A Nova Era – semana #17: o sincretismo da safadeza com a burrice

Quem planta sacanagem pode colher Mourão.


Verba volant, scripta manent

Carlos Bolsonaro começou a última semana anunciando uma nova fase na sua vida. Durou pouco: por vários dias, o filho do presidente, que se diz vereador do Rio de Janeiro, dedicou-se a atacar o vice-presidente Mourão em seu Twitter. Em pouco mais de dois dias, o filho pródigo:

O Brasil da Nova Era se tornou uma monarquia e não nos avisaram. A confiança no governo derrete tal qual uma adolescente vendo o seu ídolo de perto, a inflação parou de cair, as projeções do PIB desabam, a renda não melhora e o dólar continua brincando de valer R$ 4,00. Enquanto isso, o filho mais novo do presidente rouba a senha do Twitter do pai e dedica o seu tempo a atacar o vice que poderia ajudar a construir pontes e aprovar as reformas econômicas que precisamos para sair do buraco.

Convém lembrar, mais uma vez, que a última pessoa que ocupou o Planalto e atacou o vice de maneira terceirizada se deu bem mal. Cai bem aos Bolsonaros ler um livrinho de história de vez em quando, nem que seja de esquerda, para terminar essa briga sem fim.

O país tem muitas prioridades. Nenhuma delas é lidar com as confusões causadas por um bando de homens ressentidos de pinto pequeno que não sabem dirigir, mas coordenam uma cooperativa de funcionários fantasmas muito bem.

Em notas não relacionadas, Mourão encontrou o ex-ministro de Lula, Mangabeira Under, nos EUA no início do mês de abril.

Lula lá

A semana começou com o STJ mantendo a condenação do ex-presidente, opinador e presidiário Luiz Inácio Lula da Silva no caso do tríplex de Guarujá. A pena foi reduzida para 8 anos e 10 meses e já há quem fale em absolvição. Por hora, o máximo que ele pode conseguir é o direito de ir para o semiaberto (ou pedir prisão domiciliar) e continuar dando entrevistas.

Na mesma semana, o ex-presidente finalmente abriu a sua boca para a Folha de S.Paulo, e ao El País na última sexta-feira (26). A fala do presidiário (muito liberal e com pouca autocrítica), deu saudades de uma coisa que não se vê muito na Nova Era: gente que faz política de verdade. Até o Tio Rei elogiou.

Não foi muito fácil para o Lula colocar a boca no trombone. Nem quando queria, ano passado, nem agora, como mostra o Nexo]. Para aqueles que sentiam saudades de limpar a bola esquerda desse velho em específico, bastaram 30s de fala para a bandeirinha do PT sair do armário.

É melhor Jair se arrependendo Dilma vez

Quem está caindo na alma dos desavisados que acreditaram no liberalismo de quermesse de Jair Bolsonaro, e comparando as suas ações com a Dilma precisa urgentemente de uma visão histórica mais ampla. Bolsonaro não se transformou na ex-presidenta após chegar ao governo: ele sempre pensou como ela, pelo menos economicamente.

O presidente que agora interfere na política de preços da Petrobrás, pede ao presidente do BB para abaixar os juros e deixa claro que não queria aprovar a reforma da previdência, é o mesmo que, na década de 1990, disse que FHC merecia ser fuzilado por colocar a Petrobrás na Bovespa.

Dizer que Bolsonaro passou a pensar como a Dilma é um ataque absurdo às ideias da ex-presidenta, afinal de contas, mesmo com o seu passado de guerrilheira, ela jamais falou em fuzilar alguém por ser liberal: é sempre mais fácil deixar a sua base queimar o liberal da vez, como ela fez com o Levy.

Dom Quixote olavista

A guerra cultural contra tudo aquilo que atinge a moral dos flocos de neve que ocupam o Palácio do Planalto continua firme e forte. Na última semana, Bolsonaro mandou o Banco do Brasil tirar do ar uma propaganda que celebrava a diversidade racional e sexual. Além de jogar 17 milhões no ralo, o presidente também demitiu o perigoso comunista e diretor de marketing da instituição financeira, Delano Valentim.

Quando questionado, o presidente disse que a regra do jogo é a seguinte: ou o ministro é armamentista, ou “fica em silêncio”. E quem indica e nomeia presidente de banco é ele, e que, por isso, ele não precisa “falar mais nada”.

Mesmo dizendo que não pretende perseguir minorias, o ataque a quem faz propagandas para promover a tolerância só ajudou a dar mais destaque para a peça que, até então, estava fora do debate público. No meio do caminho, o governo ainda tentou ir contra a Lei das Estatais e obrigar todas as empresas públicas a submeter previamente à avaliação da Secom (Secretaria de Comunicação Social) qualquer peça de publicidade que elas criarem.

Falta ao nosso presidente metido a Dom Quixote um “homem de bem, mas de pouco sal na moleirinha” para lembrá-lo que o mundo vai muito além da sua guerra cultural. A propaganda do Banco do Brasil é perfeita para o público que pretendia alcançar, e, se o presidente realmente deseja direcionar a carteira de clientes apenas para os “pais de família” brasileiros, é melhor reformular toda a estrutura da instituição e buscar novos meios de entregar as bolsas de fomento ao ensino das instituições de ensino superior federais.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

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O Partido Novo estuda processar o PSL pelo roubo do protagonismo em relação a cor laranja. Na segunda-feira (29), a sede do partido em MG entrou para o noticiário após uma operação da PF. Batizada de “Sufrágio Ostentação”, a ação apreendeu vários indícios concretos de mentiras relativas aos gastos com a produção de materiais gráficos para candidaturas fantasmas durante a campanha eleitoral de 2018.

Infelizmente o escândalo ainda não chegou perto do presidente. O que não é o caso do Queiroz, que tem várias fotos com o presidente e ainda não teve seus rolos julgados pela justiça. Mande notícias, Queiroz.

