A Nova Era – semana #56: Sergio Moro strikes again

A neutralização de Sergio Moro, a passada de pano institucional para Sergio Moro e as ações políticas de Sergio Moro. Tudo isso e muito autoritarismo na semana #56 do governo.


The following takes place between jan-21 and jan-27


Keeping up with #VazaJato: quem quer rir tem que fazer rir

Saudade da #VazaJato? Pois quem andou lendo mais do que colunas de opinião do Intercept nessa semana teve o prazer de se alimentar de outro vazamento da série de reportagens. De acordo com o site, o procurador Deltan Dallagnol tentou influenciar a escolha de Ivan Monteiro para a presidência do Banco do Brasil pelo governo Bolsonaro.

A força-tarefa teria atuado junto com o site O Antagonista para divulgar documentos que inviabilizariam a indicação de Monteiro para o cargo. Ainda segundo a matéria, Monteiro era mal visto pelos procuradores e por Onyx Lorenzoni.

O texto também mostra em detalhes como os jornalistas de O Antagonista trabalhavam lado a lado com os procuradores. Em um trecho, há uma troca de mensagens entre Cláudio Dantas e os procuradores, em que o jornalista repassa um boato sobre a nora do ex-presidente Lula (o que teria levado a uma quebra de sigilo fiscal ilegal). Em outro, Diogo Mainardi deixa de publicar sobre o escândalo do Panamá Papers a pedido de Dallagnol.

Defensoria pública de Sergio Moro e associados

O Ministério Público Federal denunciou sete pessoas pelo envolvimento no roubo de mensagens de autoridades envolvidas (ou não) na #VazaJato. Entre os nomes, há o do jornalista Glenn Greenwald, que fundou o The Intercept Brasil. O crime cometido pelo jornalista, além do livre exercício da sua profissão, foi tomar o cuidado necessário para a proteção do sigilo de suas fontes.

Glenn não foi investigado e tão menos indiciado pela Polícia Federal. Em relatório publicado em dezembro de 2019, a PF afirmou que não existiam indícios de que o jornalista tinha cometido alguma ilegalidade. Greenwald, segundo o documento, adotou uma “postura cuidadosa e distante em relação à execução das invasões”.

Mesmo assim, o procurador Wellington Oliveira, sem provas, afirmou que o jornalista orientou o grupo a cometer crimes. A acusação pode ter sido realizada sem a abertura de um inquérito ou depoimento de Glenn. Se confirmado, será uma quebra das resoluções internas do próprio MPF.

Wellington Oliveira faz parte do grupo que também denunciou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por calúnia contra o ex-juiz Sergio Moro. Agora a justiça deve decidir se aceita ou não a denúncia inepta, arbitrária e abusiva.

Marco Aurélio Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal, pegou leve e chamou o ataque à imprensa de problemático e perigoso. O grupo de advogados criminalistas Prerrogativa foi direto ao ponto e afirmou que a denúncia “ataca violentamente a liberdade de imprensa” e é uma “escalada perigosa na ascensão do autoritarismo”. Já Glenn apontou para o óbvio e lembrou que o MPF só está fazendo o trabalho de defensoria de Sergio Moro e de Bolsonaro.

Falando em gente que sonha com uma escalada autoritária e um novo regime a-liberal no país, Bolsonaro também comentou o tema. Ironizou jornalistas perguntando se eles não acreditam na justiça e depois se fez de sonso quando apontaram que a ação foi do MPF. Ainda questionou se Glenn continuava morando no Brasil, pois jornalista que questiona o poder, para ele, tem dois caminhos: o exílio ou a cadeia.

A defesa de Glenn ultrapassou barreiras ideológicas e levantou até mesmo a voz de jornalista conservador da Fox News. Faz sentido. A escalada contra a imprensa por parte de órgãos do governo e do judiciário não começou ontem e não deve terminar amanhã.

O autoritarismo tupiniquim vai da direita chucra à esquerda que um dia ocupou o poder. Mas ele tem em Bolsonaro e nos lavajatistas a sua expressão mais forte desde o fim da ditadura civil-militar em 1985.

Democracia de Schrödinger

Como apontou o Gabriel Brasil no Twitter, a democracia não é uma questão de “existe” ou “não existe”. Há diferentes gradações para o nível de liberdade que cada regime dá aos seus cidadãos. No Brasil, por exemplo, ganhamos uma nota 6,86 em uma escala de 0 a 10.

A nota anterior do Democracy Index, feito pela The Economist, era 6,97. Índice pior do que o da Argentina, da Colômbia e da Bulgária. Isso nos classifica como uma “democracia falha”.

A classificação também é uma forma muito bonitinha de dizer que “estamos elegendo os governantes, mas todo dia tem favelado sendo julgado por fuzil de PM, judiciário validando autoritarismo e governantes não pensando duas vezes antes de atacar a imprensa livre”. Ou um Ministério Público Federal que criminaliza o jornalismo e a advogacia que faz críticas a autoridades. O leitor tem bastante exemplo para escolher qual item dar destaque.

Massagem de ego multimídia

O primeiro entrevistado do Roda Viva em 2020 foi Sergio Moro. Para entrevistar o ministro, o Roda Viva convidou um grande time de jornalistas. E o Felipe Moura Brasil.

O TL/DR da entrevista pode ser resumido assim: Moro fugiu de falar o que pensa sobre os corruptos do governo e passou pano para os ataques de Bolsonaro à imprensa. O ministro tergiversou sobre o ataque ao Porta dos Fundos, fez de conta que os indicadores negativos do governo causados pelo governo não existem e cantou méritos que não são deles. Também chamou a #VazaJato de “monte de bobajerada” e ainda confundiu o trabalho de jornalista com o de advogado de defesa.

Nas redes sociais teve bolsonarista doído com o fato de que a transmissão não mostrava os jornalistas tomando um chá com Moro. Aparentemente, ligaram no Roda Viva esperando uma retransmissão do Pânico na Rádio, programa que entrevistou o ministro na segunda-feira (27).

Ali a conversa foi mais tranquila e amigável. O ministro estava solto como arroz de mãe. Negou que tem pretensões políticas, fez piadas e, aos risos, deixou o seu autoritarismo à mostra.

Para ajudar nos afagos, a rádio escalou o jornalista chapa branca e pretenso boxeador Augusto Nunes. Estaria Felipe Moura ocupado no dia? São questões que ocuparam a mente do blog enquanto ouvia o ministro desenvolto na construção da sua plataforma política para 2022.

