A Nova Era – semana #84: 101.752

O silêncio ensurdecedor do presidente sobre os seus rolos, a reforma tributáriazinha do Guedes e um monte de coisa que é absolutamente normal em uma República democrática federativa. Tudo isso (e muito mais) no resumo da semana #84 da Nova Era.

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The following takes place between aug-04 and aug-10


Pode acontecer

Paulo Guedes continua fazendo gaslight com o povo brasileiro. Após entregar a cabecinha da sua reforma tributária, o ministro foi à casa legislativa nacional afirmar que a nova CMPF não é uma nova CMPF. Com o charme e a parcimônia de sempre, insinuou burrice por parte dos deputados e atacou gratuitamente o relator da reforma tributária.

Justiça seja feita, quando o ministro fala sobre a reforma tributária, ele não é um poço de ideias velhas e novas completamente ruins. Tirando a insistência em tratar desoneração da folha como algo que funciona (não funcionou aqui e nem lá fora), existem até alguns pontos que podem ser defendidos por qualquer um com bom senso.

Se de um lado a nova CPMF acaba encarecendo tudo para todos (mas menos para os mais ricos), a CBS encarece mais os serviços consumidos pelos mais ricos. Lucros e dividendos, com sorte, serão tributados (triste dia para os profissionais liberais que aproveitam-se da estrutura tributária para pagar menos imposto de renda). E para não deixar de lado as notícias tristes para o topo da pirâmide que se encantou pelo ministro: ele ainda quer acabar com as desonerações do Imposto de Renda que envolvem o pagamento de planos de saúde e ensino privado.

Até relógio quebrado pode estar certo duas vezes por dia.

Sugar daddy

Fabrício Queiroz não é apenas um grande empreendedor do ramo da indústria dos automóveis. Segundo as revelações dos últimos dias, o ex-funcionário dos Bolsonaro era, também, um grande sugar daddy (mas sem comer esposas, como Osmar Terra faria).

As descobertas se deram em função das investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre o esquema de rachadinhas na Assembleia Legislativa carioca. A história começou com uma confissão de Queiroz: segundo ele, F. Bolsonaro tinha sido informado sobre os seus prováveis esquemas ilegais no final de 2018 (o que teria deixado o senador muito, muito, muito triste).

Mas o que deve ter deixado F. B. triste, de verdade, foi perceber que ele e a sua esposa perderiam o seu sugar daddy. Afinal de contas, segundo o próprio senador, Queiroz era o responsável pelo pagamento de suas contas pessoais. Tudo sempre dentro da legalidade, claro.

O mesmo senador (que carece de ser o filho do presidente) também disse, em depoimento, que o seu gabinete usou R$ 86 mil reais em dinheiro vivo para comprar salas comerciais. Os valores teriam sido emprestados pelo seu pai (aquele, que é o presidente do Brasil) e um irmão (que também é filho do presidente brasileiro). Tudo muito normal e seguro em pleno século XXI.

Voltando ao sugar daddy do ano, Fabrício Queiroz, o ex-assessor “sugar daddyou” a esposa de Flávio B. Fernanda recebeu R$ 25 mil do ex-assessor de seu marido. Quando questionado, o filho do presidente disse que não sabe a origem do dinheiro.

Queiroz também depositou R$ 90 mil nas contas da mulher do presidente. Os valores são um pouco maiores do que os que Jair informou no final de 2019. Mas espere, tem mais: entre 2011 e 2018, Queiroz depositou outros 21 cheques na conta da primeira dama, totalizando R$ 72 mil.

Queiroz não recebeu depósitos do presidente no mesmo período. Ao contrário de Jair Messias Bolsonaro, a sua esposa não possui foro privilegiado. As suas contas, portanto, podem ser vasculhadas à vontade pelo MP.

Os procuradores só precisam ser um pouco mais espertos. Não adianta vazar tanta informação para a imprensa e, no dia seguinte, perder o prazo para recorrer da decisão sobre o foro especial que foi garantido ao senador Flávio Bolsonaro pelo TJ do Rio. Aplicativo de calendário e lista de tarefas é gratuito e fácil de usar. O blog recomenda.

Tudo normal aqui

A revista Piauí trouxe uma matéria muito mal escrita, mas que tem um relato que, infelizmente, é totalmente factível. Segundo o texto, no dia 22 de maio de 2020, o presidente quase mandou o Exército passear dentro do STF. O motivo? A consulta de rotina feita pelo ministro Celso de Mello à PGR sobre a possibilidade de apreender o celular do presidente.

Segundo o texto, coube ao ministro Augusto Heleno apaziguar os ânimos de todos e colocar como opção ideal uma nota golpista. Não muda o fato, porém, que funcionários do alto escalão governamental (e oriundos das Forças Armadas) debateram os caminhos necessários para dar contornos de legalidade a um golpe. Mas, vamos combinar: dá para ficar assustado com isso em pleno 2020? Não dá.

Tudo absolutamente normal aqui

Continuando a lista de absurdos autoritários que acontecem no Brasil e parecem completamente normais para o governo de Jair Messias Bolsonaro, o Ministério da Justiça negou ao STF que tenha monitorado os 579 professores e policiais declarados antifascistas a partir de um “viés investigativo, punitivo ou persecutório penal“. Outros motivos, como o desejo de perseguir não penalmente essas pessoas, porém, não foram negados.

O ministro da pasta também recusou-se a enviar a cópia do dossiê que foi feito pelo ministério. Segundo ele, as informações da pasta devem ser protegidas por terem alto valor. Além disso, Mendonça considerou que o escrutínio das suas ações por outros poderes é algo que pode “tisnar a reputação internacional do país e a impingir-lhe a pecha de ambiente inseguro para o trânsito de relatórios estratégicos“. A simples existência do relatório, pelo visto, não é motivo para nós sermos vistos como uma republiqueta de baixa qualidade democrática.

A Justiça também se recusou a compartilhar os dados com o MPF. Igualmente, a pasta também se recusou a confirmar (ou negar) a existência do documento. No Nexo o leitor pode entender melhor o que a área responsável por essa possível ilegalidade deveria fazer, mas não faz.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Rentismo: em baixa

O rentismo nacional já viveu dias melhores. Na última semana, o Banco Central cortou a taxa Selic em 0,25 ponto percentual. A nova mínima histórica é de 2% ao ano. O que isso significa, em outras palavras? Que temos outro problema de país desenvolvido sem ser desenvolvido (juro negativo).

O Conselho de Política Monetária deixou claro que, se deixarem, o valor cairá um pouco mais na próxima reunião. Considerando que estamos há alguns meses com quedas repetidas da taxa de juros sem que isso reflita em um aquecimento da economia, o blog faz a sua aposta: a Selic vai brincar de dentadura postiça.

Ao contrário do presidente, também está em queda a taxa inflacionária. Mas não necessariamente para os mais pobres: o Índice de Preços ao Consumidor Classe 1 (IPC-C1) segue no seu maior valor em seis meses (com expectativa de alta em função dos preços dos alimentos (e não das novas notas de R$ 200)).

Desemprego: em alta

A taxa de desemprego nacional subiu para 13,3% no segundo trimestre. Esse é o maior nível dos últimos três anos, segundo os dados oficiais do IBGE. É importante notar que esse é o primeiro levantamento que passa completamente pela pandemia.

A maior parte da queda se deu no setor informal, com menos proteções para os trabalhadores. O maior problema do número, porém, é o que ele não considera (os trabalhadores que deixaram de procurar emprego). Por isso o internauta pode esperar por um aumento dos indicadores quando tudo isso passar (pois uma hora, passará).

Enfim, a hipocrisia

A 2ª Turma do Supremo decidiu que a delação premiada de Antonio Palocci não pode ser usada no processo que acusa o ex-presidente Lula de ter recebido um terreno da Odebrecht como propina. Para quem não se lembra, as acusações de Palocci foram tornadas públicas por Sergio Moro às vésperas do 1º turno das eleições de 2018.

Para o ministro Lewandoswki, a ação de Moro influenciou “de forma direta e relevante” o resultado da eleição. Boa parte das pessoas que acompanharam o caso já tinham percebido isso em novembro de 2018. É uma pena que os ministros tenham demorado quase dois anos para tirar essa conclusão.

Na última semana, o relator da Lava Jato no Supremo, Edson Fachin, revogou a decisão de Dias Toffoli que obrigou as forças tarefas da operação em três capitais a compartilharem os dados de investigações com a Procuradoria-Geral da República. O Nexo fez um grande resumão sobre as brigas envolvidas nesse vai e vem sobre o compartilhamento dos dados (mas dá para ter uma ideia olhando os últimos resumos do blog, também).

A graça de toda essa história, porém, está nas atitudes que a operação tomava no passado. Apesar do choro de procuradores no Twitter, a Lava Jato não tinha como hábito tratar o compartilhamento de dados como algo pontual. Pelo contrário: as relevações da #VazaJato mostraram que a equipe de Dallagnol sempre caminhou pelo vale da sombra da morte e do *direito achado na rua* (proj. @fabriciopontin) quando a troca de informações com outros órgãos era interessante.

Os procuradores precisam entender que troca de dados funciona como mão enfiada dentro do buraco de um glory hole: se funciona para um, tem que funcionar para todos.

100.000+

O Brasil demorou, mas atingiu a marca de 100.000 mortos por covid-19 desde que a pandemia começou. Mais precisamente, 101.752 mortes até a noite da segunda-feira, dia 10.

Em relação à marca, o presidente informou que lamenta todas as mortes e que tocará a vida (comprando churrasquinho na rua, passeando de jet-ski e promovendo aglomerações por onde passa). Também disse que buscará uma “maneira de se safar desse problema” (como se fosse muito difícil definir o que pode(ria) ser feito para evitar um número tão grande de mortes).

Poucas horas antes, quando assinou uma medida provisória que abria crédito extraordinário para comprar, processar e distribuir 100 milhões de doses de vacinas contra a covid-19, o presidente disse que estava com a consciência tranquila. Disse Jair que fez “o possível e o impossível para salvar vidas, ao contrário daqueles que teimam em continuar na oposição” (como se isso fosse um crime).

Quem vê o presidente se alternando entre “fiz o que deu” e “o STF me impediu de fazer qualquer coisa” (mentira) pode até cair na lábia fina deste senhor. Mas a história manterá o registro de que Jair Bolsonaro apostou no negacionismo e dobrou a aposta acrescentando um voto a favor dos indicadores que temos hoje. E, com a anuência do presidente, a História será livre para julgar ele (e o ex-ministro Mandetta) sobre a insistência em abrir o comércio antes da hora e ignorar as normas de saúde pública adotadas em todo o mundo.