Volta, velha política

Após ocuparem as ideias de Paula Roberta por mais de nove horas, o governo finalmente conseguiu vencer a primeira etapa da tramitação da reforma da Previdência. Com 48 de 66 votos a favor, o relatório favorável foi aprovado em uma sessão com tumultos, bate-bocas e obstruções promovidas até pela base.

A aprovação mostra que, aparentemente, essa coisa de se apoiar na Lava Jato e em discursos contra as práticas tradicionais da política, não dá muito certo na hora de ganhar apoio no Congresso. Ainda não se discute o mérito da proposta e já vemos o governo cedendo em vários pontos para ganhar apoio de deputados do centrão e, eventualmente, de quem faz parte do PSL. Teria sido mais fácil ter dado ouvido às dicas de Rodrigo Maia nas últimas semanas e começado a fazer política de verdade desde o dia 1º de janeiro.

Ajudaria mais ao Planalto, nas próximas etapas da tramitação do projeto, ser mais transparente. Fazer post no Twitter e pronunciamento na TV quando o trabalho pesado já está feito não muda voto de deputado que precisa se eleger de novo nas próximas eleições.

O Planalto também pode simplesmente continuar focando na busca pelo “espírito patriótico” dos deputados com dinheiro e cargos comissionados.

Saudades de quando o Brasil era governado por um bando de cachaceiros. E não por homens de tiny dick energy.


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Com edição e revisão da Luana de Assis.

A Nova Era – semana #16: quis custodiet ipsos custodes?

Vou apertar, mas não vou te prender agora.


As instituições estão funcionando

Enquanto o país debatia se o projeto de comediante chamado Danilo Gentilli foi ou não censurado, o STF se preparou para atingir muitas metas. Primeiro, a revista digital Crusoé foi obrigada a retirar do ar (e ainda pagou uma multa por não ter apertado a tecla delete rápido o bastante) a matéria que informava que o amigo do amigo do pai de Marcelo Odebrecht é o ministro Dias Toffoli (de acordo com o documento da delação do bilionário (mas apenas pra quem leu o .pdf a tempo)).

O órgão da justiça que investiga, acusa e pune dobrou a meta e foi atrás de uma meia dúzia de internautas de baixa relevância que, assim como o filho do presidente, acreditam que basta um soldado e um cabo para fechar a suprema corte.

A ideia pegou tão mal que a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu na terça-feira (17) que o inquérito do Supremo sobre fake news fosse arquivado. O relator, ministro Alexandre de Moraes, triplicou a meta, ignorou o pedido da procuradora-geral e prorrogou as investigações por mais 90 dias.

Talvez o ministro deseje investigar os autores de mais de um milhão de tweets críticos ao STF que foram postados em pouco mais de 24 horas. Não é como se ele tivesse que gastar muito tempo cuidando da sua beleza capilar, por exemplo.

A piromania dos ministros continuou e, enquanto escrevo este texto, a Mônica Bergamo informou que até o Deltan Dallagnol responderá um PAD (Processo Administrativo Disciplinar) por dizer que Gilmar Mendes, Ricardo Lewandoski e Dias Toffoli formavam uma “panelinha” na segunda turma do tribunal superior.

O blog segue sem apoio jurídico profissional, então se resumirá a dizer que, diante de toda essa confusão, é claro que ainda é muito bom ser doutô no Brasil.

New wave é a chatuba

Não usando uma roupa que remete aos anos 1980, como o jovem gosta, o presidente Argentino resolveu brincar de José Sarney no combate à inflação. O argentino anunciou, na quarta-feira (17), um conjunto de medidas que jamais tiveram qualquer efeito além de eleger políticos em tempos de crise.

Tarifas de gás, transporte, eletricidade e o valor de mais de 60 produtos que fazem parte da cesta básica argentina foram congelados. O presidente não anunciou a possibilidade de replicar os Fiscais do Sarney no país, mas estuda a ideia com carinho.

Pequenas notas do quinto dos infernos

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Os últimos dias foram meio complicados para quem gosta de liberdade. Começando pela briga em torno da condenação do humorista, falador de merda, ofensor profissional e apresentador de talkshow meia boca, Danilo Gentili, a seis meses de prisão em regime aberto. O humorista protestou contra a sentença acusando a justiça de censurar a sua liberdade de expressão e o seu “humor”.

Veja bem, eu não sei em qual trecho do vídeo em que ele esfrega uma notificação judicial em suas partes (ou nos tweets atacando e movendo a sua audiência contra a deputada federal Maria do Rosário) ele fazia humor. A postura do humorista deixa bem claro uma outra intenção: cometer injúria contra a deputada.

Faz parte do repertório de Gentili esse tipo de ofensa travestida de humor e, sejamos sinceros: ele não é virgem em casa de contenção. Aliás, o humorista não só não é um anjo sem asas como também processa pessoas que o criticam.

Se fosse apenas humor, Gentili não teria adotado a postura cínica que teve nas audiências, tão menos feito o esforço para manter o tom ofensivo nos posts na tentativa de macular a honra da petista. Danilo sabia o que fazia, para quê fazia e a punição que lhe caberia.

Se esconder atrás de uma noção de liberdade que não é aplicável à nossa legislação, dará tão certo quanto a estratégia dos advogados do Lula quando ele foi julgado por Sergio Moro. Pode até colocar uma parte da opinião pública do seu lado, mas não te livrará de ser punido por um juiz esperto.

E como bem aponta Reinaldo Azevedo, “liberdade de expressão não é Deus”. Não no nosso país.

Poderíamos aproveitar o momento para discutir se é certo ou não injúria ser algo passível de prisão, se deveríamos mudar o entendimento da sociedade sobre liberdade de expressão para um que seja próximo do americano ou até mesmo os limites do humor (apesar do blog considerar essa uma questão já resolvida pela Alexandra). Mas, até lá, duas coisas seguirão bem claras: Gentili terá a sua pena reduzida nas instâncias superiores (por ser inadequada, desproporcional e pouco procedente (e por ele ser branco com dinheiro)) e, até segunda ordem, a lei continuará dando abertura para a penalização que ele ganhou.


