A Nova Era – semana #21: a República da live no Instagram

The following takes place between May-21 and May-27  


Um golpe lento, gradual e inseguro? 

A semana começou ainda curtindo os efeitos do textinho compartilhado por Bolsonarochamando o país de ingovernável. Apesar de tentar negar que o filho feio não tinha pai, a mensagem estava “em consonância com o pensamento” do presidente, conforme afirmou o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros.

Sem uma base para chamar de sua e já colocando a palavra impeachment bem na frente das nossas saladas, o projeto de Fujimori resolveu governar da maneira mais populista possível e, se achando o próprio Ciro (o Grande, não o político cearense e xingador profissional), chamou o povo para fazer uma proto-guerra de proxy, e ir às ruas contra o Congresso e o STF. Afinal de contas, o fim do “toma lá, dá cá” não poderia ser feito na base de uma articulação republicana.

A ideia pegou tão mal, mas tão mal, que até mesmo os bolsonaristas de primeira ordem resolveram brincar de serem sensatos. Janaina Paschoal acusou o presidente de estar se alimentando de conspiração, e os meninos do MBL entraram para a lista de comunistas, avisando que não apoiariam esse tipo de postura (felizmente a internet tem memória e a atitude republicana dos anjos sem asa não durou uma semana). 

O Vem Pra Rua e o Nas Ruas se uniram ao MBL e também avisaram que não estariam no ato golpista. Apesar do apoio a pautas do governo, a coordenadora do Vem Pra rua e o porta-voz do Nas Ruas acusaram a manifestação de “confusa e dispersa” e negaram envolvimento na sua organização. Lambe botas de militar, para eles, só serve se for para pedir impeachment de político petista. 

Deputados também lembraram a loucura que é um governo partir para cima dos outros poderes, e o deputado Marcelo Ramos (PR), afirmou que o protesto “a favor da reforma contra quem é a favor da reforma” é “surreal”

No Senado, Rose de Freitas (Pode-ES) afirmou que o governo “não deixa o Congresso trabalhar” e chamou os líderes de ruins de serviço. Já Omar Azis (PSD-AM) chamou Bolsonaro para mostrar o pau que ele quer usar para matar cobras, e pediu que o presidente afirmasse quem estava fazendo chantagem. Otto Alencar, por fim, lembrou que todas as trapalhadas do governo foram provocadas pelo próprio governo.

O jornal Estado de São Paulo, o veículo com o melhor papel para limpar botina de militar do Brasil, começou a se perguntar se há um presidente no país. Parece que aquela decisão em outubro do ano passado não era tão difícil, né?

Na noite de sexta-feira (18), as ex-BFFs Carla Zambelli e Joice Plaglemann partiram para o tapa (virtual) no twitter, e passaram horas discutindo quem lambia mais a bota de Bolsonaro. Enquanto Joice mostrava que o couro brilha mais com a sua saliva, Carla cobrou da deputada (e plagiadora nas horas vagas) a presença nos atos de domingo.

No domingo (19), Eduardo Bolsonaro afirmou que não havia “nada mais democrático do que uma manifestação ordeira que cobra dos representantes a mesma postura de seus representados“. Quem lesse o tweet sem saber a autoria, poderia pensar que a postagem era uma referência aos atos contra os cortes de verba do MEC, e não uma manifestação do fascismo cultural.

Flávio Rocha, do Brasil 200 (e da Riachuelo), resolveu ficar em casa. O presidente do PSL, Luciano Bivar, também falou que seria melhor ver o filme do Pelé. Jair Bolsonaro, no final das contas, ficou em casa vendo as vídeo cacetadas do Faustão enquanto Carluxo atualizava o Twitter do pai com postagens de apoio à manifestação.

As manifestações de domingo foram horríveis, mas menos horríveis do que imaginávamos. Ver que o número de adoradores do Bolsonaro é menor do que o esperado (mas ainda é alto o bastante para ocupar uma faixa da Avenida Paulista), é tão bom quanto descobrir que você só precisará perder dois dedos e não uma mão inteira após um acidente.

O que a nova direita não entende é que, salvo os deputados do PSL e os governistas não oficiais do Novo, em nenhuma normalidade democrática alguém é obrigado a se unir a favor de um governo just because. Rodrigo Maia faz o que pode para a votação das reformas e outros projetos passarem, mas a articulação de uma reforma a favor, porém, deve ser feita pelo Planalto.

Bolsonaro chegou ao poder prometendo acabar com a venezuelização do país, mas ao contrário dos governos de Hugo Chaves e Nicolás Maduro, o presidente não esperou muito tempo para convocar os seus apoiadores para pressionar, nas ruas, os outros poderes a agirem conforme o desejo do Executivo.

Afinal de contas, o apoio do presidente aos protestos de domingo, ainda que se faça de inexistente, é claro. Tentar traçar tais manifestações como republicanas em função de meia dúzia de cartazes a favor de uma reforma que passará de qualquer jeito é fingir que o bolsolavismo é um movimento democrático e não um agrupamento de viúvas da ditadura.

Se o bolsolavismo quer um Congresso, um judiciário e uma imprensa que se curvem às vontades do mandatário executivo, talvez seja interessante buscar uma coroa em Petrópolis e transformar Jair Bolsonaro em um novo Luís XVI. Mas tomem cuidado: certamente há alguém disposto a amolar a lâmina de uma guilhotina nos rincões do país.

Uma guinada parlamentarista lenta, gradual e segura? 

