Por entre copos de bebida, sorrisos amarelos e sonhos lúcidos (parte final)

04:40

Então a música acaba. Ele bebe mais um gole da sua bebida. Deixa a taça cair no chão, se despedaçando e se misturando ao vinho espalhado pelo chão da sala.

Começa a tocar Mystery Train. Ele jamais conseguiria se esquecer da sequencia “Mystery Train – Away in Índia – Crossroads” daquele álbum. Ele jamais poderia se esquecer dessa sequência mágica. E voltou a cantar, a rodopiar, como se não existisse mais vida além daquilo. Depois daquilo.

E pouco importava se haviam cacos no chão. Pouco importava se eles se entranhavam por entre a sua carne fria, rasgando suas veias. Num rodopio caiu sobre a cama da sala. Respiração ofegante. Os pés ardem, doem, sangram.

Mãos sobre a barriga. Olha para o teto, olha para aquela taça sobre a sua barriga. Encaminha a taça até a sua boca, engole o que resta de bebida, sem se importar com o que escorre pelo canto da boca. Lágrimas escorrem pelo seu rosto e a última coisa que dele seria possível ouvir naquela noite, seria a mistura de uma risada desesperada clamando ódio e amor com o sussurrar de um trecho daquela longa música.

Por entre copos de bebida, sorrisos amarelos e sonhos lúcidos [parte 4]

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03:45

As caixas de som estão ligadas, ecoando músicas sombrias, LCD Soundsystem, Interpol, Muse, The Doors, Gorillaz. Um dia o aleatório teria que funcionar e selecionar músicas que combinassem com o seu humor.

Pega mais vinho. Estranha que a bebida ainda esteja gelada, mesmo estando a tanto tempo fora da geladeira. Prossegue seu ritual. Aumenta mais o som. Dane-se os vizinhos. Me matem se eu os acordar.

O som da guitarra de Robby Krieger invade a sala, a voz melódica de Jim Morrison cantando “Rock Me” ecoa pela mente perturbada provocando um turbilhão de sensações no seu corpo. Levemente bêbado, começa a cantar, olhando para o teto, taça de vinho levantada, o mundo girava ao seu redor.

Se levanta, começa a dançar, rodopiar pela sala como se alguém lhe fizesse companhia. Movimentos tortos, sem sentido de existir. Acompanhando o som metálico do computador, se juntam o som daquela guitarra, a voz melódica daquele vocalista, o arrastar de seu pé pelo chão, a voz triste daquele jovem bêbado.

Por entre copos de bebida, sorrisos amarelos e sonhos lúcidos [parte 3]

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00:20

Luzes apagadas, computador ligado. Só se ouve o barulho do cooler. Só se enxerga o que as luzes do eletrônico ilumina. Senta-se, bebe mais um gole da sua mistura alcoólica.

“Puta que pariu Guilherme, pra que insistir nisso?”

Cegado pela luz forte do computador ele tenta ler mensagens desconexas, declarações de amor que para ele não são, pessoas se desejando, planos sendo feitos e ninguém sente a sua falta. Se levanta.

Um computador, um corpo imóvel, sem camisa, bermuda amassada, corpo encurvado, uma cama bagunçada e uma parede.

Se vira, olha a sua sombra crescendo pela parede, o copo na sua mão. Sou uma figura macabra- ele assim se define. A mistura do azul com o verde que sai das luzes do computador, ilumina os móveis dando a eles um aspecto sombrio.

Ele se move, meio tonto, depois de horas buscando um sono descente, ainda sem ver direito, sem definir corretamente o preto do branco, entra no banheiro cambaleando com o seu copo de vodca. A luz do espelho, volta a impedir que ele abra totalmente os olhos. Deslizando rapidamente a mão por dentro do armário que fica atrás do pequeno espelho, ele busca algo que acabe com a dor de cabeça que a vodca provocou, ou que acabe de vez com ele.

