5 indicações para o seu final de semana #2: fugindo da República da mediocridade

Ei, tudo bom? Há quem diga que, ao ficar em casa por muito tempo, perder a noção do tempo se torna algo muito fácil. O blog concorda.

Aliás, o blog concorda tanto que acabou não fazendo o post de hoje, ontem, por achar que ontem era antes de ontem. Foda, né?

Mas isso não importa. Lave bem as mãos, compartilhe as dicas com o amigo isolado mais próximo e evite ficar louco das ideias com tantas notícias ruins.


Coisas para ler no computador

Ler no computador é tudo de bom, né? Há imagens que se movem, vídeos, sons e infográficos interativos para melhorar a absorção de todo tipo de conteúdo. Infelizmente, também há todo tipo de distração disponível.

A última entrevista que Tom Jobim deu para um repórter, por Walter de Silva

Você já ouviu Tom Jobim hoje? Então coloque ele para tocar e reserve um tempo para ler as falas do autor das melhores músicas de elevador da história.

Coisas para ler fora do computador

Você já parou para pensar que o cheiro de livros só foi valorizado após a popularização dos e-books? Questões.

Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust

Poucas obras conseguiram refletir sobre a passagem do tempo tão bem quanto Em busca do tempo perdido. Dá até para dar um curso de 60 horas sobre o tema. Com 4.215 páginas (a depender da edição), é uma leitura ótima para quem quer pensar a relação das pessoas com o seu futuro, o seu passado e o seu presente.

Coisas para escutar

O blog escuta muito podcast. Confere então os mais legais que passaram no Pocket Casts do autor nos últimos dias.

O episódio de Switched on Pop que liga Garota de Ipanema a um cantor de Porto Rico

Não há música boa que não rompa barreiras. O Switched on Pop fez um episódio mostrando como Garota de Ipanema, uma “ótima música de elevador”, chegou a Porto Rico e virou a base para uma excelente canção de trap latino. O autor da façanha tem nome: Bad Bunny.

Coisas para assistir

Ver coisas na televisão que tenham uma boa qualidade é top top top. Veja sempre coisas top top top.

The Plot Against America

E se Fraklin Roosevelt tivesse sido derrotado por um candidato populista e xenófobo? Essa adaptação do livro de Philip Roth imagina como seria um mundo em que os EUA se revoltam contra os Judeus. Está no ar na HBO mais próxima.

E se a sociedade entrar em colapso?

Tudo sempre pode dar errado. Nessas horas é preciso ter calma e parcimônia. Saia de casa em um horário de baixa circulação, compre uma couve-manteiga, um pouco de linguiça portuguesa e algumas batatas para fazer esse caldo verde da Folha de S. Paulo.

Comer é bom. Comer é muito bom. Comer é bom demais.

Acha que está faltando algum link legal? Então manda ele nos comentários!


Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

A Nova Era – semana #65: federalismo de ocasião

O Brasil virando laboratório de ideias erradas (agora na área da saúde), o presidente falando o contrário do seu ministro e a governadorcracia rolando solta. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #65 do governo Bolsonaro.

Limpe bem a sua casa, compartilhe o texto com o colega mais próximo e fique isolado.


The following takes place between mar-24 and mar-30


Humanismo cívico

Nem todo mundo tem tempo para ficar rebatendo as falas absurdas do presidente sobre a Covid-19. Ainda bem. Universidades federais e outras instituições de pesquisa pública estão se desdobrando para garantir o aumento dos kits de testes para a doença. Da UFRJ à Fiocruz, vários são os casos de pesquisadores unidos para criar testes eficazes e baratos para suprimir a rede de saúde.

Enquanto hospitais esperam por até 90 dias para importar insumos, parte da iniciativa privada também se comprometeu a ajudar no combate à doença. Até a Vale entrou nessa história, importando uma boa quantidade de kits de teste. Se a empresa conseguir utilizar o seu lucro do último ano em medidas realmente efetivas, a gente pode até fingir que ela não foi responsável pelos maiores desastres ambientais da última década.

O Conselho Federal de Medicina Veterinária abriu um cadastro com os equipamentos veterinários que podem ser adaptados para tratar pessoas doentes. Já o Ministério da Saúde resolveu entrar no século XXI e regulamentar, excepcionalmente, a telemedicina. Se vencermos essa pandemia, certamente não será pelo apoio forte e ativo do governo federal.

Briga de foice no escuro

Até a noite da segunda-feira (30), o número de mortes oficiais pela Covi-19 era de 159 pessoas. Já o de casos confirmados estava acima de 4 mil. Os dados, porém, são menos precisos do que a minha avó atirando em uma partida de Call of Duty: o governo demorou a exigir que os casos fossem notificados e testa quase ninguém, o que nos permite dizer que as expectativas mais pessimistas talvez estejam banhadas de otimismo.

O Brasil ainda não bateu a marca de 100 mil testes realizados para identificar quem está doente. É pouco provável que fará isso até o final da próxima semana. Isso é um problema grave: sem saber quem está realmente infectado, não é errado dizer que estamos brincando de isolamento vertical às avessas.

Diante das ações erráticas do governo federal, estamos contando com a sorte de quem não lê as notícias de Brasília com o nome do presidente no título para decidir que ação tomar. Esse é o caso, por exemplo, de seis universidades que estão imprimindo máscaras para serem distribuídas gratuitamente nos hospitais.

Aqueles que pretendem se guiar por tabelas mais precisas devem conferir não só os dados oficiais da doença, mas também os que se referem a internações por problemas respiratórios graves. Há uma estimativa de que nove em cada dez casos não são detectados (se você não for pessimista). O número de pessoas que são enterradas com caixões lacrados, porém, só aumenta.

A mão invisível do bom senso

Se as principais plataformas de mídia da internet não se levantam contra nazistas e conspiracionistas de toda ordem em tempos normais, a pandemia da Covid-19 serviu para Facebook, YouTube e Twitter adotarem medidas mais restritivas contra os arautos do obscurantismo. Ou quase isso.

A turma do Vale do Silício resolveu utilizar os seus algoritmos de inteligência artificial para algo que vai além da venda de anúncios direcionados e a recomendação de conteúdos reacionários (ei, YouTube, estamos olhando para você). O YouTube resolveu remover os vídeos do Olavo de Carvalho que não escaparam nos novos filtros da rede.

No Twitter, o MAV de direita Allan dos Santos teve postagens removidas por espalharem desinformação. A rede também suspendeu Flávio Bolsonaro e o ministro Ricardo Salles por 12 horas e removeu uma sequência de tweets de ambos.

O Facebook e o Instagram não ficaram de fora e também removeram posts do presidente. Agora só falta tomarem medidas pesadas para combater os nazistas, os pedófilos e os criminosos que vivem passeando impunes pelas páginas das redes. Custa quase nada.

Bolsomaduro

A rede de microblogging não deixou escapar sequer o presidente brasileiro. Bolsonaro teve uma sequência de postagens e vídeos apagados no Twitter por violarem as novas regras da rede.

O presidente se une a Nicolás Maduro, que há alguns dias também teve postagens deletadas contra a sua vontade pelo mesmo motivo: ir contra as regras da rede em relação à publicação de conteúdos sobre a Covid-19.

Tabelismo com a vida alheia

O ministro da Economia começou o combate à pandemia da Covid-19 alegando que a melhor forma de preparar a economia brasileira para a doença era aprovando reformas fiscais com impacto de médio, longo e longuíssimo prazo.

Quando enviou uma MP que garantia ao trabalhador a possibilidade de ficar em casa de graça e uma embalagem de KY, se justificou afirmando que houve um erro no cálculo dos benefícios. Uma única embalagem de lubrificante não seria o bastante para o assalariado brasileiro se preparar para o que estava por vir.

Guedes foi vendido como uma promessa técnica e moderada para o governo de Jair Bolsonaro. Apesar de não ter pego Covid-19 do seu chefe, o ministro não pensou duas vezes antes de se deixar contaminar pelas ideias de Bolsonaro.

Para além da falta de paixões pela democracia, o todo poderoso da economia nacional tem brigado sem motivo com outros poderes. No meio tempo, reclama que as suas ações de baixa qualidade não dão a ele o destaque do ministro da Saúde.

Quem lê as notícias da postura de Guedes nos últimos dias pensa que estamos com um problema de saúde causado por uma situação econômica (e não o contrário). Se o ministro quer ganhar destaque e melhorar a sua imagem, talvez seja a hora de demonstrar trabalho, algo que o Congresso já está fazendo. Tratar as medidas de apoio econômico necessárias com a mesma agilidade que a sua pasta trata a reforma administrativa pode não ser uma boa ideia.

O “corona voucher” foi aprovado com apoio contrariado do governo, que estava disposto a dar apenas R$ 300,00 para os mais pobres. Ainda não há sinais claros de como o dinheiro será distribuído para quem mais precisa e o que será feito com aqueles que mal tem um CEP para chamar de seu.

O ministro da Economia, aliás, terminou a semana falando muito e fazendo pouco. Diz que está trabalhando em um pacote de bondades que bate a cifra de R$ 750 bilhões (apesar de só precisarmos de 5 bi para vencer o coronavírus). Entre as ações que fazem parte do pacote, há um conjunto de medidas que já foram anunciadas anteriormente. Do outro lado da história, bancos estão com propagandas bonitas e posturas mais rígidas na hora de liberar empréstimo para quem não quer deixar metade da folha de pagamento sem salário.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

As ideias tortas do Rappi de Covid-19

Que o Capitão Corona adora farrear na irresponsabilidade, não é novidade. O que assusta é ter um presidente que não utiliza o seu histórico de atleta para alinhar as suas falas com os outros ministros. Durante toda a semana, Bolsonaro bancou o piromaníaco enquanto o seu ministro da Saúde apagava incêndios como se fosse bombeiro na Califórnia durante o outono.

Vamos ao recap.

Segunda-feira

Na segunda-feira (23), em videoconferência com os governadores do Nordeste, Bolsonaro pregou união. Mesmo que a maioria fosse oposição ao seu governo, o presidente não deixou de parabenizar cada um pelas suas ações de combate a pandemia.

Bolsonaro também prometeu um pacote de R$ 88 bilhões para auxiliar estados e municípios durante a crise. Os valores incluem medidas como a suspensão do pagamento da dívida das unidades federativas com a União e acesso a crédito.

Terça-feira

Na noite de terça-feira, o presidente realizou um pronunciamento de rádio e TV pedindo que a população retome a “normalidade”. Também chamou governadores de histéricos por fazerem o que a OMS recomenda.

O presidente concluiu a sua fala atacando a imprensa por trabalhar com cenário de terra arrasa (ainda que seja a Abin quem está fazendo esse trabalho). Como de costume, manipulou e mentiu loucamente sobre o impacto que as medidas por ele defendidas (ou atacadas) teriam no nosso dia a dia.

Quarta-feira

Na quarta-feira (25), o ministro da Saúde resolveu garantir mais uns dias no seu cargo e endossou as falas do presidente. Mandetta criticou as restrições de circulação e acusou governadores e prefeitos de executar ações pró-isolamento de modo desorganizado (como se o Planalto estivesse realizando com algum esforço para organizar uma ação centralizada). Também afirmou que só sai quando o presidente mandar ou se ficar doente.

Já Bolsonaro, que na terça-feira falava em união entre o Planalto e os governadores, resolveu agir como quem quer a desunião em reunião com os governadores do sudeste. O presidente afirmou que o governador de São Paulo não tem autoridade para criticá-lo e pediu que Dória saísse do palanque.

Se o tucano está mesmo em um palanque, não podemos afirmar. Mas, se for o caso, Dória deveria seguir o pedido de Bolsonaro e descer do palanque que o presidente jamais deixou de ocupar. Já basta um chefe de executivo e os seus ministros brincando de Plague Inc.

E o Mourão? O segundo admirador de ditadura mais poderoso do país defendeu as medidas de isolamento social que o presidente diz ser contra (mesmo que tenha balançado a cabeça em reprovação às críticas que Bolsonaro fez ao governador João Dória). Afirmou, aliás, que “a posição do nosso governo por enquanto é uma só: isolamento e distanciamento social”. Complementou afirmando que o presidente se expressou mal e que o seu único crime é se preocupar demais com o PIB.

Quinta-feira

Na quinta-feira (26), a catapulta de vírus ambulante se reuniu com líderes do G20 para debater que respostas tomar para combater a Covid-19, especialmente em termos econômicos. O demagogo também aproveitou para defender o uso de medicação de eficácia duvidosa para tratamento da doença.

Buscando atingir o seu objetivo de aumentar a circulação de grupos de risco nas ruas brasileiras, o presidente baixou um decreto que incluiu atividades religiosas e casas lotéricas no rol de serviços essenciais. Se bingo fosse legalizado, Bolsonaro teria fechado a tríade das atividades que mais reúnem aposentado em um único local.

Ao argumentar para os seus apoiadores que o isolamento horizontal não era necessário, Bolsonaro utilizou os jornalistas que se reúnem no Palácio do Alvorada como exemplo da falta de necessidade de se proteger ficando longe dos outros.

A imprensa é uma das atividades classificadas pelo próprio presidente como essenciais.

Enquanto os médicos de Nova York trabalham com um cenário caótico, digno de joguinhos de Xbox, Bolsonaro negava a realidade e continuava a insistir que não teremos problemas no futuro. Afinal, se metade do país faz as suas necessidades no mato, não há razão para ter medo, não é mesmo?

Na noite de quinta-feira (26), o senador Flávio B queimou a largada na campanha feita pela Secom defendendo que o país não parasse as suas atividades por causa da Covid-19. Felizmente, a campanha (que o governo diz que não existiu (mas que Bolsonaro admite que caiu na net)) foi travada pela justiça no sábado.

Sexta-feira

Na sexta-feira (27), o cosplayer de arma química disse que não acredita nos dados de contaminação paulistanos. Não por acreditar que havia subnotificação: o especialista em blindagem e epidemiologia jura que os números estão acima do que realmente ocorre no estado.

É mole? Não é mole, não.

Sabado

No sábado (28), o ministro da Saúde retomou o bom senso e reafirmou a importância de todos ficarem em casa. Criticou quem fez carretada para que as coisas voltassem à normalidade e deixou claro: se o isolamento horizontal acabar, “vai faltar atendimento para rico e pobre.”

Segundo aliados, Mandetta ficará ao lado da ciência até que perca o cargo. A medida reforça o que todo mundo de bom senso já sabia: ignorar o presidente Bolsonaro faz bem à saúde pulmonar, mental e cerebral.

Domingo

Na manhã de domingo, o presidente resolveu realizar um Corona Tour pela Ceilândia, cidade satélite de Brasília. O idoso em grupo de risco mais poderoso do país também passou por Taguatinga e Sobradinho, reunindo pessoas ao seu redor em uma quantidade acima da recomendada pelo próprio ministério da Saúde.

Aproveitou a oportunidade para espalhar meias verdades sobre remédios de uso controlado e não recomendado para o tratamento do coronavírus. Também insistiu na ideia burra de acabar com o isolamento horizontal: com direito a ameaça de se fazer um decreto para garantir isso.

Segunda-feira

Na tentativa de tirar os holofotes de Mandetta, que insiste em não se curvar completamente aos pensamentos péssimos de Bolsonaro, o Planalto mudou a forma como as coletivas diárias do ministério da Saúde são realizadas. Ontem, a fala do ministro da área foi acompanhada por outros membros do alto escalão do governo, como os ministros da Cidadania, da Infraestrutura e da Casa Civil. O discurso oficial, porém, era de que o problema causado pelo vírus é multidisciplinar.

Mandetta debochou apenas quando falaram da sua possível saída do órgão e o ministro da Casa Civil respondeu colocando uma corda no pescoço do ministro da Saúde. Mas pelo menos ele não é o único que incomoda Bolsonaro: Sergio Moro, o moderado de ocasião, também está na listinha dos que não defendem o presidente a todo custo.

República dos governadores

Nos estados, governadores já falam até em impeachment. Isso não foi o caso de Romeu Zema. O governador mineiro segue escolhendo as opções mais confortáveis em momentos desafiadores.

Afinal, governar é isso: se acovardar no presente na promessa de um futuro mais tranquilo. Em vez de se inspirar no Recruta Zero, o governador mineiro poderia pensar mais como o FHC.

A fala do Ifood de doença na noite de terça-feira foi tão absurda que Ronaldo Caiado acreditou ser montagem. O governador brasileiro que mais apoiou a eleição do presidente resolveu romper com o Planalto e avisou que, enquanto a pandemia durar, o seu governo fará exatamente o contrário do que Bolsonaro indicar. Sorte de quem mora em Goiás.

A sorte também é de quem mora em São Paulo. Apesar de ser o epicentro da maioria dos casos do país, João Dória está empenhado a seguir o exemplo de Caiado. Ao comentar o passeio de Jair Bolsonaro no último domingo, o governador fez coro às críticas de outros governantes e deixou claro que não pretende seguir os exemplos do presidente.

Na quarta-feira, 27 governadores se reuniram com Rodrigo Maia para debater ações contra a Covid-19. Bolsonaro, o mesmo que acusou governadores de fazerem “demagogia barata“, não gostou: em suas redes sociais, afirmou que “fazer politicagem num momento como esse é coisa de covarde“.

O demagogo e isoladíssimo ocupante do Planalto Central disse, também, que não estava preocupado com a sua popularidade. Certamente uma explicação muito boa para todos os surtos que ele tem quando alguém o contraria e demonstra insatisfação com as suas atitudes. É preciso coragem para responder apenas à mídia amiga e aos minions que se prostram no cercadinho do Palácio do Alvorada.

No mesmo dia, em uma entrevista com outros ministros, Luiz Henrique Mandetta voltou a defender o isolamento social. Afirmou que era necessário seguir as diretrizes da comunidade médica (o que o seu chefe não faz) e evitar aglomerações. Isso vale especialmente para quem é grupo de risco (um conjunto de pessoas que só cresce conforme a doença evolui).

Quando os adultos na sala abrem a boca, a gente escuta

Diante do pronunciamento do presidente na noite de terça-feira, Davi Alcolumbre, o presidente do Senado, afirmou que o país precisa de uma liderança séria. Já Rodrigo Maia, o presidente da Câmara, chamou a fala do presidente de “equívoco“.

Maia tem um dedo bem apontado para indicar de onde saiu a pressão para a retomada das atividades econômicas. Segundo o presidente da Câmara, as últimas semanas foram marcadas por investidores querendo colocar a vida alheia em risco para ver a Bovespa atingir 150 mil pontos. Devem ter se esquecido que investimento de baixo risco se chama poupança, não mercado de ações.

Infelizmente Maia e Alcolumbre pouparam os filhos do presidente. Eles estiveram lado a lado de Bolsonaro nos últimos dias, apoiando as suas declarações (e construindo anúncios como o da terça-feira). Até salinha em Brasília eles ganharam.

