A Nova Era – semana #50: os soldadinhos de chumbo do presidente

Pacote anti-crime aprovado sem as loucuras do Moro, ministros não sabendo da liturgia do próprio cargo e o país passando vergonha lá fora (outra vez). Não se esquece de mandar o link para o seu tio bolsominion. 


The following takes place between dec. 10 and dec. 17 


Desidratação do bem 

Na terça-feira (10), o pacote anti-crime foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Votado no dia seguinte em plenário, o texto foi para sansão presidencial. 

Boa parte das maluquices do ex-juiz Sergio Moro foram tiradas do texto por deputados e senadores com alguma ideia decente na cabeça. Saíram itens como a licença para matar (ou excludente de licitude, para os mais íntimos) e o acordo de “plea bargain”. As mudanças foram possíveis graças a articulações de parlamentares como Marcelo Freixo, que se destaca entre às esquerdas como uma das poucas pessoas daquele lado que é vista lutando pela segurança pública. 

E que também não perde tempo posando bonito para a foto em tempos de grande autoritarismo. 

Em uma entrevista dada para a Folha de S. Paulo, o ministro jurou que, se tivesse sido aprovada, a licença para matar não seria aplicável a casos como o da menina Ágatha. Afinal, o Brasil é um país em que nenhum PM mente sobre as suas ações quando dá ruim para tentar sair impune. Ou que mata até mesmo a memória de catador de lixo que tenta salvar gente inocente

Moro espera que o presidente vete os pontos que ele não gosta, como o do juiz de garantias (basicamente alguém que poderá impedir mais pessoas de apresentarem um comportamento pouco ético). O que é uma ótima estratégia, pois ajuda Bolsonaro a manter o seu discurso de que “o sistema é foda” e impede o presidente fazer o que deseja (mas não necessariamente é a vontade da maioria da população). 

Agora a mira dos lavajatistas de plantão é a prisão após a condenação em segunda instância, que deve ser votada só ano que vem. O Nexo explicou direitinho esse imbróglio

⬆️ gente que não deveria ter entrado 

O jornalista Sérgio Camargo foi removido da presidência da Fundação Cultural Palmares após determinação de um juiz federal do Ceará. O governo federal publicou a sua saída da instituição no Diário Oficial da União no final da quarta-feira (11). A instituição, que promove a cultura afro-brasileira e a luta contra o racismo deixou, até segunda ordem, de ter um presidente que é contra os movimentos que promovem a cultura afro-brasileira e a luta contra o racismo. 

Quem também perdeu direito a ocupar uma sala de direção no serviço público foi Luciana Rocha Feres. Ela ficou na presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por tão pouco tempo que faltou hora vaga para o estagiário procurar os podres da pobre coitada. Fica pra próxima. 

É básico 

A Câmara finalmente aprovou o novo marco regulatório do saneamento básico brasileiro. O texto, que agora abre espaço para a disputa pelo fornecimento de esgoto por empresas privadas – mas não obriga ninguém a contratá-las :( – é um grande avanço para o país. Pelo menos na opinião deste modesto blog. 

Os números de saneamento do nosso país são execráveis. Há lugar em que é mais fácil encontrar esgoto a céu aberto do que árvore na rua. As mudanças no modelo atual, portanto, são mais que bem vindas. Quem sabe agora a gente não consegue fazer aquilo que é básico. 

Em notas relacionadas, a oposição das esquerdas ao projeto foi um show de horrores. Os partidos que mais se prejudicam e criticam fake news em 2018 não perderam a oportunidade de utilizarem argumentos que não correspondiam ao texto em votação

Não adianta fazer troça do tio do Whatsapp se você gasta microfone da Câmara afirmando que um projeto obriga alguém a fazer algo que não virará obrigação após a publicação no Diário Oficial da União. 

Seria bom, por sinal, que as esquerdas explicassem de onde sairia o dinheiro para a universalização no caso de manutenção do modelo atual. Sempre considerando, é calro, que ele mal garante acesso a um bom sistema de esgoto para metade da população. Melhor do que sair por aí mentindo na cara dura. 

