eles fazem um trabalho muito mais eficiente para abalar a fé cristã do que um filme de humor.

O ninho de mafagafo chamado DPVAT

Falando no Dias Toffoli, o ministro aproveitou a semana para reverter uma liminar que ele mesmo deu e, com isso, garantir a redução do preço do DPVAT em 2020. Após a decisão, o governo resolveu atacar os mantenedores do seguro outra vez e tentar zerar a cobrança por até cinco anos.

Não será um gol fácil de ser marcado. A Seguradora Líder já avisou que não vai devolver a grana que o governo jura que ela recebeu a mais do contribuinte.

A justificativa do governo para zerar a cobrança é a seguinte: as seguradoras cobraram a mais no passado, o que permitiria o uso desse dinheiro, no presente, para pagar as indenizações. As seguradoras, por outro lado, se defendem falando que as cobranças administrativas são válidas e que o dinheiro é delas. A briga terminará na justiça, naturalmente.

Como bagunça pouca é bobagem, a Líder também terá que explicar alguns pagamentos identificados por uma auditoria que tem cara, cheiro e jeito de atividade imoral. Segundo os auditores, a seguradora pagou valores a pessoas próximas a ministros do STF, integrantes do governo federal e políticos. Os 21 pagamentos, com descrição não detalhada do tipo de serviço foi prestado, foram executados entre 2008 e 2017 e totalizam R$ 3,67 bilhões.

Errei, não nego, me arrependo quando puder

Esteves Colnago, assessor do ministro Paulo Guedes (da Economia) foi denunciado pelo Ministério Público Federal no último dia 9 junto com outras 28 pessoas. A acusação é de gestão temerária de fundos de pensão.

Para ser mais preciso, a acusação está relacionada ao Funcef (dos funcionários da Caixa Econômica Federal), o Petros (da Petrobras), o Previ (do Banco do Brasil) e o Valia (da Vale). O prejuízo total das operações? R$ 5,5 bilhões.

Os (péssimos) investimentos ocorreram entre 2011 e 2016. Os aportes que originaram a investigação foram feitos na Sete Brasil, empresa de construção de sondas de petróleo e que teve um péssimo destino após a Lava Jato revelar esquemas de corrupção da portaria até o almoxarifado.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o assessor não só disse que está tranquilo, como também que não se arrepende de nada. Já Guedes ficou bem triste: o ministro tinha marcado para anunciar a promoção do subalterno no mesmo dia em que o MPF colocou o nome do seu subalterno nas páginas policiais.

O que o ministro da Educação fez de meia boca nessa semana

O Fundeb vence no final do ano. A ideia genial do ministro da Educação para lidar com a renovação do fundo? Iniciar a tramitação de um novo projeto do zero.

Por que isso é um problema? Já há um texto base da PEC em discussão na Câmara desde 2015. A decisão foi tomada pois o governo não gostou da minuta apresentada pela relatora do projeto que já está em tramitação.

O Fundeb reúne impostos de estados e municípios e dinheiro da União para financiar o gasto mínimo que todos os entes devem ter com alunos das redes públicas. Para não dar nenhum ruim e o próximo ano ainda contar com o fundo, o MEC tem que trabalhar com os deputados para aprovar até o final do primeiro semestre. Depois não adianta chorar.

Em outros tópicos, a troca de comando do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), feita para manter mais dinheiro na mão do ministro Weintraub, deixou o pessoal da Câmara puto. Tomara que irrite bastante mesmo: tudo o que o país gostaria de ver é uma escalada de tensões e um recap de Cid Gomes na Câmara.

Eu mencionei que o MEC, por meio do FNDE, pretende descartar 2,9 milhões de livros didáticos? Pois é. As obras, que valem R$ 20 milhões, não foram entregues para as escolas e já estão desatualizadas. Com sorte, se transformarão em papel higiênico.

Considerando que o MEC está louco para fazer um edital de novos livros que sejam voltados para “livrar escolas de doutrinação“, era melhor manter os antigos em sala de aula. Não sendo tomada essa decisão, temos que torcer para que as novas edições apenas atendam ao desejo do presidente por leituras mais simples.

Todo mundo é comunista menos eu

O ministro da Educação, junto com o presidente, resolveu sair por aí falando que os concursos brasileiros são moldados para selecionar gente de esquerda.

Weintraub afirmou que o processo de reformulação de provas começou no governo de FHC e passou por todos os governos petistas. Tudo com o objetivo de aumentar o número de pessoas esquerdistas na máquina pública.

Weintraub e, de certa medida, o presidente, são dois profissionais que conseguiram cargos por concurso público. Um para dar aulas e produzir pesquisa de baixa qualidade. O outro para caçar confusão dentro de quartel. Seriam eles esquerdistas escondidos?

Renovou a mamata

Enquanto os concursos não são reformulados para promoverem o olavismo cultural em todas as esferas públicas, as nomeações de despreparados pelo governo seguem a toda força.

Sai do Ibama a responsável por analisar o impacto de produtos químicos sobre a fauna e a flora. Entra no ICMBio uma estudante de psicologia que passou os últimos anos trabalhando com vendas no interior mineiro.

Já no Iphan, o novo presidente graduou-se em Arquitetura e urbanismo pela UNI-BH em 2011. Antes disso, trabalhava acompanhando a mãe em projetos de restauro (segundo o próprio). No jornal O Globo, há a lista completa das supostas qualificações de Flávio de Paula Moura para o cargo.

A Casa Civil também está dentro da brincadeira. O novo chefe de gabinete é um pastor da Sara Nossa Terra. Ele é da mesma igreja que o ministro da pasta, Onyx Lorenzoni.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Deixando o bonde passar

O presidente Bolsonaro resolveu não passar tanta vergonha em 2020. Na quarta-feira (08), o Planalto anunciou que Jair não estará no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Apesar de ser um encontro que reúne todo tipo de líder empresarial e econômico do cenário mundial, Bolsonaro achou que o somatório de questões de segurança, política e economia não valia a viagem neste ano.

Isso não quer dizer que o Brasil ficará de fora do encontro. Guedes e outros empresários estarão na Suíça representando os interesses da nação. Todo mundo, junto com João Dória, ficou muito feliz de não ter que aguentar Bolsonaro em outro país.

Considerando que estamos falando de um presidente que fez uma live no Facebook para acompanhar o pronunciamento de Donald Trump na última semana. Considerando que, ao fim, ele resolveu criticar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por ter feito um bom trabalho de diplomacia. Considerando, por fim, que é o Bolsonaro, a escolha foi a melhor decisão que ele tomou em 2020.

Assinando o nome no trabalho alheio

É comum que políticos tentem tomar o mérito do trabalho alheio para si. FHC virou o homem do Real em cima do projeto feito por um monte de gente que, ao contrário dele, conhecia economia. Há petista por aí que até hoje jura que o Fies é uma obra do governo Lula.

Mas eis que o governo Bolsonaro optou por renovar o espírito de cara de pau e tomar os louros do trabalho alheio em uma escala inédita. E tudo isso em cima de algo que nem traz tanto voto assim: a nova estação de pesquisa Comandante Ferraz.

A estação é um conjunto de laboratórios de pesquisa com tecnologia de ponta cujo projeto iniciou-se em 2013. A iniciativa se deu após um incêndio que destruiu a base antiga em 2012. A construção, aliás, ainda precisa de alguns retoques para ter funcionamento completo.

Mesmo assim o ministro Marcos Pontes resolveu que seria uma boa ideia tratar como mérito do governo Bolsonaro o trabalho de todo mundo que esteve no governo nos últimos anos. O astronauta foi ao Twitter tentar vincular a abertura da base ao governo atual para ser prontamente corrigido por todo tipo de jornalista. Bem feito.

Uma esmola pelo amor de Deus

Falando em tomar o trabalho dos outros para si, Bolsonaro quer um programa social para chamar de seu. Ou melhor, um programa social para reformar, mudar o nome e aí sim falar é do seu governo. Tudo isso para ganhar algum apoio no nordeste que não seja de gente endinheirada.

As principais vítimas são o Minha Casa, Minha Vida, o Pronatec e o Bolsa Família. O primeiro apresenta atraso nos repasses e altíssima taxa de inadimplência entre os pagadores. O segundo tem resultados duvidosos. Já o terceiro foi enxugado no primeiro ano do governo.

Ao que tudo indica, pautas que sejam realmente focadas nos pobres ficarão para depois no governo Bolsonaro. No primeiro ano, o presidente gastou todo o seu tempo livre descobrindo o que era golden shower. No atual, pelo visto, estará se preparando para ser filiado a outro partido.

No terceiro e no quarto, só Deus sabe o que será da massa de miseráveis que depende do apoio governamental para conquistar a sua cidadania. Se a solução vier por meio das agendas de reforma tributária e administrativa, inclusive, é melhor sentar e esperar: assim como a cara resolução da fila do INSS, isso ficará para outro dia.

Segundo a Veja, o grande ministro da economia (e vendedor de terreno na Lua nas horas vagas) segue não avançando as discussões sobre essas pautas no prédio do seu ministério. Depois não adianta reclamar que o Maia está com protagonismo.

O espirito das luzes

O governo resolveu não taxar o sol. Ok, brincadeira. O governo resolveu não acabar com um subsídio regressivo para quem investia em energia solar e gerava mais eletricidade do que precisava para manter o seu negócio funcionando (ou a sua casa ligada).

Este é o caso de muito brasileiro de classe média. Mas é, também, de uma grande quantidade de empresas que se unem para aproveitar a possibilidade de lucrar mais. Então vamos corrigir o anúncio do começo deste tópico:

O governo resolveu manter uma política que já não se justificava em um caráter político e econômico e que, no final das contas, serve para transferir dinheiro de pobre para rico.

A brincadeira custará R$ 34 bilhões para todos os que não utilizam a energia solar. O populismo do governo recebeu parecer negativo de técnicos da equipe econômica (em vão). A justificativa do presidente para governar no feeling e não conforme os subordinados do Posto Ipiranga gostariam é que não intervir a favor do setor é fazer intervencionismo.

Aliança pelo trambique

A criação da Aliança do Brasil segue muito confusa e cheia de trambique. Após as confusões anunciadas na última semana, o Colégio Notarial do Brasil (CNB) resolveu apoiar a coleta de assinaturas para fundar o partido. A entidade representa 90% dos notários (a turma que cuida e trabalha com cartório) do país.

Além da taxa para reconhecimento de firma, os cartórios estão ganhando algo que vale muito mais do que barras de ouro (e dinheiro), que é o carinho do presidente. Só faltou combinar com o TSE, que nunca se manifestou a respeito do uso de estrutura privada para a criação de partido.

A advogada de Bolsonaro e representante jurídica do Aliança, Karina Kufa, resolveu brincar de Montesquieu. Questionada sobre a legalidade da ideia, avisou que “o que não está na lei não é proibido, não é?”. Tá errada? Não está.

Há procuradores do Ministério Público Federal que viram na ação a possibilidade de um processo por abuso econômico. Já o estatuto do Colégio Notarial afirma que a organização não pode fazer o que está sendo feito. Mais precisamente, que ‘é vedado ao CNB participar, apoiar ou difundir, ativa ou passivamente, quaisquer manifestações de caráter político”.

Pelo sim, pelo não, o CNB resolveu tirar do seu site todos os documentos que apoiavam a criação da Aliança do Brasil. Quem teme, talvez deve.

Desvio eleitoral padrão

O jornal O Globo descobriu que, segundo o TSE, o PSL perdeu 1.256 filiados após o presidente Jair Bolsonaro sair do país. O número é pequeno em comparação ao total de filiados (348 mil), mas representa um aumento de 4 vezes em comparação aos três meses anteriores ao levantamento.

O PSL, por outro lado, diz outra coisa. O partido afirmou que, na ausência do presidente, o número de registros foi reduzido em 750. O que não seria nada diante do suposto aumento de 15 mil filiados.

Tudo o que o Brasil precisa, agora, é ter que conferir mentira sobre quem tem o partido com o maior número de filiados.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – Semana #53: fascismo à moda da casa

Ministro torturando número, fascistas indo à luta, o governo mentindo e os fantasmas do presidente dando um olá no noticiário. Tudo isso em uma única semana.

Não se esquece de compartilhar com a família.


The following takes place between dec-31 and jan-06


O ovo da serpente está pronto para ser chocado

Ao que tudo indica, o ataque ao Porta dos Fundos não deve dar em pizza. A polícia do Rio realizou, na última terça-feira (31), uma operação para prender Eduardo Fauzi Richard Cerquise. Ele é um dos cinco suspeitos de ter jogado bombas na sede da produtora do grupo.

Oficialmente foragido, Cerquise publicou um video no YouTube chamando os humoristas do Porta dos Fundos de “bandidos” e pedindo orações. A polícia encontrou na sua casa R$ 119 mil em dinheiro vivo, uma arma falsa e munições. De classe média alta, o integralista já foi condenado por lesão corporal e tem outras 15 anotações por ameaça e agressão na sua ficha – um claro sinal de que ele jamais seria capaz de atacar alguém por ir contra os seus valores.

Aliás, falando sobre os valores de Cerquise, o foragido foi filiado ao PSL entre 2001 e a última segunda-feira (portanto nada de ligações – ainda – com o atual morador do Palácio do Planalto). Ele também presidia a Frente Integralista Brasileira do Rio de Janeiro (o grupo afirmou em nota que ele foi expulso). Além disso, é apontado como parte de um grupo de milícia que atua em estacionamentos rotativos no centro da capital carioca.

Não demorou muito para saber onde Eduardo foi parar. O integralista embarcou para a Rússia na véspera da operação policial que pretendia prendê-lo e ainda deu uma entrevista assumindo para a internet que atacou a empresa de humor. O seu nome já está na lista de procurados da Interpol.

E atenção! Se liga aí, que é hora da revisão!

Já que o brasileiro não anda prestando muita atenção às aulas de história, vamos fazer aqui um recap. O integralismo é um movimento fascista de extrema direita que chupinhou umas ideias do fascismo italiano lá na década de 1930.

O movimento é formado por uma trupe de pessoas moralmente conservadoras, religiosamente cristãs e ultranacionalistas. O integralismo, porém, não adotou o componente racista do nazifascismo, afinal, a turma sabe que mora no Brasil.

Essa galera bacana sempre manteve-se próxima do poder e, em certa medida, próxima dos que hoje comandam o país graças a um trabalho que começou lá em 2005, quando o movimento ressurgiu como uma associação sem fins lucrativos. Rodando hora pelos submundos da internet, hora nos espaços de poder, eles conseguiram se organizar com mais capilaridade do que muito grupo político por aí.

