A Nova Era – semana #58: o novo Febeapá

A morte do miliciano favorito da família Bolsonaro, a troca de cadeiras na PGR, o drift da economia e a chantagem do presidente.

Pegue o seu chapéu de alumínio e venha ler mais um resumo da semana (não se esquece de compartilhar com amigos, hein?).


The following takes place between fev-04 and fev-10


Mexe essa cadeira

Augusto Aras, o procurador-geral da República, resolveu fazer mudanças na Escola Superior do Ministério Público da União. O PGR ignorou normas internas, mudou o estatuto e interrompeu os mandatos em exercício de 16 conselheiros e coordenadores do órgão. Tudo isso sem aviso prévio.

A instituição de ensino tem como foco a profissionalização dos procuradores e servidores do MPU. Ela também atua na aplicação de um curso obrigatório para todos os novos procuradores. Já os membros do conselho deliberam sobre todas as questões acadêmicas, orçamentárias e administrativas da escola.

Ou Aras confia demais no próprio taco ou não deseja se reeleger para o cargo de PGR. A não ser, é claro, que o procurador tenha planos de mudar as regras relacionadas à sua permanência à frente do órgão. Aí podemos considerar essa pequena nota do noticiário como um treinamento do que está por vir.

Colocando uma roupa nova no pibinho

A produção industrial caiu em 2019. Comparado com 2018, houve um recuo de 1,1% na produtividade do setor. Entre as áreas que contribuíram para a primeira retração após dois anos de alta, está a de mineração (mas não apenas ela, vale destacar (está ruim para todo mundo)). Em notas não relacionadas, os economistas começaram a reduzir a projeção do PIB em 2020 (impulsionados pelos impactos do coronavírus na economia mundial e pelo cenário interno).

No meio tempo, o Banco Central reduziu os juros mais uma vez. A Selic passou a ter um valor nominal de 4,25% e real de 0,91%. O valor é o menor já registrado no Brasil pós-ditadura.

A motivação do banco é a baixa expectativa de inflação até 2022 e a necessidade de estimular a retomada da economia. Porém, o mesmo Copom avisa que há riscos de que o nível de juros possa elevar caso a inflação cresça. O documento também deixa claro que a economia está em sinal de recuperação (o que, para bom entendedor, não justificaria a queda dos juros).

Em outras palavras, como apontou a jornalista Miriam Leitão, o comunicado do BC “avisa que o país está se recuperando, mas a retomada pode ser menor, que a taxa de inflação está controlada até o fim do atual mandato, mas pode subir pelo estímulo dos juros baixos. Por fim, alertou que pode mudar de ideia, ou seja, voltar a cortar juros.

O Banco Central pratica abuso psicológico com a nação e o governo não faz nada!

Grande dia

Por 2 votos a 1, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro manteve o sigilo bancário e fiscal de Flávio Bolsonaro quebrado. Ainda há, no STF, um pedido do senador para que a investigação do MP-RJ sobre a (suposta) prática de rachadinha em seu gabinete seja suspensa.

Quem também andou tendo dias ruins foi Dudu Bolsonaro. O político foi (de novo) suspenso do PSL pela executiva do partido. A ação tem como objetivo manter a deputada e jornalista condenada por plágio Joice Hasselmann no cargo de líder da sigla. Na última vez que tal medida foi tomada, a Justiça revogou a suspensão de Eduardo e outros deputados bolsonaristas.

O meu chapéu de alumínio é tamanho 58, e o seu?

Adriano da Nóbrega, aquele ex-capitão do BOPE e suposto miliciano chefe do Escritório do Crime, foi morto pela política baiana em Esplanada, no interior da Bahia. Nóbrega, além das suspeitas de chefia de milícia, também era grande conhecido da família Bolsonaro. O ex-policial, que até mesmo homenagem e defesa já recebeu do clã político, também era acusado de estar envolvido na morte da ex-vereadora Marielle Franco.

Nóbrega foi morto no sítio de um político do PSL, o vereador Gilsinho da Dedé. O dono da propriedade tratou a presença de Nóbrega como invasão.

Segundo vizinhos, a ação da PM foi rápida. Adriano foi encontrado com uma pistola austríaca 9 mm e, segundo a PM, foi baleado após reagir com tiros contra a polícia em um ação que, apesar de sensível, não foi filmada. O repórter João Pinheiro Pitombo, porém, não encontrou indícios de um tiroteio no local (que está desprotegido contra invasões de terceiros após a ação do final de semana).

Não, sério, qual modelo de chapéu de alumínio você gosta?

Dono de um currículo invejável e um perfil macabro, Nóbrega suspeitava que estava próximo da morte. Sabia que a sua mente era dotada de grandes conhecimentos sobre as práticas ilegais de gente criminosa, que certamente desejava transformá-lo em arquivo queimado. E olha que nem estamos falando do suposto envolvimento do ex-policial no esquema de rachadinha que dizem ter ocorrido no gabinete de Flávio Bolsonaro.

As ligações estranhas de Nóbrega com os círculos do poder são múltiplas e podem ser conferidas aqui, nessa bela sequência de tweets, que elenca as estranhezas da morte do ex-policial e a sua rede social. Coisa fina. Em relação ao ocupante do Planalto e os seus filhos, Adriano ganhou defesa pública do presidente em 2005 e a mais alta honraria da Assembleia do Rio de seu filho mais velho.

Além disso, a mãe e a ex-esposa de Adriano trabalharam com F.B. quando ele ainda não era senador. Segundo investigações, ambas teriam repassado R$ 203 mil ao ex-assessor Fabrício Queiroz.

E as autoridades, hein?

Sergio Moro reagiu à ação indo ao Twitter fazer lobby pela volta das propagandas em programas infantis. Já Wilson Witzel elogiou a ação e afirmou que ela “obteve o resultado que se esperava“. O blog faz coro a José Cláudio Souza Alves: deslocar um monte de policial para uma ação que termina com a morte de alguém que sabe tantos segredos parece um péssimo uso de dinheiro público.

O completo abandono dos pobres de tão pretos e pretos de tão pobres

Desde que Bolsonaro chegou ao poder, o Bolsa Família sofreu o seu mais longo período de novos beneficiários. Não é como se o país estivesse em pujança econômica e a queda fosse fruto apenas do combate a fraudes. O presidente e a sua equipe tem feito de tudo para reduzir os benefícios, de cortes diretos no orçamento a tentativas de mudanças nos direitos de quem pode receber o benefício (ou simplesmente deixando a fila crescer mesmo).

A crueldade do governo colocou 1 milhão de pessoas na fila de espera para receber o benefício. A redução dos gastos com o programa atingiu os 200 municípios de menor renda no Brasil. O orçamento para 2020? Teve uma queda de R$ 3 bilhões.

A marca social da administração de Jair Bolsonaro, a seguir esse ritmo, será a da mamata pública em todos os níveis possíveis. Aqueles que mais precisam do governo, por outro lado, sequer terão o apoio necessário para comprar uma vara para aprenderem a pescar. Não será apenas em 2019 que Guedes deixará os miseráveis do Brasil sem um peixe para assar.

O governo, que acumula acusações de falta de transparência, não deve ter liberado facilmente os dados sobre os problemas para a Folha de S. Paulo, não se tiver seguido a norma utilizada com a repórter Marina Rossi, do El País. Até mesmo criticar os estragos que as ações de Bolsonaro tem causado no programa se tornou algo complexo: as explicações sobre o tamanho real da fila de pessoas que querem entrar no programa são vagas e imprecisas.

Sincericídio

A boca podre que chamamos de presidente afirmou, ao defender o péssimo programa de prevenção de gravidez precoce da ministra Damares Alves, que “uma pessoa com HIV, além de um problema sério para ela, é uma despesa para todos no Brasil.” A Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) criticou a “tentativa de justificar o injustificável” e afirmou que após dois dias o presidente provavelmente tentaria desdizer o seu show de “ódio e ignorância”.

Para a não surpresa de quem acompanha a relação de Bolsonaro com a mídia, a afirmação se comprovou verdadeira.

Quando a fala começou a ser criticada, o presidente culpou quem apenas informou o que foi dito. Em outra entrevista, Jair disse “eu falei: o que que faltou? Faltou uma mãe, uma avó que pudesse dar orientação para não começar a fazer sexo tão cedo. Qualquer pessoa com HIV é uma pessoa que, além do problema de saúde gravíssimo, que temos pena, é custoso para todo mundo.”

O custo, porém, é menor do que aquele direcionado para as pensões de filhas solteiras de militares que sempre foram defendidas por Bolsonaro. O programa de distribuição de remédios a portadores de HIV nacional, cria do FHC, é referência mundial. Gera um peso de 0,06% no orçamento da União. Não é nem troco de bala.

O presidente também afirmou que “vocês [jornalistas] focaram que o aidético é oneroso no Brasil. Estou levando porrada de tudo quanto é grupo de pessoas que têm este problema lamentavelmente”. Para além dos questionamentos levantados por Vera Magalhães, é interessante que Jair não só ignora que uma boa parcela dos casos de HIV recentes são causados por maridos que transam fora do relacionamento, como também trata como culpa das mães e avós a contaminação pelo vírus. Pai? Avô? Certamente tem como única responsabilidade bater no filho para ele não virar gay.

Em notas relacionadas, na última semana, a CNI contestou regra trabalhista que dá estabilidade no emprego a pessoas com HIV. A organização já prestou homenagem ao presidente e apoiou medidas importantes de seu governo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Peço perdão pelo vacilo

Lembra daquela reforma administrativa que o governo estava preparando para 2019, mas ficou para 2020? Aquela que acabaria com privilégios e diminuiria a capacidade do Estado ser um gerador de desigualdade? A grande reforma que daria fôlego fiscal ao governo no médio prazo?

Pode pegar a pá e começar a cavar a cova dela.

Paulo Guedes, o ministro da Economia que é um ótimo palestrante, resolveu chamar todos os servidores públicos de “parasitas”. Ignorando que o texto encontra grandes resistências antes mesmo de vir a tona, o ministro jogou tudo pelo ar (outra vez) causando atritos desnecessários e provocando quem estava calado. O cosplay de Fernando Collor em campanha presidencial pegou mal.

Pegou mal para um caralho alado.

Rodrigo Maia, um crítico da concentração de renda da elite do funcionalismo, saiu em defesa dos funcionários. Condenou o uso de “termos pejorativos” como forma de articulação política e lembrou que o funcionalismo público deve ser tratado com respeito.

Guedes pediu desculpas pelas palavras e falou que se expressou “muito mal”. O ministro não pode, porém, reclamar depois quando é chamado de tchuchuca por aí. Quem com ferro fere, deve aceitar que com ferro será ferido.

Ética, pra que te quero?

Fabio Wajngarten, que omitiu da Comissão de Ética Pública os dados sobre as atividades de sua empresa, será investigado pela Polícia Federal. O inquérito foi aberto a pedido do Ministério Público Federal (MPF) em Brasília. O foco é apurar se o chefe da Secom praticou corrupção passiva, peculato e advocacia administrativa.

Segundo a Advogacia-Geral da União, não há conflito de interesses na atuação de Wajngarten na Secom enquanto ele se mantém como sócio majoritário de uma empresa que tem contratos ativos com organizações que recebem dinheiro da Secom. A AGU também afirmou à Justiça Federal que não há conflito de interesses no favorecimento de algumas dessas empresas no repasse de verbas, como é o caso da agência Artplan.

Ao assumir o cargo, segundo a AGU, o secretário afirmou para a Comissão de Ética Pública da Presidência que não havia conflito de interesses entre a sua vida pública e privada. Porém, conforme apurou a Folha de S. Paulo, o documento de oito páginas não menciona, com detalhes, o ramo de atuação de suas empresas e o tipo de negócio que elas mantém. A lei de conflito de interesses (12.813/2031) obriga Wajngarten a fazer o que ele não fez.

Enquanto assessores avaliam como insustentável a posição do chefe da Secom, Bolsonaro resiste a retirá-lo do cargo. Segundo o presidente, Wajngarten “continua mais forte do que nunca“. O chefe da Secom está prestes a se tornar mais um dono de cargo comissionado que se mantém no cargo por pura birra do presidente.

O que o MEC fez de errado nessa semana

Vamos agora ao recap das merdas que o ministro da Educação andou aprontando. A cúpula do ministério quer mudar o sistema federal de avaliação da educação básica (o Saeb) para que ele seja aplicado até mesmo para crianças de 6 anos. A medida, assim como várias outras já feitas pelo órgão, não são apoiadas pelo corpo técnico do Inep e pode gerar um aumento substancial de gastos.

Os problemas para as crianças que dependem do governo vão além do possível gasto desnecessário para avaliar a educação pública. O discípulo de Olavo de Carvalho, Carlos Nadalim, que atua como secretário de Alfabetização do MEC, será o responsável por selecionar os livros comprados pelo governo em 2021 para os dois primeiros anos do ensino básico. Todos os critérios do edital terão como base os desejos e sonhos mais profundos do olavete.

Let the games begin

Enquanto Weintraub dá à educação nacional o mesmo tratamento que uma camisinha tem durante a gravação do baile de carnaval da Brasileirinhas, um grupo de parlamentares foi ao Supremo Tribunal Federal submeter um pedido de impeachment do ministro da Educação. A medida foi liderada pela <3 Tábata Amaral <3 e tem como base a ineficiência na gestão das políticas de alfabetização e as falhas durante o Enem. O pedido também elenca o não uso de R$ 1 bilhão resgatado pela Lava Jato e direcionado para a pasta e a quebra do princípio de impessoalidade que comentamos na semana passada.

Servirá como algo que vá além de mais um photo-op contra o ministro? Não. O blog continua achando divertido mais essa fritada pública contra Weintraub? Ô se acha.

Chantagem com cara de desafio

O governo federal resolveu ir atrás de governadores e fazer populismo em cima da situação fiscal alheia. Bolsonaro confrontou governadores avisando que zera o imposto federal sobre combustíveis se os chefes dos executivos estaduais zerarem o ICMS. Romeu Zema, governador do melhor estado da nação, lembrou que a coisa não funciona assim e que nem todo mundo tem espaço fiscal para ficar queimando receita.

A tensão sobre o imposto começou no domingo (2), quando Jair Bolsonaro anunciou um projeto para criar uma alíquota fixa para o ICMS dos combustíveis. Bolsonaro também reclamou que as suas medidas para reduzirem o custo do combustível não tiveram efeito no preço praticado nas bombas.

Balela.

Não há realidade em que o fim da tributação da gasolina possa gerar uma queda do seu preço de até 44%. Boa parte da diminuição seria diluída ao longo da cadeia, seja por recomposição de margem de lucro ou pura inflação. O valor cairia, com sorte, apenas nas áreas de elevada concorrência (ver qualquer obra de qualidade sobre monopólios).

Plantando populismo para colher ingratidão

O presidente precisa voltar a ser a pessoa que admite que conhece pouco ou quase nada sobre o sistema de preços e sobre economia como um todo. Antes que ele comece a fazer lobby pelo tabelamento do combustível, é importante lembrar o impacto que combustíveis em termos de externalidades negativas tem para toda a sociedade (de gastos com o SUS ao aquecimento global).

Quanto mais gasolina é queimada, mais poluído o ar fica. Ar mais poluído gera mais problemas respiratórios e sobrecarga em hospitais públicos. Além de contribuir para mudanças climáticas que tornarão o mundo inabitável a médio e longo prazo, claro.

Motivos para aumentar (ou manter o imposto da gasolina) nos níveis atuais não faltam. Para além das externalidades negativas, o combustível é uma mercadoria com demanda inelástica e com menos peso morto do que muitos outros tipos de impostos sobre o consumo.

O seu uso tende a ser maior por quem tem renda elevada do que nas classes mais pobres, o que dá um caráter progressivo a medidas focadas no aumento do imposto sobre esse tipo de mercadoria. É pouco provável que o presidente goste de ver menos carros nas ruas, mas o blog sempre apoiará menos carros nas ruas.

É muito provável, porém, que o presidente imbrochável mande um projeto para o Congresso mudando a taxação do ICMS, o que certamente não contribui para gerar menos animosidade entre governadores. O texto, que já está pronto, deve diminuir o valor do imposto em vários estados.

Enquanto faz os governadores de trouxas e jura ser ele o otário, Bolsonaro arruma brigas para o seu governo que ninguém pediu que fossem travadas. Tenta colocar os governadores contra a opinião pública e pede coisas impossíveis de serem feitas. A não ser, é claro, que ele queira jogar fora R$ 28 bilhões e obrigar vários governadores a não cumprirem a Lei de Responsabilidade Fiscal.

O governo do homem mediano

O governo dos homens medianos quase teve como responsável pelas novas passadas de vergonha da Secom na internet, um bolsonarista nada conservador nos costumes. Luiz Galeazzo, ou apenas @oiluiz, quase conseguiu uma mamata para chamar de sua. Quase, no caso, pois após a internet levantar todo o arquivo de impropérios que Luiz desferiu pela web (ou deixou acessível por aí) nos últimos anos, e o governo desistiu, por hora, de contratar os serviços de Luiz (outra vez).

Vai dia e vem dia e tudo indica que a melhor pessoa para ajudar no aparelhamento do governo e no uso de verbas públicas para favorecer amigos seja Xico Graziano.

Brincadeira.

O nome mais adequado certamente é o blogueiro Allan dos Santos. O responsável pelo site de notícias relativamente reais Terça Livre. Não é como se ele já não estivesse usando dinheiro da Secom para viver como um pecador e praticante da luxúria. Deus tá vendo (a gente também).

Explorando tudo até o fim dos tempos

Para fechar a semana de absurdos, o presidente enviou para o Congresso um projeto que libera a exploração das terras indígenas nacionais. As mudanças atenderão aos desejos mais primitivos de mineradoras, pecuaristas, plantadores de transgênicos e empreiteiras. Não há prazo para o projeto ser analisado, mas parlamentares já estão atuando para barrar a iniciativa diante das suas várias inconstitucionalidades.