O flerte com o “tudo ou nada” de Bolsonaro, naturalmente, não foi bem recebido por quem bate ponto na Câmara. A insistência no confronto azedou ainda mais uma relação, que já não tinha um gosto tão bom assim, com os parlamentares brasileiros e nos fez subir mais dois degraus na escadinha que vai em direção ao parlamentarismo branco.

Após colocar para tramitar a própria reforma da Previdência e a própria reforma tributária, Maia percebeu que não precisaria falar com quem já não falava tanto assim. Diante de mais um ataque indireto do Major Vitor Hugo, o presidente da Câmara afirmou que não há mais meios para consertar a relação com o líder do governo.

Talvez o homem que pode, a qualquer momento, colocar um impeachment para rodar, tenha cansado de explicar aos membros do governo (e seus apoiadores) como a política realmente funciona. Nesse clima amigável, a Câmara começou o dia 22, os trabalhos de votação da Medida Provisória 870 (aquela que validaria as mudanças nos ministérios feitas pelo governo no começo do ano).

Sai das asas de Damares Alves a Funai e dos braços de Sérgio Moro a Coaf (mas não para ir parar mas mãos do Fernandinho Beira-Mar). Em troca, o Centrão deixou de recriar os ministérios da Integração Nacional e das Cidades. Além disso, os auditores da Receita Federal ficariam proibidos de comunicar qualquer investigação sobre crimes financeiros.

A votação, naturalmente, foi tão bagunçada quanto qualquer coisa que envolve esse governo. Os deputados governistas pegaram em seus telefones e começaram a brincar de vlogueiros para convocar a sua militância a fazer pressão pela internet. Rodrigo Maia não curtiu muito e terminou a sessão antes que a MP 870 fosse votada.

A criação do Ministério das Cidades tinha sido acordada entre os principais líderes políticos do Executivo e do Legislativo. Ao ignorar esse acordo, o presidente minou ainda mais a sua capacidade de articular projetos nos próximos anos e, de quebra, deu mais motivos para deputados e senadores ignorarem os pleitos do Planalto.

Apesar dos pesares, Bolsonaro conseguiu passar o projeto pelo Congresso. Sobre a votação do texto no Senado, o presidente pediu com jeitinho para que os Senadores não mudassem nada do que os deputados tinham decidido. Falta só combinar com o PSD, que já tinha anunciado a vontade de apoiar a manutenção da Coaf com Moro.

O fato é que os deputados moderados que estão a favor das reformas já não escondem mais a sua insatisfação com o Planalto. Enquanto Jair torna a sua caneta Bic irrelevante e os deputados do PSL fazem picuinha com bobagem, o Congresso se fortalece na luta entre os poderes, que só existe porque o governo é burro demais para cumprir a própria palavra por 24 horas. Depois a gente vira parlamentarista e ninguém entende o motivo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

A nova direita é brega e mentirosa 

Witzel, Caio Coppola, Fábio Morgenstern e Joice Plagelmann. O que todos têm em comum? Uma crise de identidade pesada.

O governador do Rio de Janeiro foi pego mentindo no próprio lattes na última semana. O doutorado em Harvard nunca foi cursado, mas, para o ex-juiz, é uma fake news afirmar que ele não fez o que, no final das contas, não fez.

Se o governador mente onde estuda, Joice Plagelmann mente sobre o que escreve para se fazer da boa jornalista que nunca foi. A deputada do PSL tem um desejo incansável de usar ideias alheias, seja na hora de publicar matérias ou na hora de fazer Projetos de Lei. Seria Joice uma ancap que não acredita em propriedade intelectual?

Já Caio e Fábio adotaram “nomes artísticos” desde o começo das suas carreiras como comentaristas conservadores. Certamente uma tecnicalidade, como diria Caio. Não uma tentativa de esconder negócios paralelos.

A nova direita não é apenas brega. Ela mente o seu nome, mente a sua formação e mente sobre o que escreve. Para um grupo conservador que adora posar a favor da verdade e da moral, é bastante engraçado vê-los sendo pegos com “as calças arriadas” por aí.

É uma pena, porém, que ninguém perde o emprego na Jovem Pan ou no governo carioca por pequenas mentirinhas.

Um meltdown governamental lento, gradual e seguro? 

O saldo da semana é de que o governo continua perdendo força, e deixando de fazer política para brincar de briga de espadas. O que é um problema tanto para Bolsonaro, quanto para as nossas instituições e o país.

Existem hoje 143 deputados declaradamente na oposição. Para barrar projetos que demandem uma emenda constitucional, por exemplo, são necessárias apenas outros 62 votos contrários. Troco de bala.

No contexto em que a palavra impeachment está na boca não só do presidente, cai bem tomar cuidado e evitar que a corda que ele colocou em seu pescoço fique mais apertada.

A pressão que uma meia dúzia de abobados fez contra o Congresso nos últimos dias pode, a qualquer momento, se virar contra o próprio presidente. Basta lembrar o que aconteceu com Michel Miguel e Aécio Neves, em um passado não tão distante assim.

O governo já chega em seu sexto mês e, até agora, há pouco sinal de melhoria ou de avanço real nas principais promessas de Bolsonaro. A menina dos olhos de Sergio Moro, por exemplo, acumula mais poeira do que a boneca Annabelle no porão da casa de Ed e Lorraine Warren. Bobo é pensar que o bolsolavismo precisa de um Bolsonaro para continuar sobrevivendo: ele não chegou aqui com ele e, definitivamente, continuará aqui sem ele.