PGB – Procuradoria Geral dos Bolsonaro

A Procuradoria Geral da República já pode tirar o “da República” do seu nome e adicionar um “dos Bolsonaro” no lugar. Indo contra a postura independente que o próprio procurador afirmou que teria, o órgão já começou a trabalhar em favor dos interesses da família do presidente. Mais especificamente, de Flavio B.

Matéria do GloboNews apontou que a cúpula da PGR está realizando um pente fino no caso das rachadinhas. A ação teria ocorrido a pedido do presidente do STF após a defesa do senador solicitar o arquivamento da investigação. O levantamento seria para identificar qualquer tipo de vício nos trabalhos já realizados, o que pode colocar a Procuradoria a favor, contra ou parcialmente a favor do senador. A ver.

Para, para, para!

Falando em combate à corrupção, a Justiça do Rio de Janeiro paralisou as investigações contra o sócio de F. B. Alexandre Ferreira Dias Santini é um dos investigados pelo Ministério Público e solicitou um habeas corpus em relação à análise do que foi encontrado em sua residência. Após a decisão favorável, os procuradores terão que focar no material encontrado na loja de chocolates que teria sido usada para lavar R$ 1,6 milhão.

As instituições estão funcionando na República das Bananas

O ministro Luiz Fux, do STF, suspendeu, até segunda ordem, a implementação do juiz de garantias. Apesar de o projeto ter sido votado seguindo todos os ritos legais, sancionado por Jair Bolsonaro e validado pelo presidente da Corte, ministro Dias Toffoli, Fux achou que a lei ainda não estava com a sua constitucionalidade garantida. Será necessário, portanto, a confirmação por meio de decisão colegiada.

Após elogiar a decisão de Toffoli, Sergio Moro, elogiou a decisão de Fux. Maia, por outro lado, ironizou a medida e lembrou que o Brasil é bagunça mas há limites.

Como afirmou o parlamentar à Folha de S. Paulo, “O Brasil é de fato um país interessante. O vice-presidente do Supremo decide contra o presidente do próprio Supremo, e o ministro da Justiça elogia a decisão que é contra o presidente da República”.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

O caro namoro da namoradinha do Brasil

O “namoro” entre Regina Duarte e o governo Bolsonaro foi mantido com o dinheiro dos pagadores de impostos. As despesas da atriz e de seus assessores foi patrocinada pela administração pública. O custo, porém, é segredo, já que a pasta se recusa a informar exatamente o valor de cada hospedagem e passagem de avião que foi comprado nessa brincadeira.

Quem se assustou com a guinada daquela que fez atuações feministas no passado e ainda lutou contra a ditadura deveria olhar com mais atenção para o círculo social da atriz. O filho mais velho de Regina Duarte pode ser visto como um dos grandes responsáveis por colocar a atriz no “lado de lá“. Para além de empresário da própria mãe, ele é apoiador ferrenho do governo e de suas pautas.

Enquanto Regina Duarte não decide se larga ou não a Globo, a Secretaria Especial de Cultura ficará sob o comando da ex-secretária da Diversidade Cultural (e reverenda) Jane Silva. O convite, feito por Regina e o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi aceito por aquela que também é Presidente da empresa Associação Cristã de Homens e Mulheres de Negócios, um cargo que certamente deu a ela muito conhecimento sobre a gestão de projetos artísticos e culturais no país.

Enquanto isso, o edital fascistoide de Roberto Alvim foi suspenso. A iniciativa é um acordo tático entre o governo e Regina Duarte, que não quer demitir ou encerrar nada que já estava em execução antes de ela topar entrar na pasta.

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A nomeação de Regina Duarte para a Secretaria da Cultura desagradou mais gente além da ala do Olavismo Cultural do governo. Carlos Bolsonaro também ficou tristinho com o estágio da atriz global.

Os argumentos do Zero Dois? Regina seria uma perigosa comunista que não gosta tanto assim de Bolsonaro e de suas causas. Tudo por ter ido contra a censura da Ditadura e ser ligada à TV Globo.

O Bolsonaro filho, pelo visto, está duvidando da capacidade de governar do Bolsonaro pai. Afinal, Regina foi convidada por iniciativa de Jair, não por sugestão de subordinado. Talvez seja a hora de chamar de volta o “poço de desagregação com sinais de pertubação mental” e fazedor de edital proto-fascista Ricardo Alvim.

Brochou? Brochou

Um dos grandes discursos de Jair Bolsonaro, durante a campanha de 2018, era a abertura da já abertíssima “caixa-preta do BNDES”. Investindo no imaginário de que o banco público não tinha aberto os dados dos empréstimos mais polêmicos (abriu, a partir de 2015), o governo pagou R$ 48 milhões para auditarem os dados da instituição.

R$ 48 milhões que renderam oito páginas informando o que muitos já sabiam: estava tudo ok. Isso mesmo. O poder público usou R$ 3.000,00 por cada letra de um relatório que afirmava que as operações do banco estavam livres de problemas.

Bolsonaro, pouco antes do fechamento deste texto, afirmou que a auditoria estava errada. Alguém deveria avisar ao presidente que o dinheiro realiza vários sonhos, mas até mesmo o capitalismo encontra limites para a sua capacidade de inventar realidades paralelas.

Nadando contra a corrente

Começou a 50ª edição do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Como já apontado pelo blog e os jornalistas de plantão, Bolsonaro não estava, mas parte da sua equipe, sim. O Brasil pode não ter enviado o maior falador de bosta de Brasília, mas certamente garantiu a presença de bocas de esgoto no evento. A começar por Paulo Guedes.

Enquanto Trump criticava adolescente, o ministro da Economia afirmou que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza”. Guedes não se estendeu muito no assunto, mas deu a entender que, se todo mundo estivesse alimentado, não haveria destruição do meio ambiente.

O blog tem visto muito perfil de influencer, à direita e à esquerda, buscando ajudar gente de baixa renda a gerir melhor o próprio orçamento e até dando dicas de como usar o troco do cafezinho na Bovespa. O blog não se lembra, porém, do momento da história nacional em que a derrubada da floresta amazônica ficou tão acessível que até filho de empregada doméstica pode alugar o próprio trator para abrir mata. Foi no governo Lula ou no governo da Dilma isso?

A fala do ministro mostra, mais uma vez, que ele gastou muito mal o seu tempo na Universidade de Chicago. Não é de hoje que o governo foi avisado que o perfil do investidor começou a mudar.

A questão climática e o meio ambiente estão no centro das discussões globais e das preocupações de quem realmente pode ajudar o país a se reerguer. Democracia e estabilidade institucional valem mais agora do que nos tempos da Guerra Fria. O combate à desigualdade, também.