Maia, porém, não deixou de lembrar para empresários da Lide que a liberação da circulação precoce de pessoas pode causar uma tragédia humanitária sem precedentes. É bom ter alguém em cargo de poder capaz de lembrar aos nossos empreendedores que não adianta ter comércio aberto se a única pessoa que estiver lucrando for dono de funerária.


Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

A Nova Era – semana #64: esvaziando o copo meio vazio

Todo mundo tentando tratar o presidente como a rainha da Inglaterra, governadores que nunca foram razoáveis, sendo razoáveis e você só saindo de casa se for necessário.

Continue lavando as mãos, tire um tempo para fazer nada e se isole. E não se esquece de compartilhar o post com o coleguinha!


The following takes place between mar-17 and mar-23


SUS – Stupidity Unified System

Agora que o coronavírus foi registrado em cartório (com três vias corretamente autenticadas) e vende coisas no Facebook com preço divulgado apenas por inbox, a Covid-19 resolveu fazer as suas primeiras vítimas em território nacional. E não foram poucas.

As primeiras mortes de pacientes identificados e testados com a doença ocorreram em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ambos os casos foram de pessoas que estavam internadas na rede privada e não saíram do país nos últimos meses. Ambas que fazem parte de grupos de risco da doença.

Enquanto finalizamos o post, o número de mortos já bateu 46 e 2.201 pessoas forma infectadas oficialmente.

Devagar se vai longe

Seguindo recomendações da OMS (só para dar uma variada), o governo federal pediu ao Congresso o reconhecimento do estado de calamidade pública. Naquela que promete ser a última reunião presencial dos próximos meses (agora só por videoconferência), os deputados aprovaram a ideia. O Senado, por outro lado, teve que debater a pauta em regime de home office.

Estar em estado de calamidade pública permite ao governo descumprir as suas metas fiscais e aumentar gastos para combater o novo coronavírus. Também dá para o ministro da Saúde mais liberdade para comprar suprimentos com o valor bem acima do tradicional. O Brasil não é o primeiro país que executa esse tipo de medida, mas certamente está entre os que deveria ter feito isso no mês passado.

O governo definiu alguns procedimentos especiais para enfrentar a pandemia. Quem não cumprir determinações de isolamento e quarentena pode ser preso. Fique em casa, internauta. A internet está cheia de pornografia e pirataria.

O presidente Bolsonaro também disse, no Twitter, que fará a distribuição de 10 milhões de testes rápidos para detectar doentes com a Covid-19. A medida, segundo Bolsonaro, será executada com o apoio da iniciativa privada. Difícil é saber, porém, se Jair combinou com os Russos.

De onde menos se espera…

Enquanto o presidente briga com todo mundo, vê a oposição crescendo nas redes sociais e tem a orelha esquentada com panelaço todas as noites, os governadores e prefeitos estão realizando uma ótima propaganda para os fanáticos pelo federalismo americano.

Em São Paulo, João Doria determinou que shoppings e academias ficassem fechados até o dia 30 de abril. Já no Rio, Wilson Witzel anunciou que centros comerciais ficarão fechados. Medidas semelhantes foram tomadas em outros 13 estados.

Nas capitais, Bruno Covas limitou o funcionamento apenas para supermercados, farmácias e restaurantes. Em BH, desde o dia 20 de março, nenhum estabelecimento que aglomere mais de dez pessoas poderá ficar aberto.

Bolsonaro criticou a medida tomada pelo governador de São Paulo e chamou Doria de “lunático”. Quando Witzel resolveu fechar as divisas do Rio, o presidente partiu para o contra-ataque e disse que “brevemente o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia nessa questão do coronavírus“. Além de negar ajuda ao governador fluminense, Bolsonaro também publicou uma MP impedindo que eles fechassem as fronteiras de seus estados.

Não dá para dizer que o presidente não acertou em parte de suas previsões. A população realmente sabe quem está fazendo mais para o combate ao coronavírus. A mais recente pesquisa do Datafolha apontou aprovação de 54% para as atitudes dos governadores, 55% para o ministro da Saúde e 35% para Jair Bolsonaro.

Fazem bem os governadores e os prefeitos que tratam as falas de Bolsonaro como o presidente trata a sua máscara de proteção. Ou como o seu porta-voz e os seus ministros tratam as perguntas da imprensa. Se forem esperar pela liderança do Planalto e sua tardia boa vontade, é bem capaz que o Brasil inteiro faça uma simulação forçada de Plague Inc.

Ideia merda feita por gente duvidosa

Tempos difíceis exigem soluções inovadoras e um brainstorm contínuo. Infelizmente, quando se abre espaço para novas ideias, também somos obrigados a lidar com as ruins. Uma delas veio do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Em uma conferência com prefeitos, Mandetta defendeu o adiamento das eleições municipais de outubro. O argumento do ministro parte da premissa de que o esforço contra o novo coronavírus possa ser influenciado por questões políticas. Faz até a gente acreditar que não há um presidente de birra com governadores e prefeitos de todo o país, não é mesmo?

O primeiro ministro lembrou que não é hora de pensar naquilo que não está em pauta e focar nos problemas do presente. Já Luís Roberto Barroso, que ficará responsável pelo Tribunal Superior Eleitoral, avisou que a ideia pode até virar realidade, mas que, por hora, não há motivo para pensar em questões de baixa prioridade para a nação.

O ministro da Saúde, por sinal, poderia gastar mais tempo negociando preços realmente baixos para os materiais que a sua pasta está comprando para combater a pandemia. Ou orientando os seus subordinados a efetuarem compras que não tenham cara, cor e cheiro de favorecimento de amigos. É o que o blog faria.

Jogos Vorazes: o canto do canarinho amarelo

A pandemia de coronavírus pode ser muito democrática, mas ela conseguirá refletir alguns problemas da nossa sociedade, especialmente os que estão relacionados às pessoas com menos dinheiro ou em lugares sem saneamento (que é básico). Nos grandes centros urbanos, a Covid-19 encontrará um terreno fértil para se propagar entre os becos de favelas e invasões urbanas.

Os impactos também passarão pelo bolso dos que ganham menos, apesar de o governo planejar compensar trabalhadores que recebam até dois salários mínimos, boa parte dessa população na informalidade. Se contarmos com os que ficam de fora do sistema bancário e aqueles que não recebem benefícios como o Bolsa Família, o cenário futuro faz jus ao refrão da música de Alceu Valença.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Resta um da desgraça

Alguém precisa transformar o presidente em um objeto de estudo científico. Só assim conseguiremos explicar a sua resistência ao coronavírus.

Após a sua volta dos EUA, o país começou a brincar de bolão para ver quem adivinhava qual dos convidados para o passeio em terras estrangeiras apareceria com a doença. O número já ultrapassou a casa das duas dezenas.

Dia sim, dia não, um dos membros da comitiva aparece no noticiário com a doença. Dia não, dia sim, algum funcionário do governo que trabalha próximo de Bolsonaro escuta de um médico que o seu exame deu positivo. Nem o motorista do presidente escapou.

O blog só pode concluir que, ou o presidente já está morto por dentro (e por isso é pouco atraente para o vírus) ou levar uma facada na barriga é uma ótima forma de se prevenir. Para todos os casos, algum cientista da Fiocruz deveria começar a estudar o corpo de Bolsonaro. Na melhor das hipóteses a gente descobre de onde vem tamanha capacidade de falar abobrinha.

Cutucando onça com vara curta

Os bolsonaristas adoram uma confusão para distrair o país das merdas que eles próprios fazem. Mas a tradição é que os problemas causados pelo governo (e a família do presidente) envolvam apenas questões internas. Todo mundo, inclusive eles, sabe que a familícia não tem culhão para encarar gente grande.

Mas parece que o deputado federal Eduardo Bolsonaro resolveu fazer de conta que era muito poderoso e atacar o nosso maior parceiro comercial. No Twitter, Dudu atacou o país como se fosse ele o responsável por colocar o Brasil no estado em que as coisas estão.

Após o representante do país asiático criticar a postura infantil de Edu Bananinha, o governo resolveu brincar um pouco mais de se afundar na bosta. O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, pediu que o diplomata se retratasse.

Mas como muitas coisas que marcam a diplomacia externa nacional, o dinheiro falou mais alto e a bobajada saiu de cena. Antes do fechamento dessa edição, o governo federal entrou em ação e resolveu colocar panos quentes na atitude irresponsável do cosplayer de embaixador.

Ver otário se retratando por questões financeiras é muito bom. Obrigado, capitalismo liberal.

Sobe…

As reações do governo federal à crise vão de mal a pior. Na quarta-feira (18), o Copom cortou a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual. Agora a Selic está em 3,75% ao ano, uma mínima histórica.

Enquanto isso, o dólar bateu novos recordes nominais. Enquanto a Selic caía, a cotação da moeda atingiu a marca de R$ 5,19. E a Bovespa? A Bovespa seguiu derretendo.

Quando a população resolveu olhar para o Planalto e perguntar o que mais seria feito para impedir a economia de derreter como parafina durante um blackout, todo mundo se viu na situação de “olho do Brasil com uma lágrima escorrendo”. A primeira reação tomada foi o anúncio de uma medida provisória que permitiria às empresas cortar metade da jornada de trabalho e do salário dos trabalhadores formais. Eles correspondem a 60% da nossa força de trabalho.

Os 40% restantes seriam ajudados com um plano emergencial. A iniciativa pretende dar R$ 200 por mês para quem não tem acesso a outros benefícios sociais. Tudo isso ao custo trimestral de R$ 15 bilhões.

Desce…

Quando o governo resolveu transformar as suas ideias em realidade, porém, o único grupo que saiu protegido foram os emissários da Agenda Fiesp. A segunda começou com a notícia de uma medida provisória que permitiria a empresários suspenderem o pagamento de salário de seus empregados por até 4 meses. Em contrapartida, cada funcionário deveria ficar em casa realizando cursos de formação online.

Se o empregado conseguisse negociar com o empregador, o patrão estaria autorizado a fornecer uma ajuda de custo durante o período. Ela, porém, não teria o caráter de salário. Ou seja, nada de INSS, FGTS e demais obrigações durante o período.

O BNDES também anunciou medidas para ajudar os empreendedores de todo o país. Com um custo de R$ 55 bilhões, o banco público decidiu suspender pagamentos das parcelas de financiamentos. Também ampliou o crédito para micro, pequenas e médias empresas.

Rebola…

Tudo isso pegou mal.

Pegou péssimo.

Pegou horrível.

Após ser criticado por todo mundo que tem um pingo de tato social e preocupação com os mais pobres, o presidente anunciou que revogaria a parte da MP 927 que se referia à suspensão de contratos. Mas, naturalmente, as letras pequenas não ajudaram a melhorar o que já não era muito bom: a MP 928 revogou o ponto criticado por todo mundo e deu novas restrições ao texto da Lei de Acesso à Informação.

Não quer dizer que antes o governo era muito aberto à divulgação dos dados sobre a Covid-19. Não era. Mas agora ele sequer se dá ao esforço de disfarçar a sua má vontade com os jornalistas se escondendo em um discurso de patriotismo barato e meia boca.

O mais incrível de tudo é que as pessoas ficaram tão ocupadas com esse ponto que esqueceram de ver que a MP 927/20 também permite a demissão de quem está contaminado e precisa ficar em casa. A contaminação só é considerada um problema se o doente conseguir comprovar que ficou doente no seu local de trabalho.

E espera sentado.

O governo pode anunciar muitas medidas boas (ou ruins), mas o fato é que a resposta da área econômica está lenta, gradual e nem um pouco controlada. O pacote do BNDES não é aquilo tudo que anunciaram. Já a MP 927/20 parece cocô seco: quanto mais você cutuca, mais fede.

Estamos prestes de uma queda do PIB sem precedentes. E nem é um abuso de linguagem do blog. A FGV aposta na possibilidade de termos a maior retração da série histórica.

Nesse ritmo, não há voucher de R$ 200 reais que faça milagre. O presidente não entendeu a gravidade da crise e, se foi o caso, está muito ocupado com as suas narrativas e intrigas pessoais para fazer algo. Passa mensagens dúbias sobre o vírus, ataca quem quer ajudar e continua a distorcer fator.

Não adianta a base bolsonarista criticar quem pede impeachment nessas horas e dizer que os que olham a saída de Bolsonaro do poder como a única luz que brilha no fim do túnel são oportunistas. Agenda reformista nenhuma é capaz de salvar um governo que mantém uma postura claudicante diante desse cenário.

A sorte do projeto de Fernando Collor de Mello reside na incapacidade da oposição se articular diante do cenário atual. Se aqueles que não se alinham com o Planalto fossem um pouquinho mais eficazes (não são), o presidente estaria com os seus dias contados. Mas tudo bem: o peixe morre é pela boca.


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Indicações para o seu final de semana #1: não pega no meu braço

Final de semana está chegando e nada melhor do que um monte de conteúdos multimídia para consumir e esquecer que o mundo vive uma pandemia, não é mesmo?

Então passe o seu café com o apoio do Nexo, lave bem as mãos, faça esse teste caso você apresente algum sintoma e compartilhe as dicas com o amigo isolado mais próximo!


Coisas para ler no computador

What is Code? por Paul Ford

O mundo é movido por computadores de todos os tipos. Além de um pedaço de metal que faz contas, todos eles tem em comum algum tipo de código. Esse artigo do Paul Ford publicado na Business Week explica a importância que cada linha tem para o nosso dia a dia.

A fabulosa herança do Barão de Cocais, por Lara Alves e Pedro Rocha Franco

Já dizia o ditado, Minas são muitas. E há mais de 150 anos, um grupo de pessoas tenta recuperar a herança do homem que deu nome a cidade de Barão de Cocais, José Feliciano Pinto Coelho da Cunha. A história do tesouro capaz de quebrar um banco foi contada pela Lara Alves e o Pedro Rocha Franco para o jornal O Tempo.

WIRED Takes a Good Hard Look at Dick Picks, por Emma Grey Ellis

Você já levou o seu piu piu ao divã? Nesse texto curtinho da Emma Grey Ellis, a Wired faz uma ótima análise das fotos de genitálias masculinas e a reação da internet a elas. Um debate duro, mas que precisa ser levantando pela sociedade.

What’s Modern Love? A Column. A Book. A Podcast. And Now, a Television Show, por Daniel Jones

Ano passado a excelente Modern Love chegou ao Amazon Prime Video sem que muita gente soubesse que o seriado surgiu a partir de uma coluna do jornal The New York Times (que virou um livro (e também um podcast)). O Daniel Jones separou os textos que viraram episódios, follow ups com alguns personagens de série e outras colunas legais. Afinal, nem todo mundo tem tempo para ler as 700+ histórias já publicadas na coluna, não é mesmo?

When Everyone Stays Home: Empty Public Spaces During Coronavirus, por Alan Taylor

A Covid-19 está mudando rapidamente os espaços públicos. O Alan Taylor juntou no site do The Atlantic uma série de fotos para mostrar como as operações de quarentena estão modificando ambientes que normalmente recebem um grande fluxo de pessoas. Para quem gosta de imagens apocalípticas, é um ótimo link.

Coisas para ler fora do computador

Sobre a liberdade, de Harriet Taylor e John Stuart Mill

Há muito se debate sobre os limites da liberdade de expressão. Sobre a liberdade é um dos primeiros textos a falar sobre o tema na era moderna. O argumento é espetacular, ainda que você não concorde com ele no final.

Os Jacobinos Negros, de Cyril Lionel Robert James

A Revolução de Haiti foi um dos maiores eventos da Era das Revoluções. Apesar de não ser tão reconhecida quanto a Rev. Francesa ou a Americana, ela mostrou ao mundo que os homens não precisam ser escravos. O livro de C. L. R. James, conta a história dos homens que tomaram de volta a sua liberdade e ainda nos traz com um belo plot twist no final.

E se?, de Randall Munroe

Eu adoro livros com histórias boas para contar em mesas de bar. Você acredita que é possível levitar com alguns rifles AK-47? Eu não sabia disso, mas o Randall Munroe traz o passo a passo nesse livro cheio de homens palito.

Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin, de José Guilherme Merquior

Quem poderia imaginar que uma das primeiras análises da Escola de Frankfurt seria feita por um brasileiro? E que esse brasileiro seria um liberal social? Neste livro, reeditado pela editora É Realizações, Merquior faz um ótimo estudo e apresentação sobre as bases dessa linha de pensamento marxista e os seus limites.

Coisas para escutar

Uma mixtape do Hot Chip, no Soundcloud

Você sabia que o Hot Chip tem um Soundcloud? E que lá há um DJ Mix ótimo? Pois se você precisa de músicas para se animar, esse link é perfeito. Tem 1:40, muito groove e melodia.

Um podcast sobre a criação da insulina, no I Heart Radio

Um dos meus podcasts favoritos sobre História é o Stuff You Missed in History Class. Nessa sequência de não um, não dois, mas três episódios, Tracy V. Wilson e Holly Frey contam como a insulina foi criada. Tem testes em animais, intrigas e suspense de fora a fora. Juntos, eles dão 1:36 minutos de diversão.

As histórias de Os sertões e de Canudos na Rádio Batuta

Se um dia a professora que eu gosto conseguir fazer a história da democracia, haverá um capítulo especial para Canudos. Enquanto isso não acontece, a Rádio Batuta pode te ajudar a entender mais sobre Canudos, sobre a guerra que levou ao fim do povoado e o livro clássico de Euclides da Cunha. Tudo isso com o apoio de especialistas e uma sequência de links complementares maravilhosos.

O disco Verde, da banda Vento

A banda paulista Vento existe desde 2017 e tem um guitarrista muito legal. Em 2018 eles lançaram o single “Ela Me Disse“, que tem aquela vibe gostosa de banda de rock que tocava na MTV em meados dos anos 2000. O disco Verde foi lançado dois meses depois e pode ser escutado em vários locais.

A mixtape A Hora é Essa, do VENENO soundsystem

Anos atrás, lendo o blog Trabalho Sujo, do Alexandre Matias, eu esbarrei nessa mixtape do Veneno soundsystem. Música brasileira é muito boa. Música brasileira que pouca gente conhece, melhor ainda.

Coisas para assistir

Esse vídeo sobre os padrões de nomeação de cores ao redor do mundo

Você sabia que muitas civilizações dão nomes para cores de maneira semelhante? E que alguém estudou isso e até publicou um livro sobre o tema? Nesse vídeo do Vox, você pode entender como Paul Kay and Brent Berlin identificaram um padrão para a maneira como colorimos o universo ao nosso redor.

10 dicas culinárias com Gordon Ramsay

Cozinhar pode ser algo muito simples. Ou muito complicado. Em todo caso, o Gordon Ramsay tem um vídeo maravilhoso em que ele explica, com bastante calma, como fazer várias coisas legais na cozinha.

