A Nova Era – semana #22: um grande pacto com a puta que te pariu

The following takes place between may-28 and jun-03


O pacto de Schrödinger 

Na manhã de terça-feira (28), Jair Bolsonaro se reuniu com os presidentes do Supremo, do Senado e da Câmara para anunciar a criação de um novo pacto entre os três poderes (e tomar um cafezinho). O acordo, segundo informado, envolve temas como a reforma da Previdência e a criação de uma política nacional de segurança.

iniciativa do presidente, tomada dois dias após os seus cães de guarda saírem às ruas para brigarem contra os outros poderes, não valeu por 24 horas. No mesmo dia, Bolsonaro tentou lembrar a Rodrigo Maia que a sua caneta Bic é mais poderosa que a Montblanc utilizada pelo presidente da Câmara.

Eu perdi algo ou agora é o Bolsonaro quem coloca os pedidos de impeachment para tramitar?

Para todos os fins, não há a possibilidade de um presidente revogar um decreto utilizando outro decreto. Nem que seja para transformar reserva ambiental – em que ele foi pego pescando ilegalmente – em parque temático, com vista exclusiva para uma usina nuclear de funcionamento duvidoso. 

A Associação de Juízes Federais notou que essa coisa de pacto com todos os poderes não tem lá muita legalidade. Como bem lembraram os usuários de toga, não cabe ao Supremo realizar acordos políticos, especialmente se envolverem o julgamento da constitucionalidade de propostas no futuro (mas se for para retirar a descriminalização do uso e porte de drogas e a criminalização da homofobia das pautas da corte, pode).

Ao contrário do que pensa o presidente, o único “lado certo” que o Supremo deve se posicionar é o lado da Constituição brasileira. Não cabe ao judiciário ser consultor das ideias tresloucadas do Planalto. Parece óbvio, mas estamos falando do governo do homem que mal sabe ler um teleprompter

Também não há como os presidentes do Senado ou da Câmara subscreverem os programas do Executivo, como se fossem as agendas das casas legislativas. Não só é uma postura pouco saudável para a democracia, como também é algo difícil de ser realizado.

O pacto que o país precisa já existe. É a Constituição de 1988. Qualquer coisa além disso é conversa mole de governante buscando um photo op para o seu governo.

Sobra democracia em Brasília

O pouco autoritário e muito liberal governo Bolsonaro mandou avisar, por meio do seu Ministério da Educação, que “professores, servidores, funcionários, alunos, pais e responsáveis” não podem incentivar a participação de pessoas em protestos a favor da educação. Também informa, por meio da AGU, que “não pode haver professor sendo tendencioso, que atue como militante” no ambiente acadêmico.

André Mendonça avisou ao país e ao STF que, no entendimento do Planalto, “professores precisam ter um comportamento imparcial”. O blog recomenda a leitura de Foucault para os membros do governo, e lembra: os regimes totalitários pelo menos eram mais elegantes quando tinham os seus delírios autoritários.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Partido Novo digievolui para PSL Prime 

Quem chamou o partido Novo de PSDB Personnalité nos primeiros anos de sua vida deveria fazer um mea culpa. A cada live no Instagram a legenda parece, cada vez mais, com uma filial de luxo do PSL.

O ministro do Meio Ambiente é tão ruim, que conseguiu colocar pessoas que não se gostam sentadas em uma sala para falar mal dele. No Legislativo, o partido só não é mais fiel a Bolsonaro do que o próprio partido do Bolsonaro.

Em Minas Gerais, Romeu Zema continua mostrando que essa coisa de nova política não está com nada. Já avisou que pretende continuar pagando os seus secretários com jetons e não vai se obrigar a manter 70% dos cargos comissionados nas mãos de servidores concursados.

Não seria um problema o governador pagar as pessoas que para ele trabalham. O blog é contra essa ideia de que você pode trabalhar em troca de reconhecimento.

Mas não faz um ano que Zema deixou registrado em cartório que ninguém receberia salário, pelo menos até o pagamento dos profissionais concursados e dos pensionistas ser regularizado. Uma medida que, pelo visto, não só não será cumprida como também será tratada com o mesmo carinho que a minha gata trata os brinquedos que eu compro para ela.

Talvez seja uma boa ideia o serviço de consultoria contratado pelo partido para buscar candidatos a prefeito parar de focar em gente rica. Se os consultores começarem a trabalhar procurando pessoas que conheçam a administração pública, as chances de o Novo passar vergonha nos próximos anos serão muito menores.

O Novo já deixou claro que pobre não tem o perfil necessário para realizar política dentro da legenda. Assim sendo, que pelo menos tentem escolher candidatos que não farão promessas imbecis por puro desconhecimento da máquina pública, e que inevitavelmente se transformam em estelionato eleitoral.

Gang bang político

Enquanto a Joice Plagelmann e a Carla Zambelli brigam em praça pública, Alexandre Frota explode o PSL por dentro. O deputado federal não só avisou que Eduardo Bolsonaro não pode presidir a legenda, como também pediu uma auditoria completa das contas do partido.

Frota disse, com razão, que para o PSL ser um partido de verdade ele não pode ter “nome nem sobrenome”. Já Eduardo Bolsonaro acredita que o deputado e ex-ator pornô quer colocar “fogo no partido”. Uma forma bonita de dizer que frota quer foder com ele.

O blog apoia a iniciativa de Alexandre Frota. O deputado tem uma longa experiência em comer o cu alheio (sem areia e brita, infelizmente) e seria divertido ver como isso se daria em relação ao nome do Dudu (ou de outros membros de caráter duvidoso).