O presidente também resolveu utilizar a sua caneta para tornar as suas férias mais agradáveis. Bolsonaro, que já foi multado por pescar em área de preservação ambiental, mudou a regra que trata sobre o tema e liberou a atividade. Na falta do que fazer, também excluiu integrantes da sociedade civil do conselho deliberativo de um fundo voltado para gerir ações socioambientais.

Os ataques são o puro suco de revanchismo que tem definido o governo até aqui. A investida e os ataques verbais de Bolsonaro se dão na mesma semana em que pesquisadores brasileiros publicaram um manifesto contra as políticas ambientais do seu governo. Divulgado pela revista científica Nature Ecology & Evolution, o artigo-manifesto teve apoio global.

O problema, porém, é que dependemos de um Congresso dominado por ruralistas para ter esse tipo de ideia morta. Já que nesse governo só se mata as boas medidas a favor do meio ambiente que ele mesmo anuncia.


Eu escrevi e revisei este texto com a ajuda da Ninna. A língua é viva e você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #57: os improváveis inúteis da República

O inferno astral de quem depende do MEC para definir o seu futuro, a agenda não liberal do governo, as preparações para 2022 e pequenas aulas de populismo. Tudo isso enquanto Lula dava um refresco para Bolsonaro e FHC dissertava sobre as suas angústias.

Não se esquece de compartilhar o post com a tia.


The following takes place between jan-28 and 03-fev


Matrioska do BNDES

A brochada pós unboxing do BNDES incomodou demais o presidente. Depois de anos caçando um fantasma que não existia, Bolsonaro resolveu criar outro factoide envolvendo o banco público. O problema agora são os R$ 6.000,00 por palavra que foram pagos para uma auditoria revelar o que todos já sabiam: não há uma infração legal nas operações de crédito para a JBS.

Gustavo Montezano corre sério risco de perder o cargo por cometer o crime de fazer o que Bolsonaro desejava e por ter aprovado um aditivo de R$ 13 milhões para a auditoria dos empréstimos. Há também a chance de a auditoria das operações da Odebrecht ficar a ver navios.

Montezano e Bolsonaro podem falar o que for, chorarem o quanto quiserem e gastarem todo o caixa do banco em busca de problemas nas suas operações de crédito subsidiado. Mas é pouco provável que o uso do banco de fomento para realizar fomento na economia acabe se transformando em acusação de ilegalidade. Pelo menos no que se refere às operações que o banco já abriu os dados após 2015.

Talvez seja a hora de Jair e sua turma investir em outros motivos para acusar a esquerda de ter destruído o país. Em algum momento o malabarismo retórico acaba cruzando com a realidade e, nessas horas, até mesmo o mais apaixonado fã do presidente pode perder a paciência com a criação de factoides.

Não custa lembrar: o aumento da transparência das operações do BNDES é algo que já é fato público desde 2015. A não existência da caixa preta do banco só não é mais velha do que os resultados desastrosos das operações por ele realizadas. Seria muito, portanto, pedir que o governo trate o tema com a seriedade necessária e pare de se esconder atrás de narrativas fraudulentas? Talvez. Mas sonhar é de graça e o travesseiro do blog é novinho.

Vem, 2022, vem nos fazer passar raiva

Após repetir impropérios e deixar o seu populismo autoritário à mostra, Lula resolveu usar o seu tempo livre para focar nas eleições de 2022 ao lado da presidente do PT, a senadora Gleisi Hoffmann. Crente de que o PT é o único capaz de ir para um segundo turno com Bolsonaro (e sabendo que Fernando Haddad não se elege sequer para síndico), o ex-presidente se reuniu com o governador maranhense Flávio Dino.

A reunião teve três objetivos práticos: foder com o centro liberal que está ensaiando um voo desde as eleições de 2018, trazer o governador de volta para o PT e afastar o comunista de Luciano Huck. Está errado o ex-presidente no que faz? Não muito. É engraçado ver o PT sendo incapaz de ser vice em uma campanha? Também.

Populismo 101

Enquanto o ministro da Educação acumulava motivos para ser demitido, o presidente resolveu ir atrás de quem fez algo que é legal, porém, imoral. O número dois da Casa Civil, Vicente Santini, resolveu utilizar um jato da FAB para um voo exclusivo à Índia (onde Bolsonaro passou parte dos últimos dias). O valor do passeio caiu na net e, bem, o pessoal não gostou muito.

Santini chegou ao governo por ser amigo da família Bolsonaro. O presidente, ao tomar conhecimento do frete, avisou que o número dois seria demitido do cargo (sem ao menos comunicar antecipadamente para o chefe da Casa Civil, Onix Lorenzoni, a sua ação). Mas, com o apelo dos filhos de Bolsonaro, a sua régua moral migrou para a mesma posição que avalia os voos de Ricardo Salles (do Meio Ambiente) em aviões da FAB e o ex-secretário-executivo foi realocado em um novo cargo.

Pegou mal? Pegou mal.

Vendo que até a deputada e jornalista condenada por plágio Joice Hasselmann conseguiu tirar proveito político da situação, o presidente mudou de ideia outra vez. Enquanto Carlos Bolsonaro exercia a sua fixação com o cu alheio, Bolsonaro anunciou que Santini seria exonerado do cargo, para a tristeza de Onyx, que ficou enfraquecido após o caso.

É divertido como a meritocracia funciona no governo. Banqueiro que afirma que não há caixa preta no BNDES sem precisar de um cheque de R$ 48 milhões? Demitido em uma manhã de sábado. Ministro que é incapaz de corrigir uma prova? Mantido no cargo. Chefe que se coloca em situação de improbidade administrativa? Ganha apoio público. Ministro que está lotado de acusação de corrupção? Faz photo-op em Minas Gerais.

Secretário-geral da Casa Civil que é pego gastando mais do que deveria, ainda que por meios legais? Muda de emprego e só cai quando a sua posição coloca o governo como motivo de troça de ex-aliado.

E agora para algo completamente não diferente

Falando em gente que é pega por aí em situação comprometedora, a Procuradoria da República solicitou à Política Federal a abertura de um inquérito criminal contra Fabio Wajngarten, chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom). A investigação deverá apurar as suspeitas de crimes de peculato, advocacia administrativa e corrupção.

Para quem perdeu os últimos posts do blog, eis um recap: Wajngarten é acusado de utilizar as verbas da Secom para favorecer empresas de comunicação simpáticas ao governo. Tudo isso enquanto os grupos de mídia mantinham contratos com a FW Comunicação e Marketing, empresa da qual é sócio. Além disso, o chefe da Secom também incluiu a verba de R$ 1,8 milhão para 12 emissoras religiosas desde que chegou ao cargo.

Parte do dinheiro foi utilizado, por exemplo, para financiar as propagandas a favor da reforma da Previdência. A verba da Secom engordou os bolsos de nomes como Ratinho e Ana Hickman. Teria sido mais legal pagar mais para o estagiário de social media não ficar passando vergonha online no débito e no crédito.

O presidente, que até agora não viu nada de errado nas acusações, terá que lidar, também, com o resultado de uma averiguação do Tribunal de Contas da União e a Comissão de Ética Pública da Presidência (onde Wajngarten mentiu). Também cairá no colo de Bolsonaro dois indicadores não muito agradáveis para quem insiste na narrativa de combate à corrupção como uma base de seu governo: desde o começo de 2019, o número de denúncias de infrações éticas e conflitos de interesse saltou de 803 casos (em 2018) para 1.340 (em 2019), enquanto a capacitação de servidores públicos em gestão da ética foi lecionada para 1.339 alunos (contra 3.348 no ano anterior).

A indignação dos não injustiçados

Circula a boca miúda que Fabio Wajngarten tem feito lobby junto a ministros do TCU para escapar de qualquer punição. O argumento de Wajngarten é que o responsável pelos contratos foi general Santa Cruz, que ocupou o seu cargo nos primeiros meses do governo Bolsonaro. Ele também aponta que, na sua gestão, os repasses de verbas para empresas de TV caíram (ainda que a Artplan, cliente da FW, tenha se tornado a empresa que mais recebe dinheiro da Secom).

Apoiando a tentativa de jogar o problema para os braços de quem está longe do Planalto estão o general Ramos e os filhos de Bolsonaro (que mantém simpatia por Wajngarten graças aos laços que ele construiu entre parte da comunidade judaica e Bolsonaro).

O chefe da Secom está louco para abafar de vez o caso antes da retomada dos trabalhos do legislativo e, assim, evitar uma CPI sobre o tema. Não custa lembrar: o Mensalão começou de forma semelhante e CPI todo mundo sabe como começa, mas não como termina.

Na volta a gente vende

Lembra quando Paulo Guedes afirmava que venderia até terreno na Lua se possível fosse? O blog lembra. Parece que foi ontem que o governo jurava ser absurdamente liberal na economia e pronto para fazer saldão de bens públicos.

Afinal de contas, privatizar empresa pública (e/ou suas subsidiárias) no Brasil não é muito complexo. Há inclusive lambança constitucional aprovada pelo STF que facilita o processo.

Outro target que o blog se lembra bem era o fim do déficit das contas públicas, que seria baseado em várias reformas e muita privatização. No caso das reformas, a única que já foi enviada para o Congresso e aprovada foi a da Previdência, que tem efeitos a médio e longo prazo. Já o saldão de bens públicos? Viverá mais uma narrativa do bem contra o mal, ao menos no que depender de Salim Mattar.

O secretário de vendas do governo federal foi ao Twitter dia desses avisar que vendeu uma casa reservada a ministros por R$ 10,8 milhões, reduzindo a meta de venda de ativos para um trilhão, novecentos e noventa e nove bilhões, novecentos e oitenta e nove milhões e duzentos mil reais. O valor adquirido pela venda do imóvel mal faz cócegas no déficit atual do governo, que beira R$ 100 bilhões.

Todas aquelas outras estatais que Mattar afirmou que privatizaria em 2019 (mas na verdade fará isso em 2020 ou 2021)? Aparentemente, não podem ser vendidas mesmo que Guedes desejasse. Afinal, o governo federal, órgão com a prerrogativa de enviar Projetos de Lei para o Congresso que alterem as leis existentes, não pode mudar as leis ordinárias em vigor. Ou pelo menos tentar isso enquanto se distrai colocando mais dinheiro em empresa pública.

Pobre coitado do secretário de Guedes, que está de mãos atadas diante da liberdade de fazer aquilo que o ministro prometeu fazer enquanto buscava apoio para chegar ao poder. O liberalismo do Ministério da Economia, ao que tudo indica, será tão duradouro quanto o tempo de ereção do público alvo do Boston Medical Group.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Até que o Moro não é tão ruim assim

No meio tempo em que não flerta com a cadeira de Jair Bolsonaro, Sergio Moro resolveu tentar abertamente uma vaguinha no STF. Há quem diga até que o juiz já disse ao presidente, enquanto faziam amor em um motel obscuro de Brasília, que ele deveria ser nomeado só para reduzir as dificuldades de Bolsonaro continuar no poder após 2022. Mas se Moro quer mesmo chegar lá, terá que fazer coisas que vão além do seu face lift.

Além do ex-juiz da Lava Jato, um dos nomes que já apareceram na imprensa como cotados ao cargo é Jorge de Oliveira. Também chamado de Jorginho, Oliveira tem 13 anos de formação em Direito e seis de OAB.

Se me prometerem uma nomeação que não envolva o Jorginho ou o Pato de Maricá, eu topo um impeachment a tempo da aposentadoria do próximo ministro. Só avisando.

Não me cutuca que eu te cutuco de volta

Enquanto o futuro partido do presidente utiliza imagens de Sergio Moro para divulgar a sua campanha de coleta de assinaturas de apoio à sua criação, o ministro da Justiça lançou uma lista com os criminosos mais procurados do país. Tem até miliciano na brincadeira.

Já o presidente Bolsonaro tuitou um texto de autoria do general Augusto Heleno em que o governo atual é visto como “o maior símbolo de combate à corrupção de que se tem notícia, nos 520 anos da história do Brasil“. Não muito tempo depois, Moro resolveu afirmar que o combate a corrupção “não é um projeto pessoal ou de governo, é um projeto de país“. Prioridades.

Moro deveria tomar mais cuidado caso queira ir para o STF. Em vez de cutucar o seu chefe, talvez seja interessante para o ministro manter o apoio da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef). A organização, ligada a Eduardo Bolsonaro, resolveu abrir uma consulta interna para avaliar a posição dos agentes de segurança pública sobre a criação de um ministério da Segurança Pública.

Pelo menos não é petista

Após o melhor pior Enem de todos os tempos e da última semana, as atenções dos jovens ficaram voltadas para as seleções do Sisu e do Prouni. Mas não para comemorar um aumento do número de pessoas em situação de vulnerabilidade social (ou pobres, como se diz aqui na terra do blog) nas universidades nacionais.

Mas antes de entender a sequência de desatinos que virou o Enem (e os processos de seleção que dele dependem), que teve até Lorenzony pedindo a Olavo de Carvalho a benção para ter o MEC, vamos ao recap sobre como chegamos até aqui:

  • assim que chegou ao poder, o governo Bolsonaro retirou todos os comunistas que passaram os últimos 20 anos executando o Enem dos seus cargos;
  • após isso, o Inep teve 4 diretores diferentes (e um longo período sem alguém ocupando a direção do órgão responsável pela prova, que é um dos maiores exames de acesso ao ensino superior do planeta).
  • além de perder os burocratas que já executavam a prova, o governo também ficou sem a gráfica responsável pelo exame nos últimos anos;
  • no seu lugar, entrou o segundo lugar no último edital, que não tinha experiência nesse tipo de serviço;
  • após a prova, o ministro foi ao Twitter informar que realizou o “melhor ENEM (sic) de todos os tempos“;
  • na hora de divulgar as notas, um grupo de alunos notou que a sua nota estava errada, algo que você pode ver o recap aqui;
  • o MEC negou que havia problema na correção das provas;
  • o MEC confirmou que houve um problema na correção das provas;
  • o MEC afirmou que as provas com problemas foram averiguadas e que o Sisu e o Prouni ocorreriam normalmente;
  • o Sisu e o Prouni não ocorreram normalmente.

Na segunda-feira (27) o MEC suspendeu as inscrições do Prouni. A justificativa era o bloqueio da exibição da nota do Sisu, que estava prevista para o mesmo dia. A proibição (da exibição das notas do Sisu) foi tomada na sexta-feira (24) pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região.

O juiz responsável pela medida solicitou ao MEC que apenas continuasse os processos de seleção após dar boas garantias de que os problemas encontrados tivessem sido solucionados. No dia seguinte, a medida foi revogada pelo Superior Tribunal de Justiça.

O MEC, porém, resolveu se adiantar ao STJ e publicar parte dos resultados extra-oficialmente na terça-feira (28). Procurado pelo O Globo, o ministério não informou por qual razão o vazamento ocorreu. Disse, porém, que os dados divulgados não correspondiam ao resultado final da seleção (correspondiam).

A segunda-feira também foi o dia em que a Defensoria Pública da União acionou a Justiça contra o ministro da Educação, Abraham Weintraub. O ministro, no final de semana anterior, atendeu ao pedido de um apoiador do governo e moveu os pauzinhos necessários para que a nota de sua filha fosse revisada. O mesmo ministro que, dias antes, bloqueou internauta não bolsonarista que cobrou uma boa gestão dos resultados do Enem. A acusação de violação do princípio de impessoalidade na administração pública é mais uma das várias que o governo já tinha recebido referentes à correção do Enem.

Na terça-feira, enquanto Weintraub conseguia manter um amplo apoio do governo, a Comissão de Ética emitiu uma advertência ao ministro. O motivo foi a comparação, em seu Twitter, dos ex-presidentes Lula e Dilma com substâncias entorpecentes.

No final da tarde de quarta-feira (29), a Folha de S. Paulo avisou que os resultados do Enem, um dos principais fatores que validam a prova como porta de entrada para as universidades brasileiras, não são confiáveis. Como o MEC não recalibrou os resultados de todos os estudantes após identificar as provas com problemas, os vestibulandos que tentaram a prova correm o risco de ficar com um resultado incorreto. O que não seria um problema grave se os vestibulares mais concorridos não fossem decididos nas casas decimais das notas de cada candidato.

Falando em resultados, a divulgação das notas não levou ao fim dos problemas de quem disputou o Sisu. Os candidatos, que já tinham enfrentado problemas na hora de fazer a seleção do curso, também lidaram com erros durante o cadastro nas listas de espera do exame. Um pobre coitado foi até parar em um curso que não tinha interesse.

Para quem teme que os casos ficarão sem penalização para os responsáveis (ou o responsável), pode ficar tranquilo. O presidente avisou no dia 28 que fará uma investigação para averiguar o que levou a tantos problemas. Seria interessante ver o governo evitando gastar outros R$ 48 milhões da União buscando um sabotador e direcionando as suas atenções para o responsável pela pasta da Educação. Quem sabe assim o real culpado não perde o cargo rapidamente.

Seguir as orientações de Rodrigo Maia pode ser uma ideia mais inteligente do que focar no que diz Eduardo Bolsonaro e a militância do governo. Não é a primeira vez que o presidente da Câmara acerta em suas falas. Não há investimento de longo prazo que dê certo em um país incapaz até de distribuir o número correto de vagas para candidatos com deficiência física durante o Sisu.

Desde que chegou ao poder, Weintraub gastou mais tempo fazendo gracinha no Twitter direcionado ódio ao pagador de impostos do que cuidando da pasta com um dos maiores orçamentos (e número de problemas) de Brasília. O ministro resolveu tratar a sua cadeira com a mesma mediocridade que tratou a sua vida acadêmica. O resultado, infelizmente, está afetando milhões de brasileiros (e não só o seu futuro) e complicará até mesmo a realização de conferências e as viagens de cientistas e pesquisadores brasileiros pelo mundo afora.

E os pesquisadores de humanas, claro. Pois é sempre um dia bom para ferrar com o pesquisador de humanas.

A resposta política chegará em breve. Nesta semana o Congresso voltou a trabalhar. A MP da carteirinha de estudante pode caducar por falta de articulação (ou boa vontade) dos parlamentares. No senado, já tem senador pedindo convocação de Weintraub, passo que também foi tomado por Tabata Amaral na Comissão de Educação. Se demorar muito, os políticos podem se unir e chamar o ministro para se explicar na frente do plenário.