O documentário sobre empreendedores sociais no Brasil

O podcast do site Caos Planejado me fez conhecer várias coisas novas (e mudar alguns conceitos sobre urbanismo que eu tinha). Em um deles, os profissionais da Terra Nova, que trabalham com a regularização de invasões, são entrevistados. Nesse documentário da Netflix, um dos seus cases mais interessantes é apresentado.

A seleção de filmes nacionais do Spcine Play

A prefeitura de São Paulo tem uma plataforma maravilhosa de streaming com os documentários, curtas e demais produções que são exibidas nos festivais da cidade. Há Zé do Caixão, Suzana Amaral e conteúdos especiais em função do mês da mulher. E está de graça nos próximos dias.

O filme Mandy, de Panos Cosmatos

Imagine um filme de terror com LSD, Nicolas Cage e Panos Cosmatos. Não tem como ser ruim, não é mesmo? Este é o caso de Mandy, um filme que tem uma fotografia espetacular, trilha feita por Jóhann Jóhannsson, roteiro focado em vingança e a participação do Nicolas Cage. Já mencionei que o filme tem o Nicolas Cage? Pois é, Mandy é estrelado por Nicolas Cage.

Coisas para utilizar quando voltar para o trabalho

Essa lista de extensões para o Google Chrome de produtividade

Manter a produtividade em tempos de gifs de gatinhos pode ser complicado. O Life Hacker tem algumas extensões que podem te ajudar a ser mais eficiente. Como ela tem alguns anos de idade, é pouco provável que algumas não sejam compatíveis com o seu navegador.

Dicas da Mozilla para loucos por privacidade

O blog da Mozilla, desenvolvedora do melhor navegador da internet, fez uma lista de passos para garantir mais privacidade ao utilizar o Firefox. Para quem quer ser menos rastreado na internet, vale a pena dar uma conferida. Se você só quer propagandas menos invasivas, também.

A lista de aplicativos de produtividade do Zapier

As extensões que eu trouxe ali em cima não fazem milagre. Por isso elas são melhores acompanhadas por esse monte de aplicativos de produtividade publicada no Zapier. Vai de aplicativo de notas a ferramentas de videoconferência.

Essa matéria da National Geographic sobre o que acontece quando dormimos

Dormir bem é muito importante. Apesar de muita gente achar bonito fazer isso a menor prioridade do seu dia a dia, passar boas horas deitado em uma cama completamente ignorante em relação ao que acontece ao seu redor ainda é fundamental para a nossa sobrevivência. Nesse artigo da National Geographic, há uma explicação detalhada para quem ignora as demandas do próprio corpo.

As dicas da última Interfaces e da Wired para não ficar louco durante o home office

Nem todo mundo está acostumado a trabalhar em casa. Via de regra, é um grande desafio e que pode demandar uma adaptação complicada. Na Wired e na Interfaces existem ótimos passos para bater cartão no aconchego do próprio lar.

E se a sociedade entrar em colapso?

Há quem jura que o mundo acabará em algumas semanas. Se a civilização ruir e tudo der errado, em algum momento as fontes de fogo acabarão. Mas tudo bem: esse vídeo mostra a ciência por trás de uma das formas mais primitivas de se fazer fogo (briga de pau) e o que não deve ser feito para passar frio.

E você, internauta, o que você encontrou de interessante para fazer enquanto se isola do mundo e lava bem as mãos? Conta nos comentários!


Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

A Nova Era – semana #62-63: burrice e progresso

A últimas duas semanas foram agitadas. A COVID-19 finalmente passou pela fiscalização em Curitiba, o governo continuou brincando de ser uma contradição ambulante e a economia está encolhendo mais rápido do que carro de Formula 1.

Lave as mãos e veja tudo isso e muito mais no resumo abaixo (e não se esqueça de compartilhar o link para este post com os amigos, se gostar, e com os inimigos, se não gostar).


The following takes place between mar-03 and mar-16


Blackadder brasileiro

Uma das várias notícias negativas dos últimos dias foi o resultado do PIB de 2019. Ele foi pior do que o de 2018, mas não tão ruim quanto o de 2020 promete ser.

Para comentar o cenário desastroso, o presidente resolveu chamar um humorista capaz de tripudiar jornalistas de uma maneira mais vergonhosa do que tradicional. Já o ministro da economia e vendedor de terreno na lua, Paulo Guedes, resolveu tripudiar com a cara da nação.

Guedes continuou brincando com a expectativa alheia e mostrando que é mais otimista do que a filosofia de Leibniz. O ministro agora aposta em um crescimento acima de 2% para 2020.

Até dá a impressão de que o Executivo está negociando a aprovação das reformas estruturais que ele não enviou e que o presidente não está atacando os poderes hora sim, hora também. O FMI, por outro lado, foi mais realista e já afirmou que o nosso crescimento seguirá medíocre.

Vale a nota: o ministro da economia tem mais ou menos “PT semanas” para “mudar o Brasil”. O prazo de 13 domingos foi dado pelo próprio presidente como uma forma de garantir que Guedes mostre serviço e não perca os seus privilégios ministeriais.

Mas podemos ficar tranquilos, já que o economista tem um plano tão astuto que você pode colocar um rabo nele e chamá-lo de doninha: aprovar as reformas administrativa (que ficou para a semana que vem) e a tributária (que ficou para algum dia aí) até julho.

Não dá para dizer que é divertido ver isso tudo. No começo do governo, Guedes e Bolsonaro acusavam o Congresso de não deixar o Executivo trabalhar. O Planalto chamava os pedidos de articulação vindos do Congresso de jogo sujo e dizia que o Legislativo não ajudava a passar as propostas que os parlamentares aprovaram independentemente do lobby feito pelo presidente a favor da sua desidratação.

Agora, o governo retoma a narrativa (com apoio da sua base política e social) de que o Congresso não quer aprovar as suas reformas mesmo não tendo enviado nada para os senadores e deputados debaterem. Guedes e Bolsonaro estão agindo como aquele cara que não faz a mulher gozar e diz que o problema está nela e não no fato de ele transar como uma britadeira.

O problema do Brasil não é apenas a pandemia causada pelo novo vírus corona. O risco-país está crescendo não mais pelo cenário externo, mas também pelas atitudes do Planalto (algo que também impacta no câmbio). É fácil entender por qual motivo Mansueto Almeida tem dormido mal em uma hora dessas: não deve ser fácil fazer parte de um governo de lunáticos completamente descolados da realidade social.

Coisas que podem dizer muito, mas podem não dizer nada

Dia desses o governo brasileiro anunciou que todas as pessoas que fossem ligadas a Nicolás Maduro deveriam sair do Brasil. No mesmo dia, mandou todos os funcionários públicos brasileiros saírem da Venezuela.

Tais medidas foram tomadas enquanto o presidente estava em viagem aos EUA, brincando de pegar Covid-19 com Donald Trump. Em um comunicado conjunto, ambos anunciaram que apoiariam a “democracia na região” americana. Também assinaram um acordo nas áreas de “pesquisa, desenvolvimento, testes e avaliações” de tecnologia militar.

Pode ser apenas mais uma lambidinha do presidente na glande em formato de cogumelo atômico de Donald Trump. Mas quem se interessa pela Venezuela deveria ficar um pouco mais atento.

Limpando a bota alheia com a glote

Falando em gente que gosta de lamber o saco alheio, Sergio Moro montou em seu tanquinho virtual e foi tentar se responsabilizar pelo sucesso do trabalho que ele não fez. Mas não sem antes tentar bater na esquerda, claro. Tem sempre que tentar bater na esquerda.

Após Ciro Gomes atribuir o fim do motim de PMs no Ceará à ação do governador Camilo Santana e ao seu irmão (e piloto de trator) Cid Gomes, Sergio Moro ficou putinho. O ministro da Justiça afirmou que os louros na verdade deveriam enfeitar os cornos do governo federal. Aquele que outro dia estava colocando nas costas do governador cearense a responsabilidade de garantir o fim do motim.

Enquanto isso, o diretor da Força Nacional chamou os policiais criminosos de “gigantes” e “corajosos” na assembleia que definiu o fim da greve ilegal. Em notas relacionadas, Aginaldo de Oliveira, além de ser alguém que acha interessante validar ação criminosa, também é casado com uma deputada bolsonarista e é subordinado do ministro da Justiça e de um ex-candidato ao governo do Ceará.

E o que o seu chefe fez diante disso tudo? Bem, Sergio Moro preferiu não demitir o ministro que apoiou atitude criminosa. E disse que os criminosos, que cometeram crimes em cadeia nacional, não deveriam ser tratados como criminosos.

É mole? Não é mole não.

Males que foram para o bem

Que o presidente Jair Bolsonaro passou a penúltima semana atacando a imprensa, não é novidade. Essa atividade ele faz com frequência maior do que a que o seu antigo enfermeiro limpava a sua bolsa de popoti. O que é engraçado, porém, é que a atitude hostil do presidente salvaria jornalistas.

Após colocar um humorista para dar bananas aos repórteres, Bolsonaro questionou o que levava os profissionais a fazerem o seu trabalho. No mesmo dia, em uma de suas lives, disse que não falaria mais com os jornais brasileiros. O crime? Publicarem o que o presidente falou.

Inspirado nas relações de Donald Trump com a CNN, Bolsonaro resolveu proibir a Folha de S. Paulo de enviar um profissional para cobrir o seu jantar com o presidente americano. “Ainda bem”, deve estar imaginando o jornalista que seria enviado para os EUA nesta altura do campeonato: após voltar para o Brasil a comitiva presidencial passou a brincar de “resta um” de infectados pelo coronavírus.

Brincando de ditador para não lidar com os próprios problemas

A viagem aos EUA não serviu apenas para bajular Donald Trump. Ela também ajudou Bolsonaro a cometer mais um criminho de responsabilidade: enquanto discursava para apoiadores, o presidente afirmou, com base em vozes da sua cabeça, que as eleições que ele ganhou em 2018 foram fraudadas.

Bolsonaro afirmou com base “nas provas que ele tem em suas mãos” e que seriam mostradas em breve, que ele ganhou mais de 51% dos votos válidos no primeiro turno das eleições de 2018. Quando o Planalto foi cobrado das provas, porém, a informação oficial foi outra: Bolsonaro mentiu.

No mesmo dia a boquinha do inferno achou tempo para postar no Twitter que brincou de pintar uma tela no ateliê do pintor Romero Britto, posar com o ex-piloto de Fórmula 1, Emerson Fittipaldi, debater programa da Rede Globo e falar que o coronavírus estava sendo superdimensionado.

É tanto absurdo em um prazo tão curto que, se falta de decoro realmente fosse crime de responsabilidade, o presidente tinha caído um número de vezes maior do que o número de tijolos utilizados na construção da muralha da China. A eficiência em interditar o debate com o que importa fez até as pessoas esquecerem que ele apoiou as manifestações do último dia 15 antes de embarcar para o exterior.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

O vem e vai do veto 52

O coronavirus tem dominado tanto o debate que nem parece que, até outro dia, o presidente estava criticando o parlamento por fazer exatamente aquilo que o seu governo propôs que fosse feito. Vamos ao cronograma das disputas em torno de R$ 30 bilhões do Orçamento impositivo.

O primeiro acordo

Primeiro, o ministro Luiz Eduardo Ramos gastou um dia negociando com os parlamentares. A ideia, segundo Rodrigo Maia afirmou no dia 02, era reservar R$ 11 dos R$ 30 bilhões do orçamento que seria direcionado aos parlamentares. Bolsonaro não gostou e queimou o ex-general um pouquinho só para dar uma variada.

O segundo acordo

No dia seguinte, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, junto com deputados, senadores e membros do governo, negociou um novo acordo. Dessa vez, R$ 10 bilhões seriam destinados para a Câmara e outros R$ 5 bilhões, para o Senado. Tudo isso sem o líder do PSL na Câmara presente.

O terceiro acordo

Mas como o assunto já não estava confuso o bastante, o governo resolveu enviar para o Congresso um novo projeto. A ideia, agora, era dividir os R$ 30 bilhões igualmente entre o poder Legislativo e o poder Executivo.

O Congresso estava até disposto a abrir mão de parte do seu poder sobre o Orçamento. Bastava um gesto de repúdio à afirmação do ministro Augusto Heleno de que o Legislativo estava chantageando o Planalto.

Ganha um doce quem adivinhar como o presidente não falou contra o seu amigo que já foi general.

Mesmo assim o Congresso votou com o governo, assim como tinha votado a favor do Planalto quando este queria entregar R$ 30 bilhões para os parlamentares.

Toleraram que Bolsonaro ficasse sem atacar um de seus gurus e topasse andar ao lado de Montesquieu. Desse vez os parlamentares pediram apenas que o governo mandasse, na semana passada, um projeto reafirmando o desejo de dividir a execução dos R$ 30 bilhões entre o Executivo e o Legislativo.

O ataque do governo aos acordos que o governo realizou

Enquanto os movimentos bolsonaristas mantinham a sua manifestação golpista marcada, os líderes da Câmara e do Senado brigavam entre si. Havia uma grande desconfiança de que o presidente do Senado não tinha controle sobre os senadores. Também havia a impressão de que Bolsonaro não faria a sua parte do acordo.

O que, no final das contas, fez todo sentido. O Planalto chegou a enviar o acordo prometido para votação. Mas, não seguindo os seus auxiliares, articulou com a sua base para que ela votasse contra o projeto do próprio governo.

Em agradecimento à boa vontade do poder Legislativo, Bolsonaro seguiu apoiando de maneira velada as manifestações que foram marcadas para o dia 15. Fez até chantagem com o Congresso. E olha que Rodrigo Maia adotou um tom apaziguador com o presidente e pediu paciência a todos os envolvidos na história.

Um grande acordo, com o Congresso e o presidente mudo

Após avaliar a possibilidade de desidratar o discurso oficial do presidente e simplesmente largar o dinheiro pra lá, os parlamentares deram um recado para todo mundo e aumentaram o gasto com o BPC (mesmo sem o governo ter grana para isso). Também resolveram lembrar ao Planalto que os parlamentares, quando unidos, são bem fortes.

Mas, ao fim e ao cabo, a discussão sobre quem será o dono desse dinheiro ficará para depois: o Congresso resolveu dar uma diminuída nos trabalhos graças ao coronavírus e postergar a sua decisão sobre o tema.

The Shrinkage

Os últimos dias tem sido difíceis para quem acreditou em todos os traders de internet que vendiam a Bolsa de Valores como o melhor lugar do mundo para fazer dinheiro fácil. A combinação de briga de oligarca com vírus pandêmico fez os mercados brincarem de montanha russa. As previsões econômicas andam mais pessimistas do que os petistas que foram para a votação do impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

Parte da queda veio pelas incertezas em relação à Covid-19. A outra parte foi a briga dos oligarcas bilionários em relação ao preço do petróleo. Após uma conversa que não deu muito certo com a Rússia, a Arábia Saudita resolveu fazer a maior queda no preço do barril desde a Guerra do Golfo.

Desde então a Ibovespa está mais derrubada do que alcoólatra funcional em final de Carnaval. O movimento acompanhou as bolsas de outros países e as negociações foram interrompidas com uma frequência tão grande, que o blog simplesmente resolveu não contar o número de circuit breaks que foram acionados no período. Foram vários.

Negacionismo com as economias alheias

Enquanto tudo isso acontecia, o governo resolveu brincar de negacionismo. Ou melhor, a parte do governo que gosta de microfone brincou de negar a realidade.

Paulo Guedes, diante do crash causado pela queda do petróleo, disse que deveríamos transformar “a crise em crescimento” e “em geração de emprego”. Afinal de contas, a melhor forma de combater uma pandemia é aprovando reformas estruturais que só terão impacto fiscal a médio e longo prazo.

Quando Guedes caiu na real e lembrou que o emprego dele anda mais disputado do que a cadeira de Regina Duarte, o ministro anunciou um conjunto de medidas para reduzir o impacto que o vírus terá na economia. O impacto total será de R$ 147,3 bilhões e se distribuirá entre aumentos de gastos e antecipações de recursos como: reforços no Bolsa Família, transferência de verbas para o FGTS e facilitação de crédito para negócios. O Nexo tratou melhor sobre o assunto.

Não está claro, porém, se as verbas ficarão disponíveis a tempo de salvar vidas (ou torná-las menos miseráveis). Também não se sabe se o gesto impedirá a economia de continuar em queda livre. Da última vez que o blog conferiu, o Ibovespa seguia em queda e o Brasil continuava a ser visto como um país cheio de investimentos ruins.

Em notas não relacionadas, Guedes finalmente acertou uma previsão. No dia 12 de março, o ministro afirmou que, se ele “fizer muita besteira, o dólar pode ir a R$ 5 reais“. Quatro dias depois o dólar bateu R$ 5 reais.

Outras pequenas notas do Quinto dos Infernos

Boomer remover

Agora vamos falar do protesto do último domingo. Sim, não vamos ignorar essa pauta.

Após a Secom afirmar que a manifestação não era contra o Congresso e o STF, a população mais suscetível à Covid-19 resolveu sair às ruas para pedir o fechamento do Congresso e do STF. Já Jair Bolsonaro, que disse que não validou às manifestações (que ele validou), passou parte do seu dia dando legitimidade aos protestos golpistas.

No final do dia, Bolsonaro saiu do seu quarto e cumprimentou 272 pessoas por 58 minutos. Depois, deu uma entrevista afirmando que as medidas tomadas por governadores cansados de esperar orientação do Planalto eram inválidas. Antes de fechar a manilha de bosta, ainda convidou os presidentes do Legislativo a saírem às ruas como ele fez.

É temerário que um presidente desfaça todo o trabalho do seu ministro da Saúde por pura rinha. Pior ainda é ver ele indo contra os protocolos oficiais e agindo como se ele estivesse com a saúde em dia ou fosse um jovem de 24 anos. Não é o caso: além de velho, Jair Bolsonaro teve o corpo debilitado por um ataque há menos de dois anos.

Se comportar como uma criança mimada e que enxerga as ações a favor da saúde de milhões de pessoas como se fossem uma mobilização contra o seu governo é digno de riso. Aliás, é algo que deveria ser estudado por um psicólogo. Certamente há algum CID para esse tipo de atitude.

Se o presidente coloca o Brasil acima de tudo, deveria se portar como quem não quer ficar ao lado de Deus e acima de todos. Suas atitudes afetam todos que entram em contato ele.

E eu nem me refiro aos manifestantes que foram ao seu encontro em Brasília: caso Bolsonaro tenha algum problema de saúde (e ele provavelmente tem) a sua mesquinhez, a sua irresponsabilidade e a sua estupidez serão responsáveis por colocar em risco a saúde dos ministros que atuam na linha de frente do combate à Covid-19.

A escolha em 2018 pode até ter sido difícil. Mas Bolsonaro tem tornado muito simples a de 2022.

Vamos fazer um combinado?