O governo já chega em seu sexto mês e, até agora, há pouco sinal de melhoria ou de avanço real nas principais promessas de Bolsonaro. A menina dos olhos de Sergio Moro, por exemplo, acumula mais poeira do que a boneca Annabelle no porão da casa de Ed e Lorraine Warren. Bobo é pensar que o bolsolavismo precisa de um Bolsonaro para continuar sobrevivendo: ele não chegou aqui com ele e, definitivamente, continuará aqui sem ele.

Não adianta Paulo Guedes aparecer nas páginas da Veja afirmando que o país pegará fogo se a reforma da Previdência não for aprovada, as mudanças no sistema previdenciário por si só, não criarão um cenário sólido o bastante para o país retomar o seu crescimento.

O ministro está certo ao dizer que o país pegará fogo se o cenário econômico não melhorar nos próximos anos. O que ele não nota, porém, é que enquanto ele estiver no seu jatinho em direção a um paraíso fiscal para chamar de seu, a principal fonte de fumaça será a casa em que Bolsonaro dorme.

Bolsonaro trucou. As “vozes cínicas do establishment” trucaram de volta e metade do Brasil continuará fazendo cocô no fundo do quintal.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Revisado pela Marinna e editado pela Luana.

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A Nova Era – semana #20: a ópera do fascista

The following takes place between may-14 and may-20.


A utilidade dos idiotas úteis 

Estudantes, professores e pessoas que não são de esquerda tomaram as ruas do país na quarta-feira (15) para protestar contra os cortes na educação. A primeira grande manifestação de rua contra o governo de Jair Messias aconteceu no mesmo dia em que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, compareceu ao plenário da Câmara para explicar o contingenciamento de verbas. 

Apenas o partido do presidente e sua linha auxiliar, digo, o Novo (mas se quiser chamar de PSOL de direita, pode), votaram contra a convocação. No mesmo dia, o plenário declarou obstrução a votação das MPs enviadas pelo Planalto. Mas como um governo conseguiu perder de maneira tão vergonhosa a luta contra uma manobra iniciada pela oposição? 

Parlamentares, incluindo aí os líderes de Patriota, Novo, Cidadania (ex-PPS), PSC, PSL e do governo, afirmaram, na tarde de terça (14), que o presidente teria ligado para o ministro da Educação e ordenado a suspensão dos cortes na área. Assim que a ordem tivesse sido dada, um irritado Onyx Lorenzoni teria entrado na sala do gabinete presidencial para conversar com Jair Bolsonaro em particular. 

Até aí, tudo bem. 

Acontece que Bolsonaro não pode sustar um contingenciamento pelo telefone, afinal de contas, ele já foi determinado pelo Ministério da Economia. O que restou aos líderes? Serem desmentidos em praça pública

A Casa Civil disse que a informação não procedia. O Ministério da Economia informou que “não houve nenhum pedido por parte da Presidência da República para que seja revisto contingenciamento de qualquer ministério”. Joice Plagelmann chamou a declaração de “boato barato”. 

Os políticos, obviamente, não gostaram

Houve gente afirmando que não era mentirosa, cega, surda ou muda. Dobraram a aposta, reforçaram que o presidente fez a ligação para o ministro e alertaram: o governo pagaria caro pela mentira

Em sua apresentação inicial, o ministro da Educação errou dados, tratou de modo incorreto indicadores e tentou cobrir de tecnicismo o seu revanchismo ideológico. Perguntou se os deputados sabem o que é uma carteira de trabalho, disse que o dinheiro acabou, defendeu que o governo desse um salário mínimo para alunos de licenciaturas com notas altas no Enem. 

Partidos de diferentes partes do espectro político aproveitaram a oportunidade para humilhar mais um ministro da educação de Bolsonaro. Chamaram Weintraub de “debochado” e “covarde”. 

Houve político apoiador do governo reclamando que, os políticos, no lugar em que se faz política, estavam fazendo política ao discutir as ações políticas em uma sessão criada com motivações políticas. O destaque do blog vai para a deputada comunista e portadora de grelo duro Jandira Feghali, que, relembrando a fala do ministro em um evento de direita, perguntou se ela merece levar tiro na cara como qualquer pessoa que acredita no fim do capitalismo. 

O ministro da Educação, assim como o seu antecessor, é um ignorante por não ter os conhecimentos para o cargo que ocupa. É um ressentido, por utilizar o poder como forma de se vingar da academia que não permitiu que ele alçasse voos mais altos do que as suas asas o permitiam. A prova máxima de que terapia é algo importante e capaz de evitar estragos que afetam milhões

Enquanto o ministro pagava caro pela mentira no plenário, nas ruas do país multidões promoveram a balbúrdia contra Weintraub. O que se viu nas imagens de todas as capitais e 200 outras cidades era a prova de que a estratégia adotada pelo governo deu mais errado do que o esperado. 

As camisas utilizadas pelo “pessoalzinho” que ficou sem dinheiro não tinham estampas apenas do PCO ou da campanha Lula Livre. Elas estavam coloridas com diferentes cores e mostravam algo inédito: nunca um presidente colocou tanta oposição na rua com tamanhna velocidade em seu primeiro ano no poder. 

Resta saber agora o que cai mais rápido: Bolsonaro, o índice Bovespa ou o ministro da Educação. 

Tudo pequenininho aí? 

Não é só o mercado que está reduzindo as previsões de crescimento do PIB. O governo confirmou, na terça-feira (14), que a sua previsão foi reajustada de 2% para 1,5%. Quem poderia imaginar que a economia não cresce na base de tweet raivoso, não é mesmo? 