Hoje, repassam as suas mensagens com cuidado e dedicação sem que muita gente note. Formam um exército de apoiadores que já tem cara, trejeito de monarquista e uma profunda repulsa pelos valores liberais que dizem moldar o nosso Brasil. São, junto com tantos os outros exemplos, mais uma prova de que a nossa democracia não anda muito bem das pernas.

BDSM autoritário

Praticamente metade dos brasileiros com baixo nível educacional ou baixa renda não se importaria com a volta de uma ditadura. Os dados foram revelados pela última pesquisa do Datafolha sobre o tema. Outros indicadores, como o dos número de pessoas que acham a democracia a melhor forma de governo sempre, apresentaram queda.

Felizmente, porém, a parcela dos que avaliam que o legado da ditadura civil-militar é positivo continua caindo. Já o número de pessoas que sabem o que foi o AI-5 segue absurdamente pequeno. Faltou perguntar a aderência dos entrevistados ao movimento fascista da semana. Saber pra qual tipo de autoritarismo político os ventos sopram a cada semana é sempre bom.

Torturando números e urinando em cima do trabalho alheio

Serio Moro está 100% um político tradicional. Agora, além de fazer o seu trabalho pela metade, quer tomar o mérito das políticas públicas de outros governos para si. Pelo menos é o que ele tentou fazer no Twitter no último dia 04.

Ironizando as pessoas que realmente pesquisam as políticas de segurança pública nacional, o ministro disse que os crimes só cresceram nos governos anteriores (não é verdade, também houve queda em 2018) e que a administração atual tem pouca influência nos bons resultados do último ano (o que é verdade). O ministro também confundiu o nome do ex-ministro Raul Jungmann e chamou o político de Mago Merlin.

Felizmente, o internauta que diz se chamar Matheus Leone (seria esse mesmo o nome dele?) estava lá para lembrar quem fez o SUSP, um dos principais mecanismos do governo Temer que ajudaram na redução da mortalidade nacional. Também foi o Leone o responsável por elencar as respostas com outras medidas que, ao contrário da liberalização da posse de armas, tiveram real impacto nos índices de violência (Jungmann não é muito bom com isso de rede social).

Os números, infelizmente, não caíram para quem está na mira das armas dos PMs. Ou para os policiais que estão na mira de bandidos. Não é errado dizer, portanto, que a política pública da Nova Era é focada em cancelar CPF e número de registro dos policiais que conseguem sobreviver à violência do seu cotidiano.

Governismo dos anos 2020

O governismo já digievoluiou. Após a queda de popularidade do governo e a manutenção do apoio a Moro, a revolução reaça resolveu tomar um novo rumo. Filipe G. Martins e os demais comissários do olavismo cultural querem salvar o governo e o seu projeto de poder com muito pragmatismo.

Ou melhor, Filipe G. Martins e os olavetes do governo querem salvar o seu projeto de poder com muito pragmatismo. Afinal, tudo fica mais fácil de entender se a gente considerar Olavo de Carvalho como aquilo que ele realmente é: um fascista que tem medo de ver o seu projeto dar errado.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Mais pra cá do que pra lá

A balança comercial brasileira fechou 2019 com superavit de US $ 46,7 bilhões. O valor é o resultado mais baixo desde 2015. Além disso, representa um recuo de quase 20% a 2018.

Leitores mais assíduos de Adam Smith não exitariam dois segundos para levantar os dedos e lembrar que isso não é, necessariamente, algo ruim. Mas, conforme o próprio Ministério da Economia apontou, é um problema sim: o resultado se deve, especialmente, pela (eterna) crise argentina, um país que compra muita coisa da gente.

Quem valoriza o superávit da balança comercial nacional e/ou quer vender para todo mundo, portanto, deve temer. Não pelas perspectivas que tem em relação aos próximos passos que o governo argentino pode tomar na condução da economia, mas medidas que o nosso governo fará nos próximos anos. Não é de hoje que as pessoas razoáveis da diplomacia nacional avisaram que tratar mal a Argentina pode dar merda.

E agora para algo completamente relacionado ao tema do interlúdio anterior

Falando em diplomacia, o Itamaraty não quer deixar de vender só para os amigos da América Latina. A depender das declarações do nosso ministro das Alucinações Exteriores, vamos acabar deixando de exportar até para o Oriente Médio – outro lugar cheio de parceiro comercial de longa data.

Após a morte do general Qassem Soleimani e o alinhamento do Brasil com o atual presidente americano (e criminoso de guerra em potencial) Donald Trump, Teerã pediu esclarecimentos para a nossa embaixada.

Não foi sem motivo. Além de se alinhar com Trump outra vez sem a menor necessidade, o Brasil rompeu com a tradição nacional de só tratar como terroristas os grupos formalmente assim registrados pelo Conselho de Segurança da ONU. Seguindo nesse ritmo, terminaremos 2024 como uma economia que quer ser muito aberta, mas não consegue ser amiga de ninguém que pode comprar algo dela.

Mentindo na cara de otário e achando que todo mundo é otário

O presidente avisou que sancionará o fundo eleitoral de R$ 2 bilhões para 2020. O valor é o proposto pelo governo quando o Planalto enviou o orçamento para aprovação. A desculpa de Jair, para os seus eleitores, é de que vetar a cifra poderia levar ele a sofrer um processo de impeachment.

Pura bobajada.

Bolsonaro é incapaz de dizer, com base na lei, como ele seria enquadrado na lei de impeachment se vetasse algo que ele mesmo pediu o poder Legislativo para aprovar. Ok, isso aqui é o Brasil e o governo pode cair por qualquer motivo a depender das vontades dos congressistas. Mas, como bem afirmou o primeiro ministro, o veto ou a sanção às propostas do Planalto são um direito do presidente, não algo que pode dar ruim a médio e longo prazo.

O gado, certamente, acreditará na desculpa do governo. Felizmente, fora das bolhas, é possível espalhar a verdade e lembrar que a história é mais complicada. O governo orientou voto SIM ao aumento do fundão eleitoral, o que é a última escolha que alguém com o discurso de Jair, em tese, faria.

Não fui eu, foi meu Eu lírico

O presidente tirou o sábado para falar coisas que só ele falaria. Em uma live no seu Facebook, disse que, se tivesse a capacidade de acabar com as investigações contra o seu filho, teria finalizado os trabalhos. Paranoico como sempre, também acusou o governo do Rio de Janeiro de incentivar a investigação para promover uma possível candidatura do governador para o Planalto.

Em notas não relacionadas, a ex-mulher do presidente, Ana Cristina Siqueira Valle, foi convocada para depor pelo MP-RJ. Ela também é investigada por envolvimento em um suposto esquema de rachadinhas e emprego de funcionários fantasmas. Dessa vez, no gabinete do outro filho, Carlos Bolsonaro.

Ana Cristina é a mesma ex que ganhou uma capa da Veja após a revista ter obtido cópia de um processo no qual ela acusa Bolsonaro de ocultação de patrimônio, renda incompatível com a profissão do então deputado, agressividade e até um roubo. Não obstante, é aquela mulher que Jair já afirmou que não gostaria de ver por aí relevando os seus problemas do passado, mesmo que fossem verdadeiros.

O presidente, pelo visto, tem motivos para dormir com uma arma ao seu lado. A quantidade de fantasmas que tentam assombrá-lo a noite é gigante.


Eu escrevi e revisei (com preguiça) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #52: Deus está conosco, mas nos abandonou aqui

Vem que a semana foi curta de notícias. Teve atentado, números econômicos questionados e Moro sendo colocado no seu lugar.

Não se esquece de compartilhar depois de ler.


The following takes place between dec-24 and dec-30


Fogo no parquinho

Na madrugada de terça-feira (24), a sede da produtora do Porta dos Fundos foi alvo de um atentado terrorista. As câmeras pegaram três indivíduos lançando dois coquetéis molotov no imóvel.

Em vídeo, uns abobados se vincularam a um grupo integralista e assumiram a autoria do ataque. A polícia civil, porém, trata o caso como tentativa de homicídio e explosão. O motivo? O grupo citado no vídeo negou fazer parte da história.

No último ano, o blog (e outros veículos de mídia de maior destaque) foi responsável por montar uma triste coleção de ataques às liberdades no país. Aqueles que se dizem a favor deste valor, mas insistem que toda opinião tem a mesma validade, deveriam começar a rever os seus conceitos. Quando tratamos o incentivo de governantes ao obscurantismo e a barbárie como algo comum e válido, as chances de perdemos a nossa autonomia são altas.

A democracia é construída diariamente. Que em 2020 ninguém se esqueça disso.

Negging com a indústria nacional

Em 2020, Bolsonaro valorizará a indústria nacional. Na última semana, o presidente renovou a Cota de Tela, que reserva um número mínimo de salas de cinema para filmes nacionais. Mas não sem perder a oportunidade de fazer escárnio com os estudantes das belas artes.

Após o “up” para os produtores de Bacurau e outras grandes obras que só são bem apreciadas após 11 exibições, Jair foi às suas redes para desvalorizar a indústria nacional: disse que a cota será revista se o brasileirinho fizer bons filmes e que interessem a “população como um todo e não as minorias”.

2019 foi o ano que duas produções brasileiras ganharam prêmios inéditos no Festival de Cannes. A última semana também foi a que a esposa do presidente foi ao cinema ver Minha mãe é uma peça 3, filme que está faturando mais do que o último Star Wars.

Tratando apenas do que não é relevante

A nomeação de reitores, ao menos nos próximos meses, mudará. A MP 914, publicada na entradinha do Natal, criou uma nova regra de nomeação para os gestores de universidades públicas, institutos federais e o Colégio Pedro II. Agora:

  • o presidente poderá nomear qualquer uma das três pessoas que estiverem na lista tríplice indicada pela universidade (a tradição, até então, é de se nomear sempre o primeiro colocado);
  • a consulta para o nome do reitor será feita, preferencialmente, por meios eletrônicos;
  • o voto deixará de ser paritário nos locais em que assim se faz;
  • o reitor, que só poderá ser um professor que ocupa cargo efetivo na instituição, poderá escolher o vice-reitor e os diretores-gerais de cada campi.

O que não se está definido, porém, são os critérios para assegurar a integridade e confidencialidade dos processos de votação eletrônica — isso ficou para depois. Também não se decidiu se a MP terá apoio dos parlamentares para virar realidade (mas já encontra resistências no meio acadêmico). MPs tem prazo para serem votadas, o que pode muito bem reduzir o estrago causado por essa.

O que o governo não definiu, porém, é o projeto de lei para instituir o Future-se. Os parlamentares do Congresso estão até hoje sem saber exatamente como o Ministério da Educação pretende formalizar a iniciativa. Talvez o ministro esteja ocupado demais fazendo as próprias malas para pensar nisso.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Atenção concurseiro

Há algumas décadas uma nova Constituição foi escrita. Num buraco muito empoeirado dela, há uma parte que diz que funcionários públicos até tem estabilidade, mas isso depende: em caso de processo administrativo (regulamentação pendente), todo concurseiro pode ser convidado a se retirar.

Agora, no finalzinho de 2019, o governo lembrou-se desse detalhe e resolveu ir atrás dos meios necessários para demitir funcionário com baixo desempenho. A ideia é colocar, no pacote da reforma administrativa, a regulamentação necessária para avaliar e punir quem não trabalhar direito. Tudo isso tomando os cuidados para evitar acusações de perseguição política.

Há dois caminhos possíveis para isso ser feito. Um é apenas regulamentar o artigo da Constituição sobre demissão após processo administrativo (muito difícil de acontecer, mas possível). Outro é alterar a Carta e, assim, restringir as mudanças apenas para os novos servidores (quase impossível de acontecer).

2020 é ano de eleição municipal e muito candidato dependerá de apoio dos deputados para serem eleitos. 2020 será um ano animado.

Fica aí no seu lugar

O pacote anticrime finalmente entrou em vigor. Após todo o legítimo processo democrático de mudanças, o projeto apresentado pelo ministro da Justiça foi sancionado com 22 vetos. Saíram do texto original pontos como o excludente de licitude e ficaram itens novos, como o juiz de garantias.

Moro, acostumado a mandar e desmandar, resolveu agradecer a votação a favor com uma reclamação. Disse que não era o resultado dos sonhos e que o juiz de garantias não deveria estar lá. Deveria ter conversado mais com o seu chefe.

O que o ministro não mencionou na sua reclamação (que foi apenas uma no ciclo de butthurt dos lavajatistas de internet e entidades que também reclamaram da nova lei contra abuso de autoridade) é que a ação de Bolsonaro pode ajudar o próprio filho. Quem poderia imaginar que o presidente utilizaria o poder público, mais uma vez, para beneficiar a própria família e cercear o poder de ação do magistrado “linha dura” que cuida do caso do filho, não é mesmo!!!!!

Marco Aurélio Mello, porém, avisa que, se foi este o motivo de o presidente apoiar a mudança, ele pode dar com os burros n’água. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) lembrou que à Folha de S. Paulo que “a lei é editada para viger para o futuro e não retroativamente‘. Aliás, a maioria do Supremo (mas não todo mundo) é a favor da medida.

O fato é que não se sabe ao certo, até o momento, como o tal “juiz de instrução e também das garantias” será implementado. A mudança foi feita aos 45 do segundo tempo e já há gente por aí se movimentando contra ela no Senado. Não será um susto, portanto, se os senadores alegarem que a nova norma não está alinhada com a Lei de Responsabilidade Fiscal.


Eu escrevi e revisei (de jejum) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #51: o silêncio dos inocentes

Mais briga no PSL, Flavio B. recebendo visitas da Ju e ministro do Supremo pego fazendo algo muito parecido como lobby. Vem comigo que eu tenho todas as notícias para transformar a sua ceia num episódio de Toma Lá, Dá Cá.


The following takes place between dec-17 and dec-23


Aliança pelo trambique

A criação do novo partido de Jair Bolsonaro segue cheia dos trambiques (o que, até então, não é nenhuma surpresa). A cúpula da legenda (que no momento só existe na imaginação do presidente) optou por recolher, até abril, 500 mil assinaturas em todo o país. A decisão veio após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) avisar que a ideia de fazer isso com certificados digitais talvez não dará certo.

Agora, caro leitor, se liga nesta história: não faz muito tempo que a Soluti saiu por aí distribuindo mais de 1 milhão de certificados digitais. Coisa que geraria um gasto de R$ 50 milhões caso eles fossem comprados individualmente.

O presidente da Soluti, Vinicius Vieira de Souza, é, também, fundador da ATID (Associação Brasileira de Tecnologia e Identificação Digital). A instituição faz parte do comitê gestor da ICP-Brasil, entidade que regula o setor de emissão, renovação e registro de certificados digitais.

