A Nova Era – semana #25: melindrando esse amor gostoso

The following takes place between jun-18 and jun-24


Mamata congressual, a primer 

Levantamento da Folha de S. Paulo indicou que, em média, 26 deputados saem do país mensalmente para destinos nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Voltadas para dar aos parlamentares “acesso a novos conceitos, políticas públicas e experiências legislativas úteis ao Brasil”, as viagens custaram, entre janeiro de 2018 e janeiro de 2019, R$ 3,9 bilhões aos pagadores de impostos.

Até aí, tudo bem. Viajar sai caro.

O que a reportagem também aponta é que a boa parte dos destinos envolvem cidades turísticas como Dubrovnik, que foi utilizada para gravar “Game of Thrones”. Outro deputado aproveitou para visitar Lisboa e Fátima, em Portugal, com direito a fotinha ao lado da estátua de bronze de Eusébio, um famoso jogador português que eu não sabia que existia. Na Nova Era, a mamata se reproduz e posta no Instagram.

Uma monarquia para chamar de nossa 

Enquanto dava uma pausa nas brigas sem necessidade com o Congresso, o presidente resolveu, mais uma vez, nos lembrar como um país sem ele seria ótimo. No sábado (22), Bolsonaro afirmou que o Legislativo tinha excesso de poder e que tentava transformá-lo em “rainha da Inglaterra”.

O blog fica de coração quentinho ao pensar em um primeiro ministro como Rodrigo Maia, que não é o herói que queríamos para esse governo, mas é o herói que merecemos.

Bolsonaro completou a sua fala criticando a possibilidade de um projeto que transferia a parlamentares o poder de fazer indicações para agências reguladoras. “Imagina qual o critério que vão adotar. Acho que eu não preciso complementar.”

Um palpite bobo: seria um critério melhor do que o utilizado por alguém que fez do poder público um cabide de emprego para seus parentes, seus filhos e os seus colegas ligados à milícia carioca.

Por último – e não menos importante – o presidente complementou o seu absurdo do dia afirmando que não há a menor necessidade do pacto entre poderes que ele mesmo resolveu fazer: basta apenas existir um sentimento do coração e da alma para que exista harmonia entre os poderes. O oposto do que alguém que apoiou maluco autoritário nas ruas contra o STF e o presidente da Câmara faria.

Esta semana, na reforma da Previdência 

O presidente, que fez esforço para articular pela reforma da Previdência apenas quando ela afetou a aposentadoria dos milicos, avisou que vai coçar muito a rola pequena e feia dele quando o assunto for reincluir os estados e municípios no projeto. Os governadores, caso queiram, terão que se virar para convencer os congressistas da necessidade do projeto ser aprovado com validade para todos os níveis do governo. Um grande dia para os abobados que insistem que o presidente trabalha arduamente por ela.

A brilhante ideia de Jair veio acompanhada da apresentação de um conjunto de destaques pelos deputados do PSL, que favorecem os profissionais da segurança pública. O presidente da comissão afirmou que é “surreal” que os deputados façam lobby por corporações. O blog fica se perguntando em que lugar Samuel Moreira esteve durante as eleições para ficar surpreso só agora.

Pirocoptero na cara da nação

Durante a semana, a reserva imoral do governo, digo, a reserva moral do governo Bolsonaro, foi ao Senado prestar contas sobre as mensagens reveladas pelo The Intercept. A visita de Sergio Moro à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) foi o show de horrores esperado por todos. Mas, para ex-juiz, foi um grand slam.

O ministro da Justiça conseguiu responder com cuidado a todas as questões feitas, mas sem responder o que era perguntado. Não contente, fugiu de muitas tentativas de apará-lo pela rabiola, e avisou: se as mensagens que não existem (para ele) apontarem criminhos (elas apontam), ele sairá do cargo de ministro.

Moro venceu a batalha do Senado não por aquilo que ele disse, mas sim pelo que não disse. O ex-juiz conseguiu, por mais de sete horas, dar respostas evasivas e fugir do ponto das perguntas com uma habilidade malufiana (e olha que alguns senadores estavam preparados com materiais de toda sorte). Acusou 52 vezes o The Intercept de sensacionalismo e repetiu, como um marido que abusa psicologicamente de sua esposa, mais de 30 vezes que as relações entre ele e Deltan eram absolutamente normais.

Quando cansado de repetir tais argumentos, lembrou que o Estado de direito poderia ser jogado às favas se isso fosse contribuir com o combate à corrupção. Ou colocasse Lula na cadeia (era muito importante colocar Lula na cadeia (importante para caralho (vai dizer que você não queria o Luis Inácio na cadeia? (se falar que não, é petista))).

Não é que esse fosse exatamente o ponto dos debates. Não era. Mas o argumento ganhou valor por lembrar aos lava-jatistas que a defesa do ministro ainda é importante. No final do dia, as desculpas foram boas o bastante para o presidente, que é a pessoa que mantém o ministro, ministro.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Uma bombada pelo amor de Deus, uma bombada por caridade 

A nova semana da #vazajato começou mostrando que Sergio Moro adora um apoio importante. O site The Intercept revelou, na noite de terça (18), que o atual ministro articulou com o procurador Deltan Dallagnol para poupar o ex-presidente – e príncipe – FHC das investigações da Lava Jato

Para o ex-juiz, o apoio do professor era importante demais para que a força tarefa arriscasse investigá-lo (ainda que o sociólogo tenha aparecido em vários depoimentos). Já o procurador do MPF apontou que a eventual prescrição de alguns supostos criminhos era detalhe bobo. O importante, para Dallagnol, era a construção da imagem de imparcialidade. 

Em notas não relacionadas, ambos não tinham motivos para dar pitacos sobre o caso. Qualquer investigação que eventualmente fosse feita em relação ao ex-presidente, seria feita longe das asas de Dallagnol e Moro. 

Em relação ao que estava sob o seu domínio, porém, Moro não perdeu a oportunidade de meter os dedos. Como um fabricante de dados viciados, o ex-juiz articulou com Dallagnol a escalação de procuradores nos depoimentos da Lava Jato. Tudo para garantir que apenas a defesa fosse composta por pessoas que Moro não gosta.

A pedido do ministro da Justiça, Dallagnol pediu a Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos integrantes da força-tarefa da Lava Jato, a substituição da procuradora Laura Tessler do time que participava das audiências do processo de Lula. Para evitar problemas, o procurador também pediu que Carlos fizesse tudo com cuidado, evitando deixar qualquer sinal da sua ação e ignorando a ética que o seu cargo exige.

Na manhã de domingo (23), o ex-juiz acordou inspirado. Foi ao Twitter para postar “Um pouco de cultural. Do latim, direto de Horácio, parturiunt montes, nascetur ridiculus mus” (“As montanhas partejam, nascerá um ridículo rato”, em português). O rato, provavelmente, era o pedido de desculpas que o ministro enviou aos tontos do MBL.

