Conto de Terror: Twitter Gold (Capitulo Um – Um convite inusitado)

Ainda estava escuro quando Alex pulou de um salto de sua cama. Estava suado por causa do da temperatura extremamente quente que fazia naquela época do ano. Odiava isso. Odiava mais ainda o fato de que, mesmo em noites quentes, não conseguia dormir sem algum tecido sobre seu corpo. Mania antiga, mania clichê.

Nem ao menos colocou o creme dental na escova e já levou violentamente as cerdas à boca. Estava atrasado e não tinha tempo para frescuras, só queria mesmo tirar aquele gosto terrível de sono da boca, e claro, chegar com bom halito no trabalho. Deu uma olhada no espelho, arrumou o cabelo com ajuda de um bom volume de gel e analisou o rosto. Mau humor.

Se tinha uma coisa que estava deixando o jovem bravo, era o novo horário que seu patrão havia imposto. Acordar as 3h da madrugada definitivamente só podia ser a forma que seu chefe havia encontrado para castiga-lo. Lembrava-se claramente da frase do diretor do escritório: “Alex, você não tem rendido nada esses ultimos dias. Culpa da internet, aposto.”. O velho jamais aceitaria a idéia de que a internet era uma ferramenta de ajuda e estimulação ao invés de obstaculo. Agora tinha que acordar como um zumbi, colocar o carro pra rodar, pois transporte publico a essas horas nem se houve falar, e ainda ver todos os amigos indo dormir após uma noite divertida em uma das redes sociais. Sim, dessa vez o Senhor Juraci acertara no castigo.

Vestiu uma roupa com pressa. Nem sequer olhou a estampa, só queria algo que fosse confortavel. Colocou as meias do avesso e nem ao menos reparou que em uma havia um simbolo da addidas e na outra a cara do ursinho poof. Era um pé das meias da sua namorada. Deu uma boa olhada na bagunça que estava sua casa e decidiu que após o trabalho, iria se aplicar em uma bela faxina. Saiu do apartamento bem devagar para o rangido chato não acordar a vizinhança. “Bem que você podeia arrumar essa porta né menino?” já dizia Josefa, a vizinha do lado esquerdo, quatro ou cinco vezer por semana. E podia jurar que antes de entrar no carro, ouviu um resmungo da velha lá do quarto dela.

O céu estava estrelado, indicando que a probabilidade do dia ficar mais quente era grande. Sem vento, sem chuva. Mas fazer o que, ao menos não podia reclamar do escritório que tinha ar condicionado.

Como chegou vivo no escritório era um mistério. O sono era tanto que ele não sabe ainda o trajeto que fez pra chegar até o Edificio Cardoso, no coração da selva de pedra. Podia jurar que cochilou no volante ao entrar numa das travessas da Av. Paulista.

Não era o único a trabalhar naquele horario. Era uma espécie de lei, que o funcionário não podia ficar sozinho no ambiente de trabalho no turno da noite, pois poderia precisar de auxilio em situações de emergência, logo o “Seu Jura” convocou também o Gilson, da criação pra ir junto com Alex. Sem entender bem o porquê, o rapaz viu Gilson sair do elevador em direção a ele com olhar mortal. Preferiu imaginar que fosse o sono também, por mais que suspeitasse que o motivo era ele, por estar sendo punido.

Gilson estava atrasado quinze minutos, o que frustrou Alex, que poderia ao menos ter feito a barba, que agora o incomodava e coçava. Quem tinha a chave da porta era obviamente o Gilson, talvez para controlar o escritório e não deixar Alex sair antes do horario ou tirar horas livres pra tomar um cafá na padaria da esquina, ou talvez fosse porque Gilson era um tremendo puxa saco. O Gilson era o tipo de cara que não praticava esportes, nem tinha físico para tal. Era miúdo, magro, com início de calvície, apesar de pouca idade. Com essas características, a unica forma de se destacar no trabalho foi puxando o saco do chefe. Uma grande fachada, pois o mesmo vivia falando mal das decisões do cara.

Antes de iniciar qualquer atividade programada, Alex entrou em seu twitter. Verificou sua timeline, suas mentions e retweets que tivesse tido. Sem muitas surpresas. Os melhores amigos, vulgo aqueles que trocam mais replies e escrevem os tweets mais geniais , já haviam ido dormir. Era hora de começar o trabalho massante.

Estava sendo obrigado a ouvir musica ruim vinda da mesa do colega. Olhou desesperado para o relógio e descobriu que só haviam passadas duas horas. Tinha muita coisa pela frente ainda.

As luzes do escritório piscaram. Gilson e Alex trocaram olhares surpresos.  Os estabilzadores de ambos os computadores ligados, começaram a estalar rapidamente. O som era tão alto e irritante que se sobrepôs a musica que vinha das caixas acusticas de Gilson.
– Por acaso está ameaçando chover? Nem percebi a caminho do escritório. – perguntou Alex pacificamente.