Talvez seja a hora de o ministro entrar em contato com as pessoas que lhe deram aula nos EUA e repaginar o seu liberalismo. Quem sabe assim ele não para de culpar os pobres pelos problemas causados pelos seus colegas de trabalho? Tem muita gente querendo investir em um Brasil diferente dessa aventura reacionária em que nos metemos.

Toca pro pai

Para atender às pressões externas e ainda podar o ministro do Meio Ambiente, o governo anunciou a criação do Conselho da Amazônia. Não se sabe muito bem o que ele será, porém. Até o momento, a ideia é deixar que Mourão, o inofensivo vice, faça a curadoria de medidas que possam ajudar a desenvolver a região sem que isso implique na queda de metade da floresta. No meio tempo, o governo ainda valorizará os seus generais (que, ideologias a parte, entendem muito mais da Amazônia do que o ministro do partido Novo).

Apertando as rédeas só por segurança

Na quarta-feira (22), Jair Bolsonaro começou a falar abertamente que estudava a possibilidade de recriar o Ministério da Segurança Pública. Disse que “Se for criado [o Ministério da Segurança], aí ele [Moro] fica na Justiça. É o que era inicialmente. Tanto é que, quando ele foi convidado, não existia ainda essa modulação de fundir com o Ministério da Segurança.”

Mentira. Em novembro de 2018 Bolsonaro disse que Moro seria responsável por um “superministério”, que unia as pastas da Justiça e da Segurança Pública. Ideia do próprio ex-juiz, aliás, que queria total liberdade para fazer o que lhe desse na telha.

A medida de Bolsonaro foi articulada para deixar o ministro cozinhando em banho maria e reafirmar a posição de dominação que o presidente tem sobre Moro. Apesar de ter sido vendido como um dos pilares do governo e formador da sua credibilidade, hoje, Sergio Moro não é ninguém sem um cargo público. Ok, ainda é alguém relevante, mas muito menos do que ele será se abandonar o poder nos próximos dois anos.

Bolsonaro é uma péssima pessoa. Mas não é alguém que mantém paranoias apenas com coisas que não existem. Pelo menos no caso de Sergio Moro, ele está totalmente certo em atacar o ministro.

O ex-juiz aponta como quarto colocado nas pesquisas de intenção de voto. Também é uma figura com mais respeito da população do que o próprio presidente. E para desespero do vizinho de suposto miliciano, Moro consegue votos da extrema-direita, da direita e até de centristas.

O timing de Bolsonaro é perfeito para reforçar a ideia de que o presidente age para lembrar ao seu subordinado que, no final do dia, ele é seu subordinado. O ministro que esteve no Pânico e no Roda viva era alguém moldado por um bom media training. Soube não responder sobre o futuro, rir quando necessário e marcar visões diferenciadas das que o presidente mantém quando é necessário. Até conta no Instagram Moro já fez!

Se o ministro quer realmente combater a corrupção e o crime organizado, vale a pena se manter no cargo e fazer o que for possível para evitar o desmembramento da sua pasta. A recriação do ministério da Segurança Pública tem efeitos que vão além da redução da relevância do ministro. Ao tirar a Polícia Federal dos bolsos de Moro, investigações de interesse do presidente e de sua família morreriam no dia seguinte.

Por hora, a ideia morreu. Bolsonaro afirmou, após ação de Augusto Heleno e Luiz Carlos Ramos, que tudo fica como está. Fica triste o ex-deputado Alberto Fraga, amigo do presidente e alguém que estava louco para tomar as rédeas das políticas de segurança pública do governo federal. Terá que gastar saliva criticando outros membros da administração pública caso queira outra boquinha.

Se tudo der errado, Bolsonaro pode mandar Sergio Moro para o STF no final do ano. Isso daria ao presidente ainda mais poder na hora de tentar a reeleição: com uma única canetada, Bolsonaro neutralizou o ministro e toda a oposição que não está na esquerda do debate político.

O mais incrível é que, mesmo com tudo isso acontecendo, a aprovação do governo segue crescendo e a oposição à esquerda segue muito perdida e trabalhando forte para a deixar a disputa em 2022 nas mãos das direitas.


Eu escrevi e revisei este texto. A língua é viva e você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #55: salto artístico na piscina do autoritarismo

Teste do pato, improbidade administrativa, ninhos de mafagafos e muito wishful thinking marcaram a última semana.

Vem comigo que eu te mostro (e não se esquece de compartilhar com aquela pessoa que você gosta).


The following takes place between jan-14 and jan-20


Secretaria de Comunicação e Improbidade Administrativa

A Folha de S. Paulo revelou que o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, pode ter cometido improbidade administrativa após entrar no cargo. Wajngarten recebeu, nos últimos meses, pagamentos de emissoras de TV e agências de publicidade por meio de uma empresa da qual ele é sócio, a FW Comunicação.

O conflito de interesses surge pelo fato de a Secom ser a área do governo que distribui todo o orçamento de propaganda do Planalto. Wajngarten ganhou o cargo em abril de 2019 e, desde então, tem aumentado a verba destinada para as emissoras amigas de Bolsonaro (enquanto reduz a de empresas de comunicação um pouco mais críticas).

As empresas, como apontou o jornal, tem contratos com o governo e com a FW comunicação. Uma delas, a agência de publicidade Artplan, recebeu R$ 70 milhões entre abril e dezembro de 2019. O valor é 36% maior do que o pago no mesmo período no ano anterior.

Além do aumento de verbas, Fabio Wajngarten teve 67 encontros oficiais com representantes e ex-clientes da sua empresa (após assumir o cargo). O transporte necessário para realizar pelo menos 20 reuniões foi custeado com dinheiro público. A matéria não revelou, porém, se o número dois da Secom, irmão do administrador da FW, participou das conversas.

Jair Bolsonaro e Wajngarten juram que não há nada de errado, mas a Comissão de Ética Pública da Presidência analisará as denúncias. O Ministério Público de Contas também entrou na brincadeira e fará uma revisão de verbas publicitárias do governo. No Legislativo, há gente pedindo a saída de Fabio Wajngarten da Secom.

No governo Dilma e no governo Lula, quando algo semelhante ocorreu, uma postura relativamente diferente foi adotada. Todo mundo teve que se afastar dos cargos que ocupavam na iniciativa privada. Muito provavelmente em função disso os aliados de Bolsonaro não conseguiram um parecer favorável ao chefe da Secom no TCU e na CGU.

As coisas na Venezuela estão ótimas

Enquanto não passava pano para o seu subordinado, Bolsonaro resolveu atacar, outra vez, de novo, novamente, a imprensa. Perguntado se sabia dos contratos assinados pela empresa de Wajngarten, respondeu com um presidencial “você está falando da tua mãe?”. Na mesma quinta-feira (16), o presidente já tinha dito que a Folha de S. Paulo “não tem moral para perguntar” sobre o caso e mandou uma repórter do jornal calar a boca.

