A Nova Era – semana #8: que Deus tenha misericórdia desta nação

A Nova Era ainda não se corrompe como a Velha Era, mas certamente copia os métodos políticos dela


RT @google: É mesmo? Foda-se.

Uma pesquisa da Rock Health revelou que apenas 11% dos entrevistados se sentiam confortáveis em entregar dados de saúde para grandes companhias, como o Facebook e a Amazon. O blog fica feliz em saber que o jovem, finalmente, se preocupa com a sua privacidade (após entregar todo tipo de informação em troca de uma simulação de como ele ficaria aos 70 anos, postar nudes de forma não anônima no Twitter e dizer em quais cantos da cidade ele andou enfiando a cara na bunda alheia no Instagram).

O próximo passo é notar que as grandes empresas não precisam de permissão direta para acessar seus dados e saber quando ele pegou uma DST. Basta comprar o acesso ao banco de dados do MyFitnessPal. 

Corrupção de rico 

Finalmente 2019 trouxe a nossa primeira corrupção de rico. Um escândalo em que dá gosto de ser roubado pelos nossos agentes políticos. 

Segundo a operação, o intermediário político do PSDB, Paulo Preto, preso na manhã de terça-feira (19), movimentou mais de R$ 130 milhões de reais na Suíça. Enquanto auxiliava o Departamento de Operações Especiais da Odebrecht a lavar dinheiro, Preto manteve um bunker com mais de R$ 100 milhões em dinheiro vivo. Uma quantia tão alta que precisava ficar pendurada em varais para não acumular bolor e se manter, digamos, limpinha. 

Espero que a verba desviada tenha servido para comprar um terninho de alfaiataria e uma bonita casa de praia. Sítio em Atibaia, franquia de loja de chocolate e triplex no litoral paulista estão muito fora de moda. 

Imbecilidade básica 

Ideias imbecis são o vestido preto do governo Bolsonaro: nunca saem de moda. 

Sem que ninguém pedisse, os bolsokids estão trabalhando para refundar a UDN. Só devem tomar cuidado para não repetir em demasia o passado. Da última vez que a UDN apoiou um presidente, não precisamos de muito para termos um Golpe Militar. Eu não estou pronto para ter o blog censurado.

Já o ministro da educação enviou um e-mail a todas as escolas do país pedindo para que o hino nacional seja tocado antes das aulas. Como se o absurdo já não bastasse, também solicitou que as crianças fossem gravadas, e tudo isso usando o slogan da campanha de Bolsonaro como assinatura. 

Se o plano do ministro é acabar com a educação nacional, ele terá sucesso. O horário em que os estudantes ficam em sala de aula prestando alguma atenção aos conteúdos já não é muito grande. Reduzi-lo, ainda mais, obrigando um bando de catarrento a cantar o hino, não me parece uma forma de melhorar os nossos indicadores de qualidade. 

[UPDATE: o ministro refez as suas palavras. Segundo Vélez, o pedido, agora, é que as crianças sejam filmadas apenas com a autorização dos pais. E nada de slogan de campanha dessa vez. O blog mantém a posição.]

Para aproveitar o sentimento saudosista dos nossos governantes, o próximo texto do blog será entregue por carta. Fique atento, internauta, pois 1964 vem com tudo.

Um novo padre para uma igreja decadente 

Na última sexta-feira (22), o rapper R. Kelly foi indiciado, após dez acusações de abuso sexual. Em Roma, o papa Francisco afirmou que o cantor não tem relações com a Igreja. Ainda.

Fontes não negam e nem confirmam que a instituição já pensa em chamá-lo para ser Bispo em alguma diocese no interior dos Estados Unidos. Além de um bom currículo, o artista ajudaria a Igreja a ter um corpo de clérigos etnicamente diverso.

Pessoas inteligentes merecem métodos inteligentes 

Ainda sobre a instituição com a maior concentração de homens vestindo saia do planeta: o papa Francisco prometeu, em um encontro no Vaticano, uma “batalha total” contra abusos sexuais. A Igreja pretende chamar de menor todos os jovens com idade de 14 anos, além de assegurar a criação de novas diretrizes para a prevenção de abusos. 

Eis uma ideia inovadora: ligue para a polícia quando um padre for denunciado. É mais prático e exige apenas o aperto de três teclas no seu telefone.