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Com edição e revisão da querida Luana de Assis.

A Nova Era – semana #15: quem tem medo do liberal?

Hoje eu vou desenvolver. Mas não muito.


Muita guerra e pouca paz na Educação

Abraham Wientraub (referido pelo blog apenas como o ministro da Educação, enquanto estiver no cargo) chegou no ministério da Educação falando em paz. Instantes depois, o ministro também afirmou que aqueles que discordarem podem sair pela porta da esquerda.

A não-guerra cultural promovida pelo ministro passará pela demissão de todos os secretários da pasta, com exceção da secretaria de Alfabetização, que fica com Carlos Nadalim (que por acaso vem a ser é ex-aluno de Olavo de Carvalho). Retorna ao ministério Sílvio Cecchi, que ocupou a subpasta de Regulação do Ensino Superior no governo Temer, e ama uma faculdade privada.

No curto espaço de tempo entre o momento em que Vélez levava suas caixas para o porta-malas do carro e o novo ministro decorava a sua sala, os militares se movimentaram. Agindo novamente como a voz da moderação em um governo de olavitics, o decreto sobre a nova política de alfabetização foi modificado. Mas infelizmente a tentativa de não dar mais espaço para as bobajadas defendidas pelo ex-ministro e os outros seguidores do Guru da Virgínia deu errado e o novo ministro recuou no recuo.

Os_Trapalhões_no_Congresso_S01_ep_15

O laranjal atômico com ares de máfia italiana que é o PSL e a base do governo continuam aprontando altas confusões. Na tarde de terça (09), durante sessão da Comissão de Constituição e Justiça, o deputado Bibo Nunes orientou que a bancada do partido do presidente votasse contra a permanência da reforma da Previdência na pauta do dia. O encontro dos deputados teve debate entre Joice Plagelmann e Maria do Rosário, e até delegado, que também é político, sendo acusado de andar armado no ambiente.

Igreja Universal do Político Cara de Pau

Quando você se perguntar se o prefeito Marcelo Crivella merece o cargo, lembre-se da postura que o ele teve após o temporal que matou mais de uma dezena de pessoas na cidade. A chamada “chuva atípica” (que acontece regularmente na capital do estado) foi gerenciada pela prefeitura da mesma forma que um adolescente cuida das suas finanças.

Para ajudar a população da cidade a lidar com os problemas, nada mais nada menos que 20 pessoas foram enviadas. Reconhecendo que a ideia não foi muito inteligente, o prefeito não só disse que “até nos Estados Unidos isso acontece“, mas também arrumou tempo para brigar com a GloboNews depois de ser questionado a sobre a diminuição de 87% nos investimentos em obras de drenagem entre 2013 e 2019.

Em notas não relacionadas, o Jornal Nacional informou que existem duas centenas de profissionais preparados para entrar em ação quando há um temporal na cidade.

Oi, sumida

Não é segredo que o pessoal do Nordeste não é lá muito amigo do Bolsonaro e para ajudar a conquistar a população local, o governo trocou o aumento do bolsa família por um 13º para os beneficiários. Inspirados pelo jeitinho mineiro de ser, os nordestinos já demonstraram desconfiança em relação aos planos do presidente para tirar os beneficiários da “coleira política do PT“.

Falta informar se a mudança na política de reajuste do salário mínimo está incluída nos planos de conquista do Nordeste. Os trabalhadores (e aposentados) não devem estar muito felizes com a ideia.

10 pequenas notas do quinto dos infernos

O amigo do tio do meu primo do meu pai do meu irmão é ministro do STF

Na última semana, a revista Crusóe relevou que o tal “amigo do amigo do meu pai” é o ex-advogado-geral da União e agora presidente do STF, Dias Toffoli. Mas, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, a matéria teve que ser retirada do ar, pois haveria “claro abuso no conteúdo da matéria veiculada”. Mesmo com a revista aceitando a censura, o STF também enviou uma multa de 100 mil reais.

Não relacionado a isso, o documento em que Dias Toffoli é citado retirado dos autos da Lava Jato. O blog subscreve o editorial da revista Crusoé e informa que o documento que gerou a matéria da revista pode ser lido por completo aqui.

⬆️ Liberalismo ⬇️

Na celebração dos 100 dias de governo, Bolsonaro resolveu brincar um pouco de ser liberal e anunciou um projeto de lei para dar autonomia ao Banco Central, além de um PL para regulamentar a educação domiciliar. Já o ministro de Minas e Energia anunciou no mesmo dia que o mercado de gás natural seria aberto a concorrentes.

O liberalismo do governo não durou até o pôr do sol. No final do dia, por ordem do presidente (e sem comunicar Paulo Guedes), a Petrobras desistiu do aumento do preço do diesel que estava previsto para sexta-feira (12). A dilmada do presidente foi recebida com aplausos críticos pela petista impeachmada, silêncio do ministro da Economia e raiva do mercado, que fez a estatal perder R$ 30 bilhões de valor de mercado.

A dura liberdade de falar e fazer merda

Após quatro dias de silêncio sobre os 80 tiros que militares direcionaram a uma família e mataram duas pessoas, Bolsonaro se solidarizou com o falador de merda, humorista de baixa qualidade e apresentador de programa meia boca Danilo Gentili, condenado pela justiça a seis meses de prisão em regime aberto. Dias depois, o presidente seguiu o exemplo do ministro Sergio Moro e do vice-presidente, abriu a metralhadora de merda mais uma vez e afirmou que “o exército não matou ninguém“.

A metralhadora de merda do presidente também aproveitou a última semana para informar a um grupo de evangélicos que o Holocausto pode ser perdoado. O genocídio de milhões de pessoas, no entanto, não pode ter para o presidente a mesma importância que ele relega aos crimes da ditadura brasileira: esse deve ser sempre relembrado.

O governo Bolsonaro está se mostrando uma ótima mistura de ensurdecedores silêncios e frases que nos fazem pagar o preço pela audição. O presidente continua ignorando a importância do cargo e o impacto que as suas falas (ou a ausência das mesmas) faz para a república.