Suicídio seria algo plausível se os remédios fossem fortes o bastante para o fazer dormir e não acordar mais. Sem pique para tentar uma overdose, sem pique para pressionar aquela tesoura que agora arranha o seu pulso, dando a ele uma sensação de perigo. Adrenalina correndo pelas veias, coração batendo rápido. Um sorriso sádico diante da própria dor.

Mas se recorda que isso jamais seria feito, e joga a tesoura com raiva em direção a parede. Força tanta, que deixa um azulejo trincado. Na porta do banheiro, bebe mais um gole (gole forte, grande, para doer garganta abaixo) do seu drink estranho, e decide voltar a sala.

Por entre copos de bebida, sorrisos amarelos e sonhos lúcidos [parte 2]

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22:20

Ainda deitado na cama. Bebe mais um gole daquilo. Os fones de ouvido fazem ecoar por aquela mente perturbada alguma música. Desejo louco de sair, de vestir determinada roupa e se perder por entre copos cheios de álcool, diante de sorrisos amarelos e sonhos lúcidos daqueles pseudo bares cults da Savassi.

Sair sem hora para voltar, sem rumo, sem nome, amigos e endereço. Então seus olhos se abrem e ele se lembra que não tem dinheiro para o taxi, que não teria capacidade de conversar com desconhecidos por muito tempo (e se teria, isso seria irrelevante), e que a roupa não está limpa.

Suas mãos ficam tremulas, a respiração rápida. O ar que sai pelas narinas se aquece. Os olhos doem de tanto dormir tentando esquecer o mundo.

Com raiva o fone de ouvido é lançado contra a parede. “Dane-se, ele está na garantia mesmo.” Suas pernas  pedem movimentos, sua mente implode em pensamentos, rostos, olhares, frases. A lembrança de palavras que jamais existiram, quando ele dela mais precisava e ela decidiu-se calar pepreterida no seu guarda roupa rante o sofrimento dele.

A tristeza e a agonia perante a impotência em mudar a sua situação o fazem querer chorar, mas já não lhe restam forças para chorar. Se levanta e vai até a sala cambaleando. Sua única companhia é o copo de vodca. Ao passar pela cozinha, o completa com vinho. Sabe que a mistura não é boa. Mas quem se importa?

Por entre copos de bebida, sorrisos amarelos e sonhos lúcidos [parte 1]

20:00

Aí você se vê sozinho em casa, em uma noite de sexta feira, na frente de meia dúzia de livros, cadernos, lápis, canetas tentando aprender algo de útil e recuperar o conteúdo perdido em uma semana de ausência na escola. Olha para o lado, vê que não há ninguém ao seu lado para te ajudar, para te amar, para te fazer companhia ou ouvir as suas palavras tristes e suportar a sua agonia.

E ao lembrar disso, vê que está longe da pessoa amada, vê que ela talvez não te ame tanto assim, ou que pelo menos não saiba te amar como você gostaria que fosse amado. E se reprime por achar isso. Afinal de contas “ela te ama, só não fica demonstrando isso o tempo todo” repetia ele tentando se convencer disso.

A concentração a essa altura já não lhe permite mais estudar. Levanta-se. Abre a geladeira. Vê uma garrafa de vodca e uma de vinho consumidas pela metade. Pega as duas. “Uma taça com vinho e vodca juntas. Que tal?” O gosto daquilo descendo pela garganta não era tão bom quanto ele imaginava.

Outro copo.

“Vodca primeiro com um pouco de suco de limão, depois alguns goles de vinho ok?”

Repetia isso mentalmente enquanto fazia seu ritual: corta limão, coloca no copo, espreme, coloca açúcar, vodca, prova.

“Ok, parece estar bom. Vinho. Cadê?”

Se move até o computador. Nada de interessante na internet. Tenta jogar algo. O desempenho pífio o faz desistir. Desliga o monitor, apaga as luzes, deita na cama e tenta dormir.