O MEC vai precisar fazer um trabalho que vai muito além de um contrato de R$ 20 milhões para a nova assessoria de imprensa do órgão se quiser deixar de ouvir de Rodrigo Maia que o seu comandante representa a “bandeira do ódio”. Um caminho interessante seria mandar Weintraub de volta para São Paulo. Com sorte o nosso maior problema volta a ser a presença de criacionista na Capes.

O aspone mais caro do país

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, está se sagrando como o funcionário público mais inútil do país (e olha que a disputa é elevada). Até que a sua saída do cargo se torne uma realidade, o ministro terá como maior objetivo diário passar a mensagem presidencial ao Congresso e articular uma chapa para o poder executivo em sua terra natal. Ou voltar para a Câmara e retomar a sua posição de deputado irrelevante do baixo clero.

Onyx, após assumir a Casa Civil, já perdeu o Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) para a Economia, a articulação política e a Subchefia de Assuntos Jurídicos (SAJ). O Conselho da Amazônia também fugiu das suas mãos, sendo agora responsabilidade do vice-presidente, Hamilton Mourão.

Eu mencionei que o assessor de imprensa de Onyx também foi exonerado por Bolsonaro? Pois é.

O sulista pode se unir ao porta-voz da Presidência, o general Rêgo Barros, criar a SePone (Secretaria de Porra Nenhuma) e assim dedicarem os seus dias em Brasília à prática de gamão e bocha. Farão mais bem pelo país do que os esforçados ministros de outras áreas, como o do Meio Ambiente e o da Educação.


Eu escrevi e revisei este texto com a ajuda da Ninna. A língua é viva e você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #56: Sergio Moro strikes again

A neutralização de Sergio Moro, a passada de pano institucional para Sergio Moro e as ações políticas de Sergio Moro. Tudo isso e muito autoritarismo na semana #56 do governo.


The following takes place between jan-21 and jan-27


Keeping up with #VazaJato: quem quer rir tem que fazer rir

Saudade da #VazaJato? Pois quem andou lendo mais do que colunas de opinião do Intercept nessa semana teve o prazer de se alimentar de outro vazamento da série de reportagens. De acordo com o site, o procurador Deltan Dallagnol tentou influenciar a escolha de Ivan Monteiro para a presidência do Banco do Brasil pelo governo Bolsonaro.

A força-tarefa teria atuado junto com o site O Antagonista para divulgar documentos que inviabilizariam a indicação de Monteiro para o cargo. Ainda segundo a matéria, Monteiro era mal visto pelos procuradores e por Onyx Lorenzoni.

O texto também mostra em detalhes como os jornalistas de O Antagonista trabalhavam lado a lado com os procuradores. Em um trecho, há uma troca de mensagens entre Cláudio Dantas e os procuradores, em que o jornalista repassa um boato sobre a nora do ex-presidente Lula (o que teria levado a uma quebra de sigilo fiscal ilegal). Em outro, Diogo Mainardi deixa de publicar sobre o escândalo do Panamá Papers a pedido de Dallagnol.

Defensoria pública de Sergio Moro e associados

O Ministério Público Federal denunciou sete pessoas pelo envolvimento no roubo de mensagens de autoridades envolvidas (ou não) na #VazaJato. Entre os nomes, há o do jornalista Glenn Greenwald, que fundou o The Intercept Brasil. O crime cometido pelo jornalista, além do livre exercício da sua profissão, foi tomar o cuidado necessário para a proteção do sigilo de suas fontes.

Glenn não foi investigado e tão menos indiciado pela Polícia Federal. Em relatório publicado em dezembro de 2019, a PF afirmou que não existiam indícios de que o jornalista tinha cometido alguma ilegalidade. Greenwald, segundo o documento, adotou uma “postura cuidadosa e distante em relação à execução das invasões”.

Mesmo assim, o procurador Wellington Oliveira, sem provas, afirmou que o jornalista orientou o grupo a cometer crimes. A acusação pode ter sido realizada sem a abertura de um inquérito ou depoimento de Glenn. Se confirmado, será uma quebra das resoluções internas do próprio MPF.

Wellington Oliveira faz parte do grupo que também denunciou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por calúnia contra o ex-juiz Sergio Moro. Agora a justiça deve decidir se aceita ou não a denúncia inepta, arbitrária e abusiva.

Marco Aurélio Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal, pegou leve e chamou o ataque à imprensa de problemático e perigoso. O grupo de advogados criminalistas Prerrogativa foi direto ao ponto e afirmou que a denúncia “ataca violentamente a liberdade de imprensa” e é uma “escalada perigosa na ascensão do autoritarismo”. Já Glenn apontou para o óbvio e lembrou que o MPF só está fazendo o trabalho de defensoria de Sergio Moro e de Bolsonaro.

Falando em gente que sonha com uma escalada autoritária e um novo regime a-liberal no país, Bolsonaro também comentou o tema. Ironizou jornalistas perguntando se eles não acreditam na justiça e depois se fez de sonso quando apontaram que a ação foi do MPF. Ainda questionou se Glenn continuava morando no Brasil, pois jornalista que questiona o poder, para ele, tem dois caminhos: o exílio ou a cadeia.

A defesa de Glenn ultrapassou barreiras ideológicas e levantou até mesmo a voz de jornalista conservador da Fox News. Faz sentido. A escalada contra a imprensa por parte de órgãos do governo e do judiciário não começou ontem e não deve terminar amanhã.

O autoritarismo tupiniquim vai da direita chucra à esquerda que um dia ocupou o poder. Mas ele tem em Bolsonaro e nos lavajatistas a sua expressão mais forte desde o fim da ditadura civil-militar em 1985.

Democracia de Schrödinger

Como apontou o Gabriel Brasil no Twitter, a democracia não é uma questão de “existe” ou “não existe”. Há diferentes gradações para o nível de liberdade que cada regime dá aos seus cidadãos. No Brasil, por exemplo, ganhamos uma nota 6,86 em uma escala de 0 a 10.

A nota anterior do Democracy Index, feito pela The Economist, era 6,97. Índice pior do que o da Argentina, da Colômbia e da Bulgária. Isso nos classifica como uma “democracia falha”.

A classificação também é uma forma muito bonitinha de dizer que “estamos elegendo os governantes, mas todo dia tem favelado sendo julgado por fuzil de PM, judiciário validando autoritarismo e governantes não pensando duas vezes antes de atacar a imprensa livre”. Ou um Ministério Público Federal que criminaliza o jornalismo e a advogacia que faz críticas a autoridades. O leitor tem bastante exemplo para escolher qual item dar destaque.

Massagem de ego multimídia

O primeiro entrevistado do Roda Viva em 2020 foi Sergio Moro. Para entrevistar o ministro, o Roda Viva convidou um grande time de jornalistas. E o Felipe Moura Brasil.

O TL/DR da entrevista pode ser resumido assim: Moro fugiu de falar o que pensa sobre os corruptos do governo e passou pano para os ataques de Bolsonaro à imprensa. O ministro tergiversou sobre o ataque ao Porta dos Fundos, fez de conta que os indicadores negativos do governo causados pelo governo não existem e cantou méritos que não são deles. Também chamou a #VazaJato de “monte de bobajerada” e ainda confundiu o trabalho de jornalista com o de advogado de defesa.

Nas redes sociais teve bolsonarista doído com o fato de que a transmissão não mostrava os jornalistas tomando um chá com Moro. Aparentemente, ligaram no Roda Viva esperando uma retransmissão do Pânico na Rádio, programa que entrevistou o ministro na segunda-feira (27).

Ali a conversa foi mais tranquila e amigável. O ministro estava solto como arroz de mãe. Negou que tem pretensões políticas, fez piadas e, aos risos, deixou o seu autoritarismo à mostra.

Para ajudar nos afagos, a rádio escalou o jornalista chapa branca e pretenso boxeador Augusto Nunes. Estaria Felipe Moura ocupado no dia? São questões que ocuparam a mente do blog enquanto ouvia o ministro desenvolto na construção da sua plataforma política para 2022.

PGB – Procuradoria Geral dos Bolsonaro

A Procuradoria Geral da República já pode tirar o “da República” do seu nome e adicionar um “dos Bolsonaro” no lugar. Indo contra a postura independente que o próprio procurador afirmou que teria, o órgão já começou a trabalhar em favor dos interesses da família do presidente. Mais especificamente, de Flavio B.

Matéria do GloboNews apontou que a cúpula da PGR está realizando um pente fino no caso das rachadinhas. A ação teria ocorrido a pedido do presidente do STF após a defesa do senador solicitar o arquivamento da investigação. O levantamento seria para identificar qualquer tipo de vício nos trabalhos já realizados, o que pode colocar a Procuradoria a favor, contra ou parcialmente a favor do senador. A ver.

Para, para, para!

Falando em combate à corrupção, a Justiça do Rio de Janeiro paralisou as investigações contra o sócio de F. B. Alexandre Ferreira Dias Santini é um dos investigados pelo Ministério Público e solicitou um habeas corpus em relação à análise do que foi encontrado em sua residência. Após a decisão favorável, os procuradores terão que focar no material encontrado na loja de chocolates que teria sido usada para lavar R$ 1,6 milhão.

As instituições estão funcionando na República das Bananas

O ministro Luiz Fux, do STF, suspendeu, até segunda ordem, a implementação do juiz de garantias. Apesar de o projeto ter sido votado seguindo todos os ritos legais, sancionado por Jair Bolsonaro e validado pelo presidente da Corte, ministro Dias Toffoli, Fux achou que a lei ainda não estava com a sua constitucionalidade garantida. Será necessário, portanto, a confirmação por meio de decisão colegiada.

Após elogiar a decisão de Toffoli, Sergio Moro, elogiou a decisão de Fux. Maia, por outro lado, ironizou a medida e lembrou que o Brasil é bagunça mas há limites.

Como afirmou o parlamentar à Folha de S. Paulo, “O Brasil é de fato um país interessante. O vice-presidente do Supremo decide contra o presidente do próprio Supremo, e o ministro da Justiça elogia a decisão que é contra o presidente da República”.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

O caro namoro da namoradinha do Brasil

O “namoro” entre Regina Duarte e o governo Bolsonaro foi mantido com o dinheiro dos pagadores de impostos. As despesas da atriz e de seus assessores foi patrocinada pela administração pública. O custo, porém, é segredo, já que a pasta se recusa a informar exatamente o valor de cada hospedagem e passagem de avião que foi comprado nessa brincadeira.

Quem se assustou com a guinada daquela que fez atuações feministas no passado e ainda lutou contra a ditadura deveria olhar com mais atenção para o círculo social da atriz. O filho mais velho de Regina Duarte pode ser visto como um dos grandes responsáveis por colocar a atriz no “lado de lá“. Para além de empresário da própria mãe, ele é apoiador ferrenho do governo e de suas pautas.

Enquanto Regina Duarte não decide se larga ou não a Globo, a Secretaria Especial de Cultura ficará sob o comando da ex-secretária da Diversidade Cultural (e reverenda) Jane Silva. O convite, feito por Regina e o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi aceito por aquela que também é Presidente da empresa Associação Cristã de Homens e Mulheres de Negócios, um cargo que certamente deu a ela muito conhecimento sobre a gestão de projetos artísticos e culturais no país.

Enquanto isso, o edital fascistoide de Roberto Alvim foi suspenso. A iniciativa é um acordo tático entre o governo e Regina Duarte, que não quer demitir ou encerrar nada que já estava em execução antes de ela topar entrar na pasta.

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A nomeação de Regina Duarte para a Secretaria da Cultura desagradou mais gente além da ala do Olavismo Cultural do governo. Carlos Bolsonaro também ficou tristinho com o estágio da atriz global.

Os argumentos do Zero Dois? Regina seria uma perigosa comunista que não gosta tanto assim de Bolsonaro e de suas causas. Tudo por ter ido contra a censura da Ditadura e ser ligada à TV Globo.

O Bolsonaro filho, pelo visto, está duvidando da capacidade de governar do Bolsonaro pai. Afinal, Regina foi convidada por iniciativa de Jair, não por sugestão de subordinado. Talvez seja a hora de chamar de volta o “poço de desagregação com sinais de pertubação mental” e fazedor de edital proto-fascista Ricardo Alvim.

Brochou? Brochou

Um dos grandes discursos de Jair Bolsonaro, durante a campanha de 2018, era a abertura da já abertíssima “caixa-preta do BNDES”. Investindo no imaginário de que o banco público não tinha aberto os dados dos empréstimos mais polêmicos (abriu, a partir de 2015), o governo pagou R$ 48 milhões para auditarem os dados da instituição.

R$ 48 milhões que renderam oito páginas informando o que muitos já sabiam: estava tudo ok. Isso mesmo. O poder público usou R$ 3.000,00 por cada letra de um relatório que afirmava que as operações do banco estavam livres de problemas.

Bolsonaro, pouco antes do fechamento deste texto, afirmou que a auditoria estava errada. Alguém deveria avisar ao presidente que o dinheiro realiza vários sonhos, mas até mesmo o capitalismo encontra limites para a sua capacidade de inventar realidades paralelas.

Nadando contra a corrente

Começou a 50ª edição do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Como já apontado pelo blog e os jornalistas de plantão, Bolsonaro não estava, mas parte da sua equipe, sim. O Brasil pode não ter enviado o maior falador de bosta de Brasília, mas certamente garantiu a presença de bocas de esgoto no evento. A começar por Paulo Guedes.

Enquanto Trump criticava adolescente, o ministro da Economia afirmou que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza”. Guedes não se estendeu muito no assunto, mas deu a entender que, se todo mundo estivesse alimentado, não haveria destruição do meio ambiente.

O blog tem visto muito perfil de influencer, à direita e à esquerda, buscando ajudar gente de baixa renda a gerir melhor o próprio orçamento e até dando dicas de como usar o troco do cafezinho na Bovespa. O blog não se lembra, porém, do momento da história nacional em que a derrubada da floresta amazônica ficou tão acessível que até filho de empregada doméstica pode alugar o próprio trator para abrir mata. Foi no governo Lula ou no governo da Dilma isso?

A fala do ministro mostra, mais uma vez, que ele gastou muito mal o seu tempo na Universidade de Chicago. Não é de hoje que o governo foi avisado que o perfil do investidor começou a mudar.

A questão climática e o meio ambiente estão no centro das discussões globais e das preocupações de quem realmente pode ajudar o país a se reerguer. Democracia e estabilidade institucional valem mais agora do que nos tempos da Guerra Fria. O combate à desigualdade, também.

Talvez seja a hora de o ministro entrar em contato com as pessoas que lhe deram aula nos EUA e repaginar o seu liberalismo. Quem sabe assim ele não para de culpar os pobres pelos problemas causados pelos seus colegas de trabalho? Tem muita gente querendo investir em um Brasil diferente dessa aventura reacionária em que nos metemos.

Toca pro pai

Para atender às pressões externas e ainda podar o ministro do Meio Ambiente, o governo anunciou a criação do Conselho da Amazônia. Não se sabe muito bem o que ele será, porém. Até o momento, a ideia é deixar que Mourão, o inofensivo vice, faça a curadoria de medidas que possam ajudar a desenvolver a região sem que isso implique na queda de metade da floresta. No meio tempo, o governo ainda valorizará os seus generais (que, ideologias a parte, entendem muito mais da Amazônia do que o ministro do partido Novo).

Apertando as rédeas só por segurança

Na quarta-feira (22), Jair Bolsonaro começou a falar abertamente que estudava a possibilidade de recriar o Ministério da Segurança Pública. Disse que “Se for criado [o Ministério da Segurança], aí ele [Moro] fica na Justiça. É o que era inicialmente. Tanto é que, quando ele foi convidado, não existia ainda essa modulação de fundir com o Ministério da Segurança.”

Mentira. Em novembro de 2018 Bolsonaro disse que Moro seria responsável por um “superministério”, que unia as pastas da Justiça e da Segurança Pública. Ideia do próprio ex-juiz, aliás, que queria total liberdade para fazer o que lhe desse na telha.

A medida de Bolsonaro foi articulada para deixar o ministro cozinhando em banho maria e reafirmar a posição de dominação que o presidente tem sobre Moro. Apesar de ter sido vendido como um dos pilares do governo e formador da sua credibilidade, hoje, Sergio Moro não é ninguém sem um cargo público. Ok, ainda é alguém relevante, mas muito menos do que ele será se abandonar o poder nos próximos dois anos.

Bolsonaro é uma péssima pessoa. Mas não é alguém que mantém paranoias apenas com coisas que não existem. Pelo menos no caso de Sergio Moro, ele está totalmente certo em atacar o ministro.

O ex-juiz aponta como quarto colocado nas pesquisas de intenção de voto. Também é uma figura com mais respeito da população do que o próprio presidente. E para desespero do vizinho de suposto miliciano, Moro consegue votos da extrema-direita, da direita e até de centristas.

O timing de Bolsonaro é perfeito para reforçar a ideia de que o presidente age para lembrar ao seu subordinado que, no final do dia, ele é seu subordinado. O ministro que esteve no Pânico e no Roda viva era alguém moldado por um bom media training. Soube não responder sobre o futuro, rir quando necessário e marcar visões diferenciadas das que o presidente mantém quando é necessário. Até conta no Instagram Moro já fez!

Se o ministro quer realmente combater a corrupção e o crime organizado, vale a pena se manter no cargo e fazer o que for possível para evitar o desmembramento da sua pasta. A recriação do ministério da Segurança Pública tem efeitos que vão além da redução da relevância do ministro. Ao tirar a Polícia Federal dos bolsos de Moro, investigações de interesse do presidente e de sua família morreriam no dia seguinte.

Por hora, a ideia morreu. Bolsonaro afirmou, após ação de Augusto Heleno e Luiz Carlos Ramos, que tudo fica como está. Fica triste o ex-deputado Alberto Fraga, amigo do presidente e alguém que estava louco para tomar as rédeas das políticas de segurança pública do governo federal. Terá que gastar saliva criticando outros membros da administração pública caso queira outra boquinha.