Além de apontar que não estava no governo para fazer negócios, Wajngarten se defendeu afirmando que a matéria é absurda. Também cometeu gaslighting com a notícia, a chamando de desequilibrada, imparcial e injusta. No fim, deixou um recardo bombástico: “se determinados grupos de comunicação ou institutos de pesquisa tinham em mim a tentativa de construção de uma ponte de diálogo, essa ponte foi explodida hoje”.

A Secom, em nota, sugeriu que a Folha não está conformada com o sucesso (???) do governo Bolsonaro. Já o chefe de Wajngarten, o general Luiz Eduardo Ramos, afirmou que a notícia é “mais uma dessas maldades que se faz contra homens públicos“. Porém, há quem diga que ele se arrependeu da declaração pouco tempo depois.

Em 2019, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, o número de ofensas e tentativas de descredibilização subiu 54%. Mais de metade desse número veio direto do Planalto.

Não é de se assustar que as respostas tenham sido deste nível. Mas é de se assustar que alguém ainda diga que estamos vivendo a mais pura normalidade democrática.

Mexendo o pauzinho

Enquanto Wajngarten queima, Carlos Bolsonaro se articula. O Zero Dois estaria trabalhando para colocar o blogueiro e espalhador de notícias fantasiosas Allan dos Santos como secretário de Comunicação. Nada melhor do que criar um gabinete do ódio às claras e com o financiamento declarado no orçamento da União.

Garantindo o juiz das garantias

Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, deu mais seis meses para o juiz de garantias ser implementado. Ele também tornou a medida mais compacta: processos relativos à Lei Maria da Penha ou homicídios (que já têm as suas próprias regras) e ações da Justiça Eleitoral não precisarão do apoio de um magistrado.

O tema ainda será avaliado pelo plenário do Supremo. Enquanto novas mudanças não são feitas, o judiciário poderá aproveitar o tempo ganho para se preparar. Já bastam os nossos estudantes deixando tudo para a última hora.

O melhor pior Enem da história

Falando em estudantes, o melhor Enem da história, para variar, foi péssimo. Assim que os resultados saíram, um grupo de estudantes começou a relatar que a nota tinha tudo para estar errada. Apesar de terem acertado muitas questões do gabarito oficial, a nota de todos estava mais baixa do que o esperado.

Abraham Weintraub, o ministro da Educação, se fez de sonso o quanto pode. Postou video engraçadinho na internet e, inicialmente, afirmou que o problema na correção estava relacionado apenas a algumas provas feitas no segundo dia do exame. No dia seguinte, o MEC mudou a postura e afirmou que falhas no primeiro dia também seriam investigadas.

Para lidar com o problema, o calendário do Sisu foi ampliado (ainda que o Ministério Público Federal tenha solicitado a suspensão da abertura do processo seletivo até que tudo tenha sido realmente corrigido). Um e-mail foi criado para quem quisesse questionar a nota. O prazo para o envio das mensagens? Menos de 24 horas.

O ministério apontou que os problemas ocorreram por falha da gráfica responsável pela impressão das provas. Ela foi selecionada após a empresa que cuidou das provas pré-Bolsonaro falir. Ao que tudo indica, ter contratado alguém com zero experiência na área e ainda cometer uma série de presepadas ao longo do último ano não gera um bom resultado no final do dia.

O ministro poderia utilizar a lição e começar a fazer um trabalho mais eficaz. Ou ele pode, finalmente, sair do cargo. Vai que, em vez de um intelectual meia boca com ideias ruins, Bolsonaro resolve colocar alguém minimamente eficiente? Superar o status quo não é muito difícil.

Novamente tudo muito louco no ninho de mafagafo chamado DPVAT

A Folha de S. Paulo apontou que a seguradora Líder, que faz a cobrança do DPVAT, tem mutretas que vão além das citadas no post da última semana. A empresa realizou doações e atendeu a pedidos de políticos que podem ou não ter agido a favor de seus interesses.

Os parlamentares do PSB e do PSL foram responsáveis por suspender a CPI do DPVAT em 2016. Também recebeu dinheiro Andrea Neves, quando presidia o Servas. Os R$ 500 mil a ela repassados não tiveram o seu destino identificado, o que pode ou não indicar que criminhos ocorreram.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Que notícia ruim o ministério do Meio Ambiente trouxe essa semana

A área com alertas de desmatamento na Amazônia Legal aumentou 85,3% em 2019 em uma comparação com os dados do ano anterior. Os indicadores são do sistema Deter-B, que foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

O Núcleo obteve uma série de documentos que mostram o trabalho porco do Ministério do Meio Ambiente durante o desastre do vazamento de óleo no Nordeste em 2019.

A matéria mostra como o Ibama acompanhou o incidente, alertou a equipe de Salles sobre os problemas encontrados e avisou que, com o contingente reduzido, pouco poderia ser feito. As 450 páginas cobrem o descaso do ministro entre 2 de setembro e 4 de outubro.

A incapacidade do governo em colocar pessoas eficientes em cargos de confiança é quase tão incrível quanto o empenho de cada uma em ser péssima no que faz.

Wishful thinking liberal

O governo resolveu começar o ano brincando de liberalismo. Ou pelo menos tentando. O secretário especial de Desestatização, Desinvestimentos e Mercados do Ministério da Economia, Salim Mattar, anunciou que pretende arrecadar R$ 150 bilhões com a venda de ativos estatais.

Mais precisamente, 300 deles. Muitos dos quais já estão com a venda encaminhada desde os tempos de Michel Miguel. Parece um detalhe pequeno, mas não é, já que o governo tem tudo para acabar após aprovar os projetos do vampirão.

Sim, ativos. Pois este blog não cairá no canto de sereia de que a venda de subsidiária da Eletrobras (ou da Petrobras) é venda de estatal. Isso tem outro nome e está longe de ser privatização: é desinvestimento.

O mesmo vale para a venda de participações minoritárias em empresas (algo que aconteceu bastante nos governos Lula e Dilma por meio do FI-FGTS, da Caixa e do BB). Isso também não é privatizar (novamente, é desinvestimento). Mas o leitor pode ter certeza que o governo venderá para o bolsonarista este gato sarnento como se ele fosse lebre.

A agenda do governo também inclui 79 leilões em 2020. Há inclusive parcerias público-privadas para áreas como iluminação pública e tratamento de resíduos sólidos. O saneamento, que é básico, ficará em um único leilão.

