A Nova Era – semana #12: imbecis de primeira classe

A Golden Shower Tour foi tão incrível que merecia um post só para ela, mas como esse é um resumo de toda a 12ª semana do governo, iremos um pouco além.


Golden shower intensifies

Depois de fazer durante o Carnaval um cursinho preparatório sobre o que o presidente Trump gosta, Jair Messias chegou à capital dos EUA no domingo (17), e fez uma visita de três dias. Vamos ao resumo dessa tour do horror e vergonha alheia:

Assusta ao blog, um presidente que pretendia colocar o “Brasil acima de tudo” ceder tanto por tão pouco. Bolsonaro lambeu as bolas de Trump tão bem, mas tão bem, que pode trocar o apelido de águia para Stormy Daniels.

A mudança na política de vistos, por sinal, é algo pouco comum. Pode ser apenas um “choque de realidade” e pragmatismo do governo, mas, no final das contas, não é como se os moradores desses países tivessem tanto interesse em vir passear no Brasil, ou houvesse alguma dificuldade para isso, quando desejam.

O mesmo vale para a base de Alcântara. Não temos tecnologia para construir os nossos foguetes e, se fossemos buscar apoio de outras nações que não a norte-americana, ainda precisaríamos do apoio de Trump (considerando que o Congresso fosse liberar a integração).

Para todos os fins, mesmo com a Fox News apontando os laços do presidente com bands, é possível dizer que Bolsonaro se deu até relativamente bem com o passeio em solo americano.

No Chile, o presidente se reuniu com Sebástian Piñera e outras pessoas relevantes para discutir a criação do Prosul, um bloco que promete ser tão irrelevante quanto a Unasul. A visita foi boicotada por parlamentares do país.

O boicote aconteceu após o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, elogiar Pinochet e dizer que, apesar do “banho de sangue” promovido pelo ditador, a economia era até boa. Pegou mal, e olha que a gente já chegou lá com o filme meio queimado.

Rio de Janeiro, a Sin City brasileira

E o Rio de Janeiro, hein? Linda, a cidade (e o estado) não continuam.

Além de ser terra de milicianos e dos traficantes mais perigosos e loucos do país, o Rio de Janeiro também é um celeiro de gente corrupta. Me faz até dar razão a Marcelo Crivella.

Enquanto eu escrevo este texto, é possível afirmar que todos os governadores (eleitos e vivos), estão na prisão, ou já passaram alguns dias dentro de uma cela, com exceção de Benedita da Silva. O mesmo vale para os presidentes da Assembléia Legislativa estadual: os que ocuparam o cargo entre 1995 e 2017 também foram presos.

No Tribunal de Contas, a situação não é muito melhor: em 2017, 5 dos 6 conselheiros foram parar na cadeia. Já 6 dos 70 deputados que deveriam bater ponto na Assembleia estavam presos no dia em que deveriam tomar posse.

O blog insiste que a solução para o Rio de Janeiro é a mesma do Brasil: vender todo o terreno e transformá-lo em um grande parque de diversões e turismo ecológico.

10 pequenas notas do quinto dos infernos

Saiu o relatório do promotor especial Robert S. Mueller sobre as suspeitas de conspiração entre Donald Trump e a Rússia. Mueller disse muito, mas acabou falando nada de relevante (por hora).

UFC da Toga

DISCLAIMER: o blog tem cu, tem medo e não tem assistência jurídica gratuita. Portanto, os comentários do blog sobre os fatos a seguir são os presentes nos links que acompanham cada fato. Reclamações devem ser direcionadas aos autores das colunas de opinião, que têm fácil acesso a apoio jurídico.

Nas últimas semanas, os agentes da lei mostraram que, entre si, a vida é muito mais agitada do que uma novela mexicana.

Como o blog informou há algumas semanas, Gilmar Mendes não gostou de saber que a sua esposa, Guiomar, teve as contas verificadas por membros do MPF. Eu poderia dizer que quem não deve, não teme, mas é compreensível a preocupação do juiz do Supremo com a sua privacidade.

Dias depois, o Ministério Público resolveu criar uma fundação. Baseados em lei nenhuma e com objetivos pouco claros, os procuradores de Curitiba tiveram a ideia de criar uma fundação para usar parte do dinheiro recuperado pela operação Lava Jato para um “investimento social em projetos, iniciativas e desenvolvimento institucional de entidades idôneas que reforcem a luta da sociedade brasileira contra a corrupção” e mais um monte de coisa bonita.