Ícaro tombou 

A juíza Selma, senadora pelo Mato Grosso que é apelidada como “Moro de saias”, caiu por cometer criminhos. O Tribunal Superior Eleitoral anunciou que o seu mandato está cassado por abuso de poder econômico e uso de caixa dois durante a sua campanha. 

Apesar de haver espaço para recursos, a senadora deve se afastar imediatamente do cargo. Os suplentes também se deram mal, já que não terão direito ao mandato. Ficará com a vaga o mais votado nas eleições que serão realizadas em breve no Mato Grosso. 

O advogado da juíza jura que ela está sendo condenada por ser uma ótima magistrada. O TSE, por outro lado, não tem dúvidas de que ela e os seus suplentes cometeram criminhos. 

A juíza deveria acreditar mais no poder do qual ela fez parte por tantos anos. Também cai bem não saí por aí dizendo que combate a corrupção e depois, quando é condenada por práticas ilegais, utilizar o mesmo discurso de sempre de quem é pego com as calças arriadas. Um pouco de originalidade não custa nada. 

A volta dos que não foram

A Lava Jato não morreu. A operação deflagrou nova etapa, dessa vez tendo como alvo o filho do ex-presidente Lula, Fábio Luis. Segundo os operadores do direito, Fábio recebeu dinheiro da Oi e utilizou a verba na compra do sítio em Atibaia mais famoso do país. Como agradecimento, o governo federal teria repassado benefícios financeiros à operadora. 

Há, porém, um pequeno problema nessa história. A princípio, por ser uma investigação que já aconteceu em São Paulo e não deu em nada. Depois, por ser algo que não se refere diretamente a delitos que passam pela Petrobras, que é o que trata a Vara Federal de Curitiba. Detalhes. 

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o ex-governador Sérgio Cabral assinou um acordo de delação premiada para a alegria de editores de jornais e revistas de todo o país. Junto com o acordo, vem a promessa de devolver R$ 380 milhões em propina (que ele já devolveu) e denunciar até mesmo ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Tribunal de Contas da União (TCU) e procuradores do MP-RJ. 

O acordo recebeu parecer negativo da Procuradoria Geral da República que não perdeu a chance de lembrar que o próprio Ministério Público Federal do Rio já tinha negado ao político uma chance de delatar quem ele quisesse. O que é justificável, tendo em vista que a essa altura do campeonato Sergio Cabral só não foi condenado pelas balinhas que ele deve ter roubado na vendinha da escola em que cursou o ensino médio. 

Em notas definitivamente relacionadas, 81% dos brasileiros acham, segundo o Data Folha, que a operação deve continuar. O dado mostra que, após mais de 60 etapas, os procuradores conseguiram manipular a mídia e o imaginário social de tal maneira que eles se tornaram, de fato, o sinônimo de combate a problemas na gestão da coisa pública. 

O trabalho, porém, não conseguiu fazer com que o agora ministro Sergio Moro passasse imagem semelhante para o governo federal. Metade dos entrevistados acham que o governo é péssimo ou ruim no combate à corrupção

Pelo visto, o brasileirinho ficará satisfeito apenas quando a operação virar uma verdadeira Inquisição Espanhola, sempre ponta para surgir das sombras para atacar os mais desavisados com suspeitas e acusações de todo tipo. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Vá com Deus 

O Estado de S. Paulo apurou que no prédio do ministério da Educação as caixas de mudanças estão cheias. O ministro Weintraub se prepara para não voltar ao cargo que hoje, infelizmente ocupa, após o fim de suas férias. Uma boa parte dos assessores já estão com o status de desempregado no LinkedIn, faltando apenas a vez dele ser confirmada. 

O ministro deve sair, principalmente, por pressões da equipe econômica. Para eles, Weintraub (que é cria de Guedes e não do Olavo de Carvalho) causa problemas demais e atrapalha o governo enquanto faz cosplay de Gene Kelly no Twitter. 

Weintraub entrou com força e vontade na luta para ser o pior ministro da Educação da nossa história recente e conseguiu o troféu com mérito. Atacou todo o sistema de ensino público e privado, de professores a tias da merenda. Mentiu, repetiu a mentira e quando acusado de mentir, fez-se de sonso e continuou na sua luta pela divulgação de novas mentiras. 