Não adianta utilizar o Twitter para atacar a TV Globo ou os canais públicos de comunicação institucional para afirmar que o país é a nação que mais recupera doentes de covid-19 no planeta. Ainda que os relatórios internos tentem colocar nos governadores a maior culpa pelas mortes por covid-19 no país, é no Planalto que mora o principal culpado por colocar o país na situação lamentável em que ele se encontra.

Também não adianta, agora, o ministro interino da Saúde dizer que apoia medidas de afastamento social. As suas atitudes (ou a ausência delas) serviram de palco para que Bolsonaro se comportasse como um genocida em potencial. Mais uma vez, todos são culpados, mas uns são mais culpados do que os outros.

Em 2022 teremos novas eleições e a possibilidade de Jair Bolsonaro acertar as contas sobre o seu obscurantismo, o seu autoritarismo e a sua corrupção de pobre com a nação brasileira ao lado de quem o legitimou. Seria bom, porém, que o movimento político aproveitasse a primeira oportunidade pós-pandemia para fazer a sua parte. É possível até compreender a necessidade de não tocar um impeachment enquanto milhares morrem diariamente, mas quanto mais o tempo passa, maior será a parcela de culpa de Rodrigo Maia e companhia LTDA.


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

A Nova Era – semana #83: ema ema ema

Bolsonaro ainda fazendo merda enquanto não cuida das suas doenças, as batalhas do Centrão, as rusgas da Lava Jato com a PGR e Rodrigo Maia se mostrando o maior aliado do Greenpeace. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #83 da Nova Era.

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The following takes place between jul-28 and aug-03


O Centrão está virando centrinho

Arthur Lira perdeu força. O bloco que o deputado do PP coordena perdeu o apoio do DEM e do MDB. Lira é um dos postulantes ao cargo hoje ocupado por Rodrigo Maia e agora deixou de ter 63 pessoas ao seu lado.

Junto com o PSDB, DEM e MDB se articulam para promover um nome centrista para caralho à presidência da Casa. Maia gosta da iniciativa. Bolsonaro (e Lira), nem tanto. E olha que o bloco organizado pelo PSL ainda é teoria.

Por algum tempo houve quem disse que Maia estava perdendo força. Na melhor das hipóteses, o primeiro ministro entendeu que não será possível manter-se a frente da Câmara em 2021. Mas isso não o impede de deixar a oposição feliz e tentar esquentar a sua cadeira para um nome que desagrade Bolsonaro.

O sucesso de Maia é importante para o Brasil e para o presidente. Para o Brasil, pois garante que não teremos um lacaio do Planalto na presidência da Câmara blindando Jair Bolsonaro do seu acerto de contas pós-pandemia. Para o presidente, pois é o lugar em que pode nascer uma força eleitoral capaz de impedir a sua reeleição se ele chegar vivo em 2022.

Eu sou obrigado a ter empatia?

O ministro Edson Fachin será o responsável por avaliar o uso de dinheiro público do governo para defender filho da puta. Há quem está do lado do presidente. Mas nada impede a Suprema Corte de deixar o sentimento de autoproteção falar mais alto.

Assim como na última semana, o blog segue entendendo quem critica todos os problemas do inquérito das fake news. Mas fica muito complicado ter empatia com quem espalha que Felipe Neto é pedófilo por aí. Especialmente quando Alexandre de Moraes manda bloquear a contas dessas pessoas em todo o planeta.

Toca pro pai

O grande empresariado cansou de esperar uma atitude do governo em relação a Ricardo Salles, ex-filiado do partido Novo e atual ministro do Meio Ambiente. Nos últimos dias, líderes da área resolveram conversar com o presidente da Câmara para tentar manter algum dinheiro do exterior dentro do país. O grupo envolve gente que está à frente de grandes bancos, empresas de alimentos e metalurgia.

O objetivo dessa vez não é, necessariamente, derrubar o ministro (mas se quiser, o blog apoia). A ideia é garantir que a retomada econômica seja um pouco mais sustentável. Vai sobrar linha de crédito para empresário em 2021. Não custa nada colocar uma regra de sustentabilidade ali no meio.

Em notas relacionadas, o governo Bolsonaro passou a boiada: desde o começo da pandemia, 195 atos relacionados a políticas ambientais foram publicados.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Normal isso

Há algumas semanas o governo foi pego montando dossiê escondido sobre funcionários públicos que se declaram antifascistas na internet. Quando questionado, o ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, disse que não havia nada de errado no tema. Depois, falou que não admite “perseguição a grupo de qualquer natureza“.

O Ministério Público Federal abriu o olho e resolveu fazer algo mais forte do que a baixa reação da opinião pública diante do caso. O órgão pediu informações ao governo sobre o monitoramento de opositores. No Congresso, parlamentares já articulam-se para convocar André Mendonça para explicar essa história.

Em um país minimamente sério, isso já teria dado um escândalo muito maior. Como isso é o Brasil, o blog recomenda o uso da ProtonVPN por aí e uma passada de olho nas configurações de privacidade da rede social favorita. É grátis.

Foda passar por isso

Há algumas semanas a “Lava Jato eleitoral” (mais um desses ramos da Lava Jato que ninguém sabe de onde veio e para onde vai) achou que tinha liberdade para entrar em gabinete de senador buscando informação sobre possível lavagem de dinheiro. Dias Toffoli parou a brincadeira. Mesmo assim, o tucano José Serra virou réu na Justiça Federal (na Justiça Eleitoral a investigação está suspensa).

Mas esse não foi o único problema que a Lava Jato encontrou ao longo da semana. Aliás, não foi sequer a maior dificuldade dos procuradores. O inimigo dessa vez era outro: o Procurador Geral da República, Augusto Aras.

Aras quer “corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure“. O PGR deseja colocar luz nas ações da força tarefa e dar mais transparência aos 400+ terabytes de dados de 38 mil pessoas. Está errado? Não muito.

O Ministério Público tem muita autonomia, mas ainda precisa ser verificado vez ou outra para não cometer abusos. Não vamos entrar nos detalhes jurídicos da legalidade do ctrl+c ctrl+v feito pela Procuradoria em Curitiba nos últimos dias (ou quem será beneficiado com isso), mas quem poderia imaginar que a escolha muito difícil teria um gosto tão amargo para a Lava Jato, não é mesmo?

Era melhor não ter soltado aquela delação do Palocci em 2018. Moro ainda teria algum prestígio e Dallagnol estaria sem uma corda no seu pescoço. Ou duas. Ou três.

Ser procurador da Lava Jato hoje em dia é algo muito complicado. Em um dia você perde espaço no governo, no outro os apoiadores do presidente gritam que é para acabar com a Lava Jato e antes de chegar no final de semana estão tirando das suas mãos o poder de fazer acordos de leniência. Mas pelo menos a aposentadoria e os penduricalhos seguem maravilhosos, não é mesmo?


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A Nova Era – semana #82: era melhor ter deixado para a semana que vem

A reforminha do Guedes, a má gestão de recursos públicos do Ministério da Saúde, o abraço de Jair com o Centrão e os limites da liberdade de expressão. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #82 do governo Bolsonaro.

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The following takes place between jul-21 and jul-27


Melhor nunca do que tarde

Paulo Guedes resolveu apresentar a sua reforma tributária e você não vai acreditar no que ele mostrou para a gente. Para a surpresa de literalmente ninguém que cai no canto de sereia do ministro, a sua proposta deixa a desejar e atrapalha o que já está sendo feito.

O ministro adotou como meta apenas unificação do PSI e da Cofins em um novo imposto, o CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) com alíquota de 12%. Enquanto isso, no mundo das pessoas sérias e razoavelmente bem preparadas, a Câmara e o Senado debatem propostas muito mais robustas e amplas.

As PECs 45 e 110 já estão em estágios avançados e com a intenção de eliminar entre cinco e nove impostos sobre consumos. E o melhor: conta com o apoio formal da maioria dos governadores.

Ficou de fora (por hora) a ideia de uma nova CPMF (que o governo jura que não é CPMF). A ideia fixa de Guedes é tão ruim que até Delfim Netto é contra. Imagine uma proposta ser tão ruim que até mesmo o cara que topou ser signatário do AI-5 resolve se colocar do outro lado do debate?

Vai subir: imposto

A ideia de Guedes pode gerar aumento de impostos para vários setores, especialmente os de serviços (que não está muito feliz com isso). Em parte, por ser essa uma área pouco tributada no cenário atual (o que faz qualquer corte de subsídio se transformar em aumento de carga tributária). Em parte, por estarmos em um cenário fiscal em que nenhum centavo pode ser jogado fora.

O governo também quer corrigir a tabela do Imposto de Renda e acabar com as deduções de saúde e educação. O blog é a favor. O blog não apoia governo financiando indiretamente o estudo de quem pode pagar por ele. Se tudo der certo, até tributos e dividendos serão tributados pelo Guedes.

Lobby não oficial

Guedes quer deixar a reedição da CPMF para a metade de agosto. O ministro quer apoio de grandes empresários para fazer lobby informal com políticos. A base do argumento a gente já tem: a contribuição será pequena (mas a arrecadação em potencial será gigante).

Os pobres que serão afetados pela medida e deixarão de utilizar serviços bancários não são capazes de bater em gabinete de deputado de Brasília para mostrar como isso é uma ideia ruim. Guedes sabe disso.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Apagão da turma da fake news

O nicho da internet travestido de opinião pública passou mais uma semana debatendo os limites da liberdade de expressão. Mas dessa vez o centro do debate não estava focado em algum cancelamento que não cancelava ninguém. O assunto foi direcionado para a decisão do STF de suspender a visualização de perfis de gente abobada na internet para IPs brasileiros.

As medidas se deram no famoso inquérito das fakes news movido pela Suprema Corte. O ministro Alexandre de Moraes impediu que várias contas ficassem disponíveis para os IPs nacionais. Não é exatamente censura, mas é bem próximo disso.

O blog não vai debater a legalidade do fato pois o blog não é tudólogo para debater leis a esse ponto. Mas um questionamento deve ser feito: repetir as palavras da ativista Sara Giromini, que usa publicamente o sobrenome Winter (“XANDIN, VAI TOMAR NO CU, DITADOR DE MERDA”), pode gerar problemas para pessoas que não ameaçam o ministro nas horas vagas? Ou é necessário gamificar vários pontos em termos de ameaças às instituições públicas e os seus membros?