Se tudo der errado, Bolsonaro pode mandar Sergio Moro para o STF no final do ano. Isso daria ao presidente ainda mais poder na hora de tentar a reeleição: com uma única canetada, Bolsonaro neutralizou o ministro e toda a oposição que não está na esquerda do debate político.

O mais incrível é que, mesmo com tudo isso acontecendo, a aprovação do governo segue crescendo e a oposição à esquerda segue muito perdida e trabalhando forte para a deixar a disputa em 2022 nas mãos das direitas.


Eu escrevi e revisei este texto. A língua é viva e você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #55: salto artístico na piscina do autoritarismo

Teste do pato, improbidade administrativa, ninhos de mafagafos e muito wishful thinking marcaram a última semana.

Vem comigo que eu te mostro (e não se esquece de compartilhar com aquela pessoa que você gosta).


The following takes place between jan-14 and jan-20


Secretaria de Comunicação e Improbidade Administrativa

A Folha de S. Paulo revelou que o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, pode ter cometido improbidade administrativa após entrar no cargo. Wajngarten recebeu, nos últimos meses, pagamentos de emissoras de TV e agências de publicidade por meio de uma empresa da qual ele é sócio, a FW Comunicação.

O conflito de interesses surge pelo fato de a Secom ser a área do governo que distribui todo o orçamento de propaganda do Planalto. Wajngarten ganhou o cargo em abril de 2019 e, desde então, tem aumentado a verba destinada para as emissoras amigas de Bolsonaro (enquanto reduz a de empresas de comunicação um pouco mais críticas).

As empresas, como apontou o jornal, tem contratos com o governo e com a FW comunicação. Uma delas, a agência de publicidade Artplan, recebeu R$ 70 milhões entre abril e dezembro de 2019. O valor é 36% maior do que o pago no mesmo período no ano anterior.

Além do aumento de verbas, Fabio Wajngarten teve 67 encontros oficiais com representantes e ex-clientes da sua empresa (após assumir o cargo). O transporte necessário para realizar pelo menos 20 reuniões foi custeado com dinheiro público. A matéria não revelou, porém, se o número dois da Secom, irmão do administrador da FW, participou das conversas.

Jair Bolsonaro e Wajngarten juram que não há nada de errado, mas a Comissão de Ética Pública da Presidência analisará as denúncias. O Ministério Público de Contas também entrou na brincadeira e fará uma revisão de verbas publicitárias do governo. No Legislativo, há gente pedindo a saída de Fabio Wajngarten da Secom.

No governo Dilma e no governo Lula, quando algo semelhante ocorreu, uma postura relativamente diferente foi adotada. Todo mundo teve que se afastar dos cargos que ocupavam na iniciativa privada. Muito provavelmente em função disso os aliados de Bolsonaro não conseguiram um parecer favorável ao chefe da Secom no TCU e na CGU.

As coisas na Venezuela estão ótimas

Enquanto não passava pano para o seu subordinado, Bolsonaro resolveu atacar, outra vez, de novo, novamente, a imprensa. Perguntado se sabia dos contratos assinados pela empresa de Wajngarten, respondeu com um presidencial “você está falando da tua mãe?”. Na mesma quinta-feira (16), o presidente já tinha dito que a Folha de S. Paulo “não tem moral para perguntar” sobre o caso e mandou uma repórter do jornal calar a boca.

Além de apontar que não estava no governo para fazer negócios, Wajngarten se defendeu afirmando que a matéria é absurda. Também cometeu gaslighting com a notícia, a chamando de desequilibrada, imparcial e injusta. No fim, deixou um recardo bombástico: “se determinados grupos de comunicação ou institutos de pesquisa tinham em mim a tentativa de construção de uma ponte de diálogo, essa ponte foi explodida hoje”.

A Secom, em nota, sugeriu que a Folha não está conformada com o sucesso (???) do governo Bolsonaro. Já o chefe de Wajngarten, o general Luiz Eduardo Ramos, afirmou que a notícia é “mais uma dessas maldades que se faz contra homens públicos“. Porém, há quem diga que ele se arrependeu da declaração pouco tempo depois.

Em 2019, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, o número de ofensas e tentativas de descredibilização subiu 54%. Mais de metade desse número veio direto do Planalto.

Não é de se assustar que as respostas tenham sido deste nível. Mas é de se assustar que alguém ainda diga que estamos vivendo a mais pura normalidade democrática.

Mexendo o pauzinho

Enquanto Wajngarten queima, Carlos Bolsonaro se articula. O Zero Dois estaria trabalhando para colocar o blogueiro e espalhador de notícias fantasiosas Allan dos Santos como secretário de Comunicação. Nada melhor do que criar um gabinete do ódio às claras e com o financiamento declarado no orçamento da União.

Garantindo o juiz das garantias

Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, deu mais seis meses para o juiz de garantias ser implementado. Ele também tornou a medida mais compacta: processos relativos à Lei Maria da Penha ou homicídios (que já têm as suas próprias regras) e ações da Justiça Eleitoral não precisarão do apoio de um magistrado.

O tema ainda será avaliado pelo plenário do Supremo. Enquanto novas mudanças não são feitas, o judiciário poderá aproveitar o tempo ganho para se preparar. Já bastam os nossos estudantes deixando tudo para a última hora.

O melhor pior Enem da história

Falando em estudantes, o melhor Enem da história, para variar, foi péssimo. Assim que os resultados saíram, um grupo de estudantes começou a relatar que a nota tinha tudo para estar errada. Apesar de terem acertado muitas questões do gabarito oficial, a nota de todos estava mais baixa do que o esperado.

Abraham Weintraub, o ministro da Educação, se fez de sonso o quanto pode. Postou video engraçadinho na internet e, inicialmente, afirmou que o problema na correção estava relacionado apenas a algumas provas feitas no segundo dia do exame. No dia seguinte, o MEC mudou a postura e afirmou que falhas no primeiro dia também seriam investigadas.

Para lidar com o problema, o calendário do Sisu foi ampliado (ainda que o Ministério Público Federal tenha solicitado a suspensão da abertura do processo seletivo até que tudo tenha sido realmente corrigido). Um e-mail foi criado para quem quisesse questionar a nota. O prazo para o envio das mensagens? Menos de 24 horas.

O ministério apontou que os problemas ocorreram por falha da gráfica responsável pela impressão das provas. Ela foi selecionada após a empresa que cuidou das provas pré-Bolsonaro falir. Ao que tudo indica, ter contratado alguém com zero experiência na área e ainda cometer uma série de presepadas ao longo do último ano não gera um bom resultado no final do dia.

O ministro poderia utilizar a lição e começar a fazer um trabalho mais eficaz. Ou ele pode, finalmente, sair do cargo. Vai que, em vez de um intelectual meia boca com ideias ruins, Bolsonaro resolve colocar alguém minimamente eficiente? Superar o status quo não é muito difícil.

Novamente tudo muito louco no ninho de mafagafo chamado DPVAT

A Folha de S. Paulo apontou que a seguradora Líder, que faz a cobrança do DPVAT, tem mutretas que vão além das citadas no post da última semana. A empresa realizou doações e atendeu a pedidos de políticos que podem ou não ter agido a favor de seus interesses.

Os parlamentares do PSB e do PSL foram responsáveis por suspender a CPI do DPVAT em 2016. Também recebeu dinheiro Andrea Neves, quando presidia o Servas. Os R$ 500 mil a ela repassados não tiveram o seu destino identificado, o que pode ou não indicar que criminhos ocorreram.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Que notícia ruim o ministério do Meio Ambiente trouxe essa semana

A área com alertas de desmatamento na Amazônia Legal aumentou 85,3% em 2019 em uma comparação com os dados do ano anterior. Os indicadores são do sistema Deter-B, que foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

O Núcleo obteve uma série de documentos que mostram o trabalho porco do Ministério do Meio Ambiente durante o desastre do vazamento de óleo no Nordeste em 2019.

A matéria mostra como o Ibama acompanhou o incidente, alertou a equipe de Salles sobre os problemas encontrados e avisou que, com o contingente reduzido, pouco poderia ser feito. As 450 páginas cobrem o descaso do ministro entre 2 de setembro e 4 de outubro.

A incapacidade do governo em colocar pessoas eficientes em cargos de confiança é quase tão incrível quanto o empenho de cada uma em ser péssima no que faz.

Wishful thinking liberal

O governo resolveu começar o ano brincando de liberalismo. Ou pelo menos tentando. O secretário especial de Desestatização, Desinvestimentos e Mercados do Ministério da Economia, Salim Mattar, anunciou que pretende arrecadar R$ 150 bilhões com a venda de ativos estatais.

Mais precisamente, 300 deles. Muitos dos quais já estão com a venda encaminhada desde os tempos de Michel Miguel. Parece um detalhe pequeno, mas não é, já que o governo tem tudo para acabar após aprovar os projetos do vampirão.

Sim, ativos. Pois este blog não cairá no canto de sereia de que a venda de subsidiária da Eletrobras (ou da Petrobras) é venda de estatal. Isso tem outro nome e está longe de ser privatização: é desinvestimento.

O mesmo vale para a venda de participações minoritárias em empresas (algo que aconteceu bastante nos governos Lula e Dilma por meio do FI-FGTS, da Caixa e do BB). Isso também não é privatizar (novamente, é desinvestimento). Mas o leitor pode ter certeza que o governo venderá para o bolsonarista este gato sarnento como se ele fosse lebre.

A agenda do governo também inclui 79 leilões em 2020. Há inclusive parcerias público-privadas para áreas como iluminação pública e tratamento de resíduos sólidos. O saneamento, que é básico, ficará em um único leilão.

Ficam de fora o Banco do Brasil, a Petrobras e a Caixa. Os Correios, talvez. Mais provavelmente ano que vem, quando o governo terminar a avaliação do projeto e decidir se vale a pena ou não deixar um monte de liberal de internet molhadinho.

Teste do pato

O que é que parece com um fascista, fala como um fascista e se porta como um fascista? Provavelmente o agora ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim.

Na noite do dia 16, Alvim publicou um vídeo em que ele resolveu anunciar o edital do Prêmio Nacional de Artes. O roteiro teve Wagner, cruz dupla na mesa e discurso de Joseph Goebbels sendo parafraseado.

Pegou mal.

Pegou muito mal.

Pegou tão mal que até o chefe do Olavismo Cultural fez de conta que não gostou.

Mas teve o apoio do governo. Horas antes, Alvim esteve em uma live com Jair Bolsonaro, na qual o presidente defendeu os filtros do edital e validou o ideal de cultura fascistoide de Alvim.

Pois não basta colocar todo mundo para ver secretário imitando nazifascista: também é importante ecoar e elogiar as suas ideias.

Alvim se defendeu afirmando que não queria ofender ninguém. Também que repudia qualquer regime totalitário (o que deixou Olavo de Carvalho muito triste). Faltou só fingir que não sabia o que estava fazendo.

Mas o fato é que a performance foi construída e ensaiada para ser aquilo que todo mundo disse que ela foi. Alvim sabia o que estava fazendo, acreditava no que estava falando e não se furtou a usar de forças demoníacas para imitar Joseph Goebbels. Até deixou isso registrado em e-mail.

O que só serviu para reforçar a ideia de que sim, o governo quer fazer uma política artística semelhante àquela adotada por Hitler. O “bombardeio de arte conservadora” tem que ser acompanhado de uma diplomacia nacionalista, revisionismo educacional e todo tipo de ideia reacionária que os rejeitados que governam o país escutarem de Olavo de Caralho.

E agora, José?

Entra no lugar (temporariamente) do cosplayer de Goebbels a atriz Regina Duarte. Ela fará um “período de teste” antes de decidir se ficará mesmo no cargo ou não. A Rede Globo, aliás, já deixou a atriz de aviso prévio. Os olavistas chiaram.

Enquanto isso, o Ministério Público Federal defendeu que os atos e nomeações (que incluem gente que gosta da Opus Dei e excluem funcionários de carreira críticos ao governo) feitos por Alvim sejam anulados. Uma ideia que, pelo menos até o final deste texto, não tinha se tornado realidade.

Mas podemos ficar tranquilos, pois está tudo normal por aqui.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #54: braço forte, desgraça amiga

A polêmica do sol, a polêmica da Aliança e a polêmica do gelo. Tudo isso e muito mais no post da semana.

Se você gostou (ou não), não se esquece de compartilhar o link por aí.


The following takes place between jan-07 and jan-13


Censura pela porta da frente, liberdade pela porta dos fundos

Eis que um belo dia (quarta-feira – 08), Benedicto Abicair, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, acordou de seus inquietos sonhos por um Brasil mais autocrático e resolveu “acalmar os ânimos” daqueles que ficaram muito ofendidos com o especial de Natal do Porta dos Fundos.

Abicair achou uma boa ideia censurar a obra e proibir a sua exibição na Netflix . Não satisfeito, também estipulou uma multa de R$ 150 mil para cada dia que o filme continuasse a ser exibido. Tudo isso com apoio do Ministério Público.

O “favor” que o desembargador fez à comunidade cristã e para a “sociedade brasileira, majoritariamente cristã” (sem que ninguém além da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura tivesse pedido) logo foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal.

O ministro Dias Toffoli (o mesmo que censurou a Revista Crusoé), num lapso de espírito democrático, lembrou que uma fé milenar não é abalada com um filmezinho. É muito bonito ver o ministro do Supremo defendendo a liberdade de expressão, mas não dá para dizer que ele fez algo além da sua obrigação.

Os católicos da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura, por outro lado, poderiam gastar o seu tempo se levantando contra os padres pedófilos que ainda estão na santíssima Igreja. Eu tenho certeza que eles fazem um trabalho muito mais eficiente para abalar a fé cristã do que um filme de humor.

O ninho de mafagafo chamado DPVAT

Falando no Dias Toffoli, o ministro aproveitou a semana para reverter uma liminar que ele mesmo deu e, com isso, garantir a redução do preço do DPVAT em 2020. Após a decisão, o governo resolveu atacar os mantenedores do seguro outra vez e tentar zerar a cobrança por até cinco anos.

Não será um gol fácil de ser marcado. A Seguradora Líder já avisou que não vai devolver a grana que o governo jura que ela recebeu a mais do contribuinte.

A justificativa do governo para zerar a cobrança é a seguinte: as seguradoras cobraram a mais no passado, o que permitiria o uso desse dinheiro, no presente, para pagar as indenizações. As seguradoras, por outro lado, se defendem falando que as cobranças administrativas são válidas e que o dinheiro é delas. A briga terminará na justiça, naturalmente.

Como bagunça pouca é bobagem, a Líder também terá que explicar alguns pagamentos identificados por uma auditoria que tem cara, cheiro e jeito de atividade imoral. Segundo os auditores, a seguradora pagou valores a pessoas próximas a ministros do STF, integrantes do governo federal e políticos. Os 21 pagamentos, com descrição não detalhada do tipo de serviço foi prestado, foram executados entre 2008 e 2017 e totalizam R$ 3,67 bilhões.

Errei, não nego, me arrependo quando puder

Esteves Colnago, assessor do ministro Paulo Guedes (da Economia) foi denunciado pelo Ministério Público Federal no último dia 9 junto com outras 28 pessoas. A acusação é de gestão temerária de fundos de pensão.

Para ser mais preciso, a acusação está relacionada ao Funcef (dos funcionários da Caixa Econômica Federal), o Petros (da Petrobras), o Previ (do Banco do Brasil) e o Valia (da Vale). O prejuízo total das operações? R$ 5,5 bilhões.

Os (péssimos) investimentos ocorreram entre 2011 e 2016. Os aportes que originaram a investigação foram feitos na Sete Brasil, empresa de construção de sondas de petróleo e que teve um péssimo destino após a Lava Jato revelar esquemas de corrupção da portaria até o almoxarifado.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o assessor não só disse que está tranquilo, como também que não se arrepende de nada. Já Guedes ficou bem triste: o ministro tinha marcado para anunciar a promoção do subalterno no mesmo dia em que o MPF colocou o nome do seu subalterno nas páginas policiais.

O que o ministro da Educação fez de meia boca nessa semana

O Fundeb vence no final do ano. A ideia genial do ministro da Educação para lidar com a renovação do fundo? Iniciar a tramitação de um novo projeto do zero.

Por que isso é um problema? Já há um texto base da PEC em discussão na Câmara desde 2015. A decisão foi tomada pois o governo não gostou da minuta apresentada pela relatora do projeto que já está em tramitação.

O Fundeb reúne impostos de estados e municípios e dinheiro da União para financiar o gasto mínimo que todos os entes devem ter com alunos das redes públicas. Para não dar nenhum ruim e o próximo ano ainda contar com o fundo, o MEC tem que trabalhar com os deputados para aprovar até o final do primeiro semestre. Depois não adianta chorar.

Em outros tópicos, a troca de comando do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), feita para manter mais dinheiro na mão do ministro Weintraub, deixou o pessoal da Câmara puto. Tomara que irrite bastante mesmo: tudo o que o país gostaria de ver é uma escalada de tensões e um recap de Cid Gomes na Câmara.

Eu mencionei que o MEC, por meio do FNDE, pretende descartar 2,9 milhões de livros didáticos? Pois é. As obras, que valem R$ 20 milhões, não foram entregues para as escolas e já estão desatualizadas. Com sorte, se transformarão em papel higiênico.

Considerando que o MEC está louco para fazer um edital de novos livros que sejam voltados para “livrar escolas de doutrinação“, era melhor manter os antigos em sala de aula. Não sendo tomada essa decisão, temos que torcer para que as novas edições apenas atendam ao desejo do presidente por leituras mais simples.

Todo mundo é comunista menos eu

O ministro da Educação, junto com o presidente, resolveu sair por aí falando que os concursos brasileiros são moldados para selecionar gente de esquerda.

Weintraub afirmou que o processo de reformulação de provas começou no governo de FHC e passou por todos os governos petistas. Tudo com o objetivo de aumentar o número de pessoas esquerdistas na máquina pública.

Weintraub e, de certa medida, o presidente, são dois profissionais que conseguiram cargos por concurso público. Um para dar aulas e produzir pesquisa de baixa qualidade. O outro para caçar confusão dentro de quartel. Seriam eles esquerdistas escondidos?