Muitas pessoas estão dividindo a sua cota de paranoia entre a Covid-19 e as chances de o presidente aproveitar o momento para derrubar de vez a democracia. Provas de que Bolsonaro não gosta do modo como as coisas atuais funcionam são vastas: não é como se o ocupante da cadeira mais poderosa do país se esforçasse para esconder o seu desapreço pelo regime que o manteve no poder por três décadas enquanto ele brincava de sindicalismo pró-PM.

Existem duas alternativas para a escalada autoritária do presidente. Uma delas é o grupo de democratas sair do imobilismo, construir uma frente ampla de oposição e derrubar (ou tirar do poder) o cosplayer pobre de Donald Trump.

Essa alternativa tem como base a ideia de que Bolsonaro realmente tem um plano para derrubar a democracia capaz de ser executado (é pouco provável que ele seja tão inteligente, mas divago) com sucesso. Mas, para que o revival de Frente Ampla consiga dar certo, articulações com o PT deverão ser feitas. O partido ainda é relevante e dá legitimidade para um movimento como esse.

Se Carlos Lacerda, Juscelino e João Goulart conseguiram se abraçar por um bem maior, vocês também conseguem, liberais do dois ladismo intelectual.

A outra alternativa é começar a tratar o presidente como o que ele provavelmente é: um político com muito sonho autoritário, pouco tutano para executar os seus instintos mais primitivos e uma língua sempre afiada para falar absurdos e desviar a opinião pública dos podres de seu governo.

Essa opção, se escolhida, também não pode tratar Bolsonaro como alguém que jamais seria capaz de cometer um autogolpe. O Brasil não é um país de democracia robusta o bastante para que a gente se volte para às nossas questões privadas sem medo.

De crise em crise o presidente pode sim fazer um revival feio de abril de 1964. Mas enquanto ele anima a sua base mais fiel com a sua retórica surrealista, os seus arreganhos autoritários servem mais para os democratas avaliarem a capacidade de ação das gralhas golpistas do que para colocar um cabo e um tanque na frente do STF.

Em todo caso, não basta expor as sandices presidenciais para a opinião pública se, em 2022, a melhor alternativa à presidência for o Mussolini de Maringá.

Mas para alguma coisa o isolamento moral do presidente pode servir, que é no combate à Covid-19. Nos últimos dias, os presidentes da Câmara e do Senado se reuniram com o ministro da Saúde para discutir medidas contra o coronavírus enquanto Bolsonaro estava no Twitter. O mesmo fizeram os presidentes da Argentina, Chile, Uruguai, Equador, Peru, Paraguai, Bolívia e Colômbia.

Estavam certos. Não há como esperar que alguém que fica ocupado brincando de paranoia possa cuidar de um tema tão grave. Nessas horas é mais interessante deixar os adultos trabalharem enquanto a criança com faixa presidencial fica em um canto brincando com os seus bonecos de G.I. Joe.

A Próxima Vítima.mp4

Bolsonaro tem tratado a sua saúde e a saúde de seus subordinados como trata a Constituição nacional. Desde que voltou da sua viagem aos EUA, o presidente tem negado estar com a Covid-19. No mesmo período, todo o seu círculo próximo foi diagnosticado com a doença.

O presidente faz de conta que a doença não é grave, abusa de estatísticas e chama a epidemia de “fantasia”. Incentivou a manifestação golpista do último dia 15 sempre que possível e ainda deu as mãos para algumas centenas de pessoas que participaram dos atos em Brasília.

Mesmo sabendo que não é médico ou infectologista, contrariou as recomendações do próprio governo e se expôs a todo tipo de situação de risco. Tudo isso para desmoralizar Luiz Henrique Mandetta, que cometeu o crime de fazer exatamente aquilo que um ministro de Estado deve fazer.

Bolsonaro pode continuar a fazer o seu discurso para a sua claque de apoiadores sempre que considerar interessante. Mas, quando se trata de evitar que o Brasil vire uma nova Itália, é mais interessante liberar recursos para o ministério da Saúde e deixar Mandetta trabalhar normalmente.

Não fazer isso, no final do dia, certamente prejudicará a capacidade dos Bolsonaro de se perpetuarem no poder se um novo candidato, mais forte, saudável e democrata, aparecer por aí: não dá para se eleger outra vez se o seu público-alvo ficar doente e morrer, presidente.


Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

A Nova Era – semana #59-61: o sincericídio nosso de cada dia

O blog não foi afetado pelo COVID-19 (Coronavírus para os íntimos), mas os posts atrasaram. Felizmente o noticiário ajudou, então vamos de post triplo, ok? Ok.

Siga a leitura para ver como o Brasil saiu da ditadura, mas a ditadura não quer sair do Brasil.


The following takes place between fev-11 and mar-03


A reforma vem aí, olê, olê, olá

A proposta de reforma administrativa do governo federal (que quase foi deixada de lado na semana retrasada, após ter ficado para a semana anterior àquela) ficará para a semana após o Carnaval. Ou não. Depende do humor do Planalto.

Enquanto Paulo Guedes decide se abandona de vez ou não o cargo, o governo perde tempo precioso com a reforma administrativa: 2020 tem eleição e o calendário parlamentar promete ser menor do que a genitália do presidente dos EUA.

Essa é uma das duas reformas estruturais apontadas pelos economistas como as “ultimate bosses” para o país sair da crise (a outra é a reforma tributária). A ideia é mudar boa parte das carreiras do serviço público para diminuir o papel do Estado como um formador de desigualdades e reduzir os privilégios de alguns cargos.

Mas, ao que tudo indica, o governo continuará brincando de Roldão Arruda (ou Paulo Bonfá, a depender da idade em que o leitor nasceu) e ficará nesse eterno “fez que foi, não foi e acabou não fondo”.

Errado, errado, ele não está muito. Deixar a proposta nas mãos do Congresso reduz as chances de o governo ser associado a uma agenda que é vista como negativa por muitos brasileiros. Resta só combinar com os parlamentares para que eles lidem com esse ônus às suas carreiras políticas sozinhos, já que Bolsonaro está muito ocupado com as suas dores de cabeça para pensar em fazer política reformista em ano de eleições municipais.

Ma-ma-ta

O caso Wajngarten, pelo visto, dará em pizza. Por 4 votos a 2 (e sem que nenhum fato fosse investigado), a Comissão de Ética Pública da Presidência da República arquivou a denúncia de conflito de interesse contra o chefe da Secom. Agora, Wajngarten pode seguir no governo mesmo que seja sócio de uma empresa privada diretamente beneficiada com as suas ações.

Os contratos de Wajngarten, porém, seguem investigados pela Política Federal. As investigações pretendem identificar se os indícios de corrupção e peculato são verdadeiros. Enquanto isso, o presidente e a sua turma já articulam um novo nome para a presidência da comissão de ética. O motivo? O provável próximo ocupante da cadeira votou contra os interesses do Planalto.

Direitos humanos para humanos não direitos

Demorou alguns dias, mas a família Bolsonaro resolveu sair do luto e comentar a morte de seu amigo miliciano, Adriano Nóbrega. O presidente afirmou no sábado (15) que a homenagem prestada pelo seu filho F.B. em 2005 foi de sua iniciativa. Bolsonaro justificou-se apontando que Nóbrega era um herói na época (não era).

Em um impulso da valorização dos direitos humanos, valores tão pouco queridos pelo presidente, Bolsonaro também acusou a PM da Bahia de ter executado o ex-miliciano sumariamente. O governador do estado, Rui Costa, rebateu lembrando que o governo dele não mantém laços de amizade e não presta homenagens a bandidos, milicianos e procurados pela justiça. Também informou que até mesmo criminosos que sejam amigos da família presidencial podem morrer caso atirem contra a PM baiana.

Enquanto isso, no Twitter, F.B publicou um vídeo que, segundo ele, seria o da autópsia de Adriano Nóbrega (não era). O senador tentou culpar o PT pelo caso e apontou que a PM baiana torturou e executou o ex-miliciano (o que provavelmente é verdade). O filho do presidente não explicou, porém, de onde os seus valores humanitários surgiram.

Ainda no Twitter, Bolsonaro resolveu passar recibo e questionar a perícia dos telefones de Nóbrega. O presidente também avisou que fará uma perícia independente dos aparelhos. Não explicou, porém, de onde saiu a liberdade para executar o ato.

Falta a Flávio B., também, demonstrar por qual motivo ele manteve tantos parentes do seu herói trabalhando em seu gabinete. Seria um melhor investimento do seu tempo do que o que foi gasto tuitando sobre a possibilidade do corpo de Nóbrega ser cremado. Ou o tempo que o seu irmão direcionou para receber os seus ex-funcionários.

A reação dos governadores (e de Moro)

O suspiro humanitário do presidente e as insinuações feitas por ele e os seus filhos serviram para algo além da reafirmação dos péssimos valores da família. Um grupo de governadores, articulados por Wilson Witzel, divulgou uma carta criticando a postura de Bolsonaro. Até João #BolsoDória e Romeu “votem no Amoêdo ou no Bolsonaro” Zema entraram na história.

Em notícias relacionadas, Moro segue sendo o soldadinho de primeira mão de Bolsonaro. O ministro da Justiça disse que a polícia da Bahia precisa esclarecer o que houve durante a morte do amigo miliciano que é ligado ao filho do presidente. Em uma audiência pública na Câmara, Moro também provocou os parlamentares e lembrou que a PM baiana é governada pelo PT. Pelo visto, Sergio Moro quer ser confundido com Bolsonaro não só nos momentos de intimidade com a sua esposa.

Manda trocar a gravação da secretária eletrônica

Vamos ao troca troca de cadeiras das últimas semanas? Então vamos.

Casa Civil

Onyx Lorenzoni finalmente perdeu a Casa Civil. No seu lugar entrou o general Walter Souza Braga Netto.

Braga Neto tem 62 anos e ocupava o cargo de chefe do Estado-Maior do Exército. No seu currículo também há a intervenção militar na área de segurança pública do Rio de Janeiro.

Onyx partiu para o ministério da Cidadania, pasta até então ocupada pelo ministro Osmar Terra (aquele que queria obrigar a Fiocruz a não falar que as drogas não são o maior problema do país). Terra, por outro lado, quase ganhou uma embaixada de consolação, mas preferiu bater ponto na Câmara — lugar de onde jamais deveria ter saído.

Osmar Terra saiu do governo dias após frequentar o cinema com Michele Bolsonaro. Michele, aliás, agora baterá ponto mais próximo do presidente (e mais longe da antiga sala de Osmar Terra). A primeira dama terá um espaço para as suas ações e projetos dentro da biblioteca do Planalto.

As decisões tomadas nas últimas semanas fazem com que o governo federal deixe de ter civis em praticamente todos os principais cargos ministeriais mais próximos ao presidente. Em 1989, militares saíram do governo pela porta dos fundos. Agora, voltam para os círculos do poder com convite e carro oficial.

Bloco do olavismo cultural

Quem também andou perdendo poder nessa semana foi o olavista Filipe Martins. O assessor especial do presidente perdeu todos os seus poderes para o almirante Flávio Augusto Viana Rocha.

Martins e Eduardo Bolsonaro tentaram tratar a derrota como algo pouco importante no Twitter. Mas o fato é que a medida do presidente serviu para reduzir o poder de ação olavista às redes sociais. Ou seja, enquanto os militares cuidam da galinha, os seguidores do guru da Virgínia tratam de vender os ovos que ela choca.

Um projeto de Tenentismo para o século XXI

A semana #60 começou leve. Leve como é a notícia de um senador licenciado sendo baleado por milicianos em situação de criminho.

Cid Gomes esteve em Sobral na quarta-feira (19) para tentar acabar com a greve ilegal dos PMs do Ceará. Após partir para cima dos aquartelados com um trator, o irmão Gomes que não passou o segundo turno em Paris foi baleado com dois tiros de calibre .40.

A tensão entre os policiais e o governo iniciou-se no final de 2019, quando o governador Camilo Santana (PT) negociou um aumento salarial com as forças do segurança do estado. O pedido foi aceito pela maioria da corporação, com exceção de uma turma de radiciais que resolveram transformar o estado em uma zona de guerra para pressionar o governo por um aumento maior.

Os motins foram executados com direito a batalhões da PM fechados e veículos da PM tirados de circulação à força. A greve ilegal causou a abertura de inquérito a pelo menos 150 policiais e a prisão de alguns outros.

O governador do Ceará reagiu solicitando apoio do ministro Sergio Moro e lembrando à opinião pública do caráter político da ação dos milicianos que se amotinaram em quarteis. Após os milicianos iniciarem o seu movimento, a média de homicídios cearense ficou acima de 30 por dia. Antes era de oito.

Milicocracia

Ceará não é o único estado que corre o risco de ficar à mercê das forças de segurança com a anuência do presidente. Em Minas Gerais, Romeu Zema, do partido Novo, jogou os princípios do seu partido às favas e enviou para a Assembléia um reajuste salarial de 41,7%.

Assim como no estado nordestino, os PMs mineiros fizeram pressão por um aumento às vésperas do Carnaval. O “pedido” também teve uma ameaça de motim que, segundo consta, não teria repressão apoiada pelo poder Executivo. Mas, assim como foi o caso de Ceará, certamente teria o apoio de parlamentares ligados a pautas de segurança pública.

No nordeste há quem esteja disposto a resistir publicamente. Se em Minas Gerais as ameaças de milicianos são comentadas à boca miúda, no Twitter, Ciro Gomes manda avisar que o Ceará não é o Rio de Janeiro. Não por força de vontade de alguns, claro, que tratam o caso de Cid Gomes como legítima defesa.

Paraíba, Espírito Santo (aquele, do terror de 2017) e outros cinco estados estão diante de grande pressão por aumentos salariais em uma época em que governos mal pagam o papel higiênico utilizado para limpar as merdas que eles fazem. O que seria apenas um problema fiscal ganha um tom sombrio quando lembramos que há pouco interesse do governo federal em ir contra a sua maior base eleitoral.

Pois só o mais inocente acredita que a assinatura de um decreto de Garantia da Lei e da Ordem para o Ceará representa um compromisso do Planalto com algum governador que está com a corda, digo, o fuzil em seu pescoço. Não é o caso e os governadores sabem disso.

Se Sérgio Moro e Jair Bolsonaro seguirem adulando policial (e os governadores não aplicarem punições exemplares para os amotinados, como será feito no Ceará) o país corre um sério risco de ver um movimento tenentista para o século XXI que consiga mandar em todos os níveis federativos. O blog leu Tocqueville e sabe que uma tirania da maioria não é bem uma boa ideia. Especialmente após aquilo que aconteceu quando os últimos tenentistas não foram mantidos dentro de seus quartéis.

Os projetinhos de milicianos que se amotinam (ou ameaçam se amotinar) não estão sozinhos. Há alguém que bate ponto no Palácio do Planalto que faz parte de uma família que cresceu apoiada em cabos, sargentos e ex-membros do Bope que se converteram ao crime. Pouco a pouco a polícia se fortalece com um poder autônomo e independente, capaz de desviar dos controles democráticos e submeter governadores (a favor ou contra o governo federal) aos seus mandos e desmandos.

Tanque passa por cima de patinete com muita facilidade. Tiro de .40, também. É bom que os governadores tenham força para resistir contra as ações de quem está a um passo de virar criminoso para conseguir dinheiro e poder. Já basta o presidente testando os limites da democracia todos os dias.

Médias notas do Quinto dos Infernos

Brasil, um país de só alguns

“Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vamos importar menos, fazer substituição de importações, turismo. [Era] todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada”. Com essas palavras, o ministro Paulo Guedes resolveu comentar a desvalorização do dólar em 2020, algo que pode ter até razões estruturais.

Há um preconceito no Brasil, como afirmou Reinaldo Azevedo, que supera todos os outros. O [preconceito de classe](https://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldoazevedo/2020/02/empregadas-uni-vos-na-borrachada-da-luta-sem-classe.). Pobre, neste país, tem cheiro, cor e lugar.

Não é um Chanel N°5. Não é branco como a neve dos Alpes Suíços. Tão menos é nos aviões da American Airlines com destino ao Aeroporto Internacional de Orlando.

O que Guedes diz em palestras e nos seus momentos de sinceridade é apenas um reflexo sobre como o governo do qual ele faz parte pretende tratar aqueles que vivem com um salário mínimo. Os miseráveis, nessa administração, servem, no máximo, para serem massa de manobra populista.

Se necessário, ficarão a ver navios diante da possibilidade de receber o 13º do Bolsa Família em 2020 (ou das aposentadorias). Ou o próprio Bolsa Família. Tudo isso enquanto os indicadores sociais regridem em meio a confusões e ataques diretos a tudo aquilo que possa representar um direito social adquirido.

As portas, por outro lado, seguirão abertas para os empresários da Fiesp. Paulo Skaf tem o seu poder de lobby garantido na agenda de Guedes, de Tarcísio Freitas e outros dez ministros à sua escolha. Afinal, o andar de cima não pode viver sem aquela ajudinha do Estado brasileiro.

Ao ser questionado sobre as falas do seu subordinado, o presidente Bolsonaro afirmou que responde apenas pelos seus atos. Quem estivesse disposto a entender as falas equinas do seu subordinado deveria procurar no Posto Ipiranga mais próximo. Teria sido menos vergonhoso para o presidente afimar que Guedes estava apenas estimulando o turismo para a terra natal do cantor Roberto Carlos.

Pirocoptero na cara da moralidade da nação

Se ninguém sabe como uma CPI termina, todo mundo sabe que elas são dotadas de uma grande quantidade de baixaria. Pelo menos foi o que aconteceu na quarta-feira (12) durante o depoimento de Hans River.

River é ex-funcionário da Yacows, empresa de marketing digital acusada de realizar disparos de mensagens via WhatsApp nas eleições de 2018. Em seu depoimento, ele insinuou que a repórter Patrícia Campos Mello tentou trocar sexo por informações para a reportagem sobre o uso fraudulento de nomes e CPFs para o envio de mensagens pró-Bolsonaro.

Narrativa (fraudulenta) que foi prontamente divulgada pelas decadentes redes bolsonaristas. A corrente de notícias falsas veio com uma força que daria inveja ao petista mais engajado na natimorta rede de blogueiros progressistas criada pelos falecidos governos Lula&Dilma. Tudo isso com o apoio operacional dos filhos do presidente.

As reações ao depoimento criminoso e a abertura da manilha do inferno

O crime de River teve reações por toda a sociedade civil organizada que se preocupa com a democracia liberal. O que não é o caso de Bolsonaro, que aproveitou a mentira para surfar na onda do machismo e das piadas sem graça. Em entrevista a jornalistas, o presidente fez insinuações sexuais sobre Patrícia Campos Mello.

Já o presidente da CPMI, senador Angelo Coronel, afirmou que as mentiras serão verificadas. Rodrigo Maia, por outro lado, lembrou que sexismo e difamação devem “ser punidos com o rigor da lei“.