Nos seus meses à frente do cargo, Weintraub não conseguiu (ou sequer tentou) articular com as organizações do terceiro setor que trabalham com a luta por uma educação melhor. Tão menos se articulou com os profissionais do próprio governo para colocar em prática alguma ideia que fosse além do Future-se. O Fundeb, aliás, corre o mesmo risco que o Enem teve de não sair nesse ano. 

Na sua última passagem pela Comissão de Educação da Câmara, o discurso foi tão raso que até mesmo deputados que normalmente fariam vista grossa aos seus descalabros não deixaram de criticá-lo. Infelizmente, porém, ainda falta algum tutano para quem critica o ministro. Mas a torcida é forte para que Weintraub pegue logo o beco e vá falar absurdos em outros lugares do país. 

O seu saldo final será digno de vergonha. O ministro passou mais tempo alimentando militante bolsonarista na internet do que garantir que a educação melhorasse. Liberou dinheiro para as instituições vinculadas ao MEC apenas quando era tarde demais para qualquer centavo ser gasto e esqueceu de falar como será implementado um novo programa de alfabetização. 

Assim como o seu antecessor, não fará falta. 

Vem de zap 

Os caminhoneiros ainda tentam fazer a gente sentir saudades de quando o PIB nacional era movido por trens. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, já teria impedido sete tentativas de greves da categoria. E só negocia com quem tem feito ameaça de greve

Aliás, uma nova mobilização a favor de greve fracassou no começo da semana por falta de participantes. Os líderes das greves durante o governo Temer estavam ocupados limpando a bota do governo com a glote. Já os que tinham outras preocupações se irritaram demais com os discursos da CUT favoráveis ao movimento

O Brasil de hoje seria muito menos horrível se, no Brasil de ontem, JK não tivesse sido um desenvolvimentista carrocrata. 

Na volta a gente compra 

Não faz muito tempo que o governo começou a pensar em mudar o Bolsa Família e dar um caráter mais social à gestão atual. Começou com a promessa de um 13º que só foi garantido para 2019 após a Folha de S. Paulo apontar que o benefício corria o risco de não virar realidade. Já no começo do mês, os auxiliares do presidente resolveram criar um Bolsa Família para chamar de seu. 

Era um projeto simples. Aumentar a faixa etária de beneficiários para quem tivesse até 21 anos de idade. Se a casa contasse com um bebê de até 3 anos, o benefício aumentaria. Só faltava descobrir como a conta seria paga. 

Ao que tudo indica, ninguém descobriu o mapa da mina. Alegando falta de recursos (que até existem, mas foram consumidos pelas propostas de parlamentares que não fazem o tal do “toma-lá, dá-cá”), o Planalto resolveu guardar o projeto em uma gaveta. Ainda bem que ninguém tem que defender o governo em eleição municipal, não é mesmo? 

Não fazendo mais do que a obrigação 

Após mais uma semana com informações de que a PM fez o que faz de melhor (autoritarismo pra cima de pobre indefeso), João Dória resolveu brincar de político de centro liberal outra vez. O tucano afastou os 38 PMs que participavam da operação em Paraisópolis que não teve coordenador e só serviu para trazer mais desgraça para a história da favela. 

A resposta não só veio tarde demais, como também mostra de novo, novamente, mais uma vez, que de centrista e liberal o governador tucano não tem nada. Dória só agiu a favor dos mortos de Paraisópolis quando uma avalanche de vídeos, relatórios do Instituto Médico Legal e testemunhos apontaram que a PM paulista fez o que ela se tornou famosa por fazer, que é truculência com preto, pobre e favelado de dia (e professores públicos após o sol se por). 

Não é como se o paulistano estivesse precisando de motivos para apoiar Dória. Moradores de São Paulo desconhecem combinações de números de votação que não comecem com 4 e 5 desde o começo da década de 1990. Agora, se o desejo é se mostrar diferente de Bolsonaro, ele seguirá falhando miseravelmente enquanto aperta novos pregos no caixão do Partido da Social Democracia Brasileira. 