No mesmo dia, Moro apareceu em uma nova notícia da #vazajato, dessa vez publicada pela Folha de S. Paulo, outro veículo a validar o conteúdo das mensagens. A matéria do impresso aponta como os procuradores se articularam com Moro para impedir que o STF ficasse ainda mais irritado com o juiz, que dias antes tinha recebido um tapa na testa do STF por divulgar, ilegalmente, áudios do ex-presidente Lula conversando com Dilma Rouseff.

O modo vanguardista (inspirado nas experiências italianas) das ações da Lava Jato deram aos concurseiros bonitas coroas de louros. A operação prendeu gente grande, recuperou uma boa quantidade de dinheiro e revelou um enorme esquema de corrupção. Agora, o que a #vazajato traz, para os agentes da lei, é a possibilidade de carregar uma maravilhosa coroa de espinhos.

Ganhará a democracia e o estado de direito se as devidas punições forem aplicadas àqueles que fazem tudo para prender quem se corrompe, inclusive se corromper.

Privacidade pra quem? 

Enquanto todo mundo se perde no meio da bagunça que o presidente promove, Jair Bolsonaro decidiu flexibilizar o compartilhamento de dados de beneficiários do INSS com o setor privado. A chamada MP do pente fino (MP 871), que estabelece novas regras para acesso a benefícios como aposentadoria rural e salário-maternidade, não proibirá bancos e sociedades com contratos ligados ao INSS de utilizarem os seus dados para publicidade direcionada.

O governo se defendeu lembrando que já temos uma lei que trata do uso de dados pessoais, o que limitaria esse tipo de ação. Portanto, devemos todos ficarmos despreocupados, afinal, o Brasil é um país conhecido por ter empresas que não abusam das leis existentes, respeitam a privacidade de seus consumidores e sabem cuidar muito bem dos dados de terceiros.

Um presidente para a nação evangélica 

Pela primeira vez em nossa história, um presidente da República foi à Marcha para Jesus. Bolsonaro apareceu no evento para lembrar aos religiosos presentes que o seu grupo foi “decisivo para mudar o destino do país”. Se bots e criadores de notícias falsas fossem capazes de sentirem algo, ficariam incomodadíssimos com a falta de gratidão do presidente.

Justiça seja feita, Bolsonaro deve mesmo muito aos evangélicos. Boa parte do grupo religioso se agarrou a Jair com a mesma vontade que pregos grudaram Cristo na cruz.

Há aqueles que viram a eleição de Bolsonaro como uma oportunidade de voltar aos espaços de poder. Já outros olharam para o político como alguém com um grau de receptividade que ia muito além de uma simples visita a um templo ou à afirmação de que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor.

Como apontamos no blog, assim como Donald Trump, o presidente é visto por muitos como um enviado de Deus na terra. Mesmo que, na prática, a teoria de um político que trabalha em defesa pela família seja falsa, Jair Bolsonaro conseguiu se sagrar como um verdadeiro representante dos “homens de Deus” nas eleições de 2018.

Mas não é preciso fazer um longo retrospecto das ações do presidente após seu mergulho no rio Jordão: o que se tem aqui é apenas mais uma aliança em busca de poder do que uma aceitação dos valores de Cristo.

Ao colocar “Deus acima de todos”, como se o gosto por fazer papai e mamãe com o pai de Cristo fosse universal, Jair Bolsonaro reassumiu o seu compromisso com as pautas morais evangélicas, indo contra qualquer processo de pluralização da sociedade.

E por não ter o menor compromisso com qualquer coisa que vá além de uma “verborragia moralista e antiesquerdista”, o presidente foi o candidato perfeito para um grupo que sonha em acabar com tudo que os apoiadores dos marcos civilizatórios das Luzes conquistaram após o fim da ditadura. Indo além, Bolsonaro também é o aliado perfeito para ampliar o projeto de poder de parte dos protestantes, que sonham em reduzir a influência da Igreja Católica nos processos políticos da nação.

Está dando certo. 

A Nova Era – semana #24: não fala que eu não te escuto

The following takes place between jun-11 and jun-17 


Direitos desumanos para humanos sem direitos 

A semana #24 do governo Bolsonaro começou com tudo. Na terça-feira (11), o presidente exonerou 11 integrantes do MNPCT (Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura). Mas espere! Isso não é um sinal de que o governo quer reduzir a capacidade esquerdistas de acusarem bem-intencionados agentes da lei de abusos contra os nossos detentos. Pelo contrário! Ele só quer deixar de pagar os responsáveis por tal atividade, já que essa coisa de trabalhar de graça dá certo em todo o planeta. 

Zema que o diga

Se você, assim como eu, não fazia a menor ideia de que o MNPCT existia (o governo é muito grande, parece o mar), segue o resumo. O órgão foi criado em 2013 com o objeto de estudar e fazer relatórios sobre violações de direitos humanos no país. Foram eles que avisaram às autoridades (in)competentes que o Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim) era um pequeno inferno na Terra. 

É importante reforçar que o governo nega que essa medida possa inviabilizar qualquer tipo de ação para combater a tortura dentro das cadeias. O fato do presidente acreditar que direitos humanos servem apenas para “humanos direitos”, certamente não deve ser visto como impulso para tal medida ainda que, na prática, ela inviabilize as ações do grupo. 

O Ministério Público estuda quais medidas podem ser aplicadas ao caso. Já a entidade Justiça Global denunciou o presidente à ONU

O jeito que o Supremo faz bagunça institucional é diferente 

Na última postagem, o blog avisou: basta um juiz mais amigo ficar de má vontade com Moro, que os advogados de defesa dos condenados pela Lava Jato poderiam sonhar com um final de semana tranquilo. 

Eis que, em um dos julgamentos da Segunda Turma do STF, Gilmar Mendes mostrou que ele pode ser essa pessoa. Ao lembrar da atuação de Rodrigo Janot no processo que estava sendo julgado, o ministro do Supremo afirmou que “juiz não pode ser chefe de força tarefa”. O que, bem, é a verdade. 

O importante, aqui, é que Gilmar não está sozinho. Pelo menos é o que revelou a coluna Painel, da Folha de S. Paulo. O jornal apontou que integrantes do STF e do STJ consideram as revelações da #vazajato a “pá de cal moral no veredito de Lula”. 

Resta saber, porém, até que ponto as instituições superiores considerarão os conteúdos do The Intercept como verdadeiros (e pesados) o bastante para anular as condenações da Lava Jato Afinal, fora da privacidade das entrevistas em off, gente como Barroso adota cautela. O ministro disse que não consegue entender a euforia de quem já fala em mudar a condenação feita pelo Moro, e que a Petrobras virou uma bagunça nas mãos do PT. Ou quase isso

A canetinha encolheu 

Não faz muito tempo, o presidente afirmou que a sua caneta era a mais poderosa da República. Só faltou a ele combinar com os russos, digo, os parlamentares. Em uma semana, o presidente acumulou uma boa quantidade de derrotas em cima das suas reais preocupações. 