Osmar Terra e a luta contra a ilustração 

Nos últimos três anos, a Fundação Oswaldo Cruz gastou R$ 7 milhões de reais para fazer um censo sobre o consumo de substâncias lícitas e ilícitas no Brasil. Após descobrir que o resultado do trabalho não afirmava a existência de uma epidemia de drogas, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, atacou a instituição e proibiu a divulgação do levantamento.

Osmar Terra, que tem um diploma de medicina pela UFRJ, acredita que faltam critérios científicos para o trabalho, que vem a ser coordenado por um pesquisador que é core member do grupo da ONU em uso de drogas injetáveis e AIDS, professor honorário da Graduate School of Public Health, da Universidade de San Diego, nos EUA e “Outstading Reviewer” do College on Problems of Drug Dependence.

Para todos os fins, Sérgio Moro liberou o conteúdo, desde que o título fosse trocado de nome e as associações com o governo fossem removidas. Uma ideia que parece até boa, mas que pode gerar problemas para a Fiocruz.

O incrível caso do governo que até calado se posiciona de forma merda 

Há pouco mais de uma semana, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim, localizado em Manaus, acordou manchado de sangue. 15 pessoas foram mortas durante o período de visitação de familiares em função de brigas entre facções. 

A briga fez parte de um ciclo de assassinatos que ocorreram em presídios do estado., e entre domingo e segunda-feira, as cadeias do Amazonas registraram a morte de 55 detentos. O problema, aliás, já tinha sido avisado pela ONU em 2015.

Há, conforme lembrou Reinaldo de Azevedo, 70 organizações criminosas que operam no sistema prisional, matando, recrutando e garantindo que o número de mortes no país aumente. Tudo isso sem a facilidade para a compra de armas, que é o sonho do presidente.

A estes presos e aos familiares mortos, o presidente opta pelo pacto do silêncio. Já o ministro da Justiça, usou a morte de pessoas como palanque para as suas ações.

A postura porca do governo ocorre por todos os mortos serem perigosos comunistas? Eles merecem o tratamento desumano adotado no caso de Evaldo Rosa dos Santos?

Afinal de contas, Jair precisou de cinco dias para lamentar a morte do pai de família pelas mãos de militares. Já o MC Reaça, que se matou após descobrir que a sua amante (que ele também tentou matar) estava grávida, recebeu homenagem pública cinco minutos após a divulgação de sua morte.

O filho feio e sem pai chamado “articulação política do governo Bolsonaro” 

Bolsonaro foi deputado por quase 30 anos, um período muito maior do que outros presidentes brasileiros tiveram para aprender a lidar com o Congresso. Aparentemente, isso não foi o bastante para o cunhado de miliciano aprender como o governo funciona.

Enquanto perde tempo acusando o “centrão” (do qual fez parte) de não apoiar cegamente as suas agendas, o Executivo só conseguiu aprovar 1 de suas 27 proposições no Congresso. Nos últimos seis meses, quando as péssimas ideias não caducavam, elas eram reprovadas por simples falta de articulação de um Planalto que, pelo visto, acredita que os seus projetos tornam-se realidade na base da hashtag.

Tanto é verdade que, quando quer, o presidente consegue aprovar as suas ideias. Na segunda-feira (03), por exemplo, a MP do pente fino no INSS passou no Senado, após o Planalto fechar um acordo com partidos de oposição em torno da aposentadoria rural. Bastou conversar.

É sabido que, para o bolsolavismo, é conveniente o discurso de vítima do sistema. Mas a tese do bode expiatório tem os seus limites, como vários políticos viram no passado.

O presidente cai em contradição quando é forçado por Rodrigo Maia a anistiar multas aplicadas a partidos políticos, mas por outro lado, quando Bolsonaro sai do Planalto para prestigiar homenagem a humorista na Câmara, sem seguranças, e fode com a organização de todas as reuniões já agendadas por Rodrigo Maia, ele só está sendo bem grotesco.

Aliás, grotesco é o termo que define todos os passos da articulação do governo e a sua relação com qualquer outro poder. Basta lembrar, conforme narrou Matheus Leone no Twitter, como foi a votação da MP do pente fino do INSS na Câmara: enquanto o Major Vitor Hugo implorava para o PSL aprovar a Medida Provisória como enviada pela equipe técnica do próprio governo, os deputados do partido se debatiam contra o uso da palavra “gênero” para definir o gênero de quem cair na malha fina da Previdência.

A votação, por sinal, só saiu após o Planalto abandonar a MP do Código Florestal. Afinal de contas, no dia anterior, o governo foi incapaz de organizar a sua base para montar o quórum necessário para votar a medida contra o meio ambiente e a MP 871.

Nem Major Olímpio, líder do PSL no Senado, aguenta mais. Já são públicas as reclamações de falta de apoio da Casa Civil durante as votações, a ausência de orientações sobre o que deve ser defendido e quais são os discursos que podem ser utilizados. Imagina se ele não fosse líder do partido do presidente.

O mais incrível é que, enquanto Bolsonaro faz a sua palavra valer menos do que um pastel de queijo com caldo de cana, os novos estadistas do país são aqueles que, anteriormente, seriam considerados a escória da política.

Nem seis meses de governo e Bolsonaro já transformou a leitura de jornais no café da manhã o hate fuck do povo brasileiro.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Revisado pela Marinna e editado pela Luana.

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