Para Bolsonaro, merece um comentário ágil a condenação de um humorista que tenta censurar outras pessoas e se esconde atrás de um hipócrita discurso de defesa da liberdade de expressão. Já a morte de duas pessoas inocentes pelas mãos das forças armadas, a ameaça de morte contra uma deputada da sua base por alguém de seu partido ou o assassinato de uma deputada de um partido de esquerda podem esperar.

Para Danilo Gentilli, “falar não pode ser crime. Nunca” (mas se ele quiser, pode). Tanto os silêncios e quanto as falas de Jair Bolsonaro, porém, deveriam ser considerados um atentado ao bom senso e ao espírito democrático e republicano que tentamos, aos trancos e barrancos, construir para a nossa nação.


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Com edição e revisão da querida Luana de Assis.

A Nova Era – dia #100: o governo Bolsonaro como forma de frustração.

100 dias de governo Bolsonaro, 100 dias de um Brasil como forma de frustração. O que não estava bom, ficou ruim e agora piorou.

Vem comigo, internauta.


Dia 01 (01-jan): começa a Nova Era. O aprendiz de presidente chegou prometendo acabar com um socialismo que jamais existiu em terra brasilis. Bolsonaro sobe a rampa do Planalto.

Dia 02 (02-jan): a ministra Damares Alves causou rebuliço no internet ao afirmar que “menino veste azul e menina veste rosa”, mas se quiser usar outras cores pode.

Dia 03 (03-jan): Em entrevista ao SBT, o presidente afirmou que pretende acabar com a Justiça do Trabalho e jogou Fabricio Queiroz aos leões.

Dia 04 (04-jan): o ministro Sergio Moro apresentou o texto do Projeto de Lei Anticrime pois o crime é feio, bobo e chato. E também reciclou ideias que já haviam sido rejeitadas.

Dia 05 (05-jan): o imóvel que Bolsonaro disse estar a venda será ocupado por um dos filhos do presidente.

Dia 06 (06-jan): a ex-chefe do Ibama, Suely Araújo, lembrou ao presidente e ao ministro do Meio Ambiente que, para acusar ou insinuar que alguém é corrupto, é necessário convicção e provas. Descobrimos parte dos lucros que Fabricio Queiroz obteve fazendo rolo.

Dia 07 (07-jan): a Folha de S.Paulo levantou dados sobre como a família Bolsonaro enriqueceu na política.

Dia 08 (08-jan): conhecemos o nepotismo técnico: o filho do vice-presidente foi promovido a assessor especial da presidência do Banco do Brasil.

Dia 09 (09-jan): a multa que Bolsonaro recebeu do Ibama por cometer crimezinhos ambientais foi anulada. O presidente da Apex foi demitido.

Dia 10 (10-jan): um amigo de Bolsonaro foi indicado ao cargo de gerente de Segurança da Petrobras.

Dia 11 (11-jan): morreu Ricardo Boechat.

Dia 12 (12-jan): o Intercept mostrou que o Queiroz é muito humilde.

Dia 13 (13-jan): os ministérios da Justiça e das Relações Exteriores tentaram faturar em cima de uma prisão que não fizeram.

Dia 14 (14-jan): a Folha de S.Paulo revelou que o presidente pagou para uma assessora trabalhar – mesmo ela não trabalhando – por quase dois anos.

Dia 15 (15-jan): o governo usou uma caneta Bic para diminuir os entraves para a posse de armas. Só faltou comentar que o seu eleitor, que também só tem dinheiro para comprar uma caneta, não tem grana para adquirir uma arma de fogo.

Dia 16 (16-jan): um ex-deputado que defende a caça de animais silvestres se tornou presidente do Serviço Florestal Brasileiro.

Dia 17 (17-jan): o filho do presidente, que disse que não há a necessidade de se ter foro privilegiado, pediu ao STF para usar o foro privilegiado.

Dia 18 (18-jan): depois de alguns deputados aprontarem altas confusões na China, a direita entrou em guerra. O Arthur do Val/Mamãe Falei, inclusive, insinuou que alguns cometeram crimezinhos.

Dia 19 (19-jan): segundo o Jornal Nacional, Flávio Bolsonaro teria recebido bastante dinheiro do mesmo jeito que um bands receberia.

Dia 20 (20-jan): Lauro Jardim trouxe informações de que Queiroz, que foi motorista de Flávio Bolsonaro, teria movimentado R$ 7 milhões em três anos.

Dia 21 (21-jan): a Folha de S.Paulo afirmou que Flávio Bolsonaro é ótimo em valorizar imóveis.

Dia 22 (22-jan): segundo informações do jornal O Globo, Flávio Bolsonaro empregou gente que tem caso com bands.

Dia 23 (23-jan): a BBC revelou que Flavio Bolsonaro tinha um vira-tempo pessoal, ocupando um cargo na Câmara dos Deputados em Brasília e fazendo faculdade e estágio no Rio de Janeiro.

Dia 24 (24-jan): o presidente do Inep anunciou que pretende deixar Bolsonaro examinar o Enem antes da prova ser aplicada.

Dia 25 (25-jan): após Jean Wyllys sair do país, a direção da EBC ordenou que os seus canais se calassem sobre o tema. Já a revista Veja revelou que Flávio Bolsonaro, segundo o Coaf, é muito mais rico do que deveria.

Dia 26 (26-jan): Sergio Moro caçou briga com Jeann Wyllys.

Dia 27 (27-jan): quem tem poder de lobby começou a fazer lobby contra a previdência.

Dia 28 (28-jan): Ricardo Velez afirmou que essa história de “ensino superior público, gratuito e de qualidade” é uma grande bobagem e que “universidade para todos não existe”.

Dia 29 (29-jan): Salim Mattar disse que não quer vender até a cueca do presidente.

Dia 30 (30-jan): o jornalista Tiago Rogero confirmou que o MEC censurou os vídeos sobre Marx, Engels e Nietzsche que o ministério disse que não tinha censurado após o jornalista ter descoberto que o MEC censurou vídeos sobre Marx, Engels e Nietzsche.