Um dos procuradores chamou de “má-fé” as críticas ao fundo e para todos os fins, pegou mal. Raquel Dodge, procuradora-geral da República, entrou com uma ação no STF para anular a ideia, e agora, o fundo que nunca existiu, não existirá.

No dia seguinte, Gilmar Mendes chamou os procuradores da Lava Jato de “gentalha”, “gente desqualificada”, “despreparada”, “covarde”, “gangsteres”, “cretinos”, “infelizes” e “reles”, porque “integram máfias, organizações criminosas”. Ao fim, apontou que a “força-tarefa é sinônimo de patifaria”. Tudo isso enquanto decidia se delitos de caixa dois devem ser julgados ou não pela Justiça Eleitoral.

O ministro, que já foi chamado de “mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia“, foi responsável por um dos seis votos que deram aos membros do Ministério Público mais uma derrota em um período de menos de 30 dias.

Já na terça-feira (19), o ministro do STF Alexandre de Moares avisou aos procuradores que eles poderiam exercer o “direito de espernear” à vontade, mas se espernear em excesso, correm o risco de serem investigados pela corte.

Tal qual uma sub celebridade que tanta manter a fama, os procuradores da Lava Jato não conseguiram ficar dois dias longe das páginas de notícia. Na manhã da quinta-feira (dia 21), o juiz Marcelo Bretas, da Lava Jato do Rio de Janeiro, mandou prender o ex-presidente Michel Miguel, o seu amigo e ex-ministro Moreira Franco, Coronel Lima – apontado como operador de Temer – e outras pessoas de menor relevância.

A partir de informações obtidas em uma delação homologada em 2017 e com fatos que pouco justificavam a prisão, a libriana Michel Temer e os seus colegas foram dar um passeio pelo Rio (Moreira Franco, por sinal, tinha acabado de sair de um quando foi preso).

Uma barbaridade”, disse Temer ao jornalista Kennedy Alencar. O blog é solidário à opinião do ex-presidente sobre a cidade carioca.

Teve gente que apoiou, teve gente fazendo cosplay de Regina Duarte, teve gente que viu de longe, teve gente que foi contra, teve gente que apontou problemas na ordem dada pelo juiz bombadinho. Para todos os fins, o ex-presidente foi solto depois de passar o final de semana em uma sala razoavelmente confortável por ordem de um desembargador do TRF2.

No meio tempo, o não-mais-envolvido-diretamente-com-a-Lava-Jato, Sergio Moro, ainda conseguiu arrumar uma briga com Rodrigo Maia. Uma briga que, como vimos posteriormente, adicionou mais uma derrota para os formados em direito (dessa vez, não diretamente ligada à operação da turma que é contra a corrupção de rico e de pobre).

Pensar que tudo poderia ser evitado se os procuradores da Lava Jato tivessem enviado uma fotinha pro pessoal do STF.

Quando o cisne começa a virar patinho feio

O número de pessoas que aprovam o governo foi de 49% em janeiro, para 34% em março. Ainda segundo o Ibope, a avaliação “ruim ou péssima” já atinge 24% (em janeiro, era de 11%). 

Não é algo igual a Dilma ou Temer, Mas é o pior começo de governo desde Collor, sem nem roubar uma poupança alheia. O mito não é tão imune aos problemas do seu governo como se pensava.

Após a décima segunda semana do governo Bolsonaro, já dá para afirmar, sem arrogância, mas com absoluta convicção, que este país não vai dar certo?


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Com edição e revisão da Luana de Assis.


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A Nova Era – semana #11: tava ruim, tava bom, mas parece que piorou

Uma semana mais trágica do que o esperado. E eu nem me refiro ao que acontece em Brasília.


Quem mandou matar Marielle?

A Polícia Militar do Rio de Janeiro fez o que deveria fazer, se tivesse bons recursos, e prendeu o sargento reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz. Ambos são acusados de envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL).

A busca envolveu o domicílio dos dois militares, além de vários outros endereços. Em um deles, 117 fuzis foram encontrados. Um arsenal digno de um escritório do crime.

Lessa, acusado de ter feito os disparos, mora na mesma rua que o presidente. A sua filha teria, inclusive, namorado um dos filhos de Bolsonaro, o que nos leva a concluir que a família:

●      mora perto de bands;

●      contrata parente de bands;

●      tira foto com bands;

●      presta homenagem à bands;

●      passa pano para bands;

●      fala mal de quem critica os seus vizinhos bands;

●      faz sexo com parente de bands.