Na quarta (12), o Senado avisou que o decreto que ampliava o porte de armas no país era ilegal. Por incrível que pareça, os Senadores as vezes lembram que a Constituição não é papel pra limpar urina de cachorro: decreto presidencial não pode alterar norma estabelecida por lei. Simples assim. 

Dos 24 votos, apenas 9 foram a favor da ideia imbecil do governo. O Major Olímpio, sempre muito ponderado, bradou que a recusa da MP gerará “festa na quebrada! Festa das facções!”. Faz o brasileiro pensar que a liberalização do porte nos levaria para o universo de uma revista em quadrinhos, em que ex-soldados se tornam justiceiros. Ou que somos todos capazes de fazer cosplay de John Wick. Não somos. 

No mesmo dia, a maioria dos ministros do STF deu um belo recado ao Planalto. Também não há como, por meio de decreto, extinguir os conselhos federais que estão previstos por lei (como é o caso da Comissão de Erradicação do Trabalho Escravo). 

Se o presidente quer, novamente, usar atalhos “à margem do figuro legal” em forma de canetada para golpear os avanços civilizatórios dos últimos anos, é melhor tentar outro caminho. Da forma que está, continuará dando errado – e não adianta falar que a culpa não é dele e que ele não teve tempo para aprender como o Congresso funciona.  

Na Lava Jato we don’t trust 

Como todo castigo é pouco para otário, o The Intercept continuou a série de vazamentos, agora, inclusive, com um novo aliado na apuração dos fatos. Na quarta (12), Reinaldo Azevedo divulgou em seu programa de rádio uma conversa entre Dallagnol e Sergio Moro. No papinho entre os dois concurseiros, Deltan informou que Luiz Fux, ministro do STF, mandou um belo “conte comigo pra tudo” para a Lava Jato.

Poucas horas depois, o The Intercept vazou mais alguns detalhes sobre como Deltan e Moro combinaram mais ações juntos do que aqueles casais que andam abraçados no supermercado. O ministro, por sinal, era bem fiel ao seu subordinado não oficial: segundo a Folha de S. Paulo, os advogados que trabalham na defesa dos acusados pela Lava Jato jamais tiveram tanta liberdade com o ex-juiz como o promotor do MPF tinha.

Bolsonaro, que foi a um jogo do Campeonato Brasileiro com o ministro da Justiça, seguiu calado sobre as notícias. Abrir a boca para falar sobre o tema, o presidente só abriria na quinta-feira (13). Disse que estava unido a Moro, e que o normal no Brasil é conversar “com doleiro, com bandido”.

Considerando a quantidade de criminhos que são cometidos no Brasil, é bem provável que seja verdade mesmo. Para o presidente – e a sua família –, por exemplo, é normal conversar com miliciano, empregar parente de miliciano, beijar a boca de filha de miliciano, morar perto de miliciano, passar pano para miliciano, tirar foto com miliciano e, nas horas não vagas, prestar homenagem para miliciano. 

Uma das coisas que as mensagens mostram – e que é divertido de ver – é a relação de submissão que Deltan tem com Moro (a ponto de outros procuradores ficarem incomodados com isso). O ex-juiz trabalhou como Relações Públicas da força tarefa e, no ambiente privado, não deixou de esconder a sua indisposição com a defesa de Lula

Ok, advogado não é gente e os do ex-presidente são mesmo um pé no saco. Mas não cabe a juiz fazer o que o ministro da Justiça fez. Não em uma república relativamente séria – o que não é lá bem o nosso caso, mas enfim. 

Enquanto Moro falava que tinha sido vítima de um ataque criminoso, a defesa do petista pediu a anulação da sua condenação com base nas provas ilegais (algo que Moro já tinha defendido anteriormente). O Nexo explicou

Para quem não anda com as bolas do lavajatismo na glote, ou simplesmente não é parte do conselho diretor do Grupo Globo, algumas coisas são claras. As revelações do The Intercept mostram, até o momento, que Moro e Deltan são péssimos em esconder as coisas que fazem naquela zona cinzenta entre o que é imoral e o que é ilegal

Os outrora defensores de vazamentos em favor do interesse público juram que as mensagens, antes normais, mas que eventualmente representam um descuido, são falsas – mas não indicam qualquer tipo de ilegalidade(???). Tudo isso com um olhar de ofensa que faz pensar que, na verdade, eles tiveram a sunga abaixada após saírem de uma piscina gelada.  

A #vazajato mostra que, de imparcial e compromissado com o combate à corrupção, os missionários da destruição não tem nada. Eles são, no máximo, compromissados com a sua própria agenda policialesca.

Isso não quer dizer, é claro, que não exista um grande grupo de pessoas dispostas a defender a síndrome de Batman tupiniquim de Moro em troca do “bem maior” (esta coisa não muito rara em terra brasileira). Mas, enquanto esse número não cai, o projeto anticrime e a ida de Moro ao Supremo Tribunal Federal estão virando miragem no horizonte de expectativas do ex-juiz. 

Defender que as condenações sejam revistas não é defender que gente que tem tudo para ser bands não é bands. É apenas desejar que todas as pessoas – poderosas ou não – sejam julgadas por um juiz que respeita os seus códigos de conduta no lugar de um que orienta como a acusação deve trabalhar o tempo todo e que considera as ações da sua defesa um “showzinho”. Até Maluf, o filhote mor da ditadura, merece isso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

A mentira da semana do Bolsonaro 

Após o STF criminalizar a homofobia, Bolsonaro afirmou que isso dificultaria a contratação de gays (??). A corte, para o presidente (que não acredita em classes), aprofundou a divisão de classes com a medida. Para Jair, não há a necessidade de criminalizar este ato de preconceito pois “a pessoa que discrimina, por si só vai ser deixada de lado” (corta para ele sendo eleito presidente). 

A bobajada do presidente, para variar, não se sustenta na verdade. Um estudo da consultoria McKinsey registrou que empresas com alta diversidade tem 33% mais chances de lucrarem. Diversidade e respeito a quem pensa diferente vende. Vende mais até do que licença de programa para gerenciar bot de Twitter em época de campanha. 

Dança dos poderosos I 

O governo Bolsonaro já pode pedir música no Fantástico por um novo motivo. O (agora) ex-ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz foi demitido da Secretaria de Governo, se tornando o terceiro membro do alto escalão a perder um cargo. Mais uma vez, alguém caiu por manter atritos com o Guru da Virgínia e o filho do presidente que exerce vereança no Rio de Janeiro e acha que conhece código morse.

presidente Carlos Bolsonaro, com a ajuda de Olavo de Carvalho, cozinhou Santos Cruz em banho maria por meses após ataca-lo nas redes sociais. Um dos motivos? O general não queria gente ligada ao núcleo olavista do governo metendo as mãos nos contratos da Secom e na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). 