Raul_Seixas-Vai_Cair.mp3 

Apesar de todos que tinham algum senso tentarem impedir, o agora ex-ministro, Gustavo Bebianno, finalmente caiu. A seus aliados, Bebbiano disse que precisa “pedir desculpas ao Brasil por ter viabilizado a candidatura do Bolsonaro”

O ministro exonerado com mais agilidade desde 1990, em entrevista ao programa Os Pingos nos Is, respondeu uma série de perguntas feitas por Felipe Moura e Augusto Nunes. Nenhuma delas sobre o hospital em que o advogado esteve internado em coma ao longo das últimas três décadas, já que só isso explica o fato de ele não ter notado que Bolsonaro não tem o preparo necessário para mandar nem na própria família.

O Whatsapp e o Twitter te elegeram, mas não governarão por você 

Jair Bolsonaro reclama regularmente que a imprensa não diz o quão bom presidente ele é. O presidente, obviamente, se esqueceu que o trabalho dos jornalistas é contar a verdade.

Chegou a hora de Bolsonaro começar a governar o Brasil e parar de viver na sua realidade paralela. Ele não é Alice no País das Maravilhas para tomar decisões como se estivesse em uma longa viagem de ácido. 

A crise da última semana foi um ótimo exemplo: o governo está institucionalizando o Severino-Cavalcantismo como método de comando, enquanto um bando de políticos do baixo clero fica correndo pelos corredores do Planalto, tentando entender como o Brasil funciona. 

A derrota na Câmara foi um bom alerta. Lidar com os deputados como se eles fossem robôs de Whatsapp pode não ser uma boa ideia, especialmente depois de mostrar que os seus pirralhos podem demitir qualquer ministro, mesmo que ele seja o responsável pela articulação política dos dois maiores projetos mais importantes a serem votados. 

Jair Bolsonaro está mostrando, a cada dia, a pessoa completamente despreparada que é. Desde que resolveu ser presidente, Bolsonaro mostrou que não sabe de economia, não compreende as medidas de segurança digital necessárias para o seu cargo, desconhece como uma boa decisão política é tomada e tem dificuldades até para ler um teleprompter. Em mais seis meses, até o mais fanático dos direitistas estará sentindo falta dos anos Lula. 


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(com a revisão da @fogeluana)

A Nova Era – semana #7: uma semana sem dedo no cu, mas com muita gritaria

Na sétima semana de governo Brasileiro, o país esteve nas mãos de um General que não foi eleito para ser presidente e dos filhos de quem até foi eleito para ser presidente, mas que estava com o cu muito protegido para ser colocado na reta. 


Sonhos reduzidos a pó pelo leite em pó 

Os liberais de quermesse que apoiaram o nosso presidente já se arrependeram ou precisarão da manutenção de proteções a outro setor estratégico que de estratégico não tem nada para ver a canoa furada em que eles entraram? Ou vão esperar a ministra da Agricultura defenestrar parte da reforma da Previdência? Se organizar direitinho, todo mundo pode anular o voto em 2022 e dizer que nunca votou em cristãos novos da liberdade. 

Pegue a sua merda junto 

O governador Romeu Zema, se quiser realmente provar que é capaz de fazer algo novo em Minas Gerais, precisa lembrar que ele não é mais dono de meia dúzia de lojas do interior do estado. Mas sim chefe do executivo de uma UF com mais de 850 cidades.

O estado tem uma série de problemas graves. Nenhum se resolverá com a venda de fotos do Fernando Pimentel ou deixando de entregar meia dúzia de medalhas para pessoas de relevância contraditória.

O exercício de um cargo de poder exige certos privilégios. Eficiência administrativa não se conquista indo até o Aeroporto de Confins com uma dúzia de seguranças e assessores sempre que precisar ir até uma cidade do interior.

Quando se é governador, não há espaço para ficar esperando o momento em que um avião comercial levantará voo em direção a uma cidade polo. Tão menos tempo para viajar 500km em uma estrada com manutenção de pouca qualidade na direção de algum vilarejo no meio do Vale do Rio Doce.

A não ser, é claro, que você queira governar para a RMBH. Aí tá tranquilo. Caso contrário, talvez seja uma boa escolha não vender todas as aeronaves do governo. A realidade cobra o seu preço rapidamente.

