55 (take 2)

-Gabriel!

Ele não respondeu.

-Gabriel!

Quando ele se virou, retirando os fones de ouvido e implorando para ter se enganado em relação à dona da voz que ouvira, ele a viu vindo em sua direção. O sol forte daquele dia parecia dar um brilho especial ao logo cabelo dourado dela. Sua pele continuava incrivelmente branca; seu sorriso, renovado. Cada passo em sua direção foi como um soco no seu peito, que lhe tirava o ar do pulmão e a consciência da mente.

Ao se lembrar de como tinha sido a última conversa dos dois ele se assustou com o tratamento que estava recebendo. Muito gentil, muito sorridente, muito calma para o meu gosto – ele pensou. Procurou parecer calmo, mesmo que cada átomo do seu corpo o impedisse de fazer essa tarefa (que para ele parecia ser a maior proeza que ele poderia realizar em toda a sua vida). O seu nervosismo aumentava a cada pergunta que ela fazia e, cada pergunta que ela fazia parecia ser motivada pelo seu nervosismo. Onde esteve, aonde ia, o que fazia. Tudo para ela significava uma pergunta acompanhada de um olhar curioso e um sorriso que, pelo menos para ele, parecia ser bastante cínico.

Por alguns instantes a conversa cessou e ambos se limitaram a uma troca de olhares. Para ele foi como uma cena de filme em que o mundo para e tudo se resumo ao casal de protagonistas se olhando. Para ela… Bom, quem se importa?

Falaram algumas poucas palavras e se despediram. Evitou olhar para ela enquanto ia andando. Não queria vê-la indo embora novamente. Não queria relembrar certas memórias.

Olhou para ele implorando para que ele a olhasse. Arrumou o cabelo sem entender o motivo da mágoa que sentia por não ter recebido um olhar dele e foi almoçar com sua amiga.

#55 (take 1)

Nove meses depois ele voltava para a sua cidade natal. Estava estranhamente feliz naqueles dias. Escolheu morar no centro da cidade. As caixas da mudança ainda fechadas se misturavam aos quadros recém comprados que em breve seriam colocados nas paredes do apartamento escolhido. Aqueles primeiros dias foram agitados, com a procura de um emprego, a escolha do apartamento, a busca pelos móveis e todas aquelas burocracias que o impediram de comunicar a qualquer um que tinha voltado.

Sentia medo por não saber exatamente o que seria da sua vida com aquela mudança. Naquela manhã ensolarada resolveu que sairia para procurar por seus amigos no primeiro final de semana. Vestiu uma de suas melhores roupas e saiu para se inscrever na aula de violino.