É difícil saber quando o inquérito segue em sigilo. É meio complicado, também, defender um cenário em que o investigador também processa e pune. Mas é muito, muito, muito difícil ter empatia pelas pessoas afetadas.

O blog não é instituição de caridade para ter empatia por qualquer imbecil.

Em notas não relacionadas, o grande defensor da liberdade, Jair Bolsonaro, mobilizou a Advocacia-Geral da União para contestar a decisão do STF. O gado agradece a nova narrativa.

Isso dá impeachment?

Na última semana o Brasil se tornou o país com a maior taxa de mortes diárias por covid-19 no mundo inteiro. Se alguém duvidava da nossa capacidade de ser bom em algo, está na hora de fazer a mea culpa. Os 100.000 casos estão logo ali.

E o governo federal no meio dessa história toda? Terá que explicar para o Tribunal de Contas da União a sua estratégia de uso de recursos no combate à pandemia. Ou melhor, terá que dizer por qual motivo gastou só um terço do dinheiro que estava disponível entre março e maio.

Enquanto lotava os armazéns federais com hidroxicloroquina, o governo era alertado de que os remédios que realmente funcionam no combate à doença estavam em falta. Agora temos 4 milhões de comprimidos sem destino certo (a lixeira só será um deles em dois anos). No meio tempo, também disse que não era obrigado a fornecer testes, respiradores e máscaras.

Esse não é o primeiro exemplo de mal uso de recursos públicos do Ministério da Saúde nesse ano. Certamente não será o último. Depois, quando as sanções chegarem, não adianta reclamar.

Centrão? Nunca critiquei

O governo segue abraçando o Centrão como se tivesse jurado que não abraçaria o bloco fisiológico durante as eleições. Enquanto os inevitáveis escândalos de corrupção chegam, vamos aproveitar para rir de quem se deu mal: os apoiadores de primeira ordem e olavistas de plantão.

Bia Kicis perdeu a vice-liderança do governo após votar contra o Fundeb. Já o Major Vitor Hugo depende da habilidade de Rodrigo Maia conseguir mantê-lo no cargo. Não é um trabalho fácil: Ricardo Barros, possível substituto, é um manobrador de agendas muito mais eficaz do que a turma que concorda com Bolsonaro em tudo o que há de mais ruim no mundo.

A briga seguirá em aberto nos próximos meses e envolverá até mesmo a saída de Maia do cargo de presidente da Câmara. Pelo sim, pelo não, o blog seguirá apostando as suas fichas contra o sucesso do país e a vitória de Bolsonaro nas eleições de 2022. Ser otimista dá trabalho.


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A Nova Era – semana #80-81: quem paga esse aluguel?

Pau quebrando no MPF, Gilmar Mendes sendo a voz da razão e o novo ministro da Educação. Tudo isso e muito mais no resumo de mais uma semana da Nova Era.

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The following takes place between jul-07 and jul-20


O dia a dia do MPF segue agitado

O dia a dia dos procuradores da Lava Jato anda complicado. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, obrigou a força-tarefa do Ministério Público a compartilhar os dados de investigações com a Procuradoria-Geral da República. A turma de Curitiba, para variar, esperneou.

Os procuradores chamaram a ordem do STF de “orientação jurisprudencial nova e inédita” ainda que esse tipo de medida já tenha sido adotada anteriormente: a força-tarefa já fez o compartilhamento de investigações com autoridades da Suíça e de Mônaco para obter provas.

Não faz muito tempo, também, que os procuradores colaboraram com o FBI e o DOJ (Departamento de Justiça dos EUA). Os concurseiros brasileiros valem menos do que os concurseiros europeus e estadunidenses? Quando vamos valorizar a indústria judiciária nacional?

Como se o inferno já não fosse quente o bastante, a PGR já deixou claro que desconfia que os procuradores fizeram investigações informais sobre Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. Ou ilegais, já que o foro de ambos está fora da alçada dos profissionais de Curitiba.

Compartilhar dados (legalmente) é algo que é visto como boa prática por qualquer operador do direito. Isso torna processos mais transparentes e confiáveis. Se a Lava Jato não estivesse tão desmoralizada, talvez teríamos até debatedor de canal pago apontando que o PGR está errado e jogando contra o Brasil.

Positivo e operante

O dodói mais poderoso do país tornou público o seu exame de confirmação de Covid-19. Ao contrário da última vez, agora o presidente não fez cerimônia sobre a sua doença. Ou sobre o tratamento sem comprovação científica de eficácia que adotou.

O presidente também tornou público o que não deve ser feito quando se está com Covid-19. A OMS manda identificar, testar, isolar, tratar o doente e garantir que as pessoas que entraram em contato com ele se cuidem de modo adequado. Também é recomendado que o tratamento não envolva a politização do tema.

Nada disso foi feito.

Jair Bolsonaro aproveita que Trump tratou o país como lata de lixo de cloroquina para fazer propaganda do remédio. O presidente sabe que está errado e insiste no erro. Não dá para fingir surpresa diante da sua atitude, porém.

Gimme vaga no STF pls

João Otávio Noronha continua a sua campanha por uma vaguinha no STF. O presidente do Superior Tribunal de Justiça determinou que Fabrício Queiroz vá para prisão domiciliar. Queiroz foi preso sob a acusação de que a sua liberdade poderia prejudicar as investigações.

Junto com Queiroz ficará Márcia Aguiar, sua esposa. O ministro afirmou que Márcia precisa cuidar do marido. Faz pensar que ele não tem uma filha para fazer isso (ou dinheiro de procedência duvidosa para pagar um profissional qualificado).

Não é a primeira vez que Noronha faz uma decisão que deixa Bolsonaro feliz. Tanto é o caso que o presidente já fez alguns elogios públicos ao magistrado. Não faz muito tempo que Noronha envergonhou o tribunal liberando a nomeação de Sérgio Camargo para a Fundação Palmares.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Tic tac tic tac

O presidente da CPMI das Fake News, Angelo Coronel, quer marcar um depoimento com o assessor especial do presidente, Tercio Arnaud Tomaz. Tomaz é apontado pelo Facebook como um dos funcionários públicos em cargo de livre nomeação como administrador de perfil utilizado para espalhar mentira.

Tercio tem acesso livre ao Palácio da Alvorada. Aos 33 anos, tem como conquista popularizar o apelido “mito”. Pode parecer pouca coisa, mas é sempre bom lembrar que, ao contrário das relações de Jair Bolsonaro com Queiroz, os parlamentares e o Tribunal Superior Eleitoral podem utilizar eventuais ações ilegais do assessor especial para derrubar o presidente.

O novo futuro ex-ministro da Educação

Temos um ministro da Educação para fazer o Enem online e falar merda sobre as universidades públicas. O militar da reserva Milton Ribeiro assumiu o posto na última semana. Nas horas vagas, é evangélico, defensor de castigos físicos para crianças e ex-vice-reitor da Universidade Mackenzie.

O blog não tem recursos para identificar, mas deixa a dica para quem estiver lendo: é bem provável que o Ministério da Educação tenha se tornado uma filial da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

E tá errado?

O ministro da Saúde está galgando o seu nome como o segundo maior culpado pelas mortes por Covid-19 no Brasil. O general que comanda a pasta, conhecido pela sua experiência com logística, não consegue fazer o básico: entregar kits completos de testagem para a rede de saúde pública.

A situação chegou a um ponto que o ministro do STF Gilmar Mendes afirmou que “o Exército está se associando a esse genocídio”. Errou? Não errou.

Mas é importante notar que genocídio não é uma palavra leve. Pelo contrário, é um crime que pode ser julgado por corte internacional. Os militares sabem disso e temem que a fala de Gilmar Mendes abra espaço para que o governo federal tenha que se explicar no exterior. Ou internamente. O leitor pode escolher.

Está bom de acabar isso aí

A conta para manter Ricardo Salles à frente das políticas ambientais brasileiras está crescendo em ritmo acelerado. Quase tão custoso quanto manter o ministro da Saúde no cargo.

Nos últimos dias, após vários avisos de gestores de grandes fundos de investimento, os pedidos por mudança vieram de ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central de todos os governos desde a redemocratização. Juntos, eles assinaram uma carta a favor de uma retomada “verde” após a pandemia. Até FHC esteve no meio.

Considerando o histórico recente, é pouco provável que isso ocorra. Há poucos dias, o governo exonerou Lubia Vinhas da coordenação dos sistemas do Inpe que registram a devastação da Amazônia.

Marcos Pontes justificou-se dizendo que o órgão passa por uma reestruturação e que Vinhas foi direcionada para um projeto estratégico. Técnicos do instituto, por outro lado, afirmaram em carta que há uma estrutura paralela no órgão nos moldes de uma estrutura parlamentar.

Enquanto isso acontecia, o número de sansões impostas pelo Ibama atingiu queda de 60% em um ano. Certamente não há uma relação entre o ato e a queda de recursos que o órgão teve nos últimos anos. E a gente sequer tocou na possibilidade de Salles perder mais dinheiro para cuidar das nossas florestas após agosto, hein?

Já há gente que entende o tamanho do problema entrando em ação. Em reunião remota da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, Paulo Guedes disse que o Brasil está disposto a corrigir os múltiplos erros da política ambiental do governo. Mas dá para confiar no ministro da semana que vem?

Jair Bolsonaro disse que não cederá a pressões externas e manterá Ricardo Salles à frente do Ministério do Meio Ambiente. Afirmou o mesmo para o ministro da Saúde. Agora só falta Allan Terça Livre replicar a mensagem para começarmos a ter um pouco de esperança com o futuro do país.

Outras pequenas notas do Quinto dos Infernos

Abemus novo Fundeb

Se tudo der certo, o novo Fundeb estará em votação enquanto este texto é publicado. O fundo é uma evolução das políticas de financiamento da educação básica criadas por FHC. Hoje é um dos principais (se não o principal) meio de financiamento da área no Brasil.

Sem Fundeb em 2020, corremos o risco de ter um apagão na educação nacional no seu momento mais crítico do último século. Enquanto milhões de estudantes tentarão recuperar o tempo perdido na pandemia, o fundo ajudará a manter escolas abertas e professores com o salário em dia.