Ficam de fora o Banco do Brasil, a Petrobras e a Caixa. Os Correios, talvez. Mais provavelmente ano que vem, quando o governo terminar a avaliação do projeto e decidir se vale a pena ou não deixar um monte de liberal de internet molhadinho.

Teste do pato

O que é que parece com um fascista, fala como um fascista e se porta como um fascista? Provavelmente o agora ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim.

Na noite do dia 16, Alvim publicou um vídeo em que ele resolveu anunciar o edital do Prêmio Nacional de Artes. O roteiro teve Wagner, cruz dupla na mesa e discurso de Joseph Goebbels sendo parafraseado.

Pegou mal.

Pegou muito mal.

Pegou tão mal que até o chefe do Olavismo Cultural fez de conta que não gostou.

Mas teve o apoio do governo. Horas antes, Alvim esteve em uma live com Jair Bolsonaro, na qual o presidente defendeu os filtros do edital e validou o ideal de cultura fascistoide de Alvim.

Pois não basta colocar todo mundo para ver secretário imitando nazifascista: também é importante ecoar e elogiar as suas ideias.

Alvim se defendeu afirmando que não queria ofender ninguém. Também que repudia qualquer regime totalitário (o que deixou Olavo de Carvalho muito triste). Faltou só fingir que não sabia o que estava fazendo.

Mas o fato é que a performance foi construída e ensaiada para ser aquilo que todo mundo disse que ela foi. Alvim sabia o que estava fazendo, acreditava no que estava falando e não se furtou a usar de forças demoníacas para imitar Joseph Goebbels. Até deixou isso registrado em e-mail.

O que só serviu para reforçar a ideia de que sim, o governo quer fazer uma política artística semelhante àquela adotada por Hitler. O “bombardeio de arte conservadora” tem que ser acompanhado de uma diplomacia nacionalista, revisionismo educacional e todo tipo de ideia reacionária que os rejeitados que governam o país escutarem de Olavo de Caralho.

E agora, José?

Entra no lugar (temporariamente) do cosplayer de Goebbels a atriz Regina Duarte. Ela fará um “período de teste” antes de decidir se ficará mesmo no cargo ou não. A Rede Globo, aliás, já deixou a atriz de aviso prévio. Os olavistas chiaram.

Enquanto isso, o Ministério Público Federal defendeu que os atos e nomeações (que incluem gente que gosta da Opus Dei e excluem funcionários de carreira críticos ao governo) feitos por Alvim sejam anulados. Uma ideia que, pelo menos até o final deste texto, não tinha se tornado realidade.

Mas podemos ficar tranquilos, pois está tudo normal por aqui.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #54: braço forte, desgraça amiga

A polêmica do sol, a polêmica da Aliança e a polêmica do gelo. Tudo isso e muito mais no post da semana.

Se você gostou (ou não), não se esquece de compartilhar o link por aí.


The following takes place between jan-07 and jan-13


Censura pela porta da frente, liberdade pela porta dos fundos

Eis que um belo dia (quarta-feira – 08), Benedicto Abicair, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, acordou de seus inquietos sonhos por um Brasil mais autocrático e resolveu “acalmar os ânimos” daqueles que ficaram muito ofendidos com o especial de Natal do Porta dos Fundos.

Abicair achou uma boa ideia censurar a obra e proibir a sua exibição na Netflix . Não satisfeito, também estipulou uma multa de R$ 150 mil para cada dia que o filme continuasse a ser exibido. Tudo isso com apoio do Ministério Público.

O “favor” que o desembargador fez à comunidade cristã e para a “sociedade brasileira, majoritariamente cristã” (sem que ninguém além da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura tivesse pedido) logo foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal.

O ministro Dias Toffoli (o mesmo que censurou a Revista Crusoé), num lapso de espírito democrático, lembrou que uma fé milenar não é abalada com um filmezinho. É muito bonito ver o ministro do Supremo defendendo a liberdade de expressão, mas não dá para dizer que ele fez algo além da sua obrigação.

Os católicos da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura, por outro lado, poderiam gastar o seu tempo se levantando contra os padres pedófilos que ainda estão na santíssima Igreja. Eu tenho certeza que eles fazem um trabalho muito mais eficiente para abalar a fé cristã do que um filme de humor.

O ninho de mafagafo chamado DPVAT

Falando no Dias Toffoli, o ministro aproveitou a semana para reverter uma liminar que ele mesmo deu e, com isso, garantir a redução do preço do DPVAT em 2020. Após a decisão, o governo resolveu atacar os mantenedores do seguro outra vez e tentar zerar a cobrança por até cinco anos.

Não será um gol fácil de ser marcado. A Seguradora Líder já avisou que não vai devolver a grana que o governo jura que ela recebeu a mais do contribuinte.

A justificativa do governo para zerar a cobrança é a seguinte: as seguradoras cobraram a mais no passado, o que permitiria o uso desse dinheiro, no presente, para pagar as indenizações. As seguradoras, por outro lado, se defendem falando que as cobranças administrativas são válidas e que o dinheiro é delas. A briga terminará na justiça, naturalmente.

Como bagunça pouca é bobagem, a Líder também terá que explicar alguns pagamentos identificados por uma auditoria que tem cara, cheiro e jeito de atividade imoral. Segundo os auditores, a seguradora pagou valores a pessoas próximas a ministros do STF, integrantes do governo federal e políticos. Os 21 pagamentos, com descrição não detalhada do tipo de serviço foi prestado, foram executados entre 2008 e 2017 e totalizam R$ 3,67 bilhões.

Errei, não nego, me arrependo quando puder

Esteves Colnago, assessor do ministro Paulo Guedes (da Economia) foi denunciado pelo Ministério Público Federal no último dia 9 junto com outras 28 pessoas. A acusação é de gestão temerária de fundos de pensão.

Para ser mais preciso, a acusação está relacionada ao Funcef (dos funcionários da Caixa Econômica Federal), o Petros (da Petrobras), o Previ (do Banco do Brasil) e o Valia (da Vale). O prejuízo total das operações? R$ 5,5 bilhões.

Os (péssimos) investimentos ocorreram entre 2011 e 2016. Os aportes que originaram a investigação foram feitos na Sete Brasil, empresa de construção de sondas de petróleo e que teve um péssimo destino após a Lava Jato revelar esquemas de corrupção da portaria até o almoxarifado.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o assessor não só disse que está tranquilo, como também que não se arrepende de nada. Já Guedes ficou bem triste: o ministro tinha marcado para anunciar a promoção do subalterno no mesmo dia em que o MPF colocou o nome do seu subalterno nas páginas policiais.

