A Nova Era – semana #25: melindrando esse amor gostoso

The following takes place between jun-18 and jun-24


Mamata congressual, a primer 

Levantamento da Folha de S. Paulo indicou que, em média, 26 deputados saem do país mensalmente para destinos nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Voltadas para dar aos parlamentares “acesso a novos conceitos, políticas públicas e experiências legislativas úteis ao Brasil”, as viagens custaram, entre janeiro de 2018 e janeiro de 2019, R$ 3,9 bilhões aos pagadores de impostos.

Até aí, tudo bem. Viajar sai caro.

O que a reportagem também aponta é que a boa parte dos destinos envolvem cidades turísticas como Dubrovnik, que foi utilizada para gravar “Game of Thrones”. Outro deputado aproveitou para visitar Lisboa e Fátima, em Portugal, com direito a fotinha ao lado da estátua de bronze de Eusébio, um famoso jogador português que eu não sabia que existia. Na Nova Era, a mamata se reproduz e posta no Instagram.

Uma monarquia para chamar de nossa 

Enquanto dava uma pausa nas brigas sem necessidade com o Congresso, o presidente resolveu, mais uma vez, nos lembrar como um país sem ele seria ótimo. No sábado (22), Bolsonaro afirmou que o Legislativo tinha excesso de poder e que tentava transformá-lo em “rainha da Inglaterra”.

O blog fica de coração quentinho ao pensar em um primeiro ministro como Rodrigo Maia, que não é o herói que queríamos para esse governo, mas é o herói que merecemos.

Bolsonaro completou a sua fala criticando a possibilidade de um projeto que transferia a parlamentares o poder de fazer indicações para agências reguladoras. “Imagina qual o critério que vão adotar. Acho que eu não preciso complementar.”

Um palpite bobo: seria um critério melhor do que o utilizado por alguém que fez do poder público um cabide de emprego para seus parentes, seus filhos e os seus colegas ligados à milícia carioca.

Por último – e não menos importante – o presidente complementou o seu absurdo do dia afirmando que não há a menor necessidade do pacto entre poderes que ele mesmo resolveu fazer: basta apenas existir um sentimento do coração e da alma para que exista harmonia entre os poderes. O oposto do que alguém que apoiou maluco autoritário nas ruas contra o STF e o presidente da Câmara faria.

Esta semana, na reforma da Previdência 

O presidente, que fez esforço para articular pela reforma da Previdência apenas quando ela afetou a aposentadoria dos milicos, avisou que vai coçar muito a rola pequena e feia dele quando o assunto for reincluir os estados e municípios no projeto. Os governadores, caso queiram, terão que se virar para convencer os congressistas da necessidade do projeto ser aprovado com validade para todos os níveis do governo. Um grande dia para os abobados que insistem que o presidente trabalha arduamente por ela.

A brilhante ideia de Jair veio acompanhada da apresentação de um conjunto de destaques pelos deputados do PSL, que favorecem os profissionais da segurança pública. O presidente da comissão afirmou que é “surreal” que os deputados façam lobby por corporações. O blog fica se perguntando em que lugar Samuel Moreira esteve durante as eleições para ficar surpreso só agora.

Pirocoptero na cara da nação

Durante a semana, a reserva imoral do governo, digo, a reserva moral do governo Bolsonaro, foi ao Senado prestar contas sobre as mensagens reveladas pelo The Intercept. A visita de Sergio Moro à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) foi o show de horrores esperado por todos. Mas, para ex-juiz, foi um grand slam.

O ministro da Justiça conseguiu responder com cuidado a todas as questões feitas, mas sem responder o que era perguntado. Não contente, fugiu de muitas tentativas de apará-lo pela rabiola, e avisou: se as mensagens que não existem (para ele) apontarem criminhos (elas apontam), ele sairá do cargo de ministro.

Moro venceu a batalha do Senado não por aquilo que ele disse, mas sim pelo que não disse. O ex-juiz conseguiu, por mais de sete horas, dar respostas evasivas e fugir do ponto das perguntas com uma habilidade malufiana (e olha que alguns senadores estavam preparados com materiais de toda sorte). Acusou 52 vezes o The Intercept de sensacionalismo e repetiu, como um marido que abusa psicologicamente de sua esposa, mais de 30 vezes que as relações entre ele e Deltan eram absolutamente normais.

Quando cansado de repetir tais argumentos, lembrou que o Estado de direito poderia ser jogado às favas se isso fosse contribuir com o combate à corrupção. Ou colocasse Lula na cadeia (era muito importante colocar Lula na cadeia (importante para caralho (vai dizer que você não queria o Luis Inácio na cadeia? (se falar que não, é petista))).

Não é que esse fosse exatamente o ponto dos debates. Não era. Mas o argumento ganhou valor por lembrar aos lava-jatistas que a defesa do ministro ainda é importante. No final do dia, as desculpas foram boas o bastante para o presidente, que é a pessoa que mantém o ministro, ministro.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Uma bombada pelo amor de Deus, uma bombada por caridade 

A nova semana da #vazajato começou mostrando que Sergio Moro adora um apoio importante. O site The Intercept revelou, na noite de terça (18), que o atual ministro articulou com o procurador Deltan Dallagnol para poupar o ex-presidente – e príncipe – FHC das investigações da Lava Jato

Para o ex-juiz, o apoio do professor era importante demais para que a força tarefa arriscasse investigá-lo (ainda que o sociólogo tenha aparecido em vários depoimentos). Já o procurador do MPF apontou que a eventual prescrição de alguns supostos criminhos era detalhe bobo. O importante, para Dallagnol, era a construção da imagem de imparcialidade. 

