A Nova Era – semana #64: esvaziando o copo meio vazio

Todo mundo tentando tratar o presidente como a rainha da Inglaterra, governadores que nunca foram razoáveis, sendo razoáveis e você só saindo de casa se for necessário.

Continue lavando as mãos, tire um tempo para fazer nada e se isole. E não se esquece de compartilhar o post com o coleguinha!


The following takes place between mar-17 and mar-23


SUS – Stupidity Unified System

Agora que o coronavírus foi registrado em cartório (com três vias corretamente autenticadas) e vende coisas no Facebook com preço divulgado apenas por inbox, a Covid-19 resolveu fazer as suas primeiras vítimas em território nacional. E não foram poucas.

As primeiras mortes de pacientes identificados e testados com a doença ocorreram em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ambos os casos foram de pessoas que estavam internadas na rede privada e não saíram do país nos últimos meses. Ambas que fazem parte de grupos de risco da doença.

Enquanto finalizamos o post, o número de mortos já bateu 46 e 2.201 pessoas forma infectadas oficialmente.

Devagar se vai longe

Seguindo recomendações da OMS (só para dar uma variada), o governo federal pediu ao Congresso o reconhecimento do estado de calamidade pública. Naquela que promete ser a última reunião presencial dos próximos meses (agora só por videoconferência), os deputados aprovaram a ideia. O Senado, por outro lado, teve que debater a pauta em regime de home office.

Estar em estado de calamidade pública permite ao governo descumprir as suas metas fiscais e aumentar gastos para combater o novo coronavírus. Também dá para o ministro da Saúde mais liberdade para comprar suprimentos com o valor bem acima do tradicional. O Brasil não é o primeiro país que executa esse tipo de medida, mas certamente está entre os que deveria ter feito isso no mês passado.

O governo definiu alguns procedimentos especiais para enfrentar a pandemia. Quem não cumprir determinações de isolamento e quarentena pode ser preso. Fique em casa, internauta. A internet está cheia de pornografia e pirataria.

O presidente Bolsonaro também disse, no Twitter, que fará a distribuição de 10 milhões de testes rápidos para detectar doentes com a Covid-19. A medida, segundo Bolsonaro, será executada com o apoio da iniciativa privada. Difícil é saber, porém, se Jair combinou com os Russos.

De onde menos se espera…

Enquanto o presidente briga com todo mundo, vê a oposição crescendo nas redes sociais e tem a orelha esquentada com panelaço todas as noites, os governadores e prefeitos estão realizando uma ótima propaganda para os fanáticos pelo federalismo americano.

Em São Paulo, João Doria determinou que shoppings e academias ficassem fechados até o dia 30 de abril. Já no Rio, Wilson Witzel anunciou que centros comerciais ficarão fechados. Medidas semelhantes foram tomadas em outros 13 estados.

Nas capitais, Bruno Covas limitou o funcionamento apenas para supermercados, farmácias e restaurantes. Em BH, desde o dia 20 de março, nenhum estabelecimento que aglomere mais de dez pessoas poderá ficar aberto.

Bolsonaro criticou a medida tomada pelo governador de São Paulo e chamou Doria de “lunático”. Quando Witzel resolveu fechar as divisas do Rio, o presidente partiu para o contra-ataque e disse que “brevemente o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia nessa questão do coronavírus“. Além de negar ajuda ao governador fluminense, Bolsonaro também publicou uma MP impedindo que eles fechassem as fronteiras de seus estados.

Não dá para dizer que o presidente não acertou em parte de suas previsões. A população realmente sabe quem está fazendo mais para o combate ao coronavírus. A mais recente pesquisa do Datafolha apontou aprovação de 54% para as atitudes dos governadores, 55% para o ministro da Saúde e 35% para Jair Bolsonaro.

Fazem bem os governadores e os prefeitos que tratam as falas de Bolsonaro como o presidente trata a sua máscara de proteção. Ou como o seu porta-voz e os seus ministros tratam as perguntas da imprensa. Se forem esperar pela liderança do Planalto e sua tardia boa vontade, é bem capaz que o Brasil inteiro faça uma simulação forçada de Plague Inc.