001 e o homem que lavava dinheiro demais 

A semana não começou muito bem para o senador Flávio Bolsonaro. Tão menos terminou digna de sorrisos. 

Na segunda-feira (13), soubemos que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) autorizou a quebra do sigilo fiscal do filho do presidente e do ex-policial militar Fabrício Queiroz em 24 de abril. Também terão as contas vasculhadas a mulher de Flávio, a empresa de ambos, a mulher de Queiroz, as suas duas filhas e outras 90 pessoas e empresas. O pedido foi realizado pelo Ministério Público do Rio, que também afirmou que Flávio tentou, algumas vezes, interromper as investigações

Flávio, que deve ter visto alguns vídeos de discursos do ex-presidente Lula, afirmou que as investigações são ilegais e que devem ser anuladas. Falhou, porém, em justificar as movimentações bancárias em suas contas bancáriasLágrimas jamais provaram a inocência de alguém. 

Segundo informações da revista Veja, o senador movimentou uma quantia milionária com a compra e venda de imóveis entre 2010 e 2017. O processo lembra uma das práticas básicas de um dos manuais de lavagem de dinheiro utilizados por mafiosos e outros tipos de criminosos: a compra de algo por um valor abaixo do preço de mercado e a sua revenda superfaturada. 

Mas que fique claro: o blog não acredita que Flávio seja um mafioso. Ainda que os Bolsonaros tenham mantido os seus negócios estranhos em família, beijado filho de criminoso, tirado foto com bands, morado ao lado de miliciano e ganhado voto em área dominada por assassinos, falta inteligência ao clã para serem batizados de Corleones brasileiros. 

Você tem um minuto para ouvir a palavra do bolsonarismo cultural? 

Como não existem problemas em sua família ou mesmo no seu governo, Bolsonaro foi passear. Dessa vez, no Texas. 

Após ter todas as portas fechadas em Nova York, Jair e a sua trupe fizeram turismo com o dinheiro público em uma cidade de baixa relevância para receber o prêmio de Personalidade do Ano concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. O prefeito da cidade, assim como o de Nova York, ignorou a visita

Sobrou para o ex-presidente George W. Bush. Sem aviso prévio, a comitiva de brasileiros bateu na porta do republicano para um chá. Ele não teve a sorte de Mike Pompeo, que conseguiu fugir de Bolsonaro em Nova York e no Texas

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Falta um chá de camomila ao presidente 

Jair Bolsonaro está muito irritado. Nos EUA, quando questionado sobre os protestos, Bolsonaro afirmou que os manifestantes eram “idiotas úteis, uns imbecis” e “massa de manobra”, que não sabem a fórmula da água. Sobrou até para uma repórter da Folha de S.Paulo

Ao ser questionado sobre as investigações que atingem o seu filho, afirmou que estavam realizando um “esculacho” em cima do anjo sem asas que bate ponto no Senado. Disse, também, que se quisessem atingi-lo, deveriam partir para cima do homem de 75 kg. 

Cabe ao presidente um chá de camomila, uma amitriptilina ou até mesmo um cigarrinho do capeta. Ou dormir mais. Estresse prejudica a expectativa de vida de qualquer pessoa e, bem, não queremos o presidente abandonando o cargo por uma morte precoce (mas por outros motivos, pode).

A terceira guerra mundial será tributada 

Na última semana, EUA e China deram uma nova escalada a sua guerra tarifária. Beijing anunciou as suas intenções de impor tributos em até US$ 60 bilhões de produtos que são importados dos EUA pelo país. Na sexta-feira (10), Trump já tinha anunciado um aumento de impostos em até US$ 200 bilhões de produtos. 

O bate-boca entre o não liberal Donald Trump e o iliberal governo chinês começou com o presidente americano reclamando do déficit na balança comercial entre os dois países. Washington também acusa a China de obrigar qualquer empresa que atue no país a realizar transferência de tecnologia – algo que Beijing nega. 

Sobrou até para a fabricante de tecnologia móvel Huawei. Empresas americanas como Google e Intel começaram a segunda-feira anunciando o fim das relações com a companhia responsável pela maior parte da infraestrutura de 5G brasileira e europeia (e uma das maiores fabricantes de telefones do mundo). 

O golpe veio no mês em que os telefones da marca são lançados no Brasil, o novo mercado em que a companhia pretende atuar. O Henrique Martin, do Ztop e da ótima newsletter Interfaces, explica melhor o que houve

A guerra tributária entre os dois países já fez o FMI diminuir a previsão do PIB mundial três vezes. Sem uma resolução clara a vista, o banco prevê o pior crescimento desde 2009: 3,3% de aumento. 

O Brasil pode, a princípio, se beneficiar. Em alguns mercados, competimos com a economia americana com igual nível de qualidade. Mas, quando consideramos o papel que a China tem para o mercado mundial, é impossível negar que a nação asiática pode foder com todo mundo rapidamente. 

O tiozão do Power Point moderno acha que é Ciro II 

O governo Bolsonaro diminuiu o horizonte de expectativas do brasileiro para o dia seguinte. Dormimos à espera não de um futuro próspero, mas sim do absurdo antidemocrático que estará nas capas dos jornais ao acordarmos. 

Nas suas redes sociais, Jair Bolsonaro compartilhou um vídeo em que um pastor afirma que o presidente foi “escolhido por Deus”. Um Ciro II, como dizem ser Donald Trump. “Não existe teoria da conspiração” (nesse caso) para o presidente. Há, porém, uma “mudança de paradigma na política”. 