A negociação da proposta não foi trabalho fácil. Envolveu alguns anos de discussão, muito vai e vem e acerto entre grupos com interesses distintos. Não é uma proposta que agrada a todos plenamente, mas diante da ausência da participação do governo federal no processo, é de se comemorar que o projeto tenha sido finalizado a tempo.

Pedalada educacional

Faltando poucos dias para a votação começar, porém, o governo federal resolveu entrar na conversa. Ignorando todo o consenso que já existia sobre o tema, o Planalto mandou uma nova proposta para o Legislativo. A entrada em vigor do Fundo ficaria para 2022 e o uso do dinheiro para pagar salários de professores seria restringido.

O maior absurdo, porém, veio em forma de populismo fiscal. Jair Bolsonaro quer tirar parte das receitas do Fundeb para pagar por um novo programa de transferência de renda. O truque? Se as receitas vierem do fundo, Bolsonaro não comete crime fiscal.

Enquanto Jair Bolsonaro tentava comprar o apoio dos governadores para que a sua ideia de última hora fosse aceita, um grupo de governantes assinou uma carta a favor da votação do projeto. Ou de qualquer projeto que fosse votável rapidamente. Romeu Zema, para a surpresa de ninguém, ficou de fora.

Limpando a farda com merda

O fato é que os militares ignoraram a sua posição frágil e levantaram a voz contra as falas do ministro do STF. O ministro da Defesa, Fernando Azevedo disse em nota que vai entrar com uma representação na PGR contra Gilmar Mendes. O vice-presidente Hamilton Mourão disse que Gilmar “forçou a barra” e “ultrapassou o limite da crítica” (qual o limite da liberdade de expressão?).

Nos bastidores, porém, a banda toca de um jeito diferente. Os chefes das Forças Armadas já notaram que a legitimação do governo Bolsonaro está cobrando um preço muito alto para a imagem da instituição. As conversas para trocar Pazuello ou colocá-lo na reserva crescem conforme o número de mortos se torna maior.

O Planalto também notou isso e já partiu em busca de um novo ministro da Saúde. Mesmo com auxílio emergencial, a popularidade do presidente anda mal das pontas. Se o número de mortes não faz Jair Bolsonaro tomar alguma atitude, a possibilidade de ele perder o poder talvez ajude o mandatário a criar um pouco de vergonha na cara.

Ao longo da última semana, Gilmar Mendes reafirmou as suas críticas à atuação das Forças Armadas nos últimos meses. E também deixou claro que o Estado brasileiro pode estar atuando de maneira genocida no seu trato das populações indígenas. Quem poderia imaginar que o tiete da ditadura civil-militar agiria como Médici agiu, não é mesmo?


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A Nova Era – semana #79: retomou a paz

Os não ministros da Educação atacando novamente, as dores de Bolsonaro e as mágoas de Paulo Guedes. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #78 do governo Bolsonaro.

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The following takes place between jun-30 and jul-06


O novo ex-quase-ministro da Educação

A horrível educação brasileira segue sem alguém para cuidar dela. Ao longo da semana, o secretário da Educação do Paraná, Renato Feder, foi cotado para assumir a pasta. Mas era um nome que desagradava a militares, líderes religiosos e olavistas. A repulsa era tanto que chegou a rolar dossiê contra o quase ministro.

Mas não foi necessário jogar o nome de Feder na lama. Ao longo do final de semana, o secretário recusou publicamente o convite. O que fez até bem.

Em notas relacionadas, como secretário de educação do Paraná, Feder deixou 165 cidades sem aulas televisionadas durante a pandemia de covid-19. Imagine o que seria do Enem digital com uma pessoas dessa cuidando da pasta. Pois é.

Também é, mas não é só isso

Carlos Decotelli, que foi demitido sem cerimônia de posse, acusou o racismo estrutural como um dos motivos para ter sido expulso do cargo. “Brancos trabalham com imperfeições em currículo sem incomodar”, afirmou.

É mentira? Não é mentira. Ricardo Salles, do Meio Ambiente e Damares Alves, da Pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, também mentiram nas suas apresentações. Na Educação, Ricardo Vélez Rodríguez e Abraham Weintraub também apresentaram uma biografia falsificada.

E olha que o nosso recorte foi do governo Bolsonaro. Se voltarmos para outros, há mais absurdos por aí.

Mas é necessário uma ingenuidade muito grande para achar que o único motivo para Decotelli ter caído em desgraça é o racismo estrutural. O governo Bolsonaro já demonstrou não ter vergonha de manter no poder quem comete os mesmos erros do quase ministro.

Se há um grande culpado nisso tudo é o bolsolavismo. Os 15% de radicais que apoiam o governo a todo custo e seguem o guru da Virgínia querem utilizar o MEC como ambiente para a construção de uma revolução cultural. E enquanto um novo radical não for chamado para o ambiente, eles não se cansarão.

Vendedor de ilusões

Dia vai, dia vem, e Paulo Guedes segue sendo um dos nomes que mais mancham a imagem do liberalismo brasileiro no século XXI. São poucos os pretensos liberais que conseguem jogar na lata de lixo um movimento de defensores de ideias da liberdade com tanta eficiência.

Já vamos para um ano desde que a última grande reforma de iniciativa do Planalto foi aprovada no Congresso. Apesar da nulidade que a oposição organizada se tornou, a semana da reforma administrativa ainda não chegou. O mesmo vale para a tributária, que deve ser aprovada até o final do ano (certamente por boa vontade do Congresso e não pelo desejo reformista do Executivo).

Na CNN, o ministro faz discurso onde era para ser entrevistado. Jura que há um espírito de autossabotagem no Brasil enquanto promete vender até a mãe do leitor. No meio do caminho, faz negacionismo da ação do governo que mais tirou gente da extrema pobreza no espaço de 365 dias na nossa história.

O nome disso aí? O nome disso aí é inveja e ressentimento. Só isso explica o modo como Guedes trata quem esteve nos governos anteriores ao atual e fizeram muito mais do que ele jamais pensou em fazer pelo país.

Fica cada vez mais difícil para o ministro mostrar que não é apenas um liberista medíocre que vive de vender discurso motivacional para quem bate ponto na Faria Lima. O blog, nessa história, fica do lado dos liberais por inteiro que tiraram pessoas da pobreza com o Bolsa Família, o tripé macroeconômico e o Plano Real. Coisa de valores.

Fica de olho nisso aí

Mentira agora é crime. Ou quase isso. Por 44 votos a 32, o Senado aprovou o projeto de lei que pretende endurecer o combate às notícias falsas.

Agora o PL das fake news segue para a Câmara. A versão atual obriga plataformas com mais de 2 milhões de usuários a cobrar dos membros documentos que comprovem a sua identidade em caso de denúncia. Há também limites para contas vinculadas a uma única pessoa e novas regras para o armazenamento de dados.

Muita gente protestou. E com razão. O texto, que não era lá aquilo tudo, ficou só um pouco melhor após ser aprovado. Mas será necessário um debate muito mais aprofundado por parte dos defensores do status quo para que o PL seja melhorado e consiga garantir um combate à rede de disseminação de mentiras sem destruir a nossa liberdade de mandar pack do pezinho no Whatsapp.

Um bom caminho é começar a focar mais no financiamento da mensagem do que nos meios de divulgação. Essa prática funcionou bem nas últimas décadas.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A liberdade é boa demais

Na última semana um monte de profissional livremente associado às plataformas de entregas digitais se organizou de modo autônomo para exercer a sua liberdade de expressão e tentar negociar mudanças nos contratos por eles firmados sem a interlocução com entes estatais. Coisa linda.

A pauta envolvia mudança nos valores da corrida, melhores comunicações sobre os bloqueios e até mesmo EPIs. Não passavam, porém, pela sindicalização da categoria (mas se quiser, pode) ou a sua CLTização.

Grupos de esquerda tentaram surfar no movimento e pediram até que os apps fossem mal avaliados. O iFood se manifestou com continhas safadas e dizendo que algumas (mas não todas) pautas já eram atendidas. Alguns liberais, porém, saíram por aí falando que os incomodados deveriam criar o próprio app. Sim, pois é muito fácil para trabalhadores com baixa formação entrar em um mercado dominado por empresas multimilionárias e crescer rapidamente.

É uma pena que boa parte dos liberais tirou o dia para fazer grandes análises técnicas sobre a inviabilidade do movimento dos entregadores. Parece até que a ação foi organizada por pessoas não adultas e não alfabetizadas e que precisam mesmo da condescendência alheia. Tudo isso por ter sido uma ação apoiada por Laura Carvalho, CUT e PSOL.

O movimento liberal ganhará muito se os pretensos liberais por inteiro gastarem 5 minutos do seu dia para avaliar movimentos autônomos pelas palavras de quem os organiza (e não de quem o apoia). Ganhará, também, se ler mais Adam Smith e aprender a diferença entre boicote e greve.

Já passou da hora dessa gente perceber que o Brasil é formado mais por gente que pedala várias horas por dia do que por dono de startup que desconhece um ambiente sem ar-condicionado. Merquior e John Rawls agradecem.

Essa água vai bater no bumbum logo logo

O governo amansou. Desde o começo de junho o presidente está ouvindo mais do que falando. E um Bolsonaro que fala pouco é um Bolsonaro que fala pouca bosta autoritária, sempre.

O esforço para evitar novas crises foi notado por todos. Um Bolsonaro calado, abatido e pouco crítico aos outros poderes é bem diferente daquele que bradava a força da sua caneta. Também é um que quer muito proteger o seu pescoço e o de seus filhos.

Nas últimas semanas, o justiça começou a cercar a família e as suas rachadinhas. A própria rachadinha do Bolsonaro, aliás, veio à tona. Há também as chances sempre grandes de um impeachment ser alavancado com o fim da pandemia e do auxílio emergencial.

E ainda existe a possibilidade de Joe Biben ser eleito e o presidente perder uma bola para chupar no cenário internacional. Tudo isso, é claro, acendeu um alerta vermelho no Planalto. Vamos ver por quanto tempo essa luz ficará acesa e o sinal verde do autoritarismo se fará presente novamente no nosso dia a dia.

Hidra de Lerna

Enquanto isso, os olavistas dentro e fora do governo são desmoralizados e perdem força. Ernesto Araújo, o 4chanceler, não consegue elencar meia dúzia de feitos positivos do seu trabalho. Até mesmo as exportações nacionais são motivo de vergonha para alguém que cuida da imagem de uma nação que é um dos celeiros do mundo.