Certamente nenhum sinal de que a família tem envolvimento indireto na morte da vereadora.

Limpa, lustra, e faz otário parecer legal: Óleo de Peroba

Diante da notícia, Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro, chamou de“crime bárbaro” o que aconteceu com a vereadora. O mesmo ex-juiz que, no ano passado, foi discursar no ato em que uma placa homenageando Marielle foi destruída.

Com o seu cinismo padrão, Bolsonaro disse que também está interessado em saber quem mandou matá-lo, e que não conhecia a vereadora, ainda que tenha dito o contrário no passado.

Em São Paulo, João Dória, após as chuvas que mataram 13 pessoas entre domingo e segunda-feira, afirmou que não havia como prever esse tipo de situação. Pode até ser o caso, mas se não tivesse reduzido o efetivo da Defesa Civil do estado em 21% e investido menos da metade do orçamento contra enchentes, poderia ter ajudado a reduzir os impactos do temporal

Pequenas notas do quinto dos infernos

  1. Alexandre Frota descobriu que, assim como ocorreu com Gustavo Bebianno, não é muito bom criticar investigações que possam afetar os Bolsonaros;
  2. um jornalista frequentou todas as etapas do Curso Online de Filosofia de Olavo de Carvalho;
  3. o vereador carioca Marcello Siciliano avisou que se algo acontecer a ele, a culpa é da família Brazão;
  4. também tentando se proteger contra o braço meio armado do Estado, o delegado Giniton Lages se afastou da PM para fazer um mestrado na Itália;
  5. o governo italiano proibiu crianças não vacinadas de frequentar creches e jardins de infância;
  6. o presidente estabeleceu o CPF como o único documento necessário para acessar informações do governo federal;
  7. um monte de gente branca foi pega nos Estados Unidos mostrando que gente branca é muito burra;
  8. o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, desistiu de disputar o cargo pela quinta vez após protestos;
  9. Dudu Bolsonaro defendeu o professor Olavo na Câmara e o Ministro Vélez mostrou que não sabe qual é o perfil do professor no Twitter;
  10. a Joice quer apoio até do PT à reforma da Previdência. Certamente ela não está incluindo as “bruxas do 62”. Para todos os fins, é bom apagar alguns tweets antes de começar a conversar com os petistas.

Austeridade que faz falta

O ministro da Economia não sabe aproveitar o capital político que tem. Paulo Guedes anunciou em sua primeira grande entrevista que pretende colocar o orçamento inteiro nas mãos do Congresso. Ou melhor, a parte que não envolve a previdência e outros gastos que já estão na mão dos parlamentares, que é bem pequena.

Antes mesmo de conseguir aprovar a reforma da Previdência, o ministro teve uma ideia louvável, mas que esbarra na realidade dos números. Dos R$ 1,5 trilhão da receita corrente líquida, R$ 637 bilhões vão para a Previdência e outros R$ 350 bi são destinados a despesas com pessoal.

Guedes deveria tomar mais cuidado, já que o apoio ao governo está derretendo mais rápido que gelo no asfalto e, diante disso, é uma boa ideia ter as prioridades em dia.

De cargo em cargo, o Olavo domina o governo. Ou pelo menos tenta.

Há algo de podre no reino do MEC. Olavo de Carvalho, ao longo das últimas semanas, protagonizou mais um dos vários episódios de disputa de poder do governo Bolsonaro. O ministro da (des)educação Ricardo Vélez, o preterido, anunciou na sexta-feira (dia 08) a demissão de oito alunos do professor sem diploma de licenciatura.

Vélez foi pressionado não só a demitir os olavetes, mas também a ser um “ministro de fato”. Na quinta-feira, Olavo já teria aconselhado os seus alunos a saírem do governo, e na sexta-feira acusou empresários do setor da educação e militares de barrar a sua influência no MEC.

Já na noite de domingo, Ricardo Roquetti, o principal militar que rivaliza com Olavo, também caiu. Após a pequena vitória, já sabemos o próximo passo do guru da direita reacionária brasileira: influenciar todas as trocas de reitores das universidades federais.

As tentativas de controlar o ministro não estão dando muito certo, mas Olavo segue tentando e debatendo sobre. O ministério, que não compra livros, não incentiva pessoas a coordenarem cursos e não educa, virou refém de um lunático.

Lavando a roupa suja em rede nacional

Por seis votos a cinco, o Supremo decidiu que os crimes de corrupção ou lavagem de dinheiro, que estivessem associados com caixa dois de campanha, seriam julgados pela Justiça Eleitoral, assim como manda a Constituição.

O coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, declarou que a ação do Supremo começa a “fechar a janela de combate à corrupção política que se abriu há 5 anos”.

Se os procuradores são realmente bons em prender políticos corruptos, eles já deveriam ter se acostumado com esse tipo de problema e se adaptado às adversidades. Via de regra, eles fazem isso, muitas vezes chegando ao limite do aceitável.

Quando o esgoto da internet resolve escorrer a céu aberto

A fábrica de incels fez novas vítimas. Em Suzano, na região metropolitana de São Paulo, 2 jovens mataram oito pessoas. Os dois rapazes se uniram a um grande grupo de frustrados que se reúnem em chans e resolvem cometer assassinatos em massa.

O senador Major Olímpio seguiu Donald Trump e afirmou que “se os professores estivessem armados, e se os serventes estivessem armados, essa tragédia teria sido evitada”. A ideia, imbecil por si só, me faz questionar: professor que não sabe ensinar algo além da regra dos três conseguirá atirar em situações extremas?

Bolsonaro chamou o “atentado” de “monstruosidade e covardia”, seis horas após as primeiras notícias surgirem e um post sobre comida depois. Até o seu filho foi mais rápido.

Dória disse que pagaria R$ 100 mil como indenização pela morte de cada vítima em até 30 dias, mas quem aceitar não poderá processar judicialmente o Estado.

Na Nova Zelândia, o impacto das ideias que circulam no submundo da internet levou à morte de meia centena de pessoas na cidade de Christchurch. O assassino transmitiu a sua ação pelo Facebook e divulgou um manifesto em que se declara defensor da extrema-direita e contrário à imigração.

Os ataques nos lembram de várias coisas, e entre elas, é importante destacar que a cobertura jornalística ainda é muito ruim, nossos policiais não sabem instalar o Tor, muita gente gosta de gore e as redes sociais são péssimas em banir conteúdo sensível, além do fato de falharmos miseravelmente em mostrar aos jovens que a vida vai além de transar loucamente.


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Com edição e revisão da Luana de Assis.

A Nova Era – semana #10: a literalidade do dedo no cu e da gritaria

Bolsonaro jura que não é fascista. Mas como todo populista reacionário, ele realiza um ótimo cosplay de Mussolini do século XXI quando lhe é conveniente.


Hoje eu acordei e deu uma saudade do Petê

A jornalista Luiza Bandeira reuniu no Twitter um conjunto de links que mostram como os maiores blogs pró-governo estão ligados ao partido do presidente. Assim como Caio Coppolla, parece que o Terça Livre não é muito livre, o Conexão Política está bem conectado com dinheiro da política e a República de Curitiba pode se encontrar com milicianos facilmente.

Políticos criando os seus próprios jornais para divulgar as suas opiniões não é algo novo no Brasil e em nenhum lugar do planeta, mas os petistas pelo menos faziam isso de uma forma mais discreta.

⬆️ protecionismo econômico ⬇️ liberalismo econômico

O episódio dessa semana do seriado “liberais que apoiaram Bolsonaro passando vergonha” teve o presidente dando uma banana pra abertura econômica: o presidente quer barrar a importação de banana do Equador.

O futuro avaliador da qualidade do ENEM diz não entender como uma banana sai do Equador e chega ao nosso país custando menos do que as frutas nacionais vendidas na Ceagesp. Alguém faltou nas aulas de economia enquanto batia papo com inocentes produtores do fruto amarelo, mas tudo bem, o blog explica com a ajuda do João Dória.

Na última semana, João Trabalhador anunciou uma redução (sim, mais uma) de impostos para a indústria automobilista. O que parece muito com liberalismo está mais para uma medida que cairia como uma luva no governo de Dilma Rousseff: um puro suco de protecionismo vertical direcionado a setores com maior poder de lobby.

Ao reduzir impostos de uma indústria com forte impacto ambiental, o governador de São Paulo está, mais uma vez, indo contra todos os pensamentos modernos de mobilidade urbana. Mas focando apenas nos fatores econômicos, Dória também ajudou a distorcer preços relativos, prejudicar a concorrência que se instala em outros estados e, em última instância, mantém o poder de compra do indivíduo limitado a uma meia dúzia de carros caros e de qualidade duvidosa. Adam Smith estaria orgulhoso.

E a democracia, hein?