O blog concorda. Fomos de uma política pouco institucional, mas funcional (e que permitia avanços lentos e graduais), para uma política nem um pouco institucional ou funcional. Jair Bolsonaro está, dia após dia, brigando contra as bases da nossa República e destruindo qualquer apoio ao seu governo. 

O presidente começou o ano com pouco mais de 1,83m de altura. Cinco meses depois, se encolhe ao compartilhar, no Whatsapp, um texto que trata o país como “ingovernável” fora dos “conchavos políticos”. Criticado, o presidente fez de conta que o filho feio não tinha pai

Enquanto passam o tempo se divertindo no telefone, os bolsolavetes distribuem o que seria de sua responsabilidade a ministros e líderes de outros poderes. Esperam, com suas pernas cruzadas (de um modo hétero, que fique claro), que o Congresso aprove as ideias do Planalto sem negociar ou votar contra. Da mesma maneira, se assustam quando há discordância na sociedade civil. 

Quem poderia imaginar que na democracia liberal há pluralidade de pensamento, não é mesmo? 

A Nova Era tanto forçou que recuperou a Teoria da Ferradura. Os militantes do bolsolavismo se comportam como os membros de um movimento estudantil liderado por gente do PCR: para não ser vítima de expurgo, é necessário sempre seguir o grande líder de maneira acrítica e servil. Aos que exercerem a menor oposição, a fogueira. 

Em meio a paranoias, promoção de hashtag com erro de português e autoritarismo, os templários brasileiros jogam um jogo em que todos os resultados os levam à vitória. Se o Brasil terminar de afundar, a culpa é da mídia, do judiciário e da classe política, dominada por filósofos e comunistas ocultos. Se o país sair do abismo em que se encontra, o mérito é da política da Nova Era, que foi capaz de curvar Deus e o Diabo para destruir (e reconstruir) a nação. 

O grande problema do país não é a classe política (ainda que ela ajude bastante). É um grupo de lunáticos que tomou o poder com um discurso conservador, reacionário e caretão. Um bando de bolsolavetes que adoram o poder, mas detestam governar. Mas sobre isso eu falarei com mais calma na semana que vem. 

Enquanto isso, o pato virou sapo e o vice está virando príncipe


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Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #19: tiny dick country

The following takes place between may-07 and may-13. 


Não se prende uma idéia 

No começo da semana, a denúncia contra Michel Miguel tornou-se pública. O presidente, que agora pode pedir música no Fantástico pela segunda vez, mal sabia que este era apenas o primeiro dos problemas que ele enfrentaria até a publicação deste post.

Na quarta-feira (08), os desembargadores do Tribunal Regional da 2ª Região anularam o habeas corpus que foi concedido em março ao libriano. Isso levou o ex-presidente a ser preso preventivamente pela 2ª vez neste ano.

Com “toda tranquilidade e com toda serenidade”, Michel Miguel aguardou o Superior Tribunal de Justiça conceder a ele um novo habeas corpus. Novamente, a justiça foi feita. Temer, que antes de ser um político e um ex-presidente, é uma ideia, voltou aos braços do povo.

O blog aguarda com carinho a versão de “Memórias do Cárcere” do nosso vampirão.

Tiny dick economy

Na economia, o que já não estava bom, piorou mesmo após dar sinais de que talvez não ficaria tão ruim. Em março, 43 mil vagas de empregos formais foram fechadas. Há gente vendendo a cueca para comprar a pipoca da janta e a nossa população já está endividada nos mesmos níveis de 2016.

A imprensa também informou que, após 21 anos, deixamos de ser um dos 25 melhores países para investir conforme a lista elaborada pela consultoria A.T. Dois anos atrás o país era o 17º colocado no ranking.

Se o presente não é melhor do que o nosso passado, o futuro também não é promissor. Além da bomba que poderá estourar no próximo mês, o governo lida com um conjunto de cinco litígios no STF que podem gerar um gasto de mais de R$ 147 bilhões.

Mesmo sabendo que faltará dinheiro inclusive com a reforma da Previdência, Bolsonaro anunciou que o governo realizará a correção da tabela do imposto de renda pela inflação a partir de 2020. Uma medida fiscalmente justa, mas que pode gerar perda de arrecadação em um cenário onde Paulo Guedes conta as moedinhas nos cofres do Tesouro para pagar a conta de luz.

Uma forma de reduzir o problema seria o fim do sistema de dedução de gastos com saúde e educação do IR. Ideia de Paulo Guedes, esta é uma das poucas boas notícias da área econômica da última semana (ainda que, junto com todas as mudanças no Imposto de Renda, só nos levará mais para o buraco).  

Conforme o congresso se mostra menos amigo ao governo (com razão), as reformas que a nação precisa são deixadas de lado, os gastos crescem e o relógio começa a contar o momento em que as bombas explodirão. Mesmo que o Planalto aprove alguma reforma da Previdência no segundo semestre, libere novos saques em contas inativas do FGTS e privatize o esgoto (ou mesmo a Infraero), o mercado continuará diminuindo as previsões de crescimento dos indicadores econômicos.

A promessa de melhoria econômica feita em outubro não aconteceu. Resta saber quando é que poderemos cobrar resultados do governo.

Tiny dick government

Após muito apanhar no Congresso, o Planalto cedeu e anunciou que pretende recriar dois ministérios. A volta das pastas das Cidades e da Integração Nacional não ocorrerá, porém, por uma revisão das ideias administrativas de Bolsonaro sobre a estrutura do Estado. Isso é “velha política” mesmo.