Em uma reunião no começo de dezembro, uma proposta feita pelo Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), tornou mais fácil a renovação de certificados digitais. O ITI é um órgão vinculado à Casa Civil da presidência da República. Entre os representantes da sociedade Civil há Luiz Carlos Zancanella. Conforme apurado por @jotacorreria, o seu suplente é o proprietário da Soluti.

Certamente tudo isso é uma simples coincidência e não sinal de uso da máquina pública para favorecer a ideia de Jair Bolsonaro ter um partido para chamar de seu em 2020.

Dicas para quem pretende disputar a eleição ano que vem

Largue a laicidade. Estudo feito por Francisco Costa, Angelo Marcantonio e Rudi Rocha conseguiu apontar por A mais B que o número de evangélicos cresce após crises econômicas. Pelo menos no Brasil, este país de grande estabilidade financeira.

Se a esquerda — especialmente ela — quer ganhar algum voto na periferia (e deixar de ter o mesmo perfil de eleitor que o Freixo tem no Rio de Janeiro) talvez seja uma boa ideia ser mais pragmática. Ou melhorar as suas estratégias de ação política. Pois, nos anos 2020, o Brasil será conquistado na base de muita teoria da prosperidade e pastor pedindo desconto de suas dívidas.

O militante de esquerda pode bater o pé e fingir miopia política até cansar. Mas quem está no topo das paradas dentro de favelas e bairros com pouco saneamento básico do país são os emissários do neopentecostalismo. O pobre quer luxo, fama e poder. Se possível, sem corrupção, mamadeira de piroca e ajuda do governo.

Importante, então, é parar de esperar por uma revolução cultural e começar a ser mais pragmático. Presumir que os pobres deveriam votar por redistribuição de renda é ignorar “os possíveis efeitos da religião sobre as preferências individuais.” É, também, tratar de modo paternalista quem só deseja uma vida minimamente confortável e sem tanta violência.

Meu lobbynho, minha vida

O MBL não é o único nome que tem aparecido no jornal sendo apontado como praticante de lobby. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre Moraes, foi grampeado em uma conversa que tem toda cara de atuação informal a favor de um coleguinha. Mais precisamente, um desembargador investigado.

A gravação é de 2015, quando Moraes ainda era secretário de Segurança em São Paulo. O agora ministro teria atuado como advogado do desembargador Alexandre Victor de Carvalho, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG). O que não seria um grande problema se chefes de órgãos públicos não fossem proibidos de exercer advocacia.

Carvalho, na época, respondia a um processo por ter empregado (supostamente) uma funcionária (supostamente) fantasma em seu gabinete. Tudo parte de uma investigação sobre um (supostamente) muito elaborado esquema de nepotismo cruzado.

Apesar de ter passado livre pelo TJ-MG, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) seguiu com o processo. Moraes, sabendo que não poderia atuar legalmente de novo para o colega, deu (segundo a Folha de S. Paulo) dicas informais para que ele conseguisse escapar de uma condenação na justiça.

Deu certo. A Segunda Turma julgou o caso e arquivou a reclamação contra Carvalho.

Essa não é a única estripulia que Carvalho (supostamente) cometeu e foi parar no jornal. Em grampo obtido pela Folha de S. Paulo, o desembargador teria atuado para impedir que o deputado Luís Tibé fosse cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG).

Tibé era, em 2015, acusado de usar a máquina pública para fazer propaganda eleitoral irregular. Vendo então que as chances não estavam boas para o seu lado, o político teria pedido o então vice-presidente da Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) para ajudar em seu processo de cassação. Algo super normal em qualquer país sério.

Você tem o direito de ficar caladinho

O CNJ mandou avisar que juízes não podem fazer aquilo que já não podiam fazer. Resolução aprovada pelo órgão impede que juízes comentem decisões de colegas e declarem apoio político nas redes sociais.

Entidades da área criticaram que o conselho está cerceando a liberdade dos juízes de fazerem aquilo que já não podiam fazer. Prometeram, inclusive, ir ao STF alegando que a norma, que afirma o que já está na lei, não está em concordância com a lei.

Vai entender.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Bota dinheiro na democracia sim

O fundo eleitoral segue em 2020. Agora, todos os candidatos a prefeito e vereador das próximas eleições terão acesso a R$ 2 bilhões para mover as suas campanhas. Se desejarem, claro.

O presidente, este portador de um grande espírito democrático, não gostou da aprovação do fundo. Seguindo (a risca) o manual do populista, perguntou a um grupelho de apoiadores se ele deveria sancionar a medida. Naturalmente, o gado respondeu que não deveria.

Ainda fazendo uso dos seus valores democráticos, Bolsonaro citou os valores que serão entregues ao PT e ao PSL no próximo pleito. Concluiu afirmando que “se quer fazer material de campanha caro, não vou ajudar esse cara, pronto“.

Na quinta-feira (19), o presidente retomou o assunto e afirmou que “em havendo brecha para vetar, eu vou fazer isso. Não vejo, com todo respeito, como justo recursos para fazer campanha“. Falou que a verba não ajuda jovem candidato e disse que isso não deve ser visto pelo Parlamento como um ataque.

Porém, quando se lembrou que o Planalto foi responsável pela proposta do fundo, desconversou. Afirmou que só fez a sua obrigação legal mas que agora poderá vetar o valor (que por muito pouco não seria maior). Falta falar, porém, como as eleições serão feitas sem desvios públicos, já que santinho e disparo de mensagem com conteúdo falso pelo Whatsapp seguem bem caros.

Bota dinheiro nas mãos do governo sim

Não foi só o orçamento das próximas eleições que virou objeto de discussão no Congresso na última semana. Os parlamentares também aprovaram o restante dos gastos que o governo poderá realizar em 2020.

Haverá aumento de despesas e investimentos em áreas como saúde, infraestrutura e desenvolvimento regional — se sobrar dinheiro para isso. R$ 6 bilhões foram liberados graças a aprovação da PEC Emergencial, que limita os gastos do governo de acordo com o tamanho da dívida pública. Ganhará mais dinheiro o ministério de Minas e Energia, enquanto o da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ficará com a menor parte.

Keeping up with #VazaJato I: engavetando essa mensagem hackeada

Lembra daquele monte de ação contra o procurador Deltan Dallagnol? Uma delas foi arquivada pelo corregedor do Conselho Nacional Ministério Público. As mensagens, que serviam para a acusação, foram consideradas ilegais e, portanto, inválidas para o processo.

A acusação se referia às mensagens em que Dallagnol conversava com Moro sobre a possibilidade de utilizar dinheiro público para promover propagandas pelas “10 medidas contra a corrupção”. O processo, se executado, seria totalmente ilegal.

Keeping up with #VazaJato II: indiciar não é culpabilizar (mas se quiser, pode)

A Polícia Federal finalmente concluiu as suas investigações sobre o caso dos Ararahackers e indiciará seis pessoas. Os crimes, segundo a PF, são:

  • integrar organização criminosa;
  • invadir dispositivo informático alheio;
  • interceptar comunicação telemática ilegal.

Não foram acusados de crimes os jornalistas do Intercept (afinal de contas, fazer o que jornalista faz não é crime neste país — ainda) e a ex-deputada Manuela d’Ávila (PC do B). O relatório não fala em mandantes ou cita qualquer tipo de motivação para as mensagens serem roubadas. Mas a PF já disse que pretende investigar esses pontos mais a fundo no futuro.

O que há de mais legal no relatório final, por outro lado, foi apontado pelo perfil @jairmearrependi. No meio de várias páginas, há uma conversa sobre o falecido perfil Pavão Misterioso ligando-o ao site de notícias relativamente verdadeiras Terça Livre. A troca de informações ocorreu entre o hacker e o humorista Gregório Duvivier. Coisa fina.

Timing é tudo

O Ministério Público resolveu ir atrás de toda e qualquer documentação que apontasse problemas na gestão financeira do gabinete do senador Flávio B. (quando ele ainda tinha compromissos com a Assembleia do Rio de Janeiro). Entre os alvos, estavam não só o atual senador, mas também Fabrício Queiroz, seu ex-assessor.

As investigações apontam a possibilidade de Queiroz ter comandado um esquema de rachadinha dentro do gabinete do então deputado Flávio. Apenas o policial militar aposentado teria recebido R$ 2 milhões em depósitos de outros 13 assessores do gabinete. Sobrou até para a ex-mulher do presidente e um ex-PM que até então a gente não sabia da existência, mas tem muito dinheiro em sua conta.

Os advogados do não filho do presidente chamaram a busca na loja de chocolates do senador de “invasão”. Já os advogados de Queiroz, que era ex-assessor de várias pessoas, informaram que o seu cliente tratou a operação com “tranquilidade’. Também disseram que, o homem que fugiu do Ministério Público a todo custo, estava surpreso, afinal, a operação era “absolutamente desnecessária”.

O blog quer acreditar, diante da declaração dos advogados de Queiroz, que o seu cliente passou o último ano organizando caixas de provas de seus prováveis criminhos para a PF. Afinal de contas, se o MP não quis pegar ninguém com as calças arriadas, o mínimo que poderia ser feito é uma ajudinha para os trabalhadores da instituição.

Contabilidade de alta qualidade

Segundo o Ministério Público, o senador Flávio afirmou que retirou, nos três primeiros anos de funcionamento da sua loja de chocolates, R$ 793,4 mil. O que não seria um problema se o fisco tivesse uma informação diferente: para o órgão, F.B. teria recebido apenas 435,6 mil no mesmo período. A contabilidade ruim também afetou o seu sócio, Alexandre Santini.

O advogado do senador, Frederick Wassef, praticamente chamou o judiciário de comunista e disse que estavam criminalizando o aumento de capital. Também afirmou que não há nada de errado em seu cliente ser amigo de gente que é acusada de ser participante de milícia. Ou empregar a sua ex-mulher, que (supostamente) fez repasse de R$ 203 mil a Queiroz.

Diga-me com quem andas…

O Ministério Público também colocou gente do Bope na lista de (supostos) envolvidos no (suposto) esquema das rachadinhas de Flavio B. e Fabrício Queiroz. O ex-capitão Adriano da Nóbrega, conhecido e foragido miliciano, teria emprestado as suas contas para o esquema. A conclusão ocorreu após a quebra do sigilo bancário de Nobrega, Flavio e Queiroz.

As suspeitas sobre o filho do presidente são tão grandes quanto as ligações de sua família com milicianos (e wannabe de miliciano). Será muito interessante ver, nos próximos três anos, o governo lidando com esse problema. Pois tenha certeza: isso ainda manchará as brancas paredes do planalto.

…e direi quem atacas

A defesa do senador F.B. foi ao Supremo para suspender a investigação contra os seus (supostos) crimes. Já o senador partiu para o ataque direto ao juiz Flávio Nicolau, que foi o responsável por autorizar a operação do MP.

O político disse que a filha do magistrado é uma funcionária fantasma do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Não dá para dizer que de funcionário fantasma a sua família não entende.

O paranoico presidente, por outro lado, acha que o culpado por tudo isso aí é o seu ministro da Justiça, Sergio Moro. A suspeita é tão grande que Bolsonaro quer tirar a Polícia Federal dos braços do ex-juiz e mandá-la para o seu amigo Alberto Fraga, ex-deputado da bancada da bala, que assumiria o futuro “ministério da Segurança”.

Ou quem não te ataca

Causou grande burburinho na internet e discussões sobre empatia (há de se ter empatia) as agressões sofridas pela youtuber di-direita Karol Eller. A jovem estava passeando com a sua namorada em um quiosque na orla da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quando foi agredida e teve o rosto desfigurado. O caso logo foi tratado como homofobia pela delegada responsável pelo caso.

Mas, para a surpresa de todo mundo que fez discursos inflamados a favor da empatia, a delegada voltou atrás e afirmou que as agressões não foram motivadas por homofobia. Imagens do local e testemunhas apontaram que a briga entre os dois se deu por outros motivos. Karol dobrou a aposta e insistiu que o motivo foi homofobia — apesar das imagens divulgadas pela imprensa.

O desfecho desta história tragicômica ficará, infelizmente, para a semana que vem.

Brasil acima de tudo, meu filho debaixo do caminhão

Vendo o seu filho Flavinho no jornal, o presidente Jair Bolsonaro resolveu comentar o assunto. Na manhã de quinta-feira (19) disse o presidente que “O Brasil é muito maior do que pequenos problemas. Eu falo por mim, os problemas meus podem perguntar que eu respondo. Os outros, não tenho nada a ver com isso.

Quando perguntaram sobre os seus problemas, na sexta-feira (20) o presidente mudou de tom. Insinuou que um jornalista era homossexual. Ao ser questionado se teria como comprovar o empréstimo feito a Queiroz, respondeu a um repórter que ele deveria perguntar para a sua mãe o comprovante que ela deu para o seu pai, “tá certo?”.

Tudo isso para uma plateia de apoiadores que adoraram ver o espetáculo de decoro e postura do chefe de governo brasileiro. Por último, e não menos importante, disse que “ninguém lava dinheiro em franquia”.

Lava em qual lugar então, presidente? Apartamento em Copacabana?

No dia seguinte, em um café com jornalistas, Bolsonaro disse que “se eu não tiver a cabeça no lugar, eu alopro”. Este tipo de temperamento realmente me parece uma boa qualificação para quem quer ser presidente.

Jair também reclamou dos vazamentos do Ministério Público. Clamou a necessidade de controle do MP, chamou o órgão de um dos Poderes da República (não é o caso) e reclamou de vazamentos. Interessante ver que J.B. mudou a sua visão de mundo sobre alguns temas.

Inimigas e rivais

Gustavo Bebianno está nervoso. Não sem motivos: o presidente sugeriu, em entrevista à revista Veja desta semana, que ele participou do atentado praticado por Adélio Bispo em 2018. A resposta, segundo o ex-ministro da Secretaria-geral da Presidência, será por vias judiciais e criminais.

Para Bebianno, “Jair está nitidamente desequilibrado. Precisa urgentemente de tratamento psiquiátrico.” Faz sentido: em poucos dias o presidente afirmou que existia a possibilidade de ter um câncer de pele, disse que a imprensa mentiu sobre o assunto e que a biópsia feita para avaliar se ele teria mesmo a doença deu resultado negativo. Complicado.


Eu escrevi e revisei (distraído) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #50: os soldadinhos de chumbo do presidente

Pacote anti-crime aprovado sem as loucuras do Moro, ministros não sabendo da liturgia do próprio cargo e o país passando vergonha lá fora (outra vez). Não se esquece de mandar o link para o seu tio bolsominion. 


The following takes place between dec. 10 and dec. 17 


Desidratação do bem 

Na terça-feira (10), o pacote anti-crime foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Votado no dia seguinte em plenário, o texto foi para sansão presidencial. 