Se os generais do governo ganharam um banho de loja, chegou a hora dos civis ganharem um banho de democracia.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mais uma vez esqueceu que o seu cargo foi criado para cuidar do meio ambiente (e não da vida alheia). Após uma coluna de opinião em jornal Alemão criticar o governo, Salles comparou a posição do colunista com o nazismo. Um dos trechos dizia:

São pessoas que agem e falam com arrogância e crueldade. São pessoas que riem quando morre uma criança de sete anos. Que comemoram quando a polícia comete massacres em favelas, quando morrem ambientalistas ou vereadoras negras. Pessoas que não conhecem a diferença entre flertar e assediar. Pessoas com relações com milícias. Pessoas que falam toda hora em Deus, mas mentem, xingam e difamam. Pessoas que gritam “zero corrupção!”, mas que são corruptas.

Questionado, o ministro informou que o veículo “atacou o governo brasileiro com acusações mentirosas e ofensivas”. Para outro internauta, Salles disse que “o DW é um canal público, não pode escrever essas coisas do Brasil”.

Ora, a Casa Civil não tem um beneficiário confesso de caixa dois? O ministro pode garantir que todos os membros do alto escalão sabem mesmo diferenciar assédio de paquera? Os Bolsonaros não homenagearam membros da milícia nos últimos anos? O Twitter presidencial não mente mais vezes do que um jovem usaria o banheiro após comer uma maionese artesanal na praia de Copacabana?

Antes de pautar a mídia de outros países, Salles deveria lembrar que, para isso, ou ele vira dono do próprio jornal ou se torna editor-chefe. No cargo de ministro, ele deve apenas aceitar as críticas que fazem parte do dia a dia de qualquer governante. A democracia tem dessas.

Enquanto isso, em um evento de militares, o presidente disse que as Forças Armadas são a instituição que garante a democracia no país. Me digam se eu estiver errado, mas a Constituição dá ao povo, e não aos militares, o poder de garantir a ordem democrática.

Não foi só o branco de cocar que atacou a imprensa, Bolsonaro também fez a sua parte no ataque a jornalistas, e dessa vez com ajuda do blogprog da pá virada Allan dos Santos.

Após uma péssima tradução, o “jornalista” acusou Constança Rezende de tentar destruir o governo. O presidente republicou a acusação, lembrando que ela é filha de um repórter carioca que publica, de maneira recorrente, matérias contra milicianos.

O site francês que originou a publicação desmentiu os dois no Twitter. Para alguém que ocupa o cargo político mais importante do país, Bolsonaro está precisando de umas aulinhas no CCAA, que seriam muito bem acompanhadas de um reforço no português de toda a família.

Pee tape à brasileira

O carnaval dos Bolsonaros foi agitado. Enquanto o Carluxo usa o Photoshop em suas fotos, o Bolsopai anunciava uma “Lava Jato da Educação”, falava sobre mudanças na Lei Rouanet e encontrava socialismo não light em lugares em que não há socialismo.

Mas o que chamou atenção dos internautas foi a divulgação de uma performance artística no carnaval, com direito a dedo no cu, gritaria e golden shower.

Alguns chegaram a cogitar impeachment por falta de decoro, algo que obviamente não acontecerá. Houve também quem questionasse até a saúde mental do presidente, e a base aliada teve vergonha.

Mas tudo isso é parte do seu plano e estratégia que, por sinal, tem dado muito certo.

Um conhecido uma vez disse, sabiamente, que política é entretenimento. E entretenimento é colocar todo mundo para falar de algo – seja bem ou mal. Isso, Carlos Bolsonaro, o ghost writer do Twitter presidencial, soube fazer muito bem.

Política é construção de narrativas. A política feita por Bolsonaro, Trump e similares tem como ponto de partida uma manipulação contínua do debate público a partir de divulgação de vídeos, como o do golden shower, ataques à imprensa e mentiras. Já é hora de nos acostumarmos a isso, isso se quisermos deixar de ter as nossas discussões pautadas pelo Tonho da Lua carioca.

A tucanização dos não tucanos

Se a esquerda e/ou o centro do espectro político pretendem voltar a governar o país um dia, chegou a hora de começar a olhar mais para o presente e não para o passado. O Brasil de Bolsonaro está muito mais próximo da Rússia de Putin (ou dos EUA de Trump) do que da Alemanha de 1940 ou o Brasil de 1964.

O Partido dos Trabalhadores, que recebeu a maior quantidade de votos contra-Bolsonaro na última eleição, está fazendo de tudo para perder o capital político mais rápido do que Aécio Neves após as eleições de 2014.