A relatora da CPMI, a deputada Lídice da Mata, acionou o Ministério Público para que River seja investigado pelas mentiras contadas durante seu depoimento (o que, novamente, é um crime). Na internet, um grupo de mulheres (mais de 2.500, para ser mais exato), assinou um manifesto a favor da jornalista.

Free press, what is it good for?

Esse não será o último ataque da família Bolsonaro à imprensa antes de 2022. Tão menos foi o primeiro que contou com o apoio de uma rede de divulgadores de mentiras e atrocidades.

O que não se pode garantir, infelizmente, é que o próximo movimento do Planalto será rebatido por pessoas que entendem muito bem o que é defender a imprensa livre. Não é de hoje que a ressaca dos ataques é acompanhada de muitas pessoas ofendidíssmas que o jornal que elas nunca gostaram emitiu uma opinião que elas não concordam.

Friendly reminder: defender a imprensa livre é defender a imprensa que fala diferente do que você pensa, mesmo que seja uma grande bosta.

Está tudo bem em Brasília

O Planalto andou perdendo poder para o Congresso. O Executivo fez um novo acordo com as casas legislativas sobre o remanejamento de recursos do Orçamento impositivo. O resumo da ópera: o governo federal terá menos força para deliberar sobre como as verbas serão utilizadas por senadores e deputados.

Paulo Guedes não gostou da ideia. O ministro, que até outro dia defendia que o Congresso cuidasse de todo o orçamento, pediu que Bolsonaro mantivesse o controle sobre R$ 30 bilhões das verbas públicas do país. Se o presidente seguir em frente, o preço da ação será elevado.

E não se trata apenas do valor que o Senado deve cobrar para manter parte do orçamento nas mãos do Planalto. Há de se considerar, também, o custo da própria confusão que os palacianos arrumam para si. O general Heleno, que era visto como força moderadora do governo (mas que no fundo é mais um radical não democrático), foi flagrado em uma transmissão oficial afirmando que o presidente e a sua turma não podem “aceitar esses caras chantagearem” o Executivo “o tempo todo. Foda-se!”

A origem do pelo em ovo

A briga tem um motivo bem interessante: dinheiro. Em 2019, com o apoio até mesmo do filho do presidente, o Congresso tornou as emendas de bancadas impositivas. Ou seja, assim como as emendas parlamentares individuais, elas seriam obrigatoriamente executadas pelo governo.

No mesmo ano, a Lei de Diretrizes orçamentárias (LDO) ampliou a impositividade para as emendas feitas pelo relator, com o Congresso estabelecendo a ordem do gasto. É daí que saíram os R$ 30 bilhões mencionados anteriormente. É daí, também, que saiu a fala do general Heleno e os ataques recentes ao Congresso.

O espírito da corrosão das instituições democráticas

Não é de hoje que as casas legislativas estão tomando mais controle sobre o orçamento. Boa parte desses avanços, por sinal, foi feito com o apoio da família Bolsonaro. Ou é mentira que eles apoiaram o enfraquecimento do controle do Planalto sobre os recursos públicos? Conferi aqui e a resposta tende a ser positiva. Positiva pra caralho.

É saudável, em um país que se diz uma república federativa, que os recursos sejam mais descentralizados e que o Congresso tenha mais força que o poder Executivo. Pelo menos essa é a opinião do blog (contrária a de outras pessoas, registre-se).

O papel das casas, desde que a separação de poderes começou a ser formulada, geralmente se dá assim. Se o governo fosse minimamente coerente e republicano, manteria a sua não oposição a tais medidas e focaria em coisas mais importantes do que enfraquecer a República.

República, pra que te quero?

Como se já não bastasse general que foi formado nos porões da ditadura atacando a separação entre poderes, Jair Bolsonaro também resolveu dar a sua contribuição e cometer mais um crime de responsabilidade. O presidente pode pedir música no Fantástico outra vez.

Utilizando o seu celular, o presidente disparou, na noite de domingo (01), um vídeo de tom messiânico convocando os seus apoiadores para uma manifestação contra o Legislativo e o STF. A mensagem afirma que “O Brasil é nosso, não dos políticos de sempre” e ainda utiliza uma música dos Titãs sem o apoio da banda. Tudo isso com a narração de gente com cargo comissionado (a peça foi produzida com dinheiro público?).

Da centro direita à centro esquerda, todo mundo resolveu criticar o presidente e apoiar a jornalista responsável pela notícia, Vera Magalhães. Assim como aconteceu com Patricia Campos Mellos, Vera foi atacada durante dias pela rede de apoio de Bolsonaro e teve dados pessoais expostos na rede. Houve até filho de presidente deixando o espírito golpista de fora.

Bolsonaro, após atacar os outros poderes republicanos, mandar a sua equipe se fazer de virgem em casa de tolerância e insistir que não foi ele o responsável pela mensagem publicizada por Vera Magalhães (foi sim) e que o vídeo é velho (não é não) passou a temer que viverá em um parlamentarismo branco. Opinião compartilhada pelo general Heleno, que afirmou no Twitter que as ações anteriormente aprovadas pelo chefe do Executivo “contrariam os preceitos de um regime presidencialista”.

Se Bolsonaro não tem a menor noção de como os seus posicionamentos são moldados pelo cargo que ele ocupa, talvez seja uma boa ideia largar o cinismo de lado e deixar Rodrigo Maia assumir o cargo de primeiro ministro da nação. O elefante da renúncia já foi colocado na meio da sala pelo próprio presidente. Agora é só assinar uma cartinha com a caneta Bic mais próxima.

O governo balança entre fazer política e atacar as instituições. Mas se os representantes do poder Legislativo tratarem a chantagem ao Congresso como coisa pouca, é melhor tomarem cuidado. Ficará difícil não considerar a narrativa de que eles estão apenas preocupados com a manutenção de seu poder como relativamente verdadeira. Mais ainda: se limites não forem colocados agora, o próximo ataque do presidente pode vir na forma de um tanque e um cabo.

A CNH de Moro já está habilitada para dirigir tanques. Maia e Alcolumbre querem contar com a sorte e a boa vontade alheia e a opinião pública até quando?

Toca pra Miami

Falando em alguém que não liga muito para esse papo de democracia, a conversa de boca fina sobre o futuro do ministro Guedes está cada vez menos baixa. Há quem diga que o seu prazo de validade está registrado para julho. Se até lá o todo poderoso da Economia não conseguir melhorar indicadores econômicos ou fazer passar reformas, poucas são as chances de que ele mantenha a sua cadeira.

O projeto de Eneas que se chama de presidente tem pressa. Para ele, não basta estruturar um partido novo antes de 2022. Também é necessário eleger, já em 2020, um grupo de apoiadores da sua legenda. Se o pessimismo econômico se tornar forte, é pouco provável que essa parte de seu projeto de poder tenha sucesso.

Mas Guedes não quer largar o osso facilmente. Tão menos deseja perder o seu poder. Talvez seja a hora de o ministro contratar uma empregada para lavar a sua própria roupa suja e ir cuidar de passar uma reforma administrativa ou, então, entregar um PIB de 2%. Bolsonaro pode não ter problema com ministro acusado de crime eleitoral, mas tem grande dificuldade em manter os que são mal vistos por grande parte de seus apoiadores.

Está tudo muito bem na República das Bananas

Há quem viva de autoengano e insista na ideia de que não há nada de estranho acontecendo por aí. Em um dia, um ministro avisa que lugar de pobre é longe do avião. No outro, outro funcionário de auto escalão diz que o poder Legislativo deve se curvar ao poder Executivo (tal qual Sergio Moro fez para o autoritarismo de Bolsonaro).

De manhã, o presidente ataca a imprensa com o apoio da sua claque de militantes. De tarde, o seu filho utiliza as redes sociais e a tribuna da Câmara para dar voz a mentiras contadas em depoimento. Enquanto isso, o ministério com um dos maiores orçamentos do país é gerenciado por um lunático que ignora a liturgia do seu cargo e o impacto que as suas ações trazem para todos os estudantes e pesquisadores do país.

Os grupos que se dizem democráticos ignoram a sua habilidade de pressionar a opinião pública contra os levantes autoritários do governo federal para ficarem remoendo rancor de ações feitas há cinco anos. Ou tratando quem se preocupa com a saúde das nossas instituições como alarmista. Depende da linha editorial do perfil da vez.

Não há democracia sem laços de afetividade. Não há instituição democrática que sobreviva a ataques se, aqueles que nelas acreditam, não se unem para defendê-las.

O Brasil já passou por muitos governos populistas que deixavam o seu autoritarismo escapar pelo ladrão. Se realmente desejamos sobreviver ao atual talvez seja a hora de largar as diferenças de lado e começar a trabalhar em um projeto para o país que consiga derrotar essa mistura de ideias ruins com sonhos horríveis antes que a gente se encontre em um revival da ditadura de Alberto Fujimori.

Não custa sonhar.


Este post foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Se algum erro foi parar na versão final, é só dar um alô no Twitter após compartilhar o link com os amigos.

A Nova Era – semana #58: o novo Febeapá

A morte do miliciano favorito da família Bolsonaro, a troca de cadeiras na PGR, o drift da economia e a chantagem do presidente.

Pegue o seu chapéu de alumínio e venha ler mais um resumo da semana (não se esquece de compartilhar com amigos, hein?).


The following takes place between fev-04 and fev-10


Mexe essa cadeira

Augusto Aras, o procurador-geral da República, resolveu fazer mudanças na Escola Superior do Ministério Público da União. O PGR ignorou normas internas, mudou o estatuto e interrompeu os mandatos em exercício de 16 conselheiros e coordenadores do órgão. Tudo isso sem aviso prévio.

A instituição de ensino tem como foco a profissionalização dos procuradores e servidores do MPU. Ela também atua na aplicação de um curso obrigatório para todos os novos procuradores. Já os membros do conselho deliberam sobre todas as questões acadêmicas, orçamentárias e administrativas da escola.

Ou Aras confia demais no próprio taco ou não deseja se reeleger para o cargo de PGR. A não ser, é claro, que o procurador tenha planos de mudar as regras relacionadas à sua permanência à frente do órgão. Aí podemos considerar essa pequena nota do noticiário como um treinamento do que está por vir.

Colocando uma roupa nova no pibinho

A produção industrial caiu em 2019. Comparado com 2018, houve um recuo de 1,1% na produtividade do setor. Entre as áreas que contribuíram para a primeira retração após dois anos de alta, está a de mineração (mas não apenas ela, vale destacar (está ruim para todo mundo)). Em notas não relacionadas, os economistas começaram a reduzir a projeção do PIB em 2020 (impulsionados pelos impactos do coronavírus na economia mundial e pelo cenário interno).

No meio tempo, o Banco Central reduziu os juros mais uma vez. A Selic passou a ter um valor nominal de 4,25% e real de 0,91%. O valor é o menor já registrado no Brasil pós-ditadura.

A motivação do banco é a baixa expectativa de inflação até 2022 e a necessidade de estimular a retomada da economia. Porém, o mesmo Copom avisa que há riscos de que o nível de juros possa elevar caso a inflação cresça. O documento também deixa claro que a economia está em sinal de recuperação (o que, para bom entendedor, não justificaria a queda dos juros).

Em outras palavras, como apontou a jornalista Miriam Leitão, o comunicado do BC “avisa que o país está se recuperando, mas a retomada pode ser menor, que a taxa de inflação está controlada até o fim do atual mandato, mas pode subir pelo estímulo dos juros baixos. Por fim, alertou que pode mudar de ideia, ou seja, voltar a cortar juros.

O Banco Central pratica abuso psicológico com a nação e o governo não faz nada!

Grande dia

Por 2 votos a 1, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro manteve o sigilo bancário e fiscal de Flávio Bolsonaro quebrado. Ainda há, no STF, um pedido do senador para que a investigação do MP-RJ sobre a (suposta) prática de rachadinha em seu gabinete seja suspensa.

Quem também andou tendo dias ruins foi Dudu Bolsonaro. O político foi (de novo) suspenso do PSL pela executiva do partido. A ação tem como objetivo manter a deputada e jornalista condenada por plágio Joice Hasselmann no cargo de líder da sigla. Na última vez que tal medida foi tomada, a Justiça revogou a suspensão de Eduardo e outros deputados bolsonaristas.

O meu chapéu de alumínio é tamanho 58, e o seu?

Adriano da Nóbrega, aquele ex-capitão do BOPE e suposto miliciano chefe do Escritório do Crime, foi morto pela política baiana em Esplanada, no interior da Bahia. Nóbrega, além das suspeitas de chefia de milícia, também era grande conhecido da família Bolsonaro. O ex-policial, que até mesmo homenagem e defesa já recebeu do clã político, também era acusado de estar envolvido na morte da ex-vereadora Marielle Franco.

Nóbrega foi morto no sítio de um político do PSL, o vereador Gilsinho da Dedé. O dono da propriedade tratou a presença de Nóbrega como invasão.

Segundo vizinhos, a ação da PM foi rápida. Adriano foi encontrado com uma pistola austríaca 9 mm e, segundo a PM, foi baleado após reagir com tiros contra a polícia em um ação que, apesar de sensível, não foi filmada. O repórter João Pinheiro Pitombo, porém, não encontrou indícios de um tiroteio no local (que está desprotegido contra invasões de terceiros após a ação do final de semana).

Não, sério, qual modelo de chapéu de alumínio você gosta?

Dono de um currículo invejável e um perfil macabro, Nóbrega suspeitava que estava próximo da morte. Sabia que a sua mente era dotada de grandes conhecimentos sobre as práticas ilegais de gente criminosa, que certamente desejava transformá-lo em arquivo queimado. E olha que nem estamos falando do suposto envolvimento do ex-policial no esquema de rachadinha que dizem ter ocorrido no gabinete de Flávio Bolsonaro.

As ligações estranhas de Nóbrega com os círculos do poder são múltiplas e podem ser conferidas aqui, nessa bela sequência de tweets, que elenca as estranhezas da morte do ex-policial e a sua rede social. Coisa fina. Em relação ao ocupante do Planalto e os seus filhos, Adriano ganhou defesa pública do presidente em 2005 e a mais alta honraria da Assembleia do Rio de seu filho mais velho.

Além disso, a mãe e a ex-esposa de Adriano trabalharam com F.B. quando ele ainda não era senador. Segundo investigações, ambas teriam repassado R$ 203 mil ao ex-assessor Fabrício Queiroz.

E as autoridades, hein?

Sergio Moro reagiu à ação indo ao Twitter fazer lobby pela volta das propagandas em programas infantis. Já Wilson Witzel elogiou a ação e afirmou que ela “obteve o resultado que se esperava“. O blog faz coro a José Cláudio Souza Alves: deslocar um monte de policial para uma ação que termina com a morte de alguém que sabe tantos segredos parece um péssimo uso de dinheiro público.

O completo abandono dos pobres de tão pretos e pretos de tão pobres

Desde que Bolsonaro chegou ao poder, o Bolsa Família sofreu o seu mais longo período de novos beneficiários. Não é como se o país estivesse em pujança econômica e a queda fosse fruto apenas do combate a fraudes. O presidente e a sua equipe tem feito de tudo para reduzir os benefícios, de cortes diretos no orçamento a tentativas de mudanças nos direitos de quem pode receber o benefício (ou simplesmente deixando a fila crescer mesmo).

A crueldade do governo colocou 1 milhão de pessoas na fila de espera para receber o benefício. A redução dos gastos com o programa atingiu os 200 municípios de menor renda no Brasil. O orçamento para 2020? Teve uma queda de R$ 3 bilhões.

A marca social da administração de Jair Bolsonaro, a seguir esse ritmo, será a da mamata pública em todos os níveis possíveis. Aqueles que mais precisam do governo, por outro lado, sequer terão o apoio necessário para comprar uma vara para aprenderem a pescar. Não será apenas em 2019 que Guedes deixará os miseráveis do Brasil sem um peixe para assar.

O governo, que acumula acusações de falta de transparência, não deve ter liberado facilmente os dados sobre os problemas para a Folha de S. Paulo, não se tiver seguido a norma utilizada com a repórter Marina Rossi, do El País. Até mesmo criticar os estragos que as ações de Bolsonaro tem causado no programa se tornou algo complexo: as explicações sobre o tamanho real da fila de pessoas que querem entrar no programa são vagas e imprecisas.

Sincericídio

A boca podre que chamamos de presidente afirmou, ao defender o péssimo programa de prevenção de gravidez precoce da ministra Damares Alves, que “uma pessoa com HIV, além de um problema sério para ela, é uma despesa para todos no Brasil.” A Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) criticou a “tentativa de justificar o injustificável” e afirmou que após dois dias o presidente provavelmente tentaria desdizer o seu show de “ódio e ignorância”.

Para a não surpresa de quem acompanha a relação de Bolsonaro com a mídia, a afirmação se comprovou verdadeira.

Quando a fala começou a ser criticada, o presidente culpou quem apenas informou o que foi dito. Em outra entrevista, Jair disse “eu falei: o que que faltou? Faltou uma mãe, uma avó que pudesse dar orientação para não começar a fazer sexo tão cedo. Qualquer pessoa com HIV é uma pessoa que, além do problema de saúde gravíssimo, que temos pena, é custoso para todo mundo.”

O custo, porém, é menor do que aquele direcionado para as pensões de filhas solteiras de militares que sempre foram defendidas por Bolsonaro. O programa de distribuição de remédios a portadores de HIV nacional, cria do FHC, é referência mundial. Gera um peso de 0,06% no orçamento da União. Não é nem troco de bala.

O presidente também afirmou que “vocês [jornalistas] focaram que o aidético é oneroso no Brasil. Estou levando porrada de tudo quanto é grupo de pessoas que têm este problema lamentavelmente”. Para além dos questionamentos levantados por Vera Magalhães, é interessante que Jair não só ignora que uma boa parcela dos casos de HIV recentes são causados por maridos que transam fora do relacionamento, como também trata como culpa das mães e avós a contaminação pelo vírus. Pai? Avô? Certamente tem como única responsabilidade bater no filho para ele não virar gay.

Em notas relacionadas, na última semana, a CNI contestou regra trabalhista que dá estabilidade no emprego a pessoas com HIV. A organização já prestou homenagem ao presidente e apoiou medidas importantes de seu governo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Peço perdão pelo vacilo

Lembra daquela reforma administrativa que o governo estava preparando para 2019, mas ficou para 2020? Aquela que acabaria com privilégios e diminuiria a capacidade do Estado ser um gerador de desigualdade? A grande reforma que daria fôlego fiscal ao governo no médio prazo?

Pode pegar a pá e começar a cavar a cova dela.

Paulo Guedes, o ministro da Economia que é um ótimo palestrante, resolveu chamar todos os servidores públicos de “parasitas”. Ignorando que o texto encontra grandes resistências antes mesmo de vir a tona, o ministro jogou tudo pelo ar (outra vez) causando atritos desnecessários e provocando quem estava calado. O cosplay de Fernando Collor em campanha presidencial pegou mal.