Boa parte das maluquices do ex-juiz Sergio Moro foram tiradas do texto por deputados e senadores com alguma ideia decente na cabeça. Saíram itens como a licença para matar (ou excludente de licitude, para os mais íntimos) e o acordo de “plea bargain”. As mudanças foram possíveis graças a articulações de parlamentares como Marcelo Freixo, que se destaca entre às esquerdas como uma das poucas pessoas daquele lado que é vista lutando pela segurança pública. 

E que também não perde tempo posando bonito para a foto em tempos de grande autoritarismo. 

Em uma entrevista dada para a Folha de S. Paulo, o ministro jurou que, se tivesse sido aprovada, a licença para matar não seria aplicável a casos como o da menina Ágatha. Afinal, o Brasil é um país em que nenhum PM mente sobre as suas ações quando dá ruim para tentar sair impune. Ou que mata até mesmo a memória de catador de lixo que tenta salvar gente inocente

Moro espera que o presidente vete os pontos que ele não gosta, como o do juiz de garantias (basicamente alguém que poderá impedir mais pessoas de apresentarem um comportamento pouco ético). O que é uma ótima estratégia, pois ajuda Bolsonaro a manter o seu discurso de que “o sistema é foda” e impede o presidente fazer o que deseja (mas não necessariamente é a vontade da maioria da população). 

Agora a mira dos lavajatistas de plantão é a prisão após a condenação em segunda instância, que deve ser votada só ano que vem. O Nexo explicou direitinho esse imbróglio

⬆️ gente que não deveria ter entrado 

O jornalista Sérgio Camargo foi removido da presidência da Fundação Cultural Palmares após determinação de um juiz federal do Ceará. O governo federal publicou a sua saída da instituição no Diário Oficial da União no final da quarta-feira (11). A instituição, que promove a cultura afro-brasileira e a luta contra o racismo deixou, até segunda ordem, de ter um presidente que é contra os movimentos que promovem a cultura afro-brasileira e a luta contra o racismo. 

Quem também perdeu direito a ocupar uma sala de direção no serviço público foi Luciana Rocha Feres. Ela ficou na presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por tão pouco tempo que faltou hora vaga para o estagiário procurar os podres da pobre coitada. Fica pra próxima. 

É básico 

A Câmara finalmente aprovou o novo marco regulatório do saneamento básico brasileiro. O texto, que agora abre espaço para a disputa pelo fornecimento de esgoto por empresas privadas – mas não obriga ninguém a contratá-las :( – é um grande avanço para o país. Pelo menos na opinião deste modesto blog. 

Os números de saneamento do nosso país são execráveis. Há lugar em que é mais fácil encontrar esgoto a céu aberto do que árvore na rua. As mudanças no modelo atual, portanto, são mais que bem vindas. Quem sabe agora a gente não consegue fazer aquilo que é básico. 

Em notas relacionadas, a oposição das esquerdas ao projeto foi um show de horrores. Os partidos que mais se prejudicam e criticam fake news em 2018 não perderam a oportunidade de utilizarem argumentos que não correspondiam ao texto em votação

Não adianta fazer troça do tio do Whatsapp se você gasta microfone da Câmara afirmando que um projeto obriga alguém a fazer algo que não virará obrigação após a publicação no Diário Oficial da União. 

Seria bom, por sinal, que as esquerdas explicassem de onde sairia o dinheiro para a universalização no caso de manutenção do modelo atual. Sempre considerando, é calro, que ele mal garante acesso a um bom sistema de esgoto para metade da população. Melhor do que sair por aí mentindo na cara dura. 

Ícaro tombou 

A juíza Selma, senadora pelo Mato Grosso que é apelidada como “Moro de saias”, caiu por cometer criminhos. O Tribunal Superior Eleitoral anunciou que o seu mandato está cassado por abuso de poder econômico e uso de caixa dois durante a sua campanha. 

Apesar de haver espaço para recursos, a senadora deve se afastar imediatamente do cargo. Os suplentes também se deram mal, já que não terão direito ao mandato. Ficará com a vaga o mais votado nas eleições que serão realizadas em breve no Mato Grosso. 

O advogado da juíza jura que ela está sendo condenada por ser uma ótima magistrada. O TSE, por outro lado, não tem dúvidas de que ela e os seus suplentes cometeram criminhos. 

A juíza deveria acreditar mais no poder do qual ela fez parte por tantos anos. Também cai bem não saí por aí dizendo que combate a corrupção e depois, quando é condenada por práticas ilegais, utilizar o mesmo discurso de sempre de quem é pego com as calças arriadas. Um pouco de originalidade não custa nada. 

A volta dos que não foram

A Lava Jato não morreu. A operação deflagrou nova etapa, dessa vez tendo como alvo o filho do ex-presidente Lula, Fábio Luis. Segundo os operadores do direito, Fábio recebeu dinheiro da Oi e utilizou a verba na compra do sítio em Atibaia mais famoso do país. Como agradecimento, o governo federal teria repassado benefícios financeiros à operadora. 

Há, porém, um pequeno problema nessa história. A princípio, por ser uma investigação que já aconteceu em São Paulo e não deu em nada. Depois, por ser algo que não se refere diretamente a delitos que passam pela Petrobras, que é o que trata a Vara Federal de Curitiba. Detalhes. 

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o ex-governador Sérgio Cabral assinou um acordo de delação premiada para a alegria de editores de jornais e revistas de todo o país. Junto com o acordo, vem a promessa de devolver R$ 380 milhões em propina (que ele já devolveu) e denunciar até mesmo ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Tribunal de Contas da União (TCU) e procuradores do MP-RJ. 

O acordo recebeu parecer negativo da Procuradoria Geral da República que não perdeu a chance de lembrar que o próprio Ministério Público Federal do Rio já tinha negado ao político uma chance de delatar quem ele quisesse. O que é justificável, tendo em vista que a essa altura do campeonato Sergio Cabral só não foi condenado pelas balinhas que ele deve ter roubado na vendinha da escola em que cursou o ensino médio. 

Em notas definitivamente relacionadas, 81% dos brasileiros acham, segundo o Data Folha, que a operação deve continuar. O dado mostra que, após mais de 60 etapas, os procuradores conseguiram manipular a mídia e o imaginário social de tal maneira que eles se tornaram, de fato, o sinônimo de combate a problemas na gestão da coisa pública. 

O trabalho, porém, não conseguiu fazer com que o agora ministro Sergio Moro passasse imagem semelhante para o governo federal. Metade dos entrevistados acham que o governo é péssimo ou ruim no combate à corrupção

Pelo visto, o brasileirinho ficará satisfeito apenas quando a operação virar uma verdadeira Inquisição Espanhola, sempre ponta para surgir das sombras para atacar os mais desavisados com suspeitas e acusações de todo tipo. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Vá com Deus 

O Estado de S. Paulo apurou que no prédio do ministério da Educação as caixas de mudanças estão cheias. O ministro Weintraub se prepara para não voltar ao cargo que hoje, infelizmente ocupa, após o fim de suas férias. Uma boa parte dos assessores já estão com o status de desempregado no LinkedIn, faltando apenas a vez dele ser confirmada. 

O ministro deve sair, principalmente, por pressões da equipe econômica. Para eles, Weintraub (que é cria de Guedes e não do Olavo de Carvalho) causa problemas demais e atrapalha o governo enquanto faz cosplay de Gene Kelly no Twitter. 

Weintraub entrou com força e vontade na luta para ser o pior ministro da Educação da nossa história recente e conseguiu o troféu com mérito. Atacou todo o sistema de ensino público e privado, de professores a tias da merenda. Mentiu, repetiu a mentira e quando acusado de mentir, fez-se de sonso e continuou na sua luta pela divulgação de novas mentiras. 

Nos seus meses à frente do cargo, Weintraub não conseguiu (ou sequer tentou) articular com as organizações do terceiro setor que trabalham com a luta por uma educação melhor. Tão menos se articulou com os profissionais do próprio governo para colocar em prática alguma ideia que fosse além do Future-se. O Fundeb, aliás, corre o mesmo risco que o Enem teve de não sair nesse ano. 

Na sua última passagem pela Comissão de Educação da Câmara, o discurso foi tão raso que até mesmo deputados que normalmente fariam vista grossa aos seus descalabros não deixaram de criticá-lo. Infelizmente, porém, ainda falta algum tutano para quem critica o ministro. Mas a torcida é forte para que Weintraub pegue logo o beco e vá falar absurdos em outros lugares do país. 

O seu saldo final será digno de vergonha. O ministro passou mais tempo alimentando militante bolsonarista na internet do que garantir que a educação melhorasse. Liberou dinheiro para as instituições vinculadas ao MEC apenas quando era tarde demais para qualquer centavo ser gasto e esqueceu de falar como será implementado um novo programa de alfabetização. 

Assim como o seu antecessor, não fará falta. 

Vem de zap 

Os caminhoneiros ainda tentam fazer a gente sentir saudades de quando o PIB nacional era movido por trens. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, já teria impedido sete tentativas de greves da categoria. E só negocia com quem tem feito ameaça de greve

Aliás, uma nova mobilização a favor de greve fracassou no começo da semana por falta de participantes. Os líderes das greves durante o governo Temer estavam ocupados limpando a bota do governo com a glote. Já os que tinham outras preocupações se irritaram demais com os discursos da CUT favoráveis ao movimento

O Brasil de hoje seria muito menos horrível se, no Brasil de ontem, JK não tivesse sido um desenvolvimentista carrocrata. 

Na volta a gente compra 

Não faz muito tempo que o governo começou a pensar em mudar o Bolsa Família e dar um caráter mais social à gestão atual. Começou com a promessa de um 13º que só foi garantido para 2019 após a Folha de S. Paulo apontar que o benefício corria o risco de não virar realidade. Já no começo do mês, os auxiliares do presidente resolveram criar um Bolsa Família para chamar de seu. 

Era um projeto simples. Aumentar a faixa etária de beneficiários para quem tivesse até 21 anos de idade. Se a casa contasse com um bebê de até 3 anos, o benefício aumentaria. Só faltava descobrir como a conta seria paga. 

Ao que tudo indica, ninguém descobriu o mapa da mina. Alegando falta de recursos (que até existem, mas foram consumidos pelas propostas de parlamentares que não fazem o tal do “toma-lá, dá-cá”), o Planalto resolveu guardar o projeto em uma gaveta. Ainda bem que ninguém tem que defender o governo em eleição municipal, não é mesmo? 

Não fazendo mais do que a obrigação 

Após mais uma semana com informações de que a PM fez o que faz de melhor (autoritarismo pra cima de pobre indefeso), João Dória resolveu brincar de político de centro liberal outra vez. O tucano afastou os 38 PMs que participavam da operação em Paraisópolis que não teve coordenador e só serviu para trazer mais desgraça para a história da favela. 

A resposta não só veio tarde demais, como também mostra de novo, novamente, mais uma vez, que de centrista e liberal o governador tucano não tem nada. Dória só agiu a favor dos mortos de Paraisópolis quando uma avalanche de vídeos, relatórios do Instituto Médico Legal e testemunhos apontaram que a PM paulista fez o que ela se tornou famosa por fazer, que é truculência com preto, pobre e favelado de dia (e professores públicos após o sol se por). 

Não é como se o paulistano estivesse precisando de motivos para apoiar Dória. Moradores de São Paulo desconhecem combinações de números de votação que não comecem com 4 e 5 desde o começo da década de 1990. Agora, se o desejo é se mostrar diferente de Bolsonaro, ele seguirá falhando miseravelmente enquanto aperta novos pregos no caixão do Partido da Social Democracia Brasileira. 

Não fazendo sequer a obrigação 

A 25ª edição da COP 25, que ocorreu em Madri, acabou no último domingo (15) com gostinho amargo. A conferência do clima era um dos poucos lugares no ambiente internacional em que o Brasil podia falar grosso com todo mundo. Afinal, éramos um exemplo de país que, apesar dos pesares, conseguia manter boas políticas de preservação do clima e projetos com foco sustentável. 

Não mais

O ministro da área, Ricardo Salles, foi para a COP sem propostas significativas, querendo pedir dinheiro onde não havia espaço para mendigar recursos (que o país jogou fora no passado recente) e um desejo imbatível de lutar contra tudo e contra todos. Quando não estava sendo cobrado pelos péssimos resultados que apresentou nos últimos meses, tentava passar a perna nos outros países durante as negociações da regulamentação do mercado de créditos de carbono

O governo que achou ruim que o documento final da conferência apontasse o óbvio (que oceanos e o uso da terra influenciam no clima). Tratou toda a COP-25 como um grande “jogo comercial”. Não à toa, teve como maior vitória poder levar dois prêmios “Fóssil do dia” para casa. 

Os absurdos que Bolsonaro falou nesta semana 

Em um discurso para prefeitos, o presidente afirmou, na quinta-feira (12) que colocará todos os ministros e integrantes de equipes ministeriais envolvidos em corrupção em um “pau de arara”

Sem brincadeira. O presidente mandou um “se aparecer [corrupção], boto no pau de arara o ministro” como quem pede uma garrafa d’água. 

O presidente também disse que Paulo Freire, declarado patrono da educação nacional em 2012, era um energúmeno. Também falou que a programação da TV escola deseduca e que investir na empresa, que tem um grande papel na entrega de material de qualidade para professores de todo o país, é jogar dinheiro no lixo. Parece até que ele se referia à ideia de passar revisionismo histórico conservador na telinha. 

O ataque, que certamente não está relacionado com as críticas contra a tentativa do governo de passar Olavo de Carvalho no canal, deu certo. O ministro da Educação encerrou o contrato com a associação responsável pela gestão da TV e mandou todo mundo sair do seu prédio. 

O tripé da moderação tem uma perna só 

Tornou-se comum dizer há uns meses que o governo tinha três pés de sustentação. O olavismo cultural, o liberalismo de Paulo Guedes e a moralidade de Sergio Moro. Hoje, passados quase 12 meses completos de muita aventura e arrombo autoritário, é difícil ver que algum analista estava certo ao afirmar que Guedes e o ex-juiz são tão diferentes assim do maníaco por ditaduras. 

Semana sim, semana também, há um ministro disputando o posto de melhor lambida de bota na imprensa. O liberal ministro da economia não perde a chance de avisar que, se for às ruas, o povo corre o risco de ouvir gritos por um novo AI-5. Trata a democracia como um pequeno detalhe do receituário do liberalismo clássico e insiste na (burra) ideia de que as liberdades podem caminhar em separado se a economia estiver mais aberta aos seus interesses. 