Santos Cruz foi trocado por Luiz Eduardo Ramos, chefe do Comando Militar do Sudeste.  Ramos, que é pouco acostumado às práxis das articulações políticas, será responsável por articular politicamente o governo com os outros poderes

O novo ministro também terá novos poderes, antes não reservados a Santos Cruz. O general poderá barrar qualquer nomeação de segundo e terceiro escalão do governo. Isso inclui, mas não se limita, a todos os reitores que forem eleitos nos próximos anos pelas suas respectivas comunidades acadêmicas. 

Dança dos poderosos II 

O general Santos Cruz não foi o único que saiu do governo nos últimos dias. O perigoso Joaquim Levy, conhecido pela sua defesa das ideias marxistas em lugar nenhum, cansou de ser humilhado publicamente por Bolsonaro e pediu para sair. 

O pedido de demissão ocorre dias após o presidente falar que a sua cabeça estava à prêmio por cometer o crime de contratar alguém que, assim como Levy, também trabalhou para governos petistas. A fala de Bolsonaro, por sinal, foi acompanhada da compreensão e do ombro amigo de Guedes – direcionado para o presidente

Em notas não relacionadas, o ex-presidente do BNDES não estava demonstrando muita disposição em fazer photo-op com Bolsonaro para mostrar que a já aberta “caixa preta do BNDES” estava sendo aberta pelo seu governo. 

Também em notas não relacionadas, Joaquim Levy estava resistindo aos pedidos de Paulo Guedes para “despedalar” o banco em um ritmo maior do que aquele que estava sendo mantido desde o governo Dilma. Pois, ao contrário do que parte da atual base do governo tenta dizer nas suas tentativas de reconstruir a história, as pedaladas estão em processo de reversão desde antes do impeachment. Só não ocorreram em um ritmo que quebraria a viabilidade financeira do banco público. 

Entra no lugar de Joaquim Levy o sócio-diretor do BTG Pactual, Gustavo Montezano. O jovem tem pouca experiência com bancos públicos, alguma experiência com o mercado financeiro e muita experiência em fazer bagunça

Dança dos poderosos III 

Continuando a lista de pessoas que perderam carguinho no governo, temos o general do Exército da reserva Franklimberg Ribeiro de Freitas. Após pressão dos ruralistas, o militar foi removido da presidência da Funai.

Mas, ao contrário de Levy, Freitas não saiu pelas portas dos fundos. O que se viu na sua despedida foi um belo espetáculo de raiva

Em reunião com os servidores da fundação, Freitas disse que Bolsonaro está muito mal assessorado (o que não é mentira). Também acusou o cidadão Nabhan Garcia, secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, de falar sobre indígenas salivando ódio (o que deve ser verdade). Por último (e não menos importante), o general lembrou que a Funai é vista “como óbice ao desenvolvimento nacional” por boa parte do governo (o que definitivamente não é mentira). 

Dança dos poderosos IV 

Por último – e não menos importante – na nossa lista de novos frequentadores do RH do governo federal, temos o agora ex-presidente dos Correios. O general Juarez Aparecido de Paula Cunha foi demitido por cometer o crime de se comportar como “sindicalista”

Comportar-se como sindicalista, no caso, é falar que não quer a empresa pública que governa ser privatizada e tirar foto com alguns parlamentares de esquerda. O presidente, via de regra, contrata e demite quem ele quiser para os cargos que ele pode contratar e demitir a qualquer momento. A presidência deu a ele esses mimos. 

Mas é bem divertido ver o homem que chegou ao cargo político mais alto do país prometendo “desesquerdizar” a administração pública ser incapaz de contratar alguém para presidir uma empresa que ele quer privatizar que seja simpático a essa ideia. A internet está cheia de internautas que desconhecem como funciona o mercado de logística nacional, mas são loucos para acabar com a estatal. 

Até porque, ver o presidente não reconhecendo que pessoas podem viver em uma democracia pensando diferente de maneira harmônica é algo que não surpreende ninguém. Não quem acompanha minimamente a carreira dele desde os anos 1990. 

Imagine o que será do Planalto quando Jair souber que o general Luiz Eduardo Ramos tem proximidade com políticos de esquerda do PT e do PSOL.

E a reforma, hein? 

A reforma da Previdência andou mais um pouco, novamente à revelia das ações do Planalto. O relator do projeto, o deputado Samuel Pereira, apresentou o seu texto com sete mudanças em pontos críticos do texto que foi enviado por Paulo Guedes. O Nexo compilou todas as mudanças propostas pelo tucano

Se você não clicou no link (ou caiu no paywall), eis um resumo. Saem as mudanças na aposentadoria rural e no Benefício de Prestação Continuada. A desconstitucionalização da Previdência (importante para facilitar as reformas do futuro) ficou para outro dia. Faltou trocado nos bolsos da Câmara para isso. 

E o regime de capitalização, a tiete de Paulo Guedes? O vento levou. Estados e municípios na reforma? Se continuar assim, terão que fazer a tarefa em casa. Por último, e não menos importante, o relator afirmou que, a depender da sua vontade, professores se aposentarão com 57 anos. 

Ao anunciar o acordo partidário que permitiu a tramitação da reforma, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, não deixou de gastar elogios a Guedes, ao relator, aos líderes partidários, ao homem fantasiado de cachorro que passou uma tarde no prédio da Câmara, aos seus assessores e até mesmo à oposição. Afinal de contas, é importante valorizar todas as pessoas que de fato ajudaram na construção do texto

A reação do ministro da Economia, porém, mostra que os tempos do Chile de Pinochet deixaram marcas profundas na alma do ministro. O todo poderoso economista, em vez de agradecer a apresentação do relatório, afirmou que os parlamentares “mostraram que não há compromisso com as novas gerações. O compromisso com os servidores públicos do Legislativo foi maior do que com as novas gerações”

Vamos recapitular. O governo conseguiu colocar para votar um relatório A FAVOR da mais profunda reforma da Previdência da nossa história. Um projeto que não consegue apoio fácil nem nas mais autoritárias ditaduras. O ministro responsável pelo projeto reagiu reclamando que os políticos fizeram política para aumentar o apoio à proposta

Este governo é uma “usina de crises” e a base de geração energética é nuclear. 

E agora, para algo completamente diferente 

No começo da semana, Jair Bolsonaro criou um belo mecanismo anti-impeachment para o seu governo (e as outras esferas do executivo). Enquanto o decreto for válido, o TCU, sempre que desejar tomar qualquer tipo de decisão sobre as eventuais irregularidades praticadas por um agente público, deverá considerar “circunstâncias práticas que impuseram, limitaram ou condicionaram a ação do agente público”. Em caso de responsabilização, os atributos e as complexidades do cargo exercido pela pessoa sub judice também deverão ser levados em conta. 

Indo além, também decretou que o agente público só poderá ser responsabilizado por decisões e opiniões técnicas que forem emitidas caso ele “agir ou se omitir com dolo, direto ou eventual, ou cometer erro grosseiro, no desempenho das suas funções”. Erro grosseiro, no caso, será considerado “aquele manifesto, evidente e inescusável praticado com culpa grave, caracterizado por ação ou omissão com elevado grau de negligência, imprudência ou imperícia”. 