O que o ministro da Educação fez de meia boca nessa semana

O Fundeb vence no final do ano. A ideia genial do ministro da Educação para lidar com a renovação do fundo? Iniciar a tramitação de um novo projeto do zero.

Por que isso é um problema? Já há um texto base da PEC em discussão na Câmara desde 2015. A decisão foi tomada pois o governo não gostou da minuta apresentada pela relatora do projeto que já está em tramitação.

O Fundeb reúne impostos de estados e municípios e dinheiro da União para financiar o gasto mínimo que todos os entes devem ter com alunos das redes públicas. Para não dar nenhum ruim e o próximo ano ainda contar com o fundo, o MEC tem que trabalhar com os deputados para aprovar até o final do primeiro semestre. Depois não adianta chorar.

Em outros tópicos, a troca de comando do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), feita para manter mais dinheiro na mão do ministro Weintraub, deixou o pessoal da Câmara puto. Tomara que irrite bastante mesmo: tudo o que o país gostaria de ver é uma escalada de tensões e um recap de Cid Gomes na Câmara.

Eu mencionei que o MEC, por meio do FNDE, pretende descartar 2,9 milhões de livros didáticos? Pois é. As obras, que valem R$ 20 milhões, não foram entregues para as escolas e já estão desatualizadas. Com sorte, se transformarão em papel higiênico.

Considerando que o MEC está louco para fazer um edital de novos livros que sejam voltados para “livrar escolas de doutrinação“, era melhor manter os antigos em sala de aula. Não sendo tomada essa decisão, temos que torcer para que as novas edições apenas atendam ao desejo do presidente por leituras mais simples.

Todo mundo é comunista menos eu

O ministro da Educação, junto com o presidente, resolveu sair por aí falando que os concursos brasileiros são moldados para selecionar gente de esquerda.

Weintraub afirmou que o processo de reformulação de provas começou no governo de FHC e passou por todos os governos petistas. Tudo com o objetivo de aumentar o número de pessoas esquerdistas na máquina pública.

Weintraub e, de certa medida, o presidente, são dois profissionais que conseguiram cargos por concurso público. Um para dar aulas e produzir pesquisa de baixa qualidade. O outro para caçar confusão dentro de quartel. Seriam eles esquerdistas escondidos?

Renovou a mamata

Enquanto os concursos não são reformulados para promoverem o olavismo cultural em todas as esferas públicas, as nomeações de despreparados pelo governo seguem a toda força.

Sai do Ibama a responsável por analisar o impacto de produtos químicos sobre a fauna e a flora. Entra no ICMBio uma estudante de psicologia que passou os últimos anos trabalhando com vendas no interior mineiro.

Já no Iphan, o novo presidente graduou-se em Arquitetura e urbanismo pela UNI-BH em 2011. Antes disso, trabalhava acompanhando a mãe em projetos de restauro (segundo o próprio). No jornal O Globo, há a lista completa das supostas qualificações de Flávio de Paula Moura para o cargo.

A Casa Civil também está dentro da brincadeira. O novo chefe de gabinete é um pastor da Sara Nossa Terra. Ele é da mesma igreja que o ministro da pasta, Onyx Lorenzoni.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Deixando o bonde passar

O presidente Bolsonaro resolveu não passar tanta vergonha em 2020. Na quarta-feira (08), o Planalto anunciou que Jair não estará no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Apesar de ser um encontro que reúne todo tipo de líder empresarial e econômico do cenário mundial, Bolsonaro achou que o somatório de questões de segurança, política e economia não valia a viagem neste ano.

Isso não quer dizer que o Brasil ficará de fora do encontro. Guedes e outros empresários estarão na Suíça representando os interesses da nação. Todo mundo, junto com João Dória, ficou muito feliz de não ter que aguentar Bolsonaro em outro país.

Considerando que estamos falando de um presidente que fez uma live no Facebook para acompanhar o pronunciamento de Donald Trump na última semana. Considerando que, ao fim, ele resolveu criticar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por ter feito um bom trabalho de diplomacia. Considerando, por fim, que é o Bolsonaro, a escolha foi a melhor decisão que ele tomou em 2020.

Assinando o nome no trabalho alheio

É comum que políticos tentem tomar o mérito do trabalho alheio para si. FHC virou o homem do Real em cima do projeto feito por um monte de gente que, ao contrário dele, conhecia economia. Há petista por aí que até hoje jura que o Fies é uma obra do governo Lula.

Mas eis que o governo Bolsonaro optou por renovar o espírito de cara de pau e tomar os louros do trabalho alheio em uma escala inédita. E tudo isso em cima de algo que nem traz tanto voto assim: a nova estação de pesquisa Comandante Ferraz.

A estação é um conjunto de laboratórios de pesquisa com tecnologia de ponta cujo projeto iniciou-se em 2013. A iniciativa se deu após um incêndio que destruiu a base antiga em 2012. A construção, aliás, ainda precisa de alguns retoques para ter funcionamento completo.

Mesmo assim o ministro Marcos Pontes resolveu que seria uma boa ideia tratar como mérito do governo Bolsonaro o trabalho de todo mundo que esteve no governo nos últimos anos. O astronauta foi ao Twitter tentar vincular a abertura da base ao governo atual para ser prontamente corrigido por todo tipo de jornalista. Bem feito.

Uma esmola pelo amor de Deus

Falando em tomar o trabalho dos outros para si, Bolsonaro quer um programa social para chamar de seu. Ou melhor, um programa social para reformar, mudar o nome e aí sim falar é do seu governo. Tudo isso para ganhar algum apoio no nordeste que não seja de gente endinheirada.

As principais vítimas são o Minha Casa, Minha Vida, o Pronatec e o Bolsa Família. O primeiro apresenta atraso nos repasses e altíssima taxa de inadimplência entre os pagadores. O segundo tem resultados duvidosos. Já o terceiro foi enxugado no primeiro ano do governo.

Ao que tudo indica, pautas que sejam realmente focadas nos pobres ficarão para depois no governo Bolsonaro. No primeiro ano, o presidente gastou todo o seu tempo livre descobrindo o que era golden shower. No atual, pelo visto, estará se preparando para ser filiado a outro partido.

No terceiro e no quarto, só Deus sabe o que será da massa de miseráveis que depende do apoio governamental para conquistar a sua cidadania. Se a solução vier por meio das agendas de reforma tributária e administrativa, inclusive, é melhor sentar e esperar: assim como a cara resolução da fila do INSS, isso ficará para outro dia.