Dia 31 (31-jan): a revista Época contou a história de como a ministra Damares Alves teria sequestrado uma criança indígena.

Dia 32 (01-fev): a Joice mostrou que ainda comete plágio e que tem dificuldades para ter as próprias ideias. Já o agora ex-ministro da educação afirmou que “o brasileiro viajando é um canibal” em entrevista à revista Veja.

Dia 33 (02-fev): após vários pequenos probleminhas, Davi Alcolumbre foi eleito presidente do Senado.

Dia 34 (03-fev): Renan Calheiros caçou briga com Dora Kramer no Twitter após ela publicar uma coluna tripudiando do senador.

Dia 35 (04-fev): a Joice resolveu exorcizar um espírito de petista do seu gabinete enquanto o governo recebeu, da Folha de S.Paulo, uma dica de quem merece ser realmente exorcizado: o suposto chefe de laranjal e ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio.

Dia 36 (05-fev): a primeira tentativa do líder do governo, Major Vitor Hugo (PSL-GO), de reunir líderes partidários para discutir a reforma da Previdência deu muito ruim.

Dia 37 (06-fev): o presidente do PSL, Luciano Bivar, afirmou que os deputados que não estiverem satisfeitos com o partido podem pedir uma carta de desfiliação por justa causa, e logo em seguida o pau quebrou entre o deputado Eduardo Bolsonaro e a Joice.

Dia 38 (07-fev): Ciro Gomes lembrou ao jovem que o “Lula tá preso babaca”.

Dia 39 (08-fev): o governo tentou evitar uma rebelião de partidos aliados suspendendo nomeados e despensas de cargos comissionados por tempo indeterminado.

Dia 40 (09-fev): surgiu na imprensa a história de que Sara Winter seria nomeada para o Ministério dos Direitos Humanos.

Dia 41 (10-fev): o governo foi caçar briga com homem de saia, pois essa coisa de usar saia e ter rola só pode ser coisa de gente de esquerda.

Dia 42 (11-fev): Bolsonaro perguntou a Mourão se o vice-presidente queria matá-lo. Matar a gente não garante, mas tirar do poder, quem sabe?

Dia 43 (12-fev): no programa Roda Vida, Ricardo Salles mentiu, manipulou informações, esqueceu do seu trabalho e fez lobby para empresa que destrói o meio ambiente.

Dia 44 (13-fev): Carluxo Bolsonaro atacou Gustavo Bebianno. Enquanto isso, a Joice lembrou que arrumar briga com quem guarda segredos não é uma boa ideia.

Dia 45 (14-fev): militares e Rodrigo Maia se uniram para tentar impedir o governo de fazer merda.

Dia 46 (15-fev): no meio dos problemas entre Bebianno e a família Bolsonaro, Mourão lembrou que esse tipo de problema se resolve no privado e não por indireta no Twitter.

Dia 47 (16-fev): Eduardo Bolsonaro atacou Bebianno e colocou o agora ex-ministro para fritar um pouco mais em rede nacional.

Dia 48 (17-fev): os Bolsonaros mostraram que gostam de pular de partido em partido tal qual Ciro Gomes e agora querem refundar a UDN.

Dia 49 (18-fev): o governo fez merda e ainda falou de um modo imbecil sobre a merda que fez.

Dia 50 (19-fev): o governo do homem que podemos chamar de “burro”, “fascista”, “desonesto”, “desqualificado”, “racista”, “corrupto”, “canalha”, “nepotista” e “boquirroto” teve a sua primeira de muitas mortes horríveis na Câmara.

Dia 51 (20-fev): o governo finalmente apresentou uma reforma da Previdência para chamar de sua, também de uma maneira imbecil.

Dia 52 (21-fev): o vice-presidente lembrou que, ao contrário do que pensa Bolsonaro, o Brasil não é os EUA e invadir a Venezuela é uma sandice.

Dia 53 (22-fev): a revista IstoÉ mostrou que uma irmã de milicianos que trabalhou para Flávio Bolsonaro que é cheia de mutreta.

Dia 54 (23-fev): a revista Veja disse que os milicianos aparentados com as pessoas que trabalhavam para o filho do presidente entraram na mira da Receita Federal. Já o The Intercerpt Brasil lembrou que o ministro Ricardo Salles mente no seu currículo.

Dia 55 (24-fev): a coisa ficou feia na fronteira do Brasil com a Venezuela.

Dia 56 (25-fev): o ministro da Educação resolveu colocar as crianças para cantar o hino nacional.

Dia 57 (26-fev): o ministro da Educação admitiu que essa coisa de cantar o hino não é uma boa ideia e voltou atrás (mas não por completo). Já o 4chanceler afirmou que existe socialismo do bem.

Dia 58 (27-fev): o presidente, que só fala e faz merda, foi tirar a bolsa de coco.

Dia 59 (28-fev): Bolsonaro adiantou o trabalho da oposição e começou a desidratar a reforma da Previdência e aproveitou para mostrar que tem medo de mulher até quando ela não manda em nada.

Dia 60 (01-mar): a revista IstoÉ mostrou como a família Bolsonaro usou dinheiro de otário para eleger pessoas.

Dia 61 (02-mar): o presidente tornou mais difícil pro brasileiro ajudar o seu sindicato preferido a sobreviver.

Dia 62 (03-mar): o Intercept mostrou como o presidente adora ser marmita de gente escrota.

Dia 63 (04-mar): o presidente anunciou a “Lava Jato da Educação” e o seu filho Carluxo mostrou que não entende muito de edição de foto no Instagram.

Dia 64 (05-mar): Jair Bolsonaro começou a estudar o que é Golden Shower para a sua visita aos EUA.

Dia 65 (06-mar): no Twitter, o ministro do Meio Ambiente relacionou uma coluna do alemão Philipp Luchterbeck (que criticava o governo) com o nazismo, e ainda tentou pautar a editoria de um órgão da imprensa estrangeiro.