Ideia merda feita por gente duvidosa

Tempos difíceis exigem soluções inovadoras e um brainstorm contínuo. Infelizmente, quando se abre espaço para novas ideias, também somos obrigados a lidar com as ruins. Uma delas veio do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Em uma conferência com prefeitos, Mandetta defendeu o adiamento das eleições municipais de outubro. O argumento do ministro parte da premissa de que o esforço contra o novo coronavírus possa ser influenciado por questões políticas. Faz até a gente acreditar que não há um presidente de birra com governadores e prefeitos de todo o país, não é mesmo?

O primeiro ministro lembrou que não é hora de pensar naquilo que não está em pauta e focar nos problemas do presente. Já Luís Roberto Barroso, que ficará responsável pelo Tribunal Superior Eleitoral, avisou que a ideia pode até virar realidade, mas que, por hora, não há motivo para pensar em questões de baixa prioridade para a nação.

O ministro da Saúde, por sinal, poderia gastar mais tempo negociando preços realmente baixos para os materiais que a sua pasta está comprando para combater a pandemia. Ou orientando os seus subordinados a efetuarem compras que não tenham cara, cor e cheiro de favorecimento de amigos. É o que o blog faria.

Jogos Vorazes: o canto do canarinho amarelo

A pandemia de coronavírus pode ser muito democrática, mas ela conseguirá refletir alguns problemas da nossa sociedade, especialmente os que estão relacionados às pessoas com menos dinheiro ou em lugares sem saneamento (que é básico). Nos grandes centros urbanos, a Covid-19 encontrará um terreno fértil para se propagar entre os becos de favelas e invasões urbanas.

Os impactos também passarão pelo bolso dos que ganham menos, apesar de o governo planejar compensar trabalhadores que recebam até dois salários mínimos, boa parte dessa população na informalidade. Se contarmos com os que ficam de fora do sistema bancário e aqueles que não recebem benefícios como o Bolsa Família, o cenário futuro faz jus ao refrão da música de Alceu Valença.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Resta um da desgraça

Alguém precisa transformar o presidente em um objeto de estudo científico. Só assim conseguiremos explicar a sua resistência ao coronavírus.

Após a sua volta dos EUA, o país começou a brincar de bolão para ver quem adivinhava qual dos convidados para o passeio em terras estrangeiras apareceria com a doença. O número já ultrapassou a casa das duas dezenas.

Dia sim, dia não, um dos membros da comitiva aparece no noticiário com a doença. Dia não, dia sim, algum funcionário do governo que trabalha próximo de Bolsonaro escuta de um médico que o seu exame deu positivo. Nem o motorista do presidente escapou.

O blog só pode concluir que, ou o presidente já está morto por dentro (e por isso é pouco atraente para o vírus) ou levar uma facada na barriga é uma ótima forma de se prevenir. Para todos os casos, algum cientista da Fiocruz deveria começar a estudar o corpo de Bolsonaro. Na melhor das hipóteses a gente descobre de onde vem tamanha capacidade de falar abobrinha.

Cutucando onça com vara curta

Os bolsonaristas adoram uma confusão para distrair o país das merdas que eles próprios fazem. Mas a tradição é que os problemas causados pelo governo (e a família do presidente) envolvam apenas questões internas. Todo mundo, inclusive eles, sabe que a familícia não tem culhão para encarar gente grande.

Mas parece que o deputado federal Eduardo Bolsonaro resolveu fazer de conta que era muito poderoso e atacar o nosso maior parceiro comercial. No Twitter, Dudu atacou o país como se fosse ele o responsável por colocar o Brasil no estado em que as coisas estão.

Após o representante do país asiático criticar a postura infantil de Edu Bananinha, o governo resolveu brincar um pouco mais de se afundar na bosta. O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, pediu que o diplomata se retratasse.

Mas como muitas coisas que marcam a diplomacia externa nacional, o dinheiro falou mais alto e a bobajada saiu de cena. Antes do fechamento dessa edição, o governo federal entrou em ação e resolveu colocar panos quentes na atitude irresponsável do cosplayer de embaixador.

Ver otário se retratando por questões financeiras é muito bom. Obrigado, capitalismo liberal.

Sobe…

As reações do governo federal à crise vão de mal a pior. Na quarta-feira (18), o Copom cortou a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual. Agora a Selic está em 3,75% ao ano, uma mínima histórica.