Moro, vendo que as chances de ir para o STF são nulas, resolveu mostrar a sua face autoritária para galgar o apoio do chefinho e se tornar candidato a vice em 2022. Tem se tornada notória, nas últimas semanas, a escalda do discurso autoritário do juiz. 

Travestido de um belo combate à corrupção (de quem não faz parte do governo e de sua base), o ministro atribui ao STF (!) a má avaliação do seu trabalho enquanto pessoa que trabalha contra criminhos. Ignora, porém, que a maior parte dos brasileiros não se importam de ver Lula livre. Até acham justo

boquinha fina com maior síndrome de doutor do país também não perde a chance de posar para a internet sendo subserviente ao governo. Ataca a imprensa quando ela não faz vista grossa para as suas ações e ignora completamente a liturgia do seu cargo. Trata as salas do ministério que ocupa como se fosse a sua casa. Mostra que, assim como Guedes, de democrático e moderado não tem nada. 

Moro deveria estudar melhor a Constituição que jurou um dia defender, frequentar umas aulas de teoria democrática na UNB e, depois, sair da vida pública e pescar no pantanal. Assim como o ministro da Educação, sua ausência não será sentida por ninguém que valoriza a democracia liberal. 


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Eu escrevi este texto e revisei ele sozinho e com fome. Apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana 27: a destruição não criativa do Brasil

O Planalto contratando comunista, as pessoas erradas sendo rememoradas, o presidente se esquecendo da própria história e a nação dando dois passos na direção do abismo autoritário.


The following takes place between jul-02 and jul-08


Checagem de fatos parlamentar 

O Senado terá uma CPI das Fake News, ou pelo menos é o que o presidente da casa, Davi Alcolumbre, deseja. Mas, no que depender do deputado da base governamental, Filipe Barros, essa investigação parlamentar não ocorrerá. O congressista do PSL entrou com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal para tentar barrar a criação da comissão. Barros acredita que a investigação será utilizada para prejudicar o governo. 

Ou seja, o político acredita que, políticos, no ambiente de fazer política, farão o seu trabalho. Mais ainda, para Filipe, se o partido do governo dos que acreditam em mamadeira de piroca for investigado por reproduzir mentiras, será prejudicado. Quem não deve, nem sempre não teme. 

Boca de bueiro SE01EP27 

O presidente defendeu o trabalho infantil, e apesar de afirmar que não apresentará nenhum projeto a favor da prática, Jair afirmou que “trabalhando com nove, dez anos de idade na fazenda, eu não fui prejudicado em nada” (Jair não trabalhou quando era criança). O Brasil, por outro lado, nunca esteve tão prejudicado pelas ações de alguém eleito democraticamente (e olha que nós já tivemos péssimos presidentes). 

O trabalho infantil é uma das piores coisas que um presidente pode incentivar. Prejudica as crianças, as suas famílias e o desenvolvimento do país. Estudo sobre isso não falta.

Bolsonaro também afirmou que tem “saudades daquela época onde se tinha muito mais deveres do que direitos. Hoje você só tem direito e, dever, quase nenhum, e por isso nós afundamos cada vez mais”.

A época em questão é a ditadura militar, onde o direito a habeas corpus era inexistente, a liberdade de expressão era sufocada, a dignidade humana dependia do humor do guarda na esquina. A democracia, aliás, vivia amordaçada. Naqueles dias, o único dever do brasileiro era ficar calado diante das atrocidades cometidas pelo regime. 

Contabilidade criativa de criminalidade 

Um relatório da Folha de S. Paulo apontou que o ministério da Justiça não tem critérios funcionais para identificar o tamanho real da criminalidade brasileira. Apesar do alarde feito por Sergio Moro, os dados de homicídios nacionais registrados pelo Sinesp (Sistema Nacional de Informações da Segurança Pública) não são padronizados. 

O sistema, criado em 2012 e utilizado desde o último ano, contém apenas informações genéricas, incompletas e sem padrão. A ausência de dados claros e criados a partir de metodologias objetivas, naturalmente, prejudica a criação de políticas públicas para lidar com o tema.

Além disso, impede que o governo seja efetivo em seus gastos com segurança pública. Em último caso, dificulta a publicação de dados que apontem a realidade do país. 

Justiça seja feita, nem tudo é culpa de Bolsonaro. A Constituição afirma que cabe aos estados definir como será feito o registro dos homicídios. Seria, então, responsabilidade do Planalto, criar uma regulamentação nacional sobre o tema, garantindo que os dados sejam enviados ao Sinesp seguindo algum parâmetro em comum.

O brasileiro é muito doido 

Uma pesquisa do Datafolha revelou que boa parte dos brasileiros acham errada a conduta que Sergio Moro teve ao lado dos procuradores da Lava Jato. Entre os que já ouviram falar dos vazamentos da #VazaJato, apenas 31% dos entrevistados pelo instituto aprovam a conduta do ministro. Ainda assim, 54% das pessoas consideram justo Lula estar preso

Como é possível ver, ainda que os mais otimistas insistam, o brasileiro não quer ver as instituições funcionando. Ele quer mesmo é dedo no cu e gritaria para cima daqueles que ele não gosta. 

A caneta ficou sem tinta 

Quem lembra do acordo entre os três Poderes que o presidente queria fazer? Com direito a photo op e fala imbecil de Bolsonaro, o projeto tinha como objetivo tornar o diálogo entre as instituições mais forte e democrático. 

Não durou dois meses. No evento da troca da chefia do Comando Militar do Sudeste, Bolsonaro afirmou que não há a necessidade de um “pacto assinado no papel“. O importante, para Jair, é que ideias que “fujam ao populismo” sejam votadas. 

Seria mais útil ao país se o presidente abandonasse o seu próprio populismo de direita, que veste o seu corpo diariamente. Dizer que ele deve lealdade somente ao povo brasileiro é uma atitude que diz muitas coisas, inclusive que o abandono do populismo não faz parte da agenda do Planalto. 

Teorias da relatividade modernas 

Para o ministro Ricardo Salles, o Brasil já atingiu uma taxa de desmatamento zero. Segundo ele, não temos o zero absoluto, mas sim o “zero relativo“. Para fingir que o problema não existe, o ministro do Meio Ambiente torce números, compara a taxa de desmatamento com a sua proporcionalidade em relação à totalidade do bioma e transforma o corte de árvores desenfreado em uma construção social. 

O blog, seguindo a linha de raciocínio do ministro, aponta que ele é relativamente ruim e absolutamente péssimo. O governo Bolsonaro é relativamente horroroso e absolutamente inadequado a qualquer século após a chegada dos portugueses nestas terras. Da mesma maneira, este que vos escreve considera que a política ambiental atual é relativamente péssima e absolutamente digna de impeachment. 

Imperialismo a favor do meio ambiente 

O governo alemão reteve R$ 151 milhões que estavam destinados ao Fundo Amazônia. A iniciativa, que tem como objetivo prevenir, monitorar e combater o desmatamento na floresta com o apoio de dinheiro de gringo já recebeu, apenas dos germânicos, R$ 193 milhões desde 2008. O motivo? As merdas que o governo brasileiro fez e segue fazendo desde o começo do ano. 

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que tinha encontrado “inconsistências” no trabalho da equipe que faz a gestão do grupo (algo que as auditorias norueguesas e alemãs jamais encontraram). Além disso, o membro do partido Novo afirmou que desejava utilizar os recursos para realizar a compra de terras griladas em áreas de conservação ambiental.

Naturalmente, os europeus discordaram. Afinal, isso aí de dar dinheiro para quem comete crime deixar de cometer crimes não é bem aceito no mundo civilizado.

Há, inclusive, a possibilidade do fundo acabar de vez. Os embaixadores da Alemanha e da Noruega avisaram que esperam ver o BNDES ser mantido na administração da iniciativa, e que os projetos sejam executados considerando as diretrizes que já existiam antes do governo novo ser formado. É isso, ou os europeus levarão os seus euros para outros países. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Balbúrdias educacionais 

O ministro da Educação resolveu trabalhar, e anunciou que pretende tornar o Enem completamente digital até 2026. O processo, que será feito gradualmente, começará com 1% dos inscritos já em 2020. A considerar as dificuldades que o governo está enfrentando com o exame deste ano, o blog acredita que a frase correta seja “0,01% tentarão fazer o Enem digitalmente em 2019 e falharão miseravelmente por problemas técnicos.” 

Por outro lado, a prova deste ano, segundo o presidente substituto do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), já está pronta para ser impressa. Falta a prova virar documento, ser transportada e aplicada para milhares de estudantes sem que vazamentos ocorram. A ver.

O Ministério da Educação, por outro lado, ao concluir a informatização da prova, poderá utilizar boa parte dos servidores do Sisu para a sua aplicação. Afinal, dependendo do ritmo na queda da oferta de bolsas integrais para cursos presenciais pelo ProUni, é pouco provável que os recursos do processo de seleção de bolsas sejam utilizados por completo

Tonho da lua 1 x 1 generais do exército 

Alguém precisa continuar não segurando o Carlos Bolsonaro e, assim, permitir que ele continue minando as bases de apoio do governo federal. Durante a semana, o vereador que menos vereia no país foi ao seu Twitter atacar o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e culpá-lo pelo escândalo do aviãozinho presidencial. Mas, dessa vez, o tiro saiu pela culatra.

O general Luiz Eduardo Rocha Paiva, que faz parte da Comissão de Anistia do governo federal, foi ao Whatsapp (pois ser discreto é importante) chamar o filho pródigo de “pau-mandado do Olavo” e “idiota inútil ou útil para os esquerdistas“.

Briga de abobado é maravilhosa de se ver, até mesmo quando ela coloca o país na beirada do precipício. 

Keeping up with #VazaJato I: dando uma olhadinha supernormal 

Segundo O Antagonista, a Polícia Federal, de maneira técnica e totalmente democrática, solicitou ao Coaf uma análise das contas de Glenn Greenwald. A ideia é fazer um estudo sobre as contas do jornalista, e investigar qualquer valor que o relacione com a pessoa responsável pelos vazamentos da #VazaJato

Certamente a medida não tem nenhuma relação com Sergio Moro. O fato é que, em 2006, o Ministério Público processou um advogado que acusou ministro da Justiça de “agir com arbitrariedade e abuso de autoridade“. O ex-juiz jurou, na sua oitiva na Câmara dia 2, que nunca processou um jornalista. Deve ser verdade, já que ele pode sempre contar com a ajuda do MPF para vingar a sua masculinidade frágil.

Keeping up with #VazaJato II: fica de olho neste teu cu 

O ministro Moro deveria se curvar mais aos desejos de Jair Bolsonaro, caso queira manter a carreira política estável. Gente para ocupar o seu lugar não falta, a começar pelo juiz e bombadão da academia Marcelo Bretas, da Lava Jato carioca.

Em entrevista à BBC News Brasil, o magistrado afirmou que até recebe advogados e procuradores no seu trabalho, mas não dá conselhos a nenhum deles. Também avisou que não quer deixar uma marca na história do país e se esquivou de fazer um juízo sério do valor das mensagens da #VazaJato

Os concurseiros qualificados desta terra que tudo dá são ótimos em se colocar a postos para apunhalar o coleguinha quando é necessário. Incrível. 

Keeping up with #VazaJato III: mais um passeio de Moro na frente dos parlamentares 

A oposição até que tentou, teve até deputado voltando mais cedo para Brasília, mas não deu. A nova conversa de Sergio Moro com o poder Legislativo foi outro grand slam do ministro

Quando perguntado sobre o relatório das transações do jornalista Glenn Greenwald, algo super comum em regimes democráticos, desviou (atitude semelhante, por sinal, foi tomada pelo COAF e pela PF). Aliás, há gente no TCU achando que é apenas um teste de apoio da população aos desejos autoritários do governo

Moro repetiu que as mensagens são falsas, que não fez nada de errado e que, se as mensagens fossem verdadeiras, também não indicariam ilegalidades. Ainda acusou os supostos hackers de tentarem invalidar as condenações, como se alguém estivesse colocado uma arma na cabeça do ministro e mandado ele ficar de conluio com procurador.

Como o povo da Câmara não é lá muito educado, a conversa terminou em tumulto. Moro até tirou uma folga de cinco dias para descansar depois do bate-boca no fim da sessão. No Senado, onde o filho chora e a mãe não vê, Randolfe Rodrigues apresentou um requerimento para que o ex-juiz explique, juntamente com o ministro Paulo Guedes, se há ou não alguma investigação contra o jornalista americano.

Keeping up with #VazaJato IV: marketeiros à paisana 

Os procuradores da força tarefa da Lava Jato também se articularam para interferir nas eleições da Venezuela. Segundo o site The Intercept, o grupo, junto com Moro, planejou o envio de dados para a justiça venezuelana sobre a delação da Odebrecht, de um modo que tornasse o vazamento mais fácil.

Os procuradores especularam, inclusive, que a ação poderia trazer impactos para os brasileiros que vivem no país, gerando uma guerra civil. Tudo isso, pois, os acordos internacionais feitos pela justiça brasileira impediriam a Lava Jato de tornarem públicos os depoimentos dos executivos da Odebrecht.

Com ajuda da mão de Deus, um dos depoimentos acabou vazando não muito tempo depois de procuradores venezuelanos viajarem para o país. A ação certamente agradou Dalagnol, que apoiou as movimentações pelo simbolismo que um vazamento ilegal teria para o povo venezuelano, ainda que às custas de deixar a situação já caótica do país ainda mais confusa e violenta.

Keeping up with #VazaJato V: síndrome de Estocolmo 

Mensagens da #VazaJato revelaram, no dia 30 de junho, que os procurados da força tarefa da Lava Jato não levavam muito à sério as palavras do empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, sobre o triplex mais famoso do Guarujá. O ex-executivo é considerado um dos principais responsáveis por colocar Lula na cadeia, tendo em vista o impacto que seu depoimento teve nas investigações. 

Até aí, tudo mais ou menos. 

No dia 4 de julho, porém, diante das revelações feitas pela imprensa, Pinheiro enviou um bilhetinho à Folha afirmando que as acusações feitas ao ex-presidente eram totalmente verdadeiras. Negou, também, que as várias mudanças em seus depoimentos não ocorreram por ele estar louco para sair da cadeia. E por último, e não menos importante, disse que jamais foi pressionado para dar depoimentos que ajudassem os procuradores a colocarem algum grande petista na cadeia. 

A defesa de Lula não gostou, rebatou e criticou horrores as falas do ex-empreiteiro. Lembrou que as frases da #VazaJato contradizem o que ele disse à Folha de S. Paulo e as suas ações durante as investigações da Lava Jato. Não dará em nada, mas é divertido ver Léo Pinheiro falando tudo o que for necessário para sair da cadeia. 