Dia 66 (07-mar): Olavo de Carvalho pediu que os seus alunos abandonassem o navio sem rumo que é o governo Bolsonaro. Já Bolsonaro mostrou que não entende quem é que garante a democracia.

Dia 67 (08-mar): o liberal Bolsonaro prometeu impedir o Brasil de comer banana importada do Equador.

Dia 68 (09-mar): o 4chanceler apertou a mordaça do Itamaraty.

Dia 69 (10-mar): Guedes anunciou que quer mudar completamente a forma como o orçamento é estruturado, enquanto Onyx Lorenzoni foi passear na Antártida.

Dia 70 (11-mar): após Bolsonaro mentir e atacar uma jornalista que deu entrevista a um site francês, a página informou que o político precisa de um cursinho da CCAA.

Dia 71 (12-mar): descobrimos que os Bolsonaros também deram beijo em parente de bands.

Dia 72 (13-mar): Bolsonaro demorou seis horas e um post sobre comida para comentar algo sobre o atentado de Suzano. Já o fundo bilionário da força-tarefa da Lava Jato, que nunca existiu, deixou de existir de vez.

Dia 73 (14-mar): o Diário Oficial da União (DOU) colocou uma porcaria em vigor e nomeou algumas pessoas para o Ibama.

Dia 74 (15-mar): Paulo Guedes afirmou que quer vender até a cueca do Bolsonaro.

Dia 75 (16-mar): o que fazer quando o professor torce contra? Em um evento no Trump Hotel, em Washington, Olavo de Carvalho chamou Mourão de “um cara idiota” e disse que se o governo continuasse como estava, não durava seis meses.

Dia 76 (17-mar): Bolsonaro foi passear em Washington, mentindo sobre o lugar em que tirou uma soneca.

Dia 77 (18-mar): Paulo Guedes pediu com jeitinho para o Brasil entrar na OCDE.

Dia 78 (19-mar): o Ministério das Relações Exteriores esqueceu que o país é subdesenvolvido e anunciou que abrirá mão do tratamento especial na OMC.

Dia 79 (20-mar): o presidente levou à Câmara a reforma da Previdência militar enquanto o maior partido da oposição jogava Apex Legends.

Dia 80 (21-mar): Onyx Lorenzoni elogiou a ditadura Pinochet no dia em que chegamos ao Chile. Afinal de contas, ser impopular apenas com os brasileiros não é o bastante para o governo.

Dia 81 (22-mar): em uma entrevista à Gaúcha Atualidade, Mourão avisou que Olavo de Carvalho “atingiu um limite em termos de ofensa pessoal”. Bolsonaro mandou um nude presidencial pro STF.

Dia 82 (23-mar): Rodrigo Maia chamou o governo de “deserto de ideias”.

Dia 83 (24-mar): Passamos uma vergonha de caráter oficial no Chile.

Dia 84 (25-mar): o ministro general Carlos Alberto dos Santos Cruz, da Secretaria de Governo, chamou Olavo de Carvalho de desequilibrado.

Dia 85 (26-mar): Bolsonaro foi ver um filme e Sergio Moro resolveu estudar a Lei da Oferta e da Demanda.

Dia 86 (27-mar): o presidente negou a ditadura e disse que ela teve alguns probleminhas. O blog discordou.

Dia 87 (28-mar): o Ibama exonerou o servidor que multou o presidente por pescar em área protegida.

Dia 88 (29-mar): Bolsonaro foi aprender como ter hombridade.

Dia 89 (30-mar): o Intercept mostrou que a ditadura que o presidente gosta prendeu muito mais gente do que pensávamos.

Dia 90 (31-mar): o Planalto mandou um zap defendendo o golpe civil-militar de 1964.

Dia 91 (01-abr): Mourão tirou o dele da reta e culpou Bolsonaro pelo zap zap pró-ditadura. Já o empresário paulista Osmar Stábile afirmou ter pago pelo vídeo (mas não disse como ele foi parar em Brasília).

Dia 92 (02-abr): Bolsonaro visitou o Memorial do Holocausto, em Israel, e afirmou que o nazismo era de esquerda. O memorial discorda. O vice também. O Nexo explica.

Dia 93 (03-abr): Paulo Guedes finalmente apareceu na CCJ da Câmara e passou vergonha junto com os deputados governistas e da oposição.

Dia 94 (04-abr): a realidade bateu de novo na porta, e Bolsonaro teve que fazer velha política.

Dia 95 (05-abr): Bolsonaro percebeu que não nasceu para ocupar o cargo para o qual ele foi eleito. Só falta sair dele.

Dia 96 (06-abr): após o presidente anunciar o fim do horário de verão, e na ausência de maiores problemas, o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, afirmou que a prioridade agora é livrar o país da tomada de três pinos, das urnas eletrônicas e do acordo ortográfico. Foda quando você é miserável e burro demais para aprender a escrever direito e ou trocar uma tomada.

Dia 97 (07-abr): a Nova Era se tornou absurdamente impopular, pelo menos é o que aponta o Datafolha.

Dia 98 (08-abr): o ministro da Educação foi demitido depois do presidente falar que ele não perderia o cargo. No seu lugar, assume um lunático mais lunático ainda. Já o Rodrigo Maia cansou mais uma vez e disse que não é “mulher de malandro”.

Dia 99 (09-abr): o 4chanceler mostrou que não gosta muito de críticas e demitiu mais um presidente da Apex.

Dia 100 (10-abr): sobre o fuzilamento do músico Evaldo Rosa, no dia 7, o ex-juiz e atual ministro da Justiça, afirmou que episódios do tipo “podem acontecer”. O presidente não quis piorar e se manteve calado.

Os comentários completos para cada semana você encontra no link no final do texto. Até breve!


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Com edição e revisão da querida Luana de Assis.

A Nova Era – semana #13, parte 2: os problemões de Jair Bolsonaro

A décima terceira semana do governo de Jair Bolsonaro não foi marcada apenas por “probleminhas”. O governo insistiu em errar feio, errar rude. Não deu outra: problemas que não existiriam em um governo minimamente normal ganharam o noticiário da semana.