Segundo o Painel da Folha de S.Paulo, o partido pretende defender como contra proposta à reforma da Previdência de Guedes, as medidas que Fernando Haddad inseriu em seu programa de governo nas últimas eleições. Ao menos era o que o partido queria fazer antes de Gleisi Hoffmann ser consultada.

Alguém lembra quando o PT cobrava do PSDB uma oposição programática, que não fosse apenas “contra tudo isso que está aí”? Eu lembro. Era a mesma época em que o próprio líder do governo sabotava a Dilma no Congresso de manhã, e à tarde apontava o dedo para os tucanos e o resto da base aliada.

Falando em aliados, a mídia (e parte da militância progressista) resolveu brincar de shadow cabinet e criar um governo paralelo para criticar Bolsonaro e Guaidó. A iniciativa é liderada por José de Abreu, aquele que já cuspiu em mulher, disse que não era hétero só de brincadeira e chamou vietnamitas de um “povo filho da puta”.

Glesi Hoffmann, quando convidada, não perdeu a chance de ir até a Venezuela validar a “eleição” do projeto de ditador que governa o país. O coordenador do MST, aquele que o presidente quer criminalizar, também não deixou de apoiar o governo nada democrático quando lhe foi possível.

Se ambos querem ajudar a direita a grudar na esquerda uma imagem de movimento pouco democrático, eles merecem uma medalha: o trabalho está sendo realizado com louvor.

Eis o Brasil em 2019: a maior força contra o governo segue sendo o próprio governo. Na semana em que a reforma da Previdência começou a ser negociada no Congresso, o ministro da Casa Civil viajou por quatro dias para à Antártida.

Bolsonaro, por outro lado, começou a desidratar a reforma antes mesmo que ela fosse lida pelos congressistas. O presidente, que pouco fala sobre o projeto mais importante do governo no Twitter, já se mostrou disposto a reduzir a idade mínima para as mulheres e a mudar o BPC.

Pelo visto os dois ex-deputados passaram muito tempo discutindo abobrinha nos anos em que estiveram na Câmara dos Deputados, já que só isso explica o esforço para não aprovar qualquer medida importante na Câmara.

Quando se tornaram obrigados a brincar de realpolitik no Planalto, Onix e Bolsonaro mostram ter menos capacidade para governar do que certo deputado mineiro teve de esconder os seus pedidos de empréstimos para fins duvidosos.

A coisa tá tão feia que agora precisamos contar com a boa vontade dos militares para diminuir o número de absurdos diários que cada setor promove. Os militares, por sinal, estão tão empenhados no seu papel de Poder Moderador Moderno que há quem questione a necessidade de termos um vice-presidente.

Veja bem, a situação do governo Bolsonaro não é uma que faça o trabalho da oposição ser difícil. Além de todas as denúncias sobre o grande laranjal que é o PSL, as várias ligações do presidente com milicianos e as briguinhas internas, ainda por cima a economia não vai bem.

Em 2018, crescemos 1,1%. Em 2019, não deveremos crescer muito mais, e qualquer pessoa que já leu um livro de economia básica sabe que a reforma da previdência será tão boa quanto a trabalhista para criar empregos. Em 2020, é bem provável que o cenário se repita.

Essa seria uma ótima oportunidade para as forças de oposição seguirem o exemplo do PSB e do PDT e se unirem. O que se vê, no entanto, é o principal partido da oposição se colocando contra um político de outro país. Já o PSOL, que não tem voto para eleger sequer um síndico de condomínio, está muito ocupado marcando posição com brincadeira, mentindo ou ignorando que o presidente fala mais de multa do que a reforma.

Tudo bem, vocês querem vencer a “batalha moral” criticando quem vai até o lugar em que as narrativas da direita reacionária correm soltas. Mas poder gera poder, e nesse ritmo, só os conservadores conseguirão ampliar a sua força.


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Com edição e revisão da Luana de Assis.


A Nova Era – semana #9: a República do Relógio Feio

Nessa semana, as pessoas que realmente mandam – e as que não deveriam, mas também o fazem –, governaram. Já a que deveria governar, mas ninguém se importa, ficou no Planalto. Parece confuso? Então continue a leitura e entenda. 


Fusca 94 marrom caqui com adesivos verdes

Não foi apenas Mourão que recebeu uma repaginada para assumir a vice-presidência.  Os outros milicos que ocupam cargos de primeiro, segundo e terceiro escalão (dentro e fora de Brasília) receberam um pequeno banho de loja e se tornaram os Fuscas do Itamar da Nova Era: uma versão levemente moderna de algo que já deveria ter ficado no passado.