Combate a corrupção: tem, mas só depois de amanhã 

Ninguém notou, mas Jair Bolsonaro confessou que o ministro Moro perguntou se ele deveria abafar as investigações de corrupção no alto escalão do PSL (o assunto por si só já seria um problema). Afinal, o que um presidente que jura combater a corrupção tem que saber sobre as investigações contra o seu próprio partido? 

Vale lembrar, também, que Sergio Moro não deveria ter tomado conhecimento do que estava acontecendo nas salas da Polícia Federal mineira. A investigação tramita sob segredo de justiça na 26ª Zona Eleitoral de Minas Gerais.

Além de todos esses detalhes (que por si só já seriam um escândalo) é importante lembrar que nenhuma instituição de controle se levantou contra as falas do presidente e o que elas representam. Há décadas a Polícia Federal, os Tribunais de Contas e o Ministério Público ganharam reforços para que trabalhassem como instituições do Estado, e não do governo da vez. Muitas vezes, aliás, trabalham contra o governante do dia.

Ao que tudo indica, basta que o governante não seja petista para a PF aguentar um fist fuck presidencial com um belo sorriso no rosto. 

A semana na reforma da Previdência I: batendo continência pro guarda de quartel 

A reforma da Previdência, aquela que seria votada por qualquer um dos candidatos a presidente em 2018 (e que passaria sem grandes esforços), finalmente teve o dedo do Bolsonaro. Não para acelerar a aprovação do projeto, claro, mas para que ele fizesse a única coisa que sabe fazer direito quando não está falando algum absurdo: lobby para milico. 

Após muito ser acusado de traidor pelos policiais civis e federais, o presidente entrou em campo pela sua base. Na tarde de terça-feira (2), Jair Bolsonaro atuou para modificar as mudanças nas regras de aposentadoria dos militares

Bolsonaro ainda colocou uma gag ball em Paulo Guedes só para garantir que a reforma seja ainda mais desidratada. Houve até parlamentar do PSL ameaçando votar contra o projeto caso o privilégio fosse deixado de lado (spoiler: não votaram).

Não adiantou muito. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o presidente da ADPF (Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal), Edvandir Paiva, chamou Jair Bolsonaro de frouxo, sem voz ativa e incapaz de colocar ordem no próprio governo. Ou quase isso

Edvandir afirmou que Bolsonaro “não consegue impor a vontade dele ao Ministério da Economia, e nós ficamos na mão.” Reclamou que, mesmo com ordens expressas de Bolsonaro, Joice Plagelmann e a equipe econômica articulavam no Congresso, corretamente, contra os interesses da categoria. Felizmente deu errado e o alívio ficou para depois 

O Brasil de 2019 é horrível: quando você percebe, está concordando com as atitudes da Joice e da equipe do Guedes. 

A semana na reforma da Previdência II: fazendo de conta que certos problemas não existem 

A outra parte da reforma da Previdência que é muito importante e que ficou de fora, é a reforma dos estados e municípios. Os líderes partidários falharam em chegar a um acordo sobre a inclusão dos funcionários públicos estaduais e municipais no projeto, mais uma vez

Há a chance de as mudanças na aposentadoria desses funcionários públicos serem inseridas, mas em etapas posteriores. Caso isso não ocorra, porém, todos os governos estaduais e municipais terão que encarar as suas reformas previdenciárias sozinhos. Vai ser divertido e vai dar merda, naturalmente. 

A boa memória para coisas ruins do governo Bolsonaro 

Não faz sentido pressupor que todo mundo que atuou no exército alemão durante os anos do nazismo era, necessariamente, nazista. Também não faz sentido dizer que os nazistas de verdade estavam na SS. São dois argumentos meio burros, e que só são reproduzidos por quem é desonesto ou ignorante. 

O exército brasileiro, porém, não tem o direito de ser qualquer um dos dois. Pelo contrário. 

A instituição coleciona momentos nobres em defesa do país, e igualmente esteve presente nas horas mais obscuras da biografia brasileira. Seria mais interessante, portanto, relembrar os 450 soldados da Força Expedicionária que foram enviados para ajudar a impedir que o nazifascismo tomasse conta do mundo, e não um brasileiro que atirou balas ao lado do exército alemão. Prioridades. 


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana com os toques sagazes da Marinna.

A Nova Era – semana #26: um governo que está só o pó da rabiola (e da coca)

The following takes place between jun-25 and jul-01


Narcos (2015) 

Na Nova Era, a série Narcos faz spin-off no Brasil. Na terça-feira (25), um sargento da Aeronáutica foi preso em Sevilha, na Espanha, com 39 kg de cocaína. O milico estava no grupo de apoio da viagem de Jair Bolsonaro ao G20, no Japão, e foi pego no flagra quando o avião fez uma escala no país.

Para o vice-presidente Hamilton Mourão, “uma atitude dessa natureza não brotou da cabeça” do sargento. Ok, homem cis geralmente pensa com a cabeça de baixo, e não com a de cima. Mas algo me diz que, nesse caso, não é correto afirmar que o militar utilizou a parte ao sul da linha do Equador na tomada de decisão.

O militar já esteve envolvido em 29 viagens oficiais, desde 2011. Acompanhou, portanto, Dilma Rousseff, Michel Miguel e Jair Bolsonaro. Foi preso na administração do terceiro, por mérito único e exclusivo da polícia da Espanha. Felizmente, apenas a militância abobada do presidente acreditou na ideia de que ele tinha alguma responsabilidade direta na prisão do traficante.

O apertado pescoço de Marcelo Álvaro Antônio

Na quinta-feira, o café do recepcionista de turista, Marcelo Álvaro Antônio. ficou mais amargo do que ele gostaria. A Polícia Federal anunciou a prisão temporária de três pessoas ligadas ao ministro, incluindo o seu assessor especial. Assim como o encarregado pela pasta, elas estão envolvidas no escândalo do Laranjal do PSL em Minas Gerais.

O ministro, naturalmente, nega que as suspeitas sejam verdadeiras. Jair Bolsonaro, por outro lado, não pede uma punição severa caso o ministro tenha cometido criminhos. Sabe como é, né? Bolsonaro foi eleito para combater a corrupção de todos (aqueles que se colocam contra o seu governo ou criticam as falas do guru da Virgínia).

Sobre o tema, o PSL acredita que a investigação tem seletividade e está voltada para atingir o partido. Há quem diga, inclusive, que Marcelo Álvaro já está utilizando dinheiro do partido para financiar camisas escritas #MALivre caso algo de errado ocorra.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Keeping up with the #VazaJato

A terça-feira da #VazaJato tem show de Glenn Greenwald na Câmara dos Deputados, e ele alertou os deputados, em especial a Carla Zambelli. Lembrou que a relação de Moro com os procuradores do MPF era semelhante a um espetáculo de BDSM e não perdeu a chance de dar pequenos tapas de luva nos abobados do PSL.

Mas o PSL não foi o único partido que praticou livre argumentação de absurdos. A deputada Policial Katia Sastre (PL-SP), afirmou que o jornalista americano deveria ser preso. Afinal, para ela, Greenwald “em conjunto com o hacker [que ninguém sabe que existe e/ou foi a fonte do material] cometeu crime [que ela não apontou qual seria]”.

Como uma pessoa que leva em seu nome político um cargo responsável por fazer valer a lei, a deputada & policial Katia Sastre, é uma péssima deputada e horrorosa membra do braço armado do Estado.

O cu de Deltan Dallagnol segue não sendo arrombado. O corregedor do Conselho Nacional do Ministério Público, Orlando Rochadel, mandou arquivar a investigação sobre as revelações da #VazaJato. Para ele, não há como comprovar a legitimidade das mensagens e tão menos existem “ilícito funcional” nas atitudes do procurador.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, discordou. Para ele, as mensagens, comprovadas a sua veracidade, são “graves” e revelam um “problema ético” capaz de colocar deputado ou senador no Conselho de Ética. Ou na prisão.

Como se as revelações de parcialidade e compromisso com a derrubada de todo o sistema político (começando pelo PT) não fossem já claras o bastante, no dia 29 soubemos que Deltan tentou acelerar ações contra Jaques Wagner “because fuck you, thats why“.

Vai dia, vem dia, e seguir discutindo se foi hacker ou não é tão importante quanto discutir o sexo dos anjos. Enquanto as matérias sobre as trocas de mensagens não atingirem quem realmente importa, Lula continuará sonhando com a mão amiga da ONU, já que o MPF quer ele preso por mais tempo.

Para todos os fins, pelo menos a gente não é a procuradora Jerusa Viecili, que mesmo percebendo como a Lava Jato atuava por dentro, insistiu, em vão, que os procuradores se manifestassem contra Bolsonaro durante as eleições.

Moro 3 x 0 Lula  

A terça-feira (25) foi movimentada no STF. Por iniciativa de Gilmar Mendes, a segunda turma do tribunal votou os dois pedidos que poderiam liberar o ex-presidente Lula. Ambos foram negados.

Sentindo-se muito cansados e direcionando a sua atenção para outras coisas, os juízes resolveram colocar a toga para descansar após as suas deliberações sobre Lula. Sai vitorioso, no final das contas Sergio Moro, que terá a sua suspeição julgada apenas após o fim de recesso, em agosto.

Sisu pela reforma da Previdência  

Na quarta-feira (26), o governo abriu o sistema digital de vários ministérios para os parlamentares que toparem votar a favor da reforma da previdência. Cada congressista poderá solicitar até R$ 20 milhões (R$ 10 milhões caso apoie na comissão especial da Câmara e R$ 10 milhões caso o apoio seja no plenário) dos cofres públicos. Os recursos podem ser direcionados para obras e investimentos como a construção de creches e redutos eleitorais.

É errado que o fez? Não.

É ilegal? Também não.

É o que o presidente prometeu fazer? Pelo contrário.

É divertido ver o governo realizar esse trabalho em troca da reforma? Ô se é.

Disaster artist

Bolsonaro anunciou, antes de embarcar para o Japão, que a sua agenda no G20 estaria cheia. As reuniões programadas incluíam os chefes de Estado e de governo de países como França, os EUA, China, Índia, Singapura, Japão e Arábia Saudita.

O que, a princípio, é uma ótima iniciativa. Para alguém que passou a vida pregando protecionismo, é louvável ver o esforço do presidente em integrar o Brasil com quem manda no planeta.

O problema é que Jair chegou em Osaka achando que os presidentes das outras nações aceitariam as suas falas com a mesma passividade de um entrevistador da Rede Record. Logo de cara, Emmanuel Macron sinalizou que poderia vetar acordos comerciais com o país caso o Brasil abandonasse o acordo climático de Paris. Já a alemã Angela Merkel disse que via com “preocupação” as medidas anti-ambientais tomadas pelo ministro do Meio Ambiente e o governo como um todo.

Em resposta, o presidente exigiu “respeito” ao Brasil (corta para Jair compartilhando vídeo de golden shower e falando em mamadeira de piroca nas escolas públicas) e que a Alemanha tinha muito o que aprender com o país. Não contente, também avisou que não foi para o outro lado do mundo para ser “advertido” por outras nações.

Augusto Heleno, o médium, encarnou o espírito de Enéas Carneiro e afirmou que a Alemanha tem interesse em explorar as florestas brasileiras. Perguntou, também, “quais são as florestas que o europeu preservou?” A resposta: proporcionalmente, muito mais do que o governo brasileiro. Inclusive enviando dinheiro para o nosso país fazer isso.

A Alemanha é um país que mantém, há mais de uma década, uma primeira ministra governando sem grandes dificuldades. Abriu as suas portas para refugiados de guerra, tem um PIB gigante e uma população absurdamente educada.

O país também preserva uma quantidade indecente de florestas e realiza pesados investimentos em tecnologia, educação e inovação. Além disso, sabe rememorar o passado sem comemorar os piores momentos da sua história como algo bom.

Ainda bem que eles só buscaram lições educacionais do Brasil nos livros do Paulo Freire.

Brincando de liberalismo e sustentabilidade

Uma boa forma de conseguir respeito de outros países é, de fato, se preocupar com o meio ambiente. Como apontou Philip Alston, relator especial da ONU para pobreza extrema e direitos humanos, o nosso presidente “prometeu abrir a Floresta Amazônica para a mineração, acabar com a demarcação de terras indígenas e enfraquecer as agências de proteção ambiental.” E fez isso.

Esperar que um conjunto de medidas contra o meio ambiente não gere críticas de quem se importa com a sobrevivência das florestas mundiais é uma postura típica do nosso presidente: alguém que age continuamente fazendo algo que todo mundo avisa que dará merda, e reclama que é criticado quando dá merda.

Quando o presidente parou de passear e foi lidar com os adultos na sala, a sua postura seguiu a de criança birrenta, como sempre. Bolsonaro cancelou o encontro oficial com presidente francês, Emmanuel Macron, para conversar com o centrista informalmente. Felizmente, Jair sinalizou o interesse de se manter vinculado ao Acordo do Clima de Paris.

No mundo das pessoas adultas, a coluna Painel S.A., da Folha de S. Paulo, informou que a CNI (Confederação Nacional da Indústria), fez um pesado lobby para garantir que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul virasse realidade. Os industriais trabalharam para neutralizar as ações da França, ainda que a aprovação do acordo possa levar a um aumento de concorrência no mercado interno.

Deu certo. Apesar de ter feito pouco pela sua finalização, Jair Bolsonaro pode voltar para o Brasil como o presidente que conseguiu concluir os trabalhos para a assinatura do tratado comercial entre a União Europeia e o Mercosul. E olha que o G20 começou com o Putin falando em decadência do liberalismo (com anuência do Brasil).

O acordo, que você pode ler o do governo aqui, é o resultado do trabalho de muita gente ao longo das últimas duas décadas. Diplomatas, ministros e presidentes de vários países costuraram os detalhes de cada artigo, produto e imposto que poderá ser comercializado com condições especiais. O Petit Journal explicou em alguns minutos os pontos mais importantes.

Sai vitoriosa a equipe do presidente, ainda que o seu trabalho tenha sido apenas impedir que a assinatura fosse enrolada por mais alguns anos. Também comemoram o tratado todos os agricultores e fazendeiros que agora poderão vender muito para os países da UE.

E, se eventualmente o acordo passar por todos os parlamentos que ele precisa passar para ser realidade, também ganha o Brasil, que terá acesso a champagne da França e mais motivos para cuidar das nossas florestas. Afinal, agora o governo brasileiro tem mais um documento para obrigá-lo a impedir madeireiro de derrubar floresta ilegalmente e empresário da indústria nacional de poluir horrores.