Pegou mal para um caralho alado.

Rodrigo Maia, um crítico da concentração de renda da elite do funcionalismo, saiu em defesa dos funcionários. Condenou o uso de “termos pejorativos” como forma de articulação política e lembrou que o funcionalismo público deve ser tratado com respeito.

Guedes pediu desculpas pelas palavras e falou que se expressou “muito mal”. O ministro não pode, porém, reclamar depois quando é chamado de tchuchuca por aí. Quem com ferro fere, deve aceitar que com ferro será ferido.

Ética, pra que te quero?

Fabio Wajngarten, que omitiu da Comissão de Ética Pública os dados sobre as atividades de sua empresa, será investigado pela Polícia Federal. O inquérito foi aberto a pedido do Ministério Público Federal (MPF) em Brasília. O foco é apurar se o chefe da Secom praticou corrupção passiva, peculato e advocacia administrativa.

Segundo a Advogacia-Geral da União, não há conflito de interesses na atuação de Wajngarten na Secom enquanto ele se mantém como sócio majoritário de uma empresa que tem contratos ativos com organizações que recebem dinheiro da Secom. A AGU também afirmou à Justiça Federal que não há conflito de interesses no favorecimento de algumas dessas empresas no repasse de verbas, como é o caso da agência Artplan.

Ao assumir o cargo, segundo a AGU, o secretário afirmou para a Comissão de Ética Pública da Presidência que não havia conflito de interesses entre a sua vida pública e privada. Porém, conforme apurou a Folha de S. Paulo, o documento de oito páginas não menciona, com detalhes, o ramo de atuação de suas empresas e o tipo de negócio que elas mantém. A lei de conflito de interesses (12.813/2031) obriga Wajngarten a fazer o que ele não fez.

Enquanto assessores avaliam como insustentável a posição do chefe da Secom, Bolsonaro resiste a retirá-lo do cargo. Segundo o presidente, Wajngarten “continua mais forte do que nunca“. O chefe da Secom está prestes a se tornar mais um dono de cargo comissionado que se mantém no cargo por pura birra do presidente.

O que o MEC fez de errado nessa semana

Vamos agora ao recap das merdas que o ministro da Educação andou aprontando. A cúpula do ministério quer mudar o sistema federal de avaliação da educação básica (o Saeb) para que ele seja aplicado até mesmo para crianças de 6 anos. A medida, assim como várias outras já feitas pelo órgão, não são apoiadas pelo corpo técnico do Inep e pode gerar um aumento substancial de gastos.

Os problemas para as crianças que dependem do governo vão além do possível gasto desnecessário para avaliar a educação pública. O discípulo de Olavo de Carvalho, Carlos Nadalim, que atua como secretário de Alfabetização do MEC, será o responsável por selecionar os livros comprados pelo governo em 2021 para os dois primeiros anos do ensino básico. Todos os critérios do edital terão como base os desejos e sonhos mais profundos do olavete.

Let the games begin

Enquanto Weintraub dá à educação nacional o mesmo tratamento que uma camisinha tem durante a gravação do baile de carnaval da Brasileirinhas, um grupo de parlamentares foi ao Supremo Tribunal Federal submeter um pedido de impeachment do ministro da Educação. A medida foi liderada pela <3 Tábata Amaral <3 e tem como base a ineficiência na gestão das políticas de alfabetização e as falhas durante o Enem. O pedido também elenca o não uso de R$ 1 bilhão resgatado pela Lava Jato e direcionado para a pasta e a quebra do princípio de impessoalidade que comentamos na semana passada.

Servirá como algo que vá além de mais um photo-op contra o ministro? Não. O blog continua achando divertido mais essa fritada pública contra Weintraub? Ô se acha.

Chantagem com cara de desafio

O governo federal resolveu ir atrás de governadores e fazer populismo em cima da situação fiscal alheia. Bolsonaro confrontou governadores avisando que zera o imposto federal sobre combustíveis se os chefes dos executivos estaduais zerarem o ICMS. Romeu Zema, governador do melhor estado da nação, lembrou que a coisa não funciona assim e que nem todo mundo tem espaço fiscal para ficar queimando receita.

A tensão sobre o imposto começou no domingo (2), quando Jair Bolsonaro anunciou um projeto para criar uma alíquota fixa para o ICMS dos combustíveis. Bolsonaro também reclamou que as suas medidas para reduzirem o custo do combustível não tiveram efeito no preço praticado nas bombas.

Balela.

Não há realidade em que o fim da tributação da gasolina possa gerar uma queda do seu preço de até 44%. Boa parte da diminuição seria diluída ao longo da cadeia, seja por recomposição de margem de lucro ou pura inflação. O valor cairia, com sorte, apenas nas áreas de elevada concorrência (ver qualquer obra de qualidade sobre monopólios).

Plantando populismo para colher ingratidão

O presidente precisa voltar a ser a pessoa que admite que conhece pouco ou quase nada sobre o sistema de preços e sobre economia como um todo. Antes que ele comece a fazer lobby pelo tabelamento do combustível, é importante lembrar o impacto que combustíveis em termos de externalidades negativas tem para toda a sociedade (de gastos com o SUS ao aquecimento global).

Quanto mais gasolina é queimada, mais poluído o ar fica. Ar mais poluído gera mais problemas respiratórios e sobrecarga em hospitais públicos. Além de contribuir para mudanças climáticas que tornarão o mundo inabitável a médio e longo prazo, claro.

Motivos para aumentar (ou manter o imposto da gasolina) nos níveis atuais não faltam. Para além das externalidades negativas, o combustível é uma mercadoria com demanda inelástica e com menos peso morto do que muitos outros tipos de impostos sobre o consumo.

O seu uso tende a ser maior por quem tem renda elevada do que nas classes mais pobres, o que dá um caráter progressivo a medidas focadas no aumento do imposto sobre esse tipo de mercadoria. É pouco provável que o presidente goste de ver menos carros nas ruas, mas o blog sempre apoiará menos carros nas ruas.

É muito provável, porém, que o presidente imbrochável mande um projeto para o Congresso mudando a taxação do ICMS, o que certamente não contribui para gerar menos animosidade entre governadores. O texto, que já está pronto, deve diminuir o valor do imposto em vários estados.

Enquanto faz os governadores de trouxas e jura ser ele o otário, Bolsonaro arruma brigas para o seu governo que ninguém pediu que fossem travadas. Tenta colocar os governadores contra a opinião pública e pede coisas impossíveis de serem feitas. A não ser, é claro, que ele queira jogar fora R$ 28 bilhões e obrigar vários governadores a não cumprirem a Lei de Responsabilidade Fiscal.

O governo do homem mediano

O governo dos homens medianos quase teve como responsável pelas novas passadas de vergonha da Secom na internet, um bolsonarista nada conservador nos costumes. Luiz Galeazzo, ou apenas @oiluiz, quase conseguiu uma mamata para chamar de sua. Quase, no caso, pois após a internet levantar todo o arquivo de impropérios que Luiz desferiu pela web (ou deixou acessível por aí) nos últimos anos, e o governo desistiu, por hora, de contratar os serviços de Luiz (outra vez).

Vai dia e vem dia e tudo indica que a melhor pessoa para ajudar no aparelhamento do governo e no uso de verbas públicas para favorecer amigos seja Xico Graziano.

Brincadeira.

O nome mais adequado certamente é o blogueiro Allan dos Santos. O responsável pelo site de notícias relativamente reais Terça Livre. Não é como se ele já não estivesse usando dinheiro da Secom para viver como um pecador e praticante da luxúria. Deus tá vendo (a gente também).

Explorando tudo até o fim dos tempos

Para fechar a semana de absurdos, o presidente enviou para o Congresso um projeto que libera a exploração das terras indígenas nacionais. As mudanças atenderão aos desejos mais primitivos de mineradoras, pecuaristas, plantadores de transgênicos e empreiteiras. Não há prazo para o projeto ser analisado, mas parlamentares já estão atuando para barrar a iniciativa diante das suas várias inconstitucionalidades.

O presidente também resolveu utilizar a sua caneta para tornar as suas férias mais agradáveis. Bolsonaro, que já foi multado por pescar em área de preservação ambiental, mudou a regra que trata sobre o tema e liberou a atividade. Na falta do que fazer, também excluiu integrantes da sociedade civil do conselho deliberativo de um fundo voltado para gerir ações socioambientais.

Os ataques são o puro suco de revanchismo que tem definido o governo até aqui. A investida e os ataques verbais de Bolsonaro se dão na mesma semana em que pesquisadores brasileiros publicaram um manifesto contra as políticas ambientais do seu governo. Divulgado pela revista científica Nature Ecology & Evolution, o artigo-manifesto teve apoio global.

O problema, porém, é que dependemos de um Congresso dominado por ruralistas para ter esse tipo de ideia morta. Já que nesse governo só se mata as boas medidas a favor do meio ambiente que ele mesmo anuncia.


Eu escrevi e revisei este texto com a ajuda da Ninna. A língua é viva e você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #57: os improváveis inúteis da República

O inferno astral de quem depende do MEC para definir o seu futuro, a agenda não liberal do governo, as preparações para 2022 e pequenas aulas de populismo. Tudo isso enquanto Lula dava um refresco para Bolsonaro e FHC dissertava sobre as suas angústias.

Não se esquece de compartilhar o post com a tia.


The following takes place between jan-28 and 03-fev


Matrioska do BNDES

A brochada pós unboxing do BNDES incomodou demais o presidente. Depois de anos caçando um fantasma que não existia, Bolsonaro resolveu criar outro factoide envolvendo o banco público. O problema agora são os R$ 6.000,00 por palavra que foram pagos para uma auditoria revelar o que todos já sabiam: não há uma infração legal nas operações de crédito para a JBS.

Gustavo Montezano corre sério risco de perder o cargo por cometer o crime de fazer o que Bolsonaro desejava e por ter aprovado um aditivo de R$ 13 milhões para a auditoria dos empréstimos. Há também a chance de a auditoria das operações da Odebrecht ficar a ver navios.

Montezano e Bolsonaro podem falar o que for, chorarem o quanto quiserem e gastarem todo o caixa do banco em busca de problemas nas suas operações de crédito subsidiado. Mas é pouco provável que o uso do banco de fomento para realizar fomento na economia acabe se transformando em acusação de ilegalidade. Pelo menos no que se refere às operações que o banco já abriu os dados após 2015.

Talvez seja a hora de Jair e sua turma investir em outros motivos para acusar a esquerda de ter destruído o país. Em algum momento o malabarismo retórico acaba cruzando com a realidade e, nessas horas, até mesmo o mais apaixonado fã do presidente pode perder a paciência com a criação de factoides.

Não custa lembrar: o aumento da transparência das operações do BNDES é algo que já é fato público desde 2015. A não existência da caixa preta do banco só não é mais velha do que os resultados desastrosos das operações por ele realizadas. Seria muito, portanto, pedir que o governo trate o tema com a seriedade necessária e pare de se esconder atrás de narrativas fraudulentas? Talvez. Mas sonhar é de graça e o travesseiro do blog é novinho.

Vem, 2022, vem nos fazer passar raiva

Após repetir impropérios e deixar o seu populismo autoritário à mostra, Lula resolveu usar o seu tempo livre para focar nas eleições de 2022 ao lado da presidente do PT, a senadora Gleisi Hoffmann. Crente de que o PT é o único capaz de ir para um segundo turno com Bolsonaro (e sabendo que Fernando Haddad não se elege sequer para síndico), o ex-presidente se reuniu com o governador maranhense Flávio Dino.

A reunião teve três objetivos práticos: foder com o centro liberal que está ensaiando um voo desde as eleições de 2018, trazer o governador de volta para o PT e afastar o comunista de Luciano Huck. Está errado o ex-presidente no que faz? Não muito. É engraçado ver o PT sendo incapaz de ser vice em uma campanha? Também.

Populismo 101

Enquanto o ministro da Educação acumulava motivos para ser demitido, o presidente resolveu ir atrás de quem fez algo que é legal, porém, imoral. O número dois da Casa Civil, Vicente Santini, resolveu utilizar um jato da FAB para um voo exclusivo à Índia (onde Bolsonaro passou parte dos últimos dias). O valor do passeio caiu na net e, bem, o pessoal não gostou muito.

Santini chegou ao governo por ser amigo da família Bolsonaro. O presidente, ao tomar conhecimento do frete, avisou que o número dois seria demitido do cargo (sem ao menos comunicar antecipadamente para o chefe da Casa Civil, Onix Lorenzoni, a sua ação). Mas, com o apelo dos filhos de Bolsonaro, a sua régua moral migrou para a mesma posição que avalia os voos de Ricardo Salles (do Meio Ambiente) em aviões da FAB e o ex-secretário-executivo foi realocado em um novo cargo.

Pegou mal? Pegou mal.

Vendo que até a deputada e jornalista condenada por plágio Joice Hasselmann conseguiu tirar proveito político da situação, o presidente mudou de ideia outra vez. Enquanto Carlos Bolsonaro exercia a sua fixação com o cu alheio, Bolsonaro anunciou que Santini seria exonerado do cargo, para a tristeza de Onyx, que ficou enfraquecido após o caso.

É divertido como a meritocracia funciona no governo. Banqueiro que afirma que não há caixa preta no BNDES sem precisar de um cheque de R$ 48 milhões? Demitido em uma manhã de sábado. Ministro que é incapaz de corrigir uma prova? Mantido no cargo. Chefe que se coloca em situação de improbidade administrativa? Ganha apoio público. Ministro que está lotado de acusação de corrupção? Faz photo-op em Minas Gerais.

Secretário-geral da Casa Civil que é pego gastando mais do que deveria, ainda que por meios legais? Muda de emprego e só cai quando a sua posição coloca o governo como motivo de troça de ex-aliado.

E agora para algo completamente não diferente

Falando em gente que é pega por aí em situação comprometedora, a Procuradoria da República solicitou à Política Federal a abertura de um inquérito criminal contra Fabio Wajngarten, chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom). A investigação deverá apurar as suspeitas de crimes de peculato, advocacia administrativa e corrupção.

Para quem perdeu os últimos posts do blog, eis um recap: Wajngarten é acusado de utilizar as verbas da Secom para favorecer empresas de comunicação simpáticas ao governo. Tudo isso enquanto os grupos de mídia mantinham contratos com a FW Comunicação e Marketing, empresa da qual é sócio. Além disso, o chefe da Secom também incluiu a verba de R$ 1,8 milhão para 12 emissoras religiosas desde que chegou ao cargo.

Parte do dinheiro foi utilizado, por exemplo, para financiar as propagandas a favor da reforma da Previdência. A verba da Secom engordou os bolsos de nomes como Ratinho e Ana Hickman. Teria sido mais legal pagar mais para o estagiário de social media não ficar passando vergonha online no débito e no crédito.

O presidente, que até agora não viu nada de errado nas acusações, terá que lidar, também, com o resultado de uma averiguação do Tribunal de Contas da União e a Comissão de Ética Pública da Presidência (onde Wajngarten mentiu). Também cairá no colo de Bolsonaro dois indicadores não muito agradáveis para quem insiste na narrativa de combate à corrupção como uma base de seu governo: desde o começo de 2019, o número de denúncias de infrações éticas e conflitos de interesse saltou de 803 casos (em 2018) para 1.340 (em 2019), enquanto a capacitação de servidores públicos em gestão da ética foi lecionada para 1.339 alunos (contra 3.348 no ano anterior).

A indignação dos não injustiçados

Circula a boca miúda que Fabio Wajngarten tem feito lobby junto a ministros do TCU para escapar de qualquer punição. O argumento de Wajngarten é que o responsável pelos contratos foi general Santa Cruz, que ocupou o seu cargo nos primeiros meses do governo Bolsonaro. Ele também aponta que, na sua gestão, os repasses de verbas para empresas de TV caíram (ainda que a Artplan, cliente da FW, tenha se tornado a empresa que mais recebe dinheiro da Secom).

Apoiando a tentativa de jogar o problema para os braços de quem está longe do Planalto estão o general Ramos e os filhos de Bolsonaro (que mantém simpatia por Wajngarten graças aos laços que ele construiu entre parte da comunidade judaica e Bolsonaro).

O chefe da Secom está louco para abafar de vez o caso antes da retomada dos trabalhos do legislativo e, assim, evitar uma CPI sobre o tema. Não custa lembrar: o Mensalão começou de forma semelhante e CPI todo mundo sabe como começa, mas não como termina.

Na volta a gente vende

Lembra quando Paulo Guedes afirmava que venderia até terreno na Lua se possível fosse? O blog lembra. Parece que foi ontem que o governo jurava ser absurdamente liberal na economia e pronto para fazer saldão de bens públicos.

Afinal de contas, privatizar empresa pública (e/ou suas subsidiárias) no Brasil não é muito complexo. Há inclusive lambança constitucional aprovada pelo STF que facilita o processo.

Outro target que o blog se lembra bem era o fim do déficit das contas públicas, que seria baseado em várias reformas e muita privatização. No caso das reformas, a única que já foi enviada para o Congresso e aprovada foi a da Previdência, que tem efeitos a médio e longo prazo. Já o saldão de bens públicos? Viverá mais uma narrativa do bem contra o mal, ao menos no que depender de Salim Mattar.

O secretário de vendas do governo federal foi ao Twitter dia desses avisar que vendeu uma casa reservada a ministros por R$ 10,8 milhões, reduzindo a meta de venda de ativos para um trilhão, novecentos e noventa e nove bilhões, novecentos e oitenta e nove milhões e duzentos mil reais. O valor adquirido pela venda do imóvel mal faz cócegas no déficit atual do governo, que beira R$ 100 bilhões.

Todas aquelas outras estatais que Mattar afirmou que privatizaria em 2019 (mas na verdade fará isso em 2020 ou 2021)? Aparentemente, não podem ser vendidas mesmo que Guedes desejasse. Afinal, o governo federal, órgão com a prerrogativa de enviar Projetos de Lei para o Congresso que alterem as leis existentes, não pode mudar as leis ordinárias em vigor. Ou pelo menos tentar isso enquanto se distrai colocando mais dinheiro em empresa pública.

Pobre coitado do secretário de Guedes, que está de mãos atadas diante da liberdade de fazer aquilo que o ministro prometeu fazer enquanto buscava apoio para chegar ao poder. O liberalismo do Ministério da Economia, ao que tudo indica, será tão duradouro quanto o tempo de ereção do público alvo do Boston Medical Group.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Até que o Moro não é tão ruim assim

No meio tempo em que não flerta com a cadeira de Jair Bolsonaro, Sergio Moro resolveu tentar abertamente uma vaguinha no STF. Há quem diga até que o juiz já disse ao presidente, enquanto faziam amor em um motel obscuro de Brasília, que ele deveria ser nomeado só para reduzir as dificuldades de Bolsonaro continuar no poder após 2022. Mas se Moro quer mesmo chegar lá, terá que fazer coisas que vão além do seu face lift.