Até segunda ordem, seguiremos torcendo para que os freios dos nossos Fuscas impeçam o governo de avançar contra o barranco da História. 

50 tons de socialismo 

O governo Bolsonaro começou falando em acabar com o socialismo, mas em menos de 10 semanas já mostrou que não é bem assim. Quando o socialismo é light, tá tudo liberado. 

É o que deu a entender o nosso 4chanceler Ernesto Araújo, ao comentar a crise política venezuelana. Em uma entrevista ao reporter da GloboNews, Victor Ferreira, o ministro afirmou que o nosso vizinho é um caso de “socialismo ruim”, em que “o regime está oprimindo o seu povo de uma maneira brutal, fazendo seu povo passar fome, inclusive atirar nas pessoas que tentam ter acesso a ajuda humanitária”. Exatamente como ocorre na Coreia do Norte, um caso de “socialismo do bem”, segundo Araújo. 

Chico Buarque – Olhos Nos Olhos 

Mais uma vez exercendo o seu cargo de pessoa razoável, o vice-presidente lembrou a razão para sermos tão complacentes com a Coreia do Norte: bombas nucleares.

Não é a primeira vez que o vice tem que lembrar ao 4chanceler como o seu trabalho deve ser feito. Podemos dizer que esse foi o primeiro momento “olha o Mourão mostrando que sem essas pessoas a nossa vida seria muito mais fácil” da semana. 

Seria bom que os militares continuem aproveitando a experiência que tem e jogassem para escanteio o nosso diplomata olavista preferido. O 4chanceler pode fazer muito mais pelo Brasil se as suas atividades forem resumidas a receber gente que seria vítima da guilhotina em seu gabinete.

República das Bananas do séc. XXI 

Os últimos dias foram agitados na Venezuela, especialmente nas fronteiras com o Brasil e a Colômbia. 

Deste lado da fronteira, o Ministério da Defesa teve que dialogar com militares venezuelanos para impedir que a área virasse uma reprise de Toma Lá, Dá Cá

Já do outro lado, o governo mandou queimar a ajuda humanitária que foi enviada através da divisa colombiana. Se havia o medo do envio de armas dentro da carga, bastava verificar os pacotes. Daria até para contratar algumas pessoas para esse trabalho, e reduzir por algumas horas os índices de desemprego no país.

Os militares se dividem entre os que estão assaltando a população que foge do país e matando índios, os que seguem apoiando o governo e os que estão desertando. Junto com o prefeito da cidade venezuelana de Gran Sabana, os últimos são parte de um grupo nada pequeno de pessoas que não aguentam mais os problemas causados pelo governo já estragado de Maduro.

Para o horror do Trump, do presidente da Colômbia e daquele seu amigo do PSOL que ainda acha que uma intervenção militar pode ocorrer na Venezuela, o Grupo de Lima demonstrou zero interesse nessa história, ao menos por enquanto. Segundo o vice-presidente-que-ninguém-gosta-de-gostar, a melhor estratégia ainda é o diálogo

Enquanto isso, o presidente, que não é muito bem um presidente, fez um tour pelos países da América Latina para reforçar a necessidade de derrubar Maduro. 

Um Gilmar para o Gilmar

Gilmar Mendes foi flagrado cotando o preço de passagens para a China. O ministro do STF fez uma vaquinha com Dias Toffoli para criar o seu próprio Gilmar Mendes e, assim, se proteger das análises da força tarefa da Receita Federal contra as fraudes fiscais

A Nova Era está enferrujada 

De acordo com a última pesquisa divulgada pela CNT/MDA, o governo Bolsonaro tem menos aprovação do que Dilma Rousseff às vésperas de sua segunda eleição. Aparentemente, o Brasil não está gostando do resultado de ter eleito um presidente “burro”, “fascista”, “desonesto”, “desqualificado”, “racista”, “corrupto”, “canalha”, “nepotista” e “boquirroto”.

A pesquisa também revelou que a flexibilização da posse de armas não é aprovada por 53% dos entrevistados e a reforma da previdência só recebe o apoio de 43% dos brasileiros. O Brasil crescerá muito quando as pessoas deixarem de votar nos políticos apenas para serem contra algo ou alguém.

Mais liberal do que eu? 

Na manhã do dia 26, as principais montadoras brasileiras pediram, de novo, novamente, mais uma vez, que o Brasil as proteja contra a concorrência de outros países. Dessa vez, o ataque foi direcionado a um acordo de livre comércio entre Brasil e México, que deve entrar em vigor em menos de um mês. 