Renovou a mamata

Enquanto os concursos não são reformulados para promoverem o olavismo cultural em todas as esferas públicas, as nomeações de despreparados pelo governo seguem a toda força.

Sai do Ibama a responsável por analisar o impacto de produtos químicos sobre a fauna e a flora. Entra no ICMBio uma estudante de psicologia que passou os últimos anos trabalhando com vendas no interior mineiro.

Já no Iphan, o novo presidente graduou-se em Arquitetura e urbanismo pela UNI-BH em 2011. Antes disso, trabalhava acompanhando a mãe em projetos de restauro (segundo o próprio). No jornal O Globo, há a lista completa das supostas qualificações de Flávio de Paula Moura para o cargo.

A Casa Civil também está dentro da brincadeira. O novo chefe de gabinete é um pastor da Sara Nossa Terra. Ele é da mesma igreja que o ministro da pasta, Onyx Lorenzoni.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Deixando o bonde passar

O presidente Bolsonaro resolveu não passar tanta vergonha em 2020. Na quarta-feira (08), o Planalto anunciou que Jair não estará no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Apesar de ser um encontro que reúne todo tipo de líder empresarial e econômico do cenário mundial, Bolsonaro achou que o somatório de questões de segurança, política e economia não valia a viagem neste ano.

Isso não quer dizer que o Brasil ficará de fora do encontro. Guedes e outros empresários estarão na Suíça representando os interesses da nação. Todo mundo, junto com João Dória, ficou muito feliz de não ter que aguentar Bolsonaro em outro país.

Considerando que estamos falando de um presidente que fez uma live no Facebook para acompanhar o pronunciamento de Donald Trump na última semana. Considerando que, ao fim, ele resolveu criticar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por ter feito um bom trabalho de diplomacia. Considerando, por fim, que é o Bolsonaro, a escolha foi a melhor decisão que ele tomou em 2020.

Assinando o nome no trabalho alheio

É comum que políticos tentem tomar o mérito do trabalho alheio para si. FHC virou o homem do Real em cima do projeto feito por um monte de gente que, ao contrário dele, conhecia economia. Há petista por aí que até hoje jura que o Fies é uma obra do governo Lula.

Mas eis que o governo Bolsonaro optou por renovar o espírito de cara de pau e tomar os louros do trabalho alheio em uma escala inédita. E tudo isso em cima de algo que nem traz tanto voto assim: a nova estação de pesquisa Comandante Ferraz.

A estação é um conjunto de laboratórios de pesquisa com tecnologia de ponta cujo projeto iniciou-se em 2013. A iniciativa se deu após um incêndio que destruiu a base antiga em 2012. A construção, aliás, ainda precisa de alguns retoques para ter funcionamento completo.

Mesmo assim o ministro Marcos Pontes resolveu que seria uma boa ideia tratar como mérito do governo Bolsonaro o trabalho de todo mundo que esteve no governo nos últimos anos. O astronauta foi ao Twitter tentar vincular a abertura da base ao governo atual para ser prontamente corrigido por todo tipo de jornalista. Bem feito.

Uma esmola pelo amor de Deus

Falando em tomar o trabalho dos outros para si, Bolsonaro quer um programa social para chamar de seu. Ou melhor, um programa social para reformar, mudar o nome e aí sim falar é do seu governo. Tudo isso para ganhar algum apoio no nordeste que não seja de gente endinheirada.

As principais vítimas são o Minha Casa, Minha Vida, o Pronatec e o Bolsa Família. O primeiro apresenta atraso nos repasses e altíssima taxa de inadimplência entre os pagadores. O segundo tem resultados duvidosos. Já o terceiro foi enxugado no primeiro ano do governo.

Ao que tudo indica, pautas que sejam realmente focadas nos pobres ficarão para depois no governo Bolsonaro. No primeiro ano, o presidente gastou todo o seu tempo livre descobrindo o que era golden shower. No atual, pelo visto, estará se preparando para ser filiado a outro partido.

No terceiro e no quarto, só Deus sabe o que será da massa de miseráveis que depende do apoio governamental para conquistar a sua cidadania. Se a solução vier por meio das agendas de reforma tributária e administrativa, inclusive, é melhor sentar e esperar: assim como a cara resolução da fila do INSS, isso ficará para outro dia.

Segundo a Veja, o grande ministro da economia (e vendedor de terreno na Lua nas horas vagas) segue não avançando as discussões sobre essas pautas no prédio do seu ministério. Depois não adianta reclamar que o Maia está com protagonismo.

O espirito das luzes

O governo resolveu não taxar o sol. Ok, brincadeira. O governo resolveu não acabar com um subsídio regressivo para quem investia em energia solar e gerava mais eletricidade do que precisava para manter o seu negócio funcionando (ou a sua casa ligada).

Este é o caso de muito brasileiro de classe média. Mas é, também, de uma grande quantidade de empresas que se unem para aproveitar a possibilidade de lucrar mais. Então vamos corrigir o anúncio do começo deste tópico:

O governo resolveu manter uma política que já não se justificava em um caráter político e econômico e que, no final das contas, serve para transferir dinheiro de pobre para rico.

A brincadeira custará R$ 34 bilhões para todos os que não utilizam a energia solar. O populismo do governo recebeu parecer negativo de técnicos da equipe econômica (em vão). A justificativa do presidente para governar no feeling e não conforme os subordinados do Posto Ipiranga gostariam é que não intervir a favor do setor é fazer intervencionismo.

Aliança pelo trambique

A criação da Aliança do Brasil segue muito confusa e cheia de trambique. Após as confusões anunciadas na última semana, o Colégio Notarial do Brasil (CNB) resolveu apoiar a coleta de assinaturas para fundar o partido. A entidade representa 90% dos notários (a turma que cuida e trabalha com cartório) do país.

Além da taxa para reconhecimento de firma, os cartórios estão ganhando algo que vale muito mais do que barras de ouro (e dinheiro), que é o carinho do presidente. Só faltou combinar com o TSE, que nunca se manifestou a respeito do uso de estrutura privada para a criação de partido.

A advogada de Bolsonaro e representante jurídica do Aliança, Karina Kufa, resolveu brincar de Montesquieu. Questionada sobre a legalidade da ideia, avisou que “o que não está na lei não é proibido, não é?”. Tá errada? Não está.

Há procuradores do Ministério Público Federal que viram na ação a possibilidade de um processo por abuso econômico. Já o estatuto do Colégio Notarial afirma que a organização não pode fazer o que está sendo feito. Mais precisamente, que ‘é vedado ao CNB participar, apoiar ou difundir, ativa ou passivamente, quaisquer manifestações de caráter político”.

Pelo sim, pelo não, o CNB resolveu tirar do seu site todos os documentos que apoiavam a criação da Aliança do Brasil. Quem teme, talvez deve.

Desvio eleitoral padrão

O jornal O Globo descobriu que, segundo o TSE, o PSL perdeu 1.256 filiados após o presidente Jair Bolsonaro sair do país. O número é pequeno em comparação ao total de filiados (348 mil), mas representa um aumento de 4 vezes em comparação aos três meses anteriores ao levantamento.

O PSL, por outro lado, diz outra coisa. O partido afirmou que, na ausência do presidente, o número de registros foi reduzido em 750. O que não seria nada diante do suposto aumento de 15 mil filiados.

Tudo o que o Brasil precisa, agora, é ter que conferir mentira sobre quem tem o partido com o maior número de filiados.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #53: fascismo à moda da casa

Ministro torturando número, fascistas indo à luta, o governo mentindo e os fantasmas do presidente dando um olá no noticiário. Tudo isso em uma única semana.

Não se esquece de compartilhar com a família.


The following takes place between dec-31 and jan-06


O ovo da serpente está pronto para ser chocado

Ao que tudo indica, o ataque ao Porta dos Fundos não deve dar em pizza. A polícia do Rio realizou, na última terça-feira (31), uma operação para prender Eduardo Fauzi Richard Cerquise. Ele é um dos cinco suspeitos de ter jogado bombas na sede da produtora do grupo.

Oficialmente foragido, Cerquise publicou um video no YouTube chamando os humoristas do Porta dos Fundos de “bandidos” e pedindo orações. A polícia encontrou na sua casa R$ 119 mil em dinheiro vivo, uma arma falsa e munições. De classe média alta, o integralista já foi condenado por lesão corporal e tem outras 15 anotações por ameaça e agressão na sua ficha – um claro sinal de que ele jamais seria capaz de atacar alguém por ir contra os seus valores.

Aliás, falando sobre os valores de Cerquise, o foragido foi filiado ao PSL entre 2001 e a última segunda-feira (portanto nada de ligações – ainda – com o atual morador do Palácio do Planalto). Ele também presidia a Frente Integralista Brasileira do Rio de Janeiro (o grupo afirmou em nota que ele foi expulso). Além disso, é apontado como parte de um grupo de milícia que atua em estacionamentos rotativos no centro da capital carioca.

Não demorou muito para saber onde Eduardo foi parar. O integralista embarcou para a Rússia na véspera da operação policial que pretendia prendê-lo e ainda deu uma entrevista assumindo para a internet que atacou a empresa de humor. O seu nome já está na lista de procurados da Interpol.

E atenção! Se liga aí, que é hora da revisão!

Já que o brasileiro não anda prestando muita atenção às aulas de história, vamos fazer aqui um recap. O integralismo é um movimento fascista de extrema direita que chupinhou umas ideias do fascismo italiano lá na década de 1930.

O movimento é formado por uma trupe de pessoas moralmente conservadoras, religiosamente cristãs e ultranacionalistas. O integralismo, porém, não adotou o componente racista do nazifascismo, afinal, a turma sabe que mora no Brasil.

Essa galera bacana sempre manteve-se próxima do poder e, em certa medida, próxima dos que hoje comandam o país graças a um trabalho que começou lá em 2005, quando o movimento ressurgiu como uma associação sem fins lucrativos. Rodando hora pelos submundos da internet, hora nos espaços de poder, eles conseguiram se organizar com mais capilaridade do que muito grupo político por aí.

Hoje, repassam as suas mensagens com cuidado e dedicação sem que muita gente note. Formam um exército de apoiadores que já tem cara, trejeito de monarquista e uma profunda repulsa pelos valores liberais que dizem moldar o nosso Brasil. São, junto com tantos os outros exemplos, mais uma prova de que a nossa democracia não anda muito bem das pernas.

BDSM autoritário

Praticamente metade dos brasileiros com baixo nível educacional ou baixa renda não se importaria com a volta de uma ditadura. Os dados foram revelados pela última pesquisa do Datafolha sobre o tema. Outros indicadores, como o dos número de pessoas que acham a democracia a melhor forma de governo sempre, apresentaram queda.

Felizmente, porém, a parcela dos que avaliam que o legado da ditadura civil-militar é positivo continua caindo. Já o número de pessoas que sabem o que foi o AI-5 segue absurdamente pequeno. Faltou perguntar a aderência dos entrevistados ao movimento fascista da semana. Saber pra qual tipo de autoritarismo político os ventos sopram a cada semana é sempre bom.

Torturando números e urinando em cima do trabalho alheio

Serio Moro está 100% um político tradicional. Agora, além de fazer o seu trabalho pela metade, quer tomar o mérito das políticas públicas de outros governos para si. Pelo menos é o que ele tentou fazer no Twitter no último dia 04.

Ironizando as pessoas que realmente pesquisam as políticas de segurança pública nacional, o ministro disse que os crimes só cresceram nos governos anteriores (não é verdade, também houve queda em 2018) e que a administração atual tem pouca influência nos bons resultados do último ano (o que é verdade). O ministro também confundiu o nome do ex-ministro Raul Jungmann e chamou o político de Mago Merlin.

Felizmente, o internauta que diz se chamar Matheus Leone (seria esse mesmo o nome dele?) estava lá para lembrar quem fez o SUSP, um dos principais mecanismos do governo Temer que ajudaram na redução da mortalidade nacional. Também foi o Leone o responsável por elencar as respostas com outras medidas que, ao contrário da liberalização da posse de armas, tiveram real impacto nos índices de violência (Jungmann não é muito bom com isso de rede social).

Os números, infelizmente, não caíram para quem está na mira das armas dos PMs. Ou para os policiais que estão na mira de bandidos. Não é errado dizer, portanto, que a política pública da Nova Era é focada em cancelar CPF e número de registro dos policiais que conseguem sobreviver à violência do seu cotidiano.

Governismo dos anos 2020

O governismo já digievoluiou. Após a queda de popularidade do governo e a manutenção do apoio a Moro, a revolução reaça resolveu tomar um novo rumo. Filipe G. Martins e os demais comissários do olavismo cultural querem salvar o governo e o seu projeto de poder com muito pragmatismo.

Ou melhor, Filipe G. Martins e os olavetes do governo querem salvar o seu projeto de poder com muito pragmatismo. Afinal, tudo fica mais fácil de entender se a gente considerar Olavo de Carvalho como aquilo que ele realmente é: um fascista que tem medo de ver o seu projeto dar errado.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Mais pra cá do que pra lá

A balança comercial brasileira fechou 2019 com superavit de US $ 46,7 bilhões. O valor é o resultado mais baixo desde 2015. Além disso, representa um recuo de quase 20% a 2018.

Leitores mais assíduos de Adam Smith não exitariam dois segundos para levantar os dedos e lembrar que isso não é, necessariamente, algo ruim. Mas, conforme o próprio Ministério da Economia apontou, é um problema sim: o resultado se deve, especialmente, pela (eterna) crise argentina, um país que compra muita coisa da gente.

Quem valoriza o superávit da balança comercial nacional e/ou quer vender para todo mundo, portanto, deve temer. Não pelas perspectivas que tem em relação aos próximos passos que o governo argentino pode tomar na condução da economia, mas medidas que o nosso governo fará nos próximos anos. Não é de hoje que as pessoas razoáveis da diplomacia nacional avisaram que tratar mal a Argentina pode dar merda.

E agora para algo completamente relacionado ao tema do interlúdio anterior

Falando em diplomacia, o Itamaraty não quer deixar de vender só para os amigos da América Latina. A depender das declarações do nosso ministro das Alucinações Exteriores, vamos acabar deixando de exportar até para o Oriente Médio – outro lugar cheio de parceiro comercial de longa data.

Após a morte do general Qassem Soleimani e o alinhamento do Brasil com o atual presidente americano (e criminoso de guerra em potencial) Donald Trump, Teerã pediu esclarecimentos para a nossa embaixada.

Não foi sem motivo. Além de se alinhar com Trump outra vez sem a menor necessidade, o Brasil rompeu com a tradição nacional de só tratar como terroristas os grupos formalmente assim registrados pelo Conselho de Segurança da ONU. Seguindo nesse ritmo, terminaremos 2024 como uma economia que quer ser muito aberta, mas não consegue ser amiga de ninguém que pode comprar algo dela.

Mentindo na cara de otário e achando que todo mundo é otário

O presidente avisou que sancionará o fundo eleitoral de R$ 2 bilhões para 2020. O valor é o proposto pelo governo quando o Planalto enviou o orçamento para aprovação. A desculpa de Jair, para os seus eleitores, é de que vetar a cifra poderia levar ele a sofrer um processo de impeachment.

Pura bobajada.

Bolsonaro é incapaz de dizer, com base na lei, como ele seria enquadrado na lei de impeachment se vetasse algo que ele mesmo pediu o poder Legislativo para aprovar. Ok, isso aqui é o Brasil e o governo pode cair por qualquer motivo a depender das vontades dos congressistas. Mas, como bem afirmou o primeiro ministro, o veto ou a sanção às propostas do Planalto são um direito do presidente, não algo que pode dar ruim a médio e longo prazo.

O gado, certamente, acreditará na desculpa do governo. Felizmente, fora das bolhas, é possível espalhar a verdade e lembrar que a história é mais complicada. O governo orientou voto SIM ao aumento do fundão eleitoral, o que é a última escolha que alguém com o discurso de Jair, em tese, faria.

Não fui eu, foi meu Eu lírico

O presidente tirou o sábado para falar coisas que só ele falaria. Em uma live no seu Facebook, disse que, se tivesse a capacidade de acabar com as investigações contra o seu filho, teria finalizado os trabalhos. Paranoico como sempre, também acusou o governo do Rio de Janeiro de incentivar a investigação para promover uma possível candidatura do governador para o Planalto.

Em notas não relacionadas, a ex-mulher do presidente, Ana Cristina Siqueira Valle, foi convocada para depor pelo MP-RJ. Ela também é investigada por envolvimento em um suposto esquema de rachadinhas e emprego de funcionários fantasmas. Dessa vez, no gabinete do outro filho, Carlos Bolsonaro.

Ana Cristina é a mesma ex que ganhou uma capa da Veja após a revista ter obtido cópia de um processo no qual ela acusa Bolsonaro de ocultação de patrimônio, renda incompatível com a profissão do então deputado, agressividade e até um roubo. Não obstante, é aquela mulher que Jair já afirmou que não gostaria de ver por aí relevando os seus problemas do passado, mesmo que fossem verdadeiros.

O presidente, pelo visto, tem motivos para dormir com uma arma ao seu lado. A quantidade de fantasmas que tentam assombrá-lo a noite é gigante.


Eu escrevi e revisei (com preguiça) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #52: Deus está conosco, mas nos abandonou aqui

Vem que a semana foi curta de notícias. Teve atentado, números econômicos questionados e Moro sendo colocado no seu lugar.

Não se esquece de compartilhar depois de ler.


The following takes place between dec-24 and dec-30


Fogo no parquinho

Na madrugada de terça-feira (24), a sede da produtora do Porta dos Fundos foi alvo de um atentado terrorista. As câmeras pegaram três indivíduos lançando dois coquetéis molotov no imóvel.

Em vídeo, uns abobados se vincularam a um grupo integralista e assumiram a autoria do ataque. A polícia civil, porém, trata o caso como tentativa de homicídio e explosão. O motivo? O grupo citado no vídeo negou fazer parte da história.

No último ano, o blog (e outros veículos de mídia de maior destaque) foi responsável por montar uma triste coleção de ataques às liberdades no país. Aqueles que se dizem a favor deste valor, mas insistem que toda opinião tem a mesma validade, deveriam começar a rever os seus conceitos. Quando tratamos o incentivo de governantes ao obscurantismo e a barbárie como algo comum e válido, as chances de perdemos a nossa autonomia são altas.