Segundo a Veja, o grande ministro da economia (e vendedor de terreno na Lua nas horas vagas) segue não avançando as discussões sobre essas pautas no prédio do seu ministério. Depois não adianta reclamar que o Maia está com protagonismo.

O espirito das luzes

O governo resolveu não taxar o sol. Ok, brincadeira. O governo resolveu não acabar com um subsídio regressivo para quem investia em energia solar e gerava mais eletricidade do que precisava para manter o seu negócio funcionando (ou a sua casa ligada).

Este é o caso de muito brasileiro de classe média. Mas é, também, de uma grande quantidade de empresas que se unem para aproveitar a possibilidade de lucrar mais. Então vamos corrigir o anúncio do começo deste tópico:

O governo resolveu manter uma política que já não se justificava em um caráter político e econômico e que, no final das contas, serve para transferir dinheiro de pobre para rico.

A brincadeira custará R$ 34 bilhões para todos os que não utilizam a energia solar. O populismo do governo recebeu parecer negativo de técnicos da equipe econômica (em vão). A justificativa do presidente para governar no feeling e não conforme os subordinados do Posto Ipiranga gostariam é que não intervir a favor do setor é fazer intervencionismo.

Aliança pelo trambique

A criação da Aliança do Brasil segue muito confusa e cheia de trambique. Após as confusões anunciadas na última semana, o Colégio Notarial do Brasil (CNB) resolveu apoiar a coleta de assinaturas para fundar o partido. A entidade representa 90% dos notários (a turma que cuida e trabalha com cartório) do país.

Além da taxa para reconhecimento de firma, os cartórios estão ganhando algo que vale muito mais do que barras de ouro (e dinheiro), que é o carinho do presidente. Só faltou combinar com o TSE, que nunca se manifestou a respeito do uso de estrutura privada para a criação de partido.

A advogada de Bolsonaro e representante jurídica do Aliança, Karina Kufa, resolveu brincar de Montesquieu. Questionada sobre a legalidade da ideia, avisou que “o que não está na lei não é proibido, não é?”. Tá errada? Não está.

Há procuradores do Ministério Público Federal que viram na ação a possibilidade de um processo por abuso econômico. Já o estatuto do Colégio Notarial afirma que a organização não pode fazer o que está sendo feito. Mais precisamente, que ‘é vedado ao CNB participar, apoiar ou difundir, ativa ou passivamente, quaisquer manifestações de caráter político”.

Pelo sim, pelo não, o CNB resolveu tirar do seu site todos os documentos que apoiavam a criação da Aliança do Brasil. Quem teme, talvez deve.

Desvio eleitoral padrão

O jornal O Globo descobriu que, segundo o TSE, o PSL perdeu 1.256 filiados após o presidente Jair Bolsonaro sair do país. O número é pequeno em comparação ao total de filiados (348 mil), mas representa um aumento de 4 vezes em comparação aos três meses anteriores ao levantamento.

O PSL, por outro lado, diz outra coisa. O partido afirmou que, na ausência do presidente, o número de registros foi reduzido em 750. O que não seria nada diante do suposto aumento de 15 mil filiados.

Tudo o que o Brasil precisa, agora, é ter que conferir mentira sobre quem tem o partido com o maior número de filiados.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #53: fascismo à moda da casa

Ministro torturando número, fascistas indo à luta, o governo mentindo e os fantasmas do presidente dando um olá no noticiário. Tudo isso em uma única semana.

Não se esquece de compartilhar com a família.


The following takes place between dec-31 and jan-06


O ovo da serpente está pronto para ser chocado

Ao que tudo indica, o ataque ao Porta dos Fundos não deve dar em pizza. A polícia do Rio realizou, na última terça-feira (31), uma operação para prender Eduardo Fauzi Richard Cerquise. Ele é um dos cinco suspeitos de ter jogado bombas na sede da produtora do grupo.

Oficialmente foragido, Cerquise publicou um video no YouTube chamando os humoristas do Porta dos Fundos de “bandidos” e pedindo orações. A polícia encontrou na sua casa R$ 119 mil em dinheiro vivo, uma arma falsa e munições. De classe média alta, o integralista já foi condenado por lesão corporal e tem outras 15 anotações por ameaça e agressão na sua ficha – um claro sinal de que ele jamais seria capaz de atacar alguém por ir contra os seus valores.

Aliás, falando sobre os valores de Cerquise, o foragido foi filiado ao PSL entre 2001 e a última segunda-feira (portanto nada de ligações – ainda – com o atual morador do Palácio do Planalto). Ele também presidia a Frente Integralista Brasileira do Rio de Janeiro (o grupo afirmou em nota que ele foi expulso). Além disso, é apontado como parte de um grupo de milícia que atua em estacionamentos rotativos no centro da capital carioca.

Não demorou muito para saber onde Eduardo foi parar. O integralista embarcou para a Rússia na véspera da operação policial que pretendia prendê-lo e ainda deu uma entrevista assumindo para a internet que atacou a empresa de humor. O seu nome já está na lista de procurados da Interpol.

E atenção! Se liga aí, que é hora da revisão!

Já que o brasileiro não anda prestando muita atenção às aulas de história, vamos fazer aqui um recap. O integralismo é um movimento fascista de extrema direita que chupinhou umas ideias do fascismo italiano lá na década de 1930.

O movimento é formado por uma trupe de pessoas moralmente conservadoras, religiosamente cristãs e ultranacionalistas. O integralismo, porém, não adotou o componente racista do nazifascismo, afinal, a turma sabe que mora no Brasil.

Essa galera bacana sempre manteve-se próxima do poder e, em certa medida, próxima dos que hoje comandam o país graças a um trabalho que começou lá em 2005, quando o movimento ressurgiu como uma associação sem fins lucrativos. Rodando hora pelos submundos da internet, hora nos espaços de poder, eles conseguiram se organizar com mais capilaridade do que muito grupo político por aí.

Hoje, repassam as suas mensagens com cuidado e dedicação sem que muita gente note. Formam um exército de apoiadores que já tem cara, trejeito de monarquista e uma profunda repulsa pelos valores liberais que dizem moldar o nosso Brasil. São, junto com tantos os outros exemplos, mais uma prova de que a nossa democracia não anda muito bem das pernas.

BDSM autoritário

Praticamente metade dos brasileiros com baixo nível educacional ou baixa renda não se importaria com a volta de uma ditadura. Os dados foram revelados pela última pesquisa do Datafolha sobre o tema. Outros indicadores, como o dos número de pessoas que acham a democracia a melhor forma de governo sempre, apresentaram queda.