Gilson continuou fitando por uns istantes as luzes do teto esperando que piscassem novamente e nada.
– Não que eu tenha visto. Mas estamos sem São Paulo né?! O tempo aqui muda mais do que verde e vermelho em semáforo.

Alex ficou surpreso com a resposta sem tom de grosseria na voz de Gilson. Começava a suspeitar agora que o colega tinha medo de tempestades ou de escuro e por isso estava com a personalidade momentâneamente alterada.

Como se tivesse previsto isso, as luzes apagaram por completo e Gilson levantou-se de um pulo e correu na direção de sua mesa. Podia sentir a respiração ofegante do colega em seu ombro.
– Que estranho. Não ouço som de chuva, por que diabos as luzes acabaram? Vou abrir as venezianas e checar se é apenas no nosso prédio.
– Ah sim, porque é isso o que sempre fazem nos filmes de terror! E adivinha só, eles morrem! – disse Gilson completamente exasperado quase segurando Alex.
– Gilson. Num filme de terror as pessoas iriam checar a iluminação, e acredite, eu não sei sequer trocar uma lâmpada. Presta atenção cara, isso não é um filme de terror. Eu vou até a janela que fica a menos de três metros da gente. Se quiser ir comigo ver, tudo bem. Senão fique aí, mas para de bobagem certo?

Alex não podia ver, mas apostaria sua vida como o olhar de Gilson poderia atravessar seu coração como uma bala de revolver neste momento. O rapaz se virou lentamente, tateando a borda da mesa para se guiar, e foi em direção as grandes janelas do andar, que ficavam com as persianas fechadas. Localizou o fecho e girou para abrir. A visão da cidade de São Paulo era linda quando estava clareando o dia, mas não o suficiente para clarear os predios cinzas. Era aquele claro lá no horizonte. De repente o rapaz se dera conta de que nunca parara pra admirar a vista perfeita que possuia do proprio local de trabalho. O lugar em que passava a maior parte do seu tempo acordado.

A respiração funda do Gilson tirou Alex de seu profundo devaneio. Fitou todos os prédios vizinhos e todos tinham iluminação. Um deles até iluminação natalina já tinha. Outubro havia acabado rapido.
– Certo, então é só no nosso prédio isso. Teremos que descer e perguntar ao porteiro ou ao zelador o que houve, e se será consertado logo. Caso vá demorar, teremos que trancar o escritório e ir embora.
– Tem certeza de que temos que descer? Nesses corredores escuros? Digo… podemos cair e nos ferir nas escadas né?!
– Gilson, Tenho certeza que fora daqui tem luzes de emergência. Mas você pode ficar aqui sozinho cuidado do escritório enquando vou soz…
– Ok, vamos!

Um sorriso presunçoso estampou a face de Alex, mas antes que alcançassem a maçaneta da porta de entrada, as luzes voltaram a piscar até que se estabilizaram. Os computadores reiniciaram e tudo voltou ao normal.

Dessa vez sim Gilson pode, não só ver como sentir, o desapontamento de Alex.
Ambos sentaram novamente em suas mesas e aguardaram as maquinas iniciarem o sistema operacional.
– Hey, nada disso aconteceu certo?! Ninguém precisa ficar sabendo.
– Relaxa Gilson, não tenho nem pra quem contar isso aqui no escritório mesmo – disse Alex em meio a um suspiro cansado.

Assim que o windows terminou sua inicialização, Alex já abriu o twitter. Mesmo que não tivesse ninguém ali para ler, ele precisava caçoar de Gilson. No entando logo que fez login em sua conta, uma surpresa. Uma mensagem com letras pretas sombreadas por cima de um fundo dourado tomaram conta de toda a área do monitor do rapaz.

“Hello There. O Twitter está iniciando um novo projeto Beta chamado Twitter Gold. Pouquissimas pessoas através do mundo foram escolhidas para testar a nova ferramenta antes de tornarmos acessível a todos. Contamos muito com sua avaliação e pedimos encarecidamente que não conte a ninguém sobre essa nova versão do twitter. Sabemos que pode ser uma tarefa dificil, mas ainda queremos manter a surpresa. E equipe estará monitorando seu desempenho com a nova ferramenta para que possamos entender de que modo ela afetara a vida e o uso do twitter a partir de agora, por isso procure realmente não comentar sobre o Twitter Gold, pois se o fizer, infelizmente teremos que retirar o beneficio. Esperamos que entenda e que possa nos ajudar nessa nova fase. Com carinho, Esquipe Twitter”. Após essa mensagem de texto havia um botão azul. Alex apertou e uma animação com o passarinho azul e gordinho do twitter apareceu. Era uma espécie de tutorial animado. Basicamente não haviam mudanças na interface da rede social, apenas funções da pagina. Coisas que Alex teria que ver com o tempo. Ficou muito feliz por ter sido escolhido, apesar de não saber o porque. Provavelmente era uma escolha bem aleatória. Que sorte a sua! Ou talvez não. Como dizia a própria mensagem, seria uma tarefa extremamente dificil não contar pros amigos sobre.