A democracia é construída diariamente. Que em 2020 ninguém se esqueça disso.

Negging com a indústria nacional

Em 2020, Bolsonaro valorizará a indústria nacional. Na última semana, o presidente renovou a Cota de Tela, que reserva um número mínimo de salas de cinema para filmes nacionais. Mas não sem perder a oportunidade de fazer escárnio com os estudantes das belas artes.

Após o “up” para os produtores de Bacurau e outras grandes obras que só são bem apreciadas após 11 exibições, Jair foi às suas redes para desvalorizar a indústria nacional: disse que a cota será revista se o brasileirinho fizer bons filmes e que interessem a “população como um todo e não as minorias”.

2019 foi o ano que duas produções brasileiras ganharam prêmios inéditos no Festival de Cannes. A última semana também foi a que a esposa do presidente foi ao cinema ver Minha mãe é uma peça 3, filme que está faturando mais do que o último Star Wars.

Tratando apenas do que não é relevante

A nomeação de reitores, ao menos nos próximos meses, mudará. A MP 914, publicada na entradinha do Natal, criou uma nova regra de nomeação para os gestores de universidades públicas, institutos federais e o Colégio Pedro II. Agora:

  • o presidente poderá nomear qualquer uma das três pessoas que estiverem na lista tríplice indicada pela universidade (a tradição, até então, é de se nomear sempre o primeiro colocado);
  • a consulta para o nome do reitor será feita, preferencialmente, por meios eletrônicos;
  • o voto deixará de ser paritário nos locais em que assim se faz;
  • o reitor, que só poderá ser um professor que ocupa cargo efetivo na instituição, poderá escolher o vice-reitor e os diretores-gerais de cada campi.

O que não se está definido, porém, são os critérios para assegurar a integridade e confidencialidade dos processos de votação eletrônica — isso ficou para depois. Também não se decidiu se a MP terá apoio dos parlamentares para virar realidade (mas já encontra resistências no meio acadêmico). MPs tem prazo para serem votadas, o que pode muito bem reduzir o estrago causado por essa.

O que o governo não definiu, porém, é o projeto de lei para instituir o Future-se. Os parlamentares do Congresso estão até hoje sem saber exatamente como o Ministério da Educação pretende formalizar a iniciativa. Talvez o ministro esteja ocupado demais fazendo as próprias malas para pensar nisso.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Atenção concurseiro

Há algumas décadas uma nova Constituição foi escrita. Num buraco muito empoeirado dela, há uma parte que diz que funcionários públicos até tem estabilidade, mas isso depende: em caso de processo administrativo (regulamentação pendente), todo concurseiro pode ser convidado a se retirar.

Agora, no finalzinho de 2019, o governo lembrou-se desse detalhe e resolveu ir atrás dos meios necessários para demitir funcionário com baixo desempenho. A ideia é colocar, no pacote da reforma administrativa, a regulamentação necessária para avaliar e punir quem não trabalhar direito. Tudo isso tomando os cuidados para evitar acusações de perseguição política.

Há dois caminhos possíveis para isso ser feito. Um é apenas regulamentar o artigo da Constituição sobre demissão após processo administrativo (muito difícil de acontecer, mas possível). Outro é alterar a Carta e, assim, restringir as mudanças apenas para os novos servidores (quase impossível de acontecer).

2020 é ano de eleição municipal e muito candidato dependerá de apoio dos deputados para serem eleitos. 2020 será um ano animado.

Fica aí no seu lugar

O pacote anticrime finalmente entrou em vigor. Após todo o legítimo processo democrático de mudanças, o projeto apresentado pelo ministro da Justiça foi sancionado com 22 vetos. Saíram do texto original pontos como o excludente de licitude e ficaram itens novos, como o juiz de garantias.

Moro, acostumado a mandar e desmandar, resolveu agradecer a votação a favor com uma reclamação. Disse que não era o resultado dos sonhos e que o juiz de garantias não deveria estar lá. Deveria ter conversado mais com o seu chefe.

O que o ministro não mencionou na sua reclamação (que foi apenas uma no ciclo de butthurt dos lavajatistas de internet e entidades que também reclamaram da nova lei contra abuso de autoridade) é que a ação de Bolsonaro pode ajudar o próprio filho. Quem poderia imaginar que o presidente utilizaria o poder público, mais uma vez, para beneficiar a própria família e cercear o poder de ação do magistrado “linha dura” que cuida do caso do filho, não é mesmo!!!!!

Marco Aurélio Mello, porém, avisa que, se foi este o motivo de o presidente apoiar a mudança, ele pode dar com os burros n’água. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) lembrou que à Folha de S. Paulo que “a lei é editada para viger para o futuro e não retroativamente‘. Aliás, a maioria do Supremo (mas não todo mundo) é a favor da medida.

O fato é que não se sabe ao certo, até o momento, como o tal “juiz de instrução e também das garantias” será implementado. A mudança foi feita aos 45 do segundo tempo e já há gente por aí se movimentando contra ela no Senado. Não será um susto, portanto, se os senadores alegarem que a nova norma não está alinhada com a Lei de Responsabilidade Fiscal.


Eu escrevi e revisei (de jejum) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #51: o silêncio dos inocentes

Mais briga no PSL, Flavio B. recebendo visitas da Ju e ministro do Supremo pego fazendo algo muito parecido como lobby. Vem comigo que eu tenho todas as notícias para transformar a sua ceia num episódio de Toma Lá, Dá Cá.


The following takes place between dec-17 and dec-23


Aliança pelo trambique

A criação do novo partido de Jair Bolsonaro segue cheia dos trambiques (o que, até então, não é nenhuma surpresa). A cúpula da legenda (que no momento só existe na imaginação do presidente) optou por recolher, até abril, 500 mil assinaturas em todo o país. A decisão veio após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) avisar que a ideia de fazer isso com certificados digitais talvez não dará certo.

Agora, caro leitor, se liga nesta história: não faz muito tempo que a Soluti saiu por aí distribuindo mais de 1 milhão de certificados digitais. Coisa que geraria um gasto de R$ 50 milhões caso eles fossem comprados individualmente.

O presidente da Soluti, Vinicius Vieira de Souza, é, também, fundador da ATID (Associação Brasileira de Tecnologia e Identificação Digital). A instituição faz parte do comitê gestor da ICP-Brasil, entidade que regula o setor de emissão, renovação e registro de certificados digitais.

Em uma reunião no começo de dezembro, uma proposta feita pelo Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), tornou mais fácil a renovação de certificados digitais. O ITI é um órgão vinculado à Casa Civil da presidência da República. Entre os representantes da sociedade Civil há Luiz Carlos Zancanella. Conforme apurado por @jotacorreria, o seu suplente é o proprietário da Soluti.

Certamente tudo isso é uma simples coincidência e não sinal de uso da máquina pública para favorecer a ideia de Jair Bolsonaro ter um partido para chamar de seu em 2020.

Dicas para quem pretende disputar a eleição ano que vem

Largue a laicidade. Estudo feito por Francisco Costa, Angelo Marcantonio e Rudi Rocha conseguiu apontar por A mais B que o número de evangélicos cresce após crises econômicas. Pelo menos no Brasil, este país de grande estabilidade financeira.

Se a esquerda — especialmente ela — quer ganhar algum voto na periferia (e deixar de ter o mesmo perfil de eleitor que o Freixo tem no Rio de Janeiro) talvez seja uma boa ideia ser mais pragmática. Ou melhorar as suas estratégias de ação política. Pois, nos anos 2020, o Brasil será conquistado na base de muita teoria da prosperidade e pastor pedindo desconto de suas dívidas.

O militante de esquerda pode bater o pé e fingir miopia política até cansar. Mas quem está no topo das paradas dentro de favelas e bairros com pouco saneamento básico do país são os emissários do neopentecostalismo. O pobre quer luxo, fama e poder. Se possível, sem corrupção, mamadeira de piroca e ajuda do governo.

Importante, então, é parar de esperar por uma revolução cultural e começar a ser mais pragmático. Presumir que os pobres deveriam votar por redistribuição de renda é ignorar “os possíveis efeitos da religião sobre as preferências individuais.” É, também, tratar de modo paternalista quem só deseja uma vida minimamente confortável e sem tanta violência.

Meu lobbynho, minha vida

O MBL não é o único nome que tem aparecido no jornal sendo apontado como praticante de lobby. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre Moraes, foi grampeado em uma conversa que tem toda cara de atuação informal a favor de um coleguinha. Mais precisamente, um desembargador investigado.

A gravação é de 2015, quando Moraes ainda era secretário de Segurança em São Paulo. O agora ministro teria atuado como advogado do desembargador Alexandre Victor de Carvalho, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG). O que não seria um grande problema se chefes de órgãos públicos não fossem proibidos de exercer advocacia.

Carvalho, na época, respondia a um processo por ter empregado (supostamente) uma funcionária (supostamente) fantasma em seu gabinete. Tudo parte de uma investigação sobre um (supostamente) muito elaborado esquema de nepotismo cruzado.

Apesar de ter passado livre pelo TJ-MG, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) seguiu com o processo. Moraes, sabendo que não poderia atuar legalmente de novo para o colega, deu (segundo a Folha de S. Paulo) dicas informais para que ele conseguisse escapar de uma condenação na justiça.

Deu certo. A Segunda Turma julgou o caso e arquivou a reclamação contra Carvalho.

Essa não é a única estripulia que Carvalho (supostamente) cometeu e foi parar no jornal. Em grampo obtido pela Folha de S. Paulo, o desembargador teria atuado para impedir que o deputado Luís Tibé fosse cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG).

Tibé era, em 2015, acusado de usar a máquina pública para fazer propaganda eleitoral irregular. Vendo então que as chances não estavam boas para o seu lado, o político teria pedido o então vice-presidente da Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) para ajudar em seu processo de cassação. Algo super normal em qualquer país sério.

Você tem o direito de ficar caladinho

O CNJ mandou avisar que juízes não podem fazer aquilo que já não podiam fazer. Resolução aprovada pelo órgão impede que juízes comentem decisões de colegas e declarem apoio político nas redes sociais.

Entidades da área criticaram que o conselho está cerceando a liberdade dos juízes de fazerem aquilo que já não podiam fazer. Prometeram, inclusive, ir ao STF alegando que a norma, que afirma o que já está na lei, não está em concordância com a lei.

Vai entender.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Bota dinheiro na democracia sim

O fundo eleitoral segue em 2020. Agora, todos os candidatos a prefeito e vereador das próximas eleições terão acesso a R$ 2 bilhões para mover as suas campanhas. Se desejarem, claro.

O presidente, este portador de um grande espírito democrático, não gostou da aprovação do fundo. Seguindo (a risca) o manual do populista, perguntou a um grupelho de apoiadores se ele deveria sancionar a medida. Naturalmente, o gado respondeu que não deveria.

Ainda fazendo uso dos seus valores democráticos, Bolsonaro citou os valores que serão entregues ao PT e ao PSL no próximo pleito. Concluiu afirmando que “se quer fazer material de campanha caro, não vou ajudar esse cara, pronto“.

Na quinta-feira (19), o presidente retomou o assunto e afirmou que “em havendo brecha para vetar, eu vou fazer isso. Não vejo, com todo respeito, como justo recursos para fazer campanha“. Falou que a verba não ajuda jovem candidato e disse que isso não deve ser visto pelo Parlamento como um ataque.

Porém, quando se lembrou que o Planalto foi responsável pela proposta do fundo, desconversou. Afirmou que só fez a sua obrigação legal mas que agora poderá vetar o valor (que por muito pouco não seria maior). Falta falar, porém, como as eleições serão feitas sem desvios públicos, já que santinho e disparo de mensagem com conteúdo falso pelo Whatsapp seguem bem caros.

Bota dinheiro nas mãos do governo sim

Não foi só o orçamento das próximas eleições que virou objeto de discussão no Congresso na última semana. Os parlamentares também aprovaram o restante dos gastos que o governo poderá realizar em 2020.

Haverá aumento de despesas e investimentos em áreas como saúde, infraestrutura e desenvolvimento regional — se sobrar dinheiro para isso. R$ 6 bilhões foram liberados graças a aprovação da PEC Emergencial, que limita os gastos do governo de acordo com o tamanho da dívida pública. Ganhará mais dinheiro o ministério de Minas e Energia, enquanto o da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ficará com a menor parte.

Keeping up with #VazaJato I: engavetando essa mensagem hackeada

Lembra daquele monte de ação contra o procurador Deltan Dallagnol? Uma delas foi arquivada pelo corregedor do Conselho Nacional Ministério Público. As mensagens, que serviam para a acusação, foram consideradas ilegais e, portanto, inválidas para o processo.

A acusação se referia às mensagens em que Dallagnol conversava com Moro sobre a possibilidade de utilizar dinheiro público para promover propagandas pelas “10 medidas contra a corrupção”. O processo, se executado, seria totalmente ilegal.

Keeping up with #VazaJato II: indiciar não é culpabilizar (mas se quiser, pode)

A Polícia Federal finalmente concluiu as suas investigações sobre o caso dos Ararahackers e indiciará seis pessoas. Os crimes, segundo a PF, são:

  • integrar organização criminosa;
  • invadir dispositivo informático alheio;
  • interceptar comunicação telemática ilegal.

Não foram acusados de crimes os jornalistas do Intercept (afinal de contas, fazer o que jornalista faz não é crime neste país — ainda) e a ex-deputada Manuela d’Ávila (PC do B). O relatório não fala em mandantes ou cita qualquer tipo de motivação para as mensagens serem roubadas. Mas a PF já disse que pretende investigar esses pontos mais a fundo no futuro.

O que há de mais legal no relatório final, por outro lado, foi apontado pelo perfil @jairmearrependi. No meio de várias páginas, há uma conversa sobre o falecido perfil Pavão Misterioso ligando-o ao site de notícias relativamente verdadeiras Terça Livre. A troca de informações ocorreu entre o hacker e o humorista Gregório Duvivier. Coisa fina.

Timing é tudo

O Ministério Público resolveu ir atrás de toda e qualquer documentação que apontasse problemas na gestão financeira do gabinete do senador Flávio B. (quando ele ainda tinha compromissos com a Assembleia do Rio de Janeiro). Entre os alvos, estavam não só o atual senador, mas também Fabrício Queiroz, seu ex-assessor.

As investigações apontam a possibilidade de Queiroz ter comandado um esquema de rachadinha dentro do gabinete do então deputado Flávio. Apenas o policial militar aposentado teria recebido R$ 2 milhões em depósitos de outros 13 assessores do gabinete. Sobrou até para a ex-mulher do presidente e um ex-PM que até então a gente não sabia da existência, mas tem muito dinheiro em sua conta.

Os advogados do não filho do presidente chamaram a busca na loja de chocolates do senador de “invasão”. Já os advogados de Queiroz, que era ex-assessor de várias pessoas, informaram que o seu cliente tratou a operação com “tranquilidade’. Também disseram que, o homem que fugiu do Ministério Público a todo custo, estava surpreso, afinal, a operação era “absolutamente desnecessária”.

O blog quer acreditar, diante da declaração dos advogados de Queiroz, que o seu cliente passou o último ano organizando caixas de provas de seus prováveis criminhos para a PF. Afinal de contas, se o MP não quis pegar ninguém com as calças arriadas, o mínimo que poderia ser feito é uma ajudinha para os trabalhadores da instituição.

Contabilidade de alta qualidade

Segundo o Ministério Público, o senador Flávio afirmou que retirou, nos três primeiros anos de funcionamento da sua loja de chocolates, R$ 793,4 mil. O que não seria um problema se o fisco tivesse uma informação diferente: para o órgão, F.B. teria recebido apenas 435,6 mil no mesmo período. A contabilidade ruim também afetou o seu sócio, Alexandre Santini.

O advogado do senador, Frederick Wassef, praticamente chamou o judiciário de comunista e disse que estavam criminalizando o aumento de capital. Também afirmou que não há nada de errado em seu cliente ser amigo de gente que é acusada de ser participante de milícia. Ou empregar a sua ex-mulher, que (supostamente) fez repasse de R$ 203 mil a Queiroz.

Diga-me com quem andas…

O Ministério Público também colocou gente do Bope na lista de (supostos) envolvidos no (suposto) esquema das rachadinhas de Flavio B. e Fabrício Queiroz. O ex-capitão Adriano da Nóbrega, conhecido e foragido miliciano, teria emprestado as suas contas para o esquema. A conclusão ocorreu após a quebra do sigilo bancário de Nobrega, Flavio e Queiroz.

As suspeitas sobre o filho do presidente são tão grandes quanto as ligações de sua família com milicianos (e wannabe de miliciano). Será muito interessante ver, nos próximos três anos, o governo lidando com esse problema. Pois tenha certeza: isso ainda manchará as brancas paredes do planalto.

…e direi quem atacas

A defesa do senador F.B. foi ao Supremo para suspender a investigação contra os seus (supostos) crimes. Já o senador partiu para o ataque direto ao juiz Flávio Nicolau, que foi o responsável por autorizar a operação do MP.

O político disse que a filha do magistrado é uma funcionária fantasma do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Não dá para dizer que de funcionário fantasma a sua família não entende.

O paranoico presidente, por outro lado, acha que o culpado por tudo isso aí é o seu ministro da Justiça, Sergio Moro. A suspeita é tão grande que Bolsonaro quer tirar a Polícia Federal dos braços do ex-juiz e mandá-la para o seu amigo Alberto Fraga, ex-deputado da bancada da bala, que assumiria o futuro “ministério da Segurança”.

Ou quem não te ataca

Causou grande burburinho na internet e discussões sobre empatia (há de se ter empatia) as agressões sofridas pela youtuber di-direita Karol Eller. A jovem estava passeando com a sua namorada em um quiosque na orla da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quando foi agredida e teve o rosto desfigurado. O caso logo foi tratado como homofobia pela delegada responsável pelo caso.