Além do ex-juiz da Lava Jato, um dos nomes que já apareceram na imprensa como cotados ao cargo é Jorge de Oliveira. Também chamado de Jorginho, Oliveira tem 13 anos de formação em Direito e seis de OAB.

Se me prometerem uma nomeação que não envolva o Jorginho ou o Pato de Maricá, eu topo um impeachment a tempo da aposentadoria do próximo ministro. Só avisando.

Não me cutuca que eu te cutuco de volta

Enquanto o futuro partido do presidente utiliza imagens de Sergio Moro para divulgar a sua campanha de coleta de assinaturas de apoio à sua criação, o ministro da Justiça lançou uma lista com os criminosos mais procurados do país. Tem até miliciano na brincadeira.

Já o presidente Bolsonaro tuitou um texto de autoria do general Augusto Heleno em que o governo atual é visto como “o maior símbolo de combate à corrupção de que se tem notícia, nos 520 anos da história do Brasil“. Não muito tempo depois, Moro resolveu afirmar que o combate a corrupção “não é um projeto pessoal ou de governo, é um projeto de país“. Prioridades.

Moro deveria tomar mais cuidado caso queira ir para o STF. Em vez de cutucar o seu chefe, talvez seja interessante para o ministro manter o apoio da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef). A organização, ligada a Eduardo Bolsonaro, resolveu abrir uma consulta interna para avaliar a posição dos agentes de segurança pública sobre a criação de um ministério da Segurança Pública.

Pelo menos não é petista

Após o melhor pior Enem de todos os tempos e da última semana, as atenções dos jovens ficaram voltadas para as seleções do Sisu e do Prouni. Mas não para comemorar um aumento do número de pessoas em situação de vulnerabilidade social (ou pobres, como se diz aqui na terra do blog) nas universidades nacionais.

Mas antes de entender a sequência de desatinos que virou o Enem (e os processos de seleção que dele dependem), que teve até Lorenzony pedindo a Olavo de Carvalho a benção para ter o MEC, vamos ao recap sobre como chegamos até aqui:

  • assim que chegou ao poder, o governo Bolsonaro retirou todos os comunistas que passaram os últimos 20 anos executando o Enem dos seus cargos;
  • após isso, o Inep teve 4 diretores diferentes (e um longo período sem alguém ocupando a direção do órgão responsável pela prova, que é um dos maiores exames de acesso ao ensino superior do planeta).
  • além de perder os burocratas que já executavam a prova, o governo também ficou sem a gráfica responsável pelo exame nos últimos anos;
  • no seu lugar, entrou o segundo lugar no último edital, que não tinha experiência nesse tipo de serviço;
  • após a prova, o ministro foi ao Twitter informar que realizou o “melhor ENEM (sic) de todos os tempos“;
  • na hora de divulgar as notas, um grupo de alunos notou que a sua nota estava errada, algo que você pode ver o recap aqui;
  • o MEC negou que havia problema na correção das provas;
  • o MEC confirmou que houve um problema na correção das provas;
  • o MEC afirmou que as provas com problemas foram averiguadas e que o Sisu e o Prouni ocorreriam normalmente;
  • o Sisu e o Prouni não ocorreram normalmente.

Na segunda-feira (27) o MEC suspendeu as inscrições do Prouni. A justificativa era o bloqueio da exibição da nota do Sisu, que estava prevista para o mesmo dia. A proibição (da exibição das notas do Sisu) foi tomada na sexta-feira (24) pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região.

O juiz responsável pela medida solicitou ao MEC que apenas continuasse os processos de seleção após dar boas garantias de que os problemas encontrados tivessem sido solucionados. No dia seguinte, a medida foi revogada pelo Superior Tribunal de Justiça.

O MEC, porém, resolveu se adiantar ao STJ e publicar parte dos resultados extra-oficialmente na terça-feira (28). Procurado pelo O Globo, o ministério não informou por qual razão o vazamento ocorreu. Disse, porém, que os dados divulgados não correspondiam ao resultado final da seleção (correspondiam).

A segunda-feira também foi o dia em que a Defensoria Pública da União acionou a Justiça contra o ministro da Educação, Abraham Weintraub. O ministro, no final de semana anterior, atendeu ao pedido de um apoiador do governo e moveu os pauzinhos necessários para que a nota de sua filha fosse revisada. O mesmo ministro que, dias antes, bloqueou internauta não bolsonarista que cobrou uma boa gestão dos resultados do Enem. A acusação de violação do princípio de impessoalidade na administração pública é mais uma das várias que o governo já tinha recebido referentes à correção do Enem.

Na terça-feira, enquanto Weintraub conseguia manter um amplo apoio do governo, a Comissão de Ética emitiu uma advertência ao ministro. O motivo foi a comparação, em seu Twitter, dos ex-presidentes Lula e Dilma com substâncias entorpecentes.

No final da tarde de quarta-feira (29), a Folha de S. Paulo avisou que os resultados do Enem, um dos principais fatores que validam a prova como porta de entrada para as universidades brasileiras, não são confiáveis. Como o MEC não recalibrou os resultados de todos os estudantes após identificar as provas com problemas, os vestibulandos que tentaram a prova correm o risco de ficar com um resultado incorreto. O que não seria um problema grave se os vestibulares mais concorridos não fossem decididos nas casas decimais das notas de cada candidato.

Falando em resultados, a divulgação das notas não levou ao fim dos problemas de quem disputou o Sisu. Os candidatos, que já tinham enfrentado problemas na hora de fazer a seleção do curso, também lidaram com erros durante o cadastro nas listas de espera do exame. Um pobre coitado foi até parar em um curso que não tinha interesse.

Para quem teme que os casos ficarão sem penalização para os responsáveis (ou o responsável), pode ficar tranquilo. O presidente avisou no dia 28 que fará uma investigação para averiguar o que levou a tantos problemas. Seria interessante ver o governo evitando gastar outros R$ 48 milhões da União buscando um sabotador e direcionando as suas atenções para o responsável pela pasta da Educação. Quem sabe assim o real culpado não perde o cargo rapidamente.

Seguir as orientações de Rodrigo Maia pode ser uma ideia mais inteligente do que focar no que diz Eduardo Bolsonaro e a militância do governo. Não é a primeira vez que o presidente da Câmara acerta em suas falas. Não há investimento de longo prazo que dê certo em um país incapaz até de distribuir o número correto de vagas para candidatos com deficiência física durante o Sisu.

Desde que chegou ao poder, Weintraub gastou mais tempo fazendo gracinha no Twitter direcionado ódio ao pagador de impostos do que cuidando da pasta com um dos maiores orçamentos (e número de problemas) de Brasília. O ministro resolveu tratar a sua cadeira com a mesma mediocridade que tratou a sua vida acadêmica. O resultado, infelizmente, está afetando milhões de brasileiros (e não só o seu futuro) e complicará até mesmo a realização de conferências e as viagens de cientistas e pesquisadores brasileiros pelo mundo afora.

E os pesquisadores de humanas, claro. Pois é sempre um dia bom para ferrar com o pesquisador de humanas.

A resposta política chegará em breve. Nesta semana o Congresso voltou a trabalhar. A MP da carteirinha de estudante pode caducar por falta de articulação (ou boa vontade) dos parlamentares. No senado, já tem senador pedindo convocação de Weintraub, passo que também foi tomado por Tabata Amaral na Comissão de Educação. Se demorar muito, os políticos podem se unir e chamar o ministro para se explicar na frente do plenário.

O MEC vai precisar fazer um trabalho que vai muito além de um contrato de R$ 20 milhões para a nova assessoria de imprensa do órgão se quiser deixar de ouvir de Rodrigo Maia que o seu comandante representa a “bandeira do ódio”. Um caminho interessante seria mandar Weintraub de volta para São Paulo. Com sorte o nosso maior problema volta a ser a presença de criacionista na Capes.

O aspone mais caro do país

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, está se sagrando como o funcionário público mais inútil do país (e olha que a disputa é elevada). Até que a sua saída do cargo se torne uma realidade, o ministro terá como maior objetivo diário passar a mensagem presidencial ao Congresso e articular uma chapa para o poder executivo em sua terra natal. Ou voltar para a Câmara e retomar a sua posição de deputado irrelevante do baixo clero.

Onyx, após assumir a Casa Civil, já perdeu o Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) para a Economia, a articulação política e a Subchefia de Assuntos Jurídicos (SAJ). O Conselho da Amazônia também fugiu das suas mãos, sendo agora responsabilidade do vice-presidente, Hamilton Mourão.

Eu mencionei que o assessor de imprensa de Onyx também foi exonerado por Bolsonaro? Pois é.

O sulista pode se unir ao porta-voz da Presidência, o general Rêgo Barros, criar a SePone (Secretaria de Porra Nenhuma) e assim dedicarem os seus dias em Brasília à prática de gamão e bocha. Farão mais bem pelo país do que os esforçados ministros de outras áreas, como o do Meio Ambiente e o da Educação.


Eu escrevi e revisei este texto com a ajuda da Ninna. A língua é viva e você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #56: Sergio Moro strikes again

A neutralização de Sergio Moro, a passada de pano institucional para Sergio Moro e as ações políticas de Sergio Moro. Tudo isso e muito autoritarismo na semana #56 do governo.


The following takes place between jan-21 and jan-27


Keeping up with #VazaJato: quem quer rir tem que fazer rir

Saudade da #VazaJato? Pois quem andou lendo mais do que colunas de opinião do Intercept nessa semana teve o prazer de se alimentar de outro vazamento da série de reportagens. De acordo com o site, o procurador Deltan Dallagnol tentou influenciar a escolha de Ivan Monteiro para a presidência do Banco do Brasil pelo governo Bolsonaro.

A força-tarefa teria atuado junto com o site O Antagonista para divulgar documentos que inviabilizariam a indicação de Monteiro para o cargo. Ainda segundo a matéria, Monteiro era mal visto pelos procuradores e por Onyx Lorenzoni.

O texto também mostra em detalhes como os jornalistas de O Antagonista trabalhavam lado a lado com os procuradores. Em um trecho, há uma troca de mensagens entre Cláudio Dantas e os procuradores, em que o jornalista repassa um boato sobre a nora do ex-presidente Lula (o que teria levado a uma quebra de sigilo fiscal ilegal). Em outro, Diogo Mainardi deixa de publicar sobre o escândalo do Panamá Papers a pedido de Dallagnol.

Defensoria pública de Sergio Moro e associados

O Ministério Público Federal denunciou sete pessoas pelo envolvimento no roubo de mensagens de autoridades envolvidas (ou não) na #VazaJato. Entre os nomes, há o do jornalista Glenn Greenwald, que fundou o The Intercept Brasil. O crime cometido pelo jornalista, além do livre exercício da sua profissão, foi tomar o cuidado necessário para a proteção do sigilo de suas fontes.

Glenn não foi investigado e tão menos indiciado pela Polícia Federal. Em relatório publicado em dezembro de 2019, a PF afirmou que não existiam indícios de que o jornalista tinha cometido alguma ilegalidade. Greenwald, segundo o documento, adotou uma “postura cuidadosa e distante em relação à execução das invasões”.

Mesmo assim, o procurador Wellington Oliveira, sem provas, afirmou que o jornalista orientou o grupo a cometer crimes. A acusação pode ter sido realizada sem a abertura de um inquérito ou depoimento de Glenn. Se confirmado, será uma quebra das resoluções internas do próprio MPF.

Wellington Oliveira faz parte do grupo que também denunciou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por calúnia contra o ex-juiz Sergio Moro. Agora a justiça deve decidir se aceita ou não a denúncia inepta, arbitrária e abusiva.

Marco Aurélio Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal, pegou leve e chamou o ataque à imprensa de problemático e perigoso. O grupo de advogados criminalistas Prerrogativa foi direto ao ponto e afirmou que a denúncia “ataca violentamente a liberdade de imprensa” e é uma “escalada perigosa na ascensão do autoritarismo”. Já Glenn apontou para o óbvio e lembrou que o MPF só está fazendo o trabalho de defensoria de Sergio Moro e de Bolsonaro.

Falando em gente que sonha com uma escalada autoritária e um novo regime a-liberal no país, Bolsonaro também comentou o tema. Ironizou jornalistas perguntando se eles não acreditam na justiça e depois se fez de sonso quando apontaram que a ação foi do MPF. Ainda questionou se Glenn continuava morando no Brasil, pois jornalista que questiona o poder, para ele, tem dois caminhos: o exílio ou a cadeia.

A defesa de Glenn ultrapassou barreiras ideológicas e levantou até mesmo a voz de jornalista conservador da Fox News. Faz sentido. A escalada contra a imprensa por parte de órgãos do governo e do judiciário não começou ontem e não deve terminar amanhã.

O autoritarismo tupiniquim vai da direita chucra à esquerda que um dia ocupou o poder. Mas ele tem em Bolsonaro e nos lavajatistas a sua expressão mais forte desde o fim da ditadura civil-militar em 1985.

Democracia de Schrödinger

Como apontou o Gabriel Brasil no Twitter, a democracia não é uma questão de “existe” ou “não existe”. Há diferentes gradações para o nível de liberdade que cada regime dá aos seus cidadãos. No Brasil, por exemplo, ganhamos uma nota 6,86 em uma escala de 0 a 10.

A nota anterior do Democracy Index, feito pela The Economist, era 6,97. Índice pior do que o da Argentina, da Colômbia e da Bulgária. Isso nos classifica como uma “democracia falha”.

A classificação também é uma forma muito bonitinha de dizer que “estamos elegendo os governantes, mas todo dia tem favelado sendo julgado por fuzil de PM, judiciário validando autoritarismo e governantes não pensando duas vezes antes de atacar a imprensa livre”. Ou um Ministério Público Federal que criminaliza o jornalismo e a advogacia que faz críticas a autoridades. O leitor tem bastante exemplo para escolher qual item dar destaque.

Massagem de ego multimídia

O primeiro entrevistado do Roda Viva em 2020 foi Sergio Moro. Para entrevistar o ministro, o Roda Viva convidou um grande time de jornalistas. E o Felipe Moura Brasil.

O TL/DR da entrevista pode ser resumido assim: Moro fugiu de falar o que pensa sobre os corruptos do governo e passou pano para os ataques de Bolsonaro à imprensa. O ministro tergiversou sobre o ataque ao Porta dos Fundos, fez de conta que os indicadores negativos do governo causados pelo governo não existem e cantou méritos que não são deles. Também chamou a #VazaJato de “monte de bobajerada” e ainda confundiu o trabalho de jornalista com o de advogado de defesa.

Nas redes sociais teve bolsonarista doído com o fato de que a transmissão não mostrava os jornalistas tomando um chá com Moro. Aparentemente, ligaram no Roda Viva esperando uma retransmissão do Pânico na Rádio, programa que entrevistou o ministro na segunda-feira (27).

Ali a conversa foi mais tranquila e amigável. O ministro estava solto como arroz de mãe. Negou que tem pretensões políticas, fez piadas e, aos risos, deixou o seu autoritarismo à mostra.

Para ajudar nos afagos, a rádio escalou o jornalista chapa branca e pretenso boxeador Augusto Nunes. Estaria Felipe Moura ocupado no dia? São questões que ocuparam a mente do blog enquanto ouvia o ministro desenvolto na construção da sua plataforma política para 2022.

PGB – Procuradoria Geral dos Bolsonaro

A Procuradoria Geral da República já pode tirar o “da República” do seu nome e adicionar um “dos Bolsonaro” no lugar. Indo contra a postura independente que o próprio procurador afirmou que teria, o órgão já começou a trabalhar em favor dos interesses da família do presidente. Mais especificamente, de Flavio B.

Matéria do GloboNews apontou que a cúpula da PGR está realizando um pente fino no caso das rachadinhas. A ação teria ocorrido a pedido do presidente do STF após a defesa do senador solicitar o arquivamento da investigação. O levantamento seria para identificar qualquer tipo de vício nos trabalhos já realizados, o que pode colocar a Procuradoria a favor, contra ou parcialmente a favor do senador. A ver.

Para, para, para!

Falando em combate à corrupção, a Justiça do Rio de Janeiro paralisou as investigações contra o sócio de F. B. Alexandre Ferreira Dias Santini é um dos investigados pelo Ministério Público e solicitou um habeas corpus em relação à análise do que foi encontrado em sua residência. Após a decisão favorável, os procuradores terão que focar no material encontrado na loja de chocolates que teria sido usada para lavar R$ 1,6 milhão.

As instituições estão funcionando na República das Bananas

O ministro Luiz Fux, do STF, suspendeu, até segunda ordem, a implementação do juiz de garantias. Apesar de o projeto ter sido votado seguindo todos os ritos legais, sancionado por Jair Bolsonaro e validado pelo presidente da Corte, ministro Dias Toffoli, Fux achou que a lei ainda não estava com a sua constitucionalidade garantida. Será necessário, portanto, a confirmação por meio de decisão colegiada.

Após elogiar a decisão de Toffoli, Sergio Moro, elogiou a decisão de Fux. Maia, por outro lado, ironizou a medida e lembrou que o Brasil é bagunça mas há limites.

Como afirmou o parlamentar à Folha de S. Paulo, “O Brasil é de fato um país interessante. O vice-presidente do Supremo decide contra o presidente do próprio Supremo, e o ministro da Justiça elogia a decisão que é contra o presidente da República”.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

O caro namoro da namoradinha do Brasil

O “namoro” entre Regina Duarte e o governo Bolsonaro foi mantido com o dinheiro dos pagadores de impostos. As despesas da atriz e de seus assessores foi patrocinada pela administração pública. O custo, porém, é segredo, já que a pasta se recusa a informar exatamente o valor de cada hospedagem e passagem de avião que foi comprado nessa brincadeira.

Quem se assustou com a guinada daquela que fez atuações feministas no passado e ainda lutou contra a ditadura deveria olhar com mais atenção para o círculo social da atriz. O filho mais velho de Regina Duarte pode ser visto como um dos grandes responsáveis por colocar a atriz no “lado de lá“. Para além de empresário da própria mãe, ele é apoiador ferrenho do governo e de suas pautas.

Enquanto Regina Duarte não decide se larga ou não a Globo, a Secretaria Especial de Cultura ficará sob o comando da ex-secretária da Diversidade Cultural (e reverenda) Jane Silva. O convite, feito por Regina e o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi aceito por aquela que também é Presidente da empresa Associação Cristã de Homens e Mulheres de Negócios, um cargo que certamente deu a ela muito conhecimento sobre a gestão de projetos artísticos e culturais no país.