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O Tic-e-tac do relogio simplesmente enlouquecia Costa. Porém não podia aposentar o velho despertador por motivos obvios. Era terrivel com horarios, atraso era uma palavra constante em sua vida, sem o relogio então seria um caos. E também por valores sentimentais. Era uma velha herança, talvez a unica coisa que o pai deixara ao falecer, com exceção das dívidas, claro.

Ex detetive da policia Civil, Costa também tinha problemas para dormir. Perambulava pelo apartamento escuro na calada da noite, com o copo de uísque em uma mão e um cigarro “pirata” na outra. O charuto só fumava em ocasiões especias. Nunca abrira a caixa.

Essa noite em particular, estava pior do que todas as outras. O calor escaldante fazia com que Costa se sentisse asfixiado. Preso nos próprios pensamentos e desesperos. A falta de um bom e empolgante trabalho o deixava absorto nas lembranças. Lembranças essas que gostaria de esquecer para sempre. Ajudaria muito se houvesse um tratamento como aquele de “Brilho Eterno de uma mente sem Lembranças”, como gostaria de deixar o passado para trás. Precisava de um trabalho, mas não ficar indo atrás de maridos infiéis ou esposas vagabundas que deixavam a luxúria tomar conta de toda sua humanidade. Queria algo que o fizesse pensar, que o fizesse entreter cada milimetro de seu cérebro, cada neurônio astuto. Referências como um famoso filme de drama e a raiva de pessoas infiéis talvez assustasse e confundisse quem vê Costa por aí. Mas talvez ele seja o maior exemplo da expressão: “Os Brutos também amam”. Mas houve uma época que Costa não era bruto, mas sim apenas amor. Época longíqua. Algo que não voltaria nunca.

O telefone tocou. Como se fosse tirado de um transe psiquico, Costa se virou brucamente para a escrivaninha. Apagou o cigarro num cinzeiro em formato de crânio humano. Empurrou o copo suado de uísque e tirou o fone do gancho lentamente. Antes de responder olhou no relogio prateado em seu pulso. Cinco e meia da madrugada.
– Cinco horas, o que quer e quem quer?
– Senhor Augusto, sou Kelly do departamento de inteligência da policia federal. Creio que precisamos da sua ajuda.
– Você sabe que não sou mais policial, eu suponho.
– Sei sim senhor. Sei também o motivo que o levou ao afastamento, mas sei também que é um dos melhores. Realmente precisamos de sua ajuda neste caso. Pagaremos muito bem, e segundo a fama que o senhor construiu, acredito que vá realmente gostar desse caso, pois ele é no mínimo um grande desafio.
– Me passe o fax sobre o que se trata e eu entro em contato.
– Ok senhor, passar…

Costa desligou o telefone e inclinou-se sobre a cadeira. Aquela gente chata vivia querendo que ele voltasse a ativa. Mas ele não suportava mais aquilo. Não queria ser mandado para tarefas inuteis, tarefas que eram uma afronta a sua inteligência. Gostava de casos interessantes. E ainda assim a frustração pelo maior caso da sua vida, onde ele havia falhado ainda assombrava-o intensamente.

Vinte segundos depois a maquina de fax iniciou o processo barulhento de receber um documento. A bobina girava loucamente tamanha a quantidade de informação que estavam enviando. Após seis minutos o fax emitiu o apito agudo indicando que a transação estava completa. Costa ficou ligeiramente surpreso, a quantidade de papéis que chegaram nesse nessa transação era enorme. No entanto não era o bastante para atrair o interesse do ex-policial.

Encheu mais uma vez o copo de uisque. Sem gelo porque era coisa de viado. E pegou com muito pesar a primeira pagina do relatório. Só queria confirmar de que se tratava de mais um caso patético logo, para que jogasse toda aquela papelada na lixeira. Leu a primeira pagina com desantenção e conforme avançou pela segunda e terceira ficou imóvel. O copo de uísque pesando em uma mão e a outra deslizando suavemente pelas folhas. Fitou o vazio a sua frente com cara de surpresa. Definitivamente isso era um caso de interesse.

O telefone sôu assustando Costa. Ele pousou as paginas do relatório e o copo da mesa. Segundo toque. Levou a mão a barba densa e crespa. Umedeceu os labios e ao terceiro toque do telefone retirou do gancho.
– Quantos mortos?
– Até agora dois senhor – veio a voz linda e atraente da mulher do outro lado.
– Chego aí daqui cinco horas. Vou me arrumar e já parto.
– Errr… senhor, creio que não precise se incomodar com transporte. Ja enviamos um carro do governo para busca-lo.
– Que ousadia fazerem isso antes mesmo de eu aceitar o caso!
– Confiei no meu instinto e sabia que você aceitaria logo na segunda página.

Costa desligou o telefone na cara da mulher. Virou o uísque remanescente de uma só vez e apagou o charuto. Sentia que tinha chance de resolver dois grandes casos. E iria precisar de muito empenho nisso. Foi direto pro banho. Iria acordar de uma vez por todas agora.

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