A notícia é um refresco na memória, lembrando a todos que o verdadeiro liberalismo tupiniquim ainda está restrito a algumas salas do Insper e da PUC-RJ. Quem pensou que dessa vez ele ocuparia as esquinas do Planalto pode terminar de tirar o cavalinho da chuva. 

Pequenas notas do quinto dos infernos 

Enquanto parte do governo falava e fazia vários absurdos para a surpresa de ninguém, várias pequenas coisas interessantes aconteceram. Tomem nota: 

Gold Digger

Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro e condenado a quase 200 anos de prisão, admitiu os crimes que todo mundo sabia que ele cometeu. O “viciado em dinheiro” começou a listar, também, algumas pessoas que podem ter se envolvido em esquemas de corrupção durante o tempo em que ele esteve no poder. No lugar da Igreja, uma boa estratégia seria listar algo realmente interessante: o judiciário. 

A relação de Cabral com os membros da Justiça é longa. Ele influiu em decisões do Tribunal de Justiça do Rio, apadrinhou quatro ministros do STJ e até mesmo um ministro do Supremo. Esses favores não devem ter saído de graça

Bandido bom é bandido amigo 

A cada notícia sobre o que aconteceu nas vizinhanças do gabinete de Flavio Bolsonaro enquanto ele batia ponto na Alerj, mais a família Bolsonaro se aproxima de milicianos, os bandidos cujo crime foi amar demais um poder policial paralelo. A Istoé relevou que Valdenice de Oliveira foi uma das responsáveis pelas contas de campanha do senador, a ex-funcionária do 01 é irmã de dois milicianos que, até o momento, estão presos. 

Já a Veja mostrou que a mãe e a esposa de Adriano Magalhães de Nobre, apontado como líder do Escritório do Crime, também trabalharam no gabinete. Resta saber se o “escritório” de Adriano não tinha nenhuma filial no gabinete do ex-vereador. 

Gado demais 

A revista IstoÉ trouxe dados sobre como o dinheiro de 1,4 mil eleitores foi aproveitado por Bolsonaro em campanhas de outros políticos. A verba de R$ 345 mil teria sido direcionada para os filhos Eduardo e Flávio, além do deputado Hélio Lopes.  

Governo Bolsonaro: lamba o saco de cocô ou deixe-o 

Na última semana, Sérgio Moro foi lembrado que, assim como Paulo Guedes, a sua autonomia no governo não é lá das maiores. Mostrando que se ele não quer continuar manchando a sua carreira com episódios lamentáveis, uma boa alternativa é correr para o posto do INSS mais próximo e ver se ainda consegue se aposentar antes da reforma passar.  

É aproveitar a janela de oportunidade ou continuar engolindo sapo para tentar virar ministro do STF ou, quem sabe um dia, presidente do país

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O fato de Bolsonaro ter obrigado Moro a desconvidar Ilona Szabó de uma suplência no Conselho de Políticas Criminais e Penitenciárias serviu para lembrar que a Nova Direita nunca será transante. Não se continuar com medo até das mulheres que não mandam em nada. O caso virou mais um item na longa lista de provas de que o governo só serve para obedecer os seus eleitores. 

Partido-à-Prova de Balas 

Quanto mais matérias são feitas sobre o PSL, mais o partido parece ser uma versão nacional da Quadrilha da Morte. Na última semana, o Buzzfeed News acusou o ministro Marcelo Álvaro Antônio, já suspeito de gerir a filial mineira do laranjal da sigla, de tentar extorquir uma candidata a lavar dinheiro para o partido

Já o The Intercept Brasil lembrou que o presidente realmente gosta de coisas que não existem. Além de uma ameaça comunista que nunca atingiu o Brasil, Bolsonaro também é afeito a assessores que não trabalham para ele, mas certamente recebem para isso. 

A sanha por laranjas é tanta que até mesmo na lista de debates na Câmara os deputados do partido assinam pelos colegas

O PSL, ao fim e ao cabo, é uma fábrica de suco de laranjas, comandada por um Tonho da Lua, um ator pornô, uma jornalista conhecida pelos plágios, militares e youtubers. Se tudo der certo, em quatro anos, a esquerda que chamava o PSDB e o Tio Rei das piores coisas existentes na Terra estará sentindo falta de opositores com algum nível sociológico e cultural.


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Com edição e revisão da Luana de Assis.