Eu pagaria um café com Dilma Rousseff apenas para ouvir o que ela pensa sobre esse decreto e o que acontece com quem demite o Levy. 


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #23: país rico é país sem brasileiro

The following takes place between may-04 and jun-11


As notícias que parecem da semana passada, mas não são 

Em 23 semanas de Nova Era, algumas coisas se tornaram repetitivas. Então, vamos começar uma pequena sessão aqui no blog focada apenas nesses pontos, pois já está bom de repetir o mesmo argumento toda semana. 

Vamos começar com gente do Legislativo apontando como o governo é muito ruim, até em fazer o básico do básico. Na noite de domingo (02), por exemplo, Rodrigo Maia afirmou que falta ao Planalto uma agenda para o Brasil, que aumente a produtividade da economia, crie empregos, dê remédios a quem precisa e melhore a qualidade da educação. 

O carioca também negou que o pacto dos três poderes foi fechado, afirmando que “o Onyx Lorenzoni avançou na informação sem uma construção política amarrada. Ele entregou um documento, ninguém leu, e ficou parecendo para a sociedade e a imprensa que a gente fechou aquele pacto. Zero verdade nisso.” 

Já Alcolumbre disse que o governo comete trapalhadas diariamente, e tirou do Planalto os méritos de uma futura aprovação da Reforma da Previdência. O que não deixa de ser verdade, uma vez que o próprio Bolsonaro acha que, uma vez entregue um projeto ao Congresso, ele deixa de ser problema do Planalto.

Como os bots do Bolsonaro tiram folga no final de semana, não teve hashtag no Twitter atacando Maia ou Alcolumbre. Também é possível que os responsáveis por acionar as postagens em série tenham se lembrado que precisam engolir ambos por mais dois anos.

Fazendo coro a Maia, o presidente da comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, Marcelo Ramos, também lembrou que falta a noção de prioridade para Bolsonaro. No seu Twitter, o deputado se queixou que Bolsonaro visita a Câmara para mudar o Código de Trânsito, mas não para ajudar na aprovação da reforma. Não é como se a aprovação do projeto estivesse garantida

Os militares seguem atuando como a voz moderada do governo. Segundo apontaram Vinicius Sassine e Bernardo Mello Franco, os generais próximos a Bolsonaro continuam tentando fazer o presidente deixar de ser um fantoche dos olavistas. 

Por fim, o PSL segue sendo uma bagunça. Na última semana o Major Olímpio, líder do PSL no Senado, partiu para cima da Joice Plagelmann (frase não literal), líder do governo no Congresso. O bate boca ocorre após o partido não cumprir o acordo firmado entre os seus membros, logo na primeira sessão conjunta das casas legislativas

Certas partes do noticiário se tornaram uma temporada da série Russian Doll. A diferença, aqui, é que morremos apenas de desgosto no final do dia. 

Never go full Ayn Rand 

Bolsonaro andou lendo A Revolta do Atlas, e o resultado vai te surpreender. Na terça-feira, o presidente atravessou as ruas de Brasília, bateu nas portas do Congresso, e entregou um projeto de grande importância para o cenário atual: um conjunto de alterações no Código de Trânsito Brasileiro

Se tudo der certo (para o “governo do revide”), em alguns meses o Brasil será o país em que: 

O presidente, que já anunciou o fim dos radares nas estradas federais dizendo que “ninguém é otário de fazer curvas em alta velocidade”, afirmou que os pais são completamente responsáveis e sabem que é importante levar os filhos em seus carros utilizando a cadeirinha.

O blog considera fofa a fé que Jair tem na inteligência do brasileiro, principalmente por terem sido as pessoas que nasceram na Terra de Santa Cruz as responsáveis por darem a ele cargos eletivos nas últimas décadas. 

Felizmente não há boa vontade dos agentes políticos brasileiros em apoiar essa sandice. Paulo Douglas, que é um dos autores da Lei do Descanso dos Caminhoneiros, chamou o texto de retrocesso imenso, e pretende contestá-lo na justiça.

Já a deputada Christiane Yeared, da base do governo, lembrou que, no mundo real, multa sai mais barato do que caixão. Também afirmou que, o custo das lágrimas que escorreram pelo rosto dela após o filho dela ser atropelado por um ex-deputado certamente deve ser menor do que o de uma cadeirinha infantil.

Houve liberal que apoiou a ideia do presidente, baseando-se no argumento de que o Estado não deve impedir alguém de ser imbecil. Houve também aqueles que afirmaram que as pessoas são completamente capazes de não colocarem a própria vida (e a vida de seus filhos) em risco.

Afinal de contas, qualquer pai responsável compraria cadeirinhas para as suas crianças após vaciná-las no posto de saúde mais perto de sua casa. Não é como se existisse gente por aí dando alvejante para os seus filhos.

Também houve aquele que confia plenamente na mão invisível do mercado, e disse que as empresas não contratariam motoristas que dirigem com o cu cheio de rebite. Todos falharam em informar como o resto da população se protegerá dos motoristas que não dirigirem sóbrios (responsáveis pela morte de muita gente), e de onde sairão os recursos para as crianças com pais pouco cuidadosos comprarem as suas próprias cadeirinhas. Elas pouparão o dinheiro da merenda para se protegerem por conta própria?

Cabe aos liberais (ou libertários) tupiniquins pararem de ir full Ayn Rand na defesa das suas ideias. O brasileiro é, foi, e continuará a ser muito burro. Basta lembrar o que jornalistas falaram quando o Maluf disse que não é legal andar por aí soprando fumaça no coleguinha.

Aliás, volta, Maluf! Entre um filhote da ditadura que comete corrupção de pobre e um que comete corrupção de rico, mas sabe que liberalismo não é bagunça, eu fico com o segundo. 

Liberalismo: tem, mas desgringolou

A história do liberalismo no Brasil é escrita em linhas mais tortas do que o traçado da BR 381. Quando não há gente falando que protecionismo econômico é livre mercado, os guardiões da Constituição resolvem apoiar a busca por atalhos para aumentar a liberdade econômica nacional. 

Pelo menos é essa a impressão que o STF passou ao liberar a venda de subsidiárias de estatais sem o aval do Congresso. Ignorando o que diz a Constituição brasileira, os gloriosos ministros fizeram um rebosteio argumentativo para justificar a possibilidade de o governo vender uma empresa, de maneira até então ilegal.

Veja bem, o blog não tem nada contra a venda de empresa pública. A depender dele, uma boa parte das estatais deixariam de existir, começando pela Infraero (vendam a Infraero. Eu não aguento mais a Infraero).

Mas se o governo quer mesmo sair por aí sendo malvadão e promover o desmonte da máquina pública, que o faça da maneira correta. Que mandem um projeto para modificar a lei vigente e, com isso, reduzir as chances de outras vendas pararem na justiça.