Não fazendo sequer a obrigação 

A 25ª edição da COP 25, que ocorreu em Madri, acabou no último domingo (15) com gostinho amargo. A conferência do clima era um dos poucos lugares no ambiente internacional em que o Brasil podia falar grosso com todo mundo. Afinal, éramos um exemplo de país que, apesar dos pesares, conseguia manter boas políticas de preservação do clima e projetos com foco sustentável. 

Não mais

O ministro da área, Ricardo Salles, foi para a COP sem propostas significativas, querendo pedir dinheiro onde não havia espaço para mendigar recursos (que o país jogou fora no passado recente) e um desejo imbatível de lutar contra tudo e contra todos. Quando não estava sendo cobrado pelos péssimos resultados que apresentou nos últimos meses, tentava passar a perna nos outros países durante as negociações da regulamentação do mercado de créditos de carbono

O governo que achou ruim que o documento final da conferência apontasse o óbvio (que oceanos e o uso da terra influenciam no clima). Tratou toda a COP-25 como um grande “jogo comercial”. Não à toa, teve como maior vitória poder levar dois prêmios “Fóssil do dia” para casa. 

Os absurdos que Bolsonaro falou nesta semana 

Em um discurso para prefeitos, o presidente afirmou, na quinta-feira (12) que colocará todos os ministros e integrantes de equipes ministeriais envolvidos em corrupção em um “pau de arara”

Sem brincadeira. O presidente mandou um “se aparecer [corrupção], boto no pau de arara o ministro” como quem pede uma garrafa d’água. 

O presidente também disse que Paulo Freire, declarado patrono da educação nacional em 2012, era um energúmeno. Também falou que a programação da TV escola deseduca e que investir na empresa, que tem um grande papel na entrega de material de qualidade para professores de todo o país, é jogar dinheiro no lixo. Parece até que ele se referia à ideia de passar revisionismo histórico conservador na telinha. 

O ataque, que certamente não está relacionado com as críticas contra a tentativa do governo de passar Olavo de Carvalho no canal, deu certo. O ministro da Educação encerrou o contrato com a associação responsável pela gestão da TV e mandou todo mundo sair do seu prédio. 

O tripé da moderação tem uma perna só 

Tornou-se comum dizer há uns meses que o governo tinha três pés de sustentação. O olavismo cultural, o liberalismo de Paulo Guedes e a moralidade de Sergio Moro. Hoje, passados quase 12 meses completos de muita aventura e arrombo autoritário, é difícil ver que algum analista estava certo ao afirmar que Guedes e o ex-juiz são tão diferentes assim do maníaco por ditaduras. 

Semana sim, semana também, há um ministro disputando o posto de melhor lambida de bota na imprensa. O liberal ministro da economia não perde a chance de avisar que, se for às ruas, o povo corre o risco de ouvir gritos por um novo AI-5. Trata a democracia como um pequeno detalhe do receituário do liberalismo clássico e insiste na (burra) ideia de que as liberdades podem caminhar em separado se a economia estiver mais aberta aos seus interesses. 

Moro, vendo que as chances de ir para o STF são nulas, resolveu mostrar a sua face autoritária para galgar o apoio do chefinho e se tornar candidato a vice em 2022. Tem se tornada notória, nas últimas semanas, a escalda do discurso autoritário do juiz. 

Travestido de um belo combate à corrupção (de quem não faz parte do governo e de sua base), o ministro atribui ao STF (!) a má avaliação do seu trabalho enquanto pessoa que trabalha contra criminhos. Ignora, porém, que a maior parte dos brasileiros não se importam de ver Lula livre. Até acham justo

boquinha fina com maior síndrome de doutor do país também não perde a chance de posar para a internet sendo subserviente ao governo. Ataca a imprensa quando ela não faz vista grossa para as suas ações e ignora completamente a liturgia do seu cargo. Trata as salas do ministério que ocupa como se fosse a sua casa. Mostra que, assim como Guedes, de democrático e moderado não tem nada. 

Moro deveria estudar melhor a Constituição que jurou um dia defender, frequentar umas aulas de teoria democrática na UNB e, depois, sair da vida pública e pescar no pantanal. Assim como o ministro da Educação, sua ausência não será sentida por ninguém que valoriza a democracia liberal. 


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Eu escrevi este texto e revisei ele sozinho e com fome. Apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

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