Saída à moda Collor

Após as consultorias técnicas do Senado e da Câmara afirmarem que o decreto que flexibiliza o porte de armas é ilegal, Bolsonaro tentou refazer a proposta, excluindo os pontos contraditórios. Como governante burro cercado de pessoas imbecis que ele é, enviou para o Senado outro texto inconstitucional.

Diante do empasse, o porta-voz da Presidência, general Otávio Rego Barros, negou que o governo revogaria a proposta ou colocaria qualquer tipo de empecilho para que a votação ocorresse no Congresso. Após o primeiro ministro virtual, Rodrigo Maia, avisar que deputados e senadores votariam pela derrubada da nova versão do projeto, Jair fez o que era mais certo, democrático e correspondente às suas afirmações anteriores e revogou o decreto por ele criado.

No lugar, o Diário Oficial da União publicou três novos decretos e um projeto de lei sobre o tema. O governo não explicou mais detalhes sobre os decretos e o PL, e a página ficou fora do ar após a sua publicação.

Imagina se existisse uma forma diferente de dialogar com o Poder Legislativo que não fosse travando a sua pauta com Medida Provisória.

A ideia de Bolsonaro não é burra apenas por ser ilegal, mas também pelos efeitos diretos e indiretos. Jair conseguiu criar antipatias até mesmo com as lideranças das casas que são simpáticas a um afrouxamento das leis de posse e porte de armas de fogo. Tudo por não ter um pingo de respeito com os ritos tradicionais (e legais) da política.

Indo além, não se pode esquecer que tentar impedir o livre funcionamento do Poder Legislativo é crime de responsabilidade. Mais precisamente, vai contra o art. 6º, 1, da Lei 1079/1950. Não é como se a gente já não tivesse derrubado presidente por muito menos (volta, Collor, a sua tentativa de liberalismo pelo menos foi mais sincera).


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana com os toques sagazes da Marinna.

A Nova Era – semana #25: melindrando esse amor gostoso

The following takes place between jun-18 and jun-24


Mamata congressual, a primer 

Levantamento da Folha de S. Paulo indicou que, em média, 26 deputados saem do país mensalmente para destinos nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Voltadas para dar aos parlamentares “acesso a novos conceitos, políticas públicas e experiências legislativas úteis ao Brasil”, as viagens custaram, entre janeiro de 2018 e janeiro de 2019, R$ 3,9 bilhões aos pagadores de impostos.

Até aí, tudo bem. Viajar sai caro.

O que a reportagem também aponta é que a boa parte dos destinos envolvem cidades turísticas como Dubrovnik, que foi utilizada para gravar “Game of Thrones”. Outro deputado aproveitou para visitar Lisboa e Fátima, em Portugal, com direito a fotinha ao lado da estátua de bronze de Eusébio, um famoso jogador português que eu não sabia que existia. Na Nova Era, a mamata se reproduz e posta no Instagram.

Uma monarquia para chamar de nossa 

Enquanto dava uma pausa nas brigas sem necessidade com o Congresso, o presidente resolveu, mais uma vez, nos lembrar como um país sem ele seria ótimo. No sábado (22), Bolsonaro afirmou que o Legislativo tinha excesso de poder e que tentava transformá-lo em “rainha da Inglaterra”.

O blog fica de coração quentinho ao pensar em um primeiro ministro como Rodrigo Maia, que não é o herói que queríamos para esse governo, mas é o herói que merecemos.

Bolsonaro completou a sua fala criticando a possibilidade de um projeto que transferia a parlamentares o poder de fazer indicações para agências reguladoras. “Imagina qual o critério que vão adotar. Acho que eu não preciso complementar.”

Um palpite bobo: seria um critério melhor do que o utilizado por alguém que fez do poder público um cabide de emprego para seus parentes, seus filhos e os seus colegas ligados à milícia carioca.

Por último – e não menos importante – o presidente complementou o seu absurdo do dia afirmando que não há a menor necessidade do pacto entre poderes que ele mesmo resolveu fazer: basta apenas existir um sentimento do coração e da alma para que exista harmonia entre os poderes. O oposto do que alguém que apoiou maluco autoritário nas ruas contra o STF e o presidente da Câmara faria.

Esta semana, na reforma da Previdência 

O presidente, que fez esforço para articular pela reforma da Previdência apenas quando ela afetou a aposentadoria dos milicos, avisou que vai coçar muito a rola pequena e feia dele quando o assunto for reincluir os estados e municípios no projeto. Os governadores, caso queiram, terão que se virar para convencer os congressistas da necessidade do projeto ser aprovado com validade para todos os níveis do governo. Um grande dia para os abobados que insistem que o presidente trabalha arduamente por ela.

A brilhante ideia de Jair veio acompanhada da apresentação de um conjunto de destaques pelos deputados do PSL, que favorecem os profissionais da segurança pública. O presidente da comissão afirmou que é “surreal” que os deputados façam lobby por corporações. O blog fica se perguntando em que lugar Samuel Moreira esteve durante as eleições para ficar surpreso só agora.

Pirocoptero na cara da nação

Durante a semana, a reserva imoral do governo, digo, a reserva moral do governo Bolsonaro, foi ao Senado prestar contas sobre as mensagens reveladas pelo The Intercept. A visita de Sergio Moro à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) foi o show de horrores esperado por todos. Mas, para ex-juiz, foi um grand slam.

O ministro da Justiça conseguiu responder com cuidado a todas as questões feitas, mas sem responder o que era perguntado. Não contente, fugiu de muitas tentativas de apará-lo pela rabiola, e avisou: se as mensagens que não existem (para ele) apontarem criminhos (elas apontam), ele sairá do cargo de ministro.

Moro venceu a batalha do Senado não por aquilo que ele disse, mas sim pelo que não disse. O ex-juiz conseguiu, por mais de sete horas, dar respostas evasivas e fugir do ponto das perguntas com uma habilidade malufiana (e olha que alguns senadores estavam preparados com materiais de toda sorte). Acusou 52 vezes o The Intercept de sensacionalismo e repetiu, como um marido que abusa psicologicamente de sua esposa, mais de 30 vezes que as relações entre ele e Deltan eram absolutamente normais.

Quando cansado de repetir tais argumentos, lembrou que o Estado de direito poderia ser jogado às favas se isso fosse contribuir com o combate à corrupção. Ou colocasse Lula na cadeia (era muito importante colocar Lula na cadeia (importante para caralho (vai dizer que você não queria o Luis Inácio na cadeia? (se falar que não, é petista))).

Não é que esse fosse exatamente o ponto dos debates. Não era. Mas o argumento ganhou valor por lembrar aos lava-jatistas que a defesa do ministro ainda é importante. No final do dia, as desculpas foram boas o bastante para o presidente, que é a pessoa que mantém o ministro, ministro.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Uma bombada pelo amor de Deus, uma bombada por caridade 

A nova semana da #vazajato começou mostrando que Sergio Moro adora um apoio importante. O site The Intercept revelou, na noite de terça (18), que o atual ministro articulou com o procurador Deltan Dallagnol para poupar o ex-presidente – e príncipe – FHC das investigações da Lava Jato

Para o ex-juiz, o apoio do professor era importante demais para que a força tarefa arriscasse investigá-lo (ainda que o sociólogo tenha aparecido em vários depoimentos). Já o procurador do MPF apontou que a eventual prescrição de alguns supostos criminhos era detalhe bobo. O importante, para Dallagnol, era a construção da imagem de imparcialidade. 

Em notas não relacionadas, ambos não tinham motivos para dar pitacos sobre o caso. Qualquer investigação que eventualmente fosse feita em relação ao ex-presidente, seria feita longe das asas de Dallagnol e Moro. 

Em relação ao que estava sob o seu domínio, porém, Moro não perdeu a oportunidade de meter os dedos. Como um fabricante de dados viciados, o ex-juiz articulou com Dallagnol a escalação de procuradores nos depoimentos da Lava Jato. Tudo para garantir que apenas a defesa fosse composta por pessoas que Moro não gosta.

A pedido do ministro da Justiça, Dallagnol pediu a Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos integrantes da força-tarefa da Lava Jato, a substituição da procuradora Laura Tessler do time que participava das audiências do processo de Lula. Para evitar problemas, o procurador também pediu que Carlos fizesse tudo com cuidado, evitando deixar qualquer sinal da sua ação e ignorando a ética que o seu cargo exige.

Na manhã de domingo (23), o ex-juiz acordou inspirado. Foi ao Twitter para postar “Um pouco de cultural. Do latim, direto de Horácio, parturiunt montes, nascetur ridiculus mus” (“As montanhas partejam, nascerá um ridículo rato”, em português). O rato, provavelmente, era o pedido de desculpas que o ministro enviou aos tontos do MBL.

No mesmo dia, Moro apareceu em uma nova notícia da #vazajato, dessa vez publicada pela Folha de S. Paulo, outro veículo a validar o conteúdo das mensagens. A matéria do impresso aponta como os procuradores se articularam com Moro para impedir que o STF ficasse ainda mais irritado com o juiz, que dias antes tinha recebido um tapa na testa do STF por divulgar, ilegalmente, áudios do ex-presidente Lula conversando com Dilma Rouseff.

O modo vanguardista (inspirado nas experiências italianas) das ações da Lava Jato deram aos concurseiros bonitas coroas de louros. A operação prendeu gente grande, recuperou uma boa quantidade de dinheiro e revelou um enorme esquema de corrupção. Agora, o que a #vazajato traz, para os agentes da lei, é a possibilidade de carregar uma maravilhosa coroa de espinhos.

Ganhará a democracia e o estado de direito se as devidas punições forem aplicadas àqueles que fazem tudo para prender quem se corrompe, inclusive se corromper.

Privacidade pra quem? 

Enquanto todo mundo se perde no meio da bagunça que o presidente promove, Jair Bolsonaro decidiu flexibilizar o compartilhamento de dados de beneficiários do INSS com o setor privado. A chamada MP do pente fino (MP 871), que estabelece novas regras para acesso a benefícios como aposentadoria rural e salário-maternidade, não proibirá bancos e sociedades com contratos ligados ao INSS de utilizarem os seus dados para publicidade direcionada.

O governo se defendeu lembrando que já temos uma lei que trata do uso de dados pessoais, o que limitaria esse tipo de ação. Portanto, devemos todos ficarmos despreocupados, afinal, o Brasil é um país conhecido por ter empresas que não abusam das leis existentes, respeitam a privacidade de seus consumidores e sabem cuidar muito bem dos dados de terceiros.

Um presidente para a nação evangélica 

Pela primeira vez em nossa história, um presidente da República foi à Marcha para Jesus. Bolsonaro apareceu no evento para lembrar aos religiosos presentes que o seu grupo foi “decisivo para mudar o destino do país”. Se bots e criadores de notícias falsas fossem capazes de sentirem algo, ficariam incomodadíssimos com a falta de gratidão do presidente.

Justiça seja feita, Bolsonaro deve mesmo muito aos evangélicos. Boa parte do grupo religioso se agarrou a Jair com a mesma vontade que pregos grudaram Cristo na cruz.

Há aqueles que viram a eleição de Bolsonaro como uma oportunidade de voltar aos espaços de poder. Já outros olharam para o político como alguém com um grau de receptividade que ia muito além de uma simples visita a um templo ou à afirmação de que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor.

Como apontamos no blog, assim como Donald Trump, o presidente é visto por muitos como um enviado de Deus na terra. Mesmo que, na prática, a teoria de um político que trabalha em defesa pela família seja falsa, Jair Bolsonaro conseguiu se sagrar como um verdadeiro representante dos “homens de Deus” nas eleições de 2018.

Mas não é preciso fazer um longo retrospecto das ações do presidente após seu mergulho no rio Jordão: o que se tem aqui é apenas mais uma aliança em busca de poder do que uma aceitação dos valores de Cristo.

Ao colocar “Deus acima de todos”, como se o gosto por fazer papai e mamãe com o pai de Cristo fosse universal, Jair Bolsonaro reassumiu o seu compromisso com as pautas morais evangélicas, indo contra qualquer processo de pluralização da sociedade.

E por não ter o menor compromisso com qualquer coisa que vá além de uma “verborragia moralista e antiesquerdista”, o presidente foi o candidato perfeito para um grupo que sonha em acabar com tudo que os apoiadores dos marcos civilizatórios das Luzes conquistaram após o fim da ditadura. Indo além, Bolsonaro também é o aliado perfeito para ampliar o projeto de poder de parte dos protestantes, que sonham em reduzir a influência da Igreja Católica nos processos políticos da nação.

Está dando certo. 

A Nova Era – semana #24: não fala que eu não te escuto

The following takes place between jun-11 and jun-17 


Direitos desumanos para humanos sem direitos 

A semana #24 do governo Bolsonaro começou com tudo. Na terça-feira (11), o presidente exonerou 11 integrantes do MNPCT (Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura). Mas espere! Isso não é um sinal de que o governo quer reduzir a capacidade esquerdistas de acusarem bem-intencionados agentes da lei de abusos contra os nossos detentos. Pelo contrário! Ele só quer deixar de pagar os responsáveis por tal atividade, já que essa coisa de trabalhar de graça dá certo em todo o planeta. 

Zema que o diga

Se você, assim como eu, não fazia a menor ideia de que o MNPCT existia (o governo é muito grande, parece o mar), segue o resumo. O órgão foi criado em 2013 com o objeto de estudar e fazer relatórios sobre violações de direitos humanos no país. Foram eles que avisaram às autoridades (in)competentes que o Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim) era um pequeno inferno na Terra. 

É importante reforçar que o governo nega que essa medida possa inviabilizar qualquer tipo de ação para combater a tortura dentro das cadeias. O fato do presidente acreditar que direitos humanos servem apenas para “humanos direitos”, certamente não deve ser visto como impulso para tal medida ainda que, na prática, ela inviabilize as ações do grupo. 

O Ministério Público estuda quais medidas podem ser aplicadas ao caso. Já a entidade Justiça Global denunciou o presidente à ONU

O jeito que o Supremo faz bagunça institucional é diferente 

Na última postagem, o blog avisou: basta um juiz mais amigo ficar de má vontade com Moro, que os advogados de defesa dos condenados pela Lava Jato poderiam sonhar com um final de semana tranquilo. 

Eis que, em um dos julgamentos da Segunda Turma do STF, Gilmar Mendes mostrou que ele pode ser essa pessoa. Ao lembrar da atuação de Rodrigo Janot no processo que estava sendo julgado, o ministro do Supremo afirmou que “juiz não pode ser chefe de força tarefa”. O que, bem, é a verdade. 

O importante, aqui, é que Gilmar não está sozinho. Pelo menos é o que revelou a coluna Painel, da Folha de S. Paulo. O jornal apontou que integrantes do STF e do STJ consideram as revelações da #vazajato a “pá de cal moral no veredito de Lula”. 