Pedir para o STF legislar só diminui (em vez de aumentar) a segurança jurídica que é necessária para avançar o processo de desestatização, que começou lá com o Collor. Não custa nada a Corte mudar de ideia e, em alguns anos, avisar que não pode mais vender subsidiária da Petrobrás sem o apoio do Congresso. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Liberal na economia, conservador de ideias ruins em tempo integral 

Bolsonaro lembrou que existem outros países na América Latina além da Venezuela. Após viajar para comer fast food nos EUA e falsificar a história em Israel, o presidente passou um tempinho na Argentina contando novas mentiras.

Na visita, Bolsonaro pediu que os nossos hermanos votassem “com muita razão e menos emoção“. Afinal de contas, já basta ele como imbecil de marca maior ocupando um cargo importante na região.

Após demonstrar que a educação da ditadura militar não é das melhores, o presidente anunciou um novo desejo imbecil: a criação de uma moeda comum entre os dois países, o “peso real”. A ideia é tão ruim, mas tão ruim, que fica difícil comentar sobre. Felizmente, o Banco Central do Brasil avisou que isso não é algo a ser levado a serio. Mesmo assim, Jair insistiu na ideia.

O fato é que a saga do presidente para destruir tudo o que foi criado após a ditadura não tem fim. Se o próximo alvo é o Plano Real, que finalizou com a hiper-inflação crônica do país, o blog, na posição de tiete do Plano Real, considera isso um motivo para impeachment.

No dia do meio ambiente quem derruba árvore é você 

O leitor sabia que o desmatamento é a questão ambiental que mais preocupa o brasileirinho? O blog não. E, a julgar pelas medidas tomadas pelo ministro do Meio Ambiente, o chefe da pasta também desconhece o dado.

Segundo a pesquisa global Earth Day 2019, o tema é mais importante até do que o aquecimento global. A informação foi divulgada na mesma semana em que o governo afirmou que insistirá em aprovar as mudanças no Código Florestal, que o Senado já falou que não quer fazer. Se sobrar tempo, Bolsonaro também tentará encontrar uma forma de extinguir parques ambientais por decreto.

Mas essa não é a única medida do governo brasileiro nas últimas semanas com a desculpa que ele não pode atrapalhar o coleguinha a destruir floresta. Veja algumas das coisas que o blog esqueceu de citar sobre a atuação do ministro, acusado de improbidade administrativa:

Não é de surpreender que o desmatamento da Amazônia tenha explodido nos primeiros meses de 2019. Quando Bolsonaro diz que a missão do seu governo é “não atrapalhar quem quer produzir“, ele está apenas tendo um impulso de sinceridade e humildade. No que depender da sua administração, a Amazônia se transformará em uma grande mistura de pasto e plantação de soja. Transgênica e com muito agrotóxico, se possível. 

E se depender do ministro responsável por cuidar do Meio Ambiente e do agronegócio nas horas vagas, não sobrará um centavo para as atividades que garantirão um futuro com ar respirável para os nossos filhos. Nessas horas, cabe a gente comemorar a existência de Sergio Moro. O ministro da Justiça liberou mais verba para o FDD. O aumento de 1.650% nas verbas auxiliará na criação de um modelo de avaliação de riscos para o uso de agrotóxicos no Brasil, e reduzir o impacto causado pela sua aplicação no meio ambiente

A Alemanha já notou que Bolsonaro só quer beber agrotóxico e cortar árvore. Os europeus avisaram que, a depender dos movimentos dos próximos meses, a sua carteira ficará fechada para o financiamento de um dos mecanismos mais antigos de proteção a floresta da Amazônia. A Noruega também já está mexendo os seus pauzinhos para impedir o governo de continuar a fazer merda.

O presidente pode continuar mentindo por aí e falando que o Brasil é um país que protege o meio ambiente com muito afinco. Enquanto existir imprensa livre nessa nação, poderemos acompanhar com cuidado as incisivas tentativas do seu governo para acabar com o nosso futuro.

A mulher de César caiu na net 

Há um ditado que diz que, a mulher de César não só deve ser honesta. Ela também deve parecer honesta. O blog, inclusive, já se utilizou dele para fazer título de postagem. Os membros da operação Lava Jato e o ministro Sergio Moro deveriam conhecê-lo.

Na noite de domingo (09), a versão brasileira do The Intercept começou a publicação de uma série de reportagens detalhando as relações entre Deltan Dallagnol e o atual ministro da Justiça. O material, colhido por uma fonte anônima, mostra como o ex-juiz aconselhou o funcionário do MPF, as articulações dos servidores públicos para impedir que o ex-presidente (e agora portador de um pau duraço) Lula desse entrevistas, e até mesmo as dúvidas que os concurseiros tinham sobre a sua capacidade de mostrar que o petista era o dono do tríplex mais famoso do Guarujá.

A força-tarefa da Lava Jato logo publicou uma nota em que não desmentia o conteúdo das publicações do site de Glenn Greenwald. Também afirmou que elas não revelam qualquer ilegalidade (mas nada falaram sobre o nível de ética das articulações feitas com o apoio do ministro da Justiça).

Os concurseiros também afirmaram que a sua atuação foi revestida de “legalidade, técnica e impessoalidade”. Marco Aurélio Mello discorda.

O mesmo MPF também afirmou que a pessoa responsável pelos vazamentos “praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público, à vida privada e à segurança” dos investigadores. Imagina se os servidores do órgão tivessem a mesma opinião quando alguém resolve divulgar conversa de jornalista com fonte, hein?

Os servidores públicos (que regularmente forçam a barra no entendimento da lei) também afirmaram que foi uma injustiça não terem sido contactados pelo Intercept antes da publicação da notícia. É sempre bom lembrar que a liberdade de imprensa existe e, em geral, empresa privada não é obrigada a seguir as vontades de concurseiro.

A força tarefa se queixou que os jornalistas do Intercept não são imparciais, algo que qualquer estudante de comunicação social do primeiro período do curso sabe que não existe. Imparcialidade, aliás, é devida aos juízes, que não devem prestar serviços de consultoria jurídica nos sábados, domingos e feriados.

Indo além, afirmaram que ultrapassar os limites de respeito às instituições e às autoridades é algo que prejudica a sociedade em vários níveis. Quem vê pensa que os concurseiros estavam falando daquele vazamento de ligação da Dilma com o Lula uns anos atrás.

Jornalista tem mais é que vazar dado de interesse público mesmo. O próprio Dallagnol já reconheceu isso quando foi de seu interesse, e da mesma forma, Sergio Moro lembrou que não podemos culpar jornalista por divulgar material vazado por terceiros.

Sergio Moro disse, no Twitter, que há “muito barulho”, e que uma “leitura atenta revela que não tem nada ali, apesar das matérias sensacionalistas”. Afinal de contas, o responsável por julgar criminhos orientar as pessoas responsáveis por apontar quem comete ilegalidades a fazer o seu trabalho é super normal.