Nas redes sociais, estão perdendo forças e voltando para nichos de internet. Ou melhor, expandindo as suas garras para novos canais. Tudo isso sem uma oposição que se organiza achando que não convertido quer ouvir Alexandre Padilha em pleno 2020 de nosso senhor Jesus Cristo.

Se Bolsonaro mantém radicais isolados, consegue governar com um pouco mais de facilidade. Se ele mantém os olavistas com poder, perde a chance de ter quadros minimamente preparados para cuidar das políticas públicas do seu governo. Em todos os cenários, a força dos cruzados olavistas é algo que deveria ser motivo de preocupação para todo mundo que quer viver sob a proteção de um Estado minimamente funcional e guiado pelos valores iluministas.

E agora, para o dodói da semana

Jair Bolsonaro está com covid-19. Ou pelo menos é o que ele quer fazer o país acreditar. O presidente afirmou que já está tomando cloroquina e que tirará a semana de folga.

O blog não fará um apanhado de todas as falas desumanas que o doente em idade para se aposentar já disse em três décadas de carreira para justificar o desejo de morte ao mandatário da nação. Também não fará um projeto de cálculo utilitarista para apontar que a vitória da doença seria um bem para o brasileiro médio.

Ou listar todas as ações do presidente nos últimos dias que inviabilizam o combate à pandemia para desejar que ele se foda para um caralho alado do tamanho de um cometa. Já há muita gente boa fazendo isso.

Mas não será, também, o blog o responsável por escrever belas palavras desejando a rápida retomada da saúde de Bolsonaro para que ele pague pelos seus possíveis crimes. Ou que isso sirva para que ele aprenda a ter mais empatia com o outro. Aqui se trabalha com realismo (em geral).

Importa, como disse Reinaldo Azevedo, o modo como a política de saúde do país é conduzida. E com presidente doente ou saudável, infelizmente, ela será conduzida da pior maneira possível por um bom tempo.


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A Nova Era – semana #78: arreda pra lá com as suas ideias ruins

As aventuras do ex-ministro da educação, as mentiras do outro ex-ministro da educação, as brigas do Ministério Público e F.B. ganhando um refresco da justiça. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #78 do governo Bolsonaro.

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The following takes place between jun-23 and jun-29


O novo ex-ministro da Educação

Weintraub foi para outro país mas ainda causa dores de cabeça para o governo Bolsonaro e todos os brasileiros. Ao longo da semana, a data da sua exoneração foi modificada. Sem a necessidade de passaporte diplomático para ser utilizado em outro país, a sua demissão foi retificada para a sexta-feira (19).

Membros do Tribunal de Contas da União veem a possibilidade de fraude nessa história. O blog considera que houve, no mínimo, safadeza dos envolvidos.

Seis parlamentares enviaram um pedido à Embaixada dos EUA no Brasil para que eles expliquem como o ex-ministro entrou no país. Há sempre a preocupação de que ele tenha saído para escapar da mão pesada de um juiz de primeira instância. O Nexo explicou o que pode acontecer com Weintraub se for o caso.

Uma certeza, porém, é que Rodrigo Maia continuará com uma língua muito afiada.

O futuro ex-ministro da Educação

Para o lugar de Weintraub foi selecionado Carlos Alberto Decotelli. Oficial da reserva da Marinha, ele foi visto com uma escolha técnica e moderada. Bem diferente dos últimos ocupantes do cargo.

Evangélico, disse que era doutor por uma universidade na Argentina e pós-doutor em outra instituição. Também teria concluído mestrado na FGV sem realizar plágio no processo.

A FGV informou que há suspeitas de que a sua dissertação teve plágios. A Universidade Nacional de Rosário informou que ele não defendeu a sua tese de doutorado. A Universidade de Wuppertal, afirmou que ele não fez pós-doc lá.

Enquanto o blog editava este post, o presidente começou a procura por outro nome para o cargo. Sua passagem no ministério, felizmente, será menor do que o tempo gasto para listar as mentiras do seu currículo. Deus tenha piedade desta nação.

Vá sem Deus

Se tudo der certo, o troca-troca de cadeiras do Ministério da Educação se expandirá para outros lugares. Há pressão para substituir o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (aquele, que está queimando as pontes construídas com o grande capital internacional utilizando as madeiras cortadas na Amazônia como carvão). Também há quem queira tirar o 4chanceller, Ernesto Araújo.

O motivo, naturalmente, é pragmatismo. Ernesto Araújo gasta mais tempo divulgando conspiração sem sentido nos organismos internacionais do que melhorando a imagem do país. Já Salles está próximo a tirar gente que cuida de US$ 3,7 trilhões do país. E há quem diga que é a esquerda que está destruindo o país.

Briga de concurseiro

O Ministério Público e a Procuradoria-Geral da República andam com todo tipo de rusga interna nos últimos dias. Na Corregedoria do MPF, uma sindicância foi aberta para entender se a subprocuradora-geral Lindora Araújo estava metida em ações ilegais dentro da Lava Jato (saudades, querida). A tentativa de obter dados sigilosos levou a um pedido de demissão coletiva de procuradores da Lava Jato na PGR.

Não é a primeira vez que a PGR, a subprocuradora-geral e a Lava Jato entram em conflito. Em abril, Lindora pressionou a força-tarefa carioca para desbloquear uma conta de Jacob Barata. Enquanto isso, em Brasília, a mesma PGR tenta retomar conversas para que o advogado Rodrigo Tacla possa delatar Sergio Moro.

E o Sergio Moro? Anda escrevendo para a Crusoé.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Medium quality bait

A Política Federal quer ouvir o presidente no inquérito que apura se houve interferência no órgão. O ofício foi enviado para o STF e, até a última verificada do blog, está sob análise.

Quando o presidente é ouvido como vítima ou testemunha, ele pode depor por escrito. Segundo o ministro Celso de Mello, porém, isso não vale para o caso de Jair, que é acusado. Aguardamos com carinho Bolsonaro falando no free style.

Por que isso é importante? Além do vídeo que coloca Bolsonaro em uma situação bem delicada, a sua fala pode prejudicar gente importante do governo. Isso vale especialmente para a vivandeira e ministro Augusto Heleno, que passou pano para Bolsonaro quando prestou o seu depoimento mesmo que tenha feito coisas que possam prejudicar a defesa do chefe do Executivo.

Saneamento é básico

Todo mundo sabe que saneamento é básico. Mas no Brasil, ele não é uma realidade para metade da população. Na última semana, porém, mudanças regulatórias foram aprovadas para talvez, quem sabe, mudar esse cenário.

O Senado aprovou o novo marco legal para as políticas da área. Ele permite que empresas privadas prestem serviços e facilita a privatização das estatais do setor. Mas não obriga ninguém, literalmente, ninguém, a fazer isso (mas se for viável, é legal fazer).

O objetivo do novo marco é garantir que mais de 90% da população nacional tenha acesso a coleta de esgoto e tratamento de água potável até 2033. Se tudo der muito certo, há ainda a possibilidade de R$ 700 bilhões serem feitos em investimentos e de que 700 mil empregos sejam gerados nos próximos 14 anos. Mas depende do esforço de governos, órgãos de fiscalização e bons gestores públicos e privados para que isso seja feito.

O blog acha difícil que isso ocorra, mas há muita gente querendo colocar as suas cartas nessa mesa. Como não há desenvolvimento em um país com esgoto a céu aberto, o blog espera estar errado.

Quando o Natal chega mais cedo

Já dizia a música, quem acredita sempre alcança. E Flávio B. alcançou o seu foro privilegiado no caso das rachadinhas. A decisão foi dada pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que considerou o cargo ocupado pelo atual senador como desculpa para tirar o caso da primeira instância.

O juiz Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau, da primeira instância, foi o responsável por quebrar o sigilo bancário do senador e mandar prender Fabrício Queiroz. O caso saiu do seu gabinete, mas as decisões seguem válidas.

A decisão causou estranheza no STF. Para o supremo, o direito ao foro termina com o fim do mandato. Se o Ministério Público recorrer (e manter a sua imagem intacta nessa história), caberá à suprema corte a decisão sobre o tema.

Falando no Ministério Público, o órgão deve denunciar o senador F. Bolsonaro nos próximos dias. Flávio entrará em uma lista com outro político, também acusado de executar o mesmo esquema. O outro nome, porém, não é filho do presidente da República.

Curiosidades: se Sergio Moro tivesse seguido as ideias do TJ-RJ, Lula não seria julgado em Curitiba.

Pau que nasce torto, na marra se endireita

Quem gosta de democracia não deve ficar feliz apenas com o resultado do Datafolha. A justiça e o cenário externo está moldando Bolsonaro na base do medo e da grana. E, por hora, está dando certo.

Até segunda ordem, só uma minoria bastante barulhenta quer ver a nossa democracia ruir. 15% da população, para ser mais exato. Talvez será preciso mais do que um soldado e um cabo para fechar o STF.

Bolsonaro não anda tendo dias bons. A maioria dos mais ricos já reprova o seu governo. Os mais pobres que apoiam, em geral, fazem isso apenas pelo auxílio emergencial.

No exterior, há grupos de investimento loucos para ver ministros caírem. E se já não bastasse o presidente argentino, Bolsonaro também corre o risco de ver um velho branco democrata morando na Casa Branca ano que vem. Até mesmo os militares pararam de sonhar com a volta dos anos de chumbo.

Sai feliz o Centrão, fica triste o olavismo cultural e sai feliz, como sempre, o blog. Ver reacionário enfraquecido é melhor do que uma barra de goiabada cascão.

E agora para algo completamente diferente

Se estivéssemos em pandemia há mais tempo, Queiroz seria um ótimo exemplo do que não se fazer. O ex-assessor do filho do presidente recebeu a sua mulher várias vezes enquanto morava na casa de Frederick Wassef. Diz uma advogada que ele passou a morar lá em maio de 2019.

Antes de mudar o CEP para Atibaia, Queiroz também morou em outro apartamento de Wassef. Nesse caso, em um imóvel em frente à uma praia localizada em Guarujá, no litoral paulista.

A julgar pelo poder da fábrica de notinhas na imprensa e pequenos recados para amigos de bandidos, é melhor Bolsonaro (qualquer um deles) seguir o conselho de seus amigos e buscar um bom advogado. Ou advogada. O blog não liga para essas coisas.


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A Nova Era – semana #77: Galvão?

Queiroz preso, deputado bolsonarista com menos privacidade bancária que usuário do Facebook e as instituições dando uma funcionada. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #77 da Nova Era.