Conforme apurou o Painel da Folha de S.Paulo, os novos ministérios serão gerenciados pela cúpula do Congresso. Isso representará mais R$ 4 bilhões nas mãos dos parlamentares em troca de apoio na Câmara. O blog segue achando muito divertido todos os momentos em que a realidade bate à porta do gabinete presidencial e Bolsonaro é obrigado a dividir fatias do poder para poder governar.

Na mesma semana, Bolsonaro disse que os militares que homenagearam o ex-ministro do partido Stalinista não estão enfrentando problemas graves com a ala do “Trotsky de direita“. “Tudo um time só”, disse Jair. Mas quem discordar do governo ou brigar com qualquer um dos filhos do presidente, vai dar ruim.

Seguindo esse pique, com o governo se inviabilizando sozinho, a oposição já pode abrir a latinha de cerveja e sentar na torre de TV de Brasília enquanto assiste a gestão de Bolsonaro pegar fogo. Pouco a pouco caminhamos para um parlamentarismo de coalizão em que o Planalto twitta muito e não manda em nada.

As baixarias que fazem parte do governo Bolsonaro são dignas de uma novela das 22:00. Já Cunha vs Dilma, perto do que temos hoje, parece o seriadinho Sandy & Junior.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Malthusianismo às avessas

No Rio de Janeiro, o excelentíssimo governador Wilson Witzel resolveu brincar de Rambo, montou em um helicóptero e sobrevoou comunidades de Angra dos Reis enquanto anunciava em suas redes sociais mais uma ação do governo: o “cancelamento de CPF” de pobre.

A ação se uniu a mais um dos vários momentos em que o governador, que jura que o seu programa de segurança pública não envolve apenas matar pobre, colocou a PM para matar pobre inocente. Sobrou até para uma tenda de oração.

Na comunidade da Maré, não foi diferente. A política matou dezenas de pessoas durante o mês, com direito a outro helicóptero atirando na direção da população no horário em que crianças saíam da escola.

Como apontou Reinaldo Azevedo, não há indicadores de que as balas utilizadas no Rio de Janeiro conseguem atingir apenas a população negra e pobre que se envolve no crime. E, a julgar pela cor de quem é morto pela PM de Witzel, elas também não são muito boas em atingir apenas aqueles que estão os envolvidos nas facções criminosas mais perigosas do estado.

Se o governador, que também é influencer de Instagram, gosta de pobre, ele finge tão bem quanto direciona os esforços pacificadores do seu governo. Milicianos, para o ex-juiz, não são um problema grave de segurança pública. Gente que não é suspeita de ser criminosa, sim.

E olha que eu nem resolvi abrir um interlúdio apenas para comentar a não matrícula dos filhos em colégios públicos, a ausência de apoio à população que morreu no desabamento de um prédio em área de milícia e o não uso do SUS.

Enquanto isso, em Brasília, Bolsonaro mudou as regras sobre uso de armas e de munições. Agora, proprietários rurais (não necessariamente os que estão ligados ao Movimento de Trabalhadores Sem Terra), caçadores (não necessariamente de comunistas), caminhoneiros (que a qualquer momento podem entrar em greve) e até jornalistas terão mais liberdade para portar e circular com as suas armas de fogo. Também definiu como até 5 mil o número de munições por arma de uso permitido por ano.

No STF, no Senado, na base e na Câmara já há quem conteste a constitucionalidade da ideia. Ou apenas planeje a sua derrubada.

O Brasil de 2019 é o país do malthusianismo às avessas. PM atira de cima de helicóptero naqueles que são “pretos de tão pobres e pobres de tão pretos” e que moram em casas com telhado de amianto. Se as balas não os atingirem, são obrigados a trabalhar sem EPI.

Quando vão ao bar morrem por conta de uma bala perdida atirada por um caçador de comunistas em situação de estresse emocional ou por comer algo com excesso de agrotóxico. Afinal de contas, remédio para cuidar de doença de pobre acabou.

A julgar pela capacidade de nossos políticos de impedir a população de sobreviver até chegar aos 65 anos, vamos precisar de uma reforma da previdência antes de 2033.

Neoliberalismo bovarista

Os ataques do ministro da educação continuaram na 19ª semana de governo Bolsonaro. Em audiência no Senado na terça-feira (07), o ministro (que já tinha aprontado muito na semana passada) classificou os programas de financiamento estudantil voltados para o ensino superior de “tragédia”.

Na mesma quarta-feira em que o governo alemão anunciou 160 bilhões de euros para pesquisa, o governo bloqueou as bolsas de mestrado e doutorado oferecidas pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) utilizando como base as metas de contingenciamento “determinadas pelo Ministério da Economia”.

O corte, que na teoria é contingenciamento mas na prática é uma chantagem, pode parar o ensino público federal no próximo semestre. Apesar de duvidarem dos conhecimentos do ministro, ele certamente sabe o que faz.

Não assustou o blog o corte de gastos feitos em um momento economicamente complicado. A novidade, como apontamos na última semana, está no revanchismo ideológico do “exterminador do futuro, o aniquilador de gerações e idólatra da ignorância” ao justificar as medidas de “””reajuste””” orçamentário que lembram o nazismo.

No governo Bolsonaro, o pouco neoliberalismo que existe se tornou um “liberalismo bovarista“. As medidas não são tomadas para promover liberdade econômica, política e individual. O ajuste, a privatização e o corte de gastos servem apenas para atingir tudo aquilo que o governo não gosta: pobre, estudantes críticos ao governo, áreas que produzem conhecimento comprometidos com a verdade (e a balbúrdia nos horários não comerciais) e até mesmo programas que seriam plenamente defensáveis sob uma ótica liberal.