Se os envolvidos no escândalo queriam parecer honestos e imparciais, o fizeram muito mal. Se parabenizar após uma manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff, afirmar que quer “limpar o Congresso,” e indicar até a ordem correta para a realização de operações está longe de ser algo ético. E não é só o blog que diz isso: a OAB também achou as ações dos funcionários do judiciário muito feias, e pediu que eles se afastassem até que tudo fosse esclarecido.

Gilmar Mendes, aquele que pouco fez nos últimos anos para impedir que operações contra a corrupção não chegassem em poderosos, já avisou que “o fato é muito grave”. Também tirou a bunda de cima do processo que questiona a suspeição do Moro.

O Congresso já se articula para usar uma CPI para ouvir o ministro da Justiça, e discute se há a necessidade de quebrar sigilos. Enquanto isso, Toffoli, Alcolumbre e Maia se reuniram para discutir as publicações do Intercept.

Não me assustaria saber que, entre a noite de domingo e a hora da publicação deste post, muita gente presa na carceragem da PF em Curitiba gozou gostosamente, lembrando que, no artigo 254, inciso IV, do Código do Processo Penal, está registrado o “juiz dar-se-á por suspeito, e, se não fizer, poderá ser recusado por qualquer das partes se tiver aconselhado qualquer das partes”. No país da Operação Satiagraha, qualquer passo em falso é motivo para gente poderosa ficar longe da cadeia.

Até o momento, isso não aconteceu. Muitas das coisas que foram reveladas pela Lava Jato são tão sólidas quanto a água que serve de apoio para os patinhos do sítio de Atibaia nadarem.

Porém, os alicerces para bons advogados saírem por aí questionando a atuação de Moro e seus amigos começaram a ser cavados apenas nessa semana. Vai ser divertido acompanhar o Reinaldo Azevedo fazendo pirocoptero na Band News, enquanto o Intercept revela os outros 99% que sabe.

Vale lembrar que a frase “o juiz brasileiro, na fase de investigação, tem uma postura passiva, apenas examinando pedidos da autoridade policial, do Ministério Público e da defesa, como também o faz durante a fase de tramitação da ação penal” veio do mesmo servidor que foi pego com uma postura ativa, auxiliando e cobrando pedidos do Ministério Público para dar mais força às suas acusações. As revelações, portanto, podem não ter um impacto jurídico imediato, mas certamente representam um baque para aqueles que pretendiam manter a opinião pública ao seu lado.

Em notas não relacionadas, o Dallagnol responderá a uma acusação de atuação política e quebra de decoro em um processo administrativo instaurado pelo corregedor nacional do MP, Orlando Rochadel. Por incrível que pareça, a notícia publicada pelo Painel da Folha de S.Paulo informa que o processo em nada tem a ver com o escândalo da semana: a acusação se refere às postagens feita pelo procurador durante as eleições para a presidência do Senado no começo do ano.

Para todos os fins, a gente pode sorrir pensando que não somos o Padilha. Imagina como deve estar dormindo o diretor ao saber que investiu dinheiro na escrita e gravação de várias cenas para o seu seriadinho mostrando o ex-juiz conversando com gente da PF e do MPF sobre o andamento dos processos quando o certo mesmo teria sido só mostrar uns prints de telefone?


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #22: um grande pacto com a puta que te pariu

The following takes place between may-28 and jun-03


O pacto de Schrödinger 

Na manhã de terça-feira (28), Jair Bolsonaro se reuniu com os presidentes do Supremo, do Senado e da Câmara para anunciar a criação de um novo pacto entre os três poderes (e tomar um cafezinho). O acordo, segundo informado, envolve temas como a reforma da Previdência e a criação de uma política nacional de segurança.

iniciativa do presidente, tomada dois dias após os seus cães de guarda saírem às ruas para brigarem contra os outros poderes, não valeu por 24 horas. No mesmo dia, Bolsonaro tentou lembrar a Rodrigo Maia que a sua caneta Bic é mais poderosa que a Montblanc utilizada pelo presidente da Câmara.

Eu perdi algo ou agora é o Bolsonaro quem coloca os pedidos de impeachment para tramitar?

Para todos os fins, não há a possibilidade de um presidente revogar um decreto utilizando outro decreto. Nem que seja para transformar reserva ambiental – em que ele foi pego pescando ilegalmente – em parque temático, com vista exclusiva para uma usina nuclear de funcionamento duvidoso. 

A Associação de Juízes Federais notou que essa coisa de pacto com todos os poderes não tem lá muita legalidade. Como bem lembraram os usuários de toga, não cabe ao Supremo realizar acordos políticos, especialmente se envolverem o julgamento da constitucionalidade de propostas no futuro (mas se for para retirar a descriminalização do uso e porte de drogas e a criminalização da homofobia das pautas da corte, pode).

Ao contrário do que pensa o presidente, o único “lado certo” que o Supremo deve se posicionar é o lado da Constituição brasileira. Não cabe ao judiciário ser consultor das ideias tresloucadas do Planalto. Parece óbvio, mas estamos falando do governo do homem que mal sabe ler um teleprompter

Também não há como os presidentes do Senado ou da Câmara subscreverem os programas do Executivo, como se fossem as agendas das casas legislativas. Não só é uma postura pouco saudável para a democracia, como também é algo difícil de ser realizado.

O pacto que o país precisa já existe. É a Constituição de 1988. Qualquer coisa além disso é conversa mole de governante buscando um photo op para o seu governo.

Sobra democracia em Brasília

O pouco autoritário e muito liberal governo Bolsonaro mandou avisar, por meio do seu Ministério da Educação, que “professores, servidores, funcionários, alunos, pais e responsáveis” não podem incentivar a participação de pessoas em protestos a favor da educação. Também informa, por meio da AGU, que “não pode haver professor sendo tendencioso, que atue como militante” no ambiente acadêmico.

André Mendonça avisou ao país e ao STF que, no entendimento do Planalto, “professores precisam ter um comportamento imparcial”. O blog recomenda a leitura de Foucault para os membros do governo, e lembra: os regimes totalitários pelo menos eram mais elegantes quando tinham os seus delírios autoritários.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Partido Novo digievolui para PSL Prime 

Quem chamou o partido Novo de PSDB Personnalité nos primeiros anos de sua vida deveria fazer um mea culpa. A cada live no Instagram a legenda parece, cada vez mais, com uma filial de luxo do PSL.

O ministro do Meio Ambiente é tão ruim, que conseguiu colocar pessoas que não se gostam sentadas em uma sala para falar mal dele. No Legislativo, o partido só não é mais fiel a Bolsonaro do que o próprio partido do Bolsonaro.

Em Minas Gerais, Romeu Zema continua mostrando que essa coisa de nova política não está com nada. Já avisou que pretende continuar pagando os seus secretários com jetons e não vai se obrigar a manter 70% dos cargos comissionados nas mãos de servidores concursados.

Não seria um problema o governador pagar as pessoas que para ele trabalham. O blog é contra essa ideia de que você pode trabalhar em troca de reconhecimento.