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The following takes place between jun-16 and jun-22


Pega, pega, pega, pega, pega, pega, pega, pega, pega, pega, pega, pega, pega, já peguei

A semana #77 da Nova Era começou com mais aprendiz de golpista recebendo visita da Polícia Federal. O inquérito dos atos antidemocráticos executou mandados de busca e apreensão na casa de ilustres apoiadores do presidente, como o deputado Daniel Silveira, do PSL.

Silveira faz parte de um grupo de deputados e senadores bolsonaristas que tiveram o sigilo bancário quebrado pelo ministro Alexandre de Moraes. A ação tem como objetivo avaliar se há político financiando as manifestações pelo fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso.

Mas a operação não pegou apenas pessoas com foro privilegiado. Empresários e pessoas ligadas ao não partido Aliança pelo Brasil também foram atingidas pela operação. E, ao que tudo indica, a água já bateu na bunda dos anjos sem asa que batem ponto no Planalto.

Follow the money

Ao contrário do inquérito das fakes news, a investigação veio da Procuradoria-Geral da República. Augusto Aras será o responsável por desvendar eventuais ilegalidades no financiamento e na execução de manifestações que, em uma sociedade democrática-liberal sólida, não existiriam. Dessa vez, portanto, chorar no Twitter a legalidade do processo será um pouco mais complicado.

Alexandre de Moraes acredita que há uma “real possibilidade” de uma rede criminosa de financiamento de atos antidemocráticos em todo o país. O dinheiro está sendo utilizado para coisas simples, como a compra de bandeiras do Brasil a atividades um pouco mais complexas, como o financiamento de anúncio em rede social. Quem conhece a história desse país sabe que gente com dinheiro financiando golpismo não é algo muito novo.

Em notas relacionadas, o ministro Alexandre de Moraes determinou que todos os envolvidos fiquem proibidos de apagar posts em redes sociais relacionados aos atos golpistas. Tem motivo: mais de 2.000 vídeos de canais bolsonaristas foram apagados nos últimos dias.

Parece que há gente temendo e devendo.

Fica na sua aí

Como diria o jovem, a reação do presidente diante de tudo isso aí foi sintomática. Bolsonaro, sem citar diretamente as ações da PF, falou em “direitos violados” e “ideias perseguidas”.

Jair também disse que tomaria “todas as medidas legais possíveis para proteger a Constituição e a liberdade dos brasileiros”. O liberalismo de quermesse ficou molhado e se iludiu achando que o presidente estava inspirado em Stuart Mill e não no fascistoide de Virgínia.

O STF, por outro lado, certamente andou lendo Karl Popper. O decano da Corte, em sessão da Segunda Turma, disse que é “inconcebível” a sobrevivência de “resíduo de forte autoritarismo” no país. E olha que o STF proibiu o golpismo.

O recado foi dado e ouvido pelo homem da caneta de força mais mediana de Brasília. Enquanto os olavistas choravam na internet, Bolsonaro voltou a se queixar das ações contra os seus apoiadores. Dessa vez o presidente disse que “está chegando a hora de tudo ser colocado no seu devido lugar” em um tom contido e inconformado.

Deve ser foda? Deve ser foda. Mas o blog sabe que o Bolsonaro de verdade não é o Bolsonaro de coleiras.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Achando o Wally

Morreu mais um canto político. O cosplay de rocambole Fabrício Queiroz foi encontrado e preso em Atibaia. Ex-chefe de gabinete de F.B., Queiroz é acusado de comandar um esquema de desvio de dinheiro público na Assembleia do Rio.

A prisão preventiva se deu pela suspeita de que Queiroz estava tentando atrapalhar as investigações contra Flávio B. Há também um mandado de prisão para a sua mulher, Márcia Oliveira de Aguiar (que está recebendo o auxílio emergencial do governo federal).

Ao contrário de Queiroz, quando foi preso, Márcia é considerada foragida pela polícia. Ela já tinha avisado que fugiria caso tivesse prisão decretada. Sua filha, aliás, já lançou a braba: havendo outra prisão, todo mundo abriria o bico.

Se a família Queiroz delatar, será uma grande traição para o presidente e o seu filho Flávio. O ex-chefe de gabinete, ao que tudo indica, gerenciou um tradicional esquema de corrupção e ainda cuidou da saúde financeira do seu chefe. Enquanto fazia os seus rolos, Queiroz chegou a pagar 116 boletos de plano de saúde e mensalidades escolares para a família do Zero Um.

Pelo menos Queiroz não tem que temer uma morte na mão do ex-miliciano favorito dos Bolsonaro, Adriano da Nóbrega. Segundo o MP do Rio, Adriano transferiu mais de R$ 400 mil para as contas de Queiroz. Ainda bem que miliciano morto não atira (quanto aos seus antigos colegas, porém, é outra história).

E o presidente diante disso tudo? Chamou a operação de “espetaculosa” e uma demonstração de que estavam prendendo o “maior bandido da face da terra“. Maior bandido a gente não garante, mas certamente é um dos maiores potenciais delatores do começo da década de 2020.

Peixe morre é pela boca

Não foi só a cidade em que Queiroz foi preso que deu um gosto doce ao roteiro da sua ruína. A casa em que ele habitava pertence ao advogado Frederick Wassef, que naquele momento se apresentava como o responsável pela defesa de Flávio no caso das rachadinhas. Wassef, aliás, quando não falava bobajada para jornais, passeava pelo Planalto e há quem diga que até sequestro ele planejou.

Wassef disse que não fez nada de errado ao abrigar Queiroz. Tempos antes, porém, tinha dito que não sabia onde Queiroz estava. E quando confrontado sobre a sua mentira, disse que explicará o motivo para o ex-funcionário do Zero Um estar na sua casa há um ano assim que a reforma tributária for aprovada.

Se Wassef não sabia, Bolsonaro, pelo visto, estava bem informado. Em live, disse que Queiroz estava no local para fazer o seu tratamento de câncer. O Albert Einstein, onde o ex-assessor se tratou da doença, fica a mais de 90 km de Atibaia.

Pelo sim, pelo não, Frederick Wassef deixou de advogar em nome de Flávio Bolsonaro. No seu lugar entra Rodrigo Boca, que terá um grande trabalho pela frente: o Tribunal de Justiça do Rio já não vê com bons olhos F. B. e em breve colocará o filho do presidente na posição de réu.

Vá com deus

Caiu mais um ministro da Educação. Ainda bem. Abraham Weintraub pediu arrego e foi para o exterior.

Ao longo da semana tentaram todo tipo de “saída sem traumas” para o ex-ministro. Até uma embaixada quiseram dar para um dos maiores briguentos da Esplanada dos Ministérios. Tudo isso para que ele não fosse preso.

Acabou que o provável futuro cargo do agora ex-ministro será em uma diretoria do Banco Mundial, onde ele receberá mais de R$ 1 milhão ao ano. Para ser concretizada, depende do apoio de oito países e de uma vista grossa ao currículo de quem estava no Banco Votorantim, quando ele quebrou em 2009.

Quando publicou o vídeo anunciando a sua saída, Weintraub afirmou que iniciaria a transição para o novo ocupante do cargo imediatamente. No final de semana, fugiu para os EUA e entrou no país ainda ministro. Assim que passou pela alfândega, muito provavelmente utilizando passaporte diplomático, foi oficialmente exonerado.

Paulo Guedes avisou que não fará muito esforço para colocar Weintraub em um cargo de diretor. Ainda que fizesse, o ex-ministro teria que conseguir outra boquinha fora do país após outubro para ficar no exterior.

O blog sonha para que os planos de Weintraub não alcancem o seu objetivo e ele tenha que bater o pé em Congonhas o mais rápido possível para conversar com o pessoal do Supremo.


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A Nova Era – semana #76: o novo anormal

É muito bom quando as instituições resolvem funcionar.

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The following takes place between jun-09 and jun-15


Deixa para a semana que vem

O julgamento do Tribunal Superior Eleitoral que não deve cassar a chapa Bolsonaro-Mourão ficará para outro dia. O ministro Alexandre de Moraes pediu vista, interrompendo a avaliação de uma das ações movidas contra os vitoriosos da eleição presidencial de 2018. Para quem não se lembra, o julgamento deve decidir se há ou não relação entre a invasão da página Mulheres Unidas contra Bolsonaro com a chapa presidencial.

Em notas relacionadas, o Ministério Público Eleitoral recomendou que o TSE inclua dados do inquérito de fake news do STF nas suas análises futuras. Se o conselho gratuito for aceito, Bolsonaro e Mourão podem começar a temer um pouco mais pelos seus cargos.

É de deixar o capiau triste demais uma coisa dessas

O blog é sempre a favor de ver otário se dando mal. A semana #76 da Nova Era, felizmente, teve muito otário se dando mal.

A Procuradoria-Geral da República abriu uma investigação contra os golpistas que se aglomeraram nos últimos dias em Brasília – não aqueles que fazem parte do governo federal, mas sim os que acompanhavam a Sara Fernanda. Os 300 do Brasil (que são, por alto, uns 50) também serão investigados no inquérito das fake news.

A trupe atirou fogos de artifício contra o prédio do Supremo Tribunal Federal após o seu acampamento ser desmembrado pela Polícia Militar do Distrito Federal. Mas boa parte dos bolsonaristas não chegou a passar uma noite sem teto para dormir: ao longo da semana, vários foram presos pela Polícia Federal.

As prisões ocorreram com base no desenvolvimento das investigações do inquérito das fake news. Um dos presos é Renan Sena. Além de já ter sido indiciado em maio por atacar enfermeiras, Sena é dono de um telefone lotado de conversas com figuras relevantes do governo.

Por último, mas não menos importante, a ativista pró-ditadura Sara Fernanda (ou Sara Winter, como gosta de ser chamada) também foi presa. A ordem foi dada pelo ministro Alexandre de Moraes, o maior brasileiro vivo de todos os tempos na última semana.

E o Weintraub, hein?

O sucesso subiu à cabeça do ministro da Educação. Após ganhar o direito de nomear reitores (e direito esse que ele perdeu), Weintraub visitou apoiadores do governo no falecido acampamento dos 30(0) do Brasil. Sem máscara de proteção, reafirmou que, a depender da sua vontade, prendia todo mundo.

Pegou mal (e o blog não se refere à impressão que o governo do DF teve sobre o passeio do ministro) e agora há quem pense, no Planalto, que Weintraub quer fazer um projeto político próprio. Segundo Lauro Jardim, já há inclusive o projeto de tirar o ministro do seu cargo.