Resta saber, porém, até que ponto as instituições superiores considerarão os conteúdos do The Intercept como verdadeiros (e pesados) o bastante para anular as condenações da Lava Jato Afinal, fora da privacidade das entrevistas em off, gente como Barroso adota cautela. O ministro disse que não consegue entender a euforia de quem já fala em mudar a condenação feita pelo Moro, e que a Petrobras virou uma bagunça nas mãos do PT. Ou quase isso

A canetinha encolheu 

Não faz muito tempo, o presidente afirmou que a sua caneta era a mais poderosa da República. Só faltou a ele combinar com os russos, digo, os parlamentares. Em uma semana, o presidente acumulou uma boa quantidade de derrotas em cima das suas reais preocupações. 

Na quarta (12), o Senado avisou que o decreto que ampliava o porte de armas no país era ilegal. Por incrível que pareça, os Senadores as vezes lembram que a Constituição não é papel pra limpar urina de cachorro: decreto presidencial não pode alterar norma estabelecida por lei. Simples assim. 

Dos 24 votos, apenas 9 foram a favor da ideia imbecil do governo. O Major Olímpio, sempre muito ponderado, bradou que a recusa da MP gerará “festa na quebrada! Festa das facções!”. Faz o brasileiro pensar que a liberalização do porte nos levaria para o universo de uma revista em quadrinhos, em que ex-soldados se tornam justiceiros. Ou que somos todos capazes de fazer cosplay de John Wick. Não somos. 

No mesmo dia, a maioria dos ministros do STF deu um belo recado ao Planalto. Também não há como, por meio de decreto, extinguir os conselhos federais que estão previstos por lei (como é o caso da Comissão de Erradicação do Trabalho Escravo). 

Se o presidente quer, novamente, usar atalhos “à margem do figuro legal” em forma de canetada para golpear os avanços civilizatórios dos últimos anos, é melhor tentar outro caminho. Da forma que está, continuará dando errado – e não adianta falar que a culpa não é dele e que ele não teve tempo para aprender como o Congresso funciona.  

Na Lava Jato we don’t trust 

Como todo castigo é pouco para otário, o The Intercept continuou a série de vazamentos, agora, inclusive, com um novo aliado na apuração dos fatos. Na quarta (12), Reinaldo Azevedo divulgou em seu programa de rádio uma conversa entre Dallagnol e Sergio Moro. No papinho entre os dois concurseiros, Deltan informou que Luiz Fux, ministro do STF, mandou um belo “conte comigo pra tudo” para a Lava Jato.

Poucas horas depois, o The Intercept vazou mais alguns detalhes sobre como Deltan e Moro combinaram mais ações juntos do que aqueles casais que andam abraçados no supermercado. O ministro, por sinal, era bem fiel ao seu subordinado não oficial: segundo a Folha de S. Paulo, os advogados que trabalham na defesa dos acusados pela Lava Jato jamais tiveram tanta liberdade com o ex-juiz como o promotor do MPF tinha.

Bolsonaro, que foi a um jogo do Campeonato Brasileiro com o ministro da Justiça, seguiu calado sobre as notícias. Abrir a boca para falar sobre o tema, o presidente só abriria na quinta-feira (13). Disse que estava unido a Moro, e que o normal no Brasil é conversar “com doleiro, com bandido”.

Considerando a quantidade de criminhos que são cometidos no Brasil, é bem provável que seja verdade mesmo. Para o presidente – e a sua família –, por exemplo, é normal conversar com miliciano, empregar parente de miliciano, beijar a boca de filha de miliciano, morar perto de miliciano, passar pano para miliciano, tirar foto com miliciano e, nas horas não vagas, prestar homenagem para miliciano. 

Uma das coisas que as mensagens mostram – e que é divertido de ver – é a relação de submissão que Deltan tem com Moro (a ponto de outros procuradores ficarem incomodados com isso). O ex-juiz trabalhou como Relações Públicas da força tarefa e, no ambiente privado, não deixou de esconder a sua indisposição com a defesa de Lula

Ok, advogado não é gente e os do ex-presidente são mesmo um pé no saco. Mas não cabe a juiz fazer o que o ministro da Justiça fez. Não em uma república relativamente séria – o que não é lá bem o nosso caso, mas enfim. 

Enquanto Moro falava que tinha sido vítima de um ataque criminoso, a defesa do petista pediu a anulação da sua condenação com base nas provas ilegais (algo que Moro já tinha defendido anteriormente). O Nexo explicou

Para quem não anda com as bolas do lavajatismo na glote, ou simplesmente não é parte do conselho diretor do Grupo Globo, algumas coisas são claras. As revelações do The Intercept mostram, até o momento, que Moro e Deltan são péssimos em esconder as coisas que fazem naquela zona cinzenta entre o que é imoral e o que é ilegal

Os outrora defensores de vazamentos em favor do interesse público juram que as mensagens, antes normais, mas que eventualmente representam um descuido, são falsas – mas não indicam qualquer tipo de ilegalidade(???). Tudo isso com um olhar de ofensa que faz pensar que, na verdade, eles tiveram a sunga abaixada após saírem de uma piscina gelada.  

A #vazajato mostra que, de imparcial e compromissado com o combate à corrupção, os missionários da destruição não tem nada. Eles são, no máximo, compromissados com a sua própria agenda policialesca.

Isso não quer dizer, é claro, que não exista um grande grupo de pessoas dispostas a defender a síndrome de Batman tupiniquim de Moro em troca do “bem maior” (esta coisa não muito rara em terra brasileira). Mas, enquanto esse número não cai, o projeto anticrime e a ida de Moro ao Supremo Tribunal Federal estão virando miragem no horizonte de expectativas do ex-juiz. 

Defender que as condenações sejam revistas não é defender que gente que tem tudo para ser bands não é bands. É apenas desejar que todas as pessoas – poderosas ou não – sejam julgadas por um juiz que respeita os seus códigos de conduta no lugar de um que orienta como a acusação deve trabalhar o tempo todo e que considera as ações da sua defesa um “showzinho”. Até Maluf, o filhote mor da ditadura, merece isso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

A mentira da semana do Bolsonaro 

Após o STF criminalizar a homofobia, Bolsonaro afirmou que isso dificultaria a contratação de gays (??). A corte, para o presidente (que não acredita em classes), aprofundou a divisão de classes com a medida. Para Jair, não há a necessidade de criminalizar este ato de preconceito pois “a pessoa que discrimina, por si só vai ser deixada de lado” (corta para ele sendo eleito presidente). 

A bobajada do presidente, para variar, não se sustenta na verdade. Um estudo da consultoria McKinsey registrou que empresas com alta diversidade tem 33% mais chances de lucrarem. Diversidade e respeito a quem pensa diferente vende. Vende mais até do que licença de programa para gerenciar bot de Twitter em época de campanha. 

Dança dos poderosos I 

O governo Bolsonaro já pode pedir música no Fantástico por um novo motivo. O (agora) ex-ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz foi demitido da Secretaria de Governo, se tornando o terceiro membro do alto escalão a perder um cargo. Mais uma vez, alguém caiu por manter atritos com o Guru da Virgínia e o filho do presidente que exerce vereança no Rio de Janeiro e acha que conhece código morse.

presidente Carlos Bolsonaro, com a ajuda de Olavo de Carvalho, cozinhou Santos Cruz em banho maria por meses após ataca-lo nas redes sociais. Um dos motivos? O general não queria gente ligada ao núcleo olavista do governo metendo as mãos nos contratos da Secom e na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). 

Santos Cruz foi trocado por Luiz Eduardo Ramos, chefe do Comando Militar do Sudeste.  Ramos, que é pouco acostumado às práxis das articulações políticas, será responsável por articular politicamente o governo com os outros poderes

O novo ministro também terá novos poderes, antes não reservados a Santos Cruz. O general poderá barrar qualquer nomeação de segundo e terceiro escalão do governo. Isso inclui, mas não se limita, a todos os reitores que forem eleitos nos próximos anos pelas suas respectivas comunidades acadêmicas. 

Dança dos poderosos II 

O general Santos Cruz não foi o único que saiu do governo nos últimos dias. O perigoso Joaquim Levy, conhecido pela sua defesa das ideias marxistas em lugar nenhum, cansou de ser humilhado publicamente por Bolsonaro e pediu para sair. 

O pedido de demissão ocorre dias após o presidente falar que a sua cabeça estava à prêmio por cometer o crime de contratar alguém que, assim como Levy, também trabalhou para governos petistas. A fala de Bolsonaro, por sinal, foi acompanhada da compreensão e do ombro amigo de Guedes – direcionado para o presidente

Em notas não relacionadas, o ex-presidente do BNDES não estava demonstrando muita disposição em fazer photo-op com Bolsonaro para mostrar que a já aberta “caixa preta do BNDES” estava sendo aberta pelo seu governo. 

Também em notas não relacionadas, Joaquim Levy estava resistindo aos pedidos de Paulo Guedes para “despedalar” o banco em um ritmo maior do que aquele que estava sendo mantido desde o governo Dilma. Pois, ao contrário do que parte da atual base do governo tenta dizer nas suas tentativas de reconstruir a história, as pedaladas estão em processo de reversão desde antes do impeachment. Só não ocorreram em um ritmo que quebraria a viabilidade financeira do banco público. 

Entra no lugar de Joaquim Levy o sócio-diretor do BTG Pactual, Gustavo Montezano. O jovem tem pouca experiência com bancos públicos, alguma experiência com o mercado financeiro e muita experiência em fazer bagunça

Dança dos poderosos III 

Continuando a lista de pessoas que perderam carguinho no governo, temos o general do Exército da reserva Franklimberg Ribeiro de Freitas. Após pressão dos ruralistas, o militar foi removido da presidência da Funai.

Mas, ao contrário de Levy, Freitas não saiu pelas portas dos fundos. O que se viu na sua despedida foi um belo espetáculo de raiva

Em reunião com os servidores da fundação, Freitas disse que Bolsonaro está muito mal assessorado (o que não é mentira). Também acusou o cidadão Nabhan Garcia, secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, de falar sobre indígenas salivando ódio (o que deve ser verdade). Por último (e não menos importante), o general lembrou que a Funai é vista “como óbice ao desenvolvimento nacional” por boa parte do governo (o que definitivamente não é mentira). 

Dança dos poderosos IV 

Por último – e não menos importante – na nossa lista de novos frequentadores do RH do governo federal, temos o agora ex-presidente dos Correios. O general Juarez Aparecido de Paula Cunha foi demitido por cometer o crime de se comportar como “sindicalista”

Comportar-se como sindicalista, no caso, é falar que não quer a empresa pública que governa ser privatizada e tirar foto com alguns parlamentares de esquerda. O presidente, via de regra, contrata e demite quem ele quiser para os cargos que ele pode contratar e demitir a qualquer momento. A presidência deu a ele esses mimos. 

Mas é bem divertido ver o homem que chegou ao cargo político mais alto do país prometendo “desesquerdizar” a administração pública ser incapaz de contratar alguém para presidir uma empresa que ele quer privatizar que seja simpático a essa ideia. A internet está cheia de internautas que desconhecem como funciona o mercado de logística nacional, mas são loucos para acabar com a estatal. 

Até porque, ver o presidente não reconhecendo que pessoas podem viver em uma democracia pensando diferente de maneira harmônica é algo que não surpreende ninguém. Não quem acompanha minimamente a carreira dele desde os anos 1990. 

Imagine o que será do Planalto quando Jair souber que o general Luiz Eduardo Ramos tem proximidade com políticos de esquerda do PT e do PSOL.

E a reforma, hein? 

A reforma da Previdência andou mais um pouco, novamente à revelia das ações do Planalto. O relator do projeto, o deputado Samuel Pereira, apresentou o seu texto com sete mudanças em pontos críticos do texto que foi enviado por Paulo Guedes. O Nexo compilou todas as mudanças propostas pelo tucano

Se você não clicou no link (ou caiu no paywall), eis um resumo. Saem as mudanças na aposentadoria rural e no Benefício de Prestação Continuada. A desconstitucionalização da Previdência (importante para facilitar as reformas do futuro) ficou para outro dia. Faltou trocado nos bolsos da Câmara para isso. 

E o regime de capitalização, a tiete de Paulo Guedes? O vento levou. Estados e municípios na reforma? Se continuar assim, terão que fazer a tarefa em casa. Por último, e não menos importante, o relator afirmou que, a depender da sua vontade, professores se aposentarão com 57 anos. 

Ao anunciar o acordo partidário que permitiu a tramitação da reforma, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, não deixou de gastar elogios a Guedes, ao relator, aos líderes partidários, ao homem fantasiado de cachorro que passou uma tarde no prédio da Câmara, aos seus assessores e até mesmo à oposição. Afinal de contas, é importante valorizar todas as pessoas que de fato ajudaram na construção do texto

A reação do ministro da Economia, porém, mostra que os tempos do Chile de Pinochet deixaram marcas profundas na alma do ministro. O todo poderoso economista, em vez de agradecer a apresentação do relatório, afirmou que os parlamentares “mostraram que não há compromisso com as novas gerações. O compromisso com os servidores públicos do Legislativo foi maior do que com as novas gerações”

Vamos recapitular. O governo conseguiu colocar para votar um relatório A FAVOR da mais profunda reforma da Previdência da nossa história. Um projeto que não consegue apoio fácil nem nas mais autoritárias ditaduras. O ministro responsável pelo projeto reagiu reclamando que os políticos fizeram política para aumentar o apoio à proposta

Este governo é uma “usina de crises” e a base de geração energética é nuclear. 

E agora, para algo completamente diferente 

No começo da semana, Jair Bolsonaro criou um belo mecanismo anti-impeachment para o seu governo (e as outras esferas do executivo). Enquanto o decreto for válido, o TCU, sempre que desejar tomar qualquer tipo de decisão sobre as eventuais irregularidades praticadas por um agente público, deverá considerar “circunstâncias práticas que impuseram, limitaram ou condicionaram a ação do agente público”. Em caso de responsabilização, os atributos e as complexidades do cargo exercido pela pessoa sub judice também deverão ser levados em conta. 

Indo além, também decretou que o agente público só poderá ser responsabilizado por decisões e opiniões técnicas que forem emitidas caso ele “agir ou se omitir com dolo, direto ou eventual, ou cometer erro grosseiro, no desempenho das suas funções”. Erro grosseiro, no caso, será considerado “aquele manifesto, evidente e inescusável praticado com culpa grave, caracterizado por ação ou omissão com elevado grau de negligência, imprudência ou imperícia”. 

Eu pagaria um café com Dilma Rousseff apenas para ouvir o que ela pensa sobre esse decreto e o que acontece com quem demite o Levy. 


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Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.