Felizmente, porém, a parcela dos que avaliam que o legado da ditadura civil-militar é positivo continua caindo. Já o número de pessoas que sabem o que foi o AI-5 segue absurdamente pequeno. Faltou perguntar a aderência dos entrevistados ao movimento fascista da semana. Saber pra qual tipo de autoritarismo político os ventos sopram a cada semana é sempre bom.

Torturando números e urinando em cima do trabalho alheio

Serio Moro está 100% um político tradicional. Agora, além de fazer o seu trabalho pela metade, quer tomar o mérito das políticas públicas de outros governos para si. Pelo menos é o que ele tentou fazer no Twitter no último dia 04.

Ironizando as pessoas que realmente pesquisam as políticas de segurança pública nacional, o ministro disse que os crimes só cresceram nos governos anteriores (não é verdade, também houve queda em 2018) e que a administração atual tem pouca influência nos bons resultados do último ano (o que é verdade). O ministro também confundiu o nome do ex-ministro Raul Jungmann e chamou o político de Mago Merlin.

Felizmente, o internauta que diz se chamar Matheus Leone (seria esse mesmo o nome dele?) estava lá para lembrar quem fez o SUSP, um dos principais mecanismos do governo Temer que ajudaram na redução da mortalidade nacional. Também foi o Leone o responsável por elencar as respostas com outras medidas que, ao contrário da liberalização da posse de armas, tiveram real impacto nos índices de violência (Jungmann não é muito bom com isso de rede social).

Os números, infelizmente, não caíram para quem está na mira das armas dos PMs. Ou para os policiais que estão na mira de bandidos. Não é errado dizer, portanto, que a política pública da Nova Era é focada em cancelar CPF e número de registro dos policiais que conseguem sobreviver à violência do seu cotidiano.

Governismo dos anos 2020

O governismo já digievoluiou. Após a queda de popularidade do governo e a manutenção do apoio a Moro, a revolução reaça resolveu tomar um novo rumo. Filipe G. Martins e os demais comissários do olavismo cultural querem salvar o governo e o seu projeto de poder com muito pragmatismo.

Ou melhor, Filipe G. Martins e os olavetes do governo querem salvar o seu projeto de poder com muito pragmatismo. Afinal, tudo fica mais fácil de entender se a gente considerar Olavo de Carvalho como aquilo que ele realmente é: um fascista que tem medo de ver o seu projeto dar errado.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Mais pra cá do que pra lá

A balança comercial brasileira fechou 2019 com superavit de US $ 46,7 bilhões. O valor é o resultado mais baixo desde 2015. Além disso, representa um recuo de quase 20% a 2018.

Leitores mais assíduos de Adam Smith não exitariam dois segundos para levantar os dedos e lembrar que isso não é, necessariamente, algo ruim. Mas, conforme o próprio Ministério da Economia apontou, é um problema sim: o resultado se deve, especialmente, pela (eterna) crise argentina, um país que compra muita coisa da gente.

Quem valoriza o superávit da balança comercial nacional e/ou quer vender para todo mundo, portanto, deve temer. Não pelas perspectivas que tem em relação aos próximos passos que o governo argentino pode tomar na condução da economia, mas medidas que o nosso governo fará nos próximos anos. Não é de hoje que as pessoas razoáveis da diplomacia nacional avisaram que tratar mal a Argentina pode dar merda.

E agora para algo completamente relacionado ao tema do interlúdio anterior

Falando em diplomacia, o Itamaraty não quer deixar de vender só para os amigos da América Latina. A depender das declarações do nosso ministro das Alucinações Exteriores, vamos acabar deixando de exportar até para o Oriente Médio – outro lugar cheio de parceiro comercial de longa data.

Após a morte do general Qassem Soleimani e o alinhamento do Brasil com o atual presidente americano (e criminoso de guerra em potencial) Donald Trump, Teerã pediu esclarecimentos para a nossa embaixada.

Não foi sem motivo. Além de se alinhar com Trump outra vez sem a menor necessidade, o Brasil rompeu com a tradição nacional de só tratar como terroristas os grupos formalmente assim registrados pelo Conselho de Segurança da ONU. Seguindo nesse ritmo, terminaremos 2024 como uma economia que quer ser muito aberta, mas não consegue ser amiga de ninguém que pode comprar algo dela.

Mentindo na cara de otário e achando que todo mundo é otário

O presidente avisou que sancionará o fundo eleitoral de R$ 2 bilhões para 2020. O valor é o proposto pelo governo quando o Planalto enviou o orçamento para aprovação. A desculpa de Jair, para os seus eleitores, é de que vetar a cifra poderia levar ele a sofrer um processo de impeachment.

Pura bobajada.

Bolsonaro é incapaz de dizer, com base na lei, como ele seria enquadrado na lei de impeachment se vetasse algo que ele mesmo pediu o poder Legislativo para aprovar. Ok, isso aqui é o Brasil e o governo pode cair por qualquer motivo a depender das vontades dos congressistas. Mas, como bem afirmou o primeiro ministro, o veto ou a sanção às propostas do Planalto são um direito do presidente, não algo que pode dar ruim a médio e longo prazo.

O gado, certamente, acreditará na desculpa do governo. Felizmente, fora das bolhas, é possível espalhar a verdade e lembrar que a história é mais complicada. O governo orientou voto SIM ao aumento do fundão eleitoral, o que é a última escolha que alguém com o discurso de Jair, em tese, faria.

Não fui eu, foi meu Eu lírico

O presidente tirou o sábado para falar coisas que só ele falaria. Em uma live no seu Facebook, disse que, se tivesse a capacidade de acabar com as investigações contra o seu filho, teria finalizado os trabalhos. Paranoico como sempre, também acusou o governo do Rio de Janeiro de incentivar a investigação para promover uma possível candidatura do governador para o Planalto.

Em notas não relacionadas, a ex-mulher do presidente, Ana Cristina Siqueira Valle, foi convocada para depor pelo MP-RJ. Ela também é investigada por envolvimento em um suposto esquema de rachadinhas e emprego de funcionários fantasmas. Dessa vez, no gabinete do outro filho, Carlos Bolsonaro.

Ana Cristina é a mesma ex que ganhou uma capa da Veja após a revista ter obtido cópia de um processo no qual ela acusa Bolsonaro de ocultação de patrimônio, renda incompatível com a profissão do então deputado, agressividade e até um roubo. Não obstante, é aquela mulher que Jair já afirmou que não gostaria de ver por aí relevando os seus problemas do passado, mesmo que fossem verdadeiros.

O presidente, pelo visto, tem motivos para dormir com uma arma ao seu lado. A quantidade de fantasmas que tentam assombrá-lo a noite é gigante.


Eu escrevi e revisei (com preguiça) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.