Desmatando a verdade

As falas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no Roda Vida da última sexta-feira (12), beiram o desespero. Temos um ministro, em tese responsável por cuidar das nossas florestas, que trata a nossa complexidade econômica, ecológica e industrial como quem trata o sistema de esgoto de um bairro. 

Na entrevista, o ministro não só mentiu, mas manipulou dados, não defendeu o que ele deveria defender, atacou um dos maiores defensores do meio ambiente da nossa história e fez lobby para empresas que vivem de explorar o meio ambiente. Mas nada disso será o bastante para ele cair do cargo. Afinal de contas, só cai no governo Bolsonaro quem briga com os filhos do capitão, não quem mente.                                                     

Joice in the sky with diamonds

O dia a dia de Joice Hasselmann como deputada consegue superar o surrealismo dos seus vídeos no YouTube. A deputada promoveu, logo no começo do mês, um culto religioso para “exorcizar” o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva do gabinete (que foi ocupado pelo petista entre 1987 e 1991). 

Era mais fácil ter puxado o saco de algum macho e conquistado outro gabinete de sua preferência. Não é como se ela já não fizesse isso com grande empenho com as bolas do presidente Bolsonaro. 

A estratégia claramente não deu certo. O espírito do petismo já entrou no corpo da deputada que, junto com outros membros do PSL, apresentou uma série de CPIs para blindar o governo e tentar deixar os petistas de fora. Como um parlamentar petista faria no mesmo cenário. 

Ainda sobre a mania de copiar os petistas da paulista, Joice manteve velhos hábitos. Nos seus primeiros dias de trabalho, apresentou um projeto para proibir o “vossa excelência”. Uma ideia de Roberto Requião e que já foi vetada por Temer.  

O gabinete, por sinal, conta com várias algemas. Elas têm como objetivo dar voz de prisão àqueles que tentarem corrompê-la. Se ela aparecer com uma roupa de látex e um strap-on, as possibilidades de sucesso são maiores.

Ninguém espera a inquisição bolsonariana

Chama a atenção do blog a revelação de que o governo Bolsonaro quer conter a Igreja Católica como opositora da sua administração. Assusta mais ainda saber que a ABIN espionou cardeais brasileiros em busca de mais dados sobre a realização do Sínodo sobre Amazônia, em outubro.

Considerando o histórico de acusações e abusos das últimas décadas, esse esse encontro tem tudo para ser uma grande troca de figurinhas sobre os melhores coroinhas da noite romana. Um monte de velho gordo e celibatário reunido tem preocupações maiores do que a nossa soberania nacional (especialmente se o assunto envolver as curvas de jovens índios sem pelo na região pubiana).

Se for para colocar a ABIN para espionar religioso, que seja para verificar se não há cobrança de dízimo de maneira pouco ortodoxa. Os resultados certamente serão mais interessantes.

Casa de Bragança reversa 

Todo mundo sabe que os Bolsonaro têm uma paixão pela monarquia. O que ninguém esperava é que o governo fosse parecer como uma monarquia decadente de terceiro mundo.

De um lado, há o nobre decadente que tenta ser mais relevante do que realmente é. Olavo de Carvalho anda com mais dor de cotovelo do que aquela sua ex que te viu superar o fim do relacionamento em poucos meses. Direto dos Estados Unidos, sofre com a indiferença do vice, tenta colocar a militância contra quem realmente importa e vira o próprio meme do “Galvão?” “Diga lá, Tino.” “Sentiu.”

Os filhos do presidente, que não foram eleitos para serem presidentes, influenciaram em várias decisões como se estivessem no lugar do vice. Nas horas vagas, chamam de mentiroso alguém com informações para destruir o governo a qualquer hora. Se não destruir, pelo menos fazer Bolsonaro precisar de um novo cu

Até a Joice Hasselmann sabe que isso não é uma boa ideia (resta saber de quem ela copiou o pensamento). 

Carlinhos, aquele que dizem namorar o primo (tal qual um monarca faria), tem o seu próprio bobo da corte e garoto de recados no Planalto. Nem parece que o Rio de Janeiro está lotado de problemas que precisam ser solucionados com urgência. 

Enquanto isso, Paulo Guedes, Sergio Moro e os militares lutam para conseguir fazer qualquer coisa de relevante. Isso, é claro, torcendo para que nenhum pupilo do capitãozinho se revolte contra eles.