Enquanto isso, o edital fascistoide de Roberto Alvim foi suspenso. A iniciativa é um acordo tático entre o governo e Regina Duarte, que não quer demitir ou encerrar nada que já estava em execução antes de ela topar entrar na pasta.

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A nomeação de Regina Duarte para a Secretaria da Cultura desagradou mais gente além da ala do Olavismo Cultural do governo. Carlos Bolsonaro também ficou tristinho com o estágio da atriz global.

Os argumentos do Zero Dois? Regina seria uma perigosa comunista que não gosta tanto assim de Bolsonaro e de suas causas. Tudo por ter ido contra a censura da Ditadura e ser ligada à TV Globo.

O Bolsonaro filho, pelo visto, está duvidando da capacidade de governar do Bolsonaro pai. Afinal, Regina foi convidada por iniciativa de Jair, não por sugestão de subordinado. Talvez seja a hora de chamar de volta o “poço de desagregação com sinais de pertubação mental” e fazedor de edital proto-fascista Ricardo Alvim.

Brochou? Brochou

Um dos grandes discursos de Jair Bolsonaro, durante a campanha de 2018, era a abertura da já abertíssima “caixa-preta do BNDES”. Investindo no imaginário de que o banco público não tinha aberto os dados dos empréstimos mais polêmicos (abriu, a partir de 2015), o governo pagou R$ 48 milhões para auditarem os dados da instituição.

R$ 48 milhões que renderam oito páginas informando o que muitos já sabiam: estava tudo ok. Isso mesmo. O poder público usou R$ 3.000,00 por cada letra de um relatório que afirmava que as operações do banco estavam livres de problemas.

Bolsonaro, pouco antes do fechamento deste texto, afirmou que a auditoria estava errada. Alguém deveria avisar ao presidente que o dinheiro realiza vários sonhos, mas até mesmo o capitalismo encontra limites para a sua capacidade de inventar realidades paralelas.

Nadando contra a corrente

Começou a 50ª edição do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Como já apontado pelo blog e os jornalistas de plantão, Bolsonaro não estava, mas parte da sua equipe, sim. O Brasil pode não ter enviado o maior falador de bosta de Brasília, mas certamente garantiu a presença de bocas de esgoto no evento. A começar por Paulo Guedes.

Enquanto Trump criticava adolescente, o ministro da Economia afirmou que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza”. Guedes não se estendeu muito no assunto, mas deu a entender que, se todo mundo estivesse alimentado, não haveria destruição do meio ambiente.

O blog tem visto muito perfil de influencer, à direita e à esquerda, buscando ajudar gente de baixa renda a gerir melhor o próprio orçamento e até dando dicas de como usar o troco do cafezinho na Bovespa. O blog não se lembra, porém, do momento da história nacional em que a derrubada da floresta amazônica ficou tão acessível que até filho de empregada doméstica pode alugar o próprio trator para abrir mata. Foi no governo Lula ou no governo da Dilma isso?

A fala do ministro mostra, mais uma vez, que ele gastou muito mal o seu tempo na Universidade de Chicago. Não é de hoje que o governo foi avisado que o perfil do investidor começou a mudar.

A questão climática e o meio ambiente estão no centro das discussões globais e das preocupações de quem realmente pode ajudar o país a se reerguer. Democracia e estabilidade institucional valem mais agora do que nos tempos da Guerra Fria. O combate à desigualdade, também.

Talvez seja a hora de o ministro entrar em contato com as pessoas que lhe deram aula nos EUA e repaginar o seu liberalismo. Quem sabe assim ele não para de culpar os pobres pelos problemas causados pelos seus colegas de trabalho? Tem muita gente querendo investir em um Brasil diferente dessa aventura reacionária em que nos metemos.

Toca pro pai

Para atender às pressões externas e ainda podar o ministro do Meio Ambiente, o governo anunciou a criação do Conselho da Amazônia. Não se sabe muito bem o que ele será, porém. Até o momento, a ideia é deixar que Mourão, o inofensivo vice, faça a curadoria de medidas que possam ajudar a desenvolver a região sem que isso implique na queda de metade da floresta. No meio tempo, o governo ainda valorizará os seus generais (que, ideologias a parte, entendem muito mais da Amazônia do que o ministro do partido Novo).

Apertando as rédeas só por segurança

Na quarta-feira (22), Jair Bolsonaro começou a falar abertamente que estudava a possibilidade de recriar o Ministério da Segurança Pública. Disse que “Se for criado [o Ministério da Segurança], aí ele [Moro] fica na Justiça. É o que era inicialmente. Tanto é que, quando ele foi convidado, não existia ainda essa modulação de fundir com o Ministério da Segurança.”

Mentira. Em novembro de 2018 Bolsonaro disse que Moro seria responsável por um “superministério”, que unia as pastas da Justiça e da Segurança Pública. Ideia do próprio ex-juiz, aliás, que queria total liberdade para fazer o que lhe desse na telha.

A medida de Bolsonaro foi articulada para deixar o ministro cozinhando em banho maria e reafirmar a posição de dominação que o presidente tem sobre Moro. Apesar de ter sido vendido como um dos pilares do governo e formador da sua credibilidade, hoje, Sergio Moro não é ninguém sem um cargo público. Ok, ainda é alguém relevante, mas muito menos do que ele será se abandonar o poder nos próximos dois anos.

Bolsonaro é uma péssima pessoa. Mas não é alguém que mantém paranoias apenas com coisas que não existem. Pelo menos no caso de Sergio Moro, ele está totalmente certo em atacar o ministro.

O ex-juiz aponta como quarto colocado nas pesquisas de intenção de voto. Também é uma figura com mais respeito da população do que o próprio presidente. E para desespero do vizinho de suposto miliciano, Moro consegue votos da extrema-direita, da direita e até de centristas.

O timing de Bolsonaro é perfeito para reforçar a ideia de que o presidente age para lembrar ao seu subordinado que, no final do dia, ele é seu subordinado. O ministro que esteve no Pânico e no Roda viva era alguém moldado por um bom media training. Soube não responder sobre o futuro, rir quando necessário e marcar visões diferenciadas das que o presidente mantém quando é necessário. Até conta no Instagram Moro já fez!

Se o ministro quer realmente combater a corrupção e o crime organizado, vale a pena se manter no cargo e fazer o que for possível para evitar o desmembramento da sua pasta. A recriação do ministério da Segurança Pública tem efeitos que vão além da redução da relevância do ministro. Ao tirar a Polícia Federal dos bolsos de Moro, investigações de interesse do presidente e de sua família morreriam no dia seguinte.

Por hora, a ideia morreu. Bolsonaro afirmou, após ação de Augusto Heleno e Luiz Carlos Ramos, que tudo fica como está. Fica triste o ex-deputado Alberto Fraga, amigo do presidente e alguém que estava louco para tomar as rédeas das políticas de segurança pública do governo federal. Terá que gastar saliva criticando outros membros da administração pública caso queira outra boquinha.

Se tudo der errado, Bolsonaro pode mandar Sergio Moro para o STF no final do ano. Isso daria ao presidente ainda mais poder na hora de tentar a reeleição: com uma única canetada, Bolsonaro neutralizou o ministro e toda a oposição que não está na esquerda do debate político.

O mais incrível é que, mesmo com tudo isso acontecendo, a aprovação do governo segue crescendo e a oposição à esquerda segue muito perdida e trabalhando forte para a deixar a disputa em 2022 nas mãos das direitas.


Eu escrevi e revisei este texto. A língua é viva e você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

A Nova Era – semana #55: salto artístico na piscina do autoritarismo

Teste do pato, improbidade administrativa, ninhos de mafagafos e muito wishful thinking marcaram a última semana.

Vem comigo que eu te mostro (e não se esquece de compartilhar com aquela pessoa que você gosta).


The following takes place between jan-14 and jan-20


Secretaria de Comunicação e Improbidade Administrativa

A Folha de S. Paulo revelou que o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, pode ter cometido improbidade administrativa após entrar no cargo. Wajngarten recebeu, nos últimos meses, pagamentos de emissoras de TV e agências de publicidade por meio de uma empresa da qual ele é sócio, a FW Comunicação.

O conflito de interesses surge pelo fato de a Secom ser a área do governo que distribui todo o orçamento de propaganda do Planalto. Wajngarten ganhou o cargo em abril de 2019 e, desde então, tem aumentado a verba destinada para as emissoras amigas de Bolsonaro (enquanto reduz a de empresas de comunicação um pouco mais críticas).

As empresas, como apontou o jornal, tem contratos com o governo e com a FW comunicação. Uma delas, a agência de publicidade Artplan, recebeu R$ 70 milhões entre abril e dezembro de 2019. O valor é 36% maior do que o pago no mesmo período no ano anterior.

Além do aumento de verbas, Fabio Wajngarten teve 67 encontros oficiais com representantes e ex-clientes da sua empresa (após assumir o cargo). O transporte necessário para realizar pelo menos 20 reuniões foi custeado com dinheiro público. A matéria não revelou, porém, se o número dois da Secom, irmão do administrador da FW, participou das conversas.

Jair Bolsonaro e Wajngarten juram que não há nada de errado, mas a Comissão de Ética Pública da Presidência analisará as denúncias. O Ministério Público de Contas também entrou na brincadeira e fará uma revisão de verbas publicitárias do governo. No Legislativo, há gente pedindo a saída de Fabio Wajngarten da Secom.

No governo Dilma e no governo Lula, quando algo semelhante ocorreu, uma postura relativamente diferente foi adotada. Todo mundo teve que se afastar dos cargos que ocupavam na iniciativa privada. Muito provavelmente em função disso os aliados de Bolsonaro não conseguiram um parecer favorável ao chefe da Secom no TCU e na CGU.

As coisas na Venezuela estão ótimas

Enquanto não passava pano para o seu subordinado, Bolsonaro resolveu atacar, outra vez, de novo, novamente, a imprensa. Perguntado se sabia dos contratos assinados pela empresa de Wajngarten, respondeu com um presidencial “você está falando da tua mãe?”. Na mesma quinta-feira (16), o presidente já tinha dito que a Folha de S. Paulo “não tem moral para perguntar” sobre o caso e mandou uma repórter do jornal calar a boca.

Além de apontar que não estava no governo para fazer negócios, Wajngarten se defendeu afirmando que a matéria é absurda. Também cometeu gaslighting com a notícia, a chamando de desequilibrada, imparcial e injusta. No fim, deixou um recardo bombástico: “se determinados grupos de comunicação ou institutos de pesquisa tinham em mim a tentativa de construção de uma ponte de diálogo, essa ponte foi explodida hoje”.

A Secom, em nota, sugeriu que a Folha não está conformada com o sucesso (???) do governo Bolsonaro. Já o chefe de Wajngarten, o general Luiz Eduardo Ramos, afirmou que a notícia é “mais uma dessas maldades que se faz contra homens públicos“. Porém, há quem diga que ele se arrependeu da declaração pouco tempo depois.

Em 2019, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, o número de ofensas e tentativas de descredibilização subiu 54%. Mais de metade desse número veio direto do Planalto.

Não é de se assustar que as respostas tenham sido deste nível. Mas é de se assustar que alguém ainda diga que estamos vivendo a mais pura normalidade democrática.

Mexendo o pauzinho

Enquanto Wajngarten queima, Carlos Bolsonaro se articula. O Zero Dois estaria trabalhando para colocar o blogueiro e espalhador de notícias fantasiosas Allan dos Santos como secretário de Comunicação. Nada melhor do que criar um gabinete do ódio às claras e com o financiamento declarado no orçamento da União.

Garantindo o juiz das garantias

Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, deu mais seis meses para o juiz de garantias ser implementado. Ele também tornou a medida mais compacta: processos relativos à Lei Maria da Penha ou homicídios (que já têm as suas próprias regras) e ações da Justiça Eleitoral não precisarão do apoio de um magistrado.

O tema ainda será avaliado pelo plenário do Supremo. Enquanto novas mudanças não são feitas, o judiciário poderá aproveitar o tempo ganho para se preparar. Já bastam os nossos estudantes deixando tudo para a última hora.

O melhor pior Enem da história

Falando em estudantes, o melhor Enem da história, para variar, foi péssimo. Assim que os resultados saíram, um grupo de estudantes começou a relatar que a nota tinha tudo para estar errada. Apesar de terem acertado muitas questões do gabarito oficial, a nota de todos estava mais baixa do que o esperado.

Abraham Weintraub, o ministro da Educação, se fez de sonso o quanto pode. Postou video engraçadinho na internet e, inicialmente, afirmou que o problema na correção estava relacionado apenas a algumas provas feitas no segundo dia do exame. No dia seguinte, o MEC mudou a postura e afirmou que falhas no primeiro dia também seriam investigadas.

Para lidar com o problema, o calendário do Sisu foi ampliado (ainda que o Ministério Público Federal tenha solicitado a suspensão da abertura do processo seletivo até que tudo tenha sido realmente corrigido). Um e-mail foi criado para quem quisesse questionar a nota. O prazo para o envio das mensagens? Menos de 24 horas.

O ministério apontou que os problemas ocorreram por falha da gráfica responsável pela impressão das provas. Ela foi selecionada após a empresa que cuidou das provas pré-Bolsonaro falir. Ao que tudo indica, ter contratado alguém com zero experiência na área e ainda cometer uma série de presepadas ao longo do último ano não gera um bom resultado no final do dia.

O ministro poderia utilizar a lição e começar a fazer um trabalho mais eficaz. Ou ele pode, finalmente, sair do cargo. Vai que, em vez de um intelectual meia boca com ideias ruins, Bolsonaro resolve colocar alguém minimamente eficiente? Superar o status quo não é muito difícil.

Novamente tudo muito louco no ninho de mafagafo chamado DPVAT

A Folha de S. Paulo apontou que a seguradora Líder, que faz a cobrança do DPVAT, tem mutretas que vão além das citadas no post da última semana. A empresa realizou doações e atendeu a pedidos de políticos que podem ou não ter agido a favor de seus interesses.

Os parlamentares do PSB e do PSL foram responsáveis por suspender a CPI do DPVAT em 2016. Também recebeu dinheiro Andrea Neves, quando presidia o Servas. Os R$ 500 mil a ela repassados não tiveram o seu destino identificado, o que pode ou não indicar que criminhos ocorreram.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Que notícia ruim o ministério do Meio Ambiente trouxe essa semana

A área com alertas de desmatamento na Amazônia Legal aumentou 85,3% em 2019 em uma comparação com os dados do ano anterior. Os indicadores são do sistema Deter-B, que foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

O Núcleo obteve uma série de documentos que mostram o trabalho porco do Ministério do Meio Ambiente durante o desastre do vazamento de óleo no Nordeste em 2019.

A matéria mostra como o Ibama acompanhou o incidente, alertou a equipe de Salles sobre os problemas encontrados e avisou que, com o contingente reduzido, pouco poderia ser feito. As 450 páginas cobrem o descaso do ministro entre 2 de setembro e 4 de outubro.

A incapacidade do governo em colocar pessoas eficientes em cargos de confiança é quase tão incrível quanto o empenho de cada uma em ser péssima no que faz.

Wishful thinking liberal

O governo resolveu começar o ano brincando de liberalismo. Ou pelo menos tentando. O secretário especial de Desestatização, Desinvestimentos e Mercados do Ministério da Economia, Salim Mattar, anunciou que pretende arrecadar R$ 150 bilhões com a venda de ativos estatais.

Mais precisamente, 300 deles. Muitos dos quais já estão com a venda encaminhada desde os tempos de Michel Miguel. Parece um detalhe pequeno, mas não é, já que o governo tem tudo para acabar após aprovar os projetos do vampirão.

Sim, ativos. Pois este blog não cairá no canto de sereia de que a venda de subsidiária da Eletrobras (ou da Petrobras) é venda de estatal. Isso tem outro nome e está longe de ser privatização: é desinvestimento.

O mesmo vale para a venda de participações minoritárias em empresas (algo que aconteceu bastante nos governos Lula e Dilma por meio do FI-FGTS, da Caixa e do BB). Isso também não é privatizar (novamente, é desinvestimento). Mas o leitor pode ter certeza que o governo venderá para o bolsonarista este gato sarnento como se ele fosse lebre.

A agenda do governo também inclui 79 leilões em 2020. Há inclusive parcerias público-privadas para áreas como iluminação pública e tratamento de resíduos sólidos. O saneamento, que é básico, ficará em um único leilão.

Ficam de fora o Banco do Brasil, a Petrobras e a Caixa. Os Correios, talvez. Mais provavelmente ano que vem, quando o governo terminar a avaliação do projeto e decidir se vale a pena ou não deixar um monte de liberal de internet molhadinho.

Teste do pato

O que é que parece com um fascista, fala como um fascista e se porta como um fascista? Provavelmente o agora ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim.

Na noite do dia 16, Alvim publicou um vídeo em que ele resolveu anunciar o edital do Prêmio Nacional de Artes. O roteiro teve Wagner, cruz dupla na mesa e discurso de Joseph Goebbels sendo parafraseado.

Pegou mal.

Pegou muito mal.

Pegou tão mal que até o chefe do Olavismo Cultural fez de conta que não gostou.

Mas teve o apoio do governo. Horas antes, Alvim esteve em uma live com Jair Bolsonaro, na qual o presidente defendeu os filtros do edital e validou o ideal de cultura fascistoide de Alvim.

Pois não basta colocar todo mundo para ver secretário imitando nazifascista: também é importante ecoar e elogiar as suas ideias.

Alvim se defendeu afirmando que não queria ofender ninguém. Também que repudia qualquer regime totalitário (o que deixou Olavo de Carvalho muito triste). Faltou só fingir que não sabia o que estava fazendo.

Mas o fato é que a performance foi construída e ensaiada para ser aquilo que todo mundo disse que ela foi. Alvim sabia o que estava fazendo, acreditava no que estava falando e não se furtou a usar de forças demoníacas para imitar Joseph Goebbels. Até deixou isso registrado em e-mail.

O que só serviu para reforçar a ideia de que sim, o governo quer fazer uma política artística semelhante àquela adotada por Hitler. O “bombardeio de arte conservadora” tem que ser acompanhado de uma diplomacia nacionalista, revisionismo educacional e todo tipo de ideia reacionária que os rejeitados que governam o país escutarem de Olavo de Caralho.

E agora, José?

Entra no lugar (temporariamente) do cosplayer de Goebbels a atriz Regina Duarte. Ela fará um “período de teste” antes de decidir se ficará mesmo no cargo ou não. A Rede Globo, aliás, já deixou a atriz de aviso prévio. Os olavistas chiaram.

Enquanto isso, o Ministério Público Federal defendeu que os atos e nomeações (que incluem gente que gosta da Opus Dei e excluem funcionários de carreira críticos ao governo) feitos por Alvim sejam anulados. Uma ideia que, pelo menos até o final deste texto, não tinha se tornado realidade.

Mas podemos ficar tranquilos, pois está tudo normal por aqui.


Eu escrevi e revisei este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.