Neros à brasileira 

Como se a maior urgência do país fosse o último filme em cartaz, o governo resolveu usar o seu tempo livre para brigar com as únicas pessoas que podem barrar as suas ideias de jerico, e nessa história, até quem está (oficialmente) do lado de fora da administração entrou para ajudar. 

Moro resolveu brincar de lutador de UFC e ter sua própria luta com Maia. Entre recados, entrevistas e mensagens, o ministro da Justiça fez de tudo para garantir que o seu pacote de segurança fosse tratado com o maior desprezo possível pelo presidente da casa legislativa. 

Os embates começaram depois de Maia criar um grupo para debater, em até 90 dias, o projeto de lei anticrime de Moro. O ministro não gostou, cobrou do carioca uma satisfação e foi repreendido.

Na manhã do dia 20, Moro afirmou publicamente que não via problema na tramitação do projeto em conjunto com a reforma da Previdência. Maia rebateu comparando o funcionário do presidente Bolsonaro” com a Joice Plagelman. O presidente da Câmara também afirmou que o ex-juiz está “confundindo as bolas” (no pun intended) e que “ele não é presidente da República”. 

É foda quando o martelinho de juiz não aparece quando você precisa obrigar alguém a fazer algo.

A briga de Moro se mostraria, nos dias seguintes, nada perto do que o resto do governo conseguiu fazer em termos de procurar briga com o Congresso. 

Enquanto Moro discutia com o presidente da Câmara, Carlucho se perguntava o “motivo da raiva de Maia” no Instagram. A mensagem fez parte de uma sequência de postagens contra Maia nas redes sociais pró-governo comandadas pelo vereador, e os perfis a ele conectados.  

Maia avisou que era melhor diminuírem o tom. Não diminuíram e, quando questionado pelo Planalto sobre a entrega do projeto de reforma da previdência dos militares, simplesmente mandou “entregar na burocracia da Câmara“. 

A semana chegava ao seu fim, mas o bate-boca prosseguiu. Na sexta-feira (22), Maia lembrou que o presidente precisa “ter mais tempo para cuidar da Previdência e menos para rede social“. Em entrevista à Folha de S.Paulo, avisou que, no momento em que o governo quiser, é só avisar que ele pautará a votação

Ainda no Chile, Bolsonaro afirmou que a prisão de Temer estava dentro dos acordos que são feitos para garantir a governabilidade. Maia relembrou ao presidente que as coisas não são bem assim, e que apesar da reforma trabalhista do Temer, a articulação política não pode ser terceirizada

Esquecendo tudo o que fez nos 30 anos no Congresso (e olha que não foram muitas coisas), Bolsonaro também afirmou que a sua parte no dia a dia da política se resumia apenas à entrega das propostas de reformas e “alguns não estão acostumados a fazer a nova política”. 

O “professor Maia”, novamente, teve que lembrar ao presidente a vida como ela é. Ao lado de João Dória, governador de São Paulo, o presidente da Câmara disse que não usa “as redes sociais para agredir ninguém. Vivemos numa democracia e, nela, o Executivo não está acima dos outros poderes“. No mesmo dia, Maia também afirmou que o governo é um “deserto de ideias“.

A base, com inveja do bafafá, também resolveu entrar na história. O líder do governo na Câmara, major Vitor Hugo, afirmou que era a hora de cada um “escolher de que lado está”. Para piorar as coisas, o deputado do PSL insinuou que negociar apoio é algo equivalente à corrupção

E lembram daquela sequência de tweets do Assessor Especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, que apontamos aqui na semana passada? Maia deu outra aula grátis de política, e lembrou que essa história de brincar de revolução populista não funciona bem na democracia. 

Vácuo no poder não existe, e na construção de articulações políticas, também não. A semana começou com o Centrão tentando emplacar a reforma de Michel Miguel no lugar da proposta de Bolsonaro. Percebendo que o balde de leite já estava prestes a ferver, os ministros Onyx Lorenzoni, Augusto Heleno e Carlos Alberto Santos Cruz pediram trégua nas redes sociais.

Os ministros também ligaram para o ministro Posto Ipiranga, mas ele estava ocupado. Já o presidente, por outro lado, resolveu ver um filminho no meio da semana. 

No clima de dedo no cu e gritaria, um projeto de emenda constitucional de 2015 foi desengavetado, e aprovado com uma velocidade que daria inveja a Eduardo Cunha. O projeto reduziu (ainda mais) a flexibilidade do orçamento, e obriga o governo a repassar ao menos R$ 125 milhões para cada estado. Houve quem tentou transformar isso em vitória do Planalto (ainda que Guedes defenda movimentos no sentido oposto). 

Aprovar uma reforma da Previdência não é algo fácil, e mesmo com 13 partidos apoiando pelo menos parte da proposta de Bolsonaro, a líder do governo também partiu para o ataque, e dessa vez o foco foi um partido que estava apoiando a reforma de graça

Em entrevista ao Datena, Bolsonaro insinuou que Maia estavaemocionalmente abalado. Maia retrucou colocando o presidente em seu lugar, e na sua tréplica, Bolsonaro fez cosplay de FHC, esqueceu tudo o que já escreveu e exigiu responsabilidade do presidente da Câmara

Na quarta-feira (27), Guedes resolveu bater na porta da CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado. Além de caçar briga com Katia Abreu (dessa vez sem receber uma taça de vinho na cara), ele lembrou que tem mais o que fazer da vida além de ajudar Bolsonaro

A quarta-feira, por sinal, foi um grande dia para o governo. O ministro da Educação Ricado Vélez foi até a Câmara mostrar que não sabe nada sobre o seu trabalho, e por incrível que pareça, segue no cargo. 

Após avisos de que o presidente está preso a suas ideias malucas tal qual um burro empacado, a briga com Maia tomou um novo rumo: o da paz. 