Se ainda existem liberais dando apoio para o que o governo faz fora das dependências do Ministério da Fazenda, talvez seja a hora de repensar as suas atitudes. Há cinco meses no poder, a Nova Era caminha a passos largos para ser a idade do obscurantismo, da intolerância, do protecionismo, da luta contra a razão e de um liberalismo que finge ser econômico, mas não o é. Não há coerência de discurso que possa justificar o adesismo tão fácil a um governo que até o momento tem como único mérito não ser petista.

Toca a vinheta do Curb Your Enthusiasm pois agora a minha posição política é a “fetal”.


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Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

A Nova Era – semana #18: a pedagogia do rancoroso

Falta remédio e sobra imbecilidade no governo


Não vai ter golpe (ou luta) 

A última terça-feira (30) começou agitada. Jurando ter o apoio de alguns militares (não tinha), Juan Guaidó e Leopoldo López se uniram para convocar a população venezuelana a finalmente derrubar o regime de Maduro. A “Operação Liberdade” pretendia dar um fim definitivo a “usurpação”.

Ao longo do dia, alguns veículos militares avançaram contra pessoas, as redes sociais foram bloqueadas e 46 rádios foram fechadas, além de emissoras de TVs e 20 jornais. Enquanto isso, Maduro segue no poder.

projeto de intentona de Guaidó elevou o número de mortes registrados nos protestos pelo país. A contagem já passa de 50 pessoas só no ano de 2019 (e 80% dos casos estão relacionados com o trabalho das forças de segurança de Nicolás Maduro, que considera um “combate” a “qualquer força golpista”).

Guaidó acabou não conseguindo o que queria (por enquanto) e já começou a falar em medidas pesadas, como uma intervenção externa. No norte das Américas, o governo do EUA sorriu com a lambida gratuita de bolas.

Leopoldo Lopez, por outro lado, se deu bem: no final do dia, ele assistiu a única manifestação de Maduro sobre o tema direto da Embaixada espanhola, onde está exilado.

Do lado de cá da fronteira, Jair Bolsonaro afirmou em seu Twitter que o presidente da República (e somente ele) decidirá qualquer ação brasileira na Venezuela. Novamente, o presidente da Câmara e agora professor de Constituição, Rodrigo Maia, lembrou ao presidente que é “competência exclusiva do Congresso autorizar uma declaração de guerra”. Faltou a Bolsonaro comentar se o governo adotará uma postura humanitária com os novos refugiados ou fará um cosplay de Donald Trump, que tem mais poder de bala do que a gente.

O fato é que, seja como for, quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.

A Venezuela se tornou a versão moderna da Crise dos Misseis, com a Casa Branca e o Kremlin, disputando quem tem mais controle sobre o país. Mas assim como o nosso presidente se recusa a apontar um plano de ação para os refugiados que chegam na nossa fronteira, ambas as nações ignoram a proliferação de grupos armados paramilitares pró-Maduro, guerrilheiros colombianos, gangues de rua, soldados russos e espiões cubanos pelo território da Venezuela. O importante mesmo, como sempre, é o direito de explorar mais os petrodólares do país.

O espírito da balbúrdia

O novo ministro da educação está fazendo de tudo para dar razão àqueles que levam Darcy Ribeiro a sério: na gestão de Abraham Weintraub, o desmonte na educação virou um projeto. E a sua base é rancor, birra ideológica e loucura argumentativa.

Na última terça (30), o ministro informou ao Estadão que pretendia cortar verba de universidades que promoveram a “balbúrdia” em seus campus (carece de fontes) e não estavam “bem no ranking” (o que não é o caso). A medida surgiu, provavelmente, após algum estagiário lembrar que não há como descentralizar o investimento em humanas, como o presidente disse que o ministro faria em seu Twitter.

A Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade de Brasilia (UnB) e a Universidade Federal Fluminense (UFF) foram as três vítimas. Para o ministro, as instituições deveriam estar “com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo” (como promover debates com Fernando Haddad e Guilherme Boulos e “atos contra o fascismo”).

No dia seguinte, o ministro acusou os reitores das universidades públicas de serem intolerantes no Twitter. Weintraub, porém, falhou em mostrar provas de que os reitores estavam copiando as suas ideias e atitudes.

Como cortar verbas por viés ideológico não pode, o ministro estendeu o corte de verbas para todas as instituições de ensino federais usando como justificativa a diferença entre o investimento realizado em um aluno do ensino superior e do ensino básico. Logo depois, ampliou os cortes também para o ensino básico que não está nas mãos de militares.

Educação é coisa séria e merece um debate que vai além de birra e lacre reaça no Twitter. O ministro  poderia ser chamado de CEO do olavismo educacional e ministro da educação reversa. Weintraub constrói o seu apoio destruindo os símbolos daquilo que o Guru da Virgínia decidiu ser um dos maiores inimigos do governo: as áreas capazes de concentrar correntes de pensamento que vão contra as suas ideias malucas.

O ataque à posição de Paulo Freire como patrono da nossa educação se torna pequeno diante dos ataques que o governo já cometeu contra a rede pública, isso tudo em poucos meses. Felizmente tem faltado tempo para pensar no Escola sem Partido, mas o ministro chegará nessa pauta antes mesmo que as instituições de ensino parem de vez e os estudantes de engenharia assistam aulas sobre a Escola de Frankfurt.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

O ministério do não ambiente 

Não são só as caminhonetes do Ibama que pegam fogo. No que depender do ministro do diploma falso, toda política a favor da conservação do meio ambiente e do clima construída nos últimos anos virará pó em breve.