Todos querem que Weintraub faça as malas o mais rápido possível. Para além de abrir mais um cargo para o Centrão, a medida também evitaria constrangimentos em eventos públicos. Se ele for para outro país e escapar de um pedido de prisão, melhor ainda.

Só falta Bolsonaro querer. Em todo caso, o blog deseja toda sorte do mundo àqueles que querem trocar Weintraub por alguém do Centrão.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Meu centrão, minha vida

A cotação de salvamento do impeachment segue oscilando. Nessa semana, o índice fechou em um Ministério das Comunicações. A chefia da casa foi para o deputado Fábio Faria (PSD-RN), genro de Silvio Santos.

O principal diferencial do seu currículo? Ter trabalhado com a família Silvio Santos. Normal.

O poder das palavras

Se algum dia alguém duvidar do poder das palavras, apresente a essa pessoa Jair Messias Bolsonaro. Em uma live recente no Facebook, o presidente estimulou que pessoas verificassem por conta própria a ocupação de hospitais públicos. Além disso, ameaçou colocar a Polícia Federal e a Abin para avaliar se os leitos reservados à Covid-19 estão sendo mesmo ocupados.

Como se já não bastasse toda a negação da gravidade da doença, Jair também disse que “seria bom você, na ponta da linha, tem um hospital de campanha aí perto de você, um hospital público, arranja uma maneira de entrar e filmar. Muita gente tá fazendo isso, mas mais gente tem que fazer para mostrar se os leitos estão ocupados ou não, se os gastos são compatíveis ou não.”

Deu merda? Deu merda. Pessoas em vários estados atacaram hospitais e agentes de saúde pública. A situação chegou em um nível tão grave que o procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu aos Ministérios Públicos estaduais que investigassem o caso.

O ofício, naturalmente, não citou o presidente. Aras sabe bem a que senhor deve servir caso queira uma vaga no STF.

E lá vamos nós

O Brasil já está se encaminhando para a marca de 50.000 óbitos oficiais pela Covid-19. E o que os governadores resolveram fazer após a semana registrar a maior média diária de mortes do planeta? Flexibilizar as regras de isolamento.

O pessoal gostou. No Rio de Janeiro e em São Paulo, pessoas fizeram fila na porta de shopping centers. Explicação técnica? Só Deus sabe.

Não dá para dizer que a doença mata menos do que acidente de trânsito. Essa conversa mole teve uma morte mais feia do que bater em criança. Mas uma coisa é certa: os casos continuarão a subir em ritmo acelerado e o tombo dos otimistas será feio.

Tutela com gosto de couro, mato, terra e graxa

Viver em uma democracia plena é muito bom. Ou deve ser. O blog desconhece como isso se dá.

O ministro da Justiça, o senhor André Mendonça, por exemplo, acha que é de bom grado divulgar nota pedindo às “instituições” humildade. Segundo ele, elas devem “respeitar o voto popular” e fazerem a famosa “autocrítica”.

O blog apoia que o Executivo dê o exemplo e inicie esse processo. A inspiração pode sair do ministro da secretaria-geral da Presidência. Atacar o STF realmente é algo contrário à nossa democracia (e que deve ser repudiado por todos os democratas).

Quem resolveu falar mais às claras que não gosta do Espírito das Leis foi o chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. Em entrevista às Páginas Amarelas da Veja*,* Ramos avisou que as Forças Armadas jamais dariam um golpe (se o outro lado “não esticar a corda“)

Se Ramos quer brincar de falar como quem pode calar a oposição sem afundar a credibilidade internacional do Brasil, seria melhor seguir o caminho que estão apontando para o ministro da Saúde e ir para a reserva. Lugar de militar é longe da política e, preferencialmente, com posturas que não precisam ser afirmadas como democráticas para serem entendidas como tal.

O importante, porém, é que todas as esticadas do lado de lá na democracia sejam tratadas como bobagens. Afinal de contas, o pessoal do STF mandou avisar que dar golpe é ilegal.

Se o ministro falou, quem somos nós para achar que alguém pode desobedecer ele, não é mesmo?


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

A Nova Era – semana #75: jogando xadrez com o macaco

A contabilidade criativa de Bolsonaro, a postura racista de quem deveria combater o racismo e as vivandeiras da ditadura atacando de novo, novamente, mais uma vez. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #75 do governo Bolsonaro.


The following takes place between jun-02 and jun-08


Cuidado com a vivandeira aí, gente

Há um grande número de pessoas em todo o país dispostas a furar a quarentena para defender a democracia, retomar as ruas para si e lutar por outros vários valores muito legais. Como instituição democrática que é, o Exército já olha com tensão a possibilidade de tais manifestações ganharem força. Especialmente se o inevitável acontecer e uma boa parte dos manifestantes pró-democracia terminar o dia beijando o cassetete de um PM de modo não consensual.

O medo dos generais da ativa é de que um novo 2013 ocorra. Há quem suspeite que Bolsonaro utilizará as ruas tomadas de manifestações contra o seu governo para invocar o artigo 142 da Constituição de modo criminoso. O blog mantém, até segunda ordem, a ideia de que é pouco provável que isso aconteça e que, se acontecer, não terá o sucesso esperado.

Valsa verde oliva

Não faz muito tempo que Augusto Heleno disse que não há chance de o Exército brincar de abril de 1964 novamente. Hamilton Mourão, outro dia mesmo, falou que não via “motivo algum para golpe“. Já o ex-ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz disse que militar de reserva não representa a corporação.

Todos os três podem até estarem certos, mas lembraram-se de combinar com os russos antes de falar isso? Eles bateram um papinho com todos os policiais militares que não pensariam duas vezes em apoiar qualquer levante autoritário capitaneado pelo presidente e as suas ideias nebulosas? Ou são fortes o bastante para segurar qualquer quartelada que se formar no futuro? Afinal, até agora, estão se comportando como flocos de neve.

É melhor que a resposta para todas essas perguntas apontem para um cenário em que as Forças Armadas trabalhem em conjunto para manter a democracia (e não o contrário). A instituição já anda queimando o filme demais dando uma cor verde-oliva ao governo. Ficará pior ainda se torrar a sua imagem um pouco mais brincando de flashback com alguns cabos e alguns tanques.

Esqueçam tudo o que eu falei

Quem também botou as asinhas autoritárias de fora nos últimos dias foi o Procurador Geral do Bolsonaro, digo, da República. Augusto Aras, em entrevista a Pedro Bial, afirmou que “um poder que invade a competência de outro, em tese, não há de merecer a proteção desse garante da Constituição. Se os Poderes constituídos se manifestarem dentro das suas competências, sem invadir as competências dos demais Poderes, nós não precisamos enfrentar uma crise que exija dos garantes uma ação efetiva de qualquer natureza.”

Pegou tão mal quanto uma criança de cinco anos dirigindo um carro. Aras, vendo que ninguém gostou da sua ideia (além de Bolsonaro e três golpistas à sua escolha), emitiu nota corrigindo a sua fala. Disse o procurador que as instituições estão “funcionando normalmente” e que a Constituição “não admite intervenção militar” (mas se o Bolsonaro colocar ele no STF, dá para rever isso aí).

Radicalizar para não tombar

Fazendo coro ao presidente, Hamilton Mourão, seu vice, publicou um artigo afirmando todo tipo de impropério que só sairia da boca de um autocrata em formação. Chamou quem protesta a favor da democracia de baderneiro e classificou os protestos como abusivos.

Mourão também confundiu a oposição do presidente com os seus apoiadores e disse que os manifestantes pró-democracia querem ensanguentar as ruas da nação. E Jair Bolsonaro? Seguiu a linha retórica e chamou todo mundo de marginal e terrorista.

Se Mourão faz da sua mente uma sucursal das ideias do General Heleno, Bolsonaro age por motivos mais simples. O presidente está louco para fazer um outsourcing golpista (mas se for PPP, pode) e reduzir as chances de cair após o fim da pandemia. Pode não parecer, mas a água já bateu na bunda do ocupante do Planalto.

Em notas não relacionadas, Luís Roberto Barroso retomou o julgamento de duas ações que podem levar à cassação da chapa Bolsonaro-Mourão no TSE nessa semana. No dia 10, o STF decidirá se o inquérito das fake news é constitucional ou não.

É pouco provável que as duas ações darão em algo. Mas é ainda menos provável que os ministros do STF e do TSE não se unirão para comer o cu de Bolsonaro e Mourão a médio e longo prazo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Gol contra com a mão

A última quarta-feira (03) terminou com um gosto amargo. No quarto dia em que o governo divulgava os dados consolidados da pandemia do coronavírus às 22h, o Brasil soube duas coisas: que uma pessoa estava morrendo a cada minuto e que mais de 32 mil brasileiros tinham perdido a luta contra a doença.

A princípio, o governo federal negou que o atraso seria proposital, mas as evidências de que o governo estava jogando contra a transparência aumentaram dia após dia. Rolou até confissão desavergonhada (mais sobre isso adiante).

Igualmente, quem acredita que Bolsonaro está a favor do vírus (e contra o país), conseguiu reforçar ainda mais o seu viés: o presidente vetou o repasse de R$ 8,6 bilhões ao combate à pandemia que seria direcionado aos estados e municípios. O dinheiro será direcionado para o pagamento da dívida pública (que segue alta).

A decisão foi tomada após Bolsonaro editar uma medida provisória acabando com um fundo do Banco Central. Diz o presidente que o voto foi necessário pois a ação dos parlamentares viola a lei. Agora caberá ao Congresso determinar se o veto será ou não derrubado e os estados receberão o primeiro (ou segundo) apoio financeiro do Planalto em 70 dias para lidar com a covid-19.

Pedalada sanitária

Não satisfeito em apenas divulgar os números da covid-19 após o Jornal Nacional (como se isso fosse impedir o Grupo Globo de fazer algo pior), o Ministério da Saúde passou, também, a fazer contabilidade criativa com o número de mortos da pandemia.

Na noite de domingo (07), a pasta bancou o contador bêbado e calculou os números do seu balanço com a precisão da vista de um míope. Às 20:40, o número de mortos registrados oficialmente nas últimas 24 horas era de 1.382 pessoas. Menos de duas horas depois, o site oficial indicava 525 óbitos.