Até o momento, o governo Bolsonaro consegue superar o nível de bagunça de qualquer cartum feito por um francês iluminista crítico ao monarca Luis XVI. Só falta saber quando a guilhotina descerá. 

E agora, para algo completamente diferente  

A morte de Ricardo Boechat é uma facada para o jornalismo de opinião sério brasileiro. Ainda mais no momento atual, em que qualquer bobo (este que escreve incluso) se acha relevante o bastante para dizer várias bobagens na web. O careca conseguiu o respeito de todos os lados da política fazendo algo que nenhum editor de páginas como Terça Livre conseguirão: sendo ético, transparente e justo, como mostra Reinaldo Azevedo em seu blog


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(com a revisão da @fogeluana)

A Nova Era – semana #6: I am as mad as hell, and I’m not going to take this anymore

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Corrupção de pobre SE01EP06 

Toda semana o governo Bolsonaro nos surpreende com uma acusação de mal feito que, via de regra, pode ser definida como uma corrupção de pobre: aquele desvio de dinheiro público que não dá bilhão, não faz alguém ter uma amante que aparece na capa da Playboy ou uma mansão na Barra da Tijuca. 

No episódio da semana, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL), foi acusado pela Folha de S. Paulo de patrocinar um esquema de desvio de verbas eleitorais para empresas ligadas ao seu gabinete. Uma prática tão velha e digna de político pouco relevante que me fez sentir saudade do Geddel com seu apartamento cheio de dinheiro

A corrupção da Nova Era é muito ruim. Quero a corrupção da Era Velha de volta. 

Amado Batista – E o Pau Tá Quebrando.mp3 

A força eleitoral do PSL nas últimas eleições ajudou o partido a criar um dos maiores blocos parlamentares da nova legislatura. Com quatro senadores e 52 deputados, ninguém pode negar que o partido consegue dizer que tem um grande poder. 

Mas antes de exercer essa força, os parlamentares deveriam aprender algo que os petistas aprenderam mal e a esquerda dos DCEs nacionais ainda não aprendeu. Criar poder é fácil, mas para manter, é necessário união e um plano de ação eficiente. 

O Partido dos Trabalhadores se manteve unido enquanto todos lutavam pelas mesmas coisas de forma unificada. Foi assim que o partido aprovou uma reforma da Previdência dos servidores públicos, engoliu um vice do PMDB e até respeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal. 

Foi perdendo essa unidade que Dilma Rousseff não conseguiu o mínimo de apoio para aprovar o seu ajuste fiscal. Ou a compra de uma caixa de Bis para o seu neto. 

Para quem não lembra como isso terminou, vamos ao mini-flashback: o governo não aprovou as medidas de ajuste, a oposição ganhou força, Michel Temer virou presidente e a Dilma virou vizinha de bairro do Aécio Neves. 

Nós mal começamos o segundo mês de governo e até agora tivemos: 

  • um líder que não lidera e é boicotado pela base aliada; 
  • 18 deputados ameaçando sair do partido graças à escolha do líder; 
  • uma bancada com poucas janelas e muitas pessoas querendo ocupar os bancos com vento fresco; 
  • um grupo de novatos passeando na China e reclamando das críticas vindas de sua base; 
  • um suplente e um deputado sendo acusados de tramar a morte de uma senadora para que ela perdesse o cargo. 

Os deputados deveriam realizar uma terapia em grupo pra solucionarem os seus problemas internos e a luta contra inimigos imaginários. A oposição, por outro lado, pode comemorar: enquanto eles estiverem muito ocupados sentindo ciúmes do DEM, será pouco provável que qualquer projeto importante do governo seja aprovado

Michel Temer de bota 

Mourão precisa parar de tentar construir pontes para o futuro. Tudo bem que a cada dia que passa o presidente demonstra estar mais pra lá do que pra cá, mas sempre reforçar que ele é mais capacitado, coerente e racional do que o Bolsonaro vai acabar, sim, tornando ele alguém atraente para o mercado. 

Essa coisa de ter um bom diálogo com a imprensa, defender o aborto, debochar dos livros de Olavo de Carvalho e tentar incluir os militares na reforma da Previdência é muito fofa. Mas todo mundo sabe que, no final do dia, você ainda é um milico que topou ser vice do Bolsonaro. A nossa calcinha não cairá tão facilmente assim, portanto, pague um jantar mais caro na próxima vez. 