No dia 24 de Abril, três diretores do ICMBio saíram do seu cargo após o antigo presidente do instituto, Adalberto Eberhard, ser trocado pelo comandante da Polícia Militar Ambiental do Estado de São Paulo. Aproveitando a oportunidade, Salles terminou de trocar a diretoria nomeando mais militares e transformando o instituto de conservação ambiental em um batalhão.

Salles, o ministro com um passado duvidoso, concluiu com esse movimento mais uma etapa do seu processo de nomeação de gente com experiência não comprovada para a promoção das políticas de meio ambiente de Bolsonaro.

O ministro contratado para conservar, pelo visto, não sabe bem o que a palavra significa, mesmo fazendo parte de um governo conservador (pun intended). A pedido da base ruralista, Salles já estuda anular a criação do Parque Nacional (Parna) dos Campos Gerais. A maior floresta de araucária protegida do mundo corre o risco de ser explorada pela agropecuária e pela mineração (como se faltasse espaço para essas atividades no país).

Sobra convicção para Salles ajudar o país a destruir o meio ambiente e falta convicção para o ministro defender as suas ideias em ambientes que não sejam a dócil bancada do programa Pânico, na rádio Jovem Pan FM.

O governo novo, com gente semi-nova e práticas velhas sendo restauradas 

Romeu Zema chegou no governo prometendo muito, vendo ia cumprir pouco e se atrapalhando na tentativa de entregar qualquer coisa. As confusões são tamanhas que, após 100 dias de governo, eu confesso que o Novo deveria avaliar se ele não é um agente infiltrado para destruir a imagem do partido.

Se fosse para apontar os dedos para algum lado, aliás, eu diria que o empresário trabalha para o Partido dos Trabalhadores. Zema cometeu tantas trapalhadas enquanto tentava ser um simulacro mineiro de Bolsonaro que eu só consigo acreditar que ele foi treinado pelos petistas para impedir que o Novo ganhe espaço até na sindicância de um prédio na Barra da Tijuca.

A promessa de acabar com as práticas da velha política não durou muito tempo. O secretário do meio ambiente de Pimentel, por exemplo, foi mantido. O fato de ele estar indiretamente ligado às confusões que levaram Minas Gerais a ser palco de dois graves acidentes ambientais não foram suficientes para o processo seletivo do Novo ter barrado a nomeação de Germano Luiz Gomes Vieira.

Nas estatais, os mandatários indicados por Pimentel também foram mantidos e para completar as semelhanças administrativas, dois acusados de criminhos (nesse caso, estupro e prevaricação (e não um assaltante foragido, como fez o petista)) foram nomeados para os cargos de diretor regional e secretário adjunto. 

Aparentemente, essa história de processo seletivo para cargo comissionado só serviu para mostrar que a equipe de um provável governo Anastasia era muito boa, dada a quantidade de tucanos que agora frequentam a Cidade Administrativa. E que que há gente por aí querendo trabalhar em troca de reforço do portfólio, ao contrário do que o governador gostaria que fosse a realidade.

O cosplay de petista do Zema não para nas nomeações. Quando o seu governo começou a ser criticado por limpar as bolas de executivo da Vale e da Samarco com a glote e não solucionar os problemas fiscais de Minas Gerais, o dito liberal age segundo a cartilha petista de terceirização de culpa: matéria negativa sai n’O Tempo? Perseguição da família Medioli! A sua falta de capacidade de lidar com o dia a dia da política, que já foi motivo de crítica da base que não bem base, da oposição e dos deputados do partido? Culpa da velha política!

A realidade, é claro, bate no gabinete do governador com força e vontade. Evitando atrasar ainda mais a aprovação da sua reforma administrativa, Zema recuou sobre os cortes imbecis na escola em tempo integral (aquela que apoiadores afirmavam com empolgação que era um mal necessário e deveria passar a todo custo).

Essa (e outras alterações) foram chamadas de vitória pelo líder do governo. Afinal de contas, ter o seu projeto mais importante modificado nos pontos principais pela Assembleia só pode ser um bom sinal.

A grande questão, aqui, é que os problemas de Minas são urgentes. A redução de secretarias não se traduziu em maior eficiência administrativa e ainda gerou custos quando o governo viu que precisava recontratar quem demitiu. O Palácio das Mangabeiras (que o governador queria transformar em museu) segue gerando gastos (junto com os PMs que vigiam a sua casa na região da Pampulha quando ele não está fugindo de protestos).

Minas Gerais enfrenta uma das epidemias de dengue mais graves da sua história e o governo sequer corta a grama do próprio jardimVender os aviões da frota estadual não deu certo. Rapidamente o governo viu que isso não dá bilhão, pode sair caro e, no final do dia, o privilégio de ter um jatinho e um helicóptero de uso pessoal (mesmo que seja para entregar medalha para cuzãoé muito bom. Na verdade, é bom para caralho.

É de assustar o amadorismo do governo. Aécio Neves pode ser burro (e bonito (e imoral)), mas pelo menos soube se cercar de pessoas com boa capacidade de se articular politicamente e evitar o tipo de ideia imbecil que causa um impeachment (ou dois) fossem executadas.

Há quem trate governos como patos. Se esse for o caso, o governo de Romeu Zema está se mostrando um pato que quer ser cisne, não sabe nadar mas é ótimo na hora de ser demagogo.


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Escrito pelo Guilherme, editado e revisado pela Luana.