A justificativa? O governo resolveu adotar uma nova estratégia para consolidar as informações, focando apenas nas mortes das últimas 24 horas. A “tortura de números” não passou despercebida.

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde colocou a mão na massa e montou a sua própria plataforma de transparência. A iniciativa se junta a outras, movidas por veículos de imprensa e entidades civis, para contornar a falta de dados do Ministério da Saúde.

Como se a nova abordagem por si só não fosse um problema grave o bastante, o governo federal também reduziu o número de registros disponíveis para a população. O site oficial, que chegou a ficar em manutenção, deixou de exibir o número total de pessoas mortas pela covid-19 e infectatas por Sars-Cov-2. Medida semelhante foi adotada nos aplicativos oficiais do governo.

Vendo que enfrentaria ações com o apoio do Ministério Público Federal, o governo voltou atrás, mas não sem um empurrãozinho do STF: o ministro Alexandre de Moraes obrigou que o Ministério da Saúde voltasse a divulgar os dados consolidados de casos e mortes em seu site.

Mais transparente do que eu?

Não demorou muito para a história de mudança técnica ir pelos ares. Segundo Lauro Jardim, o presidente foi quem mandou a estratégia de divulgação ser modificada. O então chefe da Secretaria de Vigilância da Saúde, Eduardo Macário, não gostou da ideia. Foi trocado por alguém que concordava com elas e tudo seguiu-se normalmente.

A ideia era simples: mostrar que o número de mortes diárias jamais ficou acima de mil óbitos por dia. E quem é o dedo podre no meio da situação? Luciano Hang, que fez um vídeo encaminhado ao secretário-executivo da Saúde apontando a receita do bolo de cenoura sanitário.

A receita é criminosa. E dá impeachment. Basta o Congresso assim desejar.

A serviço secreto de sua majestade

O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, caiu na net para mostrar a todos os que acusaram a sua nomeação de inválida que eles estavam errados. Na última semana, uma gravação de reunião veio a público mostrando que Camargo seria um ótimo exemplo de pessoa que seria combatida pela fundação. Teve de tudo, de ataques ao movimento negro à memória de Zumbi dos Palmares.

“Alguém quer me prejudicar, invadir esse prédio para me espancar, invadir com a ajuda de gente daqui”, afirmou Camargo. “O movimento negro, os vagabundos do movimento negro, essa escória maldita”, também disse o presidente da fundação.

Camargo também falseou a história nacional e mostrou que está precisando de leituras menos politicamente incorretas. Disse que que não precisa admirar Zumbi dos Palmares, alguém que, para ele “era um filho da puta que escravizava pretos” (improvável). E para fechar com chave de ouro, disse que não apoia a “agenda consciência negra” e que no que depender dele, “vai ter zero da consciência negra.”

Há como dizer que, assim como o fazedor de dossiê que cheira ilegalidade, Camargo é um apoiador perfeito para fazer parte do governo Bolsonaro.


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A Nova Era – semana #74: tragichanchada

A desmoralização da PGR, a desmoralização do PT e a desmoralização da democracia. Tudo isso e muito mais no post de hoje.

E não se esquece de compartilhar com o papai, a mamãe e a titia!


The following takes place between mar-26 and jun-01


Polícia Federal: a lei é para todos?

Para quem sentia saudades de acordar com operação da Polícia Federal, terça-feira foi um dia animado. A Operação Placebo foi às ruas para comer o cu do governador do Rio, Wilson Witzel, e os seus subordinados. As acusações? Desvios em contratos de R$ 825 milhões.

Sobrou até para as caixas d’água dos hospitais de campanha do Rio. Diz a investigação que Witzel fez um esquema semelhante ao de Sergio Cabral: desvio de recursos por meio do escritório de advocacia da sua esposa, Helena Witzel.

Witzel acusou o governo federal de estar praticando perseguição política contra ele. Disse o governador que ele continuará lutando contra quem adota as práticas fascistas que ele executou no passado e que não permitirá que a América Latina tenha outro ditador. Faz sentido a acusação? Olha, se você utilizar o chapéu de alumínio correto, sim.

Eu sei o que você fez no verão passado

Na véspera da operação no Rio, a deputada Carla Zambelli deu entrevista à imprensa e afirmou que governadores seriam alvo da Polícia Federal “nos próximos meses”. No mesmo dia, a superintendência da PF no Rio mudou de comando.

Também é importante apontar que o inquérito foi instaurado pela PGR no dia 12 de maio. É tradicional que inquéritos assim comecem a partir de uma denúncia, o que não foi o caso. Mas há quem diga que o Planalto recebeu um dossiê sobre o assunto em detalhes.

Mesmo que Flávio Bolsonaro jure que a acusação do governador carioca seja absurda, há caroço nesse angu. Isso é inegável.

Quem sai mal disso tudo é a PF. Graças às falas do presidente e de seus aliados próximos, o que mais existe na República é a certeza de que Jair Bolsonaro conseguiu sufocar a instituição com uma corda bem apertada. O blog não ficaria assustado se alguns delegados já estivessem com saudades da Dilma Rousseff e do Lula no poder.

Rasteira em quem tem a perna curta

A Polícia Federal não atrapalhou a vida só do governador carioca nessa semana. O inquérito das fakes news partiu para cima de um monte de mentiroso profissional e amador pelo país. Mais precisamente, em 29 endereços, incluindo Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.

Todos os envolvidos estão sendo acusados de estarem ligados diretamente e indiretamente ao “gabinete do ódio” e à rede de disseminação de mentiras, ataques e ameaças. Nomes do meio empresarial incluem o Velho da Havan e Edgard Corona, da Smart Fit.

Os alvos estão com os perfis no Facebook, no Twitter e no Instagram bloqueados. A medida permitirá ao STF avaliar com mais cuidado o comportamento dos suspeitos na web. Além disso, reduz as chances de qualquer rastro de ação durante a eleição ser apagado.

Falta, ainda, o maior suspeito da operação, o Carlucho. Bolsonaro, inclusive, teme que o STF esteja próximo de ser atingido diretamente pelo inquérito. O blog espera que o presidente esteja certo pois otário tem mais é que se dar mal.

Advogados gerais da República

O inquérito do STF levanta muitas dúvidas sobre a sua legalidade. Há quem diga que ele seja totalmente legal, como é o caso de Reinaldo Azevedo. E há quem jura, só agora, que existem problemas na peça. A começar pela PGR.

O Procurador Geral da República afirmou que se surpreendeu com a operação e pediu a suspensão do inquérito. Diz o procurador que a medida era necessária para preservar as “garantias fundamentais”. Mas em 2019, Augusto Aras afirmou que o inquérito deveria continuar e que as suspeitas de inconstitucionalidade eram balela.

Seguiu o discurso do PGR o ministro da Justiça. André Mendonça, aliás, não só criticou a ação como apresentou um habeas corpus preventivo em nome dos investigados e de Abraham Weintraub. Quem representa os membros do governo em processos não é a Advocacia Geral da União?

No seu Twitter, Jair Bolsonaro provocou e disse que as operações são “um sinal de que algo de muito grave está acontecendo com nossa democracia”. Também mandou uma indireta para o decano da Corte. Fazendo coro ao seu filho, disse que bancará o Renan Calheiros e ignorará toda medida da Justiça que ele considerar absurda.

Normal isso aí I

Em notas não relacionadas, Bolsonaro elogiou o trabalho de Aras à frente da PGR. O presidente também disse que ele é cotado para uma das vagas que podem ser abertas no Supremo até 2022. Existem dois ministros que devem ser aposentar antes que Bolsonaro dispute a reeleição.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A fábrica de notas de repúdio strikes again

Diante de tudo isso o presidente da Câmara dos Deputados colocou a máquina de nota de repúdio para trabalhar. Rodrigo Maia lembrou que todo mundo deve manter o decoro durante a pandemia. Também fez um convite à pacificação dos espíritos e o foco no combate à pandemia.

Mas ainda é cedo para uma CPMI contra o governo ou um impeachment.

O golpismo continua em alta na República das Bananas

Semana vai, semana vem, e as vivandeiras da ditadura seguem cheias de charme. E dessa vez o blog nem se refere às falas do presidente. Ou às do seu filho.

Mais uma vez um grupo de golpistas se uniu em Brasília para protestar contra o STF. Jair validou a manifestação de helicóptero e à moda de Mussolini. Sempre sem máscara, claro.

Os 300 de Brasilia fizeram alguns photo-ops e mostraram que, na verdade, de 300 esse grupo não tem nada. Com várias alusões imagéticas ao neo-fascismo moderno, chegaram até a gravar um vídeo em frento ao STF no meio da noite.

A crise é estética demais da conta.

Frente ampla porém nem tanto

Grupos democráticos e que não querem ver o Brasil fazer cosplay de Hungria começaram a se unir nos últimos dias para montar notas de repúdio poderosas contra os avanços do presidente à institucionalidade democrática-liberal do país. O mais bonito de todos é o “Estamos Juntos“, que uniu Lobão, Caetano Veloso, FHC, Fernando Haddad, Dino e até Marcelo Freixo.

O movimento já passou um quarto de milhão de assinaturas. A meta é clara: reunir pessoas que gostam da democracia liberal. Simples, não?

Pelo visto, não. Luiz Inácio Lula da Silva resolveu jogar um pouco mais a sua imagem no lixo e não quis assinar o manifesto. Dizendo que não tem idade para ser “Maria vai com as outras“, deixou de fazer parte de qualquer iniciativa. Essa coisa de defender a democracia, pelo visto, não é de interesse do trabalhador.

O ex-presidente também falou que não anda mais no mesmo bonde de FHC e Temer. Chega a ser engraçada a sua postura. Além de já ter feito parcerias com os dois quando foi conveniente, o mesmo Lula que hoje nega apoiar movimentos em que ele e o PT não são protagonistas é o Lula que, em 2018, cobrava o apoio de Deus e o mundo a Fernando Haddad no segundo turno.

Foda.

Normal isso aí II

Pessoas não estão furando a quarentena só para protestar pelo direito de ser iFood de covid-19 ou por um golpinho militar. Há também quem faça isso para defender a democracia. Ou pelo menos tentar.

Sim, pois é complicado tentar defender a democracia quando a PM parte para cima de você. Especialmente se a polícia for reprimir a sua manifestação apontando um fuzil para quem está desarmado. Ou quando a mão só é amiga com quem é branco e usa um taco de baseball na rua como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Ou às vezes o Brasil está em um novo normal e o blog não recebeu o memorando. Pode acontecer.


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