Mas, para a surpresa de todo mundo que fez discursos inflamados a favor da empatia, a delegada voltou atrás e afirmou que as agressões não foram motivadas por homofobia. Imagens do local e testemunhas apontaram que a briga entre os dois se deu por outros motivos. Karol dobrou a aposta e insistiu que o motivo foi homofobia — apesar das imagens divulgadas pela imprensa.

O desfecho desta história tragicômica ficará, infelizmente, para a semana que vem.

Brasil acima de tudo, meu filho debaixo do caminhão

Vendo o seu filho Flavinho no jornal, o presidente Jair Bolsonaro resolveu comentar o assunto. Na manhã de quinta-feira (19) disse o presidente que “O Brasil é muito maior do que pequenos problemas. Eu falo por mim, os problemas meus podem perguntar que eu respondo. Os outros, não tenho nada a ver com isso.

Quando perguntaram sobre os seus problemas, na sexta-feira (20) o presidente mudou de tom. Insinuou que um jornalista era homossexual. Ao ser questionado se teria como comprovar o empréstimo feito a Queiroz, respondeu a um repórter que ele deveria perguntar para a sua mãe o comprovante que ela deu para o seu pai, “tá certo?”.

Tudo isso para uma plateia de apoiadores que adoraram ver o espetáculo de decoro e postura do chefe de governo brasileiro. Por último, e não menos importante, disse que “ninguém lava dinheiro em franquia”.

Lava em qual lugar então, presidente? Apartamento em Copacabana?

No dia seguinte, em um café com jornalistas, Bolsonaro disse que “se eu não tiver a cabeça no lugar, eu alopro”. Este tipo de temperamento realmente me parece uma boa qualificação para quem quer ser presidente.

Jair também reclamou dos vazamentos do Ministério Público. Clamou a necessidade de controle do MP, chamou o órgão de um dos Poderes da República (não é o caso) e reclamou de vazamentos. Interessante ver que J.B. mudou a sua visão de mundo sobre alguns temas.

Inimigas e rivais

Gustavo Bebianno está nervoso. Não sem motivos: o presidente sugeriu, em entrevista à revista Veja desta semana, que ele participou do atentado praticado por Adélio Bispo em 2018. A resposta, segundo o ex-ministro da Secretaria-geral da Presidência, será por vias judiciais e criminais.

Para Bebianno, “Jair está nitidamente desequilibrado. Precisa urgentemente de tratamento psiquiátrico.” Faz sentido: em poucos dias o presidente afirmou que existia a possibilidade de ter um câncer de pele, disse que a imprensa mentiu sobre o assunto e que a biópsia feita para avaliar se ele teria mesmo a doença deu resultado negativo. Complicado.


Eu escrevi e revisei (distraído) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #50: os soldadinhos de chumbo do presidente

Pacote anti-crime aprovado sem as loucuras do Moro, ministros não sabendo da liturgia do próprio cargo e o país passando vergonha lá fora (outra vez). Não se esquece de mandar o link para o seu tio bolsominion. 


The following takes place between dec. 10 and dec. 17 


Desidratação do bem 

Na terça-feira (10), o pacote anti-crime foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Votado no dia seguinte em plenário, o texto foi para sansão presidencial. 

Boa parte das maluquices do ex-juiz Sergio Moro foram tiradas do texto por deputados e senadores com alguma ideia decente na cabeça. Saíram itens como a licença para matar (ou excludente de licitude, para os mais íntimos) e o acordo de “plea bargain”. As mudanças foram possíveis graças a articulações de parlamentares como Marcelo Freixo, que se destaca entre às esquerdas como uma das poucas pessoas daquele lado que é vista lutando pela segurança pública. 

E que também não perde tempo posando bonito para a foto em tempos de grande autoritarismo. 

Em uma entrevista dada para a Folha de S. Paulo, o ministro jurou que, se tivesse sido aprovada, a licença para matar não seria aplicável a casos como o da menina Ágatha. Afinal, o Brasil é um país em que nenhum PM mente sobre as suas ações quando dá ruim para tentar sair impune. Ou que mata até mesmo a memória de catador de lixo que tenta salvar gente inocente

Moro espera que o presidente vete os pontos que ele não gosta, como o do juiz de garantias (basicamente alguém que poderá impedir mais pessoas de apresentarem um comportamento pouco ético). O que é uma ótima estratégia, pois ajuda Bolsonaro a manter o seu discurso de que “o sistema é foda” e impede o presidente fazer o que deseja (mas não necessariamente é a vontade da maioria da população). 

Agora a mira dos lavajatistas de plantão é a prisão após a condenação em segunda instância, que deve ser votada só ano que vem. O Nexo explicou direitinho esse imbróglio

⬆️ gente que não deveria ter entrado 

O jornalista Sérgio Camargo foi removido da presidência da Fundação Cultural Palmares após determinação de um juiz federal do Ceará. O governo federal publicou a sua saída da instituição no Diário Oficial da União no final da quarta-feira (11). A instituição, que promove a cultura afro-brasileira e a luta contra o racismo deixou, até segunda ordem, de ter um presidente que é contra os movimentos que promovem a cultura afro-brasileira e a luta contra o racismo. 

Quem também perdeu direito a ocupar uma sala de direção no serviço público foi Luciana Rocha Feres. Ela ficou na presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por tão pouco tempo que faltou hora vaga para o estagiário procurar os podres da pobre coitada. Fica pra próxima. 

É básico 

A Câmara finalmente aprovou o novo marco regulatório do saneamento básico brasileiro. O texto, que agora abre espaço para a disputa pelo fornecimento de esgoto por empresas privadas – mas não obriga ninguém a contratá-las :( – é um grande avanço para o país. Pelo menos na opinião deste modesto blog. 

Os números de saneamento do nosso país são execráveis. Há lugar em que é mais fácil encontrar esgoto a céu aberto do que árvore na rua. As mudanças no modelo atual, portanto, são mais que bem vindas. Quem sabe agora a gente não consegue fazer aquilo que é básico. 

Em notas relacionadas, a oposição das esquerdas ao projeto foi um show de horrores. Os partidos que mais se prejudicam e criticam fake news em 2018 não perderam a oportunidade de utilizarem argumentos que não correspondiam ao texto em votação

Não adianta fazer troça do tio do Whatsapp se você gasta microfone da Câmara afirmando que um projeto obriga alguém a fazer algo que não virará obrigação após a publicação no Diário Oficial da União. 

Seria bom, por sinal, que as esquerdas explicassem de onde sairia o dinheiro para a universalização no caso de manutenção do modelo atual. Sempre considerando, é calro, que ele mal garante acesso a um bom sistema de esgoto para metade da população. Melhor do que sair por aí mentindo na cara dura. 

Ícaro tombou 

A juíza Selma, senadora pelo Mato Grosso que é apelidada como “Moro de saias”, caiu por cometer criminhos. O Tribunal Superior Eleitoral anunciou que o seu mandato está cassado por abuso de poder econômico e uso de caixa dois durante a sua campanha. 

Apesar de haver espaço para recursos, a senadora deve se afastar imediatamente do cargo. Os suplentes também se deram mal, já que não terão direito ao mandato. Ficará com a vaga o mais votado nas eleições que serão realizadas em breve no Mato Grosso. 

O advogado da juíza jura que ela está sendo condenada por ser uma ótima magistrada. O TSE, por outro lado, não tem dúvidas de que ela e os seus suplentes cometeram criminhos. 

A juíza deveria acreditar mais no poder do qual ela fez parte por tantos anos. Também cai bem não saí por aí dizendo que combate a corrupção e depois, quando é condenada por práticas ilegais, utilizar o mesmo discurso de sempre de quem é pego com as calças arriadas. Um pouco de originalidade não custa nada. 

A volta dos que não foram

A Lava Jato não morreu. A operação deflagrou nova etapa, dessa vez tendo como alvo o filho do ex-presidente Lula, Fábio Luis. Segundo os operadores do direito, Fábio recebeu dinheiro da Oi e utilizou a verba na compra do sítio em Atibaia mais famoso do país. Como agradecimento, o governo federal teria repassado benefícios financeiros à operadora. 

Há, porém, um pequeno problema nessa história. A princípio, por ser uma investigação que já aconteceu em São Paulo e não deu em nada. Depois, por ser algo que não se refere diretamente a delitos que passam pela Petrobras, que é o que trata a Vara Federal de Curitiba. Detalhes. 

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o ex-governador Sérgio Cabral assinou um acordo de delação premiada para a alegria de editores de jornais e revistas de todo o país. Junto com o acordo, vem a promessa de devolver R$ 380 milhões em propina (que ele já devolveu) e denunciar até mesmo ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Tribunal de Contas da União (TCU) e procuradores do MP-RJ. 

O acordo recebeu parecer negativo da Procuradoria Geral da República que não perdeu a chance de lembrar que o próprio Ministério Público Federal do Rio já tinha negado ao político uma chance de delatar quem ele quisesse. O que é justificável, tendo em vista que a essa altura do campeonato Sergio Cabral só não foi condenado pelas balinhas que ele deve ter roubado na vendinha da escola em que cursou o ensino médio. 

Em notas definitivamente relacionadas, 81% dos brasileiros acham, segundo o Data Folha, que a operação deve continuar. O dado mostra que, após mais de 60 etapas, os procuradores conseguiram manipular a mídia e o imaginário social de tal maneira que eles se tornaram, de fato, o sinônimo de combate a problemas na gestão da coisa pública. 

O trabalho, porém, não conseguiu fazer com que o agora ministro Sergio Moro passasse imagem semelhante para o governo federal. Metade dos entrevistados acham que o governo é péssimo ou ruim no combate à corrupção

Pelo visto, o brasileirinho ficará satisfeito apenas quando a operação virar uma verdadeira Inquisição Espanhola, sempre ponta para surgir das sombras para atacar os mais desavisados com suspeitas e acusações de todo tipo. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Vá com Deus 

O Estado de S. Paulo apurou que no prédio do ministério da Educação as caixas de mudanças estão cheias. O ministro Weintraub se prepara para não voltar ao cargo que hoje, infelizmente ocupa, após o fim de suas férias. Uma boa parte dos assessores já estão com o status de desempregado no LinkedIn, faltando apenas a vez dele ser confirmada. 

O ministro deve sair, principalmente, por pressões da equipe econômica. Para eles, Weintraub (que é cria de Guedes e não do Olavo de Carvalho) causa problemas demais e atrapalha o governo enquanto faz cosplay de Gene Kelly no Twitter. 

Weintraub entrou com força e vontade na luta para ser o pior ministro da Educação da nossa história recente e conseguiu o troféu com mérito. Atacou todo o sistema de ensino público e privado, de professores a tias da merenda. Mentiu, repetiu a mentira e quando acusado de mentir, fez-se de sonso e continuou na sua luta pela divulgação de novas mentiras. 

Nos seus meses à frente do cargo, Weintraub não conseguiu (ou sequer tentou) articular com as organizações do terceiro setor que trabalham com a luta por uma educação melhor. Tão menos se articulou com os profissionais do próprio governo para colocar em prática alguma ideia que fosse além do Future-se. O Fundeb, aliás, corre o mesmo risco que o Enem teve de não sair nesse ano. 

Na sua última passagem pela Comissão de Educação da Câmara, o discurso foi tão raso que até mesmo deputados que normalmente fariam vista grossa aos seus descalabros não deixaram de criticá-lo. Infelizmente, porém, ainda falta algum tutano para quem critica o ministro. Mas a torcida é forte para que Weintraub pegue logo o beco e vá falar absurdos em outros lugares do país. 

O seu saldo final será digno de vergonha. O ministro passou mais tempo alimentando militante bolsonarista na internet do que garantir que a educação melhorasse. Liberou dinheiro para as instituições vinculadas ao MEC apenas quando era tarde demais para qualquer centavo ser gasto e esqueceu de falar como será implementado um novo programa de alfabetização. 

Assim como o seu antecessor, não fará falta. 

Vem de zap 

Os caminhoneiros ainda tentam fazer a gente sentir saudades de quando o PIB nacional era movido por trens. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, já teria impedido sete tentativas de greves da categoria. E só negocia com quem tem feito ameaça de greve

Aliás, uma nova mobilização a favor de greve fracassou no começo da semana por falta de participantes. Os líderes das greves durante o governo Temer estavam ocupados limpando a bota do governo com a glote. Já os que tinham outras preocupações se irritaram demais com os discursos da CUT favoráveis ao movimento

O Brasil de hoje seria muito menos horrível se, no Brasil de ontem, JK não tivesse sido um desenvolvimentista carrocrata. 

Na volta a gente compra 

Não faz muito tempo que o governo começou a pensar em mudar o Bolsa Família e dar um caráter mais social à gestão atual. Começou com a promessa de um 13º que só foi garantido para 2019 após a Folha de S. Paulo apontar que o benefício corria o risco de não virar realidade. Já no começo do mês, os auxiliares do presidente resolveram criar um Bolsa Família para chamar de seu. 

Era um projeto simples. Aumentar a faixa etária de beneficiários para quem tivesse até 21 anos de idade. Se a casa contasse com um bebê de até 3 anos, o benefício aumentaria. Só faltava descobrir como a conta seria paga. 

Ao que tudo indica, ninguém descobriu o mapa da mina. Alegando falta de recursos (que até existem, mas foram consumidos pelas propostas de parlamentares que não fazem o tal do “toma-lá, dá-cá”), o Planalto resolveu guardar o projeto em uma gaveta. Ainda bem que ninguém tem que defender o governo em eleição municipal, não é mesmo? 

Não fazendo mais do que a obrigação 

Após mais uma semana com informações de que a PM fez o que faz de melhor (autoritarismo pra cima de pobre indefeso), João Dória resolveu brincar de político de centro liberal outra vez. O tucano afastou os 38 PMs que participavam da operação em Paraisópolis que não teve coordenador e só serviu para trazer mais desgraça para a história da favela. 

A resposta não só veio tarde demais, como também mostra de novo, novamente, mais uma vez, que de centrista e liberal o governador tucano não tem nada. Dória só agiu a favor dos mortos de Paraisópolis quando uma avalanche de vídeos, relatórios do Instituto Médico Legal e testemunhos apontaram que a PM paulista fez o que ela se tornou famosa por fazer, que é truculência com preto, pobre e favelado de dia (e professores públicos após o sol se por). 

Não é como se o paulistano estivesse precisando de motivos para apoiar Dória. Moradores de São Paulo desconhecem combinações de números de votação que não comecem com 4 e 5 desde o começo da década de 1990. Agora, se o desejo é se mostrar diferente de Bolsonaro, ele seguirá falhando miseravelmente enquanto aperta novos pregos no caixão do Partido da Social Democracia Brasileira. 

Não fazendo sequer a obrigação 

A 25ª edição da COP 25, que ocorreu em Madri, acabou no último domingo (15) com gostinho amargo. A conferência do clima era um dos poucos lugares no ambiente internacional em que o Brasil podia falar grosso com todo mundo. Afinal, éramos um exemplo de país que, apesar dos pesares, conseguia manter boas políticas de preservação do clima e projetos com foco sustentável. 

Não mais

O ministro da área, Ricardo Salles, foi para a COP sem propostas significativas, querendo pedir dinheiro onde não havia espaço para mendigar recursos (que o país jogou fora no passado recente) e um desejo imbatível de lutar contra tudo e contra todos. Quando não estava sendo cobrado pelos péssimos resultados que apresentou nos últimos meses, tentava passar a perna nos outros países durante as negociações da regulamentação do mercado de créditos de carbono

O governo que achou ruim que o documento final da conferência apontasse o óbvio (que oceanos e o uso da terra influenciam no clima). Tratou toda a COP-25 como um grande “jogo comercial”. Não à toa, teve como maior vitória poder levar dois prêmios “Fóssil do dia” para casa. 

Os absurdos que Bolsonaro falou nesta semana 

Em um discurso para prefeitos, o presidente afirmou, na quinta-feira (12) que colocará todos os ministros e integrantes de equipes ministeriais envolvidos em corrupção em um “pau de arara”

Sem brincadeira. O presidente mandou um “se aparecer [corrupção], boto no pau de arara o ministro” como quem pede uma garrafa d’água. 

O presidente também disse que Paulo Freire, declarado patrono da educação nacional em 2012, era um energúmeno. Também falou que a programação da TV escola deseduca e que investir na empresa, que tem um grande papel na entrega de material de qualidade para professores de todo o país, é jogar dinheiro no lixo. Parece até que ele se referia à ideia de passar revisionismo histórico conservador na telinha. 

O ataque, que certamente não está relacionado com as críticas contra a tentativa do governo de passar Olavo de Carvalho no canal, deu certo. O ministro da Educação encerrou o contrato com a associação responsável pela gestão da TV e mandou todo mundo sair do seu prédio. 

O tripé da moderação tem uma perna só 

Tornou-se comum dizer há uns meses que o governo tinha três pés de sustentação. O olavismo cultural, o liberalismo de Paulo Guedes e a moralidade de Sergio Moro. Hoje, passados quase 12 meses completos de muita aventura e arrombo autoritário, é difícil ver que algum analista estava certo ao afirmar que Guedes e o ex-juiz são tão diferentes assim do maníaco por ditaduras. 

Semana sim, semana também, há um ministro disputando o posto de melhor lambida de bota na imprensa. O liberal ministro da economia não perde a chance de avisar que, se for às ruas, o povo corre o risco de ouvir gritos por um novo AI-5. Trata a democracia como um pequeno detalhe do receituário do liberalismo clássico e insiste na (burra) ideia de que as liberdades podem caminhar em separado se a economia estiver mais aberta aos seus interesses. 

Moro, vendo que as chances de ir para o STF são nulas, resolveu mostrar a sua face autoritária para galgar o apoio do chefinho e se tornar candidato a vice em 2022. Tem se tornada notória, nas últimas semanas, a escalda do discurso autoritário do juiz. 

Travestido de um belo combate à corrupção (de quem não faz parte do governo e de sua base), o ministro atribui ao STF (!) a má avaliação do seu trabalho enquanto pessoa que trabalha contra criminhos. Ignora, porém, que a maior parte dos brasileiros não se importam de ver Lula livre. Até acham justo

boquinha fina com maior síndrome de doutor do país também não perde a chance de posar para a internet sendo subserviente ao governo. Ataca a imprensa quando ela não faz vista grossa para as suas ações e ignora completamente a liturgia do seu cargo. Trata as salas do ministério que ocupa como se fosse a sua casa. Mostra que, assim como Guedes, de democrático e moderado não tem nada. 