Em notas não relacionadas, ambos não tinham motivos para dar pitacos sobre o caso. Qualquer investigação que eventualmente fosse feita em relação ao ex-presidente, seria feita longe das asas de Dallagnol e Moro. 

Em relação ao que estava sob o seu domínio, porém, Moro não perdeu a oportunidade de meter os dedos. Como um fabricante de dados viciados, o ex-juiz articulou com Dallagnol a escalação de procuradores nos depoimentos da Lava Jato. Tudo para garantir que apenas a defesa fosse composta por pessoas que Moro não gosta.

A pedido do ministro da Justiça, Dallagnol pediu a Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos integrantes da força-tarefa da Lava Jato, a substituição da procuradora Laura Tessler do time que participava das audiências do processo de Lula. Para evitar problemas, o procurador também pediu que Carlos fizesse tudo com cuidado, evitando deixar qualquer sinal da sua ação e ignorando a ética que o seu cargo exige.

Na manhã de domingo (23), o ex-juiz acordou inspirado. Foi ao Twitter para postar “Um pouco de cultural. Do latim, direto de Horácio, parturiunt montes, nascetur ridiculus mus” (“As montanhas partejam, nascerá um ridículo rato”, em português). O rato, provavelmente, era o pedido de desculpas que o ministro enviou aos tontos do MBL.

No mesmo dia, Moro apareceu em uma nova notícia da #vazajato, dessa vez publicada pela Folha de S. Paulo, outro veículo a validar o conteúdo das mensagens. A matéria do impresso aponta como os procuradores se articularam com Moro para impedir que o STF ficasse ainda mais irritado com o juiz, que dias antes tinha recebido um tapa na testa do STF por divulgar, ilegalmente, áudios do ex-presidente Lula conversando com Dilma Rouseff.

O modo vanguardista (inspirado nas experiências italianas) das ações da Lava Jato deram aos concurseiros bonitas coroas de louros. A operação prendeu gente grande, recuperou uma boa quantidade de dinheiro e revelou um enorme esquema de corrupção. Agora, o que a #vazajato traz, para os agentes da lei, é a possibilidade de carregar uma maravilhosa coroa de espinhos.

Ganhará a democracia e o estado de direito se as devidas punições forem aplicadas àqueles que fazem tudo para prender quem se corrompe, inclusive se corromper.

Privacidade pra quem? 

Enquanto todo mundo se perde no meio da bagunça que o presidente promove, Jair Bolsonaro decidiu flexibilizar o compartilhamento de dados de beneficiários do INSS com o setor privado. A chamada MP do pente fino (MP 871), que estabelece novas regras para acesso a benefícios como aposentadoria rural e salário-maternidade, não proibirá bancos e sociedades com contratos ligados ao INSS de utilizarem os seus dados para publicidade direcionada.

O governo se defendeu lembrando que já temos uma lei que trata do uso de dados pessoais, o que limitaria esse tipo de ação. Portanto, devemos todos ficarmos despreocupados, afinal, o Brasil é um país conhecido por ter empresas que não abusam das leis existentes, respeitam a privacidade de seus consumidores e sabem cuidar muito bem dos dados de terceiros.

Um presidente para a nação evangélica 

Pela primeira vez em nossa história, um presidente da República foi à Marcha para Jesus. Bolsonaro apareceu no evento para lembrar aos religiosos presentes que o seu grupo foi “decisivo para mudar o destino do país”. Se bots e criadores de notícias falsas fossem capazes de sentirem algo, ficariam incomodadíssimos com a falta de gratidão do presidente.

Justiça seja feita, Bolsonaro deve mesmo muito aos evangélicos. Boa parte do grupo religioso se agarrou a Jair com a mesma vontade que pregos grudaram Cristo na cruz.

Há aqueles que viram a eleição de Bolsonaro como uma oportunidade de voltar aos espaços de poder. Já outros olharam para o político como alguém com um grau de receptividade que ia muito além de uma simples visita a um templo ou à afirmação de que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor.

Como apontamos no blog, assim como Donald Trump, o presidente é visto por muitos como um enviado de Deus na terra. Mesmo que, na prática, a teoria de um político que trabalha em defesa pela família seja falsa, Jair Bolsonaro conseguiu se sagrar como um verdadeiro representante dos “homens de Deus” nas eleições de 2018.

Mas não é preciso fazer um longo retrospecto das ações do presidente após seu mergulho no rio Jordão: o que se tem aqui é apenas mais uma aliança em busca de poder do que uma aceitação dos valores de Cristo.

Ao colocar “Deus acima de todos”, como se o gosto por fazer papai e mamãe com o pai de Cristo fosse universal, Jair Bolsonaro reassumiu o seu compromisso com as pautas morais evangélicas, indo contra qualquer processo de pluralização da sociedade.

E por não ter o menor compromisso com qualquer coisa que vá além de uma “verborragia moralista e antiesquerdista”, o presidente foi o candidato perfeito para um grupo que sonha em acabar com tudo que os apoiadores dos marcos civilizatórios das Luzes conquistaram após o fim da ditadura. Indo além, Bolsonaro também é o aliado perfeito para ampliar o projeto de poder de parte dos protestantes, que sonham em reduzir a influência da Igreja Católica nos processos políticos da nação.

Está dando certo. 

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