Enquanto isso, o dólar bateu novos recordes nominais. Enquanto a Selic caía, a cotação da moeda atingiu a marca de R$ 5,19. E a Bovespa? A Bovespa seguiu derretendo.

Quando a população resolveu olhar para o Planalto e perguntar o que mais seria feito para impedir a economia de derreter como parafina durante um blackout, todo mundo se viu na situação de “olho do Brasil com uma lágrima escorrendo”. A primeira reação tomada foi o anúncio de uma medida provisória que permitiria às empresas cortar metade da jornada de trabalho e do salário dos trabalhadores formais. Eles correspondem a 60% da nossa força de trabalho.

Os 40% restantes seriam ajudados com um plano emergencial. A iniciativa pretende dar R$ 200 por mês para quem não tem acesso a outros benefícios sociais. Tudo isso ao custo trimestral de R$ 15 bilhões.

Desce…

Quando o governo resolveu transformar as suas ideias em realidade, porém, o único grupo que saiu protegido foram os emissários da Agenda Fiesp. A segunda começou com a notícia de uma medida provisória que permitiria a empresários suspenderem o pagamento de salário de seus empregados por até 4 meses. Em contrapartida, cada funcionário deveria ficar em casa realizando cursos de formação online.

Se o empregado conseguisse negociar com o empregador, o patrão estaria autorizado a fornecer uma ajuda de custo durante o período. Ela, porém, não teria o caráter de salário. Ou seja, nada de INSS, FGTS e demais obrigações durante o período.

O BNDES também anunciou medidas para ajudar os empreendedores de todo o país. Com um custo de R$ 55 bilhões, o banco público decidiu suspender pagamentos das parcelas de financiamentos. Também ampliou o crédito para micro, pequenas e médias empresas.

Rebola…

Tudo isso pegou mal.

Pegou péssimo.

Pegou horrível.

Após ser criticado por todo mundo que tem um pingo de tato social e preocupação com os mais pobres, o presidente anunciou que revogaria a parte da MP 927 que se referia à suspensão de contratos. Mas, naturalmente, as letras pequenas não ajudaram a melhorar o que já não era muito bom: a MP 928 revogou o ponto criticado por todo mundo e deu novas restrições ao texto da Lei de Acesso à Informação.

Não quer dizer que antes o governo era muito aberto à divulgação dos dados sobre a Covid-19. Não era. Mas agora ele sequer se dá ao esforço de disfarçar a sua má vontade com os jornalistas se escondendo em um discurso de patriotismo barato e meia boca.

O mais incrível de tudo é que as pessoas ficaram tão ocupadas com esse ponto que esqueceram de ver que a MP 927/20 também permite a demissão de quem está contaminado e precisa ficar em casa. A contaminação só é considerada um problema se o doente conseguir comprovar que ficou doente no seu local de trabalho.

E espera sentado.

O governo pode anunciar muitas medidas boas (ou ruins), mas o fato é que a resposta da área econômica está lenta, gradual e nem um pouco controlada. O pacote do BNDES não é aquilo tudo que anunciaram. Já a MP 927/20 parece cocô seco: quanto mais você cutuca, mais fede.

Estamos prestes de uma queda do PIB sem precedentes. E nem é um abuso de linguagem do blog. A FGV aposta na possibilidade de termos a maior retração da série histórica.

Nesse ritmo, não há voucher de R$ 200 reais que faça milagre. O presidente não entendeu a gravidade da crise e, se foi o caso, está muito ocupado com as suas narrativas e intrigas pessoais para fazer algo. Passa mensagens dúbias sobre o vírus, ataca quem quer ajudar e continua a distorcer fator.

Não adianta a base bolsonarista criticar quem pede impeachment nessas horas e dizer que os que olham a saída de Bolsonaro do poder como a única luz que brilha no fim do túnel são oportunistas. Agenda reformista nenhuma é capaz de salvar um governo que mantém uma postura claudicante diante desse cenário.

A sorte do projeto de Fernando Collor de Mello reside na incapacidade da oposição se articular diante do cenário atual. Se aqueles que não se alinham com o Planalto fossem um pouquinho mais eficazes (não são), o presidente estaria com os seus dias contados. Mas tudo bem: o peixe morre é pela boca.


Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s