Moro deveria estudar melhor a Constituição que jurou um dia defender, frequentar umas aulas de teoria democrática na UNB e, depois, sair da vida pública e pescar no pantanal. Assim como o ministro da Educação, sua ausência não será sentida por ninguém que valoriza a democracia liberal. 


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Eu escrevi este texto e revisei ele sozinho e com fome. Apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana 27: a destruição não criativa do Brasil

O Planalto contratando comunista, as pessoas erradas sendo rememoradas, o presidente se esquecendo da própria história e a nação dando dois passos na direção do abismo autoritário.


The following takes place between jul-02 and jul-08


Checagem de fatos parlamentar 

O Senado terá uma CPI das Fake News, ou pelo menos é o que o presidente da casa, Davi Alcolumbre, deseja. Mas, no que depender do deputado da base governamental, Filipe Barros, essa investigação parlamentar não ocorrerá. O congressista do PSL entrou com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal para tentar barrar a criação da comissão. Barros acredita que a investigação será utilizada para prejudicar o governo. 

Ou seja, o político acredita que, políticos, no ambiente de fazer política, farão o seu trabalho. Mais ainda, para Filipe, se o partido do governo dos que acreditam em mamadeira de piroca for investigado por reproduzir mentiras, será prejudicado. Quem não deve, nem sempre não teme. 

Boca de bueiro SE01EP27 

O presidente defendeu o trabalho infantil, e apesar de afirmar que não apresentará nenhum projeto a favor da prática, Jair afirmou que “trabalhando com nove, dez anos de idade na fazenda, eu não fui prejudicado em nada” (Jair não trabalhou quando era criança). O Brasil, por outro lado, nunca esteve tão prejudicado pelas ações de alguém eleito democraticamente (e olha que nós já tivemos péssimos presidentes). 

O trabalho infantil é uma das piores coisas que um presidente pode incentivar. Prejudica as crianças, as suas famílias e o desenvolvimento do país. Estudo sobre isso não falta.

Bolsonaro também afirmou que tem “saudades daquela época onde se tinha muito mais deveres do que direitos. Hoje você só tem direito e, dever, quase nenhum, e por isso nós afundamos cada vez mais”.

A época em questão é a ditadura militar, onde o direito a habeas corpus era inexistente, a liberdade de expressão era sufocada, a dignidade humana dependia do humor do guarda na esquina. A democracia, aliás, vivia amordaçada. Naqueles dias, o único dever do brasileiro era ficar calado diante das atrocidades cometidas pelo regime. 

Contabilidade criativa de criminalidade 

Um relatório da Folha de S. Paulo apontou que o ministério da Justiça não tem critérios funcionais para identificar o tamanho real da criminalidade brasileira. Apesar do alarde feito por Sergio Moro, os dados de homicídios nacionais registrados pelo Sinesp (Sistema Nacional de Informações da Segurança Pública) não são padronizados. 

O sistema, criado em 2012 e utilizado desde o último ano, contém apenas informações genéricas, incompletas e sem padrão. A ausência de dados claros e criados a partir de metodologias objetivas, naturalmente, prejudica a criação de políticas públicas para lidar com o tema.

Além disso, impede que o governo seja efetivo em seus gastos com segurança pública. Em último caso, dificulta a publicação de dados que apontem a realidade do país. 

Justiça seja feita, nem tudo é culpa de Bolsonaro. A Constituição afirma que cabe aos estados definir como será feito o registro dos homicídios. Seria, então, responsabilidade do Planalto, criar uma regulamentação nacional sobre o tema, garantindo que os dados sejam enviados ao Sinesp seguindo algum parâmetro em comum.

O brasileiro é muito doido 

Uma pesquisa do Datafolha revelou que boa parte dos brasileiros acham errada a conduta que Sergio Moro teve ao lado dos procuradores da Lava Jato. Entre os que já ouviram falar dos vazamentos da #VazaJato, apenas 31% dos entrevistados pelo instituto aprovam a conduta do ministro. Ainda assim, 54% das pessoas consideram justo Lula estar preso

Como é possível ver, ainda que os mais otimistas insistam, o brasileiro não quer ver as instituições funcionando. Ele quer mesmo é dedo no cu e gritaria para cima daqueles que ele não gosta. 

A caneta ficou sem tinta 

Quem lembra do acordo entre os três Poderes que o presidente queria fazer? Com direito a photo op e fala imbecil de Bolsonaro, o projeto tinha como objetivo tornar o diálogo entre as instituições mais forte e democrático. 

Não durou dois meses. No evento da troca da chefia do Comando Militar do Sudeste, Bolsonaro afirmou que não há a necessidade de um “pacto assinado no papel“. O importante, para Jair, é que ideias que “fujam ao populismo” sejam votadas. 

Seria mais útil ao país se o presidente abandonasse o seu próprio populismo de direita, que veste o seu corpo diariamente. Dizer que ele deve lealdade somente ao povo brasileiro é uma atitude que diz muitas coisas, inclusive que o abandono do populismo não faz parte da agenda do Planalto. 

Teorias da relatividade modernas 

Para o ministro Ricardo Salles, o Brasil já atingiu uma taxa de desmatamento zero. Segundo ele, não temos o zero absoluto, mas sim o “zero relativo“. Para fingir que o problema não existe, o ministro do Meio Ambiente torce números, compara a taxa de desmatamento com a sua proporcionalidade em relação à totalidade do bioma e transforma o corte de árvores desenfreado em uma construção social. 

O blog, seguindo a linha de raciocínio do ministro, aponta que ele é relativamente ruim e absolutamente péssimo. O governo Bolsonaro é relativamente horroroso e absolutamente inadequado a qualquer século após a chegada dos portugueses nestas terras. Da mesma maneira, este que vos escreve considera que a política ambiental atual é relativamente péssima e absolutamente digna de impeachment. 

Imperialismo a favor do meio ambiente 

O governo alemão reteve R$ 151 milhões que estavam destinados ao Fundo Amazônia. A iniciativa, que tem como objetivo prevenir, monitorar e combater o desmatamento na floresta com o apoio de dinheiro de gringo já recebeu, apenas dos germânicos, R$ 193 milhões desde 2008. O motivo? As merdas que o governo brasileiro fez e segue fazendo desde o começo do ano. 

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que tinha encontrado “inconsistências” no trabalho da equipe que faz a gestão do grupo (algo que as auditorias norueguesas e alemãs jamais encontraram). Além disso, o membro do partido Novo afirmou que desejava utilizar os recursos para realizar a compra de terras griladas em áreas de conservação ambiental.

Naturalmente, os europeus discordaram. Afinal, isso aí de dar dinheiro para quem comete crime deixar de cometer crimes não é bem aceito no mundo civilizado.

Há, inclusive, a possibilidade do fundo acabar de vez. Os embaixadores da Alemanha e da Noruega avisaram que esperam ver o BNDES ser mantido na administração da iniciativa, e que os projetos sejam executados considerando as diretrizes que já existiam antes do governo novo ser formado. É isso, ou os europeus levarão os seus euros para outros países. 

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Balbúrdias educacionais 

O ministro da Educação resolveu trabalhar, e anunciou que pretende tornar o Enem completamente digital até 2026. O processo, que será feito gradualmente, começará com 1% dos inscritos já em 2020. A considerar as dificuldades que o governo está enfrentando com o exame deste ano, o blog acredita que a frase correta seja “0,01% tentarão fazer o Enem digitalmente em 2019 e falharão miseravelmente por problemas técnicos.” 

Por outro lado, a prova deste ano, segundo o presidente substituto do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), já está pronta para ser impressa. Falta a prova virar documento, ser transportada e aplicada para milhares de estudantes sem que vazamentos ocorram. A ver.

O Ministério da Educação, por outro lado, ao concluir a informatização da prova, poderá utilizar boa parte dos servidores do Sisu para a sua aplicação. Afinal, dependendo do ritmo na queda da oferta de bolsas integrais para cursos presenciais pelo ProUni, é pouco provável que os recursos do processo de seleção de bolsas sejam utilizados por completo

Tonho da lua 1 x 1 generais do exército 

Alguém precisa continuar não segurando o Carlos Bolsonaro e, assim, permitir que ele continue minando as bases de apoio do governo federal. Durante a semana, o vereador que menos vereia no país foi ao seu Twitter atacar o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e culpá-lo pelo escândalo do aviãozinho presidencial. Mas, dessa vez, o tiro saiu pela culatra.

O general Luiz Eduardo Rocha Paiva, que faz parte da Comissão de Anistia do governo federal, foi ao Whatsapp (pois ser discreto é importante) chamar o filho pródigo de “pau-mandado do Olavo” e “idiota inútil ou útil para os esquerdistas“.

Briga de abobado é maravilhosa de se ver, até mesmo quando ela coloca o país na beirada do precipício. 

Keeping up with #VazaJato I: dando uma olhadinha supernormal 

Segundo O Antagonista, a Polícia Federal, de maneira técnica e totalmente democrática, solicitou ao Coaf uma análise das contas de Glenn Greenwald. A ideia é fazer um estudo sobre as contas do jornalista, e investigar qualquer valor que o relacione com a pessoa responsável pelos vazamentos da #VazaJato

Certamente a medida não tem nenhuma relação com Sergio Moro. O fato é que, em 2006, o Ministério Público processou um advogado que acusou ministro da Justiça de “agir com arbitrariedade e abuso de autoridade“. O ex-juiz jurou, na sua oitiva na Câmara dia 2, que nunca processou um jornalista. Deve ser verdade, já que ele pode sempre contar com a ajuda do MPF para vingar a sua masculinidade frágil.

Keeping up with #VazaJato II: fica de olho neste teu cu 

O ministro Moro deveria se curvar mais aos desejos de Jair Bolsonaro, caso queira manter a carreira política estável. Gente para ocupar o seu lugar não falta, a começar pelo juiz e bombadão da academia Marcelo Bretas, da Lava Jato carioca.

Em entrevista à BBC News Brasil, o magistrado afirmou que até recebe advogados e procuradores no seu trabalho, mas não dá conselhos a nenhum deles. Também avisou que não quer deixar uma marca na história do país e se esquivou de fazer um juízo sério do valor das mensagens da #VazaJato

Os concurseiros qualificados desta terra que tudo dá são ótimos em se colocar a postos para apunhalar o coleguinha quando é necessário. Incrível. 

Keeping up with #VazaJato III: mais um passeio de Moro na frente dos parlamentares 

A oposição até que tentou, teve até deputado voltando mais cedo para Brasília, mas não deu. A nova conversa de Sergio Moro com o poder Legislativo foi outro grand slam do ministro

Quando perguntado sobre o relatório das transações do jornalista Glenn Greenwald, algo super comum em regimes democráticos, desviou (atitude semelhante, por sinal, foi tomada pelo COAF e pela PF). Aliás, há gente no TCU achando que é apenas um teste de apoio da população aos desejos autoritários do governo

Moro repetiu que as mensagens são falsas, que não fez nada de errado e que, se as mensagens fossem verdadeiras, também não indicariam ilegalidades. Ainda acusou os supostos hackers de tentarem invalidar as condenações, como se alguém estivesse colocado uma arma na cabeça do ministro e mandado ele ficar de conluio com procurador.

Como o povo da Câmara não é lá muito educado, a conversa terminou em tumulto. Moro até tirou uma folga de cinco dias para descansar depois do bate-boca no fim da sessão. No Senado, onde o filho chora e a mãe não vê, Randolfe Rodrigues apresentou um requerimento para que o ex-juiz explique, juntamente com o ministro Paulo Guedes, se há ou não alguma investigação contra o jornalista americano.

Keeping up with #VazaJato IV: marketeiros à paisana 

Os procuradores da força tarefa da Lava Jato também se articularam para interferir nas eleições da Venezuela. Segundo o site The Intercept, o grupo, junto com Moro, planejou o envio de dados para a justiça venezuelana sobre a delação da Odebrecht, de um modo que tornasse o vazamento mais fácil.

Os procuradores especularam, inclusive, que a ação poderia trazer impactos para os brasileiros que vivem no país, gerando uma guerra civil. Tudo isso, pois, os acordos internacionais feitos pela justiça brasileira impediriam a Lava Jato de tornarem públicos os depoimentos dos executivos da Odebrecht.

Com ajuda da mão de Deus, um dos depoimentos acabou vazando não muito tempo depois de procuradores venezuelanos viajarem para o país. A ação certamente agradou Dalagnol, que apoiou as movimentações pelo simbolismo que um vazamento ilegal teria para o povo venezuelano, ainda que às custas de deixar a situação já caótica do país ainda mais confusa e violenta.

Keeping up with #VazaJato V: síndrome de Estocolmo 

Mensagens da #VazaJato revelaram, no dia 30 de junho, que os procurados da força tarefa da Lava Jato não levavam muito à sério as palavras do empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, sobre o triplex mais famoso do Guarujá. O ex-executivo é considerado um dos principais responsáveis por colocar Lula na cadeia, tendo em vista o impacto que seu depoimento teve nas investigações. 

Até aí, tudo mais ou menos. 

No dia 4 de julho, porém, diante das revelações feitas pela imprensa, Pinheiro enviou um bilhetinho à Folha afirmando que as acusações feitas ao ex-presidente eram totalmente verdadeiras. Negou, também, que as várias mudanças em seus depoimentos não ocorreram por ele estar louco para sair da cadeia. E por último, e não menos importante, disse que jamais foi pressionado para dar depoimentos que ajudassem os procuradores a colocarem algum grande petista na cadeia. 

A defesa de Lula não gostou, rebatou e criticou horrores as falas do ex-empreiteiro. Lembrou que as frases da #VazaJato contradizem o que ele disse à Folha de S. Paulo e as suas ações durante as investigações da Lava Jato. Não dará em nada, mas é divertido ver Léo Pinheiro falando tudo o que for necessário para sair da cadeia. 

Combate a corrupção: tem, mas só depois de amanhã 

Ninguém notou, mas Jair Bolsonaro confessou que o ministro Moro perguntou se ele deveria abafar as investigações de corrupção no alto escalão do PSL (o assunto por si só já seria um problema). Afinal, o que um presidente que jura combater a corrupção tem que saber sobre as investigações contra o seu próprio partido? 

Vale lembrar, também, que Sergio Moro não deveria ter tomado conhecimento do que estava acontecendo nas salas da Polícia Federal mineira. A investigação tramita sob segredo de justiça na 26ª Zona Eleitoral de Minas Gerais.

Além de todos esses detalhes (que por si só já seriam um escândalo) é importante lembrar que nenhuma instituição de controle se levantou contra as falas do presidente e o que elas representam. Há décadas a Polícia Federal, os Tribunais de Contas e o Ministério Público ganharam reforços para que trabalhassem como instituições do Estado, e não do governo da vez. Muitas vezes, aliás, trabalham contra o governante do dia.

Ao que tudo indica, basta que o governante não seja petista para a PF aguentar um fist fuck presidencial com um belo sorriso no rosto. 

A semana na reforma da Previdência I: batendo continência pro guarda de quartel 

A reforma da Previdência, aquela que seria votada por qualquer um dos candidatos a presidente em 2018 (e que passaria sem grandes esforços), finalmente teve o dedo do Bolsonaro. Não para acelerar a aprovação do projeto, claro, mas para que ele fizesse a única coisa que sabe fazer direito quando não está falando algum absurdo: lobby para milico. 

Após muito ser acusado de traidor pelos policiais civis e federais, o presidente entrou em campo pela sua base. Na tarde de terça-feira (2), Jair Bolsonaro atuou para modificar as mudanças nas regras de aposentadoria dos militares

Bolsonaro ainda colocou uma gag ball em Paulo Guedes só para garantir que a reforma seja ainda mais desidratada. Houve até parlamentar do PSL ameaçando votar contra o projeto caso o privilégio fosse deixado de lado (spoiler: não votaram).

Não adiantou muito. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o presidente da ADPF (Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal), Edvandir Paiva, chamou Jair Bolsonaro de frouxo, sem voz ativa e incapaz de colocar ordem no próprio governo. Ou quase isso

Edvandir afirmou que Bolsonaro “não consegue impor a vontade dele ao Ministério da Economia, e nós ficamos na mão.” Reclamou que, mesmo com ordens expressas de Bolsonaro, Joice Plagelmann e a equipe econômica articulavam no Congresso, corretamente, contra os interesses da categoria. Felizmente deu errado e o alívio ficou para depois 

O Brasil de 2019 é horrível: quando você percebe, está concordando com as atitudes da Joice e da equipe do Guedes. 

A semana na reforma da Previdência II: fazendo de conta que certos problemas não existem 

A outra parte da reforma da Previdência que é muito importante e que ficou de fora, é a reforma dos estados e municípios. Os líderes partidários falharam em chegar a um acordo sobre a inclusão dos funcionários públicos estaduais e municipais no projeto, mais uma vez

Há a chance de as mudanças na aposentadoria desses funcionários públicos serem inseridas, mas em etapas posteriores. Caso isso não ocorra, porém, todos os governos estaduais e municipais terão que encarar as suas reformas previdenciárias sozinhos. Vai ser divertido e vai dar merda, naturalmente. 

A boa memória para coisas ruins do governo Bolsonaro 

Não faz sentido pressupor que todo mundo que atuou no exército alemão durante os anos do nazismo era, necessariamente, nazista. Também não faz sentido dizer que os nazistas de verdade estavam na SS. São dois argumentos meio burros, e que só são reproduzidos por quem é desonesto ou ignorante. 

O exército brasileiro, porém, não tem o direito de ser qualquer um dos dois. Pelo contrário. 

A instituição coleciona momentos nobres em defesa do país, e igualmente esteve presente nas horas mais obscuras da biografia brasileira. Seria mais interessante, portanto, relembrar os 450 soldados da Força Expedicionária que foram enviados para ajudar a impedir que o nazifascismo tomasse conta do mundo, e não um brasileiro que atirou balas ao lado do exército alemão. Prioridades. 


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Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana com os toques sagazes da Marinna.