Mas não faz um ano que Zema deixou registrado em cartório que ninguém receberia salário, pelo menos até o pagamento dos profissionais concursados e dos pensionistas ser regularizado. Uma medida que, pelo visto, não só não será cumprida como também será tratada com o mesmo carinho que a minha gata trata os brinquedos que eu compro para ela.

Talvez seja uma boa ideia o serviço de consultoria contratado pelo partido para buscar candidatos a prefeito parar de focar em gente rica. Se os consultores começarem a trabalhar procurando pessoas que conheçam a administração pública, as chances de o Novo passar vergonha nos próximos anos serão muito menores.

O Novo já deixou claro que pobre não tem o perfil necessário para realizar política dentro da legenda. Assim sendo, que pelo menos tentem escolher candidatos que não farão promessas imbecis por puro desconhecimento da máquina pública, e que inevitavelmente se transformam em estelionato eleitoral.

Gang bang político

Enquanto a Joice Plagelmann e a Carla Zambelli brigam em praça pública, Alexandre Frota explode o PSL por dentro. O deputado federal não só avisou que Eduardo Bolsonaro não pode presidir a legenda, como também pediu uma auditoria completa das contas do partido.

Frota disse, com razão, que para o PSL ser um partido de verdade ele não pode ter “nome nem sobrenome”. Já Eduardo Bolsonaro acredita que o deputado e ex-ator pornô quer colocar “fogo no partido”. Uma forma bonita de dizer que frota quer foder com ele.

O blog apoia a iniciativa de Alexandre Frota. O deputado tem uma longa experiência em comer o cu alheio (sem areia e brita, infelizmente) e seria divertido ver como isso se daria em relação ao nome do Dudu (ou de outros membros de caráter duvidoso).

Osmar Terra e a luta contra a ilustração 

Nos últimos três anos, a Fundação Oswaldo Cruz gastou R$ 7 milhões de reais para fazer um censo sobre o consumo de substâncias lícitas e ilícitas no Brasil. Após descobrir que o resultado do trabalho não afirmava a existência de uma epidemia de drogas, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, atacou a instituição e proibiu a divulgação do levantamento.

Osmar Terra, que tem um diploma de medicina pela UFRJ, acredita que faltam critérios científicos para o trabalho, que vem a ser coordenado por um pesquisador que é core member do grupo da ONU em uso de drogas injetáveis e AIDS, professor honorário da Graduate School of Public Health, da Universidade de San Diego, nos EUA e “Outstading Reviewer” do College on Problems of Drug Dependence.

Para todos os fins, Sérgio Moro liberou o conteúdo, desde que o título fosse trocado de nome e as associações com o governo fossem removidas. Uma ideia que parece até boa, mas que pode gerar problemas para a Fiocruz.

O incrível caso do governo que até calado se posiciona de forma merda 

Há pouco mais de uma semana, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim, localizado em Manaus, acordou manchado de sangue. 15 pessoas foram mortas durante o período de visitação de familiares em função de brigas entre facções. 

A briga fez parte de um ciclo de assassinatos que ocorreram em presídios do estado., e entre domingo e segunda-feira, as cadeias do Amazonas registraram a morte de 55 detentos. O problema, aliás, já tinha sido avisado pela ONU em 2015.

Há, conforme lembrou Reinaldo de Azevedo, 70 organizações criminosas que operam no sistema prisional, matando, recrutando e garantindo que o número de mortes no país aumente. Tudo isso sem a facilidade para a compra de armas, que é o sonho do presidente.

A estes presos e aos familiares mortos, o presidente opta pelo pacto do silêncio. Já o ministro da Justiça, usou a morte de pessoas como palanque para as suas ações.

A postura porca do governo ocorre por todos os mortos serem perigosos comunistas? Eles merecem o tratamento desumano adotado no caso de Evaldo Rosa dos Santos?

Afinal de contas, Jair precisou de cinco dias para lamentar a morte do pai de família pelas mãos de militares. Já o MC Reaça, que se matou após descobrir que a sua amante (que ele também tentou matar) estava grávida, recebeu homenagem pública cinco minutos após a divulgação de sua morte.

O filho feio e sem pai chamado “articulação política do governo Bolsonaro” 

Bolsonaro foi deputado por quase 30 anos, um período muito maior do que outros presidentes brasileiros tiveram para aprender a lidar com o Congresso. Aparentemente, isso não foi o bastante para o cunhado de miliciano aprender como o governo funciona.

Enquanto perde tempo acusando o “centrão” (do qual fez parte) de não apoiar cegamente as suas agendas, o Executivo só conseguiu aprovar 1 de suas 27 proposições no Congresso. Nos últimos seis meses, quando as péssimas ideias não caducavam, elas eram reprovadas por simples falta de articulação de um Planalto que, pelo visto, acredita que os seus projetos tornam-se realidade na base da hashtag.

Tanto é verdade que, quando quer, o presidente consegue aprovar as suas ideias. Na segunda-feira (03), por exemplo, a MP do pente fino no INSS passou no Senado, após o Planalto fechar um acordo com partidos de oposição em torno da aposentadoria rural. Bastou conversar.

É sabido que, para o bolsolavismo, é conveniente o discurso de vítima do sistema. Mas a tese do bode expiatório tem os seus limites, como vários políticos viram no passado.

O presidente cai em contradição quando é forçado por Rodrigo Maia a anistiar multas aplicadas a partidos políticos, mas por outro lado, quando Bolsonaro sai do Planalto para prestigiar homenagem a humorista na Câmara, sem seguranças, e fode com a organização de todas as reuniões já agendadas por Rodrigo Maia, ele só está sendo bem grotesco.

Aliás, grotesco é o termo que define todos os passos da articulação do governo e a sua relação com qualquer outro poder. Basta lembrar, conforme narrou Matheus Leone no Twitter, como foi a votação da MP do pente fino do INSS na Câmara: enquanto o Major Vitor Hugo implorava para o PSL aprovar a Medida Provisória como enviada pela equipe técnica do próprio governo, os deputados do partido se debatiam contra o uso da palavra “gênero” para definir o gênero de quem cair na malha fina da Previdência.

A votação, por sinal, só saiu após o Planalto abandonar a MP do Código Florestal. Afinal de contas, no dia anterior, o governo foi incapaz de organizar a sua base para montar o quórum necessário para votar a medida contra o meio ambiente e a MP 871.

Nem Major Olímpio, líder do PSL no Senado, aguenta mais. Já são públicas as reclamações de falta de apoio da Casa Civil durante as votações, a ausência de orientações sobre o que deve ser defendido e quais são os discursos que podem ser utilizados. Imagina se ele não fosse líder do partido do presidente.

O mais incrível é que, enquanto Bolsonaro faz a sua palavra valer menos do que um pastel de queijo com caldo de cana, os novos estadistas do país são aqueles que, anteriormente, seriam considerados a escória da política.

Nem seis meses de governo e Bolsonaro já transformou a leitura de jornais no café da manhã o hate fuck do povo brasileiro.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Revisado pela Marinna e editado pela Luana.