Mas a maior crise político-econômica da nossa história não acabou. Seguindo o exemplo de Dilma Rousseff da pior maneira possível, Bolsonaro mina as chances de sucesso de qualquer proposta de seu governo, antes mesmo do início da tramitação.

Governar só para convertidos não deu certo com a petista, não tem dado certo agora e dificilmente dará certo no futuro.

Enquanto isso, o presidente se comporta como um militante da UJS: luta contra todos aqueles que não façam adesão cega às suas ideias. Só que o Brasil não é a Unicamp e, portanto, talvez seja uma boa hora para começar a agir como o presidente da nação e conseguir, de fato, a confiança que o Congresso precisa para aprovar as suas ideias mirabolantes

10 pequenas notas do quinto dos infernos

A rememoração da comemoração

Na segunda-feira (25), o porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros, anunciou que o presidente instituiu ao Ministério da Defesa que fosse realizada uma celebração “devida” do golpe civil-militar que iniciou a ditadura, que além dos “probleminhas”, durou mais de duas décadas. 

medida pouco comum, especialmente ao considerarmos o ponto de partida da ordem, causou reações de protesto na sociedade civil. O Ministério Público pediu explicações e o ministro da Defesa tentou botar panos quentes, mas na base da mentira. 

A Defensoria Pública da União tentou, sem sucesso, impedir que o governo comemorasse a falta de democracia do período militar, e no final das contas, a “comemoração” oficial do Planalto foi resumida a um vídeo apócrifo pró-golpe divulgado pelo Whatsapp oficial.

Uma Estrela da Morte para chamar de minha

Surgiu no noticiário da penúltima semana a reforma promovida pelo governador de São Paulo, João Dória, do Palácio dos Bandeirantes. A iniciativa, entregue ao governo como doação por Joia Bergamo (algo proibido pelo código de ética estadual), exigiu ao menos R$ 1,1 milhão dos cofres públicos

Governantes que não valorizam a nossa história é algo comum ao processo político brasileiro. Monumentos, por sinal, se tornam relevantes apenas quando servem para a construção das suas narrativas políticas. 

Porém, assusta ao blog ver esse despreparo com a história do patrimônio público se traduzir em algo de tamanho mal gosto. A breguice dos membros da elite paulistana já é conhecida há vários verões, mas ao levar a falta de tato tradicional à gente branca dos bairros nobres da zona sul paulista para prédios governamentais, Dória não me deixa outra alternativa a dizer: era melhor deixar o prédio ser comido por cupins do que fazer isso. 

Em busca de uma mulher de César para a oposição 

Em meio ao show de horrores que foi a visita dos ministros ao Congresso, alguns socialistas criticaram Tábata Amaral por ter sido apoiada por Luciano Huck e uma organização política, que tem entre os seus apoiadores, um bilionário. O problema, conforme apontado por gente de baixa relevância, está nos posicionamentos centristas da deputada. 

Felizmente o PSOL não tem a capacidade de eleger o zelador do Planalto, e quem está realmente preocupado em construir pontes para tirar Bolsonaro do poder pode seguir em frente. 

Ao mesmo tempo, alguns petistas apontaram que a deputada não deveria ter a sua fala contra Vélez aplaudida, pelo fato dela ser favor de alguma reforma da Previdência (ainda que o partido tenha aprovado uma anos atrás) e não se posicionar contra a prisão de Lula. 

Os petistas, que estão com o filme mais queimado do que o arroz que eu fiz ontem enquanto assistia um filme, deveriam resolver os seus problemas internos, antes de querer cuidar da militância alheia. Especialmente se ela não quer “fuzilar a petralhada”

A nova política é rancorosa 

Na quinta-feira (28), o Ibama exonerou o responsável por multar o presidente em R$ 10 mil por pescar de maneira irregular em uma área protegida em 2012. José Olímpio Augusto Morelli foi o único funcionário que ocupava o seu nível hierárquico a ser exonerado pela administração. 

Aparentemente, usar o poder da presidência da República para anular a multa não foi o bastante. 

O mito que precisa de ajuda para mitar 

Após aprontar altas confusões com um dos três poderes, Bolsonaro foi atrás de estudos. Não, o chefe do executivo não buscou lições sobre teria do Estado: sem informar a imprensa, Bolsonaro terminou a sua sexta-feira (29) na “Escola de Hombridade”

O problema de escrever sobre o Brasil é que as vezes o noticiário consegue superar a nossa capacidade de comentar absurdos. 


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Com edição e revisão da querida Luana de Assis.

A Nova Era – semana #13: os probleminhas de Jair Bolsonaro

Na última semana, Bolsonaro mostrou já ter ignorado vários probleminhas, mas o blog está aqui para lembrar 55 deles. O mesmo número de anos que separam a data em que foi consumado o golpe civil militar que tirou João Goulart do poder e o dia de hoje.


Em entrevista à TV Bandeirantes, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o regime militar teve “probleminhas”. Na sua fala, o político afirmou que o regime não “foi uma maravilha” e que, assim como um casamento, “de vez em quando tem um probleminha’.

O blog discorda e lista os motivos:

Há alguns dias, uma historiadora me disse que falta ao Brasil uma cultura republicana. A Jair Bolsonaro, há também uma ausência ímpar de valores democráticos e, principalmente, vergonha na cara.

Dizer que a Ditadura Civil-Militar teve “alguns probleminhas” é negar o óbvio e fraudar a história e a vasta documentação sobre um dos períodos mais obscuros do tempo presente. É tentar jogar nas latrinas da história (local em que o presidente um dia estará), a luta de centenas de pessoas que morreram por acreditar que havia um futuro para além do autoritarismo militar do seu tempo.

Tentar transformar a nossa última ditadura em algo que só teve “alguns probleminhas”, não é a postura que o país espera do seu presidente, mas certamente é uma postura válida para Jair Bolsonaro, alguém que a cada dia demonstra um desprezo por nossas instituições, a nossa democracia e a nossa história.


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Com edição e revisão da Luana de Assis.