Cuidando do quintal do vizinho 

Alguém viu o filho do presidente, vereador eleito pelo Rio de Janeiro e tuiteiro nas horas comerciais, comentar a tragédia do Rio de Janeiro? Ou ele só está ocupado apontando que a imprensa não fez o que ela fez? Quando você é eleito para legislar em uma cidade, uma boa escolha é, de fato, cuidar dela, e não se importar com problemas que não existem e que se existissem não seriam da sua conta. 

Acabou a mamata 

O governo Bolsonaro mal começou e já temos os principais afetados pelo fim da mamata. Milhões de bots de whatsapp e compartilhadores de conspirações não mais poderão auxiliar o presidente a criar a sua própria realidade: no final de janeiro, o Whatsapp reduziu o número de destinatários de mensagens encaminhadas de 256 pessoas para cinco. 

Segundo o pessoal do Recode, a redução do número de destinatários para o encaminhamento de mensagens pode reduzir o alcance potencial das correntes em até 98,04%. As fake news que antes conseguiriam chegar a 65.536 pessoas agora atingirão apenas 1.280 destinatários. 

Millenials também podem comemorar. Não só os riscos da nossa democracia ser destruída caíram, mas o número de mensagens de bom dia em grupos de família também será bem menor. 

Grandes questões da humanidade 

Agora que o ministro da Justiça apresentou o seu programa contra o crime, os jornalistas deveriam perguntar: valeu a pena lamber a bola do presidente por tanto tempo? As pernas dele são tão grossas assim para impedir o ex-juiz de enxergar todos os outros corruptos que ocupam a Esplanada dos Ministérios? 

É assustador que uma pessoa que já passou tanto tempo analisando como as leis devem ser aplicadas crie um pacote com ideias que são contrárias a legislações já aprovadas, consideradas inconstitucionais pelo Supremo ou que apenas requentam soluções que ninguém quer aprovar no Congresso. O ministro deveria frequentar uma prisão brasileira antes de achar que aumentar o encarceramento provisório solucionará a impunidade nacional. Ou pelo menos conhecer o que não será aprovado de qualquer forma

Literalismo trágico 

Antes que a próxima tragédia ambiental envolvendo uma empresa privatizada (ou que ainda seja pública) aconteça, vamos fechar aqui um combinado: nada de crítica social foda em cima do cadáver do coleguinha, talkey

O desastre de Brumadinho ocorreu não por uma falha do capitalismo, de um governo de direita, um político de esquerda ou de uma privatização mal realizada. Um crime ambiental desse porte não acontece sem que um grande número de falhas já tenha se concretizado. 

Dizer que tudo se resume ao fato da empresa ser privada ou estatal, é como dizer que um trem não descarrilharia se os passageiros estivessem em pé e não sentados, mas só após do acidente. 

Há uma longa cadeia de falhas, omissões, lobbys e decisões tomadas que levaram ao que chamamos de “tragédia anunciada”. A Vale, a justiça brasileira, o governo federal e o governo estadual agem com igual tolerância para esse tipo de problema: enquanto os lucros e impostos existirem em larga escala, ninguém será punido ou serão tomadas medidas para resolver o problema.

Mas vamos por partes: 

Os defeitos no sistema de drenagem interna da barragem foram apontados em um relatório, antes que o acidente ocorresse. A Vale também soube previamente que um rompimento na barragem destruiria as áreas industriais da mina de Córrego do Feijão. A empresa teve ciência de problemas nos sensores que eram responsáveis por monitorar a estrutura da barragem. 

Em todos os casos, nada foi feito. Não é como se um desses problemas fosse afetar as ações da companhia  na Bolsa

Isso não quer dizer, porém, que a Vale não toma medidas após os (previsíveis) crimes ambientais. A empresa “aconselhou” familiares de pessoas que estiveram envolvidas no acidente, assim como os sobreviventes, a não opinarem publicamente sobre o que ocorreu. Quando as pessoas afetadas solicitaram dinheiro da empresa para conseguirem sobreviver até que as suas vidas fossem retomadas, receberam uma negativa

Durante as administrações tucanas de Minas Gerais, o deputado Rogério Correia (PT) sempre atacou o governo, com boa razão, pelos benefícios dados a empresa em todo o estado. Quando deixou de ser oposição, ignorou a urgente necessidade de fiscalizar as mineradoras e mudar a matriz econômica do estado. 

O novo governo, do “liberal” partido Novo, manteve o secretário do Meio Ambiente que foi responsável por afrouxar as regras de licenciamento ambiental no governo do petista Fernando Pimentel. Germano Luiz considera a legislação mineira um exemplo para o país. E ele sequer fala isso com ironia

Para os críticos da postura liberal a favor de redução do número de empresas estatais, fica a pergunta: seria mesmo possível barrar o acidente em um governo de esquerda? 

Dilma Rousseff e Fernando Pimentel, ambos de um partido de centro-esquerda, estavam no governo quando a onda de rejeitos da barragem de Fundão atingiu o Rio Doce. O Partido dos Trabalhadores, aliás, teve 16 anos para recomprar as ações, retomar o total controle sobre a Vale e dizer que era necessário aumentar a produção em função do “desenvolvimento e a valorização das indústrias nacionais”. Mesmo que isso significasse um afrouxamento das regras de segurança ambiental, como ocorreu nas usinas de Belo Monte e Jirau. 

Minas Gerais é o centro de uma festa em que a principal convidada é a morte do nosso planeta. A sociedade (e a nossa economia) é, foi e será, estruturada em atividades que envolvem a extração de recursos minerais. Do computador que uso para digitar esse texto ao minério extraído de Minas para ajudar chineses a criarem pontes faraônicas, tudo depende de minério. Muito minério. 

Isso não mudará de hoje para amanhã. Não conseguiremos, da noite para o dia, criar computadores que dependam menos de metais para serem funcionais. Tão menos seremos capazes de reduzir o descarte impróprio e a não reciclagem do nosso lixo eletrônico a tempo de evitar que as mudanças  no clima global matem boa parte da raça humana. 

Vamos ser sinceros. Comunistas, ecossocialistas, liberais e conservadores: todos nós desejamos, diretamente ou indiretamente, o minério que sai de Minas Gerais. E para impedir que outros acidentes ocorram por leniência humana, será necessário um esforço muito maior do que o requerido para tomar os meios de produção ou estatizar uma multinacional. 

Precisamos de leis ambientais mais duras e que não sejam escritas nos escritórios dos advogados das mineradoras. Uma vez que as leis sejam reformadas, a fiscalização deve ser valorizada de verdade

Também precisamos de um judiciário que realmente puna as empresas que não cumprem a nossa legislação, a atual e a futura, algo que ainda não aconteceu com o penúltimo desastre envolvendo a Vale, por exemplo. Não menos importante, precisamos mudar drasticamente a nossa relação com o mundo ao nosso redor, evitando a compra de eletrônicos e outros produtos que utilizam tanto metal. 

O capitalismo, e muito menos o socialismo, salvarão as pessoas que foram vítimas de tragédias como a da mina do Córrego do Feijão. Mas se não fizermos o esforço necessário para impedir que os recursos naturais sejam explorados além do que o planeta suporta, a Terra resolverá o problema da mesma forma que uma chuva de meteoros parou com as brigas entre os dinossauros. 


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(com a revisão da @fogeluana)

A Nova Era – semana #5: apertem os cintos, o governo decolou

Na quinta semana de governo, Bolsonaro finalmente perdeu a sua bolsa de cocô e poderá utilizar algo além da própria boca para soltar merda pelo mundo. Falta alguém perguntar para o saco de colostomia como é ficar preso a uma bosta por tanto tempo.


Newsflash: o capitalismo ainda é malvado 

As pessoas precisam aceitar que as empresas no mundo capitalista só querem lucrar. Essa coisa de sucos legais e marcas que se unem a grandes lutas sociais tem um nome: segmentação de mercado. 

Dito isso, quem considerou que a queda das ações da Vale após o desastre de Brumadinho deveria lembrar o que ocorreu com os papéis da mesma empresa após o desastre de Mariana, se enganou. A generosa valorização no mesmo período só serve para lembrar que, assim como ocorre com o Facebook, o único interesse do investidor é fazer dinheiro, e não pressionar governos por uma regulamentação mais forte. 

Máscara opaca 

Se as pessoas que agora são responsáveis pela operação Lava Jato (e os seus desdobramentos), querem ao menos fingir imparcialidade, uma boa alternativa é começar, de fato, a ser imparcial. Negar os pedidos de Lula para comparecer ao velório do próprio irmão não é só desumano, mas também é contra a lei. A lei não é mais para todos? 

Tudo bem que, nesse caso, ao dar o mesmo tratamento que é legado à grande maioria dos presos brasileiros, os juízes foram até meio imparciais. Por outro lado, se a Polícia Federal não consegue garantir a segurança e o transporte de um detento, é melhor que ele não seja preso. Não é como se os presídios brasileiros já não estivem superlotados. 

Pororoca de chorume 

Para quem sempre se perguntou como era a política no governo Sarney, Bolsonaro está mostrando, com um alto nível de precisão, o que ocorre quando o centrão chega ao poder. O ministro da Educação saiu por aí dizendo que universidade não deve ser acessível para todos. O que não seria um problema se o acesso ao ensino superior fosse alto e o governo estivesse procurando incentivar o ensino técnico. 

O mesmo MEC (Ministério da Educação e Conspirações), aliás, publicou uma nota afirmando que não censurou a publicação de vídeos sobre Marx do site do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines). Segundo o ministério, a culpa seria do governo anterior. Além de ser uma mentira, o ministério deveria ter explicado por qual motivo não restaurou os vídeos prontamente após a publicação da primeira notícia sobre o tema. Ser marxista em pleno século XXI não é ser um perigo para a sociedade, aliás, é só acreditar em umas bobagens. 

Saindo das abas do MEC, a revista Época recontou a história que havia sido pautada anteriormente pela Folha de S. Paulo, onde se afirmava que a ministra Damares Alves sequestrou, há 15 anos, uma criança indígena de uma aldeia no Xingu. Agora, além de criminosos confessos, conspiracionistas e membros do 55chan, também temos uma sequestradora de bebês na alta cúpula do governo. 

Indo além, houve a nomeação de uma secretaria executiva acusada de danos ao erário, uma defensora do ensino domiciliar para a Diretoria de Desenvolvimento Curricular e Formação de Professores Alfabetizadores e um ex-deputado que defende a caça de animais silvestres para comandar o Serviço Florestal Brasileiro. Tudo bem você montar um governo com indicações técnicas, mas pega mal quando a especialidade das suas indicações é realizar falcatrua. 

Arouche Towers projetadas por Niemeyer 

Se algum desavisado se assustou com o baixo nível das eleições para a presidência do Senado na última semana, fica o alerta de que isso não é mais do que o normal. Roubo de pasta, votação com 81 votantes e 82 votos e presidiário auxiliando na fiscalização dos tramites não é nada muito surrealista para o Brasil, portanto, fiquem atentos e evitem passar vergonha

Aliás, o governo Bolsonaro deveria se lembrar que, na última vez que um governante deu tanto poder a um partido e deixou um político velho, com problemas com a justiça e boas relações em Brasília, nós tivemos impeachment (que sempre crime de responsabilidade “é goooolpe”). Não para quem não queria ver a Dilma fora do poder. 

Peça para sair 

O novo chefe de imprensa do governo Zema deveria perceber que ele não é Andrea Neves para ficar intimidando jornalista. Aliás, se o novo governo mineiro optou por realizar apenas indicações técnicas, alguém deveria justificar por qual razão uma pessoa que não gosta de imprensa foi colocada para cuidar do cargo. 

Pescando ilusões 

Alguém deveria perguntar para o governador se valeu realmente a pena ser eleito. O primeiro mês de governo mal acabou e ele já teve que lidar com: a necessidade de encontrar um líder para o governo que agradasse a sua base, as críticas por ter chamado pessoas das administrações tucanas para o seu alto escalão e um desastre natural. 

Deixando de lado os momentos Marcio Lacerda, também é importante lembrar que a situação fiscal de Minas Gerais é uma das piores do país e não será resolvida com um bazar dos quadros que o Pimentel deixou espalhados pela Cidade Administrativa. 

Uma dica para os eleitores do Novo: antes de reclamar que o governador contratou pessoas dos governos tucanos, saiam do ensino médio, entrem para a Escola de Governo e se formem em administração pública. Até lá, a gestão do Estado será feita por quem entende do tema, o que não parece ser o caso de todas as pessoas do partido.

Se você achou que os comentários sobre a vale foram curtos, relaxa